LÉVI-STRAUSS: O PENSAMENTO SELVAGEM

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Pois é, morreu o cara que nos ensinou a ver os mitos não como uma coleção de historinhas absurdas, mas como um sistema. Sempre me lembro de Lévi-Strauss quando vejo Dawkins e seus discípulos enchendo a boca para enunciar, como se fosse uma novidade absoluta, as mesmas críticas que o racionalismo do século XIX fazia aos mitos, e que o antropólogo francês provou por a + b que são completamente equivocadas.

Não que Lévi-Strauss não fosse um racionalista ou que acreditasse literal e ingenuamente nos mitos, muito pelo contrário. Foi justamente com a postura metodológica de um cientista que, em obras como O Totemismo Hoje, O Pensamento Selvagem ou os enciclopédicos quatro volumes das Mitológicas (O Cru e o Cozido, Do Mel às Cinzas, A Origem dos Modos à Mesa e O Homem Nu), Lévi-Strauss se debruçou sobre a mitologia de vários povos, especialmente os povos ameríndios, para revelar a lógica que se oculta por detrás de sua aparente irracionalidade. Uma lógica que, embora diferente da lógica clássica, aristotélica, é, à sua maneira, tão rigorosa quanto um silogismo.

Mitos, dizia Lévi-Strauss, são fatos mentais. Constituem a tradução e o reflexo, em forma de uma narrativa simbólica, das estruturas inconscientes que regem o funcionamento da mente humana, que projeta essas estruturas sobre a realidade exterior a fim de introduzir ordem e significado no caos da nossa experiência bruta do mundo.

Nenhum dos elementos que compõem o mito é arbitrário ou está lá por acaso. Deuses, heróis, animais e plantas são agrupados em função de relações de simetria, afinidade e oposição, e as ações do mito são uma transposição dessas relações em termos de narrativa, mais ou menos à maneira dos sonhos, que também geram histórias a partir das estruturas inconscientes da psique.

Mais ainda, Lévi-Strauss mostrou que as mesmas estruturas refletidas nos mitos desempenham um papel ordenador em todos os níveis da vida humana: na organização da sociedade, nas estruturas elementares de parentesco, nas manifestações culturais e assim por diante. Tomados em conjunto, os mitos são uma linguagem através da qual indivíduos e grupos sociais exprimem e dão forma à sua visão do mundo.

Sempre achei uma pena que Lévi-Strauss e Jung nunca tivessem se encontrado, quer no plano pessoal, quer no plano teórico. Partindo de pólos opostos – o primeiro do estudo das sociedades e o segundo da psique dos indivíduos – ambos chegaram a conclusões essencialmente semelhantes sobre a natureza dos mitos. Apesar disso, Jung nunca se referiu a Lévi-Strauss que, por sua vez, nas poucas vezes em que mencionou Jung, foi com uma atitude crítica. O que se explica, em parte, pelo fato de Lévi-Strauss ser francês e judeu. O cenário intelectual francês sempre foi dominado por Freud, e o Jung que Lévi-Strauss conheceu foi o Jung filtrado pelos preconceitos freudianos, que o retratavam como um nazista e um anti-semita (o que Deirdre Barr, em sua biografia definitiva de Jung, demonstrou que era mentira: Jung não só nunca foi nazista como, de fato, durante a II Guerra, foi agente secreto dos aliados). É natural que o antropólogo francês torcesse o nariz para o psicólogo suíço, mas não deixa de ser lamentável: a análise estrutural dos mitos que Lévi-Strauss introduziu e o método junguiano de amplificação complementam-se admiravelmente.

Ao lado do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussurre, o trabalho de Lévi-Strauss sobre os mitos foi uma das principais molas propulsoras do estruturalismo, um movimento que pegou de roldão o cenário intelectual francês no início da segunda metade do século XX e se alastrou pela psicanálise, crítica literária e filosofia. E, uma vez que o cenário intelectual francês dominava o pensamento acadêmico mundial – hoje já não parece dominar tanto – pode-se dizer que a história das idéias no mundo contemporâneo teria sido outra sem Lévi-Strauss. Praticamente todos os pensadores pós-existencialistas sentiram, direta ou indiretamente, a sua influência: Lacan, Foucault, Roland Barthes, Derrida, Deleuze, Lyotard, até mesmo Baudrillard, cujo primeiro livro, O Sistema dos Objetos, nasceu como uma tese acadêmica orientada por um Barthes ainda encharcado de pensamento estruturalista.

Mas, apesar de lhe ter servido de gatilho, os méritos e deméritos da revolução estruturalista têm muito pouco a ver com Lévi-Strauss, que sempre permaneceu à parte e, mais de uma vez, declarou que considerava o estruturalismo como uma generalização indevida de suas idéias. E a verdade é que, um a um, os próprios estruturalistas foram abandonando suas posições iniciais, migrando para o que se convencionou chamar de “pós-estruturalismo”(e que chegou às praias da América indissoluvelmente mesclado com o pós-modernismo).

Tanto o estruturalismo quanto o pós-estruturalismo, porém, guardadas as muitas diferenças, compartilham uma mesma premissa básica: a de que não existe nada a que se possa chamar de “natureza humana” e de que todos os fenômenos psicológicos e socioculturais não passam de formações históricas e construções ideológicas. Lévi-Strauss não compartilhava dessa premissa. Para ele (como para Jung), as estruturas inconscientes reveladas pelos mitos são um reflexo justamente dessa natureza humana universal que o pós-modernismo jura não existir e que as neurociências vêm de demonstrar.

O fato de Lévi-Strauss ter sobrevivido a todos os demais estruturalistas talvez seja profundamente simbólico.

Talvez não.
>> EPISTEMONIKE PHANTASIA – por Lucio Manfredi

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