No livro A Construção do Imaginário Cyber, Fábio Fernandes relata a transformação da visão de futuro que tínhamos anteriormente: de carros voadores e robôs serviçais à comunicação em tempo real e à interconexão de agentes inteligentes. Ele nos fazer compreender de que forma essas mudanças ocorreram e quais são as tendentes alterações de visão para um futuro próximo.

Cheguei a esse livro, fruto da dissertação de mestrado do Fábio Fernandes, em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, após percorrer o seguinte trajeto:*
1 – Comecei a me interessar por ficção científica lendo alguns clássicos, mas com a atitude casual de quem está apenas aberta para o novo e não se considera fã com todos os privilégios outorgados pela posse de uma carteirinha.
2 – No meio da estrada, repleta de livros imperdíveis a serem lidos, séries e filmes a serem vistos, ganhei uma pulga virtual que saltou da Matrix e, de trás da orelha, configurou uma seção de F.A.Q., a saber:
— De onde vem a atitude ciborgue tão fresca (no melhor sentido) das personagens?
— De onde vem o espaço que se desdobra para abarcar a convivência – ainda não harmoniosa– entre homens e inteligências artificiais?
— Por que esse espaço me parece tão fantástico e tão comum, próximo do meu cotidiano pós-advento da Internet?
— De onde vem a estética construída com detalhes de quem sabe o que diz, embora também diga coisas que poderiam prescindir de tal detalhamento capaz de construir um mundo imerso numa cultura surpreendentemente atual?
3 – Andando mais um pouco a passos lentos – nota-se – encontrei em casa um exemplar de Neuromancer, livro de William Gibson publicado pela Aleph com apresentação e tradução não totalmente original de Alex Antunes. As perguntas começaram a ser respondidas e a Matrix teve seu potencial ampliado.
4 – Reencontrei o Fábio Fernandes no Orkut – onde mais? – e fiquei sabendo da publicação de A Construção do Imaginário Cyber- William Gibson, Criador da Cibercultura (2006, Editora Anhembi Morumbi). Fim do trajeto?
Não pretendo fazer um resumo do livro, nem colar aqui vários dos trechos mais interessantes.
Vale apenas dizer que a leitura é indicada por quem leu Neuromancer ou assistiu à trilogia dos irmãos Wachowski e saiu com pelo menos uma pergunta instigante. Indico também para quem quer entender um pouco mais o mundo em que nos metemos, no qual o que era chamado de virtual ganha cada vez mais status de real, uma vez que se compreende o alcance das relações humanas pós-modernas. Indico ainda para quem se interessa por moda (como esta que vos tecla), desviando-se do amontoado de acessórios excessivos para vê-la como comunicação, troca imediata, expressão de negação ou aceitação de ofertas do mesmo mercado que criou bolsas da grife Chanel e esta calça jeans comprada num supermercado qualquer.
Bom, o fim do trajeto é este lugar, atrás do teclado, diante da tela, em que descubro ser uma ciborgue, um ser menos humano que muita I.A. por aí. Mesmo que o meu agora – devido ao meu ritmo lento? – esteja defasado em 24 anos em relação ao presente concebido por Gibson. Para mim e para muitos brasileiros, ele falava do futuro (meu primeiro endereço de e-mail data de 1999), ainda que um futuro já mordendo o calcanhar, “extrapolando o presente”, nas palavras do próprio Fábio (acho, o livro ficou no porta-luvas, atual alternativa à cabeceira).
Quanto à resposta a todas as perguntas sobre a origem da cibercultura, o trajeto é, na verdade, menos linear que o do esboço acima, e é sempre válido voltar aos primórdios do tão distante século XX.
A perspectiva do livro é, para início de conversa e fim desta “opinião do leitor”, a do leitor de ficção científica –seja apaixonado pelo gênero ou adepto do estilo blasé diante das infindáveis novidades–, especialmente o que superou a fase de dar definições ao vasto universo de produção literária afastado em maior ou menos grau das manifestações mainstream.
* Caso você tenha percorrido um trajeto parecido, pode ler o livro e falar sobre ele também
>> ARGAMASSA GORDA – por Ludimila Hashimoto