Na liderança do mercado de quadrinhos brasileiros desde os anos 70, Mauricio de Sousa agradece, até hoje, o período em que, na década de 60, atuou como repórter policial. Graças a isso, diz, virou mais um escritor de quadrinhos do que um desenhistas de HQs. É com essa disposição que ele encara o universo do desenho animado com o humor da Turma da Mônica Jovem – versão teen de seu clássico e atual menina dos olhos da Mauricio de Sousa Produções, com vendagens estimadas entre 300 e 500 mil exemplares mensais – e da Turma do Penadinho.
Este deve ir ao ar em episódios de 11 minutos ainda este ano, pela TV Cultura, com quem já vem conversando. Até agora já há 13 episódios da turma do cemitério feitos em parceria com a empresa Digital 21 – entre eles E o Capitão Pitoco bateu as botas, Natureza morta, Uau! É a Dona Morte com um novo visual e O horroroso Fredi Cruga.
– Imagina se eu fosse prolixo na hora de fazer um balão, e escrevesse umas cinco, seis linhas de diálogo? Não ia dar certo, né? Hoje estou transportando todo esse aprendizado dos quadrinhos para os desenhos animados – diz Mauricio.
Apesar do sucesso com desenhos animados – filmes como A princesa e o robô (1983) e Uma aventura no tempo (2008) bateram recordes de bilheterias – é a primeira vez que Mauricio investe num projeto deste tipo.
– Está em nossos planos criar um desenho do Astronauta, que vai ser em 4D. Não apresentamos esse projeto para a TV Cultura ainda, mas ela é uma boa plataforma, até para colocarmos as redes educativas no jogo do Ibope. Além disso, o Horácio vai ganhar um longa-metragem ainda este ano, a ser exibido nos cinemas – conta o desenhista. – O mais difícil num lançamento desses, que é bolar a estrutura dos personagens e do cenário, já está feito na Turma do Penadinho. Agora é só escolher quem vai fazer as vozes e bolar novas histórias. As trilhas sonoras também sairão de nossos estúdios. Para a Turma da Mônica Jovem, faremos com antecedência de seis meses de revistas, pois nos inspiraremos nos textos já feitos.
Predileção por Horácio
A escolha de personagens como Penadinho e Horácio não é ao acaso. A turma do cemitério já deu as caras em projetos especiais. E Horácio é um de seus personagens preferidos – o próprio Mauricio se encarrega dos textos.
– Toda criança adora histórias de monstrinhos e dinossauros – atesta. – Isso nunca deixa de fazer sucesso. E são personagens que se encaixam nesse perfil. O licenciamento dos personagens, além da exibição do nosso acervo em alguns países do mundo, são o que me permite criar mão de obra e investir nos filmes sem depender de verbas governamentais. Ou mesmo de investidores que me exigiriam uma desnacionalização de tudo. Mesmo com a situação econômica ruim na década de 90, continuei produzindo graças a isso. E hoje ainda posso esperar melhores resultados de pouco em pouco.
Levar a Turma da Mônica Jovem, que insere novas linguagens de comportamento nas antigas aventuras da galera da menina dentuça, para a televisão, requer um pouco mais de trabalho. Logo nos primeiros números, a revista inovou ao trazer, pela primeira vez, um beijo entre Mônica e Cebolinha, já adolescentes. Ainda que os personagens, crianças, tivessem até seus namoricos, é a primeira vez que as relações entre adolescentes estão tematizadas em revistas do autor. Um desafio com o qual a equipe de Mauricio, habituada ao universo infantil, se depara diariamente
– A Turma Jovem tem muito público infantil. Chegamos a nos perguntar se o êxito da revista não canibalizaria nossas publicações infantis, inclusive. Mas depois vimos que não aconteceria – constata Mauricio. – Dá um trabalho danado porque pela primeira vez a gente tem que tratar de assuntos como primeiro beijo, namoros, ciúmes. Mas procuramos introduzir nisso muita ação e um terrorzinho, de leve.
Após um longo período sendo editado por empresas como Abril (responsável pelo primeiro gibi da Mônica, em 1970, e pelos debutes de personagens como Cebolinha e Cascão) e Globo, Mauricio iniciou uma parceria de sua empresa com a editora Panini, especializada em HQs. Para a Bienal do Livro, o autor lança vários produtos por editoras diferentes. Pela Editora Globo, por exemplo, prossegue a coleção Contos de Mauricio de Sousa, iniciada em 2006, que tem livros com texto, sem quadrinhos, e é ilustrada por desenhistas convidados, de fora da MSP. Os dois volumes já planejados são Vendo sem enxergar, com desenhos de Anderson Pimentel Luiz, e Falando com os bichos, ilustrado por Thalita Dol.
– São experiências. O desenhista pode inclusive colocar seu próprio estilo. Quero formar uma equipe de parceiros de fora, que inclusive tenham participação nas vendagens – idealiza Mauricio, sem tirar os olhos de um de seus produtos mais rentáveis. – Agora estamos estudando o lançamento da Turma da Mônica Jovem na China. É uma possibilidade.
>> JORNAL DO BRASIL- por Ricardo Schott
