OS MUNDO ALÉM DA IMAGINAÇÃO DE ROD SERLING

Twilight Zone

Em meio à grande quantidade de produções de séries, a maioria delas tão somente veículos para um entretenimento descartável, o ano de 2002 chamou a atenção na TV americana por ‘ressuscitar’ um dos símbolos do entretenimento, mas da mais alta expressão de qualidade. Sim, estamos falando em Além da Imaginação (Twilight Zone), que passou a ter exibido o segundo remake do clássico dos anos de 1960, criado por Rod Serling. Mas antes de falar um pouco desta nova produção vamos contar a história lá do início.

Se os anos de 1960 foram os mais radicais e contestadores do século 20, até na mais conservadora das mídias seus ecos foram sentidos. A partir de 1959 estreava na TV americana uma série que modificaria para sempre seus padrões de qualidade, filmagem e criatividade. Uma série que mostrava a que viera até no nome: ‘além da imaginação’ àquilo já visto e imaginado na TV.

O responsável por essa virada foi um sujeito que lia as revistas pulp magazines (compradas em bancas de jornais por menos de um dólar) desde criança. Rod Serling foi além da ‘zona do crepúsculo’ em revistas como Weird Tales, Amazing Stories e Astounding Science Fiction. Chegou até a escrever alguns contos para elas, mas suas idéias e criações ganharam espaço mesmo em um novo meio de comunicação e entretenimento que mudou o padrão de comportamento da América nos anos de 1950. Sim, ela, a televisão.

Sem elenco fixo, com cada episódio tendo uma história própria sem ligação alguma com as demais e com a narração clássica de Serling abrindo cada episódio, Além da Imaginação (Twilight Zone) explorou à exaustão o fantástico na TV. Foram 156 episódios (138 com 25 minutos de duração e 18 com 50 minutos), a maioria deles exibidos no Brasil em diferentes épocas, numa clássica fotografia em preto e branco, angulações ousadas, recursos de metalinguagem e metáforas jamais pensadas que muito ajudaram a mudar o panorama artístico e temático da época.

Isto por si só já seria de interesse em meio à mediocridade reinante, mas o que realmente cativou o público transformando a série num fenômeno popular, foi a solidez, o conhecimento do fantástico que Serling e seus brilhantes roteiristas, entre eles os escritores Richard Matheson e Charles Beaumont demonstraram em histórias insólitas, absurdas, oníricas, assustadoras, mas sempre com um pé na realidade. Só a primeira pisada do pé direito, é claro. Pois com o esquerdo, Serling & Cia. nos levava a tempos, lugares, acontecimentos ‘além da imaginação’.

Um dos segredos da empatia das histórias era a sua premissa: em situações banais do dia-a-dia os personagens se deparam com fatos, situações, lembranças, imagens, ou até aparições que subvertem o cotidiano onde estão mergulhados. E aí de pouco adianta tentar voltar à realidade. Acompanhamos fascinados, surpresos, apavorados e com pena, as peripécias e o destino dos pobres coitados que entraram numa região onde nossas leis e senso comum não existem. Vale apenas a imaginação além da zona do crepúsculo.

Serling brincou com o público de uma maneira nova: fora dos westerns e comédias de costumes tão características da TV americana da época. Colocou o estranhamento, o sobrenatural, a fantasia na casa dos conservadores familiares da classe média. E eles adoraram! Além da Imaginação foi além do mero escapismo em suas histórias de viagens no tempo, colonização espacial, pacto com o demônio, invasão extraterrestre, universos paralelos, discutindo dentro do ‘além’, desde questões importantes e delicadas da condição humana —como morte, pecado, vaidade, egoísmo —, até questões da vida social e histórica: ecologia, guerra nuclear, ética científica e tantos outros mais.

E a estrutura e os recursos técnicos de que dispunha só ressaltam a criatividade e qualidade dos episódios. Os filmes eram produzidos ainda em 16 mm, num ritmo alucinante de dois episódios por semana. Trocando em miúdos, apenas um ou dois dias de filmagem para cada episódio, pois após as filmagens vêm as etapas de finalização, como montagem, efeitos especiais, sonorização e copiagem.

Outra curiosidade era quanto ao elenco de atores que Rod Serling dispunha: na grande maioria jovens, sem muita experiência, cobrando um cachê baratinho, precisando de trabalho para alçar sonhos mais altos em Hollywood. E destes vários realmente trilharam uma carreira brilhante, como Lee Marvin, William Shatner, Billy Mumy, Anne Francis, Donald Pleseance, Warren Stevens, Rod Taylor, Dean Stockwell, Leonard Nimoy, Elisabeth Montgomery, Charles Bronson, Jonathan Harris, Buster Keaton, Lee van Cleef, Jeff Morrow, Burgess Meredith, Martin Landau, James Franciscus e… ufa! Muitos outros.

Pergunte aos fãs de horror e ficção científica entre os 40 e 50 anos (talvez seu pai ou sua mãe), qual foi o programa de TV que os fez definitivamente amar histórias de monstros e viagens espaciais. E sem precisar ficar escondido se sentindo um sujeito bizarro e desajustado. Pois a série era elegante e criativa o suficiente para ser assistida por toda a família.

A maioria dos episódios são de ótima qualidade, mas os três primeiros anos foram os mais criativos, quando as histórias eram contadas em apenas 25 minutos e os roteiros eram mais enxutos e as situações mais decisivas e arrebatadoras. Histórias que me vêm à mente sem muito esforço, como “Onde Estão Todos?” (“Where is Everybody?”), o primeiro da série, onde um homem descobre que está sozinho em uma pequena cidade. Até aí é estranho, mas o que me arrepia até hoje é o final quando ele descobre que fazia parte de uma experiência para analisar as reações humanas na solidão do espaço.

Também muito lembrado é “Tempo Suficiente” (“Time Enough at Last”). Único sobrevivente de uma guerra nuclear, um homem pode se dedicar ao seu passatempo predileto: ler. Depois de selecionar milhares de livros, ele deixa cair seus óculos no chão e…!

Só pra deixar vocês com vontade de ver ou rever de novo a série vou citar mais dois. Em “A Elegia” (“Elegy”), astronautas pousam em um planeta onde seus habitantes parecem estar sempre em transe. Parecem, pois o que lhes espera não os deixarão muito diferentes dos nativos. Já “Céu Aberto” (“And When the Sky is Opened”), mostra três pilotos que depois de voltarem do primeiro vôo espacial tripulado começam a desaparecer, um a um, sem deixar rastros nem lembranças de sequer terem existido. Deu pra sentir o que é estar em contato com “uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito”?

The Twilight Zone é a mais criativa e original série de ficção científica, horror e fantasia já exibida e depois de seu encerramento em 1964 restou a Serling negociar os direitos de reprise em pequenas estações de TV pelo interior dos Estados Unidos. E não demorou muito para aparecer seguidores. O primeiro – e melhor deles – foi The Outer Limits (Quinta Dimensão, no Brasil), já no ano de 1963. Produzida pela ABC, numa criação de Leslie Stevens, durou duas temporadas, com 50 episódios e mais ênfase na ficção científica, com um nível médio de histórias muito bom também. Escritores clássicos do gênero como Clifford Simak, Fredric Brown e o então jovem Harlan Ellison, escreveram alguns dos episódios, que em sua maioria foram assinados por Joseph Stefano e Anthony Lawrence. Na mesma toada de sua inspiradora, atores promissores dela participaram, como os já citados William Shatner e Leonard Nimoy – antes do sucesso definitivo de Jornada nas Estrelas (Star Trek) –, além de Bruce Dern e Robert Culp, entre outros.   

Em 1970 os fãs estavam saudosos e Rod Serling iniciou um novo projeto: Rod Serling’s Night Gallery (com o nome A Galeria do Terror no Brasil ). Um novo seriado com 50 episódios independentes levados ao ar entre os anos de 1971 e 1973. Com Serling apresentando os episódios em uma galeria de arte, a câmera mostrava um quadro, de onde começava uma história. Desta vez o enfoque foi mais explícito no horror, com adaptações de contos de H.P. Lovecraft, Arthur Machen, Robert Bloch entre outros mestres do pavor. Mas não tinha o mesmo espírito inovador e ousado de sua criação original, pois ele não tinha a mesma independência sobre a produção da série. Mesmo assim este último seriado de Serling revelou – como de praxe –, gente muito talentosa como, simplesmente, Steven Spielberg, que teve sua primeira oportunidade de direção nesta série. Rod Serling faleceu em 1975, com apenas 50 anos deixando sua marca como um dos mais brilhantes homens a manipular a imaginação muito além dos nossos sentidos e dimensões.

Todo um culto a Rod Serling apareceu depois de sua morte. Uma revista de cinema e literatura importante, a Twilight Zone Magazine foi publicada de 1981 a 1989 ao mesmo tempo que o formato e o nome da série era levado ao cinema em 1983, com o filme No Limite da Realidade (Twilight Zone). Longa-metragem dividido em quatro episódios refilmados a partir da série original, teve como diretores Steven Spielberg, George Miller, Joe Dante e John Landis. Para dar coerência ao filme, os episódios foram interligados por um evento comum às quatro histórias.

Mas não foi só. A rede de TV CBS produzia entre 1985 e 1987 o primeiro remake do clássico com o mesmo nome de Twilight Zone. Nesta nova versão os recursos foram generosos, uma quantidade razoável de episódios foi de boa qualidade, embora o conjunto tenha sido irregular, com altos e baixos na direção, interpretação e a qualidade de algumas histórias. Além do quê, esta nova série ficou muito longe de qualquer experiência de estilo de filmagem e de efeitos visuais, mais conformada com o padrão médio estabelecido com o desenvolvimento da TV. Desenvolvimento este, por sinal, muito influenciado pela própria criação original de Serling. De qualquer forma, é possível argumentar que esta nova série, ao sofrer uma comparação inevitável com a primeira versão, teve seu julgamento crítico um pouco exagerado, deixando de se reconhecer nela, uma boa qualidade média, ao menos para o que se estava produzindo em meados dos anos de 1980.

Nesta nova versão, o modelo de diferentes elencos, diretores e roteiristas se manteve. E isto seguiu a tradição positiva de revelar talentos para a TV e o cinema americano dos anos seguintes. Atores em início de carreira como por exemplo Bruce Willis, Helen Mirren, Charles Martin Smith, Robert Carradine, Elliot Gould, Brent Spiner, Frances McDormand, Peter Coyote, Joe Mantegna e Morgan Freeman. E também jovens diretores que depois alçaram a fama, como Wes Craven, Jim McBride e Joe Dante. E um roteirista que foi particularmente ativo e já mostrava seu talento foi J. Michael Straczynski, que escreveu vários dos 110 episódios. Em meados dos anos de 1990 ele seria o responsável pela obra-prima de ficção científica na TV Babylon 5.

Nesta nova versão foram convidadas algumas das maiores estrelas da literatura de ficção científica e horror, pelo menos para as duas primeiras temporadas. E, não por acaso, os melhores episódios – que rivalizam com os da versão original –, foram baseados em suas histórias ou escritas por eles mesmos. Falo aqui de Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Theodore Sturgeon, Robert Silverberg, Harlan Ellison, Robert Silverberg , Stephen King, Joe Haldeman e Robert McCammon.

Depois de uma década e meia de intervalo, eis que surge a iniciativa de um segundo remake para a criação de Serling. Em 2002 passa a ser exibida uma nova versão que, em si, procura seguir os paradigmas consagrados da série original. Esta também dispõe de bons recursos financeiros e os atores e diretores são – ainda – desconhecidos em sua maioria. Chama apenas a atenção que as histórias são escritas por roteiristas e autores iniciantes, sem a assinatura de nomes importantes da literatura de ficção científica e horror. Outra curiosa tradição que é mantida nesta terceira edição é a seqüência temática dos episódios. Começam com muita ficção científica e gradativamente a fantasia e o horror ganham mais espaço. De qualquer forma, esta terceira edição teve vida curta, durou apenas uma temporada, com cerca de 27 episódios. No momento, início de 2004, ela pode ser vista no Brasil, no canal a cabo Fox – por meio da retransmissora Net –, aos sábados, às oito da noite e com reprise aos domingos, quatro da tarde.

Com todos estes ‘filhotes’ da Além da Imaginação original, além dos outros seriados de mesmo perfil criados por outros produtores – como por exemplo o recente Night Visions, vez por outra reprisado pelo SBT –, fica claro que o tripé histórias curtas, fantásticas e feitas para a TV é uma marca já consagrada. E é interessante relacionar isso com o argumento de alguns críticos de que a forma por excelência do horror e da ficção científica literária é o conto, a história curta, sintética, que concentra sense of wonder e alta tensão dramática.

Mas o charme e, por que não?, o saudosismo da série clássica em preto e branco ainda é insuperável, a começar por sua inesquecível abertura: “Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação”.
>> SCARIUM – por Marcello Simão Branco

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