Sinopse: Genly Ai é um enviado de Ekumen, uma federação de planetas, ao gélido planeta Gethen. Sua missão é conseguir que o planeta se una à coalizão galáctica. Therem Estraven, uma espécie de primeiro-ministro de Gethen, é a pessoa que fará a comunicação entre o governante e a federação. Contudo, o emissário é colocado em xeque, devido as suas crenças e às diferenças culturais, físicas e políticas dos habitantes do Planeta Inverno.
“Toda ficção é metáfora. Ficção-científica é metáfora.”
Ursula K.Le Guin
A Mão Esquerda da Escuridão (Aleph, 296 pgs., R$ 42,00) é um livro espetacular pela riqueza da narrativa e pela complexidade das discussões inseridas na história. Trata-se de um dos mais importantes romances da década de 1960, vencedor de dois grandes prêmios: o Nebula em 1969 e o Hugo em 1970.
O romance de ficção-científica, de Ursula Kroeber Le Guin, possui uma qualidade única no gênero, usando a mitologia, a psicologia e a sociologia numa lúcida especulação sobre um mundo que recebe pela primeira vez a visita da humanidade milênios depois da colonização.
Os habitantes do Planeta Inverno, outrora humanos, desenvolveram modificações em sua estrutura sexual se tornando andróginos e podendo escolher em certas épocas – chamada de kémmer- os caracteres masculino ou feminino.
A autora é um dos poucos do gênero que obteve respeito da crítica literário fora da ficção-científica. Seu estilo narrativo e o uso, sobretudo, da FC como ferramenta especulativa são as características que a fizeram ganhar a consideração da crítica. Como na frase “Toda ficção é metáfora”, citada acima, onde Le Guin completa dizendo que a ficção-cientifica é o uso de novas metáforas, e seus romances são transposições dos problemas reais que permeiam nossa sociedade a mundos inimagináveis, convertidos em cenário de estudo para essas novas metáforas.
Graças provavelmente a acertada forma como é colocada os pontos de vistas dos dois personagens principais, A mão esquerda da escuridão é um romance vívido, cheio de contrastes. Le Guin lança os personagens Ai e Estraven a uma fuga em um mundo glacial, não fugindo de um antagonista, mas de uma situação estabelecida. Não há inimigos, mas sim a própria realidade de um planeta gélido, cujas nações usam e abusam do desconhecimento do visitante.
Durante a fuga dos personagens através dos desertos gelados do norte, a autora produz a compreensão mútua entre os dois protagonistas e o leitor, de que cada um é representante de seus respectivos modelos sociais.
O leitor acompanha, então, a travessia do enviado e do diplomata, as intrigas políticas, a distopia burocrática dos governos antagônicos, a luta pela sobrevivência em um ambiente tão inóspito e a inevitável aproximação entre os dois indivíduos e suas causas.
A abordagem da exímia escritora em dar uma nova perspectiva à divisão homem/mulher e ao instinto sexual é um interessante estudo metafórico de nossa sociedade. Uma narrativa com uma mensagem clara: a diferença entre os dois sexos só existe nos olhos daqueles que não distinguem o único ser que somos: humano.
A escritora norte-americana Ursula K. Le Guin é um dos maiores nomes da ficção científica mundial. Seus trabalhos já foram adaptados para a televisão, para o cinema e até mesmo para o universo da animação. Vencedora de mais de 50 prêmios literários, também é poetisa, ensaísta e autora de livros infantis. Além de A mão esquerda da escuridão, é conhecida por obras como Os despossuídos, o ciclo fantástico Terramar e o infanto-juvenil The farthest shore, além de ter sido indicada ao Pulitzer pelo livro de contos Searoad.
Nessa nova edição, ressaltemos o trabalho da editora Aleph em trazer esse clássico da FC. Bem diagramado, a capa em branco gelo, encanta, e a tradução dá os nuances que escaparam da antiga edição.
Uma narrativa magnífica, com uma linguagem expressiva, tão ampla que podemos dizer que foi forjada por uma mestra sensível. Como certo crítico diz em sua análise sobre a obra de Le Guin: um conto de fadas para adultos que ainda não deixaram de sonhar. Vale a pena ler. >> HOMEM NERD – por Cadorno Teles