O crítico, poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998) é conhecido por ser um dos poucos intelectuais brasileiros de peso no jornalismo cultural a voltar seus olhos para a ficção científica. Mas vamos ver que tipo de argumento ele tem levantado sobre o gênero…
O que é ficção de gênero? Ficção científica, fantasia, horror, suspense, mistério, faroeste, histórias da amor, histórias de guerra, etc. Aquelas formas de ficção que em geral são consideradas como “literatura de entretenimento” ou literatura comercial.
Nos ensaios “As Dimensões da Aventura” e “Por Uma Literatura Brasileira de Entretenimento” (In A Aventura Literária, José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, págs. 11-38.), José Paulo Paes parece ter um ponto de vista bastante razoável em muitas das suas afirmativas e propostas com respeito à literatura de entretenimento ou ao romance de aventuras, mas não evita expressar seus preconceitos.
Em “As Dimensões da Aventura” ele faz um histórico dos antecedentes do romance de aventuras: o poema épico (Homero), o conto maravilhoso (contos-de-fadas, etc), as narrativas de viagens, a novela de cavalaria, etc. Para ele, o herói do romance de aventuras nunca é especialmente profundo, e Paes então nos lembra das “personagens planas X personagens redondas” (na teoria de E. M Forster), mas expressa seus preconceito limitador quando recorre a um velho clichê crítico, ao escrever que (citando Tzvetan Todorov), quando se tenta “embelezar” o romance policial, ele deixa de ser romance policial e passa a ser “literatura”.
No campo da FC é comum se ouvir que, se é bom, não pode ser FC. O preconceito institucionalizado aparece ainda quando Paes afirma que “a crítica bem-pensante (sic) costuma relegar ao plano da subliteratura … a ficção aventureira, tão popular no século 19 e nos primeiros decênios do nosso século, mas hoje definitivamente suplantada pelos seus sucessores naturais – as histórias de espionagem e de ficção científica.”
Mas 1984 de Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Huxley, obras “respeitáveis”, raramente são chamadas de ficção científica (embora o sejam), e nunca pela “crítica bem-pensante”. Nisso se revela a questão do estatuto literário, conforme definido por Bernard Mouralis, no livro As Contra-Literaturas – a posição, o status que uma determinada literatura possui.
Para Paes, é esse aspecto o valor dominante, e não as características estruturais e inerentes da FC ou outros gêneros. Por mais que eu me esforce, fica difícil entender como é que um romance de FC, possa se “sublimar” e assumir um lugar dentro de um discurso canônico que em geral desconsidera o valor de qualquer obra de gênero, sem deixar de valorizar o gênero ao qual pertence.
Parece um pouco com um filme de Charles Chaplin: o sujeito é um vagabundo que todos desprezam, para o qual as mulheres não dão a melhor bola, e que a polícia persegue o tempo todo. Aí o sujeito vai para o Alasca e faz uma fortuna em ouro. Quando volta, é convidado para se associar a todos os country-clubs de milionários – só que agora ele não pode nunca restabelecer os contatos com os amigos do tempo de vagabundagem. Agora, ele pertence à elite.
É espantoso até onde vai o intelectual para salvar as aparências dos seus valores, diante do que percebe ser a “ameaça” representada por gêneros como a FC. Vale, inclusive, recordar a famosa polêmica entre o escritor André Carneiro e Otto Maria Carpeaux, renomado crítico literário e intelectual alemão radicado no Brasil, e já falecido. Carpeaux afirma: “Tenho lido, gemendo, várias dúzias desses livros (de ficção científica).”
Bem, na minha conta, “várias dúzias” são pelo menos três dúzias, porque uma ou duas dúzias a gente fala normalmente. Três dúzias são 36 livros. Lendo um por semana, que é uma boa média, mas levando em conta ainda que ele não leria todos os 36 um atrás do outro, me parece que Carpeaux levaria em torno um ano ou um ano e meio lendo – “gemendo” – toda essa biblioteca de FC, até chegar à conclusão de que nenhum deles prestou. Agora, depois da primeira dúzia de porcarias, quem é que teria saco de ler as outras 24? É muito excesso de zelo. Talvez Carpeaux tenha simplesmente usado uma figura de linguagem, e ele mesmo leu dois ou três romances e concluiu que o gênero todo e os seus milhares de livros eram pura porcaria.
Mas o próprio André Carneiro reconhece outras contradições em Carpeaux, como os momentos em que ele elogia enfaticamente romances de FC escritos por Olaf Stapledon ou Walter M. Miller Jr., mas que por uma razão ou outra não foram comercializados como FC. É justo concluir que o problema de Carpeaux era com o rótulo FC, e não com as obras. Outra possibilidade, mais irônica, é a de que Carpeaux leu aquelas “várias dúzias” de livros de FC porque gostava, mas só se sentia livre para elogiar livros do gênero não comercializados como tais. Afinal, ele tinha uma imagem de crítico e intelectual a proteger.
Paes lembra a introdução de autores de aventura no Brasil por meio das coleções Terramarear e Paratodos, da Companhia Editora Nacional, e já dá conta da divisão (que não existia tão expressamente no século 19) entre “literatura” e “literatura popular”.
Paes associa a FC a um impulso saudosista que recupera o exotismo que não mais existe em nosso mundo “encolhido”, projetando esse exotismo para o espaço. Em primeiro lugar isso aliena toda aquela parte substancial, senão dominante da FC, que não é ambientada no espaço. Além disso, a associação aí com a literatura exótica (de viagens e explorações e tratando do mundo colonial) é superficial e redutora.
Mouralis coloca a literatura exótica como uma primeira tentativa do “eu” europeu em comunicar-se, em tentar compreender o “outro” que aparece, a partir do século 16, como o não-europeu dos mundos em recém descobertos e em processo de colonização. A FC se associa à literatura exótica nessa chave de comunicação “eu-outro”, porque ela investiga um “outro” virtual, na forma da criatura alienígena, do mutante, do homem do futuro, etc. Mas essa exploração pode tanto conduzir a um exótico vinculado ao saudosismo, quanto a especulações instigantes sobre o relacionamento “eu/outro”.
Paes entende que a continuidade do exótico do romance de aventuras na FC é rompida quando a adesão ao mundo geográfico e físico compreendido não é mais determinante na FC, que passa a especular sobre a geografia e a física de um universo ainda não conhecido. Esse rompimento conduziria a um “tédio da fantasia” (segundo Koestler), o que é outra concepção problemática, mas que acabou se fixando como um clichê crítico limitador – a idéia de que na FC tudo seria possível, desse modo desobrigando o leitor de qualquer esforço intelectual e conduzindo a leitura do gênero a uma atividade tediosa. Toda a boa FC é capaz de desviar-se dos fatos conhecidos substituindo-o por uma “lógica alternativa” que deve operar dentro do universo ficcional. Mesmo a literatura de fantasia, baseada em mundos mágicos, também se obriga à construção de uma lógica alternativa. Por fim, é possível até mesmo recorrer às teorias pós-modernistas na questão, pois elas consideram que qualquer texto ficcional, mesmo os que pretendam ser realistas, são basicamente construções alternativas, arbitrárias, de uma realidade que não pode ser apreendida.
Em “Por uma Literatura Brasileira de Entretenimento”, Paes defende a produção local de uma literatura popular como modo de conquistar para a literatura brasileira um público leitor mais numeroso. Cita Umberto Eco e sua teoria de Apocalípticos x Integrados, mas afirma: “Talvez cause estranheza ter-se falado até agora só de um nível popular e de um nível médio na literatura de entretenimento, deixando de fora um eventual nível superior. Este já seria o da literatura erudita ou de proposta, onde há de igual modo um propósito de entretenimento, embora de natureza mais sutil e menos ‘fisiológica’, se assim se pode dizer…” “Fisiológica” aqui deve significar “concebido como um produto para a venda”.
Paes acredita que a literatura de entretenimento de nível médio pode ser um degrau de acesso ao patamar da literatura “séria”, da “alta literatura” e outras bobagens. A proposta em si é razoável e a tarefa de conquistar leitores e conduzi-los a uma literatura de apreciação mais sofisticada é também honrosa, mas o seu engano está em achar que esse patamar mais alto está fora do âmbito da própria literatura popular ou de gênero.
A idéia de que os escritores de ficção de gênero seriam subservientes ao extremo de acreditarem que sua maior função seria a de servir de degrau para os verdadeiros aristocratas da palavra é enfurecedora em sua presunção de que eles já teriam, nos aspectos comerciais do ofício, recompensa suficiente, e que não estariam interessados nas “glórias do panteão literário” e em qualquer reconhecimento intelectual e artístico. Sem dúvida, se os autores populares ou de gênero pretendem conquistar leitores, será para as formas em que militam, e não para a literatura elitista que costuma esnobá-los. Se há algum tipo de glória envolvida, a queremos para nós, e não para entregá-la aos literatos, que esperam sentados em seus tronos de marfim, que ela seja despejada a seus pés.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto Causo