O jornalista Antonio Carlos M. C. Costa publicou uma boa resenha do livro Quando as Bruxas Viajam na revista Carta Capital. Falando do mais recente lançamento do autor inglês no Brasil, Costa aproveita para apresentar Terry Pratchett para o público brasileiro, o comparando ao escritor satírico Jonathan Swift, autor de Viagens de Gulliver. Veja a seguir:
Todo leitor dotado de cultura, humor e algum conhecimento de contos de fada e fantasia corre sério risco de se viciar em Terry Pratchett. Cumpridos os pré-requisitos, pouco importa se o leitor odeia O Senhor dos Anéis, Conan, Wicca e vampiros ou adora tudo isso: os frouxos de riso estão garantidos.
Não é paródia escrachada ao estilo de O Fedor dos Anéis, de Henry Beard e Douglas Kenney, nem o humor frio e nonsense de O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, e seqüências. Pense-se antes numa atualização das sátiras de Jonathan Swift às histórias de utopias e terras exóticas nas Viagens de Gulliver, adicionando-se uma dose generosa de compreensão e simpatia pela condição humana.
Dos 36 volumes escritos da série Discworld, nome do mundo mítico-medieval-vitoriano que Pratchett pôs no lombo da tartaruga gigante A’tuin, 12 foram publicados no Brasil, o mais recente dos quais é Quando as Bruxas Viajam (Conrad, 320 págs., R$ 39,90). Não é o mais indicado para o recém-chegado, pois as primeiras páginas pressupõem algum conhecimento prévio da série, mas é um bom exemplo.
Três bruxas feiosas montam em suas vassouras para salvar Emberella, personagem de um famoso conto de fadas, das garras de uma terrível fada-madrinha. Dito assim, soa como Shrek, mas não é para crianças. Além de recorrer a humor adulto em vários dos sentidos dessa expressão (inclusive o popular, embora com sutileza), embute reflexões aproveitáveis sobre o lado negativo de se tentar impor modelos de felicidade.
As histórias são hilárias a não mais poder, mas os personagens de Pratchett são mais do que caricaturas. É possível se identificar com seus problemas, crenças e aflições e encontrar neles os contra-sensos da vida real. Por trás das máscaras cômicas, as personagens centrais têm vida, consistência e sentimentos com os quais é possível se identificar, às vezes até admirar. Seu mundo, por mágico e estranho que pareça, tem uma lógica própria e seus problemas são examinados, enfrentados e superados de maneira mais perspicaz e conseqüente do que em muito da literatura dita realista. Não se corre o risco de salvar o mundo jogando um anel em um vulcão.
Na mesma paródia se condensam a “Deusa Tríplice” do misticismo New Age – do qual as duas bruxas mais velhas zombam, mas do qual a terceira é uma ingênua devota –, o folclore europeu e tropical, o tradicionalismo da Inglaterra rural e o provincianismo do turista britânico no exterior, certo de que tudo que não se pauta por seus costumes é pervertido, perspectiva repugnante para uma e fascinante para outra.
Se o leitor nunca se perguntou sobre o que uma bruxa européia tradicional teria a dizer a uma mãe-de-santo vudu, Pratchett responde assim mesmo. A órfã não habita um reino de contos de fada qualquer, mas uma mistura de Disneyworld com New Orleans e Haiti, com direito a pântanos, cozinha cajun e zumbis. Para quem gosta de caçar alusões e citações, é um prato cheio, como toda a série. Pelo caminho são encontrados e devidamente satirizados clichês tolkienianos, Lobsang Rampa, vampiros, turismo, barcas do Mississippi e Oz, tudo sem quebrar a lógica interna do mundo de Pratchett.
Infelizmente, algo da graça se perde na edição brasileira. Nem sempre há como evitar, mas a série mereceria uma tradução mais competente e inspirada. Por outro lado, desvendar a intenção do autor por trás da versão desajeitada talvez proporcione, para quem sabe inglês, uma camada extra de humor.
O realmente lamentável é que o autor, de 60 anos, foi diagnosticado, em 2007, com uma forma precoce do mal de Alzheimer, que pode dar um fim prematuro à sua brilhante carreira. Somando os títulos de Discworld e outros livros adultos e infantis, Pratchett vendeu 55 milhões de exemplares em 33 línguas. Em sua pátria, só J. K. Rowling é mais vendida, sem o merecer – e sem conseguir superá-lo no ranking dos autores mais roubados das livrarias britânicas.
>> CARTA CAPITAL – por Antonio Carlos M. C. Costa – 23/05/2008