
O desenhista americano Adam McCauley acredita que monstros são uma preferência mundial – tanto de crianças quanto de adultos. Mas ainda mais quando vêm acompanhados de uma boa dose de ironia, como no caso de uma de suas mais recentes criações, a série de Monsters Stamps, que recebeu em fevereiro medalha de ouro na premiação anual concedida pela Sociedade Americana dos Ilustradores, e que vem encartada no livro The Monsterologist: A memoir in rhyme, com textos do escritor Bobbi Katz e ilustrações brincalhonas de McCauley, a ser lançado até setembro pela Sterling Publications.
Além dos poemas atribuídos a um personagem que estuda monstros e das ilustrações de McCauley, o livro traz encartado seu premiado trabalho, no qual cria selos de correios em que países e cidades comemoram suas criações mais aterrorizantes. Todas pinçadas ora do imaginário popular, ora da literatura ou do cinema.
– Quem não gosta de monstros, não é mesmo? Mas acho que eles podem até servir de reflexão sobre a vida – diz McCauley ao Jornal do Brasil, reparando que seu trabalho fala de selos postais numa época em que se resolve quase tudo por e-mail. – Quis, quando fiz as ilustrações, envolver detalhes de tempos idos mesmo. O trabalho tem até uma certa aura da era vitoriana (Inglaterra, século 19). Em agosto, a gente vai pôr um vídeo sobre o livro no YouTube para todos conhecerem o trabalho.
Entre os monstros escolhidos por McCauley estão a andróide Maria, que aparece ilustrando o selo da cidade fictícia de Metropolis (do filme homônimo de Fritz Lang). Já na estampa dedicada à cidade de Salem, em Massachussets, aparece uma das famosas bruxas que, dizem, teriam dominado a cidade americana no século 17 – tematizadas na peça As bruxas de Salem, do dramaturgo Arthur Miller. Também há uma múmia representando o templo de Karnak, no Egito. Outro dos selos traz uma criatura monstruosa da Floresta Amazônica. Mas o artista diz que ainda não conhece os monstros brasileiros.
– Na verdade, eu me inspirei no filme O monstro da lagoa negra, do diretor Jack Arnold (1954). A personagem do filme aparece num lugar não especificado da Floresta Amazônica – conta.
A obsessão de McCauley por monstros é tão grande que boa parte do seu trabalho como ilustrador e desenhista de história em quadrinhos (exposto em seu site www.adammccauley.com) é dedicado às criaturas fantásticas, feitas com humor adulto ou infantil – como num dos livros que ajudou a conceber recentemente, Oh, no! No ghosts!, assinado com o escritor Richard Michelson, que traz um poema ilustrado que mostra duas crianças assustadas com as sombras de seu quarto de noite. Ele ainda ilustrou livros de terror infantil como The Lima bean monster (com Dan Yaccarino) e Halloween night (com Charles Gigna), além de ter assinado sozinho My friend chicken, que fala sobre uma menina que tem em seu único amigo uma grande galinha rosa.
Com 20 anos de carreira como ilustrador, acumula também trabalhos para a Apple (chegou a desenhar um site para a empresa), para a MTV e para a revista National Geographic, além de capas de CDs.
– Na verdade, muitas vezes, eu costumo achar graça no lado ridículo da civilização. É isso que me inspira na hora de criar monstros, ou até de imaginar o que os seres humanos podem fazer com o mundo – diz ele, que também é autor de uma série inspirada no gélido Darth Vader, de Guerra nas estrelas, com caricaturas-trocadilho com o cantor country Garth Brooks e o personagem Bart Simpson, que disponibilizou em seu site. – Minha ideia foi criar um riff, uma coisa leve e engraçada, em cima do personagem. Não tive problemas com os direitos autorais do Darth Vader porque as leis americanas de copyright têm uma cláusula que permite sátiras. Isso não é ilegal por aqui.
>> JORNAL DO BRASIL – por Ricardo Schott