BRÁULIO TAVARES GANHA O PRÊMIO JABUTI

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

A invenção do mundo pelo Deus-Curumim, de Braulio Tavares (Editora 34) ganha o Jabuti, na categoria Livro Infatil.

A 51º edição do premio teve recorde de inscrições, foram 2.573 obras

Braulio TavaresA Câmara Brasileira do Livro anunciou os vencedores da 51º edição do Prêmio Jabuti. Foram apresentados os três ganhadores em cada uma das 21 categorias do concurso. No dia 4 de novembro ocorrerá a cerimônia de premiação quando serão anunciados os vencedores do “Livro do Ano de Ficção” e o “Livro do Ano de Não-Ficção”. O primeiro lugar em cada categoria recebe R$ 3 mil, e os melhores livros do ano de Ficção e Não-ficção ficam com R$ 30 mil cada um.

Neste ano, o Jabuti bateu seu recorde de inscrições, foram 2.573 obras, cerca de 20% a mais que em 2008, quando concorreram 2.131 publicações. Uma das categorias premiadas, “Romance”, foi conquistada pelo escritor gaúcho Moacyr Scliar com Manual da paixão solitária (Companhia das Letras), livro que trata do universo religioso inspirado no relato do Gênesis, História de Judá e Tamar.

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Enredo do livro:
Quem iria imaginar que um mundo inteiro, com suas estrelas, folhas, árvores e grãos de areia, poderia existir dentro de um coco? Pois o escritor Braulio Tavares e o artista plástico Fernando Vilela imaginaram. Inspirados em mitos indígenas sobre a criação do mundo, eles juntaram seus talentos para contar esta fábula misteriosa, ilustrada, que fala sobre a relação entre a linguagem e o mundo, e na qual as próprias Letras são personagens.


‘THE VAMPIRE DIARES’: REVIEW E CURIOSIDADES DA SÉRIE

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

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Como quase sempre acabo me inspirando em algo que estou vendo/ouvindo para escrever… ao som de Placebo, resolvi tecer algumas palavras sobre a série “The Vampire Diaries”, que tem a música “Running Up That Hill”, do Placebo, no piloto.

A série, com estréia prevista para novembro de 2009 na Warner, é feita com base em uma trilogia publicada em 1991, com um quarto livro saindo em 1992, pela editora americana Harper Paperbacks. Em fevereiro deste ano saiu o primeiro livro de uma nova trilogia: “The Vampire Diaries: The Return”.

Justamente por ser ambientado em uma escola, é inevitável o lance adolescente, mas não se trata de “vampiros” adolescentes e, a maior similaridade com “Buffy The Vampire Slayer”, perceptível até o momento, é a melhor amiga de Elena, com o “quê” de “bruxa nata”.

 

A série é muito bem produzida, algumas cenas lembram o estilo de filmagem de “Supernatural”. Há elementos de romance, o eterno dilema bem x mal, uma trama aparentemente básica, mas nada é tão simples quanto parece.

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A história centrada nos dois irmãos vampiros e o amor pela mesma mulher parece um clichê, mas é abordada de uma maneira interessante, e, embora eu tenha tentado buscar alguma semelhança entre eles e Louis e Lestat, Estefan não fica lamentando o tempo todo e Damon é muito desagradável em comparação com Lestat. Como eu disse, analisando até o momento. Mas Estefan não bebe sangue humano. Esperei ao menos três episódios para fazer esta review.

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O clima da série cresce em intensidade a cada episódio e, assim espero que continue. Sim, faltava uma série com vampiros que tivesse uma trama mais profunda, plots interessantes e viradas legais.

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O porquê do andar durante o dia é explicado, assim como é mantido e explicado como funciona o “convite” para entrar. (Aqui não posso deixar de mencionar “Let the right one in” – para quem ainda não viu, vide resenha aqui).

Para quem está mais por dentro do World of Darkness, dá para tentar adivinhar os clãs, embora muito provavelmente não tenha sido feito com base nisso, há algumas semelhanças. Ainda para aqueles que acham que vampiros nunca deveriam andar durante o dia, justamente no WoD, da White Wolf, há amuletos e magias para diversas coisas (o que veremos mais de uma vez nesta série), além de, nas “Vampire Chronicles” de Anne Rice, os vampiros suportarem o sol por mais tempo quanto mais velhos ficam ou quando tomam sangue de algum vampiro mais velho – Para quem não leu, sugiro “A Rainha dos Condenados” e, não, como já disse e repito, o filme é uma desonra ao livro!

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Os livros estão sendo traduzidos e lançados em português – ainda não tive a oportunidade de ler, mas para quem quiser se aprofundar… fico meio triste de não ter ficado sabendo dos livros antes – afinal, em 1991 não havia Internet e não era tão fácil ficar por dentro dos lançamentos de livros. Ao menos no meu círculo de amigos, era mais HQ e RPG. Ai, já estou me sentindo velha, risos.

Bom, vamos lá. Algumas curiosidades até agora.

Não quero estragar muito, mas há referências culturais interessantes na série, das quais destaquei algumas:

Para quem curte Numerologia (e Tarô), no terceiro episódio, além do significado deixado claro, há um significado subentendido interessante nos números 8, 14 e 22 “vistos” por Bonnie, sendo que 8 e 14 somam 22, e a carta 22 no Tarô tem significado, falando de modo meio geral, de “fechamento” de um assunto importante, um “marco”, o que ocorre com dois dos envolvidos, neste episódio.

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Elena diz a Stefan: “And then, back there, there was this…this, this bird, and it was all very Hitchcock for a second. That is the bird movie, right? Hitchcock?” (“E então, lá havia este… este, este pássaro, e tudo ficou meio a la Hitchcock por um segundo. É o do filme do pássaro, né? Hitchcock?”) – Esta é uma clara referência ao filme “The Birds” (1963) (Os Pássaros), de Alfred Hitchcock, que conta a história de uma pequena cidade que foi vítima de vários ataques de pássaros em poucos dias. Damon transforma-se em corvo – ele é responsável pelos ataques em Mystic Falls, a cidade onde a história se passa.

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“The Night of the Comet” é o nome do segundo episódio da série. Não pude deixar de rir ao me lembrar de que “Night of the Comet” é um filme, de 1984, que vi por acaso na TV, um dos piores filmes de zumbis que já vi na minha vida! Para saberem mais, se ficarem curiosos: o filme é dirigido por Thom Eberhardt e dizem que tem elementos de diversos gêneros como ficção científica, horror, apocalipse, zumbis, comédia e romance, embora eu ache que é apenas um filme bem mal feito, risos!

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O título do terceiro episódio, “Friday Night Bites”, além de ser o nome de um livro de Chloe Neill sobre vampiros, faz um trocadilho com “Friday Night Lights”, uma série de TV americana também adaptada de um livro (e de um filme) homônimo, a respeito de detalhes envolvendo os Dillon Panthers, uma equipe de futebol americano de escola – e o foco deste episódio, na escola, é justamente o time de futebol do qual Estefan passa a fazer parte.
>> ICULT GENERATION – por Ana Death Duarte

Confira o trailer legendado:


‘A ESPINHA DORSAL DA MEMÓRIA’, DE BRAULIO TAVARES

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

Poucos Entenderão o que representou a escolha de A Espinha Dorsal da Memória para vencedor da edição de 1989 do prémio Caminho de FC. A ficção científica em língua portuguesa que então se publicava tinha a chancela da Caminho (cf. este meu texto sobre o percurso da FC nacional e o papel das editoras no seu desenvolvimento – ou falta deste). João Aniceto, vencedor em 1985, fazia a sua aparição regular com edições de vários milhares de exemplares patrocinados pela Sagres – romances inspirados em temas batidos no género, com alguma ambição literária embora por vezes lhe faltasse mão no material (lembro-me em particular da tentativa de descrever uma mesma cena sob o ponto de vista de quatro personagens em O Quarto Planeta - este tipo de truque quase cinematográfico só resulta quando cada novo recontar do mesmo evento oferece ao leitor novas informações ou uma apreciação completamente diferente, senão resulta maçudo) e uma peculiar falta de ouvido para o diálogo (lembro-me da discussão de um casal em A Lenda e de pensar se o autor nunca teria tido discussões conjugais na vida), eram contudo obras divertidas e com um enredo subjacente, inspiradas na ficção científica e que tentavam de facto fazer juz ao género.

Surgiriam, no entanto duas outras obras peculiares, cuja classificação como «ficção científica» era no mínimo questionável. Universo Limitada, de Isabel Cristina Pires, vencedora do prémio em 1987, ficaria na memória, a esta distância, como uma colectânea de contos muito curtos em que havia breves aparições de temas da FC – robôs, extraterrestres – mas com pouca intenção de enredo ou sequer de ilustrar situações ou estados de alma. Três Lágrimas Paralelas, de Artur Portela, seguia-lhe na esteira, embora deste recorde um conto que tentava apresentar uma Lisboa subordinada a uma invasão japonesa (se era uma invasão concreta ou apenas cultural, não consigo lembrar-me). Entendam que encontrar estas narrativas na colecção da Caminho foi um brusco choque de expectativas para o jovem de então, habituado aos sólidos contos americanos com enredos e percursos emocionais sustentados e extrapolação científica fundamentada. Talvez hoje a apreciação resultasse diferente, mas nessa época pouco contribuiu para sentir que haveria na língua portuguesa uma capacidade de fazer e escrever ficção científica como se fazia lá fora…

Bráulio Tavares foi uma espécie de redenção neste figurino. O conjunto de narrativas da Espinha Dorsal da Memória não só apresentam enredos de tronco inteiro como se encontravam escritos com um estilo sólido e profissional, literário, denunciando um autor que já se encontrava em actividade há algum tempo. Finalmente, contos que se podiam saborear. A FC brasileira afirmava-se assim, julgo que pela primeira vez, em terrenos lusos com qualidade e distinção. A fasquia da FC em língua portuguesa tinha sido elevada – e mais acima subiria, estou em crer, se a produção brasileira da época tivesse proliferado neste lado do oceano. 

Bráulio nunca participou nos encontros nacionais de FC. É possível que nos tenha visitado aquando da cerimónia de entrega do prémio pela Caminho. É possível que tenha sido entrevistado pelos jornais – desconheço. Fica aqui, no entanto, uma oportunidade de conhecer o autor, num debate a respeito de uma antologia de Edgar Allan Poe que se encontra a preparar para edição no Brasil.
>> EFEITOS COLATERAIS – por Luis Filipe Silva


‘GRAFIAS NOTURNAS’: LIVRO REÚNE CONTOS DE LITERATURA FANTÁSTICA

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

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A literatura fantástica como meio para falar de problemas reais é o recurso utilizado na coletânea de contos Grafias noturnas, livro de estreia do autor paranaense Luiz Fernando Riesemberg.

Na definição do próprio autor, cada conto traz uma história sobre pessoas comuns tendo que conviver com inimigos poderosos e invisíveis, que podem ser manifestar na figura de um fantasma vingativo, uma epidemia mortífera ou a ambição humana.

Depois de seis anos de prática e participação em concursos literários, Riesemberg resolveu ingressar de vez na carreira literária com a publicação do seu primeiro livro, com a temática que vem sendo uma tendência de vendas, que é a do terror e a do realismo fantástico, presente nos 21 contos da obra.

No caso de Riesemberg, a intenção foi usar o desconhecido para abordar problemas da sociedade. “Histórias com vampiros e bruxos, por exemplo, têm sido bastante consumidas. Procurei ter algo a mais para dizer. Usar o vampiro, por exemplo, como alegoria para falar dos problemas que os humanos enfrentam”, exemplifica.

Entre os contos está Eu não matei Charles Bronson, sobre um jovem de classe média que, após ser vítima de um assalto, passa a incorporar a personagem de um justiceiro que sai noite afora em uma jornada sangrenta atrás dos bandidos, revelando-se ainda mais cruel que os criminosos.

A inspiração vem de escritores renomados da literatura fantástica, como Ray Bradbury (Farenheit 451), Roald Dahl (Beijo com beijo), Richard Matheson (Eu sou a lenda) e J.G. Ballard (Crash).

“Também não faltam homenagens ao cinema, principalmente aos filmes “B’ dos anos 1970 e 1980, nem às clássicas séries de horror e fantasia, como Além da imaginação e Amazing stories”, diz o autor.

Lançamento
Assim como a maioria dos autores iniciantes, Riesemberg enfrentou dificuldades para a publicação de seu livro. Querendo fugir da fórmula de pagar para lançar, o autor trilhou um caminho mais demorado, até receber uma proposta da editora Biblioteca24x7, especializada em escritores iniciantes.

Muitas editoras que aceitam publicar livros de novos editores mudam o foco do seu comércio: cobram do autor que precisa então vender os livros -para que a publicação aconteça.

“Esse não era o meu objetivo e por isso continuei tentando até encontrar a Biblioteca24x7, que publica e eu passo a ganhar uma porcentagem em cima das vendas”, conta Riesemberg. “Queria lançar com o meu talento, não com o meu dinheiro”, completa.

No entanto, muitos autores acabam optando pelo caminho pago, com a expectativa do lançamento. “O problema é que muitas vezes essas editoras nem fazem o trabalho de divulgação. É como lançar um CD. Hoje, qualquer um grava, mas o problema está depois, em vender”, compara.

Sem divulgação, a publicação por uma editora nem sempre pode ser a opção mais viável. “Para um autor iniciante, editora grande é utopia. Tem que ser conhecido, nem precisa escrever bem, para conseguir a publicação em uma delas. Por isso, para muitos autores iniciantes, é mais fácil ir diretamente em uma gráfica do que aceitar uma dessas propostas”, afirma o autor.

Grafias noturnas pode ser adquirido por meio do site da editora: http://www.biblioteca24x7.com.br.
>> PARANÁ ONLINE – por Luciana Cristo


O PRISIONEIRO JÁ TEM DATA DE ESTRÉIA

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

Quem aguarda com ansiedade a releitura do canal AMC para a clássica série inglesa “O Prisioneiro” já pode marcar na agenda. A minissérie de seis episódios deverá estrear nos EUA no dia 15 de novembro.

O AMC promete exibir dois episódios por noite ao longo de três dias consecutivos. A produção é estrelada por Jim Caviezel, que interpreta o nº6, um agente que fica preso em uma misteriosa vila (que na clássica era situada em uma ilha), gerenciada pelo nº2, interpretado por Ian McKellen.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim


‘UMBIGO SEM FUNDO’: UMA FAMÍLIA DE IMAGENS E PALAVRAS

quarta-feira | 30 | setembro | 2009

Umbigo Sem Fundo, de Dash ShawUm dos aspectos principais na produção de histórias independentes dos últimos anos é ter como temas principais o deslocamento e a disfuncionalidade. Cada uma trata de temas diferentes e desenvolve estes aspectos de forma a se adaptar com eles. Em Umbigo Sem Fundo, lançada mês passado pela Companhia das Letras, o tema central é a família e as relações que se dão entre seus vários integrantes. Tudo começa quando, depois de quarenta anos de casados, os pais da família Loony (maluco, em inglês) resolvem se divorciar. Para passar uma última semana juntos, os membros da família, filhos, netos e cunhados voltam a morar na casa na beira da praia onde cresceram. Os filhos, retratados bastante diferentes um dos outros, ecoam suas visões diversas sobra a família e divórcio. Dennis, o mais velho, se mostra nervoso e preocupado com o fim do casamento, ele é pai de família e acredita que as família são o pilar para uma vida de sucesso. Claire, a filha do meio, que já se divorciou, é atormentada pelo passado e pela preocupação com sua filha, Jill. Por fim, Peter, o caçula, está alheio a tudo isso agindo como se vivesse num mundo só seu, já que toda a família por vezes esquece que ele existe.

Dash ShawNa história, Peter é retratado como um sapo, – a não ser por um único quadro – pois é como ele acredita que a família e o mundo o vêem. Aqui a zoomorfização funciona como modo de trabalhar o deslocamento e a disfuncionalidade de uma forma gráfica e explícita, sem remeter a artistas que usaram este recurso anteriormente como Spielgman e David B.. Há ainda uma possibilidade de que Peter seja reflexo do autor, Dash Shaw, descrito como quieto e recluso em reportagens. Nesse caso, Peter lembra alguns personagens de Woody Allen principalmente quando retrata a si mesmo em seus trabalhos. Mas não é somente a semelhança com protagonistas que guardam analogia com o trabalho de Allen. O humor também segue um caminho parecido quando os personagens fazem piadas sobre si mesmos e seus entes queridos. Há uma cena bastante emblemática deste caso quando Claire imita os membros da família para sua filha, dizendo, ao final, que imitar Denis, descrito pelo autor como “um Homer Simpson com cabelos”, era crueldade, pois ele já era uma paródia de si mesmo.

O clima inicial da história lembra bastante Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, de Daniel Clowes pela sensação de estranheza e não-pertencimento que o leitor sente. Somos apresentados à família Loony através de gráficos, esquemas de layout e por cenas características dos quadrinhos undergrounds. Acabada a primeira parte da graphic novel – que tem mais de setecentas páginas –, entretanto, os personagens já cativaram e envolveram de uma forma que fica difícil largar o tijolão e fazer uma pausa para ler o que vem na sequencia, como o autor sugere na abertura.

Talvez o principal recurso narrativo que Dash Shaw usa em Umbigo Sem Fundo sejam os reflexos. Há desde reflexos que temos sobre nós mesmos (como a retratação de Peter como um sapo), do que os outros têm sobre nós (após ser comparada com um homem, toda vez que Jill é refletida, ela se vê como um) ou até mesmo os dos outros em nós mesmos (os filhos tornando-se pais e os pais tornando-se filhos), o que produz um efeito também reflexivo no leitor que passa a se colocar no lugar dos personagens. Afinal, se o leitor não foi pai, com certeza já foi filho.Contemplação

Contemplação

Umbigo sem Fundo é uma história contemplativa, contada vagarosamente para que o leitor capte as nuances nos diálogos e nas cenas. Infelizmente, uma leitura apenas não dá conta de todos. Longas seqüências de imagens são usadas para mostrar experiências sensoriais como as páginas inteiras que mostram os diferentes tipos de areia e água. O mais impressionante é que estas imagens não guardam apenas uma grande carga sensória, mas também a sensibilidade de momentos-chave da narrativa e na emoção dos personagens. Há efeitos de leitura que remetem a filmes como Encontros e Desencontros que levam o leitor a ponderar a importância de momentos banais para os personagens. Por outro lado, esse efeito também é usado para realçar a importância de uma cena, como quando Peter vê Kat despindo lentamente a roupa, evento que leva quatro páginas para ser mostrado. A naturalidade e a casualidade são pontos altos da condução da narrativa  — atenção para as cenas explícitas de sexo, ou para quando os personagens recorrem ao banho para renovar suas energias — e lembra filmes da nova safra de filmes independentes como Pequena Miss Sunshine, A Família Savage e Juno.

Palavras utilizadas para substituir imagens Palavras utilizadas para substituir imagens 

Os desenhos da graphic novel não são muito desenvolvidos ou detalhados como em outros quadrinhos de autor. Lembram a simplicidade de Persépolis, mas têm a estranheza de traço dos quadrinhos underground. Porém, o recurso gráfico que mais chama atenção são as palavras. O autor lança mão de descrições e onomatopéias. Usa palavras para representar aquilo que não pode ser desenhado como barulhos e ações, ou por vezes para mostrar o efeito de uma ação ou diálogo sobre um personagem, como quando Peter ou seu pai encolhem os ombros. Se de início a utilização destes recursos pode parecer cansativa e repetitiva, por outro lado pode ser algo poético. Umbigo sem fundo é uma HQ sem cores. Para demonstrar um pôr-do-sol, Shaw desenha um horizonte e escreve sobre ele algumas cores em um quadro, outras cores em outro. Provavelmente o aspecto mais literário desta obra esteja, ironicamente, nas palavras que valem mais que mil imagens.
>> SPLASH PAGES – por Guilherme “Smee”


FANTASTICON 2009: “STEAMPUNK E OS NOVOS RUMOS DA FICÇÃO CENTÍFICA”

terça-feira | 29 | setembro | 2009

Você sabe o que é Steampunk?

É um movimento? Uma moda? Um lifestyle? Um novo gênero literário? Tem brasileiro metido nisso? Para você não ficar com cara de bobo quando ouvir essa palavra, assista agora mesmo ao especial Steampunk da TV Cronópios.


 
A TV Cronópios apresenta uma mesa-redonda do evento Fantasticon 2009 – Simpósio de Literatura Fantástica A proposta é que todas as atividades do evento sejam colocadas no ar o mais breve possível. Os vídeos estão sendo colocados no ar aos poucos.

Steampunk e os Novos Rumos
da Ficção Científica:
Mesa-redonda com Bruno Accioly,
Gianpaolo Celli e Fábio Fernandes

Este programa é resultado de numa parceria com o Fantasticon 2009. Evento organizado por Silvio Alexandre, em uma realização da Biblioteca Temática de Literatura Fantástica Viriato Corrêa, do Sistema Municipal de Bibliotecas e da Secretaria Municipal de Cultura. Com o apoio do GELF (Grupo de Estudos de Literatura Fantástica), da Fly Cow Produções Culturais, da Cálamo Editorial, do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica), da OPELF (Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica) e da TV Cronópios.

Sinopse: Criativos, retrofuturistas no estilo e no comportamento. Esses são alguns dos conceitos do Steampunk, um gênero de ficção que explora um “mundo alternativo” movido a vapor (”steam”). Assim, temos uma fusão de “era vitoriana” com “futuro pós-apocaliptico” ou “punk” no sentido de transgredir o hoje e o passado. Algo com muitas engrenagens, com grandes zepelins voando pelos céus e seus respectivos piratas, um misto de roupas vitorianas com tecnologias que parecem do nosso tempo. Mais do que nunca, surgem novos e talentosos autores na atual Ficção Científica que expandem as barreiras do gênero. E os editores fazem a sua parte: buscam rótulos para categorizá-los. No meio de tantos rótulos e inovações, o que exatamente eles representam?

Fabio Fernandes é jornalista, tradutor e dramaturgo. Seus contos foram publicados no Brasil, Portugal, Romênia e Estados Unidos. Publicou a coletânea de contos “Interface com o Vampiro” (Writers) e “A Construção do Imaginário Cyber” (Anhembi Morumbi). É Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor pela mesma instituição. Foi curador do “Invisibilidades II” (2008), do Instituto Itaú Cultural, evento voltado para a Ficção Científica, e fará a curadoria da terceira edição, ainda em 2009.

Gianpaolo Celli, além administrador de empresas, é escritor e editor. Estudioso de ocultismo, esoterismo e mitologia. Tem matérias e aventuras-solo de fantasia na revista Dragão Brasil; é colunista do site de neopaganismo “Tribos de Gaia”; co-autor da coleção Necrópole: “Histórias de Vampiros” (2005), “Histórias de Fantasmas” (2007) e “Histórias de Bruxaria” (2008); das coletâneas “Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos” (2006) e “Paradigmas, volume 3″ (2009), e co-editor e co-autor dos livros “Histórias do Tarô” (2008) e “Steampunk” (2009).

Bruno Accioly é empresário da área de tecnologia, editor da revista de internet OutraCoisa.com.br, co-fundador do Conselho SteamPunk e responsável pela loja Rio de Janeiro. Crítico da forma como o homem se relaciona com a tecnologia, é estudioso de Filosofia e seu rebento mais bem sucedido, a Ciência. Especialista em Usabilidade – disciplina que lida com a interação homem/máquina – atua na área há mais de dez anos enquanto divide seu tempo como redator e ficcionista.
 
Produção/vídeo: Egle Spinelli, Thiago Augusto e Pipol.


Assista agora | Clique aqui

Link: http://www.cronopios.com.br/tv-cronopios-palestras/steampunk.html


HISTÓRIAS DE TERROR DE EDGAR ALLAN POE

terça-feira | 29 | setembro | 2009

A Cia Em Cena Ser apresenta Histórias de Terror de Edgar Allan Poe (para adolescentes e adultos) uma contação de histórias com contos de Edgar Allan Poe (Sepultamento Prematuro, O Poço e o Pêndulo e Hop Frog) no SESC Pinheiros, como parte do projeto “Um corvo pousou na minha sorte, leitores e leituras de Poe”. O evento é grátis.

Adaptação e Interpretação: Cristiana Gimenes

Direção: Andreza Domingues

Data: Dias 2 e 9 de outubro (sexta-feira) às 20h.

Local: Sala de Leitura e Varanda, 2º andar. 100 vagas.

SESC Pinheiros-Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros

Não recomendado para menores de 12 anos

 

UM CORVO POUSOU NA MINHA SORTE:
LEITORES E LEITURAS DE POE

200 anos após seu nascimento, não restam dúvidas de que Edgar Allan Poe mudou profundamente a arte de escrever textos de terror. Muito conhecido pelos contos e poemas de mistério como A Queda da Casa de Usher, Poe foi imprescindível na criação literária e deixou influências em autores como Kafka, Henry James, Baudelaire, Proust, Oscar Wilde, Fernando Pessoa e até Machado de Assis. Os dois últimos, inclusive, traduziram para o português o poema O Corvo, uma de suas mais conhecidas obras.

 

P.S.: Na madrugada de 31/10 para 01/11, a Cia em Cena Ser estará no Halloween da Casa das Rosas.

Cristiana Gimenes também vai participar da Fantástica Jornada Noite Adentro com o Conselho Steampunk.
>> CONSELHO STEAMPUNK – por Cândido Ruiz


“THE WHEEL OF TIME”, DE ROBERT JORDAN EM PORTUGUÊS: VOL. 1 – “O OLHO DO MUNDO”

terça-feira | 29 | setembro | 2009

Olho do Mundo_capa“A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e passam, deixando memórias que se tornam lenda. As lendas se desvanecem em mito, e até o mito estará há muito esquecido quando a mesma Era, que lhe deu origem, retornar. Em certa Era, que alguns chamam Terceira Era – uma Era futura, uma Era que há muito passou – um vento se ergueu nas Montanhas da Névoa. O vento não foi o começo. Não há começos nem finais no volver da Roda. Mas foi um começo.”

A Roda do Tempo (Caladwin Editora, 812 págs.), obra máxima do escritor de fantasia mais aclamado desde J.R.R.Tolkien, chega ao Brasil após anos de espera. Uma das séries de maior sucesso do gênero fantástico, A Roda do Tempo (The Wheel of Time, no original) recebeu diversos prêmios desde a publicação de seu primeiro volume, O Olho do Mundo, em 1990. Atualmente, a série conta com versões em 21 idiomas diferentes, tendo sido publicada em mais de 20 países, entre eles Japão, França, Itália, Grécia, Suécia, Holanda, Bulgária e Israel.

O Olho do Mundo, romance que inicia a saga, teve em sua primeira tiragem nos Estados Unidos, a impressionante marca – para o gênero à época – de 40.000 exemplares, esgotados antes mesmo do lançamento da continuação (The Great Hunt) no mesmo ano. Após a publicação do segundo livro da série, o interesse pela primeira parte da história fez com que as vendas dobrassem com relação aos números iniciais. A Roda do Tempo vendeu mais de 12 milhões de exemplares apenas na América do Norte e mais de 44 milhões de livros no mundo todo.

O sucesso da obra de Robert Jordan despertou também o interesse de outras mídias. Em 2008, a Universal Pictures adquiriu os direitos para produzir adaptações dos livros para o cinema em conjunto com a Red Eagle Entertainment LLC – O Olho do Mundo será o primeiro filme, com lançamento programado para 2011. Além disso, uma série em quadrinhos produzida pela Dabel Brothers Productions está sendo desenvolvida neste momento, com publicação prevista ainda para 2009. Atualmente, A Roda do Tempo é objeto de inúmeros sites de fãs, comunidades e fóruns na internet. Seu criador foi homenageado com a JordanCon, convenção anual que leva seu nome e celebra sua maior obra.

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Sobre o autor:
Robert Jordan (pseudônimo de James Oliver Rigney) iniciou sua carreira como escritor em 1977, tendo escrito alguns contos de Conan, o Bárbaro. Grande parte da crítica especializada o caracteriza como o “herdeiro de Tolkien”. A Roda do Tempo é considerada uma das mais relevantes séries na história do gênero de fantasia, alcançando imenso sucesso de vendas com mais de 14 milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos. Jordan faleceu em em 2007 aos 58 anos.

Sinopse da Obra:
A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e passam, deixando memórias que se tornam lenda. A lenda se desvanece em mito, e até o mito estará há muito esquecido quando a mesma Era, que lhe deu origem, retornar. Não há começos nem finais no volver da Roda, mas em um dos princípios possíveis, um vento se ergueu na terra dos Dois Rios. E, com ele, o prenúncio do fim de um Era.

Alheio ao girar sem fim da Roda do Tempo, Rand al’Thor e seus companheiros do Campo de Emond são conduzidos pelo Traçado a uma espiral de eventos que os colocam em meio a lendas tornadas realidade: Crias das Sombras, figuras geradas pelo mal personificado; Aes Sedai, mistura de sábias, feiticeiras e sacerdotisas, canalizadoras do Poder Uno; e o Dragão, reencarnação de um herói do passado, destinado a salvar o mundo e destruí-lo mais uma vez para isso.

O Olho do Mundo é o primeiro livro da série A Roda do Tempo, uma das mais aclamadas séries de fantasia de todos os tempos. Sucesso de público e crítica, com mais de 44 milhões de exemplares vendidos e quatro títulos atingindo o primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times, a saga criada por Robert Jordan é a obra de literatura fantástica mais famosa desde O Senhor dos Anéis.

Em A Roda do Tempo, o mundo e o próprio tempo encontram-se em risco. O que foi, o que será e o que é: tudo poderá sucumbir ante à Sombra.
>> RPG NEWS – por Talude

Resenhas:
“Jordan dominou o mundo que Tolkien começou a revelar”
The New York Times

“Épico em todos os sentidos”
THE TIMES

“Em raríssimas ocasiões, escritores muito talentosos conseguem criar mundos que transcendem a fantasia, mundos que se tornam realidades. Robert Jordan o faz.”
MORGAN LLYWELYN – escritora irlandesa de literatura fantástica

Leia um excerto de O Olho do Mundo


‘FALLEN’: VÊM AÍ MAIS ANJOS COMBATENDO O CRIME – AGORA NA TV

terça-feira | 29 | setembro | 2009

John Glenn será o roteirista do drama sobre anjos caídos

A 20th Century Fox contratou o roteirista John Glenn (Controle Absoluto) para escrever a série dramática Fallen.

O projeto é uma parceria da Fox com a produtora Chernin Co., descrito como um drama que gira em torno de um grupo de anjos caídos que combatem criminosos e corruptos em Nova York, sem deixar de se apaixonar, lutar contra demônios e ir em busca de suas próprias vinganças pessoais.

Parece que os anjos são mesmo a próxima moda – tem os de Legion, os do romance Hush, Hush, de Becca Fitzpatrick, previsto para o fim do ano…

Glenn também entra como produtor-executivo, ao lado de Peter Chernin e Katherine Pope, diretor de TV da Chernin Co. Além de Fallen, a produtora também tem uma comédia do roteirista Bobby Bowman (Uma Família da Pesada, My Name is Earl) em desenvolvimento na Fox.
>> OMELETE – por Carina Toledo


CHINA MIÉVILLE: ESTE É O CARA (QUE VOCÊ NÃO CONHECE)

sábado | 26 | setembro | 2009

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China Miévile. Não, não é pseudônimo. E o sujeito também não é descendente do autor de Moby Dick (que, vamos nos lembrar, tinha o sobrenome Melville e que nos deixou como descendente um dos mestres da música eletrônica, Richard Melville Hall, mais conhecido como Moby, mas esta é outra história).

Google him. Procure o sujeito no Google, em bom português anglicizado. E o que você vai encontrar, se procurar no Google Images, é a foto e um sujeito careca, cheio de piercings na orelha esquerda, musculoso e com cara de skinhead.

Mas diz o antiqüíssimo ditado: não se julga um livro pela capa. De skinhead hooligan Miéville não tem nada: formado em Antropologia Social por Cambridge em 1994, com Mestrado e Doutorado em Relações Internacionais pela London School of Economics, Miéville atualmente é professor de creative writing na Warwick University. Trotskista de carteirinha e membro do Partido Socialista Inglês, concorreu em 2001 a um cargo na Câmara dos Comuns (não ganhou).

E, além disso tudo, é escritor. Dos bons.

Mas por que você nunca ouviu falar em China Miéville? É algo um tanto estranho, principalmente se levarmos em conta que o sujeito tem 37 anos, ou seja, é da mesma geração de Nick Hornby, Neil Gaiman e Will Self (na verdade, um pouco mais novo, mas quem está contando?), todos estes publicados no Brasil e sucessos de público e crítica. É cool ler pelo menos um desses autores (pensando bem, talvez não Neil Gaiman, porque é autor de quadrinhos e de roteiros para cinema – quem viu a constrangedora entrevista de Edney Silvestre com Gaiman na Globonews, gravada na FLIP em 2008, vai entender do que estou falando).

China Miéville escreveu até agora seis romances e uma coletânea de contos. Começou com King Rat (1998), e logo em seguida iniciaria o que ficaria conhecido como o Ciclo de Bas-Lag (um mundo próprio, que não é a Terra, e que não se explica se é um outro planeta, uma outra dimensão, um universo paralelo – e isso não é importante): Perdido Street Station (2000), The Scar (2002), Iron Council (2004). Em 2005, Miéville lança uma coletânea de contos, Looking for Jake, que contém uma história de Bas-Lag, e em 2007 o infanto-juvenil Un Lun Dun, com ilustrações do autor. No dia 15 de maio de 2009, Miéville vai lançar no Reino Unido (e no dia 26 de maio nos EUA) um livro que está sendo esperado com ansiedade por fãs e críticos há anos, e tem tudo para se equiparar a Perdido Street Station em status cult: The City & the City.

Perdido Street Station está se tornando a passos largos um cult underground no Brasil. Primeiro apenas entre fãs mais empedernidos de ficção científica e fantasia – e todos sabemos o que isso significa. A marca de Caim indelével do sujeito que, como o Sheldon de Big Bang Theory, só usa camisetas de super-heróis, tem tiques esquisitos e vive discutindo (normalmente em altos brados) que este ou aquele filme de Jornada nas Estrelas é horrível porque se afasta da cronologia da série original, que afinal de contas precisa ser respeitada a todo custo, etc. etc. etc. Enfim, fanboys – pessoas de quem os ditos “normais” fogem com mais rapidez do que da gripe suína.

Mas Perdido Street Station furou esse cordão sanitário, essa barreira, como queiram, em pouco tempo. E agora já está sendo lido até mesmo por escritores brasileiros respeitados e tidos como cult.

Eu poderia passar a maior parte deste texto explicando diversas teorias pelas quais um livro ganha popularidade, mas o caso é que aí eu estaria escrevendo um texto de ficção (talvez até científica). Porque essas teorias são todas furadas. Sucesso não se explica. O sucesso existe – toda explicação é retroativa.

O que eu posso dizer pela minha experiência de escritor, tradutor e principalmente de leitor é que Perdido Street Station me pegou pelos colhões porque é cheio de vida. O que é que você pode dizer quando abre as páginas de um livro que te mostra uma cidade tecnorrenascentista habitada por humanos e alienígenas, com sexo interespécies, cientistas em busca dos segredos do voo através de estudos de contenção de energia taumatúrgica usando a teoria do caos como base, políticos do nosso plano de realidade negociando com embaixadores infernais, greves de trabalhadores humanos e aliens e polícia comendo todo mundo na porrada – como em qualquer universo que se preze, porque o mundo de Perdido Street Station tem homens-pássaro, homens-cacto, mulheres-inseto, mas não tem unicórnio nem bichinho bonitinho.

É um mundo de trabalhadores, imigrantes, ladrões e prostitutas. É um mundo de violência e sangue. É um mundo quase igual ao nosso, só que diferente. Perdido Street Station foi publicado originalmente como Fantasia, o mesmo rótulo de gênero ao qual pertencem clássicos como O Senhor dos Anéis, de J.R.R.Tolkien, ou a série Harry Potter, de J.K.Rowling.

E no entanto não é nada disso.

O romance de estreia de Miéville prestou uma homenagem a autores clássicos de horror como H.P.Lovecraft e Robert Howard (autores de pulp fiction nas décadas de 1920 e 1930 e criadores da chamada Weird Fiction, ou, numa tradução literal, ficção bizarra). Mas adicionou à mistura, neste mundo pós-moderno (ou de modernidade líquida, como queiram), muitos outros autores, como Borges, Gramsci e Marx, John Reed, e escritores de fantasia pós-Tolkien como Mervyn Peake (autor da trilogia Gormenghast, bem mais adulta e sombria que O Senhor dos Anéis, e que não tem a menor previsão de lançamento no Brasil) e M. John Harrison (este ainda vivo, e cujo livro Viriconium, escrito na década de 1970, influenciou ativamente o estilo de Miéville – preciso dizer que Harrison também é desconhecido por estas bandas?)

Em 2003, numa lista de discussão na web (cujos apontamentos foram documentados na coletânea de contos e ensaios inéditos The New Weird, publicada em 2008), Harrison e outros escritores, ao se referirem ao trabalho de Miéville, consolidaram o termo New Weird Fiction, que já andava sendo utilizado aqui e ali havia algum tempo, mas sem muito rigor.

Para eles, New Weird Fiction era um retorno ao tipo de fantasia com horror que se lia nos tempos da revista norte-americana pulp Weird Tales (a mesma que publicava Lovecraft e Howard).

A diferença era que desta vez havia, ao contrário dos autores da velha onda, uma preocupação com a linguagem e com a construção de personagens tridimensionais e coerentes.

Em um artigo escrito para o jornal britânico The Guardian em 2004, Miéville se declara um completo “control freak”. Aliás, se ele ainda não tem uma grande fortuna crítica, só o fato de merecer espaço num dos mais conceituados jornais britânicos já deveria ser motivo suficiente para ficarmos de olho no sujeito. O rigor com que Miéville constrói sua linguagem e seus personagens é do nível de um Martin Amis, William Golding, Hanif Kureishi, apenas para ficarmos em autores britânicos mainstream relativamente recentes.

Como disse o jornalista José Castello recentemente a respeito de Leite Derramado, de Chico Buarque, literatura é invenção. Mas Castello acha que o ápice da invenção é o Chico. Com o devido respeito, Castello (e eu te respeito pra burro, você é um dos meus críticos favoritos), não é não. Já tem uma pá de autor brasileiro tentando fazer (e alguns até conseguindo) o que Miéville faz em seus livros.

Os outros livros do ciclo de BasLag abordam outras partes desse estranho mundo: The Scar é uma história de piratas – mas não esperem Jack Sparrow e piadinhas engraçadinhas. Como Perdido…, The Scar tem muita sujeira e sangue. É uma versão marinha do livro mais famoso de Miéville. Iron Council é,  surpreendentemente, a versão areia. É um western. Com criaturas bizarras e fantasmagóricas, mas com muito deserto e cactos (e homens-cacto, como em Perdido Street Station).

The City & The City não se passa em Bas-Lag, mas numa versão paralela de nosso próprio mundo, na cidade fictícia de Beszel, em algum lugar do leste europeu. Ali, o que seria um simples assassinato de rotina para o Inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Radicais, se torna a ponta de um iceberg muito maior, que revela conspirações estranhas e incompreensíveis. Borlú terá de viajar de Beszel à única metrópole na Terra mais estranha que a sua própria, a cidade de Ul Qoma, cujas fronteiras precisam ser atravessadas não só física como psiquicamente.

Outra prova do talento e do rigor de Miéville neste livro é o esforço que ele faz para emular o pidgin English – o inglês “porco” de um falante do Leste Europeu que não tem o inglês como idioma nativo e que precisa pensar antes de enunciar.

Com ecos de Borges e Kafka, e borrifos de Marcel Schwob e Ítalo Calvino, este livro promete atrair os nãonerds – e mostrar também para eles que um livro não se julga pela capa, nem um autor pelo seu público.
>> CADERNOS DE NÃO FICÇÃO – por Fábio Fernandes


H.P. LOVECRAFT ENCONTRA MONSTROS EM NOVO PROJETO DE RON HOWARD

sábado | 26 | setembro | 2009

Diretor irá adaptar HQ que mistura fantasia
com biografia do mestre das histórias de horror

O diretor Ron Howard (Frost/Nixon) falou esta semana ao LA Times, sobre um de seus novos projetos, a adaptação da graphic novel The Strange Adventures of H.P. Lovecraft, escrita por Mac Carter e Jeff Blitz. O projeto está em desenvolvimento na Universal Pictures e será algo novo para o diretor, que nunca dirigiu uma adaptação de quadrinhos.

“Olha, é desafiador, mas se der certo este filme pode ser muito original e interessante do ponto de vista psicológico, além de assustador de um jeito ótimo. Uma graphic novel é território novo pra mim,” declarou o diretor. “Eu tenho uma meia dúzia de projetos em andamento, em fase de roteirização, então eu estou basicamente esperando que os textos fiquem prontos. Cada uma dessas ideias tem algo que eu amo. Teremos que ver o que vai virar realidade, mas eu não gostaria de abandonar nenhum projeto, então talvez eu já tenha trabalho para os próximos cinco anos.”

A minisérie de quadrinhos da Image Comics foi lançada nos EUA em abril deste ano e mostra o consagrado autor de terror Howard Phillips Lovecraft ainda jovem. A trama passa por momentos como a luta da família contra doenças mentais e seus bloqueios criativos – tudo misturado com fantasia, quando uma antiga maldição começa a transformar seus piores pesadelos em realidade. O tímido e desavisado escritor ganha então um incrível poder de destruição e é a única pessoa que pode combater o mal que ele mesmo libertou. A história é descrita como parte biografia, parte história de horror e parte thriller de fuga. A Universal encara essa premissa como uma chance de usar no filme seu quarteto de monstros clássicos: Drácula, Frankenstein, A Múmia e Lobisomem.

A produção é da Imagine Entertainment, empresa de Howard. O roteiro foi adaptato por Carter, que assim como Blitz tem experiência como diretor de comerciais. Ambos autores serão produtores do filme.
>> OMELETE – por Carina Toledo


‘MACANUDO 2′ e ‘SHENZHEN’: NOVIDADES DA ZARABATANA

sábado | 26 | setembro | 2009

A Zarabatana Books anuncia dois novos lançamentos para as próximas semanas. O primeiro deles é o segundo volume de Macanudo, do argentino Liniers. O outro é Shenzen: Uma Viagem à China, de Guy Delisle, o mesmo autor de Pyongyang: Uma Viagem à Coréia do Norte e Crônicas Birmanesas, obras já lançadas pela Zarabatana.

Confira os releases oficiais:
Macanudo2_CAPAHumor, crítica de costumes, nonsense, poesia. Cada tirinha da história em quadrinhos do argentino Liniers é uma surpresa e um deleite. O autor continua a tradição dos grandes desenhistas de humor argentinos, como Quino e Maitena. Em Macanudo desfila uma imensa galeria de personagens insólitos e divertidos: a menina Enriqueta, com seu gato Fellini e o ursinho de pelúcia Madariaga; Z-25 – o robô sensível; o senhor que traduz os nomes dos filmes; centenas de duendes e pinguins; homens de chapéu e seres estranhos; e tudo o mais que brotar da imaginação do autor e tiver algo para dizer.

Somando-se a esses, Macanudo #2 introduz alguns dos mais famosos personagens do autor: a Vaca Cinéfila; Oliverio, a Azeitona; e o Misterioso Homem de Preto. Com uma obra que é grande sucesso de vendas na Argentina – com mais de dez livros publicados –, e com edições em francês e inglês, Liniers e o universo de Macanudo vem conquistando o leitor brasileiro com os livros da Zarabatana Books.

Macanudo #2 tem 96 páginas em cores, formato 21 x 21 cm e custa R$ 35,00.

Shenzhen_CAPAShenzhen é um cativante relato de viagem em história em quadrinhos que traz as observações de Guy Delisle sobre a vida nessa fria cidade do sul da China, situada ao lado de Hong Kong, e isolada do resto do país por cercas elétricas e vigiada por guardas armados. Trabalhando para uma empresa europeia de animação que terceiriza o trabalho para estúdios asiáticos, o autor nos narra sua experiência de vida no trabalho, na relação com as pessoas e também nos mostra os costumes do país.

Shenzhen foi a primeira região da China a ser declarada Zona Econômica Especial, e é um dos locais onde grande parte da população chinesa almeja morar e trabalhar: em poucas décadas, a pequena vila de pescadores se transformou em uma megalópole de 14 milhões de habitantes. Este crescimento acelerado e dirigido, voltado exclusivamente para os negócios, tornou-a uma cidade fria e impessoal, o que é sentido na pele por Delisle. A solidão de expatriado é uma constante na vida do autor, que realiza experimentos e brincadeiras para tornar sua permanência de três meses na cidade um pouco mais suportável. O leitor vai desvendar um pouco de uma China desconhecida, que é observada e relatada com sensibilidade, ironia e humor por Guy Delisle.

Shenzen: Uma Viagem à China tem 160 páginas em preto e branco, formato 16 x 23 cm e custa R$ 32,00.

A Zarabatana Books é uma editora de Campinas que iniciou as atividades em 2006, publicando o álbum O Prolongado Sonho do Sr. T. Sua proposta é publicar obras de artistas mundiais que se destaquem pela qualidade e originalidade.


‘DAYTRIPPER’, DE MOON E BÁ, SAIRÁ EM DEZEMBRO

sábado | 26 | setembro | 2009

Fabio&Gabriel_Daytripper2A DC Comics divulgou sua lista de lançamentos para dezembro e um dos destaques é Daytripper, do selo Vertigo, dos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá.

O release da editora lista alguns dos autores com quem a dupla já colaborou (Mike Mignola, Joss Whedon, Matt Fraction, Gerard Way) e menciona o fato de eles terem sido incluídos na lista Top 100 da Entertainment Weekly.

Daytripper terá dez partes escritas e ilustradas por Bá e Moon, com colorido de Dave Stewart.

O personagem principal é Brás de Oliva Domingos, um escritor de óbitos que odeia o seu emprego e tem um pai famoso. O destino reserva muitas surpresas para Domingos.

Daytripper #1 será lançado no próximo dia 9 de dezembro.
>> UNIVERSO HQ – por Sérgio Codespoti


‘MUITO ALÉM DOS QUADRINHOS’ NA HQMIX LIVRARIA

sábado | 26 | setembro | 2009

Neste sábado, dia 26 de setembro, a partir das 19:30 horas, acontece na HQMix Livraria, o lançamento do livro Muito Além dos Quadrinhos – Análises e Reflexões sobre a 9ª Arte, organizado pelos professores Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos.

Muito Além dos Quadrinhos é uma coletânea organizada por Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos com artigos sobre quadrinhos, escritos por estudiosos da área. O livro reúne pesquisas e ensaios ricos em informações sobre diversos assuntos relacionados com as HQs e representa uma proposta ousada e uma aposta no futuro. Ousada por buscar fazer algo muito pouco comum no país, aprofundar o estudo de vários aspectos ligados às histórias em quadrinhos com uma visão acadêmica.

E representa uma aposta no futuro por entender que o mercado brasileiro está maduro para esse tipo de obra, em virtude, principalmente, das características do leitor atual de histórias em quadrinhos, do mercado distribuidor e dos produtos atualmente elaborados com o uso da linguagem gráfica seqüencial.

O espectro de temas é intencionalmente plural. Das distinções do terror brasileiro e do norte-americano à independência feminina conquistada pela personagem Margarida .

Dos quadrinhos produzidos para fins corporativos à migração de diferentes Batmans nas mídias televisiva e quadrinística. Da história brasileira à história argentina. Da visão que os norte-americanos têm do Brasil ao uso de gírias e ao caráter regional das histórias em quadrinhos produzidas no país.

O livro será lançado no dia 26 de setembro, sábado, a partir das 19:30, na HQMix Livraria , Praça Roosevelt  nº 142 – Centro – São Paulo – SP.

O lançamento contará com a presença dos nove autores presentes nesta coletânea.

Vejamos a seguir, os temas de cada um dos artigos e seus atores:
Margarida no Brasil: retrato de uma mulher pós-moderna , de Agda Dias Baeta que é bacharel em Comunicação Social com habilitação em Propaganda e Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing , de São Paulo. Especialista em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo ( USP ).

A história em quadrinhos e a imagem como informação: a coexistência da ficção e da realidade , de Alexandre Barbosa que é mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP . Atua como ilustrador, chargista e professor universitário. Colaborou no livro Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula .

Heróis no Brazil: uma (des)caracterização do espaço geográfico brasileiro , de Angela Rama que é especialista em Ensino de Geografia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo ( PUC-SP ) e mestre em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP . Atua como professora nas redes de ensino pública e particular, e como palestrante em cursos de formação de professores. Também colabora com editoras de livros didáticos, prestando assessoria pedagógica e produzindo textos, atividades e leituras críticas. Co-organizou o livro Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula.

Um encontro de grafismos nos Pampas: breve histórico das histórias em quadrinhos na Argentina , de Eloar Guazzelli que é mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP . Ilustrador e desenhista de histórias em quadrinhos.
É autor dos álbuns O Primeiro Dia e O Relógio Insano , vencedor do Troféu HQMix na categoria melhor edição independente de 2007. Também adaptou para os quadrinhos a peça O Pagador de Promessas . Em 2006, obteve o primeiro lugar no concurso de quadrinhos e ilustração do jornal Folha de São Paulo .

Batman de Beethoven: um olhar sobre as adaptações televisivas do Homem-Morcego , de Fernando de Oliveira Mafra que é bacharel em Desenho Industrial com ênfase em Programação Visual pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo , onde apresentou como TGI (Trabalho de Graduação Interdisciplinar) a revista em quadrinhos Defensores de Paraty , um protótipo de projeto educativo.
Lecionou artes com foco em histórias em quadrinhos para deficientes mentais e físicos na Estação Especial da Lapa . Contribuiu com a edição especial de mangás da revista Quadreca , da ECA-USP com o artigo Japão, uma nação de hentai? . Atualmente, atua em design gráfico e para web no umstudio.com .

O caipira de todos nós: a construção do sentido de um tipo brasileiro nos quadrinhos , de Gêisa Fernandes D´Oliveira que é mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco . Doutoranda em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP . Tem artigos sobre histórias em quadrinhos publicados em vários periódicos nacionais. Atua também como professora de alemão, cantora e compositora.

O uso da gíria nas histórias em quadrinhos , de Paulo Ramos que é jornalista e Doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP . Professor adjunto do curso de Letras da Universidade Federal de São Paulo ( Unifesp ).
Foi docente dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas na Universidade Metodista de São Paulo . Trabalhou nas TVs Cultura e Tribuna (afiliada da TV Globo , no litoral sul paulista), na Folha de São Paulo e no portal UOL . Mantém na internet o Blog dos Quadrinhos , página jornalística sobre temas ligados a histórias em quadrinhos. Colaborou no livro Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula e é autor de A Leitura dos Quadrinhos .

Influências religiosas e sobrenaturais nos quadrinhos nacionais de terror, de Túlio Vilela que é bacharel e licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP . É professor da rede pública de ensino do Estado de São Paulo.
Tem resenhas e artigos sobre quadrinhos publicados em periódicos do Brasil e do exterior. Escreveu roteiros de quadrinhos para a Editora Abril e teve vários cartuns de sua autoria expostos em salões de humor nacionais. Colaborou no livro Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula .

Quadrinhos e educação popular no Brasil: considerações à luz de algumas produções nacionais, de Waldomiro Vergueiro que é professor titular do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da USP . Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação por essa mesma escola. Realizou pós-doutorado na Loughborough University of Technology (Inglaterra) e na Universidade Carlos III de Madrid (Espanha).
Coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP . Autor de diversos livros na área de Biblioteconomia e Documentação e de Histórias em Quadrinhos, destacando-se a coorganização de Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula , e O Tico-Tico: centenário da primeira revista de quadrinhos do Brasil . Autor de La Historieta Latinoamericana. Tomo III: Brasil , publicado na Argentina. Tem artigos publicados em periódicos especializados sobre histórias em quadrinhos, como o International Journal of Comic Art e a Revista Latinoamericana de Estúdios de la Historieta .


FANTASTICON 2009: “AS HISTÓRIAS DESCONHECIDAS DE EDGAR ALLAN POE”, PALESTRA DE BRÁULIO TAVARES

quinta-feira | 24 | setembro | 2009

É com grande satisfação que a TV Cronópios apresenta, para os seus seguidores, a palestra de encerramento do evento Fantasticon 2009 – Simpósio de Literatura Fantástica, organizado por Silvio Alexandre, em uma realização da Biblioteca Pública Viriato Corrêa, do Sistema Municipal de Bibliotecas e da Secretaria Municipal de Cultura. Com o apoio do GELF (Grupo de Estudos de Literatura Fantástica), da Fly Cow Produções Culturais, da Cálamo Editorial, do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica), da OPELF (Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica) e da TV Cronópios.

A proposta é que todas as atividades do Fantasticon 2009 sejam colocadas no ar o mais breve possível. Os vídeos serão soltos conforme a sua edição tenha sido finalizada.

As Histórias Desconhecidas de Edgar Allan Poe
Apresentação: Bráulio Tavares

Sinopse: Narrativas científicas, misteriosas, permeadas de terror, horror, suspense, policialescas, Edgar Allan Poe carrega nas costas o título de criador de vários gêneros literários. Poe foi responsável não somente por influenciar alguns dos escritores decisivos das décadas seguintes, bem como por estabelecer com propriedade caminhos novos e férteis para a literatura ocidental do então século XIX. Recordando os 200 anos do seu nascImento, o escritor Bráulio Tavares está preparando uma antologia com contos pouco conhecidos de Poe. Nesta palestra, ele falará sobre essas histórias e de como Poe elevou o conto como gênero.

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de “A Espinha Dorsal da Memória”, “A Máquina Voadora” e “Anjo Exterminador” (todos pela Rocco). Organizou as antologias “Freud e o Estranho”, “Contos Fantásticos no Labirinto de Borges” e “Páginas de Sombra”; (todos pela editora Casa da Palavra).

Produção/vídeo: Egle Spinelli, Thiago Augusto e Pipol.

Assista agora | Clique aqui

Link: http://www.cronopios.com.br/tv-cronopios-palestras/braulio_tavares.html


“2012 ONDA ZERO”: UMA WEBSÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA FEITA NO BRASIL

quarta-feira | 23 | setembro | 2009

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“2012 – Onda Zero” é a primeira websérie brasileira de ficção científica recheada de elementos de aventura, romance e mistério. Ela narra a história de JP, um jovem de 23 anos que passa a sofrer com um evento estranho relacionado com o fim do mundo.

O episódio 1 de 2012 Onda Zero, de 7:47 min, já está no site. Confira!

Enredo: A saga de pessoas comuns envolvidas em mistérios e acontecimentos bizarros relacionados ao mito e significados atribuídos ao ano de 2012. Ciência, religião, filosofias e governos ligados por conspirações, a busca da verdade e fé que podem levar a destruição do mundo como conhecemos ou a transformação da realidade de uma forma jamais vista em nossa civilização.

Produção e Direção: FLAVIO LANGONI
Roteiro: WAGNER RIBEIRO – PACHA URBANO – FLÁVIO LANGONI
Produção Executiva: ALESSANDRA PINESCHI – CESAR SARAT
Fotografia: MARCELO SARAMAGO
Trilha Sonora: HYDRIA
Efeitos Especiais: KILMERSON
Edição: CHARLES ALEXCHAIVIKE
Computação Gráfica: DANIEL MARQUES – MARLON LANGONI

Abaixo você confere dois spots que mostram um pouco do que veremos:

Spot #1 da Websérie 2012 Onda Zero

“Dois jovens… um amor e um fim inevitável”

Spot #2 da Websérie 2012 Onda Zero

“Dois jovens… um amor e um fim inevitável”


QUYMERA: SELO DA DEVIR PUBLICA “RUMO À FANTASIA”

quarta-feira | 23 | setembro | 2009

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A Devir Livraria, editora de São Paulo, está colocando nas livrarias do Brasil a antologia internacional *Rumo à Fantasia* (196 págs. R$ 24,50), editada por Roberto de Sousa Causo com histórias de Ambrose Bierce (EUA), Braulio Tavares (Brasil), Daniel Fresnot (Brasil), Jean-Louis Trudel (Canadá), Rosana Rios (Brasil), Eça de Queiroz (Portugal), Cesar Silva (Brasil), Orson Scott Card (EUA), Anna Creusa Zacharias (Brasil), Bruce Sterling (EUA), Gian Danton (Brasil), e Ursula K. Le Guin (EUA). Essa antologia de contos que inaugura um novo selo da Devir, destinado à literatura de fantasia: Quymera.

Aventuras de espada & feitiçaria, duelos de magos, fábulas urbanas ou utópicas, jornadas além da morte… Narrativas que exploram diferentes facetas do gênero fantasia, indo de Ambrose Bierce a Bruce Sterling, de Eça de Queiroz a Braulio Tavares. Autores do passado e do presente, em histórias que exploram diferentes paisagens.

As histórias de Bierce e de Le Guin estão no Hall da Fama da Fantasia, e o conto dela recebeu o Prêmio Hugo 1974. A história de Sterling foi selecionada para várias antologias dos melhores contos de fantasia de 2005.


FICÇÃO EM 1º GRAU

quarta-feira | 23 | setembro | 2009

Começa nesta próxima quinta, 24, em Quixadá e Quixeramobim, a filmagem de “Área Q”, ficção-científica de Halder Gomes e Gerson Saginitto sobre a “presença” de OVNIs e seres extraterrestres nestes municípios. O Caderno 3 de hoje investiga o tema

Foram meses de preparação: formatação do o roteiro, negociações com os atores americanos e brasileiros e os parceiros nacionais e estrangeiros, seleção do elenco local, montagem da equipe técnica, a escolha de locações. Ainda há parcerias a serem fechadas, mas, finalmente, começa no próximo dia 24, em Quixadá, a filmagem de “Área Q”, ficção científica que aborda o “aparecimento” de Objetos Voadores não Identificados (Ovnis) nas cidades de Quixadá e Quixeramobim. Com produção do cearense Halder Gomes (“No Calor da Terra do Sol” e “The Morgue”), o longa terá direção do carioca, radicado nos Estados Unidos, Gerson Saginitto, além de elenco incluindo atores nacionais e internacionais.

A história trata da aparição de discos voadores em Quixadá e Quixeramobim (daí o título, “Área Q”), para muitos um mero exercício de fantasia, para outros, em geral daquela região, uma série de eventos reais, que incluem casos de abdução e outros “contatos”entre humanos e alienígenas. Halder esconde os detalhes do enredo, mas dá pistas. “As várias formas de relatos de contatos imediatos no mundo inteiro descrevem os seres extraterrestres com as mais diversas intenções em relação à espécie humana e ao planeta Terra, seja para o bem ou para o mal”, sugere. “Optamos por contar uma história sobre seres mais evoluídos tecnologicamente, culturalmente; seres iluminados, mais interessados na essência humana do que em experimentos científicos com seus corpos. São seres que foram atraídos não por radio telescópios, uma tecnologia obsoleta para eles, e sim pelas ondas de energia emitidas pela força de nossas atitudes. Estão interessados em saber que espécie é esta que, ao mesmo tempo em que mostra a capacidade de ser extremamente solidária e caridosa, é igualmente capaz de fomentar guerras e matar seus semelhantes de forma brutal e impiedosa”, diz. “No argumento, expressamos essa busca pela compreensão humana de que reside no estágio evolutivo o destino da humanidade. Com a violência, a desigualdade, o preconceito, o seu possível caminho será a autodestruição, e antes mesmo de possuir uma tecnologia capaz de deixar o planeta quando este não nos servir mais como morada. Em resumo, os seres que mostramos são aqueles preocupados com a nossa estupidez”, acrescenta.

Halder relembra o fato de a escritora Rachel de Queiroz, nascida em Quixadá, ter escrito um relato impressionante para a revista “O Cruzeiro”, na década de 60. “O relato dela nos inspirou na concepção da tonalidade de cores das luzes das naves extraterrestres”, revela. No argumento, Quixeramobim e Quixadá tornaram-se quase personagens da história, pois o trabalho de pesquisa enfoca essencialmente relatos já conhecidos e discutidos, tanto pela população, quanto por cientistas. A ficção captaria, então, realidades, segundo alguns.

“Elaboramos uma história densa, envolta em mistério e suspense, com foco no desconhecido. Ela ainda conterá uma forte ambigüidade entre a religiosidade e a ufologia. Não esquecemos que o tema engloba questões filosóficas sobre a humanidade e a espiritualidade sob o aspecto da pluralidade dos mundos, paralelos e de estágios de evolução. Em síntese, será um filme diferente ao formular uma mensagem de paz para um planeta perdido em seus valores humanitários”, complementa o produtor.

Para a elaboração da história, houve uma extensa pesquisa. “Cara, valeu de tudo: jornais, revistas especializadas em discos voadores e científicas, entrevistas com moradores de Quixeramobim e Quixadá, enfim, ampliamos o leque e acreditamos que não tenha ficado alguma coisa de fora. Nós nos deparamos com teorias que ajudaram nos diálogos e motivações dos personagens. Um deles fala de possíveis casos de testes nucleares feitos por americanos na década de 50 nos céus do que chamamos de Área Q. O documentário ´Labirinto´, dos colegas Tibico Brasil e Margarita Hernandez, também foi uma rica fonte de pesquisa”, expõe o cineasta cearense, confirmando todo o seu empenho.

A direção será de Gerson Saginitto, carioca que, desde 2000, atua nos estúdios independentes de Hollywood como assistente e coordenador de produção, roteirista, diretor de segunda unidade, produtor e diretor (“The TV Broke”, 2006; “Beyond the Ring”, 2008). Sanginitto, que co-dirigiu “The Morgue”, com Halder Gomes, acaba de finalizar “Commander and Chief”, com C. Thomas Howell (de “A Morte Pede Carona”) e Candice Patton. “Fiz com o Howell ainda um trhiller de ação, ´´Big Game´. Já ´Área Q´ eu classifico como um drama de ficção científica, ela funciona como um plano de fundo. O mote é um pai à procura de um filho. A ficção científica é meu gênero favorito. Considero um desafio por ser uma coisa inovadora, no próprio cinema nacional”, diz o “film-maker”, classificação que cabe também a Halder, um realizador de filmes que vem rompendo barreiras. Os dois diretores escreveram o roteiro de “Área Q” juntos.

Em novos horizontes

Halder Gomes revela que gostaria de contar com o apoio da Secretaria de Turismo, pois o filme terá 90% do enredo filmado no interior do Estado e tem a garantia de exibição no mercado internacional por se tratar de uma co-produção entre EUA (Reef Pictures e Woodland Hills) e Brasil (ATC Entretenimentos, Estação da Luz e Boa Vontade Filmes). Uma boa oportunidade, segundo ele, para expor o potencial turístico do Estado. “Vamos mostrar o sertão com outra visão, mística e científica, sob o olhar daquela região, bastante visitada por turistas e pesquisadores de todo o mundo. Tudo isso com locações fantásticas, como a Pedra da Gaveta, em Quixeramobim, e os monólitos de Quixadá, além de apresentar tudo isto com uma linguagem nossa, quando for pertinente”, conta o diretor ainda do premiado curta “O Astista contra o Cabra do Mal”, falado em bom “cearensês”.

Cercada de todos os cuidados para ser uma produção de qualidade, “Área Q” contará com atores norte-americanos e brasileiros. Os principais papéis serão ocupados pelo norte-americano Isaiah Washington (de “Crime Verdadeiro”, de Clint Eastwood, e da conceituada série de TV “Grey´s Anatomy”), Murilo Rosa (de “A Orquestra de Meninos”) e Tania Khalil, recém saída da novela “Caminho das Índias” e estreando no cinema. No elenco local, destaques para os cearenses Karla Karenina, Leuda Bandeira, Maria Fernanda Mota, Hiramisa Serra e Sol Morfeur.
>> DIÁRIO DO NORDESTE – por PEDRO MARTINS F./HENRIQUE NUNES


STEAMPUNK: FANTÁSTICA JORNADA NOITE ADENTRO

terça-feira | 22 | setembro | 2009

 
Evento imperdível para todos os apreciadores da estética Steampunk. Marquem nas agendas esta data: 27 de novembro. É neste dia – ou melhor naquela noite -, a partir das 22h, que tem início a Fantástica Jornada Noite Adentro.

Fruto de uma pareceria entre o sempre citado Conselho Steampunk, Sílvio Alexandre – organizador do Fantasticon – Simpósio de Literatura Fantástica, Confraria das Ideias e Biblioteca Pública Viriato Corrêa - – esta parece ser a ocasião perfeita para que os diversos seguidores da cultura steamer se atualizem em termos de moda, literatura, jogos, cinema e as mais variadas manifestações do gênero.

Vou deixá-los logo abaixo com a chamada feita na Loja São Paulo do Conselho, cidade em que vai ocorrer o evento. Para mais detalhes da programação, só conferindo o endereço eletrônico dos nobres associados.
>> CIDADE PHANTASTICA – por Romeu Martins

Há muito tempo, vários de nossos confrades tem sentido a falta de um evento que elenca-se as várias formas de manifestação da cultura steampunk, atrações que convergissem no objetivo do Conselho Steampunk em divulgar este gênero. Assim, Silvio Alexandre, organizador do Fantasticon (Simpósio de Literatura Fantástica) e o Conselho têm a honra de anunciar a “Fantástica Jornada Noite Adentro Steampunk”!

A Jornada é um evento promovido pela Biblioteca Pública Viriato Corrêa (Temática de Literatura Fantástica) e entre os conspiradores estão, também, os membros da Confraria das Idéias! O evento atravessa a madrugada apresentando esquetes de teatro, bate-papo, exibição de filmes e RPG live-action.

A Jornada começará às 22 horas, no dia 27 de novembro, com um desfile de moda Steampunk, e segue entre braços mecânicos, goggles, lasers e vários intervalos para o chá até às 6 da manhã, quando será servido um suculento café da manhã. O evento é gratuito! Caros confrades, não percam esta oportunidade! Este também é o momento para adquirir o livro “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário” da Tarja Editorial.


“FUTURO PRESENTE”: EQUÍVOCOS DE CIÊNCIA E DE FICÇÃO CIENTÍFICA

terça-feira | 22 | setembro | 2009

FUTURO PRESENTE_capa

Há muito tempo, nenhuma grande editora mostrava interesse por contos de ficção científica, muito menos de autores nacionais. Como apreciador inveterado do gênero, foi com muita boa vontade que este colunista abordou a antologia Futuro Presente, da Record (416 páginas R$ 49,90), organizada por Nélson de Oliveira, escritor premiado, doutor em letras e respeitável crítico literário. E, infelizmente, constatou que a organização da edição não levou em conta que uma boa escrita não garante uma boa ficção científica. Há agradáveis exceções, mas muitos dos 18 contos são decepcionantes. 

Como qualquer literatura, a ficção científica precisa ser, em primeiro lugar, legível. De pouco adianta ter boas ideias sem saber expressá-las adequadamente. Mas, diferentemente do que se espera em outros gêneros e correntes – principalmente as que exercitam a habilidade de desbanalizar o quotidiano –, na literatura de especulação a qualidade da expressão não é um fim em si mesmo. Deve estar a serviço da qualidade da especulação, principalmente se esta se diz ou quer científica, da habilidade de apresentar um cenário inusitado de maneira coerente e explorar suas consequências. 

Para um fã de ficção científica, um conto no qual se demonstra completo alheamento do conhecimento científico corrente ou dos métodos da ciência é tão desagradável quanto é para qualquer apreciador de literatura em geral deparar-se com erros grosseiros de ortografia, gramática e narrativa, ou com palavras usadas de maneira pernóstica e errada. 

Entenda-se bem: não se trata de esperar de um ficcionista o rigor de um artigo especializado publicado em uma Science ou Nature, ou a capacidade de discorrer sobre pesquisas científicas de ponta. Quer-se apenas uma razoável consciência do que é ou não plausível, do tipo que se espera de todo estudante que tenha concluído o ensino médio e é possível conseguir de leituras ocasionais de livros e revistas de popularização científica. 

Claro também que, tratando-se de ficção especulativa, é possível e desejável ir além do cientificamente comprovado e imaginar tecnologias ainda não existentes, postular mundos não descobertos, supor a existência de forças, materiais e realidades ainda não suspeitadas. Mas é como inovar na língua: há uma diferença imensa entre o escritor que conscientemente cria neologismos, recorre a licenças poéticas, reinventa a gramática e experimenta com artifícios inusitados de narrativa e aquele que simplesmente não sabe escrever. 

Um autor de ficção científica deve ter uma boa noção das ciências naturais ou sociais com as quais pretende jogar. Se quiser escrever sobre algo hoje tido como cientificamente impossível – como, digamos, a existência de uma civilização em Marte ou uma origem extraterrestre da humanidade –, deve estar consciente disso e preparado para tornar a especulação interessante e ficcionalmente verossímil. 

Não é o que se vê, por exemplo, em Aníbal, conto da escritora paulista Andrea del Fuego que abre a coletânea. Em tom de parlenda, usa termos científicos por pura brincadeira, uma criança a divertir-se com sons sem lógica: “Somos híbridos, mistura de carne animal e bits de água… A Terra foi comprimida por forças gravitacionais e pela pressão interna, demorou para que notassem o fenômeno íntimo do planeta. Está nas revoltas internas o que parece vir do homem errante, ele não teve culpa… Com tantos interesses díspares e opostos, o tecido social necrosou. Quem amputou os membros, cidades inteiras, foi a própria Terra. O globo, infestado por bactérias-homens, numa convulsão, alterou a pressão interna e em seguida a própria rota. Seguiu lentamente em direção ao sol, expondo os homens mortalmente à assepsia solar.” É um conto que erra o alvo, de uma autora pouco familiarizada com o gênero e aparentemente encarou a coletânea como uma brincadeira entre amigos. 

Mesmo que merecesse estar na coletânea, jamais deveria abri-la. Mas a própria Record tratou o produto com certo desdém. O site anuncia: “O que é ficção científica? Em vez de defini-la, Nelson de Oliveira decidiu exemplificá-la, reunindo em um só livro excêntricos (sic) e variados autores nacionais (…) Futuro presente traz 18 contos desse gênero literário tão rico e que a cada dia conquista mais fãs”. 

Não, receio, se depender dessa apresentação. 

O segundo conto, Nostalgia, do escritor e roteirista sul-matogrossense Luiz Bras, ajuda um pouco a tirar a má impressão. A história não é totalmente original – ouvem-se facilmente os ecos de Matrix – mas é bem contada, com senso de mistério e aventura. 

Já o terceiro, A Brand New World do publicitário paulista Luiz Roberto Guedes, soa mais sóbrio e compreensível que o primeiro, mas afunda-se em erros cientificamente imperdoáveis, das quais o mais gritante é considerar tsunamis, erupções e terremotos como problemas derivados do aquecimento global. Não é uma especulação fantasiosa à qual se dê uma explicação mirabolante, mas mera incapacidade de distinguir entre fenômenos atmosféricos e sísmicos. Não é uma bobagem dita de passagem, mas uma suposição central no conto. E não é um erro inofensivo, pois contribui para prejudicar o entendimento e aumentar a confusão sobre uma questão séria que exige decisões políticas imediatas. 

Vale notar que o mesmo equívoco foi cometido no anúncio “fantasma” (sem encomenda ou autorização do cliente, apenas como mostra de “criatividade”) em nome do World Wide Fund publicado no YouTube pela DDB Brasil no início de setembro. Afirmava,: “O tsunami matou cem vezes mais pessoas que o 11 de setembro. O planeta é brutalmente poderoso. Respeite. Preserve”, exibindo uma Manhattan cercada por centenas de aviões ameaçadores. A entidade “homenageada” não mediu palavras: “o WWF condena veementemente este anúncio ofensivo e de mau gosto”. O site Advertising Age foi ainda mais incisivo: “mostra que os criadores não só são insensíveis, como cientificamente idiotas. Tsunamis nada têm a ver com preservação. São causados por terremotos ou outras forças geológicas não afetadas pela extinção de animais, desflorestamento ou aquecimento global”. Assim como o conto, tal publicidade enganosa tiraria credibilidade ao WWF e à própria causa ambiental. 

Esse conto também comete erros climáticos, como prever uma “primavera eterna” no Canadá (o aquecimento global pode torná-lo mais quente, mas jamais suprimiria as estações – seria preciso endireitar o eixo da Terra) e outros literalmente astronômicos. Por exemplo, a eliminação instantânea de uma frota de espaçonaves por colisões com asteroides, mais improvável que navios espalhados afundarem simultaneamente ao chocar-se com icebergs ou recifes também dispersos. Também leva a sério os disparates de Zecharia Sitchin sobre os sumérios e Nibiru – o que não seria grave se não supusesse esse planeta habitável e colonizável, apesar de “maior que Júpiter” e “a um trilhão de milhas além de Plutão” (sic, numa história ambientada no século 27, embora hoje a FC use o sistema métrico decimal até mesmo nos EUA). E nada se tira do conto além de alusões ao debate ambiental (que o autor mostra não compreender) e um vago rancor contra a tecnologia e as elites intelectuais. 

O quarto conto, Gobda, da jornalista e tradutora paulista Maria Alzira Brum Lemos, é um jogo de palavras meio experimental, meio zombeteiro, que brinca com semiótica bem entendida e teoria da evolução mal entendida, piscando o olho aos teóricos da comunicação sem se arriscar a dizer nada substancial. Como o primeiro, é o tipo de conto que jamais devia constar de uma antologia para reabrir um mercado esquecido e apresentar a ficção científica ao leitor desacostumado com o gênero. 

Ausländer, do empresário paranaense Mustafá Ali Kanso, é um ponto alto. É um conto fantástico sobre um suposto alienígena, que à maneira do seriado Arquivo X, mantém protagonistas e leitor suspensos entre uma interpretação banal e uma extraordinária dos fatos. Os personagens convincentes e a narrativa hábil fazem a leitura valer a pena, Mesmo se o tema é um tanto batido, é explorado de maneira interessante. 

Com O vírus humano 2, da goiana Maria José Silveira, co-fundadora da editora Marco Zero, cai-se, porém, em outro vale. Exprime desencanto com a humanidade, observada do ponto de vista de alienígenas idealizados como perfeitos. O clichê um tanto gasto é explorado aqui de maneira ingênua e superficial até em termos de senso comum. A complexidade das contradições humanas é reduzida aos efeitos de dois meros vírus, o “vírus 1”, da ambição e o “vírus 2”, da insatisfação. São contagiosos e ameaçam os extraterrestres, que exigem que os humanos se deixem curar ou sejam destruídos – terminando por um drama passional pouco interessante. Banal. Mais valia explorar como tais contradições podem ser separadas, não só da condição humana, como de qualquer existência inteligente. 

Paralisar objetivos é do paulista André Carneiro, o decano da FC brasileira, mas de todos os contos do livro este é o mais distante da ficção científica. Um conto fantástico, suspenso entre a interpretação maravilhosa e a racional. Será interessante para quem ler Carneiro pela primeira vez, mas quem já o conhece se desapontará com a enésima repetição de sua fórmula mais comum: “homem conhece mulher misteriosa e fascinante e muda sua vida…” 

Descida no Maëlstrom, do escritor paulista Roberto Causo, é, por outro lado, um bom conto – entre os melhores do autor e também desta coletânea. Insere-se bem em uma das mais antigas tradições da ficção científica, a da guerra interestelar, mas sem se aprisionar em clichês previsíveis – e sem imitar demais o mestre Edgar Allan Poe, cujo conto homônimo lhe serve de referência. O autor dá ao velho tema um toque brasileiro e humanista e trabalha com especulações sobre física, biologia e tecnologia de maneira coerente e interessante. 

O Motim, da jornalista catarinense Edla van Steen, é um conto paranoide e reacionário, que poderia ter sido escrito por um redneck do Oklahoma. Queixa-se de um governo do futuro que cobra impostos excessivos, impõe a educação gratuita à distância, distribui alimentos, controla os cultivos domésticos e ordena a eliminação dos animais de estimação e os maiores de 70 anos e é desafiado de maneira inverossímil. Piegas e tolo. 

Depois da Grande Catástrofe, do escritor e professor de letras catarinense Deonísio da Silva, é uma brincadeira intelectual de gosto duvidoso. As alusões a la clef sobre questões universitárias (talvez, também, pessoas concretas) e eruditas digressões sobre etimologia que, combinadas com o humor escatológico e inesperado romantismo, sugerem um cruzamento de Rabelais com Casseta & Planeta. Contém boas tiradas e frases inteligentes, mas também bobagens elitistas e preconceituosas. O reitor chega ao escritório de armadura, montado num “cavalo cibernético” (que inexplicavelmente também chama de “muar”), por causa dos jovens desempregados, “formados em verdadeiros aluviões todos os anos, pela garantia de vagas em todas as universidades. Sobravam vagas, todos eram universitários, mas os rebeldes eram apenas aqueles que tinham se formado por reservas de cor, religião, tipo de desodorante, de calçado, de roupa, de costumes culinários etc.” 

Espécies Ameaçadas, do escritor amazonense Márcio Souza, é um thriller quase hollywoodiana em cenário tropical. A história é interessante e divertida e daria para perdoar o clichê do refugiado-nazista-na-América-do-Sul-com-planos-mirabolantes-de-restaurar-o-Reich-ou-coisa-parecida, não fosse os contra-sensos políticos e a generalização do preconceito contra as ONGs, como se todas estas acobertassem objetivos inconfessáveis. 

O vilão Grass, dono de uma ONG influente na Amazônia, desenvolve, em colaboração com o Irã, um vírus mortal capaz de infectar apenas os judeus. A cavalaria que vem salvar os mocinhos são os “helicópteros do exército bolivariano”, que para isso invade o território brasileiro, visto que o governo do Brasil aparentemente protege ou acoberta o vilão: “Aqui o Grass manda, estaríamos mortos em pouco tempo. Na Venezuela ele ainda não tem influência, o governo Chávez é duro com ONGs estrangeiras”. Paradoxal, no mínimo: pode-se ter opiniões negativas ou positivas sobre o chavismo tanto quanto sobre o Irã dos aiatolás, mas é notório que são entusiásticos aliados. 

Vale lembrar que a ideia de um vírus “racialmente específico” foi atribuída – por uma matéria sensacionalista do tabloide londrino Sunday Times, de 15 de novembro de 1998 – a Israel, com a intenção de eliminar os árabes. Os jornalistas alegaram fontes secretas, mas a matéria pareceu ter sido inspirada por Operação Semente de Amalek, um conto de ficção científica de 1996, do israelense Doron Stanitsky, no qual um cientista israelense tenta criar tal arma, mas quando a testa em crianças judias de origem iemenita, raptadas especialmente para que prove que a arma é inofensiva para seu povo, estas morrem do vírus – e o governo de Tel-Aviv se assegura de que o pesquisador passe o resto da vida na prisão para não revelar o embaraçoso segredo. Final bem apropriado: como se sabe, a maior parte da variação genética entre pessoas é individual e não étnica, o que torna tais armas improváveis. 

Outro preconceito – ou pelo menos, uma escolha de palavras muito infeliz – se vê também em História de Uma Noite, do escritor gaúcho Charles Kiefer: “O sul da Ameríndia, onde se localizava um país chamado Brasil, era famoso por produzir mulheres com uma excelente genética”. De resto é um conto de adultério virtual com certa graça, que toca de passagem questões interessantes, como o futuro dos filtros e do controle de conteúdo na internet. 

Com As Infalíveis H, do paulista Paulo Sandrini, retorna-se à tradição da guerra interestelar em bom estilo e sem clichês desnecessários. Apesar da história ser menos rica, imaginativa e movimentada que a de Causo, é conceitualmente interessante e criativa. 

Requiescat in Pace, do publicitário gaúcho Hilton James Kutscka, é um conto pessimista sobre o futuro da humanidade, com um tema semelhante ao de Luiz Roberto Guedes, mas menos absurdos científicos. Salvo pela alusão passageira ao desacreditado “suicídio instintivo dos lemingues” (na verdade, eles simplesmente tentam migrar em massa, às cegas, e eventualmente caem de despenhadeiros). O aquecimento global (sem terremotos) se combina a uma cruzada nuclear contra os países muçulmanos, que produz uma catástrofe climática global. O autor erra a mão ao ligar a guerra a um papa “German I”, que promete abençoar pessoalmente quem “livrasse o mundo dessa raça”, mas depois disso a trama toma um rumo menos datado, mais inteligente e menos superficial. Noto à margem: o autor usa “acres” como medida de superfície – como Guedes, tenta ser mais gringo que os gringos, que apesar de ainda usarem o velho sistema britânico no dia-a-dia, há muito adotam o sistema métrico na ficção científica, bem como nos artigos científicos. 

Vladja, do artista e escritor Ivan Hegenberg, é um bonito conto – mas mal passa de raspão pela ficção científica. Alude-se a telepatia e a uma cadeia onde robôs controlam e punem os presos, mas se a primeira fosse trocada por uma ligação telefônica (ou mesmo carta) e os segundos por carcereiros comuns, a história funcionaria igualmente bem, talvez melhor. Tem toda a cara de um bom conto psicológico, sobre o qual se jogou uma pitada futurista apenas para encaixá-lo na coletânea. 

A Máquina do Saudosismo, do empresário Ataíde Tartari, é um conto sociologicamente tão interessante que arrisco o spoiler. O leitor deve pular o próximo parágrafo se não quiser antecipar o desfecho: Um executivo financeiro bem-sucedido tem leucemia. Para não deixar a fortuna ao irmão que vive na “vagabundagem artística” e hesitou em doar-lhe sua medula (que acaba se mostrando incompatível), investe tudo em ser congelado para ressuscitar em um futuro no qual sua doença poderá ser curada. Revive num admirável mundo novo qual se fala o “portuglês” (mistura de português e inglês) e o Estado não mais existe: infraestrutura, escolas, hospitais, administração de cidades e até a polícia e a justiça pertencem a investidores privados. A ideia de céu dos executivos da Berrini e da Paulista, pode-se dizer. Mas o financista ressuscitado não se adapta, morre de saudades do passado e se vicia numa máquina que o faz reencontrar-se com colegas e namorada do Mackenzie e sonhar com outros rumos que sua vida poderia ter levado. 

Ponto Crítico, do editor paulista Carlos André Mores, é um conto muito interessante do ponto de vista da especulação científica, sem deixar de ser bem narrado, mas receia-se que falhe em se fazer entender pelo leitor que não tenha sido apresentado aos paradoxos da mecânica quântica e suas diferentes interpretações. Um fã inveterado e inteligente de FC, que já leu contos e artigos de divulgação científica sobre esses temas, vai suspeitar do que se passa, como também um outro físico. Mas um leitor leigo provavelmente ficará mais perdido que o protagonista (que, pelo menos, é um físico), pois em nenhum momento as questões em jogo são abertamente explicadas. 

Outro ponto a questionar é que todos os personagens (e são muitos) têm nomes anglo-saxões. A história se passa em um laboratório de física do Texas, na década de 2040, mas mesmo hoje, entre técnicos e cientistas que trabalham nos EUA, são comuns os nomes de outras origens – oriental, alemã, russa, judaica – como se pode conferir na lista dos últimos prêmios Nobel. 

Além disso, a trama envolve a abordagem de um problema físico de um ponto de vista oriental e um dos cientistas refere-se claramente aos ocidentais como “os outros”: “Os ocidentais são brilhantes, à sua maneira! Eles idealizaram o universo através da linguagem matemática, e aí reside seu crédito. Infelizmente, não tem sensibilidade para sentir a interação entre essa linguagem e a realidade. Estão no caminho certo, apenas não sabem disso.” Seria inteiramente adequado que ao menos esse personagem tivesse um nome oriental, mas chama-se “Frank”. Mais uma vez, tenta-se ser mais americano que os americanos, o que é particularmente paradoxal tratando-se de um autor formado em física, que deve saber que nem só estadunidenses anglo-saxões fazem pesquisa de ponta e deveria ter interesse em divulgar isso. 

Fecha a coletânea Onde está o agente? do escritor matogrossense Rinaldo de Fernandes. É um quase-policial bem narrado, mas a ficção científica mal lhe serve de verniz. Como o conto de Hegenberg, seria igualmente bom, e até mais convincente, se ambientado em um subúrbio brasileiro de hoje e não do século 23. De “especulativo” só tem a enxurrada de nomes de produtos estrangeiros cujas marcas são todas parecidas e semelhantes – faca FZ2 russa, água mineral TG8 peruana, isopor VP7 australiano e por aí vai. Muito pouco para qualificar um conto como pertencente a esse gênero. 

Em suma, se o objetivo era aproveitar o momento relativamente favorável para o mercado de ficção científica e fantasia no Brasil, a coletânea errou o alvo. Se era ajudar a formar esse mercado e conquistar mais leitores para o gênero, mais ainda. Há contos bem aproveitáveis, mas no conjunto a seleção mostra pouca compreensão do gênero e das expectativas de seus apreciadores. Apesar de serem menos cuidadas do ponto de vista da revisão e da qualidade da linguagem, os lançamentos de editoras menores, como a Devir e a Tarja, têm mostrado mais sensibilidade para com a natureza da ficção especulativa.
>> CARTA CAPITAL – por Antonio Luiz M. C. Costa


O TAMANHO DA ENCRENCA: ‘ATTACK OF THE 50ft. WOMAN’

terça-feira | 22 | setembro | 2009

 

Nos anos 1980, o cinema americano censurava a infidelidade masculina em filmes como o arrepiante Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), de Adrian Lyne. Neste thriller, uma inocente “escapadinha” de final de semana se transformava no pesadelo de Dan Gallagher, o chefe de família interpretado por Michael Douglas. Por mais excitante que fosse “pular a cerca”, ninguém ia querer uma encrenca na vida como Alex Forrest, a personagem de Glenn Close, verdadeiro terror dos marmanjos.

Mas nos anos 1950, o cinema americano de ficção científica já mandava um recado eloqüente aos maridos vidrados num “rabo-de-saia”: Attack of the 50ft. Woman (1958), de Nathan Juran (ou Nathan Hertz). Neste filme bizarro, Harry Archer (William Hudson) deu o golpe do baú casando-se com a milionária Nancy Fowler Archer (Allison Hayes). Boêmio, mulherengo e mau caráter, o Sr. Archer vive como gigolô e seu casamento vai muito mal. A Sra. Archer deu para ter crises nervosas e bebericar além da conta, afogando as mágoas por causa das sucessivas traições do marido. Harry está “pulando a cerca” regularmente para ir “ciscar na freguesia” de Honey Parker (Yvette Vickers), uma ruivinha ambiciosa que o instiga a dar cabo da esposa (Nancy, a esposa, parece bem mais interessante que a vulgar Honey, mas enfim…). Numa de suas brigas com o marido, Nancy Archer sobe no carro e parte rumo ao deserto, onde acaba encontrando uma esfera brilhante enorme, na verdade um veículo espacial tripulado por um gigante alienígena – mais uma vez o deserto americano é o palco ideal para contatos entre terráqueos e extraterrestres. Apavorada, Nancy retorna à cidade e informa sua descoberta ao xerife Dubbitt (George Douglas). O xerife e seu assistente Charlie (Frank Chase, no papel de “bufão” da estória) vão investigar – afinal, “a Sra. Archer é grande pagadora de impostos” -, mas não encontram nada e o caso acaba sendo encarado como mais uma crise de loucura da pobre milionária traída. Harry e sua amante vêem nisso uma boa oportunidade de se livrarem de Nancy. Num dado momento, ele é convencido por Nancy a acompanhá-la ao deserto, em busca do OVNI, e, após horas de procura infrutífera, os dois acabam encontrando a espaçonave. A Sra. Archer faz um escarcéu e o gigante aparece, tomando-a em suas mãos. Apavorado, Harry dá no pé.

Não se fica sabendo exatamente o que o gigante teria feito à pobre Sra. Archer. Pouco depois ela é encontrada sem sentidos e com algumas escoriações, sendo recolhida em seu quarto sob cuidados médicos. Num eco sintomático da Guerra Fria, a radiação, esse substantivo feminino e ameaça invisível, é mencionada. Com o incentivo da amante, Harry tenta matar a esposa injetando-lhe uma dose excessiva de medicamento, mas antes que ele o faça tem lugar um estranho fenômeno: Nancy se torna, ela mesma, um gigante. A essa altura, a história da nave espacial e seu tripulante ciclópico já não é mais sandice para os demais personagens. O xerife e o fiel mordomo de Nancy, Jess Stout (Ken Terrell), vão ao deserto e fazem a mesma descoberta que a Sra. Archer. Quando recupera os sentidos, Nancy quer tomar satisfações com o marido. O problema é que, agora, a Sra. Archer – que já era um mulherão – tem 50 pés de altura (cerca de 15 m), e não vai ser fácil “levá-la na conversa”. Ela então pega Harry “com a boca na botija” (ou seja, na farra com a amante, bebendo na espelunca de sempre), arranca o telhado do estabelecimento, mata a rival, atirando destroços contra ela, e agarra o marido. No fim, alvo das balas do xerife e próximo a uma torre de alta tensão, a Sra. Archer acaba vítima de um curto-circuito (ou coisa que o valha) e termina morta, segurando o corpo do marido em sua mão direita. “She finally got Harry all to herself”, suspira o Dr. Isaac Cushing (Roy Gordon), numa passagem que ainda redime o maridão na última hora. Aliás, o enfoque dos gêneros (masculino e feminino) no filme rende algumas observações curiosas, senão psicanalíticas. Os papéis parecem rearranjados momentaneamente, uma certa subversão se faz anunciar, mas no fim apressado persiste um certo “gosto” de status quo.

Hoje, Attack of the 50ft. Woman parece um filme trash, embora seja mais adequado o rótulo “cult camp classic” impresso na embalagem do DVD da Warner (o filme deu origem a pelo menos um remake, dirigido por Cristopher Guest para a TV em 1993, com Daryl Hannah no papel de Nancy Archer). Mesmo para a época de seu lançamento (1958), os efeitos especiais parecem não muito esmerados. O filme confia o tempo todo nas superposições e na decupagem campo-contracampo para criar o gigantismo, recorrendo a maquetes em algumas poucas cenas (talvez as melhores). Isso é arriscado e não dá bom resultado sempre. Uma das poucas cenas de superposição aparentemente bem-sucedidas está no final, quando a Nancy gigante jaz morta segurando o marido e as pessoas se aproximam do seu corpanzil. No mais, tudo exala uma certa precariedade, possivelmente advinda da escassez de recursos. Mas a própria mise-en-scène se revela irregular, numa narrativa por vezes confusa que opta por soluções urgentes para os problemas – o que pode vir a ser cômico ou curioso, mas também frustrante. O filme tem de tudo um pouco, característica provavelmente responsável tanto por sua virtude quanto por sua ruína. A ficção científica parece “cair de pára-quedas”, dividindo a dominância genérica ainda com o melodrama e o policial. Contudo, no fim das contas, o diretor revela não ter tido medo do ridículo, assinando uma fita bizarra com relances de inventividade – mas sobre um tema desses, poderia ser muito diferente?

Filmes como King Kong (Merian Cooper e Ernest Schoedsack, 1933), Attack of the 50ft. Woman, Them! (Gordon Douglas, 1954) e vários outros são objeto de interesse do professor Oscar de los Santos (Western Connecticut State University, EUA) em seu estudo “Extra Large: Exploring Giant Creature Cinema”, uma curiosa investigação sobre os filmes de monstros colossais, apresentada recentemente no 32º Encontro Anual da Science Fiction Research Association (SFRA) em Kansas City, EUA, de 5 a 8 de julho de 2007. Para Oscar de los Santos, a fascinação americana pelo grande (x-tra large) ganha destaque na telona de cinema. Sob um olhar brasileiro – e simplificando bem as coisas -, é como se os EUA fossem no íntimo uma grande Itú (SP), usina de idéias como a Big Science, o Big Foot, o Big Mac, etc., e o cinema a válvula de escape ideal para esses delírios de grandeza. A investigação de Santos ajuda a perceber que esse “gigantismo criativo” (embora nem sempre “criatividade gigantesca”) estimulou técnicas e tecnologias importantes no século do cinema, senão toda uma estética do enorme.

Dentre algumas curiosidades, o cartaz de Attack of the 50ft. Woman, realmente interessante, foi eleito o oitavo melhor na lista “The 25 Best Movie Posters Ever” da Première. Uma seqüência do filme, mais cara e para ser rodada em Cinemascope, chegou a ser cogitada. O roteiro foi elaborado, mas não entrou em fase de produção (Cf. http://www.imdb.com.br ). A mulher de 15 metros é da altura do moralismo do filme, e não poderia faltar numa galeria de mega-ameaças à estabilidade patriarcal, ao lado de répteis, aranhas, formigas gigantescas e similares. Já cantava Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é o sexo frágil. Mas que mentira absurda…” Attack of the 50ft. Woman mostra o tamanho da encrenca.
>> CRONÓPIOS – por Alfredo Suppia


CONSTRUINDO UM MUNDO PARA PONYO

terça-feira | 22 | setembro | 2009

Ponyo, uma menina-peixe com poderes mágicos, descobre o novo mundo da superfície e o garoto Sosuke

Ponyo, uma menina-peixe com poderes mágicos,
descobre o novo mundo da superfície e o garoto Sosuke

Antes da animação por computadores, quem quisesse assistir a um desenho animado de longa metragem precisaria esperar de dois a três anos pelo lançamento, sempre no período de férias, de uma produção dos Estúdios Disney, que praticamente monopolizavam o setor. Hoje, em qualquer época do ano, podemos escolher dentre meia dúzia de filmes vindos de diferentes estúdios, geralmente norte-americanos.

Isso se deve não só à facilidade em se produzir um desenho com a utilização de ferramentas eletrônicas, mas também à sofisticação e aumento do público consumidor, à maior complexidade do mercado, aos novos meios de exibição e distribuição da obra e seus derivados: brinquedos, jogos, alimentos, roupas e toda parafernália que os acompanha.

Antigamente, um filme que era um fracasso nas salas de cinema, poderia comprometer novas produções do estúdio e até mesmo o futuro de um diretor. Hoje, mesmo um filme medíocre pode ter infinitas continuações devido a esta máquina produtora e consumidora de cultura que se tornou nossa sociedade global.

Para os desenhos animados, essa antiga maneira como o produto cultural era produzido, apresentado e vendido acabava sendo mais cruel, por causa do tempo e recursos necessários para a produção de um filme de animação. Hoje, a computação encolheu custos e prazos, o que ocasionou a febre atual de novos desenhos. Mas também acabou encolhendo a criatividade e nivelando as produções, restando apenas algumas que se sobressaem nesse infinito mar de animais, brinquedos, robôs, extraterrestres e monstros, todos falantes e hiperativos, que se movimentam freneticamente em telas de cinema e LCDs.

Pois este mar de animações também produz, de tempos em tempos, algumas pérolas que vão contra a maré dos clichês. É o caso de Ponyo (Gake no ue no ponyo/Ponyo on the Cliff, 2008), o mais recente filme de Hayao Miyazaki, e que deve estrear em breve no Brasil. O filme corajosamente usa a animação tradicional para criar uma história mágica e sensível sobre amizade, família e amor, construída sobre uma sutil mensagem ecológica e de respeito à natureza.

 

Nada nos filmes de Miyazaki é previsível e óbvio. Ele monta suas histórias como se fossem sonhos, colocando personagens humanos e apaixonantes em situações inusitadas e incontroláveis. Nem por isso eles entram em pânico. Sempre se adaptam à nova realidade, por mais surreal que ela seja, procurando resolver e se adaptar à situação.

Aqui, Ponyo, uma menina-peixe com poderes mágicos, descobre o novo mundo da superfície e o garoto Sosuke. Essa nova amizade vai despertar seus poderes, desencadeando tsunamis e inundações com peixes pré-históricos. A delicadeza e força com que o autor vai construindo a história, as imagens e os movimentos são memoráveis. Gestos simples são feitos com total domínio das técnicas da animação e de compreensão de como nos movimentamos, especialmente as crianças. Quando Sosuke passa através de uma falha em uma cerca de madeira carregando um balde cheio de água, nenhum programa de computador conseguiria reconstruir aquele movimento do menino de uma maneira mais verdadeira.

E é isso que todo o filme de Miyazaki traz. Uma maneira verdadeira e sensível de representar seres humanos e de fantasia, unindo sua visão do mundo real com um mundo onírico, de um modo que não duvidamos nem por um momento que aquela história contada ali seja plausível e possível.

Com 68 anos, Hayao Miyazaki consegue nos passar a sensação de como uma tigela de lámen com presunto pode ser mágico aos olhos de uma criança. E com isso ele também resgata um pouco da criança que está dentro de cada adulto.

Ponyo, junto com suas obras anteriores A Viagem de Chihiro e Meu Vizinho Totoro, está entre as melhores histórias que brotaram da imaginação e ganharam vida pelas mãos de Miyazaki. Um filme que já nasceu um clássico da animação, e não mais um produto para ser consumido e esquecido dentro de dois ou três meses.
>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini


SASQUATCH: ATAQUES NO PÉ-GRANDE

terça-feira | 22 | setembro | 2009

Sasquatch: A Lenda do Pé-Grande (Big Foot), Steve Niles, Rob Zombie & Richard Corben. São Paulo: Devir Livraria, agosto de 2009, 104 páginas. Capa de Richard Corben. Tradução de Marquito Maia.

Quando eu era moleque, no século passado, a galeria de monstros do terror era composta do vampiro, do lobisomem, da múmia, da criatura de Frankenstein, do mutante… Hoje, a múmia voltou para os museus e o vampiro e o lobisomem estão se tornando apenas membros de tribos urbanas, ou indivíduos socialmente incompreendidos à espera de um coração feminino que venha resgatar a sua humanidade.

Mas é sempre possível encontrar em nomes como Steve Niles e Rob Zombie gente disposta a trazer o velho monstro de volta. O que Niles – criador da série de romances gráficos 30 Dias de Noite, também levada ao cinema – e Zombie – astro do rock e diretor de filmes como Rejeitados pelo Diabo (2005) – fizeram foi convocar o Pé-Grande das lendas rurais americanas para assumir esse venerável papel.

Também conhecido como Sasquatch, a criatura é aqui um gigante antropófago de três metros de altura, forte e veloz, que ataca campistas no Parque Nacional da Montanha Blackwood.

A história abre com o ataque a uma família, no qual o pequeno Billy é confrontado com uma grotesca cena primordial (Freud explica): seus pais são atacados enquanto se preparam para fazer sexo, com ela imitando (com um strip-tease) o famoso “Feliz Aniversário” de Marilyn Monroe a John F. Kennedy. É a imaginação de Rob Zombie em ação, eu suponho.

O ataque ocorreu em 1973, e Billy cresceu com essa, eufemisticamente falando, “carga psicológica negativa”. Por conta disso, ele se torna um sujeito pouco ajustado – até que resolve passar em uma loja de armas e voltar ao Parque Nacional para um acerto de contas. É um caso literal de se “enfrentar os seus monstros pessoais”. Mas no caminho está o xerife Hicks, homem que já tem uma história própria de encontros e como testemunha dos ataques do Pé-Grande.

Os desenhos são de ninguém menos que Richard Corben, saudoso artista da revista Kripta e de um dos melhores períodos da famosa Heavy Metal. Corben é o criador de Den, que também foi levado ao cinema como um dos episódios de Heavy Metal: O Filme (1981). Seu desenho tem uma marca muito pessoal no uso da sombra e no movimento – e uma qualidade tridimensional que é sugerida aqui pela cor aplicada por Martin Breccia, Nestor Pereyra & Tom B. Long. Os personagens de Corben, às vezes desproporcionais, um pouco fora daquela exatidão anatômica idealizada que se espera dos quadrinhos da Marvel ou da DC, são por outro lado freqüentemente mais expressivos e inclinados à obsessão e à loucura.

O resultado dessa equipe é um ótimo livro de quadrinhos com um andamento perfeito de filme B de horror, expressivo, movimentado e violento. Retrata o Sasquatch como um monstro da velha estirpe, aqui tão viciado em carne humana que sacrifica um urso pardo de 500 quilos para matar um homem de 70. A arte da capa foi feita em cima de um fotograma do famoso filme amador de Patterson & Gimlin, obtido em 1967 e que ainda hoje é estudado com uma das evidências mais sólidas da existência de um antropóide gigante vivendo na América do Norte. E que provavelmente, se existir, deve ser uma criatura muito mais arisca e gentil do que aquela descrita pelo traço de Corben e pela imaginação de Niles e Zombie.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo


DARWIN NO BRASIL

terça-feira | 22 | setembro | 2009

Esta é uma dica da amiga Cristina Lasaitis, escritora de mão-cheia que precisa voltar urgente a produzir seus fantásticos textos.

A ideia era fazer um álbum de quadrinhos baseado no Diário de viagem do Darwin. Especificamente da sua passagem pelo Brasil.

E uma das primeiras coisas que eu tive que me acostumar, foi com a imagem dele, bem mais novo quando esteve à bordo do Beagle descobrindo e explorando a vida selvagem do país.

Era essa figura daí de cima que me guiaria pelo álbum todo. E essa era aúnica referência que eu tinha.

Aí então começou a minha aventura!

A primeira vez em que eu ouvi falar sobre Darwin, foi no tempo em que eu estudava no Colégio Estadual Deodato Linhares, em Miracema, noroeste do estado do Rio.

A professora, Bebel, dava aula de Biologia, mas de uma maneira meia conceitual, com citações filosóficas e leves entradas na área psicológica, de maneira que deixava a matéria bem mais interessante. Isso no final dos anos 70.

O tempo se passou. Larguei os estudos, meti a cara na minha carreira. Fiz montanhas de charges, ilustrações, cartuns e quadrinhos. Casei, descasei, mudei de cidades várias vezes.

No dia 28 de junho de 2008, num sábado, eu leio em O Globo, o início de uma minissérie sobre os 150 anos da Teoria da Evolução de Darwin. Essa minissérie, muito boa por sinal, dura cinco dias alternados e me sacode. Toda vez que isso acontece, eu guardo os jornais pra uma consulta que vai acontecer, mesmo sem saber como. Um dia eu tenho que começar a escrever a Teoria da Criação!…

Mas uma coisa que me chamou a atenção nessas matérias de O Globo foi a viagem de Darwin pelo Brasil. O que sempre foi mais divulgado era a viagem de Darwin pelas Galápagos. São famosas as fotos de lagartos, iguanas e tartarugas gigantes. Era a imagem que tinha ficado em minha mente, quando eu pensava em Darwin.

Mas a passagem pelo Brasil, foi bem detalhada nessas matérias do jornal, que algo começou a “fermentar” em algum canto da minha cabeça (eu nunca sei aonde se processa a centelha da Criação!) e eu percebi que ali tinha samba!
>> DARWIN NO BRASIL – por Flávio Dealmeida

DarwinViaje junto com Darwin por terras brasileiras na primeira História em Quadrinhos da vieira & lent.

Darwin embarcou no Beagle com apenas 22 anos e durante sua estadia no Brasil viveu intensamente todos os acontecimentos, ficou indignado com a escravidão e maravilhado com a exuberância da floresta tropical. Participou de muitas aventuras. Conheceu o carnaval de Salvador, viajou a cavalo pelo interior do Rio de Janeiro, morou em uma casinha em Botafogo, provou comidas típicas pelo interior, adentrou a floresta e se encantou com a descoberta de plantas e insetos. Entregou‐se com tanta intensidade à viagem que até descobriu o significado da brasileiríssima palavra saudade.


JORGE LUIS BORGES: O FAZEDOR DE LEMBRANÇAS

sábado | 19 | setembro | 2009

BORGES_ensaio autobiograficoJorge Luis Borges era um escritor que venerava livros. Não viveu para ver Wikipedia e o mundo enciclopédico da internet. Portanto, natural que tenha tratado pessoalmente de criar um verbete para si próprio no seu querido mundo táctil da literatura impressa.

Por outro lado, Borges nunca foi propriamente um memorialista. Muito ao contrário. Ele criava, na sua literatura, universos particulares de uma lógica interna algo fantástica e os cercava por uma miríade de referências filosóficas e poéticas, emprestadas de suas leituras várias ou devidamente inventadas para a ocasião.

Assim, é ao mesmo tempo surpreendente e inevitável que Jorge Luis Borges (1899-1986) tenha se saído com este Ensaio autobiográfico, texto agora lançado entre as obras completas do autor, que vêm sendo editadas pela Companhia das Letras. Este Ensaio foi pensado não para ser um volume individual, como aqui se apresenta, mas para servir de prefácio a uma edição norte-americana de O Aleph. O texto foi ditado, em inglês, por Borges para seu colaborador Norman Thomas di Giovanni, que traduzira suas obras para a língua inglesa. Borges, aos 71 anos, já estava cego. Empolgou-se com o tema e o texto saiu maior que o previsto. Acabou publicado na revista New Yorker ainda naquele ano de 1970. E recebeu, agora, sua primeira versão para o português.

A narrativa de Borges é cristalina. O texto, enxuto, elegantemente evita questões de ordens pessoais-e-amorosas, mas rememora a infância, os anos de formação. Borges é pouco afeito a autoelogios e dá uma esnobada em alguns de seus próprios livros, mas soa sincero, por exemplo, ao falar da amizade com Adolfo Bioy Casares (1914-1999), 15 anos mais novo, com quem escreveu livros sob o pseudônimo H. Bustos Domecq. “Nesses casos sempre se supõe que o homem mais velho é o mestre, e o mais jovem, seu discípulo. Isso pode ter correspondido à verdade no princípio, mas, alguns anos mais tarde, Bioy era o verdadeiro e secreto mestre.”

Borges, sujeito familiarizado com o discurso narrativo e com a linearidade dos verbetes enciclopédicos, segue reto ao contar sua própria formação. Nascido em uma família próspera de Buenos Aires, passou parte da infância na Suíça e na Espanha – Genebra, Lugano, Mallorca e Madri. Foi alfabetizado tanto em espanhol quanto em inglês. Ao voltar à capital argentina, em 1921, entrou em contato com o mundo acadêmico e com a imprensa local, lançou-se como poeta e ensaísta.

O pai, o advogado Jorge Guillermo Borges, era ele próprio escritor. O filho o apresenta como um “anarquista filosófico”. A avó paterna de Borges era inglesa, daí o inglês ser idioma corrente em casa. Mas Jorge Guillermo, conta seu filho, fazia troça da ascendência. “Afinal, o que são os ingleses? São uns roceiros alemães.” Leitor de poetas como Shelley e Keats, Jorge Guillermo foi um romancista que não prosperou. “Meu pai era um homem tão modesto que teria preferido ser invisível.” E a mãe de Borges, Leonor Acevedo de Borges, traduziu para o espanhol autores como Herman Melville, William Faulkner e Virginia Woolf. O infante Jorge Luis cresceu cercado pela biblioteca dos pais. Sentia que a eles devia sua paixão pelos livros, pela poesia. Sentia ter sido criado para tornar-se nunca outra coisa que não um escritor.

A redescoberta de uma metrópole europeizada
Borges voltou a Buenos Aires em março de 1921. Encontrou uma metrópole europeizada em meio aos pampas dum país ainda agrícola. “Aquilo foi mais que uma volta ao lar; foi uma redescoberta. Eu podia ver Buenos Aires de perto e com entusiasmo, porque estivera afastado dela por longo tempo. Se eu nunca tivesse ido ao estrangeiro, duvido que pudesse tê-la visto como essa peculiar mistura de surpresa e de afeto daquele momento.”

Seu primeiro livro publicado, Fervor de Buenos Aires (1923), é o registro dessa impressão. Saiu em edição miúda bancada pelo poeta iniciante e nunca foi republicado. Parecia-lhe um tanto infantil e precário, influenciado pelo ultraísmo, então vanguarda da poesia espanhola, assemelhado ao futurismo franco-italiano. “No entanto, olhando-o em perspectiva, penso que nunca me afastei dele. Tenho a sensação de que meus textos seguintes simplesmente desenvolveram temas apresentados em suas páginas. Sinto que durante toda a minha vida tenho estado a reescrever esse único livro.”

Quando o generalíssimo Juan Domingos Peron assumiu o poder, em 1946, Borges trabalhava na Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Logo foi detectado como persona non grata pelas autoridades, e devidamente remanejado para um cargo de inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais. Borges demitiu-se no dia seguinte. Décadas depois, quando Peron foi eleito para um segundo mandato, em 1973, Borges era diretor da Biblioteca Nacional e demitiu-se outra vez, mudando-se para o Texas, Estados Unidos, onde deu aulas.)

Peron estava por fora, mas o poeta Borges se tornara naquele tempo, anos 1940, o autor de contos como O Aleph (1949) e O jardim das veredas que se bifurcam, que faria parte do volume Ficções (1944). Outra dessas antologias, O fazedor (1960), periga ser a obra que Borges tinha com maior estima. O fazedor, ele conta, surgiu de forma não muito lúdica. Por insistência de Carlos Frías, editor da Emmecé, que queria uns inéditos para esquentarem uma edição das obras completas de Borges. “Todo escritor tem um livro. Só precisa procurá-lo”, provocou Frías. Borges tinha nas gavetas uma pequena coleção de “narrativas breves e parábolas” que se acumularam ao longo dos anos 1950. Assim…

Borges fala sobre juntar narrativas breves e parábolas para O fazedor. Ele foi um dos grandes criadores do conto moderno. Nunca escreveu um romance. Mais do que isso. Borges conta que nem sequer se interessava pelo grande gênero literário do século 19. “No transcurso de uma vida consagrada principalmente à literatura, li poucos romances e, na maioria dos casos, só cheguei à última página pelo senso do dever. A sensação de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são praticamente amorfos serviu para reforçar meu gosto pelo formato do conto.”

O veterano Jorge Luis Borges, em seu Ensaio autobiográfico, tinha mesmo essa nítida formulação. Sem digressões, sem descaminhos, sem filosofias. Isso ele guardava para suas antigas ficções. Seu Ensaio é breve e serena introdução à obra de um sujeito que, de tão venerado no cânone moderno, pode lançar uma sombra intimidadora sobre os leitores.

Ensaio autobiográfico, Jorge Luis Borges. Tradução de Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz. Companhia das Letras (São Paulo). 86 págs. R$ 32
>> CORREIO BRAZILIENSE/DC – por Bernardo Scartezini</


SEMINÁRIO “OS QUADRINHOS E A UNIVERSIDADE”: ENCONTRO EM SÃO PAULO REÚNE PEQUISADORES DE QUADRINHOS

sexta-feira | 18 | setembro | 2009

Um encontro, neste sábado, em São Paulo, vai reunir pesquisadores de quadrinhos de diferentes partes do país.

A proposta do 4º Seminário de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos é apresentar projetos de mestrado e doutorado sobre o tema concluídos no último ano.

O evento é organizado pelo Observatório de Histórias em Quadrinhos da Universidade de São Paulo. A cada ano, o evento é realizado em uma universidade diferente.

Esta quarta edição será no campus Liberdade da Unicsul (rua Galvão Bueno, 868). O seminário será no dia 19 de setembro, das 8h30 às 18h. Veja a programação, reproduzida do cartaz do evento:

Cartaz para revisãoA


“GENESIS DE CRUMB”: C0NRAD PREPARA PARA ESTE ANO O LANÇAMENTO

terça-feira | 15 | setembro | 2009

Crédito: divulgação

Página de abertura do livro bíblico, narrado em quadrinhos pelo norte-americano Robert Crumb 

No ano em que autoridades de educação e setores da sociedade e da imprensa voltam a enxergar males nos quadrinhos aqui no Brasil – inclusive com censura de algumas obras em bibliotecas escolares -, chega ao país a versão do livro bíblico do “Gênesis” feita por um dos pais do politicamente incorreto, o desenhista Robert Crumb.

O trabalho será publicado pela Conrad, que tem em catálogo parte das obras do autor. A programação é lançar ainda este ano, talvez em outubro, junto com outros países. ”Imagino que causará alguma confusão na cabeça dos obscurantistas. Porque é o texto bíblico sem nenhum acréscimo, mas também sem censura, ao contrário do que acontece em várias das edições existentes no mercado brasileiro”, diz Rogério de Campos, diretor editorial da Conrad. 

“No final a questão se resume ao seguinte: estão os crentes preparados para ler a Bíblia com atenção e sem preconceitos? Talvez não estejam. Mas certamente a obra chamará atenção dos leitores mais tolerantes.”

O “Gênesis” é o primeiro livro da Bíblia. Relata a criação do mundo, o surgimento de Adão e Eva e os acontecimentos que iniciaram a história da humanidade sob a ótica cristã. Segundo Campos, não se trata de uma adaptação. “Pelo contrário, esse livro é provavelmente a edição mais fiel ao texto bíblico disponível nas livrarias brasileiras.”

“Porque Robert Crumb foi fundo em suas pesquisas, não só iconográficas. Apoiou-se no que existe de mais profundo e atual na área de pesquisa dos textos bíblicos.” “Teve o apoio do professor Robert Alter, autor de ´The Five Books of Moses´, a célebre tradução do Pentateuco para o inglês”, diz.

Crédito: divulgação

Segundo a Conrad, a obra será publicada em preto-e-branco e terá em torno de 200 páginas. Rogério de Campos não economiza nos adjetivos ao se referir ao trabalho:
- “é o livro do ano”;
- ”o texto fundador da cultura ocidental quadrinizado pelo maior artista do Ocidente”;
- “está entre as cinco coisas mais importantes dos últimos 30 ou 40 anos.”

“Acredito ´piamente´ que este é um livro que deveria estar presente em todas as bibliotecas do Brasil”, diz Campos, que venceu o Troféu HQMix deste ano como melhor articulista de quadrinhos.

“Um livro que os pais deveriam dar para seus filhos adolescentes. E que eu certamente darei de presente para minha filha. Porque quero que ela tenha acesso ao que de melhor a humanidade produziu.”

Pode até ser. Mas, até que seja efetivamente lançado no Brasil, as declarações só ajudam a reforçar a expectativa em torno do produto, acentuada pelo marketing editorial.

A revista “Piauí” deste mês, por exemplo, traz a obra na capa e antecipa as nove primeiras páginas. A presença da história ajuda a aumentar a espera da obra editada pela Conrad. Pelo que se leu, não se pode dizer qual será a recepção do livro. Mas é fato que ele tem o tom da polêmica no DNA. Pelo tema e, principalmente, pela presença de Robert Crumb.

O autor norte-americano é tido como um dos principais autores do movimento “underground” surgido nos Estados Unidos na década de 1960. Os trabalhos dele serviram de base para uma geração de outros quadrinistas, inclusive brasileiros, caso de Angeli.
>> BLOG DOS QUADRINHOS – por Paulo Ramos


‘O HOBBIT’: FILME VAI SAIR. ACABA A BRIGA JUDICIAL

segunda-feira | 14 | setembro | 2009

Director Peter Jackson poses for a portrait in San Diego, Thursday, ...
A New Line Cinema, a família de J.R.R. Tolkien e a editora Harper Collins finalmente chegaram a um acordo no processo sobre os direitos autorais dos filmes de O Senhor dos Anéis. Com isso, ficou decidido que a produtora cinematográfica pode seguir adiante com as filmagens de O Hobbit.

A família de Tolkien e a Harper Collins processaram a New Line há alguns anos, alegando nunca terem recebido um centavo sobre os lucros da trilogia de O Senhor dos Anéis. O acordo inicial dizia que a família deveria receber 7,5% de todo o ganho com o filme, o que não aconteceu.

O faturamento dos filmes chegou à US$ 6 bilhões, e a família de Tolkien exigia pelo menos US$ 150 milhões deste bolo. Não se sabe qual foi o total papado por eles, mas a imprensa norte-americana afirma que os números ultrapassaram a casa dos US$ 100 milhões.

A família de Tolkien ainda tinha o direito de acabar com o acordo com a New Line para a produção de O Hobbit, mas optou por não fazê-lo. Com isso, Guillermo del Toro pode dar continuidade a seu projeto – até agora um filme em duas partes.

O Hobbit é um livro escrito por J. R. R. Tolkien. Na história, que antecede o clássico O Senhor dos Anéis, o mago Gandalf e treze anões convocam o hobbit Bilbo Bolseiro para uma jornada ao tesouro, durante a qual o pequeno habitante da Terra Média encontra o Um Anel, objeto de disputa que move toda a trama de O Senhor dos Anéis.
>> HQ MANIACS – por Artur Tavares


VICTORIA E A LITERATURA FANTÁSTICA DO SÉCULO XIX

domingo | 13 | setembro | 2009

frankenstein_0z2No início deste ano retomei, junto com alguns amigos, uma história sobre vampiros, na qual encarno uma simpática e um tanto desvairada vampira que viveu a maior parte de sua não-vida no século XIX, entrando em torpor na escura Londres vitoriana em 1899 e acordando na brilhante Salvador em 2009. A história recomeçaria do zero, e decidi entrar de cabeça na pesquisa da vida de Victoria no século XIX, como o que ela vestiria, quais livros conheceria, qual a tecnologia disponível, música, encontros sociais, etc.

Desde então coleciono curiosidades sobre este século, que representou o auge da Revolução Industrial, viu o nascer da fotografia, do cinema, das gravações de voz, da teoria da Evolução entre outras tantas maravilhas da ciência; viu também as atrocidades de H.H. Holmes e Jack, o Estripador, a criação da Torre Eiffel e da Roda Gigante. E deu início a uma enxurrada de histórias sobre o fantástico e o aterrorizante.

É o século de Hans Christian Andersen, Emily Brontë, Lord Byron, Coleridge, Emily Dickinson, Charles Dickens, Conan Doyle, Dumas, Flaubert, Goethe, Gogol, Irmãos Grimm, Hawthorne, Herman Melville, Keats, Irving, George Sand, Robert Louis Stevenson, Bram Stoker, Tennyson, Mark Twain, Júlio Verne, HG Wells, Henry Rider Haggard, Mary e Percy Shelley, Rimbaud, Leon Tolstoi, Dostoiévsky, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Oscar Wilde, e tantos outros.

É o século que viu nascer Drácula, Dr. Jekyll, Sherlock Holmes, Heathcliff, Raskolnikov, Dr. Frankenstein, Capitão Nemo, Dorian Gray, Dr. Moreau, Tom Sawyer, Fausto, Alain Quartermain, Scrooge e D’Artagnan. O século que viu o homem ir à lua, ao centro do universo, às profundezas submarinas, lutar com grandes baleias brancas, viajar no tempo, lutar contra o Maelstrom, enfim, atravessar as fronteiras do imaginável.

Considerando sua história pessoal e sua preferência por sangue tóxico – de pessoas drogadas ou alcoolizadas – o estilo literário favorito de Victoria recaiu exatamente nestas grandes histórias. Foi quando surgiu a dúvida. Qual autor  -  ou história – melhor representaria este período?

Seria Poe com suas  histórias extraordinárias, orangotangos assassinos e redemoinhos gigantes? Dickens e seus personagens assombrados pelo passado, presente e futuro? A fina divisão de personalidades em Stevenson? As criaturas deformadas de Dr. Moreau e Frankenstein? A crise de identidade de Dorian Gray ou Raskolnikov? A intrepidez de Quartermain? A sagacidade de Sherlock Holmes?

Ou seriam as aventuras fantásticas de Capitão Nemo e Tom Sawyer, as viagens no tempo de H. G. Wells e os romances Capa e Espada de Dumas? Ou ainda o demônio que inferniza a vida de Fausto? os vampiros de Polidori e Stoker? Os contos de terror de Fantasmagoriana?

Em todas essas histórias vemos a natureza humana representada, discutida e  julgada das mais variadas maneiras, sendo o foco a dimensão das atitudes de uma pessoa e suas consequências. Vemos nossos vícios que se tornam monstros alimentados pelas paixões do homem, que seduzem as virtudes vestidas de belas damas e cavalheiros respeitáveis. Vemos nossas frustrações tomarem a forma de lutas impossíveis e rixas de sangue. Vemos ainda a arrogância ser punida com desespero, e a coragem vindo em forma de grandes desbravadores.

Por conter quase todos os elementos de uma boa história da época, minha escolha recaiu sobre Frankenstein, que me chamou a atenção pela profundidade dos personagens e pela disparidade entre os sentimentos de dor, desespero e solidão discursados pelo criador e a angústia e incompreensão vividos pela criatura.

Mas, seja discutindo as fronteiras da ciência, como em Frankenstein ou O Médico e o Monstro, seja criando um mundo além desta, como a prisão das mazelas do homem numa pintura, do Retrato de Dorian Gray, ou ainda nas palavras de Mefistófeles em Fausto o fato é que o século XIX viu uma explosão de contos fantásticos, num mundo em que o impossível se tornava possível com uma rapidez surpreendente.
>> MEIA PALAVRA – por Kika


O EXPRESSO TERRA DO NUNCA – PAÍS DAS MARAVILHAS – PEPPERLAND

sábado | 12 | setembro | 2009

Captain Hook
‘Uma espécie de Sherlock Holmes infantil com “a inteligência de um rapaz de 18 anos, ou um homem de 40 ou um sábio de 300, não necessariamente nessa ordem!!!’”</p>

É assim que Peter Hook, seu criador, define Jim Young- um menino de 6 anos de idade que descobre, nó sótão de sua casa em Londres, a cronocicleta: uma máquina do tempo em forma de bicicleta construída por Maximiliam Max. Com ela, Young persegue Cagliostro Nostradamus Smith, o gênio do mal e ex-sócio de Maximiliam Max que, querendo a bicicleta especial de seu ex-sócio e enlouquecido por seu sobrenome infinitamente comum, sequestrou Raven e Lucy, respectivamente mãe e irmã do herói.

Em um dos primeiros livros da série, Jim Young and the Wonderland-Neverland-Pepperland Express, descobrimos que Cagliostro é doentiamente apaixonado por Alice Liddell, a inspiradora da Alice de Carroll. Ela, é claro, apaixona-se por Jim. E morre: acuada pelo vilão atira-se em um poço que acredita ser uma passagem para outra dimensão, porém é apenas um poço bastante fundo.

E foi assim que Peter Hook- filho do lendário e aristocrático Sebastian Djaardeling Compton-Lowe, compositor e vocalista da banda dos anos 60 ‘The Beaten Victorians’ ou ‘The Beaten’ ou, ainda, ‘the Victorians’- sagrou-se como autor de livros infantis.

Hook nasceu na psicodélica Londres dos ’swinging sixties’ e teve uma infância traumática, o que talvez explique seu apaixonado e cáustico pensamento sobre a infância. Seus pais foram um tanto quanto negligentes, ao mesmo tempo em que endeusavam seu irmão Baco- morto aos três anos, quando brincava dom Peter e caiu da janela, no exato dia em que chegava às lojas o ‘Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band’, dos Beatles- alvos ignorantes das juras de ódio de Compton-Lowe. E foi esse ódio que fez com que Hook se torna-se órfão: pouco depois da morte de seu irmão seus pais, quase enlouquecidos, decidiram ir à Índia antes do quarteto de Liverpool.

Naufragaram, entretanto, no caminho, e Sebastian morreu. Sua esposa, Lady Alexandra Swinton-Menzies, afogou-se em uma piscina assim que recuperou-se do acidente que lhe tirou o marido.
A força que isso tudo exerceu sobre Hook pode ser o motivo de Jim Young ser incapaz de crescer: viajar no tempo vicia, aumenta sua inteligência e congela seu envelhecimento e emoções.

Mas, apesar desse matiz sombrio, a série ainda é um sucesso entre as crianças; inclusive está prestes a tornar-se um filme, protagonizado pelo jovem e promissor ator sino-americano Keiko Kai. Também as repercusões da obra são grandes (e polêmica): tão ou mais trágico quanto o jovem americano que se suicidou ao descobrir o final do último filme da série Harry Potter antes da estréia, crianças e pré-adolescentes formam gangues que atacam pais e professores para que estes desistam de fazê-los crescer.

Nada disso, entretanto, é real. Tudo que eu escrevi aqui sobre Peter Hook, Jim Young e Keiko Kai é parte do romance ‘Os Jardins de Kensington’, do argentino Rodrigo Fresán que, além disso tudo, narra- de modo um tanto intimista e pessimista- a vida de J. M. Barrie, o criador de Peter Pan.

Fresán, jornalista e escritor buenairense nascido em 1963, iniciou sua carreira em 1984, escrevendo sobre literatura, música, cultura e gastronomia em jornais de sua cidade natal. Em 1991 publicou seu primeiro livro, ‘História Argentina’, um volume de contos que foi best-seller em seu país e lhe rendeu críticas elogiosas. Seguiram-se a este debut ‘Vida de Santos’ (1993) e ‘Trabajos Manuales’ (1994), ambos de contos. Em 1995 publicou ‘Esperanto’, seu primeiro romance. Em 1998 publica ‘La Velocidad de las Cosas’- um meio termo entre conto e romance- e no ano seguinte se muda para Barcelona, onde publica ‘Mantra’ (2001) e ‘Jardins de Kensington’ (2003). Fresán diz que apenas publica seus livros, apenas os termina: em setembro próximo lançará uma edição ampliada de ‘História Argentina’ e, um mês depois, seu novo romance ‘El fundo del cielo’. Atualmente, além de escrever para o jornal argentino Página/12, se dedica a traduzir a obra de John Cheever e trabalha em duas novas novelas, ‘Pop’ e ‘Tsunami’.

O suplemento literário do The Times o definiou como ‘um Borges pop’. Mas essa alcunha é inexata, Fresán é muito mais que uma versão warholizada de seu mítico conterrâneo. Junto com escritores como Bellatin e Bolaño, ele mostra que a literatura latino-americana sobreviveu de forma louvável ao realismo mágico.

Bolaño, aliás, foi amigo pessoal de Fresán, e compartilharam idéias: tanto o chileno quanto o argentino mostram um paradoxal- Bolaño ganhava concursos literários para sustentar seus filhos, e Fresán teve todos seus livros na lista dos mais vendidos de seu país- desalento com a literatura- e, porque não, com a cultura- dos dias atuais.

Existem figuras recorrentes em seus textos como a mulher da piscina, o escritor moribundo e/ou enlouquecido pela solidão do ato de escrever, o assassino serial Petit Prince e as várias cidades de Sad Songs (ou Canciones Tristes). Essas alegorias bizarras juntam-se à literatura de horror e à ficção-científica para construir um universo eminentemente apocalíptico e vertiginosamente veloz- nada mais que um espelho minimamente distorcido de nosso tempo.
>> MEIA PALAVRA – por Luciano R. M.</


GUY RITCHIE ESCALADO PARA O FILME ‘LOBO’, O ANTI-HERÓI DA DC COMICS

terça-feira | 8 | setembro | 2009

Guy Ritchie

A Warner Bros. cada vez mais dá indícios de que está levando a sério as adaptações dos personagens da DC Comics para os cinemas.

A grande novidade da vez é a escalação de Guy Ritchie (Sherlock Holmes, Snatch: Porcos e Diamantes) para a direção de Lobo. Akiva Goldsman, Joel Silver e Andrew Rona são os produtores.

Um roteiro foi escrito há algum tempo por Angel Dean Lopez, recebendo um novo tratamento mais tarde por Don Payne. Não se sabe se o roteiro a ser usado será esse mesmo. Se for o caso, o filme mostrará Lobo vindo à Terra na caça dos quatro maiores criminosos alienígenas do universo.

A intenção da Warner é começar a produção no início de 2010, tendo em mente uma censura PG-13 (menores de 13 anos só poderão assistir o filme acompanhados de seus responsáveis), o que com certeza decepcionará os fãs do personagem.

Lobo é um personagem de histórias em quadrinhos da DC Comics, criado em 1983 por Keith Giffen e Roger Slifer. Ele é um alienígena humanóide, nascido no planeta Czárnia, onde matou toda a população. Possui força sobre-humana, olfato super-desenvolvido, capacidade de cura, imortalidade e quase nenhum senso de moral.

Sua ocupação principal é a de mercenário interestelar. A única lei que obedece é a sua própria palavra de honra, e os únicos seres que respeita e poupa são os golfinhos (principalmente os golfinhos espaciais!).
>> HQ MANIACS – por Leonardo Vicente Di Sessa


‘OS SERES DO AMANHÃ’ (TOMORROW PEOPLE)

terça-feira | 8 | setembro | 2009


Se de repente vocês começarem a ouvir vozes, não há motivo para alarme. O mais provável é que vocês estejam recebendo um chamado dos Seres do Amanhã, um grupo de pessoas que se encontram no próximo estágio do desenvolvimento humano, dotadas de habilidades psíquicas superiores, como telepatia, telecinese e teletransporte.

A série produzida pela britânica Thames Television, entre 1973 e 1979, pode ser assistida na dailymotion.com. Para acessar a série, basta procurar pelo título original (The Tomorrow People) ou pelos títulos dos episódios. A lista completa pode ser pesquisada aqui.
>> TV SÉRIES – por Fernada Furquim

Relembrem assistindo à abertura:


‘CHANGEMAN’, ‘FLASHMAN’, ‘JASPION’, ‘JIRAYA’, ‘CYBERCOPS’: SÉRIES JAPONESAS QUE MARCARAM NOSSA INFÂNCIA

segunda-feira | 7 | setembro | 2009

Séries Japonesas

Antes de começar a falar do real assunto deste post é importante entender com foi o seu processo de criação. O objetivo inicial era tentar buscar em minha memória os seriados que marcaram minha infância. Assim, eu conseguiria listar as que teriam ajudado a  influenciar o meu gosto por séries hoje em dia.

Neste exercício eu viajei. Passei por Blossom, Fresh Prince of Bel-Air e Full House, e até a levada da Breca, Punky, todos que eu vi no SBT. Lembrei dos Simpsons, The Adventures of Lois & Clark, Família Dinossauro e tantas outras que vi na Rede Globo. Retrocedendo ainda mais no tempo pensei no McGyver e sua Profissão Perigo, no Barrados no Baile e até nas Tartarugas Ninjas. Mas ainda estava convencido de que se tentasse, eu conseguiria voltar mais ainda no tempo.

Foi quando veio o estalo de que não estava olhando para a emissora certa. Minha iniciação no mundo das séries não foi pela Globo, tampouco pelo SBT. Também olhava para a origem errada dos seriados. As séries que pela primeira vez me prenderam na frente da televisão não tinham sido produzidas nos EUA. O estilo então passava longe. Nem animação, nem humor, nem sitcom. Nada disso.

Foi neste ponto em que tive a visão clara do final dos anos 80, início dos anos 90. E lá estava eu sentado em frente da televisão assistindo a extinta TV Manchete. Cada um a seu tempo, os seriados japoneses que eram transmitidos na época me hipnotizavam a ponto de esquecer de tudo. Que bom que hoje a minha memória funcionou e eu conseguirei então listar pra vocês o Top 5 – Seriados Japoneses que Marcaram Nossa Infância. Espero que assim como eu viajei lembrando, vocês também viajem lendo este post.

1. Changeman
Dengeki Sentai Changeman, no Japão e Esquadrão Relâmpago Changeman, nome completo do seriado no Brasil. Foi exibido originalmente entre 2 de fevereiro de 1985 e 22 de janeiro de 1986 pela TV Asahi no Japão. Por aqui passou a ser exibido a partir de 1988 pela extinta Rede Manchete. Posteriormente ainda fez parte das programações da Rede Record e da Gazeta.

A história da série era a de cinco integrantes do Exército dos Defensores da Terra. Eles foram banhados pela Força Terrestre e adquiriram cada um os poderes de um animal lendário: Dragão, Grifo, Pégaso, Sereia e Fênix. Com um vasto arsenal e o poderoso Change-Robô eles lutavam contra os alienígenas de Gôzma, um império galáctico cuja sede ficava no planeta de mesmo nome, e que conquistara e anexara um número sem-fim de mundos. Gôzma era liderado pelo malvado Senhor Bazoo e sua horda de ajudantes, que queriam a qualquer custo dominar o planeta Terra.

Foram 55 episódios ao total. Tenho certeza que todos ficaram na memória de quem os assistiu. Mas para aqueles que não assistiram ou que querem lembrar um pouco, no último mês de junho foi lançado no Brasil o DVD com a série completa. No site da Livraria Cultura ele está disponível pela bagatela de R$ 110,00. Parece caro, mas para o fã de verdade não é.

2. Flashman
Choushinsei Furasshuman no Japão ou Comando Estelar Flashman no Brasil. Sua exibição foi de 1º de março de 1986 a 21 de fevereiro de 1987 no seu país de origem. Aqui só tivemos a chance de assisti-la a partir de 1989 também pela Rede Manchete. A série tem ao todo 50 episódios e ainda ganhou 2 filmes.

O enredo fala sobre cinco crianças que foram levadas da Terra para o meio do Universo raptados por caçadores espaciais. Eles acabaram sendo salvos pelo povo do Planeta Flash. Lá, durante vinte anos os jovens viveram e treinaram. Ao voltar para a Terra, souberam que o cruzador Imperial Mess, liderado pelo Monarca La Deus e o cientista Doutor Keflen, estava prestes a invadir o planeta. A série foi a primeira neste estilo a apresentar dois robôs. Eram o Poderoso Flash King e o Poderoso Titan Junior.

Lembro-me como se fosse hoje da abertura, que por curiosidade, de todas as séries deste estilo é a única da época a ter créditos e narração em português. Se ficou com água na boca, pode se tranquilizar. Olha aí embaixo:

3. Jaspion
Kyojū Tokusō Jaspion, na Terra do Sol Nascente e O Fantástico Jaspion pelas nossas bandas.  Era do estilo que os aficionados chamam de Metal Heroes, ou Heróis de Metal em bom português.  Foi exibida pela TV Asahi entre 15 de março de 1985 e 24 de março de 1986 no Japão. No Brasil, foi televisionada pela Rede Manchete a partir de 1988. Era estrelada por Hikaru Kurosaki.

Foi a série que junto com Changeman popularizou o estilo na época aqui no Brasil. Toda criança queria uma fantasia ou brinquedo (bonecos, jogos de tabuleiro, revistas, álbum de figurinhas, chicletes, VHS´s, LP´s, cadernos entre muitos outros) ligados ao seriado naquela época. No que muitos considerariam uma astuta jogada de “marketing”, a TV Manchete exibia Jaspion aproximadamente às 18h30 – justamente o horário em que as crianças saíam das escolas, uma garantia de audiência. O sucesso foi tão monstruoso que até um Circo Show foi criado com essas duas séries, com as roupas originais e atores e dublês brasileiros.

A saga de Jaspion se inicia quando o sábio Edin encontra um garoto entre os destroços de uma nave na qual seus pais morreram juntos por causa de um acidente. Edin cria Jaspion por vários anos sabendo que este seria o guerreiro celestial encarregado de destruir o mal criado por Satan Goss. Jaspion, já na adolescência, compreende o seu destino e aceita de Edin as armas e a andróide Anri que seu mentor construiu para esse confronto contra Satan Goss. Ele seria encarregado de encontrar os pedaços da Bíblia Galáctica (que havia se espalhado pelo Universo após o Planeta ancestral de Edin ter sido destruído por um cometa) e destruir o império de Satan Goss.

4. Jiraya
Sekai Ninja Sen Jiraiya, ou simplesmente Ninja Jiraya, são os nomes  no Japão e no Brasil. Também com 50 capítulos, a série foi produzida pela Toei Company e exibido no Japão pela TV Asahi entre 24 de agosto de 1988 a 22 de janeiro de 1989. Estreou no Brasil no programa Cometa da Alegria na Rede Manchete, no dia 25 de setembro de 1989.

A tradução literal do título original japonês é algo como “Jiraiya e A Guerra do Mundo dos Ninjas“  em referência às constantes batalhas entre os ninjas de diversas localidades do mundo pela posse da misteriosa cápsula chamada “Pako, o Tesouro Espacial“. O nome original da família do herói é Yamaji.

Junto com o tesouro vieram dois viajantes estelares, um se chamava Jiraya, que tinha a missão de proteger o tesouro, e o outro era Hoshinin Dell-Star que veio para roubá-lo. A luta entre os dois acontece e Dell-Star é aprisionado em uma caverna subterrânea. Jiraya ficou na Terra e casou-se com uma humana, onde começou a geração da família Togakuri que por gerações e gerações guardariam e protegeriam o mapa com paradeiro do tesouro escondido na Terra.


5. Cybercops
Dennō Keisatsu Saibākoppu, pros japoneses e Cybercops, os Policiais do Futuro para os brasileiros. Foi trazida ao Brasil pela Sato Company e exibida pela extinta Rede Manchete a partir de 1990. A série foi produzida pelos estúdios Toho, sendo exibida originalmente no Japão pela NTV entre 1988 e 1989.

A sinopse fala que num futuro próximo,  que no caso é para nós já passado 1999, o esquadrão especial da polícia de Tóquio cria o Cybercop. Nada mais era do que o projeto de um grupo de policiais de elite com armaduras tecnológicas. Os Cybercops passaram a combater a organização criminosa Destrap. Esta liderada pelo computador Fuhrer, uma criação do Barão Kageyama, verdadeiro líder do grupo.

O time principal do esquadrão era formado pela jovem Tomoko, e os policiais Akira, Takeda, Ryoiti e Osamu. Cada um dos quarto rapazes veste uma armadura (Unidade Cyber) com nome de um planeta e cores diferentes. Akira é Marte, líder da equipe e rival de Takeda. Takeda é o heróico Júpiter, que veio do futuro sem memória, e foi encontrado junto de sua armadura pela Interpol. O mulherengo Ryoiti é Saturno e por fim, o sério Osamu é Mercúrio. Tomoko deveria vestir uma Unidade Cyber chamada de Vênus, mas por problemas de custo, tal armadura nunca foi produzida.
>> NA TEVE – por Leonardo Rocha


GALERIA DE FANTASY ART

domingo | 6 | setembro | 2009

Esse é para quem aprecia a fantasia além da literatura propriamente dita. O Aumania é um site que contém uma gigantesca galeria de pinturas e desenhos baseados na cultura em geral da ficção fantástica.

Você pode pesquisar as imagens através dos autores e assim conhecer um pouco sobre outras mentes criativas que fizeram sucesso dentro do campo da ficção!

De J. R. R. Tolkien até Frank Frazetta, as imagens são um prato cheio para quem necessita “daquela inspiração” para “aquele
cenário” ou ainda “aquela cena”.
>> FALANDO DE FANTASIA – por Cezar Berger Junior


MATRIX: A VIDA É SONHO

sábado | 5 | setembro | 2009

 

A trilogia Matrix dos irmãos Warchovsky, no cinema, e a trilogia Neuromancer de William Gibson, na literatura, são narrativas futuristas sobre um mundo socialmente fraturado e de alta tecnologia. Apontam na direção de um futuro em que a realidade de carne e osso dos nossos corpos biológicos servirá apenas como infra-estrutura para uma realidade virtual, onde poderemos projetar nossa mente e criar ali todo um novo universo de ambientes, criaturas e interações. Viveremos plugados em alguma coisa, e através desse plug compartilharemos mentalmente uma realidade a que nossos corpos não terão acesso.

Elas me lembram um conceito criado por Brian Aldiss para descrever certas narrativas de ficção científica: o Barroco Cinemascope (“widescreen baroque”). Curiosamente essa concepção vem ao encontro de uma das mais notórias idéias do teatro barroco espanhol, aquela que Calderón de la Barca expressou melhor que todos em sua peça A Vida é Sonho, quando diz: “(…) estamos / em mundo tão singular / que o viver é só sonhar / e a vida ao fim nos imponha / que o homem que vive, sonha / o que é, até despertar”. Os poetas barrocos viviam numa época de fervorosa religiosidade, e procuravam exprimir das maneiras mais variadas esse contraste entre um mundo material cuja existência seus corpos não podiam deixar de reconhecer, e um mundo espiritual que lhes obcecava a mente por completo. O conflito entre a matéria e o espírito, duas realidades irrecusáveis, foi um dos temas mais obsessivos desses poetas.

O que Calderón dizia de seu mundo pode ser estendido à Matrix, o mundo ilusório criado pelas supermáquinas do futuro: “Sonha o rico sua riqueza / que trabalhos lhe oferece; / sonha o pobre que padece / sua miséria e pobreza; / sonha o que o triunfo preza, / sonha o que luta e pretende, / sonha o que agrava e ofende / e no mundo, em conclusão, / todos sonham o que são, / no entanto ninguém entende”. No mundo da Matrix, os seres humanos vivem acorrentados no interior de casulos, dormindo um sono hipnótico, tendo sua energia sugada por máquinas incompreensíveis enquanto sua mente sonha sonhos artificiais em que imaginam estar em grandes cidades, andando de carro, trabalhando em escritórios, amando, casando, vivendo, divertindo-se.

No primeiro filme dos Warchovsky, essa vida aparentemente banal e satisfatória é rompida quando um indivíduo (no caso o personagem Neo, de Keanu Reeves) aceita tomar uma pílula que servirá para estilhaçar a ilusão em que vive. A sua primeira sensação é de sair do mundo real e penetrar num pesadelo fantástico em que o mundo não é nada do que parecia. Ele poderia dizer, como o personagem de Calderón: “Eu sonho que estou aqui / de correntes carregado / e sonhei que em outro estado / mais lisonjeiro me vi”. Se fazemos a equação “a vida é sonho”, dizemos em conseqüência que “o sonho é vida”; rompida a primeira ilusão, nunca mais saberemos distinguir de que lado nos achamos.
>> MUNDO FANTASMO – por Bráulio Tavares

GAIMAN: FANTASISTAS GRAÇAS A DEUS

quinta-feira | 3 | setembro | 2009

Entreguei esses dias uma enoooorme tradução (quase 700 laudas) de Prince of Stories, um guia da obra de Neil Gaiman, escrito por Hank Wagner, Christopher Golden & Stephen Bissette. Lá, há biografia, entrevistas, fotos, resumos de todas as obras escritas por Gaiman – incluindo quadrinhos, romances, contos, roteiros, poemas e letras de música – e alguns textos inéditos dele.
Óbvio dizer que é indispensável para os fãs de Gaiman, mas para mim, que não era, foi uma imersão preciosa, não só no universo do cara, mas nos bastidores do mundo de quadrinhos e no fazer criativo como um todo.

Antes de tudo, Neil Gaiman é leitor ávido, apaixonado por histórias (principalmente mitologia clássica, fantasia e contos de fada – muito mais do que terror). Sua obra, desde Sandman até romances como Deuses Americanos e Os Filho de Anansi, é muito fundamentada no pastiche, nas citações, no que se chama de “ficção revisionista”. Mesmo a brilhante idéia gótica de The Graveyard Book (um garoto criado pelos mortos do cemitério) é na verdade uma releitura de The Jungle Book (ou, para os simplistas, “Mogli”, o livro ou o filme), assim como toda sua obra é uma releitura (assumida) do que já foi feito anteriormente.

Mas ele é um apaixonado. E é apaixonante. Daquelas pessoas que fazem a gente acreditar no valor transformador da ficção, da fantasia (e dos “fantasistas”), nesses tempos tão contaminados pela realidade, pelos realities, em que parece que não nos dão mesmo possibilidade de ir além. (Bem, ao menos aqui, ancorados no Brasil.) Muitas das discussões propostas no livro eu levantei no Fantasticon este ano, no meu debate com Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane e Kizzy Ysatis.

Bacanérrimas também são as entrevistas do livro, em que Gaiman esmiúça sua carreira – e inclusive dá números, valores. Fala, por exemplo, que ganha U$ 10 mil dólares a cada 5 anos da Warner Bross pelo direito de opção de Sandman – que até hoje está longe de virar filme. E que a razão dele não ter feito um novo Sandman é que ele ganha mais escrevendo romances, e a DC se recusa a aumentar sua porcentagem em preço de capa – que é de 4%.

Ele levanta também como os livros – na sua infância – eram a única forma de possuir e rever uma narrativa, já que não havia videocassete, DVD e o caralho. Os filmes que ele gostava os levava aos livros dos quais foram adaptados – como Mary Poppins, que ele dizia que sonhava em rever, mas sua família o levava sempre à Noviça Rebelde, que estava perpetuamente em cartaz, e que ele detestava.

(Isso me lembra um pouco a discussão do [péssimo] Pink, livro do Gus Van Sant que eu também traduzi [há uns 4 anos, e que acabou sendo engavetado], em que ele discutia se um filme hoje é feito de maneira diferente, pela possibilidade de ser revisto. Se o videocassete reposicionou o cinema com essa possibilidade de resgate, o DVD intensificou o processo com a possibilidade de posse. O VHS era muito mais um produto de aluguel do que o DVD, que se volta para a compra [e atualmente, diga-se, o suporte vai desaparecendo com o download direto na máquina {Aliás, na música as bandas já pensam *e dispensam* o formato álbum, com a tendência de se baixar faixas isoladas. Na indústria pornográfica, os filmes deixaram de fazer sentido e só se trabalham com cenas. Será que isso começa a alterar também o cinema? *Será que estou fazendo certo essa coisa de parêntese, chaves, colchetes e o escambau?*}].)

Enfim, Prince of Stories deve ser lançado pela Geração Editorial no próximo ano (porque é grande pra caralho e além da tradução entra todo o trabalho de revisão, pesquisa, etc). Aqui, ainda ficou uma pilha de obras do Gaiman por ler.
>> JARDIM BIZARRO – por Santiago Nazarian


36º SALÃO INTERNACIONAL DE HUMOR DE PIRACICABA E QUARTO MUNDO: UMA EXPOSIÇÃO PARA SER LIDA

quinta-feira | 3 | setembro | 2009

 4mundo_cartaz abertura
A exposição “Página por Página” é uma reunião de trabalhos de vários autores do coletivo de quadrinistas independentes Quarto Mundo que deve não apenas ser vista, mas principalmente, ser lida. 

Ao todo são 41 autores, entre desenhistas e roteiristas, apresentando 25 histórias fechadas de uma página ou, em alguns casos, tiras que se encerram no seu próprio significado, possibilitando ao visitante/leitor uma apreciação e uma percepção mais ampla do conteúdo da exposição. 

A proposta para a realização dessa exposição, a segunda do coletivo, partiu do artista gráfico e cartunista Fábio San Juan que reside em Piracicaba e foi pensada como parte das atividades paralelas ao 36º Salão Internacional de Humor de Piracicaba
O artista plástico, quadrinista e participante do Quarto Mundo, Edu Mendes acatou a proposta e sugeriu a ideia das páginas únicas e assim ambos ficaram responsáveis pela curadoria da exposição. 

As histórias em quadrinhos e tiras são apresentadas em painéis em tamanho A2 e trazem um panorama da recente produção dos quadrinhos independentes, dentro do coletivo Quarto Mundo, de norte a sul do Brasil, mostrando estilos de narrativa e desenhos bastante diversos.

A exposição conta com um catálogo, algo inédito no que se refere às exposições paralelas ao Salão de Humor que foi viabilizado através do Fundo de Apoio à Cultura de Piracicaba. Além ser um registro impresso da mostra é também uma revista em quadrinhos, o que conferiu ainda mais originalidade à proposta. No formato 21x28cm contém as 25 pranchas da exposição e as biografias dos autores, além de um texto de apresentação assinado por Gualberto Costa, um conhecedor e grande incentivador das produções independentes nacionais.

A abertura da mostra “Página por Página” do coletivo Quarto Mundo acontece no próximo dia 4 de setembro, sexta-feira, às 20horas, na sede centro do Clube Cristovão Colombo localizado na Rua Governador Pedro de Toledo, 771, Piracicaba/SP. Será oferecido um coquetel e a entrada é franca.

Apenas na abertura estará montada uma banca com as revistas do Quarto Mundo e os visitantes poderão conhecer as várias publicações do grupo. Alguns autores também estarão presentes autografando e conversando com o público.

A exposição fica até 18 de outubro de 2009, e conta com Apoio Cultural do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria Municipal da Ação Cultural de Piracicaba, Marqbem Comunicação Visual e Silk Sign.

Para conhecer mais sobre o Quarto Mundo acesse: http://4mundo.org

4mundo_montagem revistas


DISNEY VAI COMPRAR A MARVEL POR US$ 4 BI

quarta-feira | 2 | setembro | 2009

HOMEM ARANHA

Acionistas da Marvel precisam aprovar negócio;
Disney passaria a ser dona do Homem-Aranha e dos X-Men.

A gigante da indústria de entretenimento Walt Disney deve formalizar a comprar da editora de quadrinhos e produtora de filmes Marvel Entertainment em um negócio envolvendo pagamento em cash e aquisição de ações avaliado em US$ 4 bilhões de dólares (cerca de R$ 7.6 bilhões).

O acordo prevê que a Disney se torna proprietária dos 5 mil personagens criados pela Marvel, entre eles o Homem Aranha e os X-Men.

Em troca, os acionistas da Marvel recebem US$ 30 por ação (cerca de R$ 57) em dinheiro e mais 0,745 ação da Disney por cada ação da Marvel.

Tanto a direção da Disney como da Marvel já aprovaram a proposta, que agora precisa ser aprovada pelos acionistas da Marvel e pela autoridade americana que regula concorrência e a formação de monopólios no mercado do país.

Fusão
“Acreditamos que acrescentar a Marvel ao portfólio único da Disney traz oportunidades significativas de crescimento de longo prazo e criação de valor”, afirmou o presidente e executivo-chefe da Disney, Robert Iger.

“Estamos satisfeitos de trazer esses talentos e essas grandes criações para a Disney.”

Outros personagens da Marvel incluem Hulk, Demolidor, Quarteto Fantástico e Homem de Ferro, todos personagens que foram adaptacdos ao cinema.

“A Disney é o lar perfeito para o fantástico catálogo de personagens da Marvel, dada sua provada habilidade de expandir criação de conteúdo e licenciamento de negócios”, disse o executivo chefe da Marvel Ike Perlmutter.

“Esta é uma oportunidade sem paralelos para a Marvel fazer crescer sua marca vibrante e personagens ao entrar para a tremenda organização global e infra-estrutura da Disney pelo mundo”, acrescentou ele.

No mês passado, a Disney anunciou queda de mais de um quarto nos lucros, com perdas na receita de suas divisões de filmes e parques temáticos.

Os lucros líquidos entre abril e junho chegaram a US$ 954 milhões (R$ 1,813 bilhão), 26% a menos do que o arrecadado no mesmo período no ano passado. >> O ESTADO DE SÃO PAULO – BBC Brasil


MANGÁS: UM MUNDO DE BRINQUEDO

quarta-feira | 2 | setembro | 2009

Aonde quadrinhos são levados a sério, eles são vistos como uma grande fonte criativa impulsionadora de franquias – e portanto para negócios, em diferentes segmentos de produtos. Aqui, pessoas sem nada para fazer e com um discurso paranóico e castrador inventam projetos que só contribuem para destruir o mercado, como o substitutivo do Projeto de Lei nº 5.921/2001 redigido por Maria do Carmo Lara (PT – MG) a partir do Projeto de Lei original do deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB – PR, o que mostra que o inimigo trafega pelos dois lados do espectro político), Dinosaur Kingque pretende proibir a publicidade destinada ao público infantil e o uso de personagens do gênero em produtos para crianças (ou seja, matando a indústria de licenciamentos e uma das mais importantes fontes de rendimento de qualquer franquia baseada em quadrinhos). Em miúdos, viraram suas baterias indiretamente, mas de forma fulminante, contra a indústria do quadrinho infantil ao tentar cercear a indústria de licenciamentos com esse projeto. Vendagens não são tudo o que sustenta uma franquia e isso tem que ser levado em conta. Por outro lado, esses produtos não deixam de ser parte do que levam uma criança ao quadrinho original. Quantas vezes você, quando garoto, não teve em mãos um joguinho ou um brinquedo que lhe deram e, ao saber que isso era baseado em uma história em quadrinhos original, correu atrás para saber quem eram esses personagens?

Não sei a quantas anda o andamento da coisa, mas ele aponta a movimentação de setores que devem, sim, ser contestados e combatidos. Por isso mesmo estou abrindo meu arquivo de Bakuganmatérias publicada originalmente na revista Neo Tokyo com este artigo em especial. Ele fala justamente da importância desse segmento infantil de quadrinhos no Japão e de sua mecânica de licenciamentos. Está sendo postada em versão editada, mais por questão de concisão de mensagem: haviam tantas referências relativas ao lançamento de Let’s & Go – que não deu em nada – que me forçariam a reescrever a matéria praticamente toda para remover essas menções e colocar referências mais atuais do segmento, como Bakugan Battle Brawlers (que até foram mencionadas na nova versão). No entanto, as referências a Let’s & Go ajudam a explicar muita coisa da mecânica de licenciamentos – logo, foram removidos apenas os dados relativos ao lançamento do produto na época e que perderam razão de ser; ele continua sendo fio condutor do texto e a edição, aqui, tem como objetivo não sobrecarregar a leitura e dar uma pequena recontextualizada em relação a fatos que eram novidade e hoje estão distantes; o importante é a mensagem e ela permanece intocada, e embora eu fale de material japonês no artigo, ele vale para qualquer iniciativa local de produção de quadrinhos que seja levada a sério.

Bakugan

 
O fato é: quadrinho tem que gerar dinheiro para justificar que crie empregos. E quem está contra o quadrinho, está contra um setor inteiro e de indústria, que pode reverter em impostos, visibilidade no exterior e até na imagem pública do País. Quando a Turma da Mônica mostra a cara em produtos na China, ele é a imagem do Brasil no exterior. E os brinquedos são parte importante da dinâmica dos quadrinhos como negócio.

E quem é contra a indústria, é contra o Brasil. Sem discussões.

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Lets & GoMuita gente, entre os fãs de animação japonesa, coçou a cabeça quando vieram as primeiras notícias sobre a exibição de Let’s & Go no Brasil há poucos anos. Os fãs de sempre costumam estar à espera de novas animações e mangás, e em geral, quando aparece algo novo que ninguém contava, a reação geral é “Porque trouxeram isso? Porque não trouxeram ________ (anote na lacuna o nome do seu anime favorito)?

Antes de qualquer coisa, se alguém escreveu, digamos, Gantz ou qualquer outro anime que só poderia ser exibido na televisão brasileira com mais cortes do que uma motosserra, e que no Brasil não teria um décimo da audiência que os fãs acreditam que teria, mesmo que viesse na íntegra, só posso dizer que eles estão se iludindo. Dificilmente o que foi escrito na sua lacuna faria “o maior sucesso” – o gosto de núcleos menores não corresponde necessariamente ao gosto da massa. Em miúdos, Let’s & Go não foi pensado para uma minoria de fãs, mas para uma grande massa de consumidores dispostos aLets & Go comprar… carrinhos: a série contava a saga de Letsu (Let’s) Seiba e Go Seiba, irmãos e pilotos de carros Mini 4WD, usado em competições. Eles não têm destaque entre os 4WD até o dia em que o Dr. Tsuchiya lhes presenteia com carros especiais para competição. O primeiro se chama Sonic Saber e foi projetado para curvas especiais (dado para Letsu). O segundo carro, Magnum Saver, foi desenvolvido para grandes velocidades e é dado para Go Seiba. O resto… bom, o resto é previsível e levando em conta o público-alvo do material, eficaz. Quem viu materiais como, digamos, Beyblade, já conhece a fórmula: eles vão entrar no circuito de competições, fazer muitos amigos, fazer também muitos rivais – enfim, o de praxe. Let’s and Go pode não ter emplacado aqui, por conta dos horários inóspitos em que foi colocado no SBT, mas tem um histórico comercial respeitável no Japão.

Enquanto a maior parte dos materiais desejados pelo Fandom não costuma passar de uma temporada de 26 episódios (ou melhor, meia temporada – antigamente se esperava que a maior parte dos animes emplacasse por um ano), os carrinhos dos irmãos Seiba geraram TRÊS temporadas produzidas pela Xebec e exibidas pela TV Tokyo, cada uma com 51 episódios, Lets & Goalém de um filme para cinemas; uma série em mangá de vinte volumes publicada pela Shogakukan entre 1994 e 1999; sem falar de sete jogos pulverizados entre Playstation, Super Famicom, Game Boy e outros. No Japão, 25 milhões de carrinhos da franquia foram vendidos durante o ano de 1996, consumindo UM QUINTO das pilhas produzidas no país durante aquele ano. Os números se mostraram igualmente respeitáveis no resto da Ásia: Um milhão e quatrocentos mil carrinhos vendidos em Hong Kong; 2 milhões em Taiwan; 3 milhões nas Filipinas e… mais de 15 milhões de unidades na China. Não é pouca coisa.

Na verdade, podemos repetir um pequeno mantra aqui: Um anime é nada mais nada menos do que um comercial de televisão de 26 minutos (contando aberturas e encerramentos), cercado de outros anúncios por todos os lados – preferencialmente dedicados aos produtos que o próprio anime em si vende. E no caso, a história de Let’s and Go começa com a iniciativa comercial de uma grande empresa japonesa – a Corporação Tamiya. E nessa história, se evidencia e muito como funciona a mecânica comercial da criação de mangás e animes de massa, e sua relação com a venda de produtos de consumo.

Me dê um produto e dele eu farei um mangá!

A Corporação Tamiya foi fundada por Shunsaku Tamiya em Shizuoka, no ano de 1958, e é uma fabricante de modelos de plástico, kits de montagem (como os velhos Kits Revell, alguém lembra?), ferramentas para modelagem, modelos movidos a bateria ou energia solar – e para falarmos daquilo que nos interessa, carrinhos. TamiyaO que eles produzem tem mais a ver com modelismo do que com brinquedos – e nesse terreno, eles introduziram em 1982, no mercado, um produto chamado Mini 4WD – pequenos carros com motores elétricos, carregados por pilhas ou baterias recarregáveis, e projetados para atingir velocidades muito altas em trilhas especialmente preparadas, analogamente aos nossos velhos autoramas. No Japão, eles se tornaram uma mania – e contou muito para isso a possibilidade de tuná-los, como acontece com os carros de verdade. Os modelos podem ser upgradeados, com novos motores e peças – basta manter a proporção em velocidade e peso. Isso é estimulado pelo fato de que os acessórios à venda em separado tendem a ser superiores em resistência e qualidade ao itens que vem juntos ao modelo de loja.

Um brinquedo e tanto, cá entre nós.
CorocoroComo costuma acontecer nesses casos, a concorrência se acirrou. Empresas como a Tokyo Marui, Kyosho, Academy, Audley, Okami, Gokey, HJH, Twinkk e a AA entraram no mercado de Mini 4WD – e com isso, a ordem foi investir no marketing pesado para manter a companhia no topo. Assim, a Tamiya procurou a Shogakukan para a produção de uma série de mangá inspirada em seu produto. E assim, na edição de Junho de 1994 da revista Corocoro, foi publicado o primeiro capítulo da série “Bakusou Kyoudai Let’s and Go!!”, por Tetsuhiro Koshita. Para que se tenha uma idéia do tipo de material que esse mangá é, não dá para evitar explicações sobre a revista aonde ela foi publicada: a Corocoro é um almanaque infantil de quadrinhos, criado em como veículo para a mais popular série infantil japonesa, Doraemon. Como sabemos, no Japão, quadrinhos são dirigidos para todas as faixas etárias e de gênero. Mas a leitura de quadrinhos tem que ser incutida desde a alfabetização, e este é o público da Corocoro – garotos que mal aprenderam a ler. Doraemon já passara por seis revistas antes de se estabelecer na nova casa, e garantiu grande público para a publicação, que tem formato diferenciado (14,8 × 21 cm – menor do que a maioria das antologias, Corocoroportanto – com seis centímetros de espessura), mais prático para uma criança de seis, sete anos carregar em mãos.

Mas foi nos anos noventa que seu papel como representante de franquias fez dela o que é hoje dentro do seu segmento. Acordos com a Tamiya (que gerou Let’s & Go!!), Nintendo, Takara (Bey Blade) e outras empresas do ramo de brinquedos e games a tornaram uma espécie de porta-voz da indústria para o público infantil. Matérias sobre jogos (ela é praticamente uma das principais fontes de informação sobre os jogos pokemon), lançamentos de brinquedos, muitos anúncios… e claro, mangás baseados em jogos e brinquedos, como Donkey Kong, Duel Masters, Kirby, Super Mario, Tamagotchi, Zoids, Beyblade, Bomberman J, Megaman, Pokemon, e por aí vai; poucas antologias evidenciam tanto a relação entre quadrinho e indústria quanto a Coro-Coro – mais até do que a toda-poderosa Shonen Jump. E por isso faz sentido quando materiais como os que são veiculados nela chegam até nós. Assim como Bey Blade, por exemplo – ou o próprio Let’s and Go. São materiais de objetividade comercial comprovada, que pretendem assumidamente vender um produto. É injusto chamar esse tipo de material de picaretagem, porque elas são honestas: assumem não ter compromisso em nada além de entreter e divulgar aquilo que querem vender. Não disfarçam isso nem fingem ser aquilo que não são.

MônicaDiferentemente do Japão, o quadrinho não tem a penetração de massa que poderia ter neste país – e a bem da verdade, as experiências de se publicar mangá assumidamente infantil aqui no Brasil nunca se sustentaram como deveria. Porque, mesmo sendo crianças por natureza o que são; mesmo uma revista como a Recreio tendo vendagens semanais expressivas… enfim, com vários sinais de ao menos termos um mercado infantil sólido; nossos mangás infantis não decolam. Megaman acabou sendo suspenso após poucas edições; Crayon Shin-Chan, apesar de ter sido publicado de forma acertada, também não decolou.

Dr. Slump, mesmo elogiadíssimo pela crítica, foi talvez o maior fracasso da Conrad na área dos mangás. Ironicamente, o maior sucesso do quadrinho infantil dos últimos anos, Mônica Jovem, foi o caso de tiro em passarinho que acertou mariposa: quiseram fazer um produto para adolescentes, mas o paternalismo que castrou os personagens acabou formatando-os para um público mais jovem – ou seja, os adolescentes de Maurício de Sousa foram tão infantilizados que as crianças compraram a idéia com mais presteza do que os próprios adolescentes que Sousa quis acertar. O que pode estar errado?

Contra os Interesses do Público

Yu-Gi-OhQuando um certo apresentador de um programa imbecil – sem meias palavras aqui – rasgou cartas de Yu-Gi-Oh dizendo que elas são coisa do demônio em frente às câmeras, induzindo uma mudança de classificação do desenho em questão no ministério público feita às pressas, a empresa que as produziu teria todo o direito de exigir uma indenização exorbitante por perdas e danos. Entretanto, isso não foi o que aconteceu. Nesse sentido, interesses de grupos menores de pessoas acabam se sobrepondo não só ao interesse da iniciativa privada, como também contra o público consumidor que criou a demanda pelo material prejudicado. Ou seja: o Ministério Público – e o interesse de núcleos que dizem agir “em nome do bem estar comum” – rasga o dinheiro das empresas que querem publicar e lançar seus produtos, gerando empregos nem que seja na área de importação e distribuição.

O maior inimigo do crescimento dos animes no Brasil, até agora, tem sido justamente essa gente, que mais e mais exige versões retalhadas que postergaram o lançamento de séries de sucesso em todos os fronts mercadológicos possíveis. Entretanto, novelas de tv exibidas antes Bakugandas oito da noite mostram um comportamento moral aterrorizante e o senso comum impele o espectador a perder tempo em frente à Globo, ao invés de mudar de canal. Convenhamos: Naruto não pode mostrar sangue antes das oito – e a Globo não removeria seu Manoel Carlos, suas novelas sem pé nem cabeça (convenhamos, algum ser humano consegue fazer uma sinopse coerente de “Mulheres Apaixonadas?”), seus personagens que declamam ao invés de falar como seres humanos, para exibir um desenho animado. Seria contra essas novelas que um canal de televisão que ousasse exibir Naruto sem cortes teria que voltar suas baterias, por causa do horário que lhes foi permitido expôr o material. E desgraçadamente, se o fizessem, falhariam miseravelmente – porque as novelas da globo deixaram de ser segmentadas e passaram a se voltar diretamente à mães e vovós que deixam a tv da sala como refém. Mas em tempos de duas televisões na mesma casa e internet em banda larga, essa amostragem não é mais tão significativa assim – falta apenas o empresariado se conscientizar disso.
yu-gi-ohSem animação no ar para capitalizar público, o alto investimento exigido para o lançamento do material, que está com o custo dos direitos nas alturas, não valeria a pena. Logo, sem o anime, o mangá é prejudicado. Sem anime e mangá, a miríade de produtos é prejudicada. E pra deixar bem claro o final dessa cadeia, quem sai prejudicado são aqueles que podem fazer dinheiro honestamente neste país – e um público que os receberia de braços abertos.

Notem que a Globo, no primeiro capítulo da decepcionante novela Bang Bang, exibiu uma animação que mostra o massacre de uma família a tiros, mal e porcamente decalcada do clássico western “Era Uma Vez no Oeste”. E passou batido. Detalhe: foi alegado que o objetivo de usarem uma animação foi “ludicizar” a violência, analogamente aos desenhos japoneses (embora, sinceramente, me pareça que tudo o que eles queriam era imitar a sequência animada de Kill Bill). Se ela pôde, sem sustos, então o precedente foi aberto. Para todos os efeitos, a violência dos animes é… lúdica e portanto, aceitável. Dois pesos, duas medidas.

Let’s and Go não teve esses problemas e de modo geral, um Bakugan Battle Brawlers, para usar um referencial mais atual, não os terá. Mas isso não mudará o fato de que um eventual mangá infantil enfrentaria outros obstáculos em nosso mercado de quadrinhos. Convenhamos, esse material não foi feito para os fãs, vou repetir… e são os fãs que monopolizaram o setor de mangás das bancas.

Mangá de Criança é para Criança

AraleTalvez a melhor forma de entender quais seriam esses obstáculos seja simplesmente dar uma olhadinha no seu ponto de compra usual de revistas e jornais. Sempre que um mangá infantil estrear nas bancas, ele vai ser colocado junto com os outros mangás. Isso quer dizer que, digamos, um eventual mangá de Medabots seria jogado ao lado de materiais adultos como Sanctuary, ou materiais adolescentes como Slam Dunk. Forcem um pouquinho a memória: onde estão os quadrinhos infantis na sua banca favorita, mesmo?

Exatamente. Se olharmos bem, eles são separados pela faixa etária. Mangás como Megaman, Dr. Slump e outros deveriam ter sido colocados ao lado de Disney e Mônica, onde serão encontrados por seu público. Para que não pensemos que esse é um exagero, basta lembrar uma das trajetórias de sucesso mais inesperadas do meio: Love Junkies. Não chega nem a ser realmente um quadrinho pornô de verdade – os erocoms, de modo geral, são no máximo pornochanchadas em quadrinhos, onde há alguns limites quanto ao que de mais explícito pode ser mostrado nas cenas de sexo. Mas se trata de material competente em sua proposta, com boas arte e narrativa visual. Tem um preço mais acessível. Provavelmente teve direitos mais Megamanbaratos, uma vez que não se trata de um mega-hit que gera milhões em produtos. Se tivesse ficado ao lado dos demais mangás, provavelmente não teria sido lido.
Entretanto, sua própria natureza de material erótico o colocou junto aos materiais do gênero nas bancas.

Foi a sua sorte. Ao lado desse tipo de material, Love Junkies encontrou seu público. Que sabe o que procurar na parte da banca onde lhes interessa. E francamente, essa seria a tábua de salvação para os mangás infantis – garantir que eles fiquem ao lado de Mônica e Donald, não de Tenjho Tenge e similares. O grande problema tem a ver com cultura quadrinhística: os mangás são tratados como uma categoria à parte nas bancas, onde tudo é mangá – e chamando a atenção basicamente dos fãs de mangá, ninguém mais, ninguém menos. Shoujo, shonen e seinen, para o leitor médio, são palavras esquisitas que não querem dizer nada. E não há o investimento de marketing necessário para fazer o público infantil ir direto a essa seção em busca de um material específico. Levamos anos para ver um anúncio de Karekano na televisão. Mas talvez esse esforço fosse melhor aplicado em Bey Blades e similares, ou mesmo num eventualRoll mangá do produto da vez – pelo menos em um primeiro momento.

Essa percepção de que mangá é mangá, e de que sua procedência definiria sua natureza, anula justamente um dos mais poderosos trunfos dos quadrinhos japoneses – o de que há de tudo para todos os gostos, em todos os gêneros, seja fantasia, seja ficção científica, seja drama, seja comédia, seja romance, seja terror… e seja infantil. Separação que é feita de forma natural em quadrinhos de outras procedências, inclusive a nossa. Mas que por conta da tendência que temos de enxergar o mangá como um todo, com divisões que só fazem sentido para quem estiver dentro do meio…

Dificilmente meus leitores vão gastar, em sua maioria, o seu dinheiro com um mangá do Megaman. Na época em que escrevi essa matéria, eu li, em uma comunidade do Orkut, uma lista dos “piores” animes – e praticamente os alvos eram todos materiais infantis como Megaman NT Warrior e similares. Só que são materiais que não são feitos para fãs de anime, mas para… crianças comuns. quando esses materiais são lançados, acabam não encontrando seu verdadeiro público; a sua única esperança é a exibição de sua versão animada, servindo como chamariz natural para os materiais em bancas. Isolados em seus pontos de venda, as editoras acabam se voltando naturalmente para o núcleo de fãs de sempre.

Quadrinho, animação, franquia

Dinosaur KingVontade de investir não falta, pelo visto. Produtos à venda, também não. Quadrinho é essencialmente a mídia de base para uma franquia, pronta para testar mercado para seu conceito. Muitas vezes o fã, apaixonado por um conjunto de séries, se deixa cegar para esse fato.

Essencialmente, isso foi o que tornou aos mangás e animes a indústria milionária que são nos dias de hoje: atender à demandas do público e necessidades de mercado. São as Coro-Coros do Japão que criam novos leitores de mangá que também serão novos consumidores de videogames e brinquedos. Convenhamos, Let’s and Go e Dinossauro Rei não são animes feitos para o leitor de revistas especializadas. São feitos para um público que lá no Japão mal saiu da alfabetização, que compra brinquedos não por nerdice, mas para brincar de verdade, e que são introduzidos aos mangás justamente por esse tipo de material. Serão estes que irão ler Naruto aos doze, Tenjho Tenge aos dezesseis, Monster aos vinte e poucos – e enfim, continuar lendo mangás pelo resto da vida. Por mais toscos que esses materiais possam parecer a um adolescente ou até mesmo a um adulto, são importantes para a própria oxigenação do meio.

Quando um material desses chega ao Brasil e atinge seu público, e vende seus produtos, é porque fez animes darem dinheiro onde animação e quadrinhos, em geral, não dão dinheiro. E isso, sem brincadeira – é motivo de palmas.
>> MAXIMUM COSMO – por Lancaster


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