“BORGES E OS ORANGOTANGOS ETERNOS”, DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

orangotangos_verissimoO segredo por trás das palavras
Talvez fosse melhor ficar quieto, deixar a página em branco e não correr o risco de causar mortes. Ao contrário do que muitos pensam, escrever não é uma atividade tão inofensiva quanto parece. Uma simples crítica pode despertar a inveja, o ressentimento intelectual, o medo, o ódio. Pior, o ato de juntar palavras pode revelar o nome secreto de Deus e invocar forças místicas capazes de destruir o mundo.

O romance Borges e os Orangotangos Eternos, de Luis Fernando Verissimo (Companhia das Letras, 133 págs.), começa com um crime. O assassinato do estudioso alemão Joachim Rotkopf na noite de abertura do congresso da Israfel Society em 1985, que reunia especialistas na obra de Edgard Allan Poe em Buenos Aires. O corpo de Rotkopf fora encontrado pelo narrador Vogelstein, um tradutor e professor de inglês de Porto Alegre, aficionado por literatura policial, profundo conhecedor da obra de Poe e do argentino Jorge Luis Borges.

Sabendo que a lista de suspeitos seria grande devido ao número de inimigos conquistados por Rotkopf e seu jeito truculento de fazer ameaças para desmascarar teorias de outros especialistas em Poe, a vítima antes de sucumbir ainda conseguiu deixar pistas (a posição do corpo e três cartas de baralho dispostas na mesa), propondo um jogo de análise dedutiva.

Como o único que vira a cena do crime antes dela ser modificada pelas tentativas de socorro, Vogelstein é convidado pelo criminalista Cuervo para ir à biblioteca de Borges e juntos tentarem desvendar o mistério. Desafiados pela realidade, os três se vêem como personagens com a missão de solucionar uma trama semelhante às histórias que leram e escreveram.

É o início de uma viagem pelo campo das idéias envolvendo a lógica de Poe, teorias sobre o espelho na literatura, estudos místicos de H.P. Lovecraft e John Dee sobre a existência de um nome secreto capaz de invocar forças ocultas destruidoras. Através das conversas entre os três, Verissimo explora as possibilidades dos intertextos e da metalinguagem.

Cria histórias dentro de histórias, mistura realidade com fantasia, usa fatos históricos como ficção e ficção como fato histórico, transformando o que seria um romance policial num maravilhoso jogo de referências que ultrapassa os limites do ficcional, invadindo o campo da resenha e da crítica. É um livro de mistério que vai além, discute filosofia e literatura num processo de auto-análise construído em cima da perspectiva objetiva de Cuervo e das possibilidades literárias de Vogelstein e Borges com um desses finais de reviravolta. Afinal, as palavras escondem segredos.
>> VACATUSSA – por Thiago Corrêa

TRECHO: “Temos o dom de colocar uma palavra depois da outra com coerência e criatividade, mas podemos estar servindo a uma coerência que desconhecemos e inventando verdades aterradoras. Escrevemos para recordar, mas as recordações podem ser de outros. Podemos estar criando universos, como o deus de Akhnaton, por distração. Podemos estar colocando monstros no mundo sem saber. E sem sair das nossas cadeiras.” (p. 66).

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