A GUEIXA TECNOLÓGICA


Há um bom tempo, lembro-me de ter acompanhado um documentário sobre o Japão, sua cultura milenar e a realidade tecnológica. Entre gueixas e fábricas computadorizadas, que mais pareciam cenário de ficção do século 30, um comentário me chamou atenção: “Tóquio é um ótimo lugar, desde que você não seja uma mulher.”

Nenhuma outra nação, sem sombra de dúvida, possui em sua realidade um “mix” cultural tão chocante, inovador e contraditório quanto o Japão. Os valores e costumes de uma cultura milenar batem de frente com as tendências e modos de vida das novas gerações criadas em meio às tecnologias de ponta e à pressão da cultura estrangeira.

São contradições que fazem parte do cotidiano de qualquer cidadão nipônico. Nesse contexto, o papel da mulher japonesa, onde o novo e o velho estão sempre presentes, é uma das mais fascinantes, confusas e interessantes dessas contradições: uma sociedade fundamentalmente patriarcal e machista onde o ideal de mulher é aquela figura submissa e delicada, sujeita aos caprichos de seus pais e maridos.

Porém, o que se vê crescer em suas ruas é uma legião de garotas que inovam o mundo da moda e da beleza quebrando barreiras e padrões, criando novas tendências e mostrando uma nova face de mulheres mais seguras que pouco a pouco se libertam de aparências impostas ou pré-definidas.

Passando pelas “tribos” das doces Lolitas às assombrosas Gonguro e à inocência sexy das Kogal, a busca por uma beleza mais ocidentalizada foi e é moda por aquelas bandas, todas ajudando a provar que uma nova mentalidade está se formando por lá.

Ainda que em muitas empresas, na maioria das vezes, se paguem salários inferiores às mulheres, mesmo quando estas realizam os mesmo trabalhos dos seus colegas do sexo masculino, elas continuam na luta por seus direitos e um lugar ao Sol Nascente.

Nas páginas e nas telas
Como isso se reflete no mundo dos mangás e animês, entre muitos dos outros meios de entretenimentos que surgiram no Japão, e hoje são populares em todo mundo?

Muitos ainda se limitam a encarar as personagens femininas como “as pessoas por trás dos peitos”, limitando a participação das garotas ao elemento frágil, onde sua função é “embelezar” a cena e ser salva pelo herói. Um grande engano daqueles que não conseguem perceber a força e a motivação dessas personagens, com personalidades profundas e trabalhadas, que não apelam somente para os dotes físicos, mas para seu carisma e história, enriquecendo tramas e enredos que movem multidões de fãs.

O que seria de “Evangelion” (cujo mangá é lançado por aqui pela editora Conrad) sem a tempestuosa Asuka, que apesar de toda pose esconde um passado cheio de ressentimentos, carência e solidão, rendendo angustiantes e profundas seqüências? Isso sem contar o ícone desta série, a introspectiva Rei Ayanami que, a despeito do fato de sua personalidade calada ter se tornado coqueluche dos fãs orientais, é a chave de todos os mistérios da série e envolve o público justamente por sua falta de sentimentos e expressões, deixando o telespectador (ou leitor) preso, tentando preencher o vazio de sua personalidade.

Já na “vida real”, onde profissionais se dedicam para criar e narrar essas histórias, as artistas japonesas também mostram seu talento, superando qualquer classificação de gênero, e arrebanham fãs de ambos os sexos, no mundo inteiro.

Rumiko Takahashi é, sem dúvida, o máximo exemplo disso. Uma das personalidades mais ricas do Japão, essa mangaká (desenhista de mangá) é conhecida por suas tramas, em sua maioria composta de comédias românticas com elencos inesquecíveis, absurdamente populares e estilosos. Por aqui, os fãs podem acompanhar alguns dos seus mais famosos trabalhos, como a série de animê “Ranma ½”, onde um jovem artista marcial é amaldiçoado a se tornar mulher toda vez que se molha com água fria — exibido pela Play TV. Enquanto, nas bancas de revistas e pela editora JBC, os fãs aguardam mês a mês pela saga de “InuYasha”, um meio humano e demônio, e Kagone, uma colegial que vai parar no período do Japão feudal, na busca pelos pedaços de um colar lendário chamado “Jóia Das Quatro Almas”.

Falando em nomes famoso, temos o grupo CLAMP (que possui diversos títulos disponíveis no Brasil ao exemplo de “Sakura Card Captors” e “X/1999”, duas de suas obras mais famosas), formado por quatro mulheres que começaram no mercado Japonês produzindo fanzines e hoje são uma das principais referências quando o assunto é “mangá feito por mulheres”. Embora suas obras se destaquem pelo caprichosos traço e delicadeza de se contar histórias, seus trabalhos são apreciados por ambos os sexos.

Outra artista que rompeu barreiras foi Hiromu Arakawa, criadora de uma das séries mais populares dos últimos anos, “FullMetal Alchemist”, também publicado aqui pela editora JBC. Numa trama complexa, unindo ciência e alquimia, guerras e a busca de dois irmãos para resgatarem seus corpos, após uma trágica experiência ao tentarem ressuscitar sua mãe, Hiromu mescla humor e drama com maestria.

São estes personagens que ao juntar horror e inocência rompem todas as barreiras culturais e lutam por seus sonhos e objetivos, assim como fazem as próprias mulheres dentro e fora do mundo dos animês e mangás.
>> ANIME PRÓ – por Lily Carroll e Amaruk Seta