“O ESTRANHO CASO DE BENJAMIM BUTTON” É UM TEXTO DE FANTASIA?

Lugar, não há algum; vamos para trás e para a frente, e nenhum lugar existe.
— Santo Agostinho

Segundo F. Scott Fitzgerald, a história de um homem que nasce aos 80 anos e vai rejuvenescendo, , nasceu de uma observação de Mark Twain em que o escritor lamentava que a melhor parte da vida fosse ao início e a pior no fim.

Um nascimento pode ser uma coisa simples – uma afirmação produzida pelo hábito, mas não pelos factos. Em O Estranho Caso a primeira falha de lógica discursiva que encontramos é precisamente a que se refere ao parto da personagem principal do conto. Isto pode levar-nos a pensar algumas coisas.

Recordemos primeiro, que este título agora disponibilizado entre nós pela Editorial Presença (na esteira da oportunidade proporcionada pelo lançamento do filme nele vagamente baseado), foi publicado em 1921, numa 2ª colectânea de contos, e numa também segunda secção intitulada “Fantasias”. O livro recebeu dessa vez o título de Tales of The Jazz Age, e o seu autor, F. Scott Fitzgerald, já auferia das graças de uma certa fama literária.

A pergunta deve então ser feita: Será O Estranho Caso um texto de Fantasia? Talvez. A premissa que sustenta o conto, por todos já conhecida devido à publicidade e alcance do filme que ora se encontra nas salas de cinema por todo o mundo (e discutivelmente na corrida dos Óscares deste ano), é a da vida de um homem que procede de forma cronologicamente inversa às leis naturais que nos regem a todos: Benjamin Button nasce velho, e irá eclipsar-se (nunca poderemos de facto dizer que morre), após ser um bebé. Temos pois garantidamente uma premissa de contornos fantásticos… mas será que ela é o motor de uma história? E se sim, de que história?

Se no texto houvesse uma explicação para o fenómeno da inversão cronológica, e se ela fosse sustentada por, pelo menos, uma aparência de conhecimento científico, poderíamos apodar o conto como sendo de ficção científica. Como tal explicação nunca surge, nem sequer é tentada, temos de relembrar que é da Fantasia a característica do fenómeno dado. Como quem diz: isto, apesar de impossível, é assim – acreditem, ou suspendam a vossa descrença com este elemento fantástico. Poderíamos ser tentados a ficar por aqui, mas a questão adensa-se um pouco para além da titulação do autor e da aparência formal da técnica usada para contar a história.

Tentemos outro tipo de abordagem. Por vezes, a génese de uma história é importante para a análise crítica. Neste âmbito e, segundo Fitzgerald escreveu na introdução ao conto aquando da sua publicação em livro na colectânea de 1922 acima referida, a ideia para o conto deveu-se a uma afirmação de Samuel Clemens acerca de o melhor da vida vir ao princípio, enquanto o pior é deixado para o fim (Mark Twain, um escritor bastante conhecido, entre outras razões, por uma forte veia satírica e humorística em alguns dos seus escritos). Aqui a nossa análise ilumina-se um pouco, visto que O Estranho Caso… indubitavelmente começa por ser um conto de humor tout court: logo na primeira parte seguimos a ridicularizada vida do pai de Benjamin, até ao hilariante momento do seu primeiro encontro com o filho recém-nascido. Recordando o que acima referi sobre a primeira falha de lógica discursiva, como devemos pensar a ausência de informação sobre o parto deste rapaz de características acentuadamente geriátricas? A potencialidade humorística do momento é tremenda, mas o invocar de um ser com demasiados quilos a ser expelido ou extraído de um normal corpo feminino destruiria qualquer pretensão de suspensão de descrença… e até do próprio humor. A escolha é tecnicamente acertada, e empurra-nos a pensar ainda mais no sentido do efeito cómico em detrimento do de fantasia. Por outro lado, a partir desse encontro entre pai e filho, a história começa a perder paulatinamente a capacidade de nos fazer rir, até que cai numa estupefacta, embora terna, melancolia, com que, aliás o conto finaliza. Este ponto fundamental, onde a sombra se instala, não terá retorno. Se a razão é optativa ou simplesmente sintoma de falta de imaginação é tema fabulástico e inócuo, pois interessa-nos é aquilo que Fitzgerald consegue fazer com o que resta, e que é o grosso do conto. Mas nunca nos será dado esquecer que esta é a história de um ser humano, com nada de peculiar a não ser a forma como atravessa a vida, um homem que nasce velho, e que vive a caminho da sua mocidade, até chegar ao momento da meninice, da infância e… que chega ao nada, como todos nós. Talvez se sinta uma pequena dose de doçura no término desta viagem, um sorriso último…mas não será ele também possível para todos nós?

Temos portanto, que o motivo da história é tornado inócuo e sem sentido. Nada se encontra no texto, ou mesmo fora dele, algo que nos indique capacidade alegórica na premissa fantástica explorada pelo texto; a intenção parece ser mesmo a de somente comentar ligeiramente o princípio e o fim da vida. Ou seja, a inversão temporal do processo de viver de Benjamin Button, tal como com todos os homens (se pensarmos num comum e popular ponto de vista), nada significa per se a não ser como catalisador do bom e do mau nos extremos cronológicos da vida. Todavia, há sentidos e direcções emocionais no texto que acenam outras significâncias, mais secundárias e paralelas, mas não de somenos, e penso ser nesse sentido que a maestria técnica do relativamente jovem Fitzgerald acaba por ser revelada.

Relembremos o período em O Estranho Caso de Benjamin Button é, pela primeira vez, exposto ao público leitor: foi publicado na revista Colliers, numa época caracterizada por uma intensa actividade editorial periódica. Revistas, o pulp, as aventuras alucinantes, rocambolescas, fantásticas, os incríveis números de circulação, o êxito de vendas de todas essas publicações, mesmo das que tinham vida curta, e, perante tudo isto, não conseguimos deixar de pensar que O Estranho Caso é um violento contraponto técnico a toda essa ambiance, um balde de água fria servido com linhas e palavras de índole realista, com aroma a “literato”, embora tentando empregar precisamente os mesmos tropos e técnicas da produção “popular”. Ou seja, propositadamente, Fitzgerald usa um mecanismo fantástico para escrever uma peça prenhe (sim, emprego o vocábulo conscientemente) de técnica e limitações realistas. E com uma cajadada só, o autor mata o coelho do publicável, bem como o da legitimidade intelectual do establishment literário norte-americano da época. Pode-se argumentar que a razão terá sido muito mais mercantil e menos propositada que isto, mas esse é tema de dissertações académicas, pelo que nos limitaremos a apontar o facto e a possibilidade. Interessa mais o resultado final, a qualidade do texto publicado e que o público português pode agora apreciar. No entanto, e para os avisados leitores que torcerem o nariz a todo este tipo de considerações, relembro (como aliás também o chegou a fazer o próprio autor) a reacção de um dos leitores à época em que a peça foi publicada, opinião essa que Fitzgerald foi a ponto de incluir na edição de 1922, invocação esta cheia de humor: “Eu li a história Benjamin Button na Colliers e desejava dizer-lhe que, como escritor de contos, você daria um bom lunático (…)”. O humor da peça parece-me, portanto, mais do que comprovado.

Tomando agora um rumo paralelo a estas esclarecidas conjecturas, deixem-me recordar que este tema da inversão cronológica da vida de um indivíduo nunca foi muito explorado em termos literários. Como curiosidade, posso referir conhecer somente dois casos em que isso terá sucedido: um romance de ficção científica e um mini-conto (ou flash fiction avant la léttre) português datado dos anos 80 do século passado, ou talvez fins de 70, surgido na primeira compilação de textos humorísticos intitulada Pão Com Manteiga (nome de um saudoso e inventivo programa de rádio cujo arquivo áudio alguém deveria urgentemente recuperar). Neste texto luso, a premissa é implacavelmente tratada como humor. Segundo recordo (embora possua o original não o encontrei a tempo de o poder consultar para este artigo), a peça começava com um singelo “No planeta Chrysalis, os filhos dão à luz aos pais”, e era uma alucinante e bem disposta viagem a um cenário futurista mas de contornos satíricos que ainda hoje só a evocação do assunto me faz sorrir. Quanto ao romance que acima referi, e que se trata de Counter-Clock World do hoje famoso Philip K. Dick (datado de 1967), a premissa fantástica é completamente condicionada e explorada em termos de ficção científica pura e dura; nele, o Tempo está mesmo a andar para trás, devido a um fenómeno “natural” designado por Hobart Phase, e o romance começa com um polícia a passar junto a um cemitério, onde ouve uma falecida acabada de “renascer”, pedindo ajuda de dentro da sua sepultura (“O meu nome é Srª Tilly M. Benton, e quero sair daqui. Está alguém a ouvir-me?” – e o nome de Benton pode-nos fazer pensar em algo, sei lá, como Button…).

Mas retornemos ao presente. O Estranho Caso já o estipulámos, não é FC, tem uma ponta de Fantasia, e outra de Humor. Um canto ou vértice, quando é perfeito e redondinho, mesmo que assente numa fraca ou só parcialmente explorada premissa, pode não ser uma maravilha, mas é fonte certa de algum maravilhamento. Algo que no conto de Fitzgerald é, de todo, auto-suficiente.
A leitura de O Estranho Caso de Benjamin Button deixa-nos um travo a qualquer coisa profunda no seio da sua aparentemente enorme vacuidade, algo que ressoa na nossa consciência como uma deslumbrante dissonância. Podemos sem dúvida afirmar que está bem executado, e que cumpre bastante do que algo atabalhoadamente promete, mas também não deixa de se fazer sentir como uma glória falhada, algo que poderia ter sido muito mais do que acabou por ser: um texto com alguma graça, alguma ternura, e pouco mais.
>> ORGIA LITERÁRIA – por N. Fonseca

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