EDGAR ALLAN POE: OS MELHORES CONTOS QUE VOCÊ (PROVAVELMENTE) NUNCA LEU

poeResponda sem pensar: quais os contos mais famosos de Edgar Allan Poe? (Não vale ler o post abaixo). Ou, melhor: quais os contos de Edgar Allan Poe que você já leu?

Provavelmente os contos mais publicados no Brasil: além das histórias de Auguste Dupin, os contos de terror gótico como O Poço e o Pêndulo, O Barril de Amontillado, A Máscara da Morte Rubra ou Uma Descida ao Maelström. Contos que fizeram (e ainda fazem) a cabeça de milhões de leitores no mundo inteiro. Mas que estão longe de compor a maior parte da produção de Poe.

Estamos precisando ler no Brasil alguma coletânea com toda a produção ficcional em prosa de Poe. No mundo anglo-americano não vale: Poe aparentemente só perde para Shakespeare em termos de quantidade de coletâneas e antologias. A que estou usando para esta série de resenhas e comentários é The Complete Stories, da Everyman´s Library britânica.

É uma festa para os olhos. São 68 histórias no total, sendo que uma, The Narrative of Arthur Gordon Pym, é um romance (o único que Poe escreveu). 955 páginas com todos os contos de Poe.

Evidentemente (e infelizmente), não é possível resenhar todos. Mas, ao longo desta semana, vou comentar alguns dos mais interessantes – outra opção difícil, porque Poe pode ter tido uma vidinha miserável, mas com ele não tem conto ruim. Neste post, portanto, a idéia é dar uma pincelada nos contos que, até onde sei, não são republicados no Brasil há muito tempo – e que mereciam.

Por exemplo, temos as sátiras histórico-mitológicas. A Tale of Jerusalem e Four Beasts in One são contos ambientados no passado distante (curiosamente para os dias de hoje, ele fornece a datação judaica, e não a cristã, pois ambas as histórias se passam antes de Cristo). O primeiro é uma piada de péssimo gosto que romanos pregam em dois judeus; o segundo é a descrição de um rei-deus pagão da Síria que é simplesmente um “homo-camelopardo”, descrito com riqueza de detalhes, que é venerado por todos os seus súditos, escoiceados por ele sem piedade.

O interessante é que em nenhum momento Poe é venenoso ou agressivo contra seus personagens, mas mordaz e irônico, apontando em todos mais os seus defeitos do que qualidades. Apesar de escravagista, Poe não se mostra racista (não no sentido de considerar brancos superiores a negros), nem anti-semita (os judeus em seus contos não são inferiores a gentios, o que não quer dizer que ele não conte piadas sem medo de ofender este ou aquele grupo – afinal, o politicamente correto ainda não existia).

Mas Poe voltava sua metralhadora giratória para outros temas bem diferentes. Como, por exemplo, em Diddling, onde ele escreve um tratado explicando como ser malandro! O chamado Golpe do Vigário não está ali, mas em compensação os hoje clássicos “confidence games” são todos ensinados por ele no conto. E Philosophy of Furniture, em forma de artigo, onde ele afirma (ironicamente) como se pode “julgar” o temperamento de um povo, ou de um indivíduo, pela maneira como se mobilia uma casa.

E os hilários How to Write a Blackwood Article e Why The Little Frenchman Wears His Hand in a Sling? O primeiro é um show de pseudo-erudição, escrito por uma certa Signora Psyche Zenobia, mais conhecida como Suky Snobbs. Entre idas e vindas e muitas janelas abertas para mudança de assuntos, Suky Snobbs explica o que um autor precisa fazer para publicar seus textos numa “famosa” revista norte-americana. O segundo conto é um tour-de-force: escrito inteiramente em linguagem fonética cockney (ou algo aproximado do falar da classe operária do Reino Unido), é uma história contada em primeira pessoa por um irlandês de maus bofes que se mete numa briga com um gentilhomme francês e trata o sujeito como um cão fila. Falar mais do que isso estraga a história, mas vocês entenderam.

Aliás, com Poe é assim, principalmente com as histórias mais curtas. Descrever demais é correr o risco de contar a história inteira. Poe era um mestre não apenas do final-surpresa, mas também do começo-surpresa e até mesmo do meio-surpresa. Às vezes o fim do conto é abrupto e nos deixa querendo mais, mas quando o escritor é bom isso não importa. (James Joyce, com os contos de Dubliners, é outro belo exemplo de como um conto pode terminar em suspenso e valer pela beleza de suas palavras e tanto pelo que ficou nas entrelinhas quanto pelo que é escrito.)

The Sphinx e Von Kempelen and His Discovery, por outro lado, são contos que têm finais fechados, e engraçados. O primeiro é uma paródia dos próprios contos de horror de Poe, evocando uma imagem monstruosa que certamente deve ter ficado na cabeça de um certo H.P.Lovecraft, mas com uma virada final curta, grossa e totalmente anticlimática – o que é ótimo. A segunda história é escrita como uma notícia de jornal, e mostra o impacto da descoberta de um cientista alemão sobre o mundo – antecipando de certa maneira uma ficção científica que não descuida do caráter tecnológico mas volta seu olhar para as conseqüências sociais que a tecnologia (ou, no caso, uma invenção aparentemente simples) pode ter numa sociedade que já não se espanta tanto assim com “milagres”, mas quer saber o que vai ganhar com isso.

Vocês leram alguns desses contos? Se não leram, corram atrás; se já leram, leiam de novo urgentemente. Faz bem a leitores e a escritores.
>> PÓS-ÉSTRANHO – por Fábio Fernandes

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