Para muita gente, a literatura termina com a queda do Império Romano e só renasce no século XII com os trovadores, a filosofia escolástica e os Romances franceses. No entanto, entre estes dois períodos decorreram sete séculos onde a Europa assistiu a mudanças profundas em todos os campos, sem esquecer, claro, a literatura. Ignorar trabalhos como os de Boécio, Bede, Gregório de Tours ou os Eddas e as sagas islandesas é um erro crasso. Beowulf faz parte deste lote.
A primeira referência ao poema que se conhece é a da sua existência na biblioteca de um respeitado académico do século XVI, Laurence Nowell. Entretanto o manuscrito mudou várias vezes de mãos e acabou por ser salvo de um incêndio no século XVIII, altura em que foi transcrito e publicado. Durante vários anos o interesse por Beowulf foi puramente académico e centrou-se principalmente na sua vertente linguística e não na literária. Ou seja, várias gerações de estudantes das universidades inglesas estudaram-no não pelo valor do poema, mas pela mistura de dialectos do anglo-saxão em que está escrito. A mudança chegou em 1936, curiosamente pela mão de um linguista. J. R. R. Tolkien, professor de anglo-saxão em Oxford, publicou um ensaio, Beowulf: the Monsters and the Critics, onde realçou que os elementos fantásticos do poema (dragões, monstros e outros seres sobrenaturais que são o centro da narrativa) não deviam ser encarados como brincadeiras de crianças, mas sim como características inerentes ao poema, frutos da imaginação de um (ou vários, a discussão é semelhante à de Homero) grande escritor. Assim, Beowulf merece ser lido como uma obra de arte e não apenas como um documento histórico ou linguístico. Desde então o poema tem obtido uma maior aprovação dos leitores, facilitada pelo grande número de traduções disponíveis, entre as quais se inclui esta de Seamus Heaney, poeta e Nobel da literatura em 1995.
Mesmo considerando o ensaio de Tolkien e a devoção de alguns dos seus mais fervorosos leitores (e é só fazer uma pesquisa na Internet para o confirmar), é preciso dar razão aos críticos em alguns pontos. O principal problema de Beowulf é, talvez, o facto de pouco acontecer na história – ou seja, o herói faz pouco mais do que matar monstros. Hércules e Teseu também combatem com seres sobrenaturais, mas muitas outras coisas acontecem nas suas vidas, para além dos combates com a Hidra ou Proscuto. Com Beowulf é diferente. O herói chega à Dinamarca para matar Grendel (um monstro), participa num banquete, mata a mãe de Grendel (num épico combate aquático) e volta à sua terra. Eventualmente acaba por subir ao trono, reina durante cinquenta anos (dos quais praticamente nada nos é dito) e morre a matar um dragão. Mas é talvez por esta monotonia aparente que o poema vale a pena. Como diz W. P. Ker, no seu The Dark Ages (New American Library, 1951), “Yet the three chief episodes are well wrought and well diversified; they are not repetitions, exactly; there is a change of temper between the wrestling with Grendel in the night at Heorot and the descent under the water to encounter Grendel’s Mother”. O autor consegue pegar nos clichés habituais das histórias épicas e de heróis e criar um poema coeso, que sobressai principalmente nos pequenos interlúdios entre cada combate. A humanidade e sinceridade das conversas entre o Beowulf e Hrothgar – o rei dos dinamarqueses –, a disputa com Unferth, que mais tarde ajuda o herói, ou os pequenos poemas e histórias que são cantados pelos bardos durante os banquetes, provam o poder do autor de Beowulf, não só como um compilador ou um narrador feitos épicos, mas também como um grande poeta e contador de histórias.

Para além da questão do enredo, é importante discutir a realidade histórica de
Beowulf, bem como uma curiosidade do poema (e que gera bastante discussão): o seu fundo cristão. São várias as referências à Bíblia (todas ao Antigo Testamento, o que não deixa de ser peculiar), o que levou alguns críticos a considerarem
Beowulf como uma cristianização de mitos dinamarqueses pagãos (alguns críticos mais audazes chegaram mesmo a identificar o herói principal com Jesus Cristo). O mais provável é que a narrativa e as personagens provenham de um fundo histórico verdadeiro (muitas das personagens aparecem em várias sagas) e tenham sido aliadas a mitos escandinavos, como as referências a Siegfried – um herói em várias obras medievais alemãs e islandesas, bem como no
Anel dos Nibelungos, de Wagner – ou os ritos fúnebres. Depois, foram provavelmente trazidas para as ilhas britânicas, onde passaram de boca em boca, sofrendo influências cristãs – mas nunca se tornando uma alegoria, um processo que não era comum na Idade Média. Algures entre os séculos VII e XI um (ou vários) poeta passou-o para o papel.
Penso que é importante perder algum tempo com a qualidade da tradução. Beowulf é hoje um texto canónico, sobejamente conhecido e comentado, pelo que a decisão do leitor vai passar não por uma alternativa, mas pela qualidade da tradução. Como referi, o poema está escrito em anglo-saxão, um estado primitivo da língua inglesa que, ao contrário do galaico-português, do italiano de Dante ou do alemão de Nibelungenlied, tem pouco ou nada a ver com o inglês moderno. Assim, Beowulf é hoje maioritariamente lido nas várias traduções existentes. Sendo um poema e ainda por cima escrito numa língua antiga, uma tradução envolve sérios problemas. A de Heaney é consistente e flui bem, principalmente para um poema. Mas para dar uma ideia, apresento uma tradução literal da abertura do poema e a de Heaney, para facilitar a comparação. O texto original diz:
Hwæt! Wē Gār‐Dena in geār‐dagum
þēod‐cyninga þrym gefrūnon,
hū þā æðelingas ellen fremedon.
É fácil notar que o poema não tem rima, mantendo o ritmo por aliteração. Para quem quiser constatar, deixo a nota de que o þ se lê como o th em think, ð como th em the e æ é pronunciado como o a em cat. O meu anglo-saxão é rudimentar, conhecendo apenas a gramática e algum vocabulário. Mas, tentando uma tradução literal do texto acima para português (a partir do glossário disponível em Beowulf: A Student Edition, Clarendon Press, 1994), ficaria qualquer coisa como:
Escutai! nós dos Dinamarqueses em tempos antigos
dos reis do povo ouvimos contar
como os príncipes bravos feitos fizeram.
É acima de tudo uma tentativa e ainda tem menos de poético do que de qualidade. A tradução de Seamus Heaney diz:
So. The Spear-Danes in days gone by
and the kings who ruled them had courage and greatness.
We have heard of those princes’ heroic campaigns.
Legível e poética, mas não totalmente fiel ao texto original – um pouco como o que fez Vasco Graça Moura com Dante e Rilke, mas com muito menos arcaísmos, o que facilita a leitura. Ainda assim, as dúvidas são fáceis de surgir, mesmo para quem não lê anglo-saxão. Afinal, o que quer dizer Hwæt? A tradução literal seria What. Mas em geral, tradutores ingleses utilizam Listen ou o arcaico Lo (e novamente estou a utilizar a informação disponível em Beowulf: A Student Edition). Eu optei por “Escutai”, Heaney por So. Segundo o próprio, “(…) in Hiberno-English Scullionspeak, the particle ‘so’ came naturally to the rescue, because in that idiom ‘so’ operates as an expression which obliterates all previous discourse and narrative, and at the same time functions as an exclamation calling for immediate attention. So, ‘so’ it was.” Tal como esta, a maioria das suas opções de tradução estão justificadas na longa introdução. Heaney tem ainda a particularidade de usar uma métrica diferente para alguns poemas e contos que intercalam a história original (o que não acontece no texto em anglo-saxão):
Hildeburh
had little cause
to credit the Jutes:
son and brother,
she lost them both
on the battlefield.
Infelizmente não existe qualquer tradução de Beowulf para português, talvez pela estranheza da língua ou pelo desinteresse habitual com que costuma ser olhada a literatura da Alta Idade Média. O mais parecido é uma tradução, publicada na Presença, do guião da adaptação para o cinema (e que tem pouco a ver com o original). É uma pena. Livros como Beowulf ou os Eddas são os pais de William Morris e avós de Tolkien e de toda a literatura fantástica, que tem hoje tanto sucesso junto do grande público, merecendo mesmo secções aparte nas grandes livrarias. Não os ler só pode ser uma desvantagem – tanto para os autores como para os leitores deste género. A edição que comentei apresenta o texto original em paralelo com a tradução (e, tanto quanto sei, é a única em que isso acontece) e pode ser facilmente adquirida online.
>> ORGIA LITERÁRIA – por João Pedro Ferrão
BEOWULF
Recriação em prosa do poema medieval inglês
O LIVRO EM PORTUGUÊS PELA EDITORA ARTES & OFÍCIOS
Primeiro poema épico da Europa ocidental, Beowulf é considerado, até hoje, uma das obras-primas da literatura inglesa. Escrito no dialeto anglo-saxão entre os anos 700 a 750 d.C., narra as aventuras do herói Beowulf, membro da tribo dos geats (localizada ao sul da Suécia), que, ao longo dos anos, expõe a sua vida para defender os valores da coragem e da lealdade, antecipando, assim, os rígidos códigos de honra que dominariam a Europa durante toda a Idade Média. Sua “gesta” heróica compõe-se de três desafios sangrentos, dos quais os dois primeiros ele buscará, apenas, como uma forma de satisfazer a sua sede de aventura, além de provar o valor do seu braço.
Um herói destemido o bastante para enfrentar três dos mais ferozes monstros criados pela imaginação humana em três duelos sucessivos e vertiginosos: eis o que o leitor encontrará nas páginas deste vibrante romance, adaptado do clássico poema medieval inglês Beowulf.
Considerado por J. R. R. Tolkien, e pela maioria dos amantes da literatura heróica, como uma das mais perfeitas e empolgantes criações do gênero, a saga de Beowulf, praticamente desconhecida no Brasil, vem sofrendo nos últimos anos uma revitalização intensa, graças a traduções e adaptações de todo o gênero, inclusive cinematográfica, com versão recente de grande sucesso já em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.
BEOWULF
Tradução de Ary Gonçalves Galvão
Beowulf (Hucitec, 150 págs.) é o mais antigo poema épico anônimo das línguas modernas da Europa. Seu enredo baseia-se em material folclórico de diversas origens, mas a visão primordial é a de uma sociedade anglo-saxônica cristalizada dos fins do século VIII. O poeta era cristão mas não havia esquecido ainda as lendas e os mitos do passado; seu mundo é o da vida palaciana, das cortes, dos grandes cavaleiros e guerreiros com suas leis e códigos rígidos de lealdade irrestrita à figura semidivina do rei que protegia seus cavaleiros, os quais, em troca, lutavam e morriam por seu suserano.