CEM ANOS DE SOLIDÃO, DE GABRIEL GARCÍA MARQUEZ

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No estilo de realismo fantástico, Cem Anos de Solidão é um pesado volume, com mais de 350 páginas, que cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez. Quinze anos após sua publicação, em 1982, Márquez ganhou o Prémio Nobel de Literatura.

 
“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Começa assim umas das experiências mais apaixonantes da literatura universal: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez – que escreveu a obra em menos de dois anos, mas antes de sentar-se à máquina demorou quinze ou dezassete anos pensando no livro. Só essa primeira frase levou mais ou menos três meses para ser escrita, pois para Gabo (apelido do autor entre amigos) a primeira frase deve ser o local “onde se resolve a maior parte dos problemas do livro, desde o tema até o estilo e o tom”.

Essa obra-prima da América Latina conta a saga de uma família fugitiva para o interior da Colômbia onde funda o vilarejo de Macondo. As gerações vão se sobrepondo e, quando percebemos, estamos acompanhando a história de uma estirpe: os Buendía. A casa aumenta de tamanho, às vezes progride, às vezes é abandonada mesmo com gente vivendo nela; assim como Macondo também se transforma, de vilarejo escuro a metrópole, de metrópole a lago, de lago a quase cidade-fantasma.

Cem Anos de Solidão dá ao leitor essa liberdade incomum. São tantos temas, tantas percepções do mundo e do humano, que muita gente termina o livro amando e sem entender o porquê, sem conseguir explicar a história ou apontar alguma moral. Sabe-se que são muitas personagens, uma extensa família que cria uma cidade no fim do mundo, e que coisas absurdas acontecem com eles. Há tanta euforia na linguagem, tanta vida, que uma leitura não basta para identificar a luz e a tormenta na qual cada alma ali está imersa. E nisso fica o sonho, uma leitura insaciável que nunca admite última página.

Criador e mestre do gênero realismo-fantástico (onde a única outra obra que possui qualidade em mesma voltagem e sem qualquer semelhança é sem dúvida As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino), Gabo nos oferece livros também excelentes como Do Amor e Outros Demônios (marcados por essa discrição em que a ironia mais absurda é colocada no papel), mas que sempre perderão um pouco para a obra-prima pela ausência dos inesquecíveis Buendía: personagens sísmicos e ensimesmados reunidos em situações extremas.

Um dos detalhes mais assombrosos sobre a criação de Cem Anos de Solidão é o fato de que toda a inspiração dele provém de Aracataca, cidade onde Gabo nasceu e viveu somente até os oito anos de idade. Naquela época, Gabriel cresceu com o mundo assombrado de dona Tranquilina, sua avó, que não fazia muita distinção entre os vivos e mortos, e “referia-se a coisas fantásticas como ordinários acontecimentos cotidianos”.

Ainda há pessoas que insistem em encontrar discurso político na obra de Márquez. “Eu só quis deixar um testemunho poético do mundo da minha infância, que transcorreu numa casa grande, muito triste, com uma irmã que comia terra e uma avó que adivinhava o futuro, e numerosos parentes de nomes iguais que nunca fizeram distinção entre a felicidade e a demência” desmistifica o próprio autor.

Esse testemunho poético, carregado de milhares de metáforas, não decepciona o leitor mais tradicional porque os acontecimentos e diálogos são a poesia em estado bruto, todo um encadeamento de emoções. O livro não tem nada a ver com estrofes desmanchadas linha após linha, primando por subjetividade e desprezando trama. Justamente a trama é genial, e Gabo escolhe as palavras mais retumbantes – da pétala ao palavrão, e essas duas nascem na mesma personagem. Nunca um ser em Macondo é só uma coisa. Mesmo os déspotas trazem contornos de andorinha.

Os tipos de solidão
A solidão da mãe. Do homem que enlouquece com sabedoria. Do viajante. Da adolescente molestada pela mágoa. Do poder. Da prostituta. Da empregada. De quem está morrendo aos poucos. Daquele que viu sozinho um extermínio de centenas de pessoas. O livro dá várias peles para o sentimento mais intrínseco no ser: a ausência de si. Mesmo aqueles que não fazem parte da família, mas que estão intimamente ligados a ela, partilham de seu destino: Melquíades, no arquétipo do velho sábio (explicitando sempre um pouco do imutável num lugar de inconstância) e Pilar Ternera, a mulher mais fiel de Macondo (embora puta). Nós estamos numa cidade, melhor, numa casa onde todos têm algo em comum, mas esse comum é exatamente o que não os comunica: a paixão – a incapacidade de amar, que desagua na solidão. Por isso o rabinho de porco: o amor é uma aberração num lugar onde tudo se consome na saliva e no sêmen. Mesmo o casal que dá o pontapé na história toda, José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán, está ligado não por amor, mas por “uma dor comum de consciência”, como diz o próprio Gabo no livro. São pequenas frases que carregam chaves fundamentais durante a trama e que passam despercebidas, assim como talvez passe despercebido ao leitor de primeira viagem que Amaranta desprezou todas as propostas de casamento porque na realidade desejava a irmã Rebeca (vide décimo primeiro capítulo), e aí pode nascer a resposta para um assassinato que nem Gabriel fez questão de elucidar.
>> ORGIA LITERARIA – por Enzo Potel

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