POR QUE, AFINAL, A LITERATURA BRASILEIRA NÃO VENDE? E POR QUE VENDERIA?

quarta-feira | 16 | janeiro | 2013

Lit bras

1. Um problema de sintonia

“Eles não chegam lá”: o título da esclarecedora matéria de Marco Rodrigo Almeida na capa da Ilustrada(Folha da S. Paulo03/01/2013) sintetizaum dado revelador do velho problema da produção e do consumo literários brasileiros. Enquanto os livros de não-ficção mais vendidos no país são predominantemente brasileiros, os de ficção são estrangeiros: as ficções nacionais encalham. Por quê?

É relativamente fácil compreender o predomínio de autores nacionais na não-ficção: eles costumam tratar de temas nacionais (embora isto não seja necessário, ou necessariamente positivo, pois no limite denota provincianismo), de imediato interesse local. A biografia de um bilionário nativo desperta mais interesse, por exemplo, do que o debate sobre o controle (ou o descontrole) de armas nos EUA. Além disso, como afirma Pascoal Soto, diretor-geral da Leya,

Na não-ficção encontramos autores dispostos a atender à demanda do grande público. Eles abordam temas interessantes [principalmente no sentido acima comentado] e escrevem de forma acessível. Já os romancistas escrevem para os amigos, para ganhar o Nobel de literatura.

A primeira parte da resposta parece verdadeira, mas a segunda, por força da ironia, acaba por ocultar as coisas. Os romancistas brasileiros escrevem, de fato, “para os amigos”, mas não como motivo primário. Na verdade, eles não escrevem para o público, que desprezam.

Esse desprezo pelo público se manifesta reiteradas vezes na matéria secundária à de capa (“Ficção perdeu os leitores, diz o autor de ‘O Filho Eterno’”, p. 3). O que não se compreende: pois as afirmações dos autores não são exatamente sofisticadas.

“O autor que se guia pelas tendências do mercado deixa de ser um artista para ser um comerciante” (Marçal Aquino)

“O que é bom não vende muito. O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade” (Sérgio Sant’Anna)

“Há um sério problema de falta de sintonia entre o grande público e os escritores brasileiros” (Nelson de Oliveira)

“Nós perdemos o leitor depois dos anos 1970, quando a universidade passou a dominar a literatura. Houve uma poetização da prosa, a narrativa clássica implodiu. [...] Se vender, ótimo. Mas ficar obcecado com isso pode envenenar o autor” (Cristovão Tezza)

A frase de Marçal Aquino é um velho clichê tardorromântico, que pressupõe a pureza espiritual do artista contra a impureza materialista do vil comerciante e, portanto, esquece, por exemplo, que Michelangelo e Da Vinci trabalhavam sob encomenda. Também esquece a “perda da inocência” ao longo de todo o século XX. A afirmação de Sérgio de Sant´Anna, por outro lado, é mais direta, e também mais desleixada: “O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade”. O pessoal não tem nível intelectual? E se, para Pound, o artista era a antena da raça, para Nelson Oliveira é uma espécie de rádio, com um “sério problema de falta de sintonia” com o público. Já Cristóvão Tezza, antes de repetir o clichê de Aquino, parece confundir os anos 1970 com os anos 1920: a “poetização da prosa”, assim como a “explosão da narrativa clássica”, aconteceu cinquenta anos antes do que afirma. De qualquer modo, pouco poderia explicar das circunstâncias contemporâneas.

2. Gênio pobre versus vendilhão rico

O problema, em todo caso, estaria na defasagem entre o gosto médio do público por uma literatura igualmente média e a insistência dos ficcionistas brasileiros em criar uma literatura “sofisticada”. Isto geraria uma demanda sempre insatisfeita, de um lado, e uma oferta sempre insatisfatória, de outro. Pois a literatura “sofisticada” satisfaria apenas a demanda pessoal do próprio produtor, ignorando a demanda pública dos consumidores. Se fosse verdade, tratar-se-ia de um clássico problema de oferta. Neste caso, as próprias leis do mercado se encarregariam de solucioná-lo. Pois não é de se crer que o Brasil só produza candidatos a gênio literário, e nunca escritores que desejam simplesmente ficar ricos.

Prova disso é o mais rico escritor brasileiro – apesar de não se tratar, de fato, de um escritor. Refiro-me a Paulo Coelho. Ele não é um escritor porque escrever não é juntar palavras. Ou seja, juntar palavras não é suficiente. Por isso a lista telefônica não é literatura. Nem é literatura o que ele produz, pois literatura é trato com a linguagem verbal, de um lado, e trato da realidade pelo trato da linguagem verbal, de outro, e Coelho não faz uma coisa nem outra (operando por ocultamento do ocultamento, ao usar e abusar de clichês como se fossem obra sua, ou seja, por mera apropriação e reutilização do usado, abusado e gasto). Em todo caso, de seu sucesso comercial se concluiria que o gosto médio do público idem está de fato abaixo da média. Isto deixaria qualquer tentativa verdadeiramente literária de se adequar a esse gosto fadada ao fracasso. Mas também deixaria sem explicação outros fenômenos comerciais: de um lado, livros complexos ou complicados como O nome da rosa, de Umberto Eco; de outro, a verdadeira literatura média, mais do que robusta em lugares como EUA e Europa.

O caso de livros complexos de sucesso comercial é relativamente fácil de entender: trata-se do conhecido fenômeno do “livro de prestígio”, ou seja, que se torna importante ter, mas não necessariamente ler. Livros complexos, como regra, de fato não são fenômenos comerciais. Mas isto ainda não explica tudo. Mesmo porque, autores muito complexos já foram muito populares.

O exemplo máximo é Shakespeare, dramaturgo de maior sucesso popular na Inglaterra elisabetana, que, evidentemente, pensava em seu público ao escrever, ainda que não para simplesmente satisfazer do modo mais fácil o gosto desse público. O problema não está, de fato, em optar entre o baixo gosto médio do público e a alta arte sutil do grande escritor, assim condenado, ou à subliteratura, ou à solidão de estufa das flores raras. O problema está na incapacidade dos escritores de encarar o problema em sua inteireza e na inteireza de sua complexidade.

O verdadeiro dilema aqui é shakespeariano: ter o público em pauta ao escrever, mas não para simplesmente satisfazer de modo fácil o gosto desse público. Como a resposta-padrão dos escritores brasileiros retira o público mágica e convenientemente da equação (afinal, é um público que não serve para sua literatura), essa resposta-padrão nada responde e nada pode responder.

3. Literatura de entretenimento versus entretenimento pela literatura

Pesquisas indicam que o Brasil leitor é dez vezes menor do que o Brasil real, ou seja, um país de 20 milhões de habitantes. Mas um país de 20 milhões de habitantes ainda é meia Argentina, ou meia Espanha. Teríamos então, apesar de tudo, de ter um mercado equivalente à metade do argentino ou do espanhol. Mas estamos a anos-luz disso. A pequenez do público leitor brasileiro é, em todo caso, relativa. E não explica a falta de uma produção literária brasileira que o supra. Mesmo porque, toda a discussão começa pelo fato de esse público leitor se alimentar de livros importados.

Qual a principal característica desses livros? Ao contrário de Paulo Coelho, eles são literatura – mas integrada ao entretenimento, que é entretenimento do público. Portanto, o público faz parte da equação literária. A literatura média é, de fato, literatura de entretenimento.

Shakespeare também era, em sua época, entretenimento. Balzac era igualmente, em seu tempo, entretenimento. O problema é que hoje a literatura que prevê e, portanto, entretém o público seria uma literatura inferior. Ou talvez não. Porque o público atual é maior e mais diversificado: logo, não há apenas uma literatura de entretenimento, aquela reconhecida por este nome.

À exceção do relativamente recente e efêmero fenômeno das “sagas literárias”, que tiveram origem com O senhor dos anéisde Tolkien, a literatura moderna, passada a exceção vanguardista dos modernismos, é dominada, desde meados do século XIX, por duas vertentes centrais, derivadas dos dois principais criadores dessa literatura, Balzac e Poe. Enquanto Balzac consolidou e refinou a prosa de ficção como principal instrumento para retratar a sociedade urbana, burguesa e industrial, capaz de dar conta de seus aspectos materiais, psicológicos e sociais, o equivalente da épica para os povos antigos, Poe criou a literatura policial. Toda ou quase toda a literatura moderna deriva ou de Balzac, ou de Poe, ou de ambos. Jorge Luís Borges, Georges Simenon, Graham Greene, Dashiel Hamett, Patrícia Highsmith e ainda Stephen King e John Grisham são filhos de Poe, enquanto Ernest Hemingway, Saul Bellow, Phillip Roth, Amós Oz, Ohram Pamuk, Salman Rushdie, Ian McEwan e uma vasta lista descendem de Balzac (as vanguardas deixaram poucos descendentes na ficção mainstream, à diferença da poesia e das artes plásticas). E todos eles, a seu modo, são literatura de entretenimento. Porque são entretenimento pela literatura.

4. Entretendo-se com os herdeiros de Balzac e Poe

O inglês Graham Greene é o autor de ao menos uma perfeita obra-prima, o pequeno romance Fim de caso, que retrata em cápsula o momento histórico de Segunda Guerra Mundial e ainda cria uma das mais poderosas histórias de amor da literatura contemporânea, além de discutir a questão da teodiceia (a justiça divina). Há no livro algo de Stendhal, algo de Balzac e algo de Dostoievski. Mas também há muito da moderna literatura, bem, média norte-americana, cujo representante maior é Hemingway, o grande consolidador da escrita direta, seca, “objetiva”. Hemingway, um escritor médio? Sim, ao menos se comparado ao seu contemporâneo Joyce. Ou a Proust. Fundindo tudo isso, o que Greene consegue é um livro que, de fato, entretém, no sentido de que lê-lo não gera as angústias estético-intelectuais de um Joyce, mas sim puro prazer de leitura, sem deixar, no entanto, de ser um denso alimento para a inteligência. Na verdade, por ser, afinal, um denso alimento para a inteligência, sem falar nos sentidos, na imaginação e na empatia com os personagens. Portanto, Greene é de fato literatura de entretenimento – ainda que num sentido muito diferente do mais que banal Harold Robbins. Georges Simenon também, obviamente. Bertrand Russell costumava lê-lo todas as noites, e não por ser soporífero, mas o contrário: por ter grande leveza de fatura sem perder a densidade de estrutura narrativa e psicológica. Além de romances policiais, Simenon foi ainda o autor de uma longa série que chamou de romans durs, ou “romances duros”, que guardam certas semelhanças, mantidas todas as diferenças, com o Fim de caso de Greene. A “dureza” psicológico-realista desses romances curtos, em que o personagem central sempre está em uma situação limite criada ou possibilitada por ele mesmo, e em relação à qual não sabe se quer se salvar ou se perder, não impede, ao contrário, o puro prazer da leitura. Isto também mesmo vale para Phillip Roth, o mais balzaquiano desses três (portanto, o que mais status de alta literatura possui). Portanto, Roth também é, afinal, entretenimento. Literatura de entretenimento não é o mesmo que literatura ruim.

A incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo bons e prazerosos é apenas a incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo prazeroso e bons. Eles são, como regra, chatos, porque, como regra, são pretensiosos. E são pretensiosos por ignorarem o público leitor. Se não o ignorassem, não poderiam ser chatos, sob o risco do fracasso. Cria-se assim uma literatura satisfeita para ninguém, ou quase ninguém. Satisfeita talvez, mas não satisfatória. A menos que se considere a criação literária um hobby, que, de fato, só interessa para quem o pratica. Mas se se pretende algo além de um hobby, a literatura não pode satisfazer somente quem se dedica a ela. O público tem de ser posto na equação. Ou nas equações. Pois há uma simples e uma complexa.

A simples é simplesmente apostar no pior, no mais fácil, no mais paulo-coelho. A complexa é buscar a síntese de Simenon, de Greene, mas também de Roth e McEwan, ou de Shakespeare e Balzac: não trair a inteligência criativa, inclusive ou principalmente ao conquistar, sem traí-la, um grande público. Este é o caminho dos grandes escritores, sejam mediamente grandes ou grandemente geniais.

Somando-se a todos os conhecidos problemas editoriais e educativos, do lado da criação literária, não há no Brasil um grande mercado consumidor de leitores médios porque não há uma grande produção de literatura média. E não há porque os escritores brasileiros confundem literatura média com literatura menor, enquanto buscam certa “alta” literatura que, ao prescindir do público mas não ser nem poder se de vanguarda, é na verdade autista.

5. O cadáver insepulto da literatura policial brasileira

Resta comentar o caso específico da virtual inexistência de uma literatura policial no Brasil. Logo, um dos principais gêneros da ficção moderna, toda a linhagem derivada de Poe, simplesmente inexiste. Rubem Fonseca tentou criar uma literatura parapolicial no país, que abandona qualquer investigação de um crime para se concentrar (literalmente, em contos densos e duros) nos próprios crimes. Funcionou, mas se esgotou no próprio autor, que em seguida tentaria romances de investigação mais convencionais, chegando a tentar firmar seu próprio investigador canônico, o Mandrake. Não funcionou.

Os motivos do fracasso ainda maior de um ficcionismo brasileiro da linhagem de Poe, em relação ao da linhagem de Balzac, não estaria em qualquer descompromisso autista dos autores com o público, mas em circunstâncias objetivas – que nada tem a ver, no entanto, com nossos velhos problemas educativos e editoriais.

Para que haja interesse dramático numa novela policial é necessário que exista, no mínimo, além do imprescindível crime misterioso, uma coleção mais ou menos sortida de suspeitos sem culpa formada, sobre os quais nenhuma acusação se poderia formular. Em consequência, continuam soltos, atrapalhando o mais que podem a ação da polícia. O detetive seguirá pistas falsas, embrulhar-se-á, cairá em armadilhas habilmente urdidas. Até que, ao cabo de duzentas e cinquenta páginas, a ação se esgota, os recursos do criminoso esgotam-se, as faculdades inventivas do autor também se esgotam, a nervosa expectativa do leitor já se acha quase esgotada – e então o mistério é esclarecido e o romance acaba.

Mas no Brasil as coisas não se passariam assim. Se o romancista não quisesse fazer obra inteiramente falsa, sem qualquer possibilidade de convencer o leitor, deveria criar sua hipótese dramática de acordo com o que de fato aconteceria no caso de um crime real: a polícia começaria prendendo todos os suspeitos. Haveria, quando muito, uma trágica descrição de espancamentos, interrogatórios, torturas físicas e notícias berrantes nos jornais.

O que dá vida, interesse dramático e consistência à novela policial é um jogo sutil de raciocínio e brilho mental, a luta surda e ágil travada entre o investigador e o criminoso. Como se fosse uma dança, em que os dois se perseguem, se esquivam, se abraçam e se confundem.
Vê-se, desde logo, em que impossibilidade esbarraria o romance policial no Brasil e em outros países, nos quais os processos criminais não sejam orientados pelo maior liberalismo, nos quais não se admita, no suspeito, um possível inocente, em vez de nele se pressupor – como é de uso entre nós – um criminoso potencial. Não importam os textos dos códigos de direito penal, porque o que interessa não é a aparência formal e teórica das leis, mas, sobretudo, uma questão de aplicação prática das mesmas. [...]
A novela policial só pode se desenvolver em países cujas instituições políticas e jurídicas se baseiam em normas essencialmente democráticas, isto é, em que haja um verdadeiro respeito pela pessoa humana. (Luís Martins, “Prefácio”, in Obras-primas do conto policial, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1964, pp. 7-9)

O diagnóstico parece consistente demais para estar errado. Além disso, explica o fenômeno que pretende explicar de modo suficiente. Então talvez estejamos condenados a jamais ter uma literatura policial robusta. Ora, esta é outra explicação para as ficções nacionais não venderem – além de explicar a dificuldade em explicar o problema. Pois ela é normalmente ignorada. Com isso, não se discute o caso específico da linhagem de Poe, virtualmente amputada da produção literária nacional. Acontece que essa linhagem responde por boa parte dos livros mais vendáveis nos mercados centrais.

Recentemente, vários autores policiais suecos conquistaram seu mercado interno para, em seguida, lançaram-se sobre o mercado mundial e, naturalmente, acabaram virando filme. Ou filmes. No caso da trilogia Millenium, de Stieg Larsson, seu primeiro livro teve uma versão cinematográfica sueca e outra inglesa. A inglesa é superior, tratando de modo mais lento e consistente as várias camadas de circunstâncias que constroem a história, acabando por envolver e revolver o negro passado pró-nazista de parte da elite sueca, que se liga diretamente ao sadismo dos crimes contemporâneos de um de seus descendentes. Portanto, o sadismo deixa de ser gratuito (mero chamariz de emoções fáceis do leitor idem), tanto em termos literários quanto sociais (a lição de Balzac): não se trata de um “simples psicopata”, no sentido de que sua psicopatia se autoexplica para ser, então, “retratada” pelo autor em detalhadas cenas de sangue. Pois outra característica importante das ficções de alguma qualidade é que elas, de um modo ou de outro, mantêm a história na mira, não para fazer “romances históricos”, mas romances robustos, inclusive policiais. Algo que os escritores brasileiros têm dificuldade de manipular.

Mas se não tivemos, não temos e provavelmente não teremos uma literatura policial, o peso da responsabilidade sobre os herdeiros tupiniquins de Balzac é ainda maior. Eles podem continuar a ignorar soberbamente o público, e com isso deixar o mercado para seus congêneres estrangeiros, enquanto modorram em seu “olímpico” isolamento satisfeito por prêmios literários locais de prestígio duvidoso, ou tentar o caminho do verdadeiro criador, que é o caminho difícil. E a dificuldade, aqui, não é criar pálidas obras “sofisticadas” de estufa (na verdade, isso não é tão difícil: basta ter muito tempo, muita paciência e algum talento), mas livros que os leitores queiram ler (caso contrário, por que os leriam?).

6. Epílogo

Durante muitos anos, falou-se em certo “padrão Globo de qualidade”. Mas ele nunca existiu. Apenas a ausência das TVs americanas e europeias, enquanto não chegaram aqui as TVs a cabo, permitiu a manutenção desse mito provinciano. A Globo sempre foi o que é, incapaz de ir além de novelas, BBBs, comédias do mais baixo nível e “especiais” especialmente bregas de fim de ano. A TV de qualidade, assim como o cinema de qualidade, tem de ser importada. O mesmo vale, afinal, para a ficção. Os escritores de fato ignoram o público, mas não porque se dedicam a criar uma alta literatura brasileira contemporânea (tão real quanto o “padrão Globo”), e sim porque são incapazes de se profissionalizar, segundo padrões internacionais modernos.

Costuma-se acreditar que existem incontáveis empecilhos objetivos a essa profissionalização (que não dependeria, portanto, da postura dos escritores): das condições do mercado editorial à educação pública, passando pelas instituições políticas, ao menos no caso específico da ficção policial, como descreve convincentemente Luís Martins. Além disso, como referido de início, não fosse assim, a lei da oferta e da procura se encarregaria de gerar escritores eficientes, ou seja, simplesmente profissionais, como o são os ficcionistas estrangeiros. Mas o domínio do mercado interno brasileiro de não-ficção por autores nacionais complica o quadro das explicações conhecidas. Se os autores nacionais de não-ficção vendem relativamente bem, ser um autor brasileiro e vender relativamente bem é objetivamente possível. E se o problema se concentra, assim, na ficção, o problema não está, apesar de tudo, na demanda, no consumo ou em suas condições, mas na oferta: os produtos nacionais oferecidos não agradam o público consumidor, digo, o público leitor. Quem compraria um carro nacional se pudesse comprar um carro importado superior pelo mesmo preço? O que vale para os carros vale para os livros. Mesmo porque, não é apenas o pior da literatura de entretenimento que vende bem no Brasil, como Cinquenta tons de cinza, mas também seu melhor, como Philip Roth. E não temos equivalentes nacionais nem para um para o outro, mas apenas uma ficção tão pretensiosa quanto amadora – ao menos no sentido incontornável de não ser obra de profissionais, que vivem de seu trabalho literário e dependem, portanto, do público. Sendo nossos ficcionistas, afinal, amadores, podem ignorar o público, que, por sua vez, os ignora.
>> SIBILA – por Luis Dolhnikoff



A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

QUEER_capa

A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael


A MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA DOS SÉCULOS XX E XXI

quinta-feira | 10 | janeiro | 2013
A revista Locus realizou em Novembro de 2012, através do seu website, uma série de votações de modo a apurar as melhores obras de ficção científica e de fantasia escritas nos séculos XX e XXI. Os resultados, divididos por categorias, podem ser visualizados abaixo:

Short Fiction Categories
20th Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Story of Your Life (1998)
2
Le Guin, Ursula K. : The Word for World Is Forest (1972)
3
Tiptree, James, Jr. : Houston, Houston, Do You Read? (1976)
4
Campbell, John W. : Who Goes There? (1938)
5
Varley, John : The Persistence of Vision (1978)
6
Wolfe, Gene : The Fifth Head of Cerberus (1972)
7
Leiber, Fritz : Ill Met in Lankhmar (1970)
8
Heinlein, Robert A. : The Man Who Sold the Moon (1950)
9
Kress, Nancy : Beggars in Spain (1991)
10
Moore, C. L. (& Henry Kuttner) : Vintage Season (1946)
11
Bujold, Lois McMaster : The Mountains of Mourning (1989)
12
Martin, George R. R. : A Song for Lya (1974)
13
Lovecraft, H. P. : The Shadow Over Innsmouth (1942)
14
Heinlein, Robert A. : By His Bootstraps
15
Simak, Clifford D. : The Big Front Yard (1958)
16
Sturgeon, Theodore : Baby Is Three (1952)
17*
Moorcock, Michael : Behold the Man (1966)
17*
Varley, John : PRESS ENTER[] (1984)
19
Willis, Connie : The Last of the Winnebagos (1988)
20
Vinge, Vernor : True Names (1981)
21
Vance, Jack : The Last Castle (1966)
22*
Crowley, John : Great Work of Time (1989)
22*
Zelazny, Roger : 24 Views of Mt. Fuji, by Hokusai (1985)
24*
Vance, Jack : The Dragon Masters (1962)
24*
Vance, Jack : The Moon Moth (1961)
26
Heinlein, Robert A. : The Unpleasant Profession of Jonathan Hoag (1942)
27
Longyear, Barry B. : Enemy Mine (1979)
28
Asimov, Isaac : The Martian Way (1952)
29
Farmer, Philip Jose : Riders of the Purple Wage (1967)
30
Zelazny, Roger : He Who Shapes (1965)
31
Chiang, Ted : Seventy-two Letters (2000)
32
Shepard, Lucius : R&R (1986)
33
Wolfe, Gene : The Death of Doctor Island (1973)
34
Delany, Samuel R. : The Star Pit (1967)
35
McCaffrey, Anne : Dragonrider (1967)
36
Resnick, Mike : Seven Views of Olduvai Gorge (1994)
37
Heinlein, Robert A. : Universe (1941)
38
McCaffrey, Anne : Weyr Search (1967)
39
Silverberg, Robert : Nightwings (1968)
40
Anderson, Poul : The Queen of Air and Darkness (1971)
41
Lovecraft, H. P. : The Case Of Charles Dexter Ward
42*
Howard, Robert E. : Red Nails (1936)
42*
Silverberg, Robert : Sailing to Byzantium (1985)
44
Brin, David : The Postman (1982)
45
Bear, Greg : Hardfought (1983)
46
Russell, Eric Frank : …And Then There Were None
47
Zelazny, Roger : Home Is the Hangman (1975)
48*
Haldeman, Joe : The Hemingway Hoax (1990)
48*
Wolfe, Gene : Seven American Nights (1978)
50
Lovecraft, H. P. : The Dream Quest of Unknown Kadath (1943)
20th Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1959)
2
Asimov, Isaac : Nightfall (1941)
3
Zelazny, Roger : A Rose for Ecclesiastes (1963)
4
Asimov, Isaac : The Bicentennial Man (1976)
5
Martin, George R. R. : Sandkings (1979)
6
Bester, Alfred : Fondly Fahrenheit (1954)
7
Ellison, Harlan : A Boy and His Dog (1969)
8
Bear, Greg : Blood Music (1983)
9
Butler, Octavia E. : Bloodchild (1984)
10
Godwin, Tom : The Cold Equations (1954)
11
Tiptree, James, Jr. : The Women Men Don’t See (1973)
12
Tiptree, James, Jr. : The Girl Who Was Plugged In
13
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1977)
14
Chiang, Ted : Tower of Babylon (1990)
15
Weinbaum, Stanley G. : A Martian Odyssey (1934)
16
Delany, Samuel R. : Time Considered as a Helix of Semi-Precious Stones (1968)
17
Dick, Philip K. : We Can Remember It for You Wholesale (1966)
18
Gibson, William : Burning Chrome (1982)
19
Lovecraft, H. P. : The Call of Cthulhu (1928)
20
Brown, Fredric : Arena (1944)
21
Blish, James : Surface Tension (1952)
22
Willis, Connie : Fire Watch (1982)
23
Ellison, Harlan : The Deathbird
24
Miller, Walter M., Jr. : A Canticle for Leibowitz (1955)
25
Zelazny, Roger : The Doors of His Face, the Lamps of His Mouth (1965)
26*
Smith, Cordwainer : The Ballad of Lost C’Mell (1962)
26*
Niven, Larry : Inconstant Moon (1971)
28
Kuttner, Henry [Lewis Padgett] : Mimsy Were the Borogoves (1943)
29
Niven, Larry : Neutron Star (1966)
30
Kelly, James Patrick : Think Like a Dinosaur (1995)
31
Zelazny, Roger : For a Breath I Tarry (1966)
32
Sturgeon, Theodore : Microcosmic God
33
McCaffrey, Anne : The Ship Who Sang (1961)
34
Asimov, Isaac : Foundation (1942)
35*
Dick, Philip K. : Second Variety (1953)
35*
Smith, Cordwainer : Scanners Live in Vain (1950)
37
Shepard, Lucius : The Man Who Painted the Dragon Griaule (1984)
38
Heinlein, Robert A. : –And He Built a Crooked House (1941)
39
Leinster, Murray : First Contact (1945)
40
Kornbluth, C. M. : The Little Black Bag
41*
Aldiss, Brian W. : Hothouse (1961)
41*
Heinlein, Robert A. : The Roads Must Roll (1940)
43
Kornbluth, C. M. : The Marching Morons
44
Sterling, Bruce : Swarm (1982)
45
Lovecraft, H. P. : The Dunwich Horror (1929)
46
Asimov, Isaac : The Ugly Little Boy (1958)
47
Zelazny, Roger : The Keys to December (1966)
48
Leiber, Fritz : Gonna Roll the Bones (1967)
49
Chiang, Ted : Understand (1991)
50*
Waldrop, Howard : The Ugly Chickens
50*
Le Guin, Ursula K. : Buffalo Gals, Won’t You Come out Tonight
20th Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Clarke, Arthur C. : The Nine Billion Names of God (1953)
2
Le Guin, Ursula K. : The Ones Who Walk Away from Omelas (1973)
3
Ellison, Harlan : ‘Repent, Harlequin!’ said the Ticktockman (1965)
4
Ellison, Harlan : I Have No Mouth, and I Must Scream (1967)
5
Clarke, Arthur C. : The Star (1955)
6
Bradbury, Ray : A Sound of Thunder (1952)
7
Heinlein, Robert A. : All You Zombies– (1959)
8
Gibson, William : Johnny Mnemonic (1981)
9
Tiptree, James, Jr. : The Screwfly Solution (1977)
10
Jackson, Shirley : The Lottery (1948)
11
Bradbury, Ray : There Will Come Soft Rains (1950)
12
Asimov, Isaac : The Last Question (1956)
13
Shaw, Bob : Light of Other Days (1966)
14
Vonnegut, Kurt : Harrison Bergeron (1961)
15
Heinlein, Robert A. : The Green Hills of Earth (1947)
16
Smith, Cordwainer : The Game of Rat and Dragon (1955)
17
Pohl, Frederik : Day Million (1966)
18
Ellison, Harlan : Jeffty Is Five (1977)
19
Clarke, Arthur C. : The Sentinel (1951)
20
Russ, Joanna : When It Changed
21
Tiptree, James, Jr. : Love Is the Plan the Plan Is Death (1973)
22
Delany, Samuel R. : Aye, and Gomorrah
23
Bixby, Jerome : It’s a Good Life (1953)
24
Bradbury, Ray : The Veldt (1950)
25
Varley, John : Air Raid (1977)
26
Le Guin, Ursula K. : The Day Before the Revolution (1974)
27
Bisson, Terry : Bears Discover Fire (1990)
28
Butler, Octavia E. : Speech Sounds
29
Asimov, Isaac : Robbie (1940)
30*
Bradbury, Ray : The Million Year Picnic (1946)
30*
Willis, Connie : Even the Queen (1992)
30*
Sturgeon, Theodore : The Man Who Lost the Sea (1959)
33
Leiber, Fritz : A Pail of Air (1951)
34
Sturgeon, Theodore : Saucer of Loneliness (1953)
35*
Davidson, Avram : Or All the Seas with Oysters (1958)
35*
Russell, Eric Frank : Allamagoosa (1955)
37
Card, Orson Scott : Unaccompanied Sonata (1979)
38
Martin, George R. R. : With Morning Comes Mistfall (1973)
39
Gaiman, Neil : A Midsummer Night’s Dream (1990)
40
Bester, Alfred : The Men Who Murdered Mohammed (1958)
41
Asimov, Isaac : Liar! (1941)
42
Egan, Greg : Learning to Be Me (1990)
43
Gaiman, Neil : Troll Bridge (1993)
44
Wolfe, Gene : The Island of Doctor Death and Other Stories
45*
Leiber, Fritz : Coming Attraction
45*
Silverberg, Robert : Passengers
47
Ballard, J. G. : The Terminal Beach
48
Bradbury, Ray : All Summer in a Day (1954)
49
Knight, Damon : The Country of the Kind (1956)
50
Sturgeon, Theodore : Thunder and Roses (1947)
21st Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Link, Kelly : Magic for Beginners (2005)
2
Stross, Charles : Palimpsest (2009)
3
MacLeod, Ian R. : New Light on the Drake Equation (2001)
4
Chiang, Ted : Liking What You See: A Documentary (2002)
5
Vinge, Vernor : Fast Times at Fairmont High
6
Reynolds, Alastair : Diamond Dogs (2001)
7
Willis, Connie : Inside Job
8
Stross, Charles : The Concrete Jungle (2004)
9
Baker, Kage : The Empress of Mars (2003)
10
Scalzi, John : The God Engines (2009)
11*
Gaiman, Neil : Coraline
11*
Vinge, Vernor : The Cookie Monster (2003)
13
Swirsky, Rachel : The Lady Who Plucked Red Flowers beneath the Queen’s Window
14
Le Guin, Ursula K. : The Finder (2001)
15
McDonald, Ian : The Little Goddess (2005)
16
Stross, Charles : Missile Gap (2006)
17
Chiang, Ted : The Lifecycle of Software Objects
18
Kelly, James Patrick : Burn (2005)
19*
Kress, Nancy : The Erdmann Nexus (2008)
19*
Chwedyk, Richard : Bronte’s Egg (2002)
21st Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Hell Is the Absence of God (2001)
2
Chiang, Ted : The Merchant and the Alchemist’s Gate (2007)
3
Gaiman, Neil : A Study in Emerald (2003)
4
Bacigalupi, Paolo : The Calorie Man (2005)
5*
Link, Kelly : The Faery Handbag (2004)
5*
Bacigalupi, Paolo : The People of Sand and Slag (2004)
7
Ford, Jeffrey : The Empire of Ice Cream (2003)
8
Stross, Charles : Lobsters (2001)
9*
Mieville, China : Reports of Certain Events in London (2004)
9*
Watts, Peter : The Island
11
Reynolds, Alastair : Beyond the Aquila Rift (2005)
12
Doctorow, Cory : When Sysadmins Ruled the Earth (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : Yellow Card Man (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : The Fluted Girl (2003)
15
Gregory, Daryl : Second Person, Present Tense (2005)
16*
Bacigalupi, Paolo : Pump Six (2008)
16*
Egan, Greg : Dark Integers
18
Beagle, Peter S. : Two Hearts (2005)
19
Gardner, James Alan : The Ray-Gun: A Love Story
20
Swirsky, Rachel : Eros, Philia, Agape
21st Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Exhalation (2008)
2
Lanagan, Margo : Singing My Sister Down (2004)
3
Gaiman, Neil : How to Talk to Girls at Parties (2006)
4
Watts, Peter : The Things (2010)
5*
Swanwick, Michael : The Dog Said Bow-Wow (2001)
5*
Le Guin, Ursula K. : The Bones of the Earth (2001)
7
Johnson, Kij : 26 Monkeys, Also the Abyss
8
Abraham, Daniel : The Cambist and Lord Iron (2007)
9*
Johnson, Kij : Spar (2009)
9*
Reynolds, Alastair : Zima Blue (2005)
11
Liu, Ken : The Paper Menagerie (2011)
12
Gaiman, Neil : October in the Chair (2002)
13
Resnick, Mike : Travels with My Cats (2004)
14
Ford, Jeffrey : Creation (2002)
15
Bear, Elizabeth : Tideline (2007)
16
Stross, Charles : Rogue Farm (2003)
17
McIntosh, Will : Bridesicle
18
Ellison, Harlan : How Interesting: A Tiny Man (2010)
19
Johnson, Kij : Ponies (2010)
20*
Fowler, Karen Joy : The Pelican Bar
20*
Fowler, Karen Joy : What I Didn’t See (2002)
Novel Categories
20th Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Herbert, Frank : Dune (1965)
2
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1985)
3
Asimov, Isaac : The Foundation Trilogy (1953)
4
Simmons, Dan : Hyperion (1989)
5
Le Guin, Ursula K. : The Left Hand of Darkness (1969)
6
Adams, Douglas : The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (1979)
7
Orwell, George : Nineteen Eighty-Four (1949)
8
Gibson, William : Neuromancer (1984)
9
Bester, Alfred : The Stars My Destination (1957)
10
Bradbury, Ray : Fahrenheit 451 (1953)
11
Heinlein, Robert A. : Stranger in a Strange Land (1961)
12
Heinlein, Robert A. : The Moon Is a Harsh Mistress (1966)
13
Haldeman, Joe : The Forever War (1974)
14
Clarke, Arthur C. : Childhood’s End (1953)
15
Niven, Larry : Ringworld (1970)
16
Le Guin, Ursula K. : The Dispossessed (1974)
17
Bradbury, Ray : The Martian Chronicles (1950)
18
Stephenson, Neal : Snow Crash (1992)
19
Miller, Walter M. , Jr. : A Canticle for Leibowitz (1959)
20
Pohl, Frederik : Gateway (1977)
21
Heinlein, Robert A. : Starship Troopers (1959)
22
Dick, Philip K. : The Man in the High Castle (1962)
23
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
24
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
25
Lem, Stanislaw : Solaris (1970)
26
Dick, Philip K. : Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968)
27
Vinge, Vernor : A Fire Upon The Deep (1992)
28
Clarke, Arthur C. : Rendezvous with Rama (1973)
29
Huxley, Aldous : Brave New World (1932)
30
Clarke, Arthur C. : 2001: A Space Odyssey (1968)
31
Vonnegut, Kurt : Slaughterhouse-Five (1969)
32
Strugatsky, Arkady & Boris : Roadside Picnic (1972)
33
Card, Orson Scott : Speaker for the Dead (1986)
34
Brunner, John : Stand on Zanzibar (1968)
35
Robinson, Kim Stanley : Red Mars (1992)
36
Niven, Larry (& Pournelle, Jerry) : The Mote in God’s Eye (1974)
37
Willis, Connie : Doomsday Book (1992)
38
Atwood, Margaret : The Handmaid’s Tale (1985)
39
Sturgeon, Theodore : More Than Human (1953)
40
Simak, Clifford D. : City (1952)
41
Brin, David : Startide Rising (1983)
42
Asimov, Isaac : Foundation (1950)
43
Farmer, Philip Jose : To Your Scattered Bodies Go (1971)
44
Dick, Philip K. : Ubik (1969)
45
Vonnegut, Kurt : Cat’s Cradle (1963)
46
Vinge, Vernor : A Deepness in the Sky (1999)
47
Simak, Clifford D. : Way Station (1963)
48
Wyndham, John : The Day of the Triffids (1951)
49
Stephenson, Neal : Cryptonomicon (1999)
50*
Delany, Samuel R. : Dhalgren (1975)
50*
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1966)
52
Bester, Alfred : The Demolished Man (1953)
53
Stephenson, Neal : The Diamond Age (1995)
54
Russell, Mary Doria : The Sparrow (1996)
55
Dick, Philip K. : A Scanner Darkly (1977)
56*
Asimov, Isaac : The Caves of Steel (1954)
56*
Banks, Iain M. : Use of Weapons (1990)
58
Strugatsky, Arkady & Boris : Hard to Be a God (1964)
59
Delany, Samuel R. : Nova (1968)
60
Crichton, Michael : Jurassic Park (1990)
61
Heinlein, Robert A. : The Door Into Summer (1957)
62
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
63*
Clarke, Arthur C. : The City and the Stars (1956)
63*
Banks, Iain M. : The Player of Games (1988)
65
Bujold, Lois McMaster : Memory (1996)
66
Asimov, Isaac : The End of Eternity (1955)
67
Stewart, George R. : Earth Abides (1949)
68*
Heinlein, Robert A. : Double Star (1956)
68*
Burgess, Anthony : A Clockwork Orange (1962)
70
Bujold, Lois McMaster : Barrayar (1991)
71*
Stapledon, Olaf : Last and First Men (1930)
71*
McHugh, Maureen F. : China Mountain Zhang (1992)
73
Cherryh, C. J. : Cyteen (1988)
74
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
75
Heinlein, Robert A. : Citizen of the Galaxy (1957)
20th Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Tolkien, J. R. R. : The Lord of the Rings (1955)
2
Martin, George R. R. : A Game of Thrones (1996)
3
Tolkien, J. R. R. : The Hobbit (1937)
4
Le Guin, Ursula K. : A Wizard of Earthsea (1968)
5
Zelazny, Roger : Nine Princes in Amber (1970)
6
Mieville, China : Perdido Street Station (2000)
7
Lewis, C. S. : The Lion, the Witch and the Wardrobe (1950)
8
Gaiman/Pratchett : Good Omens (1990)
9
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Philosopher’s Stone (1997)
10
Crowley, John : Little, Big (1981)
11
Adams, Richard : Watership Down (1972)
12
Martin, George R. R. : A Storm of Swords (2000)
13
Goldman, William : The Princess Bride (1973)
14
Beagle, Peter S. : The Last Unicorn (1968)
15
White, T. H. : The Once and Future King (1958)
16
Kay, Guy Gavriel : Tigana (1990)
17
Gaiman, Neil : Neverwhere (1996)
18
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
19
Vance, Jack : The Dying Earth (1950)
20
Bulgakov, Mikhail : The Master and Margarita (1967)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Goblet of Fire (2000)
22
Tolkien, J. R. R. : The Silmarillion (1977)
23
Leiber, Fritz : The Swords of Lankhmar (1968)
24
Jordan, Robert : The Eye of the World (1990)
25
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (1999)
26
Donaldson, Stephen R. : Lord Foul’s Bane (1977)
27
Bradbury, Ray : Something Wicked This Way Comes (1962)
28
Peake, Mervyn : Gormenghast (1950)
29
Powers, Tim : The Anubis Gates (1983)
30
Martin, George R. R. : A Clash of Kings (1998)
31
Bradley, Marion Zimmer : The Mists of Avalon (1983)
32
Hobb, Robin : Assassin’s Apprentice (1995)
33
Pratchett, Terry : The Colour of Magic (1983)
34
Holdstock, Robert : Mythago Wood (1984)
35
King, Stephen : The Stand (1978)
36*
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
36*
Pratchett, Terry : Small Gods (1992)
38
Howard, Robert E. : Conan the Barbarian (1950)
39
Ende, Michael : The Neverending Story (1983)
40
Peake, Mervyn : Titus Groan (1946)
41
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
42
Feist, Raymond E. : Magician (1982)
43
Orwell : George : Animal Farm (1945)
44
Silverberg, Robert : Lord Valentine’s Castle (1980)
45
Lovecraft, H. P. : At the Mountains of Madness (1936)
46
Swanwick, Michael : The Iron Dragon’s Daughter (1993)
47
King, Stephen : The Shining (1977)
48
Garcia Marquez, Gabriel : One Hundred Years of Solitude (1970)
49
Saint-Exupery, Antoine de : The Little Prince (1943)
50
Hughart, Barry : Bridge of Birds (1984)
51*
Rice, Anne : Interview with the Vampire (1976)
51*
King, Stephen : It (1986)
53
Stewart, Mary : The Crystal Cave (1970)
54
Mirrlees, Hope : Lud-In-The-Mist (1926)
55
Anthony, Piers : A Spell for Chameleon (1977)
56
Pullman, Philip : The Amber Spyglass (2000)
57
McKillip, Patricia A. : The Riddle-Master of Hed (1976)
58
Jackson, Shirley : The Haunting of Hill House (1959)
59
Brooks, Terry : The Sword of Shannara (1977)
60
Heinlein, Robert A. : Glory Road (1963)
61
Eddison, E. R. : The Worm Ouroboros (1922)
62
Le Guin, Ursula K. : Tehanu (1990)
63
Eddings, David : Pawn of Prophecy (1982)
64
Grimwood, Ken : Replay (1987)
65
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
66
Grahame, Kenneth : The Wind in the Willows (1908)
67
Anderson, Poul : The Broken Sword (1954)
68
Kay, Guy Gavriel : The Lions of Al-Rassan (1995)
69
Barker, Clive : Imagica (1991)
70
Jones, Dianna Wynne : Howl’s Moving Castle (1986)
71*
Donaldson, Stephen R. : The Chronicles of Thomas Covenant
71*
Burroughs, Edgar Rice : A Princess of Mars (1917)
73*
Leiber, Fritz : Our Lady of Darkness (1977)
73*
Le Guin, Ursula K. : The Earthsea Trilogy
75
Priest, Christopher : The Prestige (1995)
21st Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Scalzi, John : Old Man’s War (2005)
2
Stephenson, Neal : Anathem (2008)
3
Bacigalupi, Paolo : The Windup Girl (2009)
4
Wilson, Robert Charles : Spin (2005)
5
Morgan, Richard : Altered Carbon (2002)
6
Watts, Peter : Blindsight (2006)
7
Collins, Suzanne : The Hunger Games (2008)
8
Gibson, William : Pattern Recognition (2003)
9
Mieville, China : The City & the City (2009)
10
Stross, Charles : Accelerando (2005)
11
Mitchell, David : Cloud Atlas (2004)
12
McDonald, Ian : River of Gods (2004)
13
Simmons, Dan : Ilium (2003)
14
McCarthy, Cormac The Road (2006)
15
Harrison, M. John : Light (2002)
16*
Willis, Connie : Black Out/All Clear (2010)
16*
Chabon, Michael : The Yiddish Policemen’s Union (2007)
18
Niffenegger, Audrey : The Time Traveler’s Wife (2003)
19*
Ishiguro, Kazuo : Never Let Me Go (2005)
19*
Doctorow, Cory : Little Brother (2008
21
McDonald, Ian : The Dervish House (2010)
22
Vinge, Vernor : Rainbows End (2006)
23
Stephenson, Neal : The Baroque Cycle: The Confusion; The System of the World (2004)
24
Robinson, Kim Stanley : The Years of Rice and Salt (2002)
25
Mieville, China : Embassytown (2011)
21st Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Gaiman, Neil : American Gods (2001)
2
Clarke, Susanna : Jonathan Strange & Mr Norrell (2004)
3
Rothfuss, Patrick : The Name of the Wind (2007)
4
Mieville, China : The Scar (2002)
5
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Deathly Hallows (2007)
6
Martin, George R. R. : A Feast for Crows (2005)
7
Bujold, Lois McMaster : The Curse of Chalion (2001)
8
Mieville, China : The City & the City (2009)
9
Fforde, Jasper : The Eyre Affair (2001)
10
Gaiman, Neil : Coraline (2002)
11
Wolfe, Gene : The Wizard Knight (2004)
12*
Bujold, Lois McMaster : Paladin of Souls (2003)
12*
Pratchett, Terry : Going Postal (2004)
12*
Pratchett, Terry : Night Watch (2002)
15
Lynch, Scott : The Lies of Locke Lamora (2006)
16
Abercrombie, Joe : The Blade Itself (2006)
17
Gaiman, Neil : The Graveyard Book (2008)
18
Jemisin, N. K. : The Hundred Thousand Kingdoms (2010)
19
Le Guin, Ursula K. : Lavinia (2008)
20
Sanderson, Brandon : Mistborn (2006)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Half-Blood Prince (2005)
22
Le Guin, Ursula K. : The Other Wind (2001)
23
Gaiman, Neil : Anansi Boys (2005)
24*
Novik, Naomi : His Majesty’s Dragon (2006)
24*
Kay, Guy Gavriel : Under Heaven (2010)

>> FALLING INTO INFINITY – por Ricardo Lourenço


SACI PERERÊ: UM MITO RACISTA?

quarta-feira | 9 | janeiro | 2013

saci não existeHá tempos li um artigo que condenava o mito do Saci “lobatiano” por ser esse fruto do racismo. Não entendi. Afinal, até que se prove o contrário, Monteiro Lobato não criou o mito do Saci (aliás, se ele o tivesse criado, este não seria, a rigor, um mito) e nem lhe deu uma forma específica. Talvez com a Cuca, a qual ele deu feições de réptil. Mas o Saci como moleque negro, de uma perna só e barrete vermelho na cabeça, já fazia parte do imaginário popular no ano de 1917, quando Monteiro Lobato resolve abrir um “inquérito” sobre essa figura mitológica.

Existem sim algumas variantes apresentadas no próprio livro. Há quem o tenha visto com um pé de cabra. Outro que lhe tenha metido um par de chifres na testa (como se a carapuça não fosse o suficiente para enfeitar-lhe a cabeça); outro que o colocou com duas pernas, sendo manco de uma delas. Isso tudo, no entanto, só demonstra uma verdade: o Saci é um mito em eterna construção. Já é quase consenso que surgiu como um mito indígena. O escritor Olívio Jekupé defende incessantemente essa tese, mostrando que o mito era um índio protetor da floresta e dos animais, chamado Kamba’i ou Jaxi Jatere. Tal fato já era aceito – ou ao menos suspeitado – já no século XIX. O pesquisador Adelino Brandão cita o testemunho de Couto de Magalhães, o qual registrou que o saci era “um pequeno tapuio, manco de um pé, com um barrete vermelho e uma ferida em cada joelho”.[1] No próprio “Inquérito” aberto por Lobato, aparece como origem do mito que este “vem do autochtone que lhe deu o nome actual, corruptela de ‘çaa cy perereg’”.[2] Adelino Brandão acrescenta ainda que “o saci nativo [dos índios] era uma ave, companheira do Caipora, tinha o corpo de pássaro e uma perna só”.[3] Do tapuia de duas pernas ao caboclinho e deste para o negro unípede, o processo de transformação visual foi resultante da reelaboração e recriação do mito, aliás, uma dinâmica constante e esperada em toda criação mitológica.

Desse modo, dentro de um processo natural, o mito sofre influências das outras culturas com as quais vai tendo contato. Outra vez recorrendo ao Inquérito do Monteiro Lobato, este diz que, com certa ironia, que o Saci “acabará ainda soffrendo a influencia do italiano”.[4] E o pesquisador José Carlos Rossato ensina que “é muito maior do que se pensa a influência lusitana do nosso Saci”,[5] recorrendo às histórias portuguesas do “Fradinho da Mão Furada” para relacioná-lo à construção imagética do Saci brasileiro. Aliás, brasileiro mesmo, pois o próprio Rossato explica que “Ele [o Saci] não é privilégio brasileiro. Outros países também conhecem o Saci”.[6] E acrescente-se ainda o que diz Brandão a esse respeito: “Não é mito exclusivamente brasileiro. Também faz parte das tradições argentinas, do Uruguai, do Paraguai e, praticamente, de todos os folclores sul-americanos”.[7]

Certo é que Monteiro Lobato ajudou a difundir a imagem do Saci dentro das características gerais que já compunham o mito nos idos de 1917, data do seu “Inquérito”. A variação de aspectos secundários é comum em todos os outros mitos. Não há sequer uma história de assombração ou de seres fantásticos que não sofra variações. No entanto, parece que é exatamente nesses aspectos secundários que se escoram aqueles que defendem ser o Saci um mito racista. O Saci aparece com chifres na cabeça e um porrete na mão, na ilustração da capa do livro “Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito”. Pois então alguém já supôs que isso fosse a demonização do mito e, pior, que o intuito do Lobato era exatamente promover a desqualificação do negro associando-o a um “demônio”. A imagem da capa é resultante de um dos depoimentos dados no “Inquérito”, o qual apresentou o Saci com chifres. Associação com o demônio cristão? Pode ser. Mas não foi o Saci de chifres que Monteiro Lobato difundiu e usou em suas obras, especialmente as infantis. O Saci do Sítio do Picapau Amarelo não possuía chifres. Mas está na capa do livro… Sim, está. E os chifres estão, ainda, na cabeça de imagens de Exu. Seria este um orixá racista por portar chifres?

Aliás, há muito mais relações entre a imagem atual do Saci com a mitologia africana. Um exemplo disso é o auxiliar do orixá Ossain ou Ossaim, chamado Aroni. Este, para quem ainda não conhece, é “um misterioso anãozinho perneta que fuma cachimbo (figura bastante próxima ao Saci-Pererê), possui um olho pequeno e o outro grande (vê com o menor) e tem uma orelha pequena e a outra grande (ouve com a menor). Muitas vezes Aroni é confundido com o próprio Ossaim, que, segundo dizem, também possui uma única perna”.[8] O pesquisador Ademir Barros dos Santos já havia alertado para tal semelhança.

E como fica agora? Aroni, por ser responsável “por causar o terror em pessoas que entram na floresta sem a devida permissão”[9], anão perneta, com olhos e orelhas irregulares (uma maior do que a outra), também é um ser que possa ser associado ao demônio e, por isso, e pelo fato de ser negro africano, é um mito racista? Se não, por que o Saci o é? Simplesmente porque Monteiro Lobato ajudou a divulgar o mito? É somente por isso, ou seja, pela origem? Se vem de Lobato, só pode ser racista? É fato que Monteiro Lobato defendia a eugenia. E, caso não saibam, a ciência da época dele também. Ele estava em sintonia com o que havia de mais avançado no pensamento da época. Anacronismo sem sentido julgar um pensamento do passado com parâmetros do presente.

É possível que alguns ficassem espantados em saber que Monteiro Lobato, em relação ao Saci, disse, pela boca do Tio Barnabé, que “O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça”.[10]Maldade pequena, ou seja, traquinagem. E traquinagens é com ele mesmo. O folclorista e escritor Waldemar Iglésias Fernandes recolheu uma história em Sorocaba na qual “o Saci apareceu numa casa e ‘garrou a fazer estrepolias, correndo dentro da casa e dando aqueles assobios de deixar todo mundo louco!”.[11] Para o renomado folclorista Alceu Maynard Araújo, o Saci “não é maldoso, porém brincalhão como toda criança é”.[12] Para muitos, o Saci é uma espécie de “Gnomo” – esse, europeu – que é “bastante brincalhão e adora pregar peças nos homens”.[13]

Em outras versões, o Saci ganhou a sua carapuça de Deus para que pudesse “tornar-se invisível aos olhos do Diabo”.[14] Portanto, a associação do Saci com o demônio não é unânime e é tão sem sentido quanto associar o orixá Exu ou mesmo o ajudante de Ossaim, Aroni, com o diabo cristão. Dessa forma, se há quem associe o Saci ao diabo, também há quem o faça com os orixás (se não com todos, com alguns pelo menos). Isso não torna os orixás uma crença ou mito racista. Também não deve, por analogia, transformar o Saci numa representação similar.

É possível mesmo que os negros tenham dado a forma final no aspecto visual do Saci como hoje o conhecemos. Essa é a opinião de muitos pesquisadores. Adelino Brandão, por exemplo, salienta que “é a figura domoleque sob a qual aparece o Saci atual. A influência africana aí nos parece fora de discussão”.[15] Monteiro Lobato também é da opinião de que o mito “soffreu o influxo africano, passando de caboclinho a molecote”.[16] E Pierre de Oliveira concebe que “o saci por exemplo é um Gnomo que veio junto com os negros da África”.[17]

Coincidentemente – ou nem tanto – o mito como o conhecemos hoje tem sua gênese exatamente no auge da escravidão no Brasil, do século XVIII ao XIX.[18] O jornalista Mouzar Benedito vê nessa caracterização do Saci uma estratégia de sobrevivência dentro das relações escravocratas. Assim, tudo o que ocorria fora da conformidade do senhor, era atribuído ao Saci e, dessa forma, segundo o jornalista, os negros escravizados escapavam muitas vezes dos castigos. Nas próprias palavras de Mouzar Benedito, “Era algo muito esperto da parte delas porque, por exemplo, elas sabiam que se errassem a mão em uma comida, seriam castigadas porque o senhor de escravos não tinha nenhum pouco de bondade. Então quando erravam no sal diziam ‘Ah, passou o Saci aqui e jogou sal na comida’. Em uma revolta na senzala, o líder que a comandasse, quando era novamente dominado respondia ao senhor que perguntava quem havia iniciado (caso se apresentasse, o líder seria no mínimo, marcado a ferro) e ele dizia que foi o negrinho de uma perna só que havia passado por lá”.[19]

Assim, o Saci foi aliado dos negros durante a escravidão. Ouso dizer que mais do que aliado. Foi a cristalização dos anseios dos escravizados em construir um mito heroico que burlasse o sistema escravista sem que o senhor branco pudesse fazer nada em relação a isso.

O Saci é todo símbolo da liberdade. Cavalga os redemoinhos de vento – símbolo maior da liberdade – controlando-os e indo de um lado para o outro sem que ninguém consiga impedi-lo. O vento é incontrolável. Jesus disse: “O vento assopra onde quer” (Jo 3.8). O Saci tem a liberdade da locomoção, mesmo sendo perneta. Aliás, há quem diga que corre tão rápido que aparenta ser perneta, ainda que não seja.[20] “Corre como um raio, aparece e desaparece, cresce e diminui”.[21] Carrega na cabeça uma carapuça ou barrete que também é símbolo da liberdade. Adelino Brandão, já citado largamente aqui, diz que “o barrete frígio, símbolo da liberdade e dos ideais republicanos, costuma ser vermelho [como o do Saci] também”.[22] E continua, nos ensinando que “O barrete do Saci, por seu turno, ainda se presta a outras considerações, além das vistas. Muitos séculos antes de Cristo, nas saturnais romanas, encontramos o “pileus” – carapuça de cor vermelha que simbolizava a liberdade. O pileus era também o emblema do escravo fôrro segundo os costumes da antiguidade latina”.[23]

Não é à toa que todas as histórias sobre Saci dizem que quem obtiver a carapuça dele será seu senhor. Monteiro Lobato dizia, pela boca de Tio Barnabé, que “a força dele [Saci] está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci, fica por toda a vida senhor de um pequeno escravo”.[24] Pudera, pois a carapuça é o que simboliza a sua liberdade! Por isso, “embora negro, o Saci, pelo barrete vermelho que ostenta, é livre. Por isso se vinga igualmente dos brancos, enfernizando-lhes a vida”.[25]

E é, certamente, o único negro que durante a escravidão podia azucrinar – ou infernizar, como disse o Adelino Brandão – a vida do branco sem que houvesse consequências disso para ele. Ninguém podia açoitar o Saci ou amarrá-lo a um tronco. O máximo que poderia ser feito contra ele era capturá-lo num redemoinho de vento e engarrafa-lo. Mesmo assim, deveria tirar-lhe a carapuça. Caso contrário… “perturba a vida doméstica, apagando o fogo e queimando os alimentos. Espanta também os animais. Assusta os viajantes, pedindo fumo”[26]; e não contente, sai “assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras”.[27] Por fim, salta “na garupa dos cavalos dos viajantes”.[28]

Para completar o quadro, o Saci usa dos furos das suas mãos para fraudar a crueldade do sistema escravista. É comum os relatos de fazendeiros que obrigavam a seus escravos carregarem brasas nas palmas das mãos com a finalidade de acender charutos ou cigarros. Nerize Quevedo Portela descreve uma cena como essa: “E o Coronel fumava seu charuto e a toda hora ele chamava uma escrava e dizia: ‒ Ô coisa preta – era como ele chamava seus escravos. ‒ Traz brasa para acender meu charuto, anda rápido! Então o coitado do escravo ou da escrava já tremia, porque sabia que tinha que trazer na palma da mão. Ele só aceitava se fosse na palma da mão. Os coitados sofriam demais”.[29] Para quem acredita que se trata apenas de uma obra de ficção, o relato Maria Arlete Ferreira da Silva, inserido no RELATÓRIO DO GRUPO DE TRABALHO CLÓVIS MOURA (2005-2010), não deixa dúvida na existência dessa prática durante a escravidão: “a tia Salomé, foi escravizada e tinha as marcas no corpo, a orelha rasgada, a mão queimada, pois era obrigada a levar a brasa na mão para o seu senhor acender o cigarro de palha e muitas vezes ficava segurando a brasa até que ele fizesse o cigarro para depois acendê-lo”.[30]

O Saci tinha seus furos nas mãos e com eles satirizava a tentativa dos senhores brancos de impor a ele o mesmo castigo que impunham aos seus escravos. “Se encontra ainda alguma brasa, malabarisa com ella e ri-se perdidamente quando acontece cahir a brasa pelo furo das mãos”, informa Monteiro Lobato.[31] O mesmo Lobato acrescenta: “Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo”.[32] E Adelino Brandão finaliza: “Graças a esta particularidade anatômica, diverte-se assustando as pessoas que pernoitam no campo, à roda das fogueiras, retirando as brasas que joga para cima fazendo-as passar pelo buraco da mão”.[33]

O Saci zombava da tentativa de impor a crueldade do sistema escravista a um “moleque” brejeiro e matreiro. Matreiro que, como ensina o lexicógrafo Cândido de Oliveira, significa astuto, manhoso, sagaz, pessoa esperta.

Acresce-se ainda que a intenção explícita de Monteiro Lobato quando criou o Inquérito do Saci foi o de valorizar a cultura brasileira que estava perdendo espaço para a invasão cultural – na época – francesa. Todo o livro vai para esse rumo. É sintomático que logo na abertura ele descreva o caso de uma pessoa que estava indignada com os anões de jardins – gnomos europeus – e propunha que se trocasse por sacis. Afirmou mesmo que sendo “filho da imaginação collectiva o Sacy é uma resultante psychica do nosso povo” e que “é estudando taes manifestações [da psíquica coletiva] que poderemos conhecer o povo; que o conhecimento traz a comprehensão, e a comprehensão traz o amor”.[34]

O Inquérito sobre o Saci é, portanto, um libelo pela cultura nacional, de construção coletiva. Não é uma obra de difusão do racismo ou coisa que o valha. Assim como, em princípio, o mito do Saci também não é.

[1] BRANDÃO, Adelino. Euclides e o Folclore. Jundiaí (SP): Literarte, 1985, p. 44.
[2] LOBATO, Monteiro. Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito [edição fac-similar]. Rio de Janeiro: Gráfica JB S. A., 1998, p. 20.
[3] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 44.
[4] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[5] ROSSATO, José Carlos. Saci. São José dos Campos (SP): Fundação Cultural Cassiano Ricardo, s/d, p. 18.
[6] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 15.
[7] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 43.
[8] Candomblé – O mundo dos orixás. Disponível em: http://ocandomble.wordpress.com/os-orixas/ossaim/ Acesso em 04 jan 2013.
[9] Idem acima.
[10] LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, 1952, p. 185.
[11] FERNANDES, Waldemar Iglésias. 52 estórias populares (Sul de São Paulo e Sul de Minas). Piracicaba (SP): Editora Franciscana, 1978, p. 93.
[12] ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil – Histórias, Costumes e Lendas. São Paulo: Editora Três, 2000.
[13] OLIVEIRA, Pierre de. O Livro dos Gnomos. São Paulo: PEN, 1992, pp. 15 – 16.
[14] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 25.
[15] BRANDÃO, Adelino. Presença do Saci. In Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo, 1971, p. 30.
[16] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[17] OLIVEIRA, Op. Cit, 1992, p. 15.
[18] ROSSATO, Op. Cit, s/d.
[20] SASS, Roselis Von. Revelações inéditas da História do Brasil. São Paulo: Ordem do Graal na Terra, 1983, p. 65.
[21] SANTOS, Theobaldo Miranda. Lendas e Mitos do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987, p. 119.
[22] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 23.
[23] Idem, p. 31.
[24] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 185.
[25] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 31.
[26] ARAÚJO, Op. Cit, 2000.
[27] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 90.
[28] LOPES NETO, João Simões. Lendas do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1983, p. 110.
[29] PORTELA, Nerize Quevedo. A velha da Gruta e outras histórias. São Paulo: Biblioteca24 horas, 2011, p. 176.
[31] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 73.
[32] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 188.
[33] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 20.
[34] LOBATO, Op. Cit, 1998, pp. 20 – 21.

>> SPARTACUS EM PROL DA LIBERDADE – por Carlos Carvalho Cavalheiro


UMA INTRODUÇÃO À LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 8 | janeiro | 2013

Hand_with_Reflecting_Sphere

Não há povo e não há homem que possa viver sem ela [a literatura], isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado [...] a literatura é o sonho acordado das civilizações. – Antonio Cândido. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

A Literatura é um fenômeno social/cultural nascido de gêneros milenares, que permanecem vivos apesar da passagem dos séculos. Em geral cada civilização gerou os mitos ligados às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo. Entrelaçados com o desenvolvimento da linguagem e da filosofia, as narrativas mitológicas constituem-se em relatos sobre deuses, heróis e antepassados, estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que permanecem até hoje no inconsciente humano, segundo Carl Gustav Jung. Com o passar do tempo, as narrativas religiosas que constituíam os mitos perderam seu valor sagrado para nós, mas permaneceram nas narrativas profanas que continuaram na boca do povo, mudando de forma, emigrando para novas terras, revestindo-se de novas roupagens e adereços.

Assim nasceram os relatos que hoje chamamos contos de fadas, contos maravilhosos ou contos folclóricos; mora neles o que restou dos elementos dos mitos, depois que eles foram dessacralizados. E não existe obra literária antiga ou moderna, que não tenha raízes nessas narrativas ancestrais.

Ora, mitos e contos folclóricos são a matéria-prima do subgênero, pertencente aos gêneros romance e novela, que chamamos de Literatura Fantástica. Contudo, por um motivo ou outro, acabaram incluídas nesse amplo “rótulo” tendências tão distintas quanto o que chamamos de Literatura Gótica, de Horror, de Ficção Científica, de Fantasia. Esses subgêneros propiciaram ainda o surgimento de um outro sub-subgênero: o dos livros ligados aos RPGs (Role-Playing Games, jogos de interpretação em que o jogador representa um personagem, em ambientações características dos universos de fantasia), e que podem pertencer a três tipos: os livros-jogos (também chamados aventuras-solo), os complexos livros de regras para jogar, e as novelas elaboradas em torno de elementos de determinados sistemas de jogo.

Vamos encontrar ainda o fantástico na Literatura Clássica, com elementos de mitologia presentes nas manifestações literárias Líricas e Épicas. E na Era Medieval na Europa testemunhamos o choque entre o pensamento Cristão e o Pagão, evidente nas canções, poemas trovadorescos e lais. Além disso, na Idade Média temos o nascimento dos romances viejos, que dariam origem ao romance cortês e às novelas de cavalaria. Nessas obras, embora arcaicas e hoje de difícil leitura, existe grande misticismo e certos elementos que reconhecemos com facilidade: heróis, feiticeiros, espectros, animais míticos, objetos mágicos, seres elementais (são estes os seres ligados aos quatro elementos, ar, água, terra, fogo – as ninfas, silfos, elfos, goblins…).

Com o Renascimento, a partir do século XV, vemos na literatura a tentativa de se equilibrar o pensamento Cristão com a filosofia greco-romana; busca-se um humanismo que se sobreponha ao misticismo medieval. Apesar disso, aqueles mesmos elementos fantásticos permaneceram nesse período que gerou a Literatura chamada Clássica. Em Cervantes, Shakespeare, Camões, até Dante, ainda trombamos com seres mágicos, míticos, sobrenaturais. Seguindo para o período Pré-Romântico (entre 1700 e 1800) veremos a consagração da forma literária do romance, marcado ainda por novelas de cavalaria e romances picarescos medievais, repletos de aventuras heróicas.

Diz Ítalo Calvino no livro Contos Fantásticos do Século XIX que o conto fantástico propriamente dito nasce da especulação filosófica entre os séculos XVIII e XIX.

“Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção, e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem, sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis”.

Ainda segundo Calvino, a literatura fantástica nasceu com o Romantismo alemão – é fácil fazer a ligação do povo alemão, também chamado Godo, ou Gótico, com o que hoje chamamos de novela gótica. O autor mais importante nessa vertente seria Hoffmann. Os autores ingleses também foram fundamentais no estabelecimento de uma literatura que privilegia a narrativa fantasiosa: Poe é considerado o mais influente de todos, embora alguns autores acreditem que a primeira novela de terror propriamente dita seja o Castelo de Otranto, de Horace Walpole. Já na França teremos até autores como Balzac também se dedicando à narrativa fantástica. Foi ainda o francês Galland quem traduziu As 1001 Noites, trazendo à Europa o sabor das narrativas árabes, repletas de djins e magos.

Na imensa lista de nomes ligados ao Romantismo, é difícil na verdade encontrar quem não tenha escrito ao menos alguns contos em que imperam o maravilhoso, o extraordinário, o fantasmagórico. Em alguns textos nos defrontamos tanto com seres míticos e fantasmas, quanto com cientistas insanos e detetives inusitados. Nessa época, aliás, é que irão nascer esses vários “compartimentos” que até então estavam misturados, porém separar-se-iam no futuro, embora acabassem incluídos na mesma “prateleira”, por assim dizer.

-  O romance de aventuras marítimas da época daria origem à ficção científica; de Daniel Defoe a Jules Verne, passando por H.G.Wells, eles abririam o caminho para Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov…

-  O romance gótico em si – aventuras fantasmagóricas, urbanas e sinistras, que gerariam as novelas vampíricas, o gênero específico de Terror e até o universo Cyberpunk; aqui os ingleses foram mestres, com Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker, prenunciando autores como H. P. Lovecraft, Anne Rice, Stephen King…

-  O romance de mistério, que começa com Wilkie Collins e Edgard Alan Poe, avô do atual gênero policial.

-  O romance de imaginação – segundo a Profª Nelly Novaes Coelho, temos aqui obras em que a fantasia transfigura a realidade cotidiana; nesta vertente incluiríamos não apenas obras com estrutura de contos de fada, e os “mundos inventados” tão comuns hoje em dia, mas também o Realismo Mágico latino-americano. Neste caminho teremos autores tão diversos quanto Kafka, Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Márquez; e os ingleses e americanos que deixaram sua marca ao criar não apenas alguns contos e seus personagens, porém universos inteiros: J.R.R. Tolkien, C.S.Lewis, Ursula Le Guin, Marion Zimmer Bradley, Diana Wynne Jones, Frank Herbert (que, apesar de ser rotulado como autor de ficção científica, também transita por aqui).

Acrescentaríamos ainda uma categoria satírica, reunindo os autores que satirizam esses universos e tecem novos clássicos, assim como Cervantes gerou o que talvez seja o maior de todos os clássicos ao satirizar o Romance de Cavalaria… Temos então obras como O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams ouA Cor da Magia e suas seqüências, por Terry Pratchett.

Mais uma vez recorrendo a Calvino, encontramos uma análise de Tzvetan Todorov, afirmando que na verdade o que distingue o “fantástico” narrativo é uma perplexidade diante de um fato inacreditável, a hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural.

Tolkien solucionou esse dualismo entre realidade e não-realidade criando os conceitos de Mundo Primário e Mundo Secundário; ou seja, o mundo em que vivemos é o Primário, mas o autor cria um universo Secundário derivado dele, em que o leitor penetra ao fruir da Literatura; e é nesse que tudo é possível, desde que respeitadas as leis particulares daquele universo. Ao ler fantasia, concordamos, então, em abdicar de nossos conceitos e preconceitos civilizados e embarcamos na leitura, conscientes de que na Terra-média, poderemos virar a estrada e ser atacados por um bando de orcs; que numa Londres Gótica ou na Transilvânia pode haver sombras ameaçadores em cada esquina; que em Nárnia é preciso conformar-se à ética de um Leão; e que em muitos mundos não se deve zombar de velhos estranhos que levam cajados cheios de inscrições rúnicas, ou levar para casa pedras estranhas que podem ser ovos de dragões…

O mais fantástico da Literatura Fantástica, porém, é que ela se mantém mais forte que nunca com o passar dos anos, dando origem a inúmeros filmes, peças de teatro e seriados, apesar de ser considerada pela crítica especializada um gênero menor… Quanto a nós, leitores, continuamos abdicando de nossos Mundos Primários e mergulhando com o maior prazer possível nesses Mundos Secundários em que, talvez, encontremos não apenas a fantasia, mas a nós mesmos.

Leituras sugeridas:
Calvino, Ítalo (org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Coelho, Nelly Novaes. Conto de fadas, O. São Paulo: Ática, 1987 / Literatura e Linguagem. São Paulo: Vozes, 1994.

Lopes, Reinaldo José. A Árvore das Estórias: Uma proposta de tradução para Tree and Leaf, de J.R.R. Tolkien. Dissertação de mestrado da FFLCH – USP, 2006.

>> VALINOR – por Rosana Rios


ANTROPOFAGIA NA FICÇÃO CIENTÍFICA

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Brasil tem tudo para avançar no gênero ficção científica
e reprocessar as convenções literárias que assimilou

Obras estrangeiras, como o filme 2012, exploram o potencial do gênero ficção científica que Brasil hesita em assimilar

Em 1988, o escritor Ivan Carlos Regina publicou no fanzine paulistano Somnium o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, cujo texto pode ser lido aqui: <http://bit.ly/eStPSp&gt;. Não era a primeira nem a última vez que alguém cobrava dos escritores brasileiros de ficção científica (FC) uma literatura, que, mesmo usando temas e imagens de literaturas estrangeiras (o que é natural, e talvez inevitável), refletisse sobre o Brasil, ao menos tanto quanto o faz a nossa literatura mainstream, a literatura mimética, realista, de enfoque social ou psicológico.

Se há cobrança para que a FC discuta conteúdos brasileiros é porque ela não é mero gênero literário. Faz parte de um movimento cultural mais amplo. Em países como os EUA e a Inglaterra (que são seu eixo, sua matriz histórica), o gênero é um discurso literário que se interliga com a discussão científica, a ambiental, os movimentos políticos que questionam os usos de novas tecnologias. A ficção científica tem, nesses países, interfaces com os movimentos sociais alternativos, por um lado, e com as elites militares e aeroespaciais, por outro. Serve como caixa de ressonância e balão de ensaio para ideias, teorias e especulações de todo um espectro de grupos que vai da direita à esquerda, dos altos escalões do poder científico às subculturas e contraculturas marginais, com ramificações no rock, no cinema experimental, nos quadrinhos. Isto faz da ficção científica umambiente cultural, algo mais heterogêneo, amplo e contraditório do que um gênero literário; e exige dela uma série de compromissos e de respostas que ninguém exigiria da literatura mainstream em geral.

FC nacional
O crítico Peter Nicholls, criador e editor da Encyclopedia of Science Fiction, afirma: “A FC muitas vezes oscila entre o sublime e o ridículo, mas no cômputo geral ela encara de frente verdades que são incômodas, e também algumas que são agradáveis, com uma honestidade muito mais devastadora do que a ficção mimética seria capaz.”

A FC, segundo Isaac Asimov, tem como tema as mudanças produzidas por descobertas científicas ou pela criação de novas tecnologias. Uma das suas alegorias visuais famosas é o osso que se transforma em espaçonave em 2001, uma Odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick. O primeiro instrumento, improvisado ao acaso por um humanoide, gerou toda uma babilônia de tecnologia e poder. Note-se que, na mesma sequência do filme, a caneta do cientista escapa de seu bolso e baila no ar, ao som de Danúbio azul. A caneta (a linguagem, a escrita, a ciência teórica, a literatura) faz parte dessa linha evolutiva de instrumentos.

Síntese
Não se pode determinar por decreto que um escritor, de ficção científica ou não, tem de escrever sobre seu país. Quando a crítica manifesta esperança de que a FC brasileira (ou a poesia ou o cinema brasileiros, etc.) diga algo sobre o Brasil, a expectativa se dirige a um conjunto de obras amplo e poderoso o bastante para influir no modo como o país pensa a seu próprio respeito. Temos essa expectativa, não por patriotismo ou xenofobia, mas porque a literatura brasileira (qualquer uma) é redigida, publicada e lida por brasileiros. O Brasil cedo ou tarde emerge nessa ficção, com a força sísmica de todo “retorno do reprimido”.

Qualquer escritor quer fazer suas próprias escolhas de ambientação e temática. Não quer ser aconselhado a ambientar suas histórias em outros países “porque é moderno”, ou em seu próprio país “porque é patriótico”. Uma obra literária é uma síntese problemática entre as convenções literárias a que se filia (sempre existem), o ambiente cultural e extraliterário de onde surge, e as idiossincrasias do autor. Quando um autor brasileiro de FC parece refletir o Brasil de forma insuficiente em seus livros, talvez seja porque seu ambiente e suas idiossincrasias o inclinam a reproduzir, sem reprocessar, as convenções literárias que assimilou.

Em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir, São Paulo, 2005), M. Elizabeth Ginway observa que há um sentimento, entre os autores brasileiros, de que a modernização, especialmente sob a forma de importação de tecnologia, é uma repetição da experiência colonial. Essa atitude cautelosa em relação a uma modernidade vinda de fora nos parece natural, mesmo que a desconfiança inicial possa ser logo substituída por um frenesi importador. Esse tipo de reação se reproduz em nossa atitude diante da própria FC, que é um instrumento narrativo fascinante, mas às vezes parece ter sido criado e formatado para contar histórias diferentes das nossas.

Talvez, contudo, a FC seja como o rádio portátil que o caipira ganhou de presente na Itália e não quis trazer para o Brasil porque o rádio só falava italiano. Trazido para cá, o rádio da FC começa a captar transmissões que estavam sendo feitas há séculos, mas de cuja existência ninguém suspeitava, por não haver instrumento que as captasse.

A FC brasileira tem mostrado que pode “antropofagizar” os temas e as estruturas narrativas da FC estrangeira. Kim Stanley Robinson afirmou que talvez a ciência mais importante dentro da ficção científica não fosse a Física nem a Astronomia, mas a História. Se a FC é de fato um exame literário, imaginativo, das consequências possíveis das mudanças científicas, todo o seu corpus literário é um conjunto de Histórias possíveis da raça humana.

A obra de FC do carioca Gerson Lodi-Ribeiro, por exemplo, tem sido uma reflexão constante sobre as virtualidades da História, explorando o subgênero clássico da História Alternativa. O que teria acontecido se o Brasil tivesse perdido a Guerra do Paraguai? E se o Quilombo dos Palmares tivesse se transformado num reino negro independente? E se os holandeses nunca tivessem sido expulsos do Brasil? As ramificações sociais dessas reviravoltas na política são o pano de fundo para histórias fantásticas em Brasis que somos forçados a comparar com o nosso. O escritor e designer Octávio Aragão, por sua vez, criou o ciclo de histórias da Intempol, universo compartilhado por vários escritores, que conta as aventuras da Polícia do Tempo, cujos agentes (seguindo o modelo da Time Patrol de Jack Williamson e outras FCs internacionais) viajam para o passado e o futuro para prevenir crimes e transgressões.

As histórias de FC de Roberto de Sousa Causo, abordando aventuras militares na Amazônia, têm similares estrangeiros, mas a inserção no ambiente físico e social brasileiro as projeta num outro nível de significação e extrai delas outros critérios de plausibilidade. Até a FC hard de Jorge Luiz Calife, ambientadas num futuro remoto e nos confins da Galáxia, mantêm o vínculo com o Brasil e suas contradições; funcionam como um gigantesco espelho distorcido em que podemos reencontrar, com outros traços, muito do nosso presente.

Correntes
Um erro de quem tem pouca familiaridade com a FC é imaginá-la como um conjunto articulado de escritores com opiniões parecidas, como tantas vezes ocorre nas escolas literárias. A FC é um rótulo que abriga autores de todo tipo: de direita e esquerda, vanguardistas e tradicionalistas, conservadores e anárquicos, pacifistas e militaristas, apocalípticos e integrados.

Muitas (nem todas) dessas correntes têm similares na FC brasileira. O movimento cyberpunk, por exemplo, criado nos anos 1980 nos EUA, produziu no Brasil ecos distantes mas notáveis, num conjunto de autores que Roberto de Sousa Causo chamou de “tupinipunks”, e que inclui desde os delírios de Fausto Fawcett sobre uma Copacabana noir e tecnológica até as “piritas siderais” de Guilherme Kujawski, micronarrativas com experimentalismo de linguagem.

Discurso contemporâneo
A narrativa urbana tem ampliado seu espaço nas últimas décadas, mas um dos subgêneros mais sólidos da FC brasileira são as histórias sobre o que podemos chamar de Espaço Selvagem, que supõem a existência, em algum ponto do Brasil, de uma região habitada por um povo com conhecimentos (científicos, esotéricos, etc.) que em algum aspecto são superiores aos nossos. Essas histórias envolvem com frequência descendentes dos incas ou dos atlantes. Entre dezenas de títulos há A Amazônia misteriosa (1925) de Gastão Cruls, A Filha do Inca (1930) eKalum (1936) de Menotti Del Picchia, A cidade perdida (1948) e A serpente de bronze (1949) de Jeronymo Monteiro, vindo até títulos mais recentes como Os deuses subterrâneos (1994) de Cristovam Buarque.

Um clichê a respeito da FC diz ser ela “a literatura que conta histórias do futuro”, mas isto diz pouco. A FC fala de todos os tempos possíveis, por mais improváveis. Seu assunto é a mudança, seu formato é a História: histórias futuras, secretas, alternativas, paralelas, paradoxos históricos e temporais. Uma importante coleção francesa de FC se intitula Présence du futur, e a FC é de certa forma a presença constante e irrecusável de incontáveis futuros.

Outro clichê é o que se refere ao Brasil como “o país do futuro”, o que tanto pode ser interpretado como “o país com mais possibilidades” quanto “o que vive adiando suas realizações”. Talvez não seja excesso de otimismo imaginar um futuro em que o Brasil e a FC se iluminem mutuamente.
>> REVISTA METAFORA – por Braulio Tavares


A CIÊNCIA NA LITERATURA

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Escritores antecipam há muito em sua produção revelações científicas

A exemplo do que o poeta e crítico norte-americano Ezra Pound preconizou, que os artistas estão em tal sintonia com a profundidade do mundo que são capazes de “prever o porvir”, o escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) é uma dessas antenas da raça. Daniel Martins de Barros e Geraldo Busatto Filho publicaram na revista médica British Journal of Psychiatry que o conto machadiano O anjo Rafael antecipou em dezoito anos a descrição de um distúrbio psíquico, a “folie à deux” (loucura a dois). Anunciada pelos psiquiatras franceses Jean Pierre Falret e Ernest-Charles Lasègue em 1887, a psicopatologia leva parentes (ou gente muito próxima) de pessoas com sintomas psicóticos a sofrerem, por convivência, “contágio” do mesmo problema mental. Desiludido e endividado, doutor Antero quer se matar no início de O anjo Rafael, conto publicado originalmente em 1869 no Jornal das famílias. Bilhete de despedida pronto, tem a arma à mão quando batem à porta. O major Tomás lhe mandara um recado. Levado até ele, descobre tratar-se de um amigo de seu falecido pai, a quem prometera dar a Antero a mão de sua rica e reclusa herdeira, Celestina. A proposta o reanima, mas logo o protagonista percebe que seu anfitrião sofre da “monomania celestial” de acreditar ser o anjo Rafael. Para complicar, descobre que a própria Celestina acredita ser filha de anjo. Reviravoltas depois, o casamento se realiza e Celestina se muda de casa. Só depois disso, ela retoma a sanidade. – O sintoma básico é a transmissão de uma crença delirante para uma pessoa saudável (que, por isso, se torna delirante):  isso aparece nos

diálogos em que Celestina defende a ideia de o pai ser um anjo; o quadro é reversível, o que também Machado antecipou, já que  ela se cura com o afastamento do pai – diz Daniel M. Barros, que atua no Núcleo de Psiquiatria Forense, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da USP. Ficção não científica
O caso de Machado não é isolado. Escritores das mais diferentes estirpes, gêneros e nacionalidades rivalizam com seus colegas de ficção científica e fazem antecipações dignas de Júlio Verne (1828-1905). Não se trata de predições futuristas, como as de Verne, ou a idealização de cenários imaginários, como os de Arthur C. Clarke ou Aldous Huxley. Mas de criações que falam de conflitos concretos de personagens mundanos, imaginados por autores sem intenção deliberada de fazer sci fi.
Relatos realistas, fantasiosos ou alegóricos podem trazer surpresas aos cientistas de hoje. Ou o que dizer da primeira descrição de epilepsia do lobo temporal feita pelo romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Em O idiota, de 1869, o escritor (ele mesmo vítima da doença) descreve com detalhes o estágio marcado pelo êxtase que antecede a crise epilética. Só em 1898, o inglês Hughlings Jackson associa ataques automáticos e amnésia com distúrbios na região temporal do cérebro huma­no. Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (1667-1745), a primeira descrição do mal de Alzheimer. Numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por bênção revela-se maldição: as pessoas seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo a vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A doença degenerativa seria descrita apenas em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer. – A descrição do envelhecimento feita pelo livro é característica de um quadro demencial. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift – conta Daniel Barros. Luas de Marte
Fruto da imaginação vertiginosa de um autor satírico, As viagens de Gulliver seria ainda responsável por outra previsão, desta vez astronômica: a da existência de duas luas em Marte. Décadas depois, o filósofo francês Voltaire (1694-1778) faria a mesma descrição, em seu Micrômegas (1752). Mas só em agosto de 1877 o astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907) revelaria ao mundo a descoberta de Deimos e Fobos, luas marcianas com nomes gregos que significam “terror” e “medo”. Hoje, uma cratera ao sul de Fobos recebeu o nome do astrônomo, enquanto dois platôs de Deimos levaram os nomes dos literatos que primeiro imaginaram as luas. – Os escritores conseguem olhar o mundo e refleti-lo nas suas obras, e muitas vezes nesse processo, sem saber, transcrevem para o livro elementos que os olhos técnicos ainda não haviam captado – avalia Daniel Barros. Síndromes
Charles Dickens (1812-1870) faz um dos personagens de As aventuras do sr. Pickwick ser marcado por sonolência diurna e obesidade. Na história, o comilão Joe Gorducho integra o grupo de quatro rapazes liderados pelo protagonista Samuel Pickwick, que se mete numa aventura por Londres em busca de revelações científicas e humanas. Sua descrição é a definição integral do quadro clínico da apneia noturna (deixar de respirar durante o sono) por obesidade, associada à sonolência diurna, que só no início do século 20 viria a ganhar o nome de “síndrome de obesidade-hipoventilação alveolar”. Para os íntimos, “síndrome de Pickwick”. O paralelo da doença com o romance de Dickens foi feito pela primeira vez por sir William Osler, em The principles and practice of medicine (1905). Mas só em 1956 a equipe de C. S. Burwell cacifou a descrição de Dickens como precisa o suficiente para reunir num só rótulo todos os sintomas da doença: não só os episódios de apneia durante o sono – o rubor facial de Joe Gorducho, por exemplo, “bate” com a politecmia provocada pela diminuição de oxigênio. Burwell foi quem popularizou o termo “pickwickiano” na medicina. O nome mais conhecido de outra doença, também chamada de “síndrome de Todd”, rende tributo a Alice no país das maravilhas. A desordem neurológica afeta a percepção e é caracterizada por despersonalização e alucinações associadas ao estado de enxaqueca, a tumores cerebrais ou uso de alucinógenos. A “síndrome de Alice”, como é nomeada, é uma doença rara que lembra as experiências relatadas por Lewis Carroll (1832-1898). O psiquiatra inglês John Todd, que batizou a síndrome em 1955, defendeu a homenagem ao autor de sua infância usando como evidência passagens dos livros Alice no país das maravilhas (1865) e Alice através dos espelhos (1872). Há quem acredite que Carroll tinha familiaridade com o problema, que, na sua época, ainda não estava descrito pela medicina. Neurociência
Desde que Freud encontrou no Édipo rei, de Sófocles, um dos antecedentes da teoria psicanalítica, os estudiosos das relações entre a mente e o mundo parecem cada vez mais convencidos de que somos feitos de ciência e imaginação literária. Em Proust foi um neurocientista (editora Best Seller, 2010), o norte-americano Jonah Lehrer mostra verdades sobre a mente humana reveladas pelas artes que só agora a ciência está, como ele afirma, (re)descobrindo. Foi assim que Walt Whitman (1819-1892) cravou que o corpo e a alma são inseparáveis – portanto, açoitar o corpo dos escravos negros, por exemplo, era castigar também sua alma, pois não temos um corpo, somos um corpo. O corpo e a alma estão fundidos, são nomes distintos da mesma coisa. Nossos sentimentos são corporais, nossos desejos são sábios, a experiência é confiável – pois o ser é um todo impossível de ser reduzido em duas partes. “Vem, disse minha alma, Tais versos para meu Corpo vamos escrever, (pois somos um só).” Esse é o modo como Whitman é visto por Lehrer, um editor da revista Wired e do blog de neurociência da Scientific American, que já trabalhou em laboratórios de neurocientistas. Seu argumento é que a neurociência moderna só agora aponta a anatomia subjacente a primores literários, como a poesia de Whitman. Mostra que pesquisas como as de António Damásio sustentam a mesmíssima ideia de que nosso cérebro gera nossos sentimentos metafísicos a partir do corpo físico. “A moral dos versos de Whitman era que o corpo não era simplesmente um corpo”, escreve Lehrer. “Quando os materialistas de sua época anunciaram que o corpo nada era além de uma máquina desenvolvida – não havia alma alguma dentro – o poeta reagiu com ceticismo característico.” Jogo da memória
Assim como Whitman antecipou Damásio nas relações entre mente e corpo, Marcel Proust (1871-1922) anteviu questões científicas sobre a memória, defende Lehrer. A memória não é um reservatório, constatou o escritor de Em busca do tempo perdido, obra publicada entre 1913 e 1927, em sete volumes. A mordida num biscoito madeleine e o mero aroma do chá catapulta o autor à infância, mas à infância degustada (afetada) por aquele chá. As lembranças se tornam mais e mais suspeitas à medida que o tempo avança. Assim que terminamos uma ação começamos a distorcer a memória para encaixá-la em nossa narrativa pessoal. Buscar o tempo perdido é impossível, pois não há armazém de recordações intactas. Um conjunto de experiências realizadas com ratos, em 2000, na Universidade de Nova York, por Karim Nades, Glenn Shafe e Joseph LeDoux confirmaram a ideia proustiana de que o ato de lembrar também altera a pessoa. As experiências de laboratório evidenciaram que a memória é um processo contínuo, que nunca para de alterar as recordações, tal qual o protagonista do romance proustiano. Escritores antecipam há muito em sua produção revelações científicas Simbiose
Lehrer mostra que certos autores não admitem como realidade o que a ciência objetiva – e tendem a preencher, por meio da imaginação, as possibilidades não realizadas. Mas é impossível, na mesma medida, compreender a arte deles sem levar em consideração suas relações com a ciência. As pesquisas neurocientíficas da primeira década do século 21 sobre o “eu” e a “consciência” estavam já contidas na obra de Virgínia Wolf (1882-1941) e as conclusões da linguística de Noam Chomsky nos anos 1950 tiveram antecedente literário em Gertrude Stein (1874-1946), na primeira década do século 20. Se Lehrer estiver certo, há uma simbiose entre arte e ciência. A literatura evidencia que a ciência não é a maneira exclusiva de acesso e representação da experiência. A ciência confirma suspeitas e certezas imaginárias. Talvez a atividade humana mais pura tenha sempre algo de outro campo. Ao explorar a própria experiência, diz Lerher, os escritores expressam o que nenhum experimento capta e mantêm em suas linhas as revelações que tendem a guiar os diferentes rumos da ciência. >> REVISTA QUANTA – da Redação

A VASTIDÃO A QUE O LEITOR DE BORGES É CONDENADO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Talvez a marca mais grandiosa da literatura de Jorge Luis Borges seja a impureza. A mistura e a contaminação fazem seus contos serem lidos como ensaios e vice-versa, num jogo que só comprova uma questão: quem faz o gênero é o leitor; é ele quem compreende um livro seguindo seus próprios desejos e necessidades, como se guiado por uma bússola particular e intransferível. Como leitor fiel de Borges, por exemplo, acredito que a ficção O Aleph é uma descrição das mais fieis do universo e da sua gênese. É como se estivesse lendo um livro de ciências que me revelasse a simultaneidade com que as coisas convivem e dependem uma das outras. E mais: releio O Aleph acreditando que vou ter alguma revelação ao final da leitura, ainda que a revelação maior seja a minha crença de que algo será revelado, num claro processo de imersão borgeana.

É lendo Borges dessa forma bem particular que recomendo Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare, que a Companhia das Letras lança agora dentro da sua coleção Biblioteca Borges. A obra se insere de maneira exemplar na perspectiva de impureza e contaminação, a que nos referimos anteriormente. Há contos, ensaios, fragmentos e um prólogo que é tudo isso ao mesmo tempo. Cabe ao leitor escolher a classificação da sua leitura.

E o leitor, já acostumado ao universo borgeano, sabe da vastidão do imaginário do escritor argentino em se tratando de Dante. O texto (vamos chamá-lo assim, para não aprisioná-lo na “armadura” de ensaio) O último sorriso de Beatriz dá uma boa ideia de como Borges amplia o mestre italiano: “Tenho a impressão de que Dante edificou o melhor livro produzido pela literatura para intercalar alguns encontros com a irrecuperável Beatriz. Melhor dizendo, os círculos do castigo e o Purgatório austral e os nove círculos concêntricos e Francesca e a sereia e o Grifo e Bertrand de Born são intercalações; um sorriso e uma voz, que ele sabe perdidos, são o que importa”. Sua perspectiva tão aguda da estratégia dantesca de se aproximar da musa Beatriz é compreensível. O Aleph trata de um homem que escolhe ver o universo inteiro apenas para ler as cartas íntimas da amante morta. A visão Total seria apenas o álibi de um voyeur atormentado por detalhes.

Se com esse livro compreendemos melhor Dante, também visualizamos o fascínio de Borges pelo tigre, como símbolo e animal: “Uma famosa página de Blake fez do tigre um fogo que resplandece e um arquétipo eterno do Mal; prefiro a sentença de Chesterton, que o define como um símbolo de terrível elegância. Não há palavras, ademais, que possam cifrar o tigre, essa forma que há séculos habita a imaginação dos homens”. E, como Borges sempre nos alertou, é bom ter cuidado: o tigre está à solta na biblioteca.

>> JORNAL DE PERNAMBUCO – por Schneider Carpeggiani


“CONTOS GAUCHESCOS”: O CENTENÁRIO DO LIVRO DE SIMÕES LOPES NETO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Alguns livros marcam uma geração, outros uma nação. Os Lusíadas se confundem com a formação da nação lusa, A Divina Comédia forjou o idioma italiano, assim como as obras de Walter Scott e Shakespeare foram fundamentais para os ingleses. No Brasil, temos os romances de Alencar, que esforçou-se por representar a nação brasileira como um todo. Há outros livros, porém, que forjam não nações, mas culturas, em especial culturas regionais que não chegam a se configurar como nacionais. E este é o caso, decididamente, da cultura sul-rio-grandense.

No Rio Grande do Sul, lembramos de nossos heróis, fazemos feriado e comemorações no nosso dia, o 20 de setembro, e cantamos com entusiasmo o Hino Rio-Grandense. Mas esse gaúcho, hoje representado no Laçador, cantado em nossos CTGs e revivido no acampamento farroupilha, é acima de tudo uma figura criada pelos escritores, e poucos foram tão importantes como Simões Lopes Neto. Em Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913), esse pelotense forjou muito da personalidade mítica do gaúcho, sua valentia, sua honra, o amor pela terra e pelo cavalo.

Neste ano, comemora-se exatamente cem anos do lançamento deContos Gauchescos, obra obrigatória nos bancos escolares e acadêmicos gaúchos, mas que poderia estar no cânone de qualquer seleção de literatura brasileira. A obra traz, além da apresentação em que Blau Nunes surge como narrador, 19 contos: “Trezentas onças”, “Negro Bonifácio”, “No manatial”, “O mate do João Cardoso”, “Deve um queijo!”, “O boi velho”, “Correr eguada”, “Chasque do imperador”, “Os cabelos da china”, “Melancia — Coco verde”, “O anjo da vitória”, “Contrabandista”, “Jogo do osso”, “Duelo de Farrapos”, “Penar de velhos”, “Juca guerra”, “Artigos de fé do gaúcho”, “Batendo orelha” e “O ‘menininho’ do presépio”.

Todos os contos são narrados por Blau Nunes, que em algumas histórias é protagonista, mas em tantas outros assiste como espectador interessado e atento. Outro aspecto fundamental do livro é a linguagem utilizada, que é representação da linguagem popular falada do gaúcho, mas retrabalhada de forma erudita a ponto de criar uma terceira linguagem rica e particular. O grande Guimarães Rosa, anos mais tarde, e confesadamente inspirado em Simões, utilizaria essa técnica emGrande Sertão: Veredas.

Trezentas Onças, o primeiro conto do livro, é um verdadeiro cartão de visitas da prosa e da linguagem de Simões, com seus gauchismos (“guaiaca, cusco”), espanholismos (“mui, cousa”) e ditos populares (“brabo como uma manga de pedras”). A temática também começa a moldar os valores do gaúcho, estando a honra acima de tudo, mesmo quando grande quantia de dinheiro está em jogo.

Este trabalho peculiar com a linguagem exige um pouco do leitor contemporâneo, que talvez tropece em alguns trechos, especialmente nos mais descritivos, como este de “No Manatial”: “Vancê acredita?… Nesta manhã, desde cedo, os pica-paus choraram muito nas tronqueiras do curral e nos palanques… e até furando no oitão da casa;… mais de um cachorro cavoucou o chão, embaixo das carretas;. e a Maria Altina achou no quarto, entre a parede e a cabeceira da cama, uma borboleta preta, das grandes, que ninguém tinha visto entrar…”

“No Manatial”, aliás, é o mais belo — e talvez mais triste — conto do livro, revelando um pouquinho de como nascem as lendas e as assombrações. O que impressiona em Simões é que apesar do linguajar próprio, a narrativa flui com facilidade, tal qual um causo contado de mate na mão:

“E os dois, ¾ a que te pego! a que te largo! ¾ se despencaram por aquele lançante, em direitura ao manantial! E, ou por querer atalhar, ou porque perdesse a cabeça ou nem se lembrasse do perigo, a Maria Altina encostou o rebenque no matungo, que, do lance que trazia costa abaixo, se foi, feito, ao tremendal, onde se afundou até as orelhas e começou a patalear, num desespero!. A campeirinha varejada no arranco, sumiu-se logo na fervura preta do lodaçal remexido a patadas!… E como rastro, ficou em cima, boiando, a rosa do penteado.”

O livro também pode ser muito interessante como um documento histórico, revelando um pouco do pensamento e da cultura gaúcha (e brasileira) de um século atrás. Em “O Negro Bonifácio”, por exemplo, a representação feita da mulher e do negro causa estranheza e até revolta no leitor moderno, mas retrata os valores da época de publicação do texto:

“Os dentes [da Tudinha eram] brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de guabiju…  (.) No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele negro excomungado, para aguar o pagode.”

Este famoso conto, a propósito, retrata a disputa de quatro gaúchos pela Tudinha, “a chinoca mais candongueira que havia naqueles pagos”. A disputa evolui para um duelo sangrento, do qual emerge ao final a revelação de uma história de amor secreta, ardente e improvável da bela morena com o Negro Bonifácio.

Talvez o sucesso dos contos seja que sua essência não está nas palavras, nas frases, na linguagem popular retrabalhada, e sim no subtexto, no não-dito, naquilo que só o leitor acostumado com os meandros do gênero conto poderá perceber, como a relação de Tudinha com o Negro.

Hoje, passados cem anos, pode-se dizer que Contos Gauchescos é um clássico em todas as acepções de clássico para Calvino, “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, “uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe”, “livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”. É, enfim, um livro além de seu tempo e de seu espaço, pois embora o espaço seja bem definido, o sul do sul, o pampa gaúcho, o pampa gaúcho de um tempo de guerras, facões, cavalos e heróis, as temáticas são universais: traição, ciúme, honra, mesquinhez, saudades.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


A FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ANOS 60 NO YOUTUBE

sexta-feira | 11 | maio | 2012

A década de 1960 foi uma era de ouro para a ficção científica cinematográfica. A corrida espacial e a Guerra Fria ocupavam as manchetes dos jornais e os cineastas soltavam a imaginação. Agora, alguns dos melhores filmes dessa época podem ser vistos de graça na internet, no site Youtube. São produções que caíram no domínio público e, portanto, podem ser disponibilizadas para download sem qualquer culpa ou acusação de pirataria. São filmes que dão um banho de criatividade em muitas produções de hoje em dia.

Semana passada eu voltei à infância assistindo a dois desses filmes, o italiano “O planeta dos homens mortos” e o americano “Passagem para o futuro”. Quando eu tinha dez anos de idade esses filmes passavam na matinê do cinema Trindade, lá no bairro da Abolição, no Rio de Janeiro. Jamais imaginei que no futuro, em 2012, eu poderia rever esses mesmos filmes na telinha do meu computador. Afinal, em 1960, computador também era coisa de ficção científica.

“O planeta dos homens mortos” está disponível no Youtube na versão em inglês, intitulada “Batlle of the worlds”. O diretor é o italiano Antonio Margueriti, que assinava seus filmes com o pseudônimo Antony Dawson. Quando esteve em Hollywood, Margueriti descobriu que seu sobrenome, em inglês, significava margarida. Cismou que iam pensar que Antonio Margarida era um cineasta gay e mudou de nome. Numa carreira que só terminou com sua morte, em 2002, este italiano dirigiu dezenas de filmes, incluindo faroestes e fitas de terror. Acabou homenageado por Quentin Tarantino que deu seu nome a um personagem do filme “Bastardos inglórios”.

Mas o nome Antonio Margueriti hoje é lembrado pela tetralogia Gamma One, quatro filmes de ficção científica que ele rodou entre 1960 e 1965, usando os mesmos cenários e as mesmas maquetes.

O “Planeta dos homens mortos” é o segundo da tetralogia. Claude Rains (“Casablanca”) é o professor Benson, um cientista excêntrico que vive isolado em uma ilha do mar Mediterrâneo no ano de 2022. Os líderes mundiais buscam sua ajuda quando um estranho planetoide se aproxima da Terra. A humanidade entra em pânico achando que é o fim do mundo, mas Benson suspeita que se trata de uma invasão extraterrestre. Quando naves espaciais são enviadas para pousar no mundo errante são interceptadas por discos voadores e começa uma guerra espacial.

As cenas do combate entre os foguetes da Terra e os discos voadores são mais realistas do que as batalhas de Guerra nas Estrelas. Os foguetes do cineasta italiano obedecem às leis da física e só disparam seus motores na hora de acelerar ou mudar de órbita. No final, os heróis conseguem penetrar no planeta e descobrem que era o lar de uma raça extinta que deixou um super computador controlando tudo. Nada mal para um filme de matinê.

Futuro
“Passagem para o Futuro” (The time travelers” no original) é mais pessimista e reflete os medos da Guerra Fria. Começa com um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia testando uma máquina do tempo. A engenhoca parece uma enorme televisão de tela plana mas, em teoria, será capaz de mostrar cenas do passado e do futuro. Na verdade, a coisa acaba abrindo um portal, uma fenda no tempo entre o ano de 1964 e o ano de 2071. E neste mundo, 107 anos no futuro, a terra é um deserto calcinado, povoado por mutantes, resultado de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Os cientistas atravessam o portal e encontram uma comunidade de humanos vivendo num paraíso tecnológico subterrâneo. As mulheres tomam banho de sol nuas em câmaras ultravioleta, os vegetais crescem instantaneamente em estufas e o teletransporte é uma realidade. Mas a ameaça dos mutantes, que dominam a superfície, leva os homens e mulheres do futuro a buscarem uma solução radical. Eles estão construindo um foguete fotônico e vão se mudar para um planeta da estrela Alfa Centauri.

Já não se fazem mais filmes assim hoje em dia. E nem é preciso. Eles podem ser vistos de graça, na internet.
>> DIÁRIO DO VALE – por Jorge Luiz Calife


CRIATIVIDADE PASSO A PASSO: O “BRAINSTORMING” vs. O PODER DOS INTROVERTIDOS

segunda-feira | 5 | março | 2012

Como temos boas ideias? A questão não é trivial e já mobilizou de pensadores do porte de Platão, Descartes e David Hume a empresários preocupados em aumentar a produtividade de seus funcionários. Como não poderia deixar de ser, métodos ditos infalíveis para obtê-las enchem as estantes das seções de livros de autoajuda.

Tela produzida por Deborah Paiva para "Ilustríssima" de 4/3

Tela produzida por Deborah Paiva para "Ilustríssima" de 4/3 - Silvia Zamboni/Folhapress

A maioria dessas receitas está errada. E a razão é muito simples: o mundo é um lugar complexo demais para ser subsumido por meia dúzia de fórmulas pré-fabricadas. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, muitas vezes topamos com uma boa ideia sem conseguir identificá-la como tal.

Recentes descobertas na psicologia e na neurociência, ainda que não permitam produzir um guia da criatividade passo a passo, pelo menos servem para descartar determinados mitos que insistem em se perpetuar.

“BRAINSTORMING”
O mais célebre deles é o do “brainstorming”. Como conta o escritor Jonah Lehrer em recente artigo para a revista “The New Yorker”, o conceito surgiu no livro “Your Creative Power” (Myers Press). Nesta obra de 1948, ainda em catálogo, o publicitário norte-americano Alex Osborn, sócio da mítica agência BBDO, prometia dobrar o poder criativo do leitor.

O livro, que foi um inesperado “best-seller”, trazia conselhos como “carregue sempre um caderninho, para não ser surpreendido pela inspiração”. O ponto alto, contudo, estava no capítulo 33, intitulado “Como organizar um esquadrão para gerar ideias”. Osborn dizia que o segredo do sucesso de sua agência eram as sessões de “brainstorming”, nas quais uma dezena de publicitários se reunia por 90 minutos e saía com 87 novas ideias para uma “drugstore”.

A principal regra de um “brainstorming” era “não critique o companheiro”. Para Osborn, “a criatividade é uma flor tão delicada”, que precisa ser alimentada com o louvor e pode ser destruída por uma simples palavra de desencorajamento.

A coisa pegou como uma praga. Osborn escreveu vários outros “best-sellers” e virou guru da literatura de negócios. Os pedagogos também adoraram e até hoje nossos filhos perdem precioso tempo na escola se dedicando a atividades de grupo onde o mantra é jamais criticar o coleguinha, mesmo que ele diga uma tremenda besteira.

O principal problema com o “brainstorming” é que ele não funciona. Como mostra Lehrer, o conceito fracassou já em seu primeiro teste empírico, em 1958. Pesquisadores da Universidade Yale puseram dois grupos de 48 estudantes para propor soluções criativas para uma série de problemas.

No primeiro, os voluntários atuariam segundo as instruções de Osborn; no segundo, cada aluno trabalharia sozinho. Estudantes que operaram individualmente apresentaram, em média, duas vezes mais propostas que os do “brainstorming”. Mais ainda, um comitê de juízes considerou essas contribuições melhores e mais factíveis que as do primeiro grupo.

ARQUITETURA
Outra noção popular e errada é a de que laboratórios e escritórios devem ter uma arquitetura que praticamente obrigue as pessoas a interagirem, favorecendo “insights” criativos. Essa moda derrubou muitas paredes, e grandes empresas se tornaram um imenso átrio, onde todos se encontravam o tempo inteiro. Estima-se que cerca de 70% dos escritórios dos EUA sigam esse padrão. Um dos maiores entusiastas do conceito de arquitetura de plano aberto era Steve Jobs, da Apple.

Como mostra Susan Cain, no recente “Quiet: The Power of Introverts in a World that Can’t Stop Talking” [Crown, 352 págs., R$ 26], a relação entre interações sociais e boas ideias é mais sutil. Num estudo chamado “Coding War Games”, Tom Demarco e Timothy Lister avaliaram a performance de 600 programadores de informática de mais de 90 companhias.

A diferença entre os profissionais era impressionante: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, para tornar as coisas mais misteriosas, as causas suspeitas de sempre –como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa– não explicavam o fenômeno.

Demarco e Lister, entretanto, perceberam que os melhores programadores tendiam a agrupar-se nas mesmas firmas. Investigando essa pista, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.

INTROVERTIDOS
O objetivo de Cain, nesse interessante livro que pretende ser uma espécie de manifesto de libertação dos introvertidos, é demonstrar que as pessoas precisam respeitar seu temperamento. Especialmente para os tímidos, em geral super-representados nas carreiras científicas, o excesso de interações sociais é amedrontador. Eles se saem melhor em ambientes mais tranquilos, onde sua atenção não seja requisitada para desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo.

O problema, sustenta a autora, que largou a advocacia para dedicar-se ao estudo da introversão e à orientação para tímidos, é que o mundo –o Ocidente em especial– abraçou uma cultura da personalidade, cujos valores são ditados por um ideal de extroversão. Quem não consegue ou não gosta de falar em público e motivar as pessoas já sai perdendo pontos na carreira e na própria vida.

Voltando à criatividade, antes de eliminar todas as reuniões de sua empresa, construir paredes por todos os lados e proibir os funcionários de trocar bom-dia, é preciso saber que o problema é mais complexo e nuançado.

A artista plástica Deborah Paiva produziu a tela para a edição da "Ilustríssima" deste domingo, 4 de março

A artista plástica Deborah Paiva produziu a tela para a edição da "Ilustríssima" deste domingo, 4 de março - Silvia Zamboni/Folhapress

Embora as pessoas de um modo geral trabalhem melhor sozinhas (especialmente os introvertidos), a criação continua sendo um processo coletivo. Na verdade, cada vez mais coletivo.
Ben Jones, da Northwestern University, passou os últimos 50 anos analisando quase 20 milhões de publicações acadêmicas e 2,1 milhões de patentes. Em mais de 95% dos campos e subcampos científicos, o trabalho de equipe vem crescendo. O mesmo ocorre com o tamanho das redes de colaboradores, que aumenta em média em 20% a cada década.

Se até um ou dois séculos atrás a ciência podia gravitar em torno de gênios individuais como Einstein e Darwin, à medida que ela se torna mais complexa e especializada, avanços significativos dependem cada vez mais da interdisciplinaridade que, por seu turno, depende de redes cada vez maiores.

A ideia de saber coletivo ganhou inesperado apoio no ano passado, com a publicação de um impactante artigo dos pesquisadores franceses Hugo Mercier e Dan Sperber, que virou do avesso alguns dos pressupostos da filosofia e da psicologia. Eles sustentam que a razão humana evoluiu –não para aumentar nosso conhecimento e nos aproximar da verdade, mas para nos fazer triunfar em debates.
A teoria, dizem os autores, não só faz sentido evolutivo como resolve uma série de problemas que há muito desafiavam a psicologia: os chamados vieses cognitivos.

EXPERIMENTO
Antes de prosseguir, peço licença para descrever uma experiência curiosa. O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, resolveu espalhar 240 carteiras pelas ruas de Edimburgo. Elas não continham dinheiro, apenas documentos de identidade, cartões de fidelidade, bilhetes de rifa e fotografias pessoais.

A única variação eram as fotos. Algumas das carteiras não tinham foto nenhuma e outras traziam imagens que podiam ser de um casal de velhinhos, de uma família reunida, de um cachorrinho ou de um bebê.

A meta do experimento era descobrir se a fotografia afetaria a taxa de devolução das carteiras. Num mundo perfeitamente racional, a imagem seria irrelevante. Devolve-se o objeto perdido porque é a coisa certa a fazer. O trabalho de colocá-lo numa caixa de correio não é tão grande assim, e é o que gostaríamos que os outros fizessem, caso nós é que tivéssemos perdido os documentos.

É claro, porém, que as fotografias influíram nos resultados. Foram devolvidas apenas 15% das carteiras sem foto, pouco mais de 25% das que traziam a imagem dos velhinhos, 48% das da família, 53% das do filhotinho e 88% das do bebê.

O experimento ilustra como o cérebro opera. Embora tenhamos nos acostumado a pensar que tomamos decisões pesando prós e contras de cada uma das alternativas possíveis e extraindo com base nisso uma conclusão, o que os estudos psicológicos e neurocientíficos mostram é que, na maioria das ocasiões, a parte inconsciente de nossa mente chega de imediato a uma conclusão, por meio de sentimentos, palpites ou intuições. Neste instante, são os vieses cognitivos que estão operando.

Em seguida, a porção racional de nosso cérebro se põe a procurar e elaborar argumentos racionais (ou quase) para justificar essa conclusão. É muito mais uma conta de chegada do que um cálculo honesto.

SIGNIFICADO
O neurocientista norte-americano Michael Gazzaniga trabalha bem essa questão. Ele identifica no hemisfério esquerdo estruturas que buscam dar sentido ao mundo. O pesquisador as chama de “intérprete do hemisfério esquerdo”. É ele que busca desesperadamente um significado unificado a todas as nossas experiências, memórias e fragmentos de informação.

Ele nos faz deixar de ver as evidências que não nos interessam e atribui enorme peso a tudo o que apoia a nossa tese. Quando a história não fecha, pior para a verossimilhança: o intérprete não hesita em criar desculpas esfarrapadas e explicações que beiram o delírio.

Quem resume bem a situação é Robert Wright, em “Animal Moral” (Campus BB, 2005, esgotado): “O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude”.

Voltando ao trabalho de Mercier e Sperber, ele é bom porque consolida numa argumentação sólida explicações evolutivas para vários dos vieses, em especial o “viés de confirmação”, pelo qual fechamos os olhos para as evidências que não corroboram nossas crenças e expectativas e sobrevalorizamos aquelas que apoiam nossas teses.

Sob o modelo clássico, o viés de confirmação é uma falha de raciocínio mais ou menos inexplicável. Mas, se a razão evoluiu para nos fazer vencer em debates, então faz sentido que eu busque apenas provas em favor da minha teoria, e não contra ela.

As implicações são fortes. A mais óbvia é que a razão só funciona bem como fenômeno social. Se pensarmos sozinhos, vamos muito provavelmente chafurdar cada vez mais em nossas próprias intuições e preconceitos. Mas, se a utilizarmos no contexto de discussões mais ou menos estruturadas, aumentam bastante as chances de, como grupo, nos darmos bem.

Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo coletivo. O ruído se dissolve se reinterpretarmos o “sozinhas” como “com privacidade, mas em constante diálogo (de preferência virtual) com outros especialistas”.

PATOLOGIAS
É preciso, porém, muito cuidado. A linha que separa a sabedoria das multidões dos delírios coletivos é tudo menos nítida. Como mostra toda uma linha de pesquisas iniciada por Irving Janis, da Universidade Yale, nos anos 70, grupos incubam uma série de patologias do pensamento.

A primeira delas é a polarização. Junte um punhado de gente com opiniões semelhantes, deixe-os conversando por um tempo e o grupo sairá com convicções mais parecidas e mais radicais. Provavelmente é assim que nascem facções como o Tea Party, que reúne ultraconservadores radicais nos EUA, e até mesmo organizações terroristas. O advento da internet e das redes sociais pode estar facilitando a formação desses bandos.

A animosidade é outro elemento importante. Ponha um corintiano e um palmeirense para discutir futebol numa sala. Eles discordarão, mas provavelmente se tratarão com civilidade. Entretanto, se você colocar cem de cada lado, quase certamente produzirá xingamentos e até pontapés, quando não tragédias.

Há, por fim, a conformidade. Grupos tendem a suprimir o dissenso. Mais do que isso, procuram censurar dúvidas que um dos membros possa nutrir e ignorar evidências que contrariem o consenso que se forma. É esse o segredo do sucesso das religiões.

Nesse contexto, são especialmente divertidos os experimentos do psicólogo Solomon Asch. Ele submeteu 123 voluntários a um teste tão ridiculamente fácil que ninguém poderia errar: exibia para eles um cartão que trazia estampada uma linha com determinado comprimento. Em seguida, num segundo cartão, apareciam três linhas marcadas com letras de A a C, umas com medidas bem diferentes das outras. A missão era identificar a letra cuja linha era igual à do primeiro cartão. Em 35 tentativas, apenas um infeliz deu a resposta errada.

Mas (sempre há um “mas” em ciência), quando o pesquisador pôs comparsas seus para dar propositalmente respostas erradas antes do voluntário, a taxa de acertos despencava de 97% para 25%. Resultados parecidos foram reproduzidos no mundo inteiro.

As incursões de Asch pelos perigos da conformidade inspiraram outros experimentos famosos, como os de Stanley Milgram (no qual, pressionadas por um pesquisador, as cobaias não hesitam em dar choques que acreditam ser quase fatais num ator) e de Phil Zimbardo (ele simulou uma prisão num porão da Universidade Stanford, e os voluntários que faziam o papel de guardas se tornaram tão violentos que a encenação teve de ser interrompida).

DÚVIDA
O melhor remédio contra essas doenças do grupo é semear a dúvida, em especial se o questionamento surgir de um membro respeitado do próprio grupo. Como mostram Ori e Rom Brafman em “Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior” [Broadway Books, 224 págs., R$ 19], a existência de pessoas “do contra” (“dissenters”, em inglês) são nossa melhor esperança.

Embora possa produzir fricções de alto custo emocional para todas as partes envolvidas, a figura do “dissenter” costuma levar a maioria a reformular seus argumentos (ou projetos), de modo a responder a objeções percebidas como relevantes. Essa dinâmica fica particularmente clara em situações como a de tribunais colegiados, comissões legislativas e na própria ciência. É praticamente o inverso de um “brainstorming”, onde a regra era não criticar.

O “do contra” aqui, ainda que possa provocar brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho. O diálogo, vale frisar, nem precisa ser ao vivo. É preciso criar mecanismos que questionem os consensos.

Embora não exista receita para ter boas ideias, é possível melhorar seu desempenho se conseguir trabalhar num ambiente que lhe proporcione privacidade e o poupe de interrupções. Normalmente, é melhor estar sozinho, mas sem jamais se alijar dos debates travados em seu campo de atuação.

Quando precisar juntar colaboradores, mais vale reunir grupos heterogêneos, com um número razoável de pessoas “do contra”. Eles reduzem os riscos das patologias da conformidade. Em vez dos elogios, prefira as críticas. Apesar de desgastantes, são elas que vão ajudá-lo a melhorar suas ideias. E, mais importante, não acredite em fórmulas prontas.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Hélio Schwartsman


FANTASTICON LONDRINA: LITERATURA FANTÁSTICA EM FOCO

segunda-feira | 5 | março | 2012
Silvio Alexandre: organizador do maior evento de literatura fantástica do País. Foto Olga Leiria

Silvio Alexandre: organizador do maior evento de literatura fantástica do País. Foto Olga Leiria

A literatura fantástica desembarca hoje no ”Londrina Comic Con”, cuja programação tem movimentado os aficionados em histórias em quadrinhos desde o início da semana com lançamentos, exposições, workshops, palestras, mesas-redondas, feira de revistas e exibição de filmes.

O simpósio ”Fantasticon Londrina”, integrado ao Comic Con, debate o gênero no bate-papo ”Um Panorama da Literatura Fantástica no Brasil”, que acontece às 16h na Sala de Espetáculos do Sesc com participação de Silvio Alexandre e Francisco Medina.

O primeiro é o idealizador e organizador do ”Fantasticon”, maior evento nacional do gênero, realizado anualmente desde 2007 em São Paulo. Já Medina é autor do livro ”A Fada e o Bruxo”. O segmento, um sucesso nercadológico no País, abrange narrativas de ficção científica, fantasia e horror.

A seguir, leia trechos da entrevista feita com Silvio Alexandre, que fala sobre o sucesso dessa vertente literária no Brasil, as novas tendências e a criação de um núcleo londrinense da ”Fantasticon”.

Quais são as características da literatura fantástica? O que a diferencia dos outros gêneros literários?
De acordo com os estudos literários, trata-se de um gênero narrativo que lida com a realidade supra-humana, sobrenatural e inexplicável remontando a textos primordiais sobre magia e seres mitológicos, a formas primitivas do medo, a epopeias gregas. Remete também ao gótico do século 18 com seus cenários de labirintos, catapultas, catedrais, ambientes sombrios e noturnos, arcanjos e forças do bem e do mal.

O rótulo engloba sub-gêneros distintos, não?
É difícil definir e delimitar a literatura fantástica. Podemos dizer que ela abrange a ficção científica com suas viagens no espaço e no tempo; a fantasia com sua magia, elfos e dragões; e o horror com seus vampiros, zumbis e lobisomens. Mas hoje em dia existe uma tendência de misturar tudo incorporando outros gêneros de entretenimento como, por exemplo, o policial. O leque ficou mais amplo. Na verdade, rótulo é uma preocupação de mercado. Nossa preocupação é a boa literatura, o texto que faz o leitor viajar por aquela aventura e viver outros tempos e outros mundos.

Quem lê literatura fantástica no Brasil? É possível quantificar esse segmento do público?
É um público grande e cativo de leitores, não só do Brasil como do mundo todo. Basta ver a lista de livros mais vendidos dos últimos anos. Tivemos sucessivos fenômenos de vendas com “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “Crepúsculo” e agora “Guerra dos Tronos”, da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin. Aliás, os três primeiros volumes dessa série estão entre os 10 títulos mais vendidos no País.

O curioso é que uma numerosa fatia desse público leitor é formada por jovens, contrariando a idéia de que jovem não lê.
Sim. E são livros grossos lidos por garotos que não se intimidam diante de 500 ou 600 páginas.

Mas os autores nacionais do gênero estão encontrando público para seus livros?
Há alguns fenômenos também nesse segmento, como André Vianco, autor de cerca de 15 títulos sobre vampiros. Seus livros têm grande tiragem e vendem bem correndo por fora do mercado mainstream. Outro é Eduardo Spohr, autor de “Batalha do Apocalipse”, que começou publicando por pequenas editoras e atualmente lança pelo selo Verus, da Record. Há ainda uma série de editoras pequenas e médias investindo em autores nacionais do gênero, como a Tarja, a Draco e a Estronho. O nicho tem crescido acompanhando o aumento da produção. Além das obras individuais, têm sido publicadas antologias, que apesar de não serem homogêneas, revelam material de qualidade de novos escritores.

O “Fantasticon” que você organiza há cinco anos em São Paulo, tem repercutido essas novidades do mercado editorial?
Tivemos, por exemplo, 140 autores dando autógrafos na edição de 2011 para um público de mais de 1.200 pessoas durante três dias de programação. Veja lá no site (www.fantasticon.com.br). As pessoas reclamam que o espaço (uma biblioteca pública na Vila Mariana) já ficou pequeno para abrigar o evento. As próprias editoras já programam seus lançamentos no gênero pensando no “Fantasticon”.

Você pretende criar um núcleo do “Fantasticon” em Londrina?
Com a continuidade do “Londrina Comic Com”, a proposta é manter atividades ao longo do ano na cidade aglutinando pessoas para troca de idéias, informações e divulgação do gênero. Minha presença esta semana é a primeira etapa desse projeto.

>> FOLHA DE LONDRINA – por Nelson Sato


A HISTÓRIA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

domingo | 5 | fevereiro | 2012


Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o

“leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição deHamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice’s Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1862, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em 
http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm
. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de

Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado em
http://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/
 num e-bookproduzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(.) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery “Alice”, uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (.) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web em
http://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/
.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


NOVA ORDEM NO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

Nova agência, acordos internacionais e chegada da livraria Amazon aquecem o ‘negócio’

O boom dos livros no Brasil e no mundo - Claudio Duarte / Editoria de Arte

Em 2012, a nova realidade do mercado editorial brasileiro vai permitir que um autor seja representado por um agente baseado em Nova York, tenha seu original aprovado por um executivo morando em Portugal, assine um contrato com uma empresa da Espanha e seja imediatamente traduzido para uma editora na Inglaterra. Com a iminente chegada de um gigante da venda de livros virtuais, a nova realidade do mercado pode permitir, ainda, que a obra daquele autor seja lida com facilidade em qualquer canto do país, com um simples toque num botão de um tal Kindle.

Como tem sido repetido por aí em outras áreas, o Brasil também se tornou a “bola da vez” nos livros. A última etapa desse movimento foi o anúncio, na última semana, de que a jornalista Luciana Villas-Boas deixará o poderoso cargo de diretora editorial do Grupo Record, um dos maiores do país, para se dedicar a uma nova agência literária, chamada Villas-Boas & Moss. Hoje, o mercado brasileiro conta apenas com uma agência de relevância para livros estrangeiros e nacionais, a Agência Riff, cujos autores incluem Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Zuenir Ventura.

— Não fazia sentido o Brasil ainda estar desprovido de mais agências — afirma Lucia Riff, fundadora da Agência Riff. — O fato é que as editoras brasileiras estão mais sólidas, com expectativa de crescimento. A estabilidade da economia, o edital da Biblioteca Nacional de apoio a traduções e o surgimento dos e-books favorecem o mercado. É curioso que, enquanto vemos uma Europa em crise, aqui temos uma meta a ser alcançada para os livros. Temos um público a conquistar, diferentemente de outros países.

Luciana Villas-Boas, por sua vez, prefere não revelar ainda quem serão os autores de sua agência (leia entrevista na página 2), mas é praticamente certo que Edney Silvestre, Alberto Mussa, Francisco Azevedo e Rafael Cardoso, todos escritores publicados pela Record, estarão entre eles. Ela admite que o bom momento do setor pesou em sua decisão de montar a empresa, mas faz um alerta quanto a comentários nacionalistas que vem ouvindo sobre o investimento de grupos estrangeiros no Brasil:

— O impacto de uma internacionalização da indústria brasileira do livro é positivo para aumentar a profissionalização das relações. Nos EUA, a maior parte da indústria editorial já está completamente desnacionalizada. Há poucas editoras de peso que não foram compradas por grupos estrangeiros. Isso não afeta a literatura americana — diz.

Editoras preparam reestruturação

A nova agente literária se refere às aquisições recentes de editoras brasileiras por grupos estrangeiros. No ano passado, a editora portuguesa Leya, que tem operações no Brasil desde setembro de 2009, comprou 59% das ações da editora carioca Casa da Palavra e ainda passou a cuidar dos lançamentos das obras da Barba Negra, empresa especializada em quadrinhos.

Em dezembro, a principal notícia que surpreendeu o mercado, porém, foi a compra de 45% das ações da Companhia das Letras pelo grupo britânico Penguin, num negócio que pode ter ficado na casa dos R$ 50 milhões. A própria Record, onde Luciana vai se manter como diretora até 31 de março, já sofreu investidas de editoras estrangeiras.

— Eu coloco várias condições para começar uma conversa. Quero saber qual o grau de interesse em comprar a empresa e se será um processo que vai somar. Já houve interesse, mas nunca percebi solidez nas ofertas — afirma Sergio Machado, presidente do Grupo Record. — Acontece que, hoje, qualquer analista internacional que esteja pensando estrategicamente no segmento editorial precisa ter um plano-Brasil. Se eles não estiverem dispostos a entender os ideogramas chineses ou o alfabeto russo, o Brasil é o país que apresenta as melhores opções para o mercado. A questão é que o crescimento da renda da classe média brasileira e as melhorias da educação têm começado a dar resultado no aumento do consumo de livros.

Os sinais de mudança, porém, não estão apenas nas boas relações sendo firmadas entre o mercado editorial do Brasil com o exterior. Por aqui, chamam atenção o fortalecimento de editoras jovens, como a Novo Conceito e a Intrínseca, e a reestruturação de antigas. Assim como aconteceu com a Record, a Objetiva — que, aliás, teve 75% de suas ações compradas pelo grupo espanhol Prisa-Santillana em 2005 — perdeu sua diretora editorial, Isa Pessoa, no fim do ano passado. Ela está na Itália e voltará a atuar no mercado em fevereiro de forma ainda não anunciada. Ambas as companhias estão fazendo reformulações e devem dividir as antigas funções de direção editorial entre mais de um profissional.

Na Companhia das Letras, as novidades vão além. Agora com quatro publishers respondendo a Luiz Schwarcz, a empresa planeja novas frentes editoriais para este ano, sobretudo nos ramos dos livros digitais e nos didáticos, e está reestruturando seu departamento de marketing. Já a Ediouro contratou em setembro Sandra Espilotro, ex-Globo Livros, para dar foco na prospecção internacional dos negócios.

— Sou casado com uma historiadora, então acho que as mudanças não acontecem de uma hora para outra. Nos últimos anos, surgiram novos participantes, novas empresas, algumas estrangeiras, outras nacionais. É um sinal de força que vem se construindo — afirma Schwarcz. — Já faz tempo, por exemplo, que o mercado brasileiro é um importante comprador de direitos. Compramos royalties em valores bastante altos e estamos na prioridade dos agentes literários.

Todos esses investimentos ocorrem, ainda, em meio às especulações sobre o início da operação da livraria virtual Amazon, líder em vendas no mundo, no Brasil. No início deste ano, a empresa americana contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu gerente de vendas para o Kindle. A Amazon já vem negociando com as editoras brasileiras há meses, mas o entrave tem sido o preço: a companhia teria pedido descontos de mais de 60% na venda de livros para lançar o serviço, o que desagradou as casas nacionais. Porém, recentemente a Amazon cedeu a percentuais menores, com a intenção de lançar seus serviços em até seis meses.

Venda de e-books ainda é insignificante

A Amazon também estuda como fará para vender seu leitor de e-books, o Kindle, no país. Hoje, o aparelho só pode ser importado de seu site internacional, mas a empresa estuda até fabricá-lo no Brasil. Se os acordos se concretizarem, o Kindle pode representar o maior incentivo até o momento para a popularização dos e-books — apesar do investimento recente das editoras e de livrarias como a Cultura e a Saraiva, a venda de livros virtuais ainda é quase insignificante frente a de obras físicas.

— A Amazon vai chegar, e a tendência é que os tablets como o Kindle comecem a ficar acessíveis ao grande público. A partir daí o mercado de e-books vai existir — afirma Pascoal Soto, diretor editorial da Leya no Brasil. — Antes mesmo desse período de vacas gordas da economia, o setor dos livros no Brasil já era atraente para o mundo. As pessoas começaram a perceber que existe um país interessantíssimo além do carnaval e do futebol.
>> O GLOBO – da Redação


JULES VERNE: 20 MIL LÉGUAS DE AVENTURA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

A edição “definitiva” do livro de Verne
não é para jovens,
mas para velhos amantes da literatura

"20 mil léguas submarinas" (comentada e ilustrada), de Jules Verne

Antes de a ciência médica aparecer com os exames de DNA e os procedimentos de barriga de aluguel, alguns piadistas misóginos costumavam dizer que a identidade da mãe é sempre uma certeza; já a do pai jamais passa de mera conjectura. A ficção científica, como forma literária, se encaixa bem nesse antigo aforismo da cafajestagem: a mãe é obviamente Mary Shelley, autora do assombroso Frankenstein, mas e o pai? Seria o francês Jules Verne ou o britânico H.G. Wells?

Verne certamente começou antes, tendo publicado em 1863 o romance Cinco Semanas em Balão, narrativa em que um grupo de exploradores sobrevoa a África num balão que, para os padrões da época, era quase uma nave espacial. Esse livro veio a público três anos antes de Wellsnascer. Os defensores da primazia do britânico (culpado, meritíssimo) geralmente argumentam com base numa certa concepção de ficção científica: enquanto, em Wells, a ciência é um meio para entender e modificar o mundo, em Verne ela é apenas o pretexto da aventura.

Em Guerra dos Mundos ou na Máquina do Tempo, por exemplo, vemos a civilização ocidental soçobrar sob um ataque alienígena, num caso, ou debaixo de pressões econômicas, sociais e biológicas, no outro. Em Viagem ao Centro da Terra ou 20 Mil Léguas Submarinas, em comparação, o que temos é a aventura científica servindo como uma espécie de parêntese em meio ao fluxo do status quo, que prossegue inabalado. Nesse aspecto, os livros de Verne lembram muito as histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, nas quais nenhuma revelação, fosse a da existência de vida extraterrestre ou do ressurgimento da Atlântida, era capaz de abalar a rotina das donas-de-casa de vestido rodado e de seus maridos de terno marrom, chapéu e gomalina.

Se o título de Verne a pai da ficção científica é contestado, é difícil, no entanto, negar a ele a paternidade de outro gênero popular, o technothriller, onde tramas rocambolescas são desencadeadas por, e giram em torno de, avanços tecnológicos únicos, muitas vezes descritos com um nível obsessivo de detalhe. É difícil imaginar Tom Clancy ou mesmo Michael Crichton sem Verne. E Caçada ao Outubro Vermelho, o livro mais famoso de Clancy, provavelmente não existiria sem o antecedente de 20 Mil Léguas Submarinas.

É deste romance, talvez o mais famoso de Verne, que chega uma “edição definitiva” publicada pela Zahar. Suponho que a maioria dos leitores desta resenha já esteja familiarizada com o enredo geral da obra, mas aqui vai um breve resumo: nos anos finais da década de 1860, o biólogo francês Pierre Aronnax, acompanhado por seu fiel valete Conselho e por Ned Land, um intrépido arpoador de baleias canadense, se vê aprisionado a bordo de um magnífico submarino, o Náutilus, e à mercê de seu comandante, o anti-heroi quase-byroniano Capitão Nemo. Na condição de hóspedes involuntários de Nemo, os três percorrem 20.000 léguas sob as águas do mar, visitando as ruínas da Atlântida, os campos de cultivo de pérolas do Pacífico e a Antártida.

Quem conhece outras “edições definitivas” lançadas pela mesma casa editorial, como as de Sherlock Holmes, anotadas pelo estudioso Leslie S. Klinger, ou a Alice de Lewis Carroll, anotada por Martin Gardner, corre o risco de se desapontar: as notas do tradutor André Telles são úteis, interessantes e corretas, mas estão longe de oferecer a exuberância de estilo e erudição desses outros títulos, onde muitas das anotações se desdobram em verdadeiros ensaios históricos e literários.

O papel ensaístico fica por conta da mais que interessante introdução de Rodrigo Lacerda, que contextualiza, para o leitor desavisado, a gênese das Viagens Extraordinárias – série que inclui, além das 20 Mil Léguas, outros títulos famosos, como Viagem ao Centro da Terra, por exemplo. Lacerda lembra que as Viagens foram concebidas como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado Revista de Educação e Recreação.

Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, é uma que ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo, e segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira. Ela ajuda, também, a entender as principais limitações dos livros de Verne, a saber: o caráter episódico da ação; a natureza caricatural de boa parte dos personagens; e os fantásticosinfodumps.

Parte do jargão dos escritores de ficção científica, “infodump” – literalmente, “despejo de informação “ – é o momento em que a ação da narrativa para, a fim de que algum tipo de informação seja transmitida ao leitor. Histórias passadas no futuro têm infodumps sobre os costumes, a moral e a sociedade em que a trama se passa; histórias sobre armas nucleares têminfodumps sobre física atômica; e assim por diante.

Momentos de infodump tendem a ser especialmente desajeitados, e iseri-los no fluxo narrativo sem perder o leitor é um dos grandes desafios técnicos da escrita de ficção científica. No caso dasViagens Extraordinárias de Verne, no entanto, o infodump é a razão de ser do livro: na lógica daRevista de Educação e Recreação, as aventuras do Professor Aronnax e do Capitão Nemo são apenas um pretexto para que os petizes franceses de 1870 aprendam que os peixes podem ser cartilaginosos ou ósseos, que polvos, lulas e calamares são cefalópodes, quais são as principais variedades de vida comestível dos mares do mundo e como preparar uma refeição decente à base de fruta-pão.Entre outras coisas.

Em sua introdução, Lacerda diz que é virtualmente impossível encontrar uma edição brasileira de 20 Mil Léguas, anterior à “defintiva” da Zahar, da qual os infodumps, principalmente os extensos parágrafos de descrição taxonômica da vida marinha, não tenham sido extirpados. Ele elogia a arte de Verne na construção dessas passagens (como: “no ramo dos zoófitos e na classe dos alcionários, observa-se a ordem das gorgonáceas…”), notando que o autor consegue encadear as descrições forma quase poética, e muitas vezes obter belos efeitos literários (“focas de barriga branca e pelagem preta, conhecidas como “monges”, por terem efetivamente o aspecto de dominicanos com três metros de comprimento”.)

Mesmo reconhecendo a importância de uma edição integral do romance em português, no entanto, vejo-me forçado a confessar que os trechos mais explicitamente didáticos quase me fizeram desanimar da leitura.

O verdadeiro gênio de Verne, a meu ver, está na capacidade de criar imagens de pura imaginação, como quando o Náutilus é avistado, pela primeira vez, por Aronnax, que se espanta com a forma como o submarino ilumina a água do mar:

O halo de luz descrevia sob o mar um arco amplo e retesado, do qual o centro condensava-se num foco ardente, cujo insustentável brilho apagava-se por gradações sucessivas.

Quantas vezes essa mesma cena já não foi vista, em filmes e episódios de TV que tratam misteriosos objetos submarinos? E, no entanto, muito provavelmente surgiu, inédita, da pena do escritor francês. Essa é a verdadeira capacidade de antecipação de Jules Verne. Não “prever” o submarino, mas prever, literariamente, qual o efeito poético que a aparição súbita de um submarino teria sobre o espírito humano.

O poder evocativo do autor ressurge, bem adiante, na descrição de um naufrágio visitado pelo Náutilus, onde Aronnax vê, iluminado pela luz fria do submarino, o cadáver de uma mulher ainda preso ao caso submerso, que “erguera o filho acima da cabeça, pobre criaturinha, cujos braços abraçavam o pescoço da mãe”.

Quanto a personagens, de fato 20 Mil Léguas Submarinas só tem dois dignos do nome: o próprio submarino Náutilus e seu capitão, o enigmático Nemo.

Ficamos sabendo, na introdução de Lacerda, que Nemo deveria ser um revolucionário polonês, que perdera a família numa repressão provocada pelo governo russo. Induzido pelo editor a abandonar essa biografia de seu personagem – por questões comerciais e políticas – Verne simplesmente desiste de dar uma vida pregressa a seu enigmático capitão (uma biografia diversa da do rebelde polonês aparece em uma obra posterior, A Ilha Misteriosa).

Mesmo sem uma vida pregressa ou uma motivação clara, no entanto, Nemo – feroz, inteligente, irônico, assombrado, melancólico – é o ser humano mais bem acabado do livro e sua obra, o submarino Náutilus, é uma extensão de sua personalidade.

Dos demais, Aronnax é às vezes um professor arquetípico de Ciências, o mesmo tipo de que Monteiro Lobato viria a troçar, ainda que com afeto e simpatia, na figura do Visconde de Sabugosa; seu criado, Conselho, faz as vezes de aluno, a quem Aronnax faz perguntas cuja resposta já conhece, para edificação do leitor; e o arpoador Ned Land está ali apenas para dar a Conselho um parceiro para cenas cômicas.

Mencionei, também, o caráter episódico da obra. Se alguns desses episódios têm um vibrante poder literário – como o funeral submarino ou a visita à Atlântida – ou são aventuras que nada ficam a dever aos melhores textos do gênero – o combate com a lula gigante logo vem à mente – o fato é que a falta de um desenvolvimento mais notável dos personagens, ou do propósito da viagem do Náutilus, somada às aulas de taxonomia marinha, tornam a leitura, por vezes, penosa.

A edição definitiva de 20 Mil Léguas Submarinas não é, hoje, um livro para jovens (a menos que se trate de um jovem candidato a oceanógrafo); também é um livro que poderá desapontar os que têm, das antigas versões condensadas, uma forte memória afetiva vinda da infância. Como peça histórica, o livro chama atenção para os alertas que Verne põe na boca de Nemo e de Aronnax quanto ao risco de extinção de baleias e morsas por meio da caça predatória: isso na década de 60 do século retrasado, o que mostra que o problema mão é novo.

Mais do que uma peça de nostalgia ou curiosidade histórica, no entanto, trata-se de um livro para os amantes de literatura: o desafio de exploração da linguagem de Verne, a tentativa de extrair poesia do jargão da ciência, merece ser enfrentado. Nem que seja para que o leitor chegue, ofegante e sedento como os tripulantes do Náutilus, à fantástica luta com a lula gigante dos capítulos finais.
>> AMALGAMA – por Calos Orsi


FICÇÃO CIENTÍFICA TUPINIQUIM

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

Como escrever literatura de ficção científica no Brasil? Este problema não é muito diferente do problema que deve ter se colocado a muitos escritores dos séculos 17 e 18 que queriam apenas escrever literatura brasileira, não importa sobre o quê, mas que fosse escrita no Brasil e sobre o Brasil. Havia alguns milhares de intelectuais formados em Coimbra e sei lá onde mais, cheios de ambições literárias, querendo cantar em prosa e verso aquele mundo bárbaro e fascinante. Liam grego e latim, tinham estudado Camões, Virgílio, Homero. Queriam escrever sobre o Brasil, e ser lidos pelos brasileiros.

Esses escritores-em-projeto tinham como instrumento uma tradição literária basicamente portuguesa e européia, e eram forçados a usar essa tradição para refletir uma realidade, a do Brasil dessa época, que deve em muitos momentos ter lhes parecido intraduzível, irreproduzível através daquele instrumento. A começar pelo fato de que, naquela época, a língua falada nas ruas e nas casas do Brasil não era propriamente o português de Camões e do Padre Vieira, o português que os literatos aprendiam nas universidades e nos claustros. O Brasil desse tempo era um fervilhar de feitorias, engenhos, fazendas e arraiais cheios de gente seminua e analfabeta, falando em nheengatu, a famosa “Língua Geral” criada pelos jesuítas. Fazer literatura assumindo o ponto de vista daquela gente bárbara era uma missão impossível para aqueles literatos. O que fazer, então? Prolongavam a literatura portuguesa, usando suas formas, seus estilos, seus gêneros, seus temas, sua linguagem. Essa literatura, principalmente a poesia, era uma espécie de verniz verbal que recobria a realidade rude, e resolvia para os autores o problema da auto-expressão. De Gregório de Matos aos inconfidentes, foi este precário equilíbrio que ajudou a produzir uma poesia brasileira. (A prosa, no sentido que a vemos no romance, ainda engatinhava.)

Há alguma semelhança entre essa situação e a situação do escritor-fã de FC no Brasil, porque ele também tem nas mãos um instrumento literário forjado no estrangeiro, e que para refletir o mundo que o escritor tem à sua volta precisa ser reformatado. Canibalizado. Desmanchado e recomposto. O erro do escritor brasileiro de FC é achar que seu compromisso é o de expandir a FC que aprendeu a amar como leitor. Talvez seu dever seja o de explodir essa literatura, enxertá-la de contradições capazes de gerar atrito e fagulha em contato com formas de pensar, de falar e de agir que inexistiam no mundo de quem gerou o mundo das espaçonaves, das viagens no tempo, dos impérios galácticos, das catástrofes cósmicas, dos super heróis.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares


STEAMPUNK PAULISTA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

Jovens de São Paulo adotam estilo vitoriano
e idolatram tecnologia a vapor


Nos dias atuais, tem muita gente projetando que o eterno país do futuro Brasil emergirá como uma potência do século 21. Mas, alguns brasileiros preferem imaginar que já habitam um império, só que do passado. Eles reverenciam uma Londres do século 19, acham que os mares são ingleses e que o sol nunca se põe nos vastos territórios da rainha Vitória.

E nem só verão tropical atrapalha os nossos vitorianos. “Não avisaram vocês que o Carnaval já acabou?”, faz troça um pândego que passa pela curiosa órbita de donzelas de espartilho e rapagões de fraque se dirigindo para um piquenique no parque Trianon, em plena avenida Paulista.

“O pessoal vive perguntando onde é a peça de teatro. Ou pede para tirar fotos junto”, resigna-se Eduardo Castellini, que também atende pela alcunha de Lord Fire. Ele e sua pequena assembleia adentram no bosque atlântico decorado à maneira europeia, deixando para trás o escarcéu de uma batucada de estudantes na calçada.  Ao lado de uma fonte de água, começam o festim.

Essa tribo urbana possui uma vantagem magnífica sobre as outras: a consideração e a estima dos pais pelo modo respeitável de seus hábitos. “Eu era gótica. Minha mãe torcia o nariz e falava que eu parecia um urubu. Descobri o estilo vitoriano, passei a usar corsets, vestidos longos e gargantilhas. Agora minha mãe adora”, folga em dizer Jéssica Nascimento, que dispõe ainda de trajes de milady, aviadora, lolita e governanta.

No tocante à moral vitoriana, Jéssica confessa que é impossível seguir à risca suas manias e seus pudores, mas conserva-se um cavalheirismo dentro do grêmio. “Tratamos as mulheres como damas. A Inglaterra vitoriana era uma época de mais respeito”, opina Lord Fire.

Esse ressurgimento nos últimos anos surgiu no estrangeiro e foi nomeado de steampunk. Decerto esses sujeitos garbosos são mais steam (vapor) do que punk.

Uma explicação se faz necessária: o termo é derivado de cyberpunk, tipo de ficção científica que mostrava o homem dominado pelas máquinas – o livro fundador dessa onda, “Neuromancer” (1984), é do norte-americano William Gibson, autor que cunhou o termo “cyberspace”.

No lugar de pesadelos no mundo virtual e de vilões eletrônicos do cyberpunk, o steampunk é ambientado no começo da Revolução Industrial, quando a energia vinha das nada ecológicas caldeiras a vapor e os mecanismos eram movidos por engrenagens.

Esse subgênero literário privilegia os enredos da chamada  “história alternativa”, projetando que a tecnologia daquela época atingiria a criação de computadores de madeira e aviões movidos a vapor. Saindo do universo livresco, o movimento gerou uma subcultura que dispõe de músicas, vestimentas e códigos próprios. O filme preferido é “A Liga Extraordinária” (2003), e as bandas que o representam são Abney Park, Dresden Dolls e Clockwork Quartet.

Esse clube também tem um pé na onda RPG (Role-Playing Game), jogos em que os participantes incorporam personagens e criam coletivamente uma história. Por outro lado, alguns vitorianos participam de eventos de cosplay (mania de se vestir como personagens da TV ou das histórias em quadrinho).

Esses dois fatores mostram a teatralidade que os steampunks cultuam. Durante o piquenique, por exemplo, apareceu uma garota vestida de Alice, portando um coelho de pelúcia. “Perdão, acabei atrasando, mas a culpa é dele”, disse, apontando para o animalzinho e remetendo diretamente ao clássico de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”.

“Salve, salve. Junte-se ao grupo”, foi saudada a adolescente por Lord Fire, logo preocupado com a alimentação das moçoilas presentes: “Sugiro às amigas que provem este sanduíche de patê”.

No parque inaugurado em 1892, uma toalha quadriculada recebe um cesto de vime, de onde saem potes de geléia, biscoitos e outras amabilidades. Eles não lembraram do solene chá, e o líquido mais farto por lá é o refrigerante pátrio Diet Dolly. Até uma pizza e um leite de soja deram o ar da graça.

“Saí de casa tão apressada que esqueci de trazer minha xícara de porcelana com flores delicadas”, lastimou Alice, bebericando em copo plástico.

Quando o assunto passa à aclimatação dessa moda vitoriana futurista ao Brasil, não demoram a surgir figuras da história local para justificar a procedência desses fidalgos do século 21. “D. Pedro 2º foi um imperador steampunk”, define Luis Fernando de Oliveira (ou Jack Grave), lembrando que o monarca se encontrou com eminentes personalidades da época, como Nietzsche e Victor Hugo. “Ele tinha muito interesse em ciência e cultura. Mas outros steampunks foram o Barão de Mauá, por ser o primeiro industrial do Brasil, e Santos Dumont, como pai da aviação”, sentencia Lord Fire, cujo ofício é justamente o de técnico de aviação.

Outra matéria querida para eles é a decoração vintage dos dispositivos eletrônicos atuais. Ao contrário do que se possa pensar, as damas e os cavalheiros estão longe do ludismo, movimento do século 19 que preconizava a destruição das máquinas. Eles não renunciam às facilidades modernas, apenas cuidam de revesti-las como se tivessem saído de um antiquário. “Nós vivemos atualmente no mundo que os escritores do século 19 imaginaram. Estamos realizando o que eles fantasiaram”, pondera Lord Fire, que tem um laptop em forma de máquina de escrever. Já Jack Grave se orgulha de um netbook em forma de livro antigo.


Muito tempo atrás a vida era pura / O sexo era sujo e obsceno / Os ricos eram tão mesquinhos / As casas de campo para os lordes / Campos de croquet e gramados / Vitória era minha rainha

Tradução da letra de “Victoria“, canção do grupo de rock inglês dos anos 1960 The Kinks, regravada pelo The Fall na década de 80.

Relógios digitais de bolso e celulares com manivela mostram essa adoção mais decorativa que funcional. Vale também criar a sensação de anacronismo cobrindo com madeira, couro e bronze iPhones e telas de LDC.

Os seguidores nacionais, porém, tem contato tão somente pela internet com objetos steampunks mais notáveis,  como uma engenhoca que faz um braço biônico se mover alimentado pela energia gerada por uma caldeira instalada nas costas de seu usuário estado-unidense.

Os vitorianos adoram se aprumar. As mulheres ostentam camafeus sobre  os vestidos com cauda e os corsets que afinam a cintura, apertando as carnes e a respiração. Já os lordes brasileiros se deleitam com acessórios, como cartola, monóculos, bengala, colete e cachimbo. O brasão bordado é um opcional.

“Para a gente, é uma imersão. As roupas ajudam a entender como viviam as pessoas da época. Nós escrevemos contos steampunks e temos que saber, por exemplo, como é uma perseguição com fraque”, justifica Lord fire.

Os steampunk preferem Julio Verne a Machado de Assis, e Conan Doyle a José de Alencar. Escrevem ficção até com um certo linguajar desse período, mas esse subgênero pop não combina com o estilo descritivo e por vezes solene de dois séculos atrás. “A gente pode considerar O Xangô de Baker Street, do Jô Soares, como o primeiro livro steampunk do Brasil”, decreta Lord Fire.

Além do piquenique, o programa predileto do grupo é andar de trem Maria Fumaça, visitar lojas de antiguidade e comprar em ferro velho e brechó. “Vejo um brechó e já entro. Adoro comprar espartilhos. Quando visto um, aí sim, me sinto no século 19”, confessa Jéssica. Já Jack Grave prefere ir à rua Santa Ifigênia, centro paulistano de eletrônica, onde adquire toca-fitas quebrados para logo desmontar e aproveitar as engrenagens.

De forma bem vitoriana, os steampunks seguem uma hierarquia. Há um conselho nacional, ligados a lojas (isso mesmo, termo inspirado nas unidades maçônicas, tão típicas daquele século 19) em cada Estado – Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul são as “lojas” mais ativas fora de São Paulo.
>> UOL Notícias – por Rodrigo Bertolotto

Tecnologia a todo vapor

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    Teclado de computador retrô ganha botões de máquina de escrever e borda dourada
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    O celular steampunk tem ponteiro para indicar volume e cartões perfurados para a discagem
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    O fascínio pelas engrenagens fica claro neste pen drive coberto ainda por madeira e parafusos

O MERCADO DE QUADRINHOS NO BRASIL

sexta-feira | 20 | janeiro | 2012

Gabriel Bá comenta lançamentos de 2012 e a influência da internet nos quadrinhos

Para os aficionados por quadrinhos, o ano de 2011 foi um prato cheio. Com vários lançamentos no mercado editorial brasileiro, também foi um período de prêmios internacionais — os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon, com  a obra “Daytripper”, faturaram o prêmio Eisner Award, um dos mais importantes do mundo dos quadrinhos.

Em entrevista exclusiva, o quadrinista Gabriel Bá fala sobre o mercado de quadrinhos no Brasil e conta sobre as facilidades que a internet trouxe para quadrinistas que, segundo ele, trabalham cada vez mais de forma independente.

Gabriel Bá: “Talvez a internet seja o melhor veículo para propagação dos quadrinhos.” Foto: J.R. Duran

O ano de 2011 parece ter sido especial para os quadrinhos brasileiros — vocês, por exemplo, ganharam os prêmios Eisner Award e Harvey Award. O que os aficionados por quadrinhos podem esperar de 2012? E com relação ao trabalho de vocês?
Gabriel Bá: Creio que há dois projetos legais que devem ser lançados neste ano. O primeiro deles é oGraphic MSP, do Maurício de Sousa, que traz uma releitura das histórias da Turma da Mônica feitas por quadrinistas como Gustavo Duarte, Danilo Beyruth, Shiko, Vitor e Lu Cafaggi. O outro lançamento vem da parceria entre escritores e quadrinistas. Trata-se de uma série de graphic novels idealizada pelo produtor de cinema Rodrigo Teixeira, em parceria com o escritor Joca Terron. O primeiro volume, “Cachalote”, já foi lançado em 2010. Dos nossos trabalhos, devemos lançar “Casanova” em formato gibi. Também temos outra publicação que não é de quadrinhos — chama-se “Cidades Ilustradas”. Trata-se de um projeto que revela cidades brasileiras pelo traço de vários artistas. Eles levam os autores a cidades que eles não conhecem e, em seguida, os autores fazem um livro com suas impressões. A cidade que estamos trabalhando é São Luís, no Maranhão.

As mudanças que ocorrem no mundo real — linguagem da internet, comunicação rápida e instantânea — afetaram a forma de fazer quadrinhos? 
Na forma de se produzir quadrinhos, não houve mudanças. Talvez a internet tenha ajudado na divulgação desse trabalho, sob diferentes aspectos. Com as tiras, funciona muito bem, que são curtas e rápidas. Só não é melhor que o jornal, porque de certa forma ele já está estabelecido, todo mundo sabe que nesse tipo de publicação já há aquele espaço reservado para tirinhas que todos conhecem. Mas a internet permite que todos tenham acesso aos trabalhos e até mesmo aos autores. Aqueles que gostam de quadrinhos podem seguir, comentar e obter respostas dos quadrinistas, além de poder ver truques e dicas sobre como produzir quadrinhos.

Essa interatividade com os leitores já influenciou algum trabalho de vocês?
Sempre pensamos sobre aquilo que os leitores falam e levamos em consideração as respostas e comentários. Mas como nós trabalhamos sempre juntos, temos que entrar em um acordo. De toda forma, não fazemos disso uma novela, que só quer ganhar mais ibope. Nossos projetos são sempre muito bem pensados, trabalhamos sempre em dupla e discutimos muito sobre eles. Levamos em média dois anos para realizá-los e, quando terminamos, é difícil ter algo que não tenha sido pensado. E nos envolvemos apenas em projetos nos quais acreditamos.

A partir do Daytripper, vocês ganharam notoriedade como contadores de histórias, e não só como desenhistas. Como foi isso?
Com o “Daytripper”, ganhamos destaque maior como contadores de histórias. Antes éramos só desenhistas. Nosso trabalho não é o mais comercial, e com o “Daytripper” mostramos que temos um estilo, uma história para contar. Acredito que o público e o mercado vão nos ver com outros olhos. De toda a forma, continuamos equilibrando esses dois tipos de trabalho.

Em 2011, ganhou corpo um projeto de lei que obriga editoras de quadrinhos a reservar no mínimo 20% para trabalhos nacionais. O que você acha dessa proposta?
Não sei se vai ajudar muito. Essa proposta fala em utilizar mais quadrinhos na escola e ensinar as técnicas para fazê-los. Acho que isso é interessante, pois ajuda a criar público, que também é muito importante. Esse projeto de lei que obriga a ter uma reserva de 20% de títulos nacionais talvez funcione para editoras grandes. As pequenas talvez não tenham como publicar mais títulos. Há também as editoras de mangás, que trabalham com obras estrangeiras e não conseguiriam trabalhar dessa maneira. Não acho que vá beneficiar os autores, uma vez que eles não irão receber mais dinheiro por isso. Não dá para ficar esperando as coisas caírem do céu. E, pelo que tenho visto, a maioria dos autores na área de quadrinhos também não. Muitos estão procurando mostrar seu trabalho de forma independente. Acredito que o mais importante é criar e formar um público de quadrinhos, utilizando a escola, por exemplo.
>> CONTAFIO – da Redação


APOCALIPZE: WEBSÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA COMEÇA A SER GRAVADA EM BELO HORIZONTE

quinta-feira | 19 | janeiro | 2012

Depois de se aventurar em histórias sobre a Segunda Guerra Mundial com o filme para a internet Heróis da FEB, o cineasta mineiro Guto Aeraphe aposta agora em uma websérie de ficção científica recheda de efeitos especiais. O seriado, dividido em cinco capítulos de oito minutos, mostra os acontecimentos de um desenvolvido Brasil futurista que foi alvo de um ataque terrorista repentino, deixando poucos sobreviventes e diversas dúvidas.

Na trama, praticamente toda a população foi morta vítima de uma contaminação mortal e alguns dizem que os culpados foram os árabes, enquanto outros dizem que foram os americanos. Ninguém sabe ao certo, mas há rumores que vários agentes paramilitares e grupos do tráfico estão atuando em nome do Clube Bilderberg – uma organização conspiratória formada por representantes dos países desenvolvidos, instituições religiosas e grandes empresas.

Em meio ao caos, um professor de Biomedicina sobrevivente se junta a outros que tentam entender o que de fato aconteceu, enquanto tentam fugir de forças que lutam pelo controle das riquezas naturais nacionais – como as jazidas de petróleo do pré-sal. “A websérie vai mexer com o imaginário do público. Vai convidá-lo para uma história e ele terá que ser conduzido por ela. Se ele seguir esse trato, vai ser surpreendido” conta Aeraphe.

“Estamos vivendo a ‘era das telinhas’. As imagens se movimentam em qualquer lugar. No tempo de espera de um dentista, a pessoa consegue assistir a um capítulo de uma websérie com tranquilidade” completa o cineasta independente que vê na internet como uma nova alternativa para se fazer cinema. Audacioso, o projeto de ApocalipZe conta ainda com um jogo  virtual de tiro para computador e uma história em quadrinhos para download.
>> REVISTA RAGGA – por Guilherme Avila

 Veja as fotos do making of da websérie ApocalipZe

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“WEIRD TALES”: O PULP QUE APRESENTOU A LITERATURA FANTÁSTICA AO MUNDO

terça-feira | 17 | janeiro | 2012

Na primeira década do século XX, o que ocupava a cabeça e esvaziava os bolsos de jovens e muitos adultos eram magazines mensais com contos de ficção científica e fantasia heróica. Trazendo quase sempre em suas capas personagens exóticos ou garotas voluptuosas correndo perigo, estas “revistas” eram feitas da parte mais barata do papel, conhecido como “polpa” e deram origem ao termo “Pulp”.

A revistas “pulp” não tinham pretensão literária e se destinavam à entretenimento despretensioso, rápido e barato. Mas mesmo assim grandes escritores iniciaram suas carreiras nelas, gente do calibre de Isaac AsimovDashiell Hammett e Raymond Chandler. E as histórias em quadrinhos começaram sua trajetória como uma “evolução” dos pulps, já queGil Kane (Lanterna Verde, Esquadrão Atari), Mort Weisinger (co-criador do Arqueiro Verde e do Aquaman) e Julius Schwartz (lendário editor da DC Comics) também escreveram nestes revistas também.

E dentre as centenas de revistas que existiam na época, uma ostentava o slogan “Uma Revista Sem Similar”. Seu nome era Weird Tales.

Foi criada em 1923 por J. C. Henneberger, um ex-jornalista que possuía um peculiar gosto por histórias macabras fossem reais ou fictícias.  O segundo editor da revista foi Fransworth Wight, que tentando equilibrar a Weird Tales entre as exigências do mercado e seu gosto por literatura fantástica, deu a publicação uma identidade única.

Já publicava contos de H. P. Lovercraft (preciso mesmo explicar quem é esse cara?), quando, em julho 1925, teve em suas páginas o conto “Lança e Presa”, de Robert E. Howard. Daí em diante o Howard foi ficando cada vez mais frequente, ganhando sua primeira capa em abril de 1926 com o conto “Sombras Vermelhas”, onde apresentou o personagem Salomão Kane, um puritano do XVI que vaga pelo mundo caçando, monstros, demônios e feiticeiros, armado somente com uma espada e uma pistola. Outros personagens de Howard que fizeram sucesso foram Kull e Bran Mak Morn.

E em dezembro de 1932 temos a estréia de Conan da Ciméria com o conto “A Fênix na Espada”. Mesmo com Howard sendo um dos autores favoritos dos leitores, estréia do bárbaro não ocupou a capa da revista. Aqui temos Conan já em idade avançada como rei da Aquilônia tentando sobreviver à uma tentativa de assassinato.

O personagem foi bem recebido e não tardou para ser um dos pilares da revista, estrelando diversas capas. A Weird Tales não limitou-se a publicar somente contos, mas diversos poemas de Howard envolvendo seus personagens tiveram espaço nas páginas da revista.

Quando Wight morreu, a revista mudou sua linha editorial. Em meio a concorrência com livros de bolso, histórias em quadrinhos e novelas de rádio, a editora passou por dificuldades financeiras e a Weird Tales foi cancelada em 1954. A revista ressuscitou em 1970 com quatro edições e foi cancelada novamente. Uma nova surgiu em 1981 e dura até hoje, como revista bimestral. Clique aqui e conheça o site oficial da revista!

>> CONTRAVERSÃO – por Aléssio Esteves


PROGRAMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA NO MARANHÃO FECHOU O COMÉRCIO E LEVOU EXÉRCITO ÀS RUAS

sexta-feira | 13 | janeiro | 2012

Livro e CD "Outubro de 71: Memórias Fantásticas da Guerra dos Mundos".

Uma adaptação radiofônica da obra de ficção científica “A guerra dos mundos” (publicada em 1898 por H. G. Wells) pôs o Exército em alerta, fechou boa parte do comércio e provocou pânico generalizado entre a população.

Não se trata da célebre encenação levada ao ar em 1938 por Orson Welles nos EUA, mas de uma versão que, em 1971, comemorou o aniversário da rádio Difusora, de São Luís (Maranhão), transformando a rotina da cidade – como ocorrera 33 anos antes durante a emissão americana.

“O programa foi interpretado pelos ouvintes não como uma invasão alienígena, conforme seu roteiro, mas como se fosse o próprio fim do mundo”, explica o professor Francisco Gonçalves da Conceição, organizador do livro “Outubro de 71 – Memórias fantásticas da guerra dos mundos”, que reconstitui a histórica transmissão.

Fruto de três anos de trabalho de uma turma de graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão, a obra transformou o então pacato sábado 30 de outubro de 1971 naquele que, para muitos de seus ouvintes, seria seu último dia sobre a Terra.

Reação nas ruas
Os relatos sobre as consequências da transmissão são conflitantes, mas sabe-se com certeza que o comércio do centro histórico de São Luís fechou as portas – as pessoas queriam ir o quanto antes para suas casas a fim de “morrer” ao lado dos familiares. Naquele dia, os motoristas de táxi tiveram trabalho de sobra.

“Não tínhamos o que fazer, era uma brincadeira. Mas não sabíamos o alcance e o poder do veículo que tínhamos nas mãos”, afirma Manoel José Pereira dos Santos, o Pereirinha, 61 anos, responsável pelos efeitos sonoros do programa – fundamentais para ampliar a sensação de pavor dos ouvintes.

Na memória coletiva da cidade há lembranças de pessoas acendendo velas, pregadores reunindo grupos para a leitura do Evangelho, e personagens proeminentes (como políticos) confessando traições amorosas e pedindo perdão de joelhos às mulheres. Enfim, um pandemônio.

Além disso, uma unidade do Corpo de Bombeiros chegou a ser acionada durante o programa, e um oficial do Exército que participava de um churrasco em Pinheiro, a cerca de 90 km de São Luís, fretou um voo (depois pago pela rádio Difusora) para levá-lo à capital, onde constatou que o relato da Difusora não correspondia à realidade.

Por causa disso, e depois de encerrada a transmissão, uma patrulha do Exército invadiu a rádio e exigiu sua lacração – a emissora ficou fechada por três dias.

As consequências para os radialistas (ninguém foi preso ou processado) só não foram maiores porque eles conseguiram enxertar, em dois momentos da gravação que foi analisada à época pela Polícia Federal, o aviso de que o programa era uma obra de ficção, que não foram ao ar na emissão original.

“Quando a ficha caiu, eu acho que as pessoas ficaram com muita vergonha de terem sido enganadas. Isso ajudou também a esfriar o assunto, deixar que ele praticamente ficasse esquecido por quatro décadas”, analisa Pereirinha.

Da ideia à realização
Sérgio Britto, pseudônimo de José de Jesus Brito, hoje aos 72 anos, conta que teve a ideia do programa ao ler, numa edição da revista masculina “Ele&Ela” (publicada na década de 70 pela Bloch Editores), a sinopse da radionovela com a qual Orson Welles eletrizou – e apavorou – audiências em 1938 pela rádio CBS.

O primeiro passo foi a adaptação do roteiro para o Maranhão – na versão de Welles, os fatos se passam apenas nos Estados Unidos. “Acrescentei uma série de coisas que não constam nem no livro de Wells nem no programa de Welles”, conta Britto.

Como a visita de um cientista ao Maranhão e o pouso de um “estranho objeto” no Campo de Perizes, até hoje a única saída terrestre da ilha de São Luís. “Eu tinha medo de uma fuga em massa acontecer, então coloquei uma nave espacial ali”, relembra.

Apesar de o roteiro ter sido aprovado pelo departamento de censura da Polícia Federal, Brito diz que estava debruçado sobre ele horas depois da liberação da PF. “Aprovaram um negócio qualquer lá, sem ter muita noção do que se tratava”, conta. Dissociado dos efeitos sonoros, o programa também perdia muito de seu impacto.

Na época, a rádio Difusora já possuía uma emissora de TV, mas nos primórdios ela ficava no ar apenas algumas horas por dia (sempre entre a tarde e à noite, normalmente a partir das 14h). “É por isso que decidimos que a Guerra dos Mundos precisava ir ao ar pela manhã de qualquer jeito”, diz Brito.

A Guerra dos Mundos maranhense foi ao ar sem nenhum tipo de ensaio: os participantes (entre eles o locutor Rayol Filho, que comandava o “São Luís Hit Parade”, programa musical bastante popular na época) foram recebendo os textos praticamente no momento em que deveriam ser lidos.

Ao mesmo tempo, efeitos sonoros que simulavam interferências e transmissões em ondas curtas – a Difusora chegou a “entrar em cadeia” coma fictícia rádio Repórter, do Rio, que dava informações mais atualizadas dos estranhos fenômenos espaciais que antecederam a invasão marciana relatada na ficção – garantiam o ar dramático à representação.

Diferentemente da versão de Welles, o programa maranhense foi ar transmitido em flashes durante dois programas musicais de bastante sucesso no rádio de São Luís, entre 7h30 e 12h30.

A gravação agora recuperada, porém, começa uma hora e meia depois porque o sonoplasta se atrasou naquele dia (toda a programação das emissoras de rádio e TV do país tinha de ser gravada obrigatoriamente por determinação da Censura Federal – eram os tempos da ditadura militar).

“O que fica desse episódio, antes de mais nada, é a saudade dos meus 21 anos”, brinca Pereirinha. Assim como ele, outros personagens da histórica transmissão acham que um novo mal-entendido por causa da obra de H. G. Wells não seria possível na era da internet. “Hoje, daqui da minha casa, aperto uma tecla no meu computador e consigo checar uma informação. Em 1971, isso era praticamente impossível”, diz Brito.
>> VNEWS – da redação

Primeira parte do programa A Guerra dos Mundos que foi ao ar na Rádio Difusora em 30 de outubro de 1971. São Luís – Maranhão.

Segunda parte do programa A Guerra dos Mundos que foi ao ar na Rádio Difusora em 30 de outubro de 1971. São Luís – Maranhão.

Confira abaixo entrevista com Francisco Gonçalves sobre os detalhes da pesquisa que resultou no livro:

O grupo é formado po Francisco Gonçalves, Aline Cristina Ribeiro, Andréia Lima, Elen Mateus, Kamila Mesquita, Karla Miranda, Mariela Carvalho, Romulo Gomes, Sarita Bastos.

Quando iniciou a pesquisa e quantas pessoas participaram do levantamento?
Francisco Gonçalves – A pesquisa tinha como objetivo reunir depoimento dos produtores do programa, reconstituir o roteiro e localizar possíveis registros sonoros. Entre 2005 e 2006, a equipe de pesquisa entrevistou José de Jesus Brito (Sérgio Brito), Manoel José Pereira dos santos (Pereirinha), José de Ribamar Elvas Ribeiro (Parafuso), José Faustinho dos Santos Alves (J. Alves) e José Marinho Raiol Filho (Rayol Filho). Na época, embora tivéssemos tentando, não conseguimos localizar Fernando Melo e Fernando Costa. José Branco não aceitou conceder entrevista sobre o assunto. Além disso, reconstituímos o roteiro a partir de uma gravação do programa cedida por Parafuso. Dessas atividades de pesquisa, participaram, além de mim, Aline Cristina Ribeiro Alves, Andréia de Lima Silva, Elen Barbosa Mateus, Kamila de Mesquita Campos, Karla Maria Silva de Miranda, Mariela Costa Carvalho, Romulo Fernando Lemos Gomes e Sarita Bastos Costa, todos (na época) alunos do Curso de Comunicação Social da UFMA.

Como foi organizado o trabalho? Em quais áreas a pesquisa incidiu?
Focamos em duas áreas: a versão dos produtores e interpretes e a reconstituição do roteiro do programa, já que tratava-se de organizar fontes de pesquisa sobre o programa veiculado pela Rádio Difusora em 1971 e, deste momento, inserir esse acontecimento nos estudos de comunicação no Brasil e no exterior. Embora a Guerra dos Mundos seja um tema recorrente nos estudos de rádio e jornalismo, apenas recentemente o episódio de São Luís começou a ser objeto de discussão nos fóruns científicos do país. Por exemplo, apenas em 2003 foi apresentado um artigo científico sobre o tema, no caso, trabalho do Prof. Ed Wilson no 1º Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, intitulado A Guerra dos Mundos em São Luís do Maranhão. Esse foi o primeiro artigo científico apresentado sobre o tema em um fórum de discussão da área de comunicação.

Entre os profissionais que participaram da produção, quais foram entrevistados e que funções cada um exerceu na montagem?
Todos os entrevistados participaram da produção do programa e/ou interpretação dos personagens, embora existam divergências sobre o papel desempenhado por cada um e o personagem que cada um chegou a interpretar. Sérgio Brito, Pereirinha e Parafuso, junto com Fernando Melo, participaram da produção do programa. Especificamente, Sérgio Brito, no roteiro; Pereirinha, nos efeitos especiais, na direção técnica; e Parafuso, na sonoplastia. Sérgio Brito interpretou o locutor da Rádio Repórter do Rio Janeiro (uma emissora fictícia), Pereirinha o controlador de vôo. Sobre o piloto de avião seguido por objeto desconhecido, o relato de Pereirinha diverge do de Sérgio Brito. Sérgio Brito afirma que interpretou esse personagem e Pereirinha atribui a interpretação a Fernando Melo. Sobre os demais entrevistados, J. Alves e Rayol Filho interpretaram a si mesmos. Outros personagens aparecem na história, como dono da Fazenda Santa Marta, interpretado de acordo com Pereirinha por Fernando Melo; o professor Leonardo Galvão e o cientista Mário Corteline, ambos interpretados por Reynaldo Faray. Não obstante as divergências sobre o papel de cada um, o programa A Guerra dos Mundos, como todo produto de mídia, é uma obra coletiva, resultado do esforço de todos.

Quais os cenários de São Luís no início da década de 1970?
Na passagem dos anos 60 para os anos 70, São Luís estava passando por mudanças políticas, urbanísticas, demográficas e midiáticas. De 1960 a 1970, de acordo com o IBGE, a cidade cresceu em mais de cem mil habitantes, passando para 265.486 moradores. Novas vias de acesso foram abertas, com as pontes sobre o Rio Anil, no Caratatiua e São Francisco. No começo da década de 70, a população maranhense ainda vivia o impacto da derrota de Renato Archer (PTB-PSD e vitória de José Sarney (PSP-UDN-PR). No campo das mídias, a televisão ganhava envergadura, por conta das mudanças técnicas, a expansão do consumo de produtos televisuais e aumento do número de telespectadores. Naquela década, a televisão deslocaria, na capital, o lugar social, econômico e político do rádio. Foi exatamente nos anos 70 que o Brasil veio a se constituir em uma sociedade midiática, sobretudo por conta do papel que a televisão viria a ocupar no sistema de comunicação, a partir da organização das redes nacionais. Mas, São Luís também era uma cidade povoada de assombrações, como a Carruagem de Ana Jansen, a serpente do Ribeirão e o Touro Encantado da Ilha dos Lençóis.

Em que aspectos o programa de São Luís mais se aproxima do original de Orson Welles?
De acordo com Sérgio Brito, o roteiro do programa da Difusora levou em consideração do livro de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos, e uma sinopse do programa de Orson Welles, veiculado em 1938 pela CBS nos EUA, publicado em uma edição da revista Ele&Ela. Os dois roteiros possuem estrutura narrativa semelhante. Ambos utilizam os recursos do radiojornalismo para contar a famosa história de H.G. Wells. Mais também existem algumas diferenças importantes. Nos Estados Unidos, o programa foi veiculado em uma noite de domingo, em um horário destinado ao radioteatro. Em São Luís, o programa foi veiculado em uma manhã de sábado, ao longo da programação normal da emissora, sem nenhum aviso prévio que se tratava de obra de ficção. Nos Estados Unidos o programa foi interpretado por atores; em São Luís por respeitados e reconhecidos profissionais de rádio e jornalismo. Nos Estados Unidos o foco da invasão foi o território americano; em São Luís, a invasão se espalha pelo mundo e chega ao campo de Perizes, sendo este um momento chave na dramática narrativa da Difusora, para o qual foram fundamentais a música e os efeitos de som.

O que os produtores do programa pretendiam com a veiculação?
Sobre os objetivos dos produtores também existem visões diferentes. Para Sérgio Brito, por exemplo, o objetivo era demonstrar o valor do rádio em um momento que o panorama de comunicação passava por mudanças com o crescimento da audiência de televisão. Para Pereirinha, era uma brincadeira, feita para comemorar o aniversário da emissora. Eu diria que, de certo modo, os dois têm razão. Foi uma brincadeira no aniversário da emissora, mas uma brincadeira que se prestava a expor a importância do rádio, em um momento em que a televisão, institucionalmente falando, provocava uma reestruturação do papel social, econômico, político e cultural do rádio.

No começo da década de 70 como estavam posicionados o rádio e a televisão no cenário midiático de São Luís?
No começo da década de 70, cinco emissoras de rádio disputavam a atenção dos ouvintes na capital do Estado, no caso, Difusora, Timbira, Gurupi (hoje, Rádio São Luís), Educadora e Ribamar (hoje, Rádio Capital). Com a chegada do vídeo-tape em 1966, a televisão superou a sua primeira fase, caracterizada por uma produção local, feita, sobretudo, por profissionais oriundos do rádio e teatro. Essa produção local foi gradativamente substituída por uma programação do sul país. Como observa Aldo Leite, em seu livro sobre o teatro, a criatividade e a improvisação cederam lugar à tecnologia.

Quais os aspectos relevantes na estética do programa que levaram à construção de um efeito de realidade?
Eu diria que o realismo foi fundamental para conferir valor de verdade à narrativa – o programa foi apresentado e interpretado por cronistas, locutores e repórteres respeitados e reconhecidos pelo público; a história de H. G. Wells foi recontextualizada, ou seja, São Luís passou a ser um dos palcos da fictícia invasão; o uso da vinheta de notícias extraordinárias da Rádio Difusora marcou o ritmo do programa; e a trilha sonora, que articulou as músicas mais pedidas da semana, com música clássica (utilizada quando morria alguém importante) e músicas da trilha sonora da novela O homem que deve morrer e do filme 2001: uma odisséia no espaço.

Houve pânico em São Luís durante a veiculação do programa?
Os depoimentos dos produtores e interpretes do programa revelam um aspecto bastante interessante do programa: as pessoas acreditaram mesmo que a Terra estava sendo invadida por naves extraterrestres e que os marcianos estavam chegando em São Luís. Muitos ouvintes interpretaram essa invasão como o próprio anúncio do fim do mundo. Tendo chegado o fim do mundo, a preocupação das pessoas era ir para casa morrer com os seus. Nos últimos dias, temos ouvido muitos relatos que confirmam essa versão. Ao divulgar o lançamento do livro, várias pessoas nos procuram com histórias semelhantes àquelas narradas por Sérgio Brito, Pereirinha, Parafuso, J. Alves e Rayol Filho.

Como foi a repressão à Rádio Difusora após a exibição do programa?
Tropa do exército invadiu e ocupou as dependências da emissora. E em um ato completamente arbitrário, o comandante determinou o fechamento da emissora e da televisão, que deveria entrar no ar a partir das 17h. Nos anos seguintes, a Difusora responderia processo no DENTEL. A situação só não foi pior porque Sérgio Brito, Pereirinha e Parafuso introduziram em dois espaços da gravação uma pequena nota dizendo que se tratava de programa de ficção.

Qual a descoberta mais relevante da pesquisa?
O aspecto mais relevante da pesquisa é que, pela primeira vez, se conseguiu reunir importantes fontes de pesquisa sobre esse programa, agora publicadas em livro. Ou seja, reunimos os depoimentos dos produtores e interpretes do programa, reconstituímos o roteiro e localizamos cópia da gravação com Parafuso e Pereirinha. O livro Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos apresenta esses depoimentos e o roteiro e o áudio do programa. Cada participante do programa apresenta a sua própria versão daquele acontecimento. As convergências e divergências nas narrativas fazem parte da própria dinâmica metodológica adotada na pesquisa, no caso a história oral. Nós estamos convencidos que ao lançar o livro outras histórias e outras lembranças virão a público, do mesmo modo, que as diferentes versões provocarão bons debates sobre o papel dos produtores e interpretes e sobre o próprio programa. Deste modo, teremos condições de ampliar as informações sobre esse importante evento.
>> BEQUIMÃO AGORA


HEROÍNAS DA LITERATURA FANTÁSTICA

quarta-feira | 11 | janeiro | 2012

As heroínas são personagens que, envolvidas em confusões e mesmo que precisem de uma ajudinha de amigos ou mesmo de um herói, conseguem agir sozinhas. Porém a característica mais marcante de uma heroína, que a difere das mocinhas de histórias, é que elas não são conformistas. Enquanto as mocinhas, geralmente indefesas, sempre esperando pelos “príncipes encantados” para salvá-las, as heroínas vão brigar pelo direito de pensar por elas mesmas, certas ou erradas, com unhas e dentes.

Kara dos livros Alma e Sangue Imagem: Websérie Alma e Sangue

Na literatura fantástica é onde mais se encontra heroínas. Porque na literatura mundial, infelizmente, o número de mocinhas ainda é muito grande, o que mostra o quanto a sociedade literária ainda é machista. Porque as mocinhas são o verdadeiro exemplo da figura feminina idealizada por uma cultura patriarcal, onde o homem é o forte e corajoso, enquanto a mulher é a bela “donzela”, cobiçada por todos, que precisa ser salva pelo melhor entre todos os homens.

Já uma heroína é uma personagem feminina de temperamento forte, com defeitos e qualidades que a coloca em igualdade com um herói. Algumas chegam a condição de anti-heroínas de tão do contra que são. Porém as heroínas da literatura são mais realistas e diferem muito da maioria vista nos quadrinhos, por exemplo, as quais geralmente usam roupas sexy (e muitas vezes ridículas) só para agradar o público masculino, que ainda é maioria em publicações do tipo.

Conheci em minhas leituras, desde que iniciei o Projeto Literatura Nas Ondas Do Rádio, algumas heroínas e anti-heroínas bem legais. Tanto na literatura estrangeira como na nacional.

A tendência mundial atual são as Heroínas Adolescentes, entre as quais se destacaram, e/ou caíram no gosto do público em geral, a Hermione de Harry Potter, a Bella da saga Crepúsculo e Claire de Os Vampiros de Morganville. Curiosamente no Brasil, a tendência entre os autores brasileiros são Heroínas Adultas, mas encontrei algumas adolescentes bem interessantes como a Kaori, criação de Giulia Moon(Kaori – Perfume de vampira e Kaori 2 – Coração de Vampira), e Kôra, criação de Ana Flávia Abreu (Kôra – O Pressentimento do Dragão e Kôra e a Masmorra de Atro).

Na literatura fantástica mundial, poucas foram as Heroínas Adultas que achei até agora. Há muitas interessantes dentro do mundo dos quadrinhos, mas pouquíssimas são as que encontrei na literatura, as quais fossem cativantes como a detetive particular Vicki Nelson da série literária Blood Book de Tanya Huff, que, infelizmente, ainda não foi traduzido para o português (pelo que eu saiba). Porém alguns fãs de séries de TV fantásticas e/ou vampirescas, provavelmente, a conhecem, pois o livro foi inspiração para a série Blood Ties.

No entanto, os autores brasileiros conseguiram suprir a falta de tais personagens brilhantemente. Porque se falta heroínas lá fora, ou é apenas o mercado editorial por aqui, que ignora o fato dos brasileiros adultos curtirem LitFan (até mais que o público infanto-juvenil), o fato é que no meio nacional há várias e cada uma mais interessante que a outra.

Entre as personagens femininas com características de heroína ou anti-heroína da literatura nacional fantástica, eu tive o prazer de conhecer algumas que hoje estão na lista das minhas favoritas, como é o caso da Clara de Martha Argel (Relações de Sangue e Amores Perigosos), Kara de Nazarethe Fonseca (Alma e Sangue) e Jessi de Vivianne Fair (A Caçadora). As três personagens fazem parte de histórias de vampiros, mas há outras bem interessantes, que pertencem a outros universos fantásticos, como é o caso da Mestra Anna do livro O Castelo das Águias de Ana Lúcia Merege.

Também encontrei várias heroínas, entre adultas e adolescentes, em contos nacionais, como as personagens:
- Maya dos contos de Giulia Moon (Coletâneas Vampiros no EspelhoA Dama-Morcega e Luar de Vampiros).
- Sophie de Gabriel Arruda Burani, Barbara da Celly Borges, Berta da Nazarethe Fonseca e Luísa de Louise Duarte (Antologia Sociedade das Sombras da Editora Estronho).
- Anelisa da Cristina Rodriguez, Carolina da Adriana Araújo, Lili da Nazarethe Fonseca e Nix da Giulia Moon (Livro 1 da coleção Amores Proibidos da Editora Draco, Meu Amor é um Vampiro).

Essas personagens são apenas alguns exemplos, entre aquelas que eu mais gostei, ou que me chamaram atenção por alguma característica marcante, ao ponto de desejar continuações de suas histórias. Há várias outras personagens interessantes na LitFanBR, sem contar os livros que ainda estão na minha lista de leitura (que atualmente é enorme).Então se gosta de uma boa histórias com heroínas, tem para todos os gostos. E para quem não aquenta mais os inúmeros reality show e programas sensacionalistas das TVs brasileiras, que se repetem irritantemente a cada ano, eu recomendo a leitura de livros fantásticos. Vai gastar melhor seu tempo e pode se divertir muito mais… Assim, quem sabe, com um audiência baixa, as redes de TVs no Brasil comecem a investir em programação de qualidade e boas histórias para seus roteiros.
>> CONTOS SOBRENATURAIS – por Anny Lucard

“FANDEMÔNIO nº 1″: PARA DEGLUTIR O FUTURO

terça-feira | 10 | janeiro | 2012

Nos dolorosos estertores finais de 2011, o escritor e blogueiro Tibor Moricz, autor do romance O Peregrino (Draco, 2011), resolveu balançar a canoa da comunidade de fãs e autores de ficção científica – conhecida como fandom – com dois textos provocadores. Neles, lamenta a falta de discussões e de polêmicas nesta altura do ano, e pergunta: “Só a antropofagia nos unirá?”

A pergunta remete diretamente ao “Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, lançado em 1988 pelo escritor paulista Ivan Carlos Regina nas páginas do fanzine do Clube de Leitores de Ficção Científica, o Somnium. Moricz já havia levantado a mesma peteca antes, quando divulgou no seu É Só Outro Blogue o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, de Regina, e o entrevistou.
Na década de 1990, esse movimento, inspirado numa das principais tendências do Modernismo brasileiro, dividiu opiniões, causou polêmica, produziu declarações e ensaios publicados em fanzines, e, com erros e acertos, constituiu-se na questão literáriacaracterística da Segunda Onda da FC Brasileira (de 1982 ao presente). Além de Regina, se declararam simpáticos ao movimento Cesar Silva, Fábio Fernandes, Marcello Simão Branco, Roberto Schima e eu mesmo.

Hoje sabemos que a discussão de como ou por que trazer uma perspectiva brasileira ou terceiro-mundista à ficção científica já era discutida antes, durante a Primeira Onda (1958-1972), como atestam as perguntas que o escritor Walter Martins (1932-2010) dirigiu aos participantes internacionais do Simpósio de FC, o histórico evento realizado em 1969 no Rio de Janeiro.

O Movimento Antropofágico da FCB encerrou-se por volta de 1995, depois de Regina compreender que seu poder de mobilização e de debate havia alcançado seus limites. Mas é interessante que agora, quando se apresenta uma Terceira Onda de escritores de FC no Brasil, a discussão das idéias do movimento retorne com a intensidade que Moricz conseguiu provocar no seu blog. Parece que aqueles limites ainda não tinham sido atingidos.

O retorno da discussão vem no rastro de declarações muito recentes que o respeitado escritor e antologista Braulio Tavares fez à imprensa, por ocasião do lançamento da sua antologia Palavras do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica (Casa da Palavra, 2011). Para o jornal O Globo, ele fez esta declaração: “Tem muita gente lendo e gostando do gênero, e isso é ótimo. Mas há um cordão umbilical que precisa ser partido de uma vez por todas. O Brasil precisa se descolar dos Estados Unidos. Precisa trazer para a ficção científica o que os modernistas fizeram em 1922.”

A afirmativa se aproxima muito da proposta de Regina, e na discussão do É só Outro Blogue, Tavares fez novo esclarecimento: “Na entrevista ao Globo (por telefone), eu disse à jornalista que essa atitude antropofágica vem, pelo menos, desde que Ivan Carlos Regina publicou nos anos 1980 o ‘Manifesto Antropofágico da FC Brasileira’. Esta informação não apareceu na matéria final, o que lamento.” Já em matéria de 3 de janeiro de 2012, escrita por Luiz Zanin Oricchio para O Estado de São Paulo, tem-se a afirmativa: “Não por acaso, um autor como Ivan Carlos Regina publicou, em 1988, seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. Inspirado nos modernistas de 1922, Ivan entende ser necessária a deglutição radical dos nutrientes estrangeiros para a produção da proteína nacional.”

Braulio Tavares é a fonte desse comentário, como se vê pelacrônica que ele fez para o Jornal da Paraíba, em 23 de dezembro de 2011, na qual afirma que “O manifesto de [Ivan Carlos Regina] critica os autores brasileiros que preferem imitar o modelo norte-americano de FC, repetir os mesmos temas, os mesmos clichês, a mesma linguagem – porque, vamos e venhamos, é muito mais fácil fazer ‘fanfic’ do que literatura. (A ‘fanfic’, a ficção produzida por fãs, é quando os leitores de Harry Potter, Star Trek, etc. escrevem suas próprias histórias utilizando esses personagens e contextos. Não tem propósito criativo estrutural; apenas o prazer de produzir variantes das obras originais.)” Nisso, ele vai ao encontro da condenação de Cesar Silva, um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de que boa parte dos autores brasileiros de FC são apenas fãs que se contentam em firmar sua adesão ao gênero, sem o propósito de se expressarem ou de conduzi-lo a novas direções. Para Tavares, o lado crítico do movimento “permanece tão atual quanto em 1988”. “Deglutir, devorar, antropofagizar”, afirma, “implica sempre em destruir, ‘quebrar’ aquele material em seus elementos constitutivos, usá-lo como eventual banco de dados para produzir uma literatura que não venha do impulso de imitar, mas de dizer verdades pessoais. Literatura é a verdade pessoal de cada um, e para essa verdade emergir precisa desligar esse piloto-automático que gera a fanfic e a imitação.”

A conclusão de Tavares marca um posicionamento dele que não havia sido expresso durante os primeiros anos do movimento. Sua primeira reação foi relutante e cautelosa quanto a qualquer coloração nacionalista ou prescritiva que o movimento pudesse ter. Para o meu fanzine Papêra Uirandê, ele escreveu que o mais importante para o desenvolvimento da FC brasileira era a vantagem implícita que teríamos pela localização cultural do país, que nos permitiria absorver influências múltiplas – de dentro e de fora da FC anglo-americana, de dentro e de fora da própria literatura brasileira como um todo. Não é uma declaração conflitante com a antropofagia cultural, mas também não foi adesão clara às idéias de Regina. A crônica do Jornal da Paraíba e suas novas declarações parecem bem mais próximas dessa, talvez porque a distância temporal clarifica perspectivas – ou porque o momento atual da nossa FC justifique ainda mais um retorno desse debate.

E com certeza, o debate voltou. Os comentários à breve provocação de Moricz somaram setenta manifestações (no momento em que escrevo este texto). Mesmo excluindo respostas perfunctórias e ecos de comentários anteriores, é mais do que tudo o que foi discutido por escrito, entre 1988 e 1995.

O que esses comentários expressam acabou sendo, não obstante, muito próximo das polarizações e posicionamentos apressados daquele primeiro debate em torno do movimento. São imediatamente lançados apelos contra “patrulhas”, “ufanismo extremo”, “xenofobia”, “extremismo”, “postura brasilianista” – e, fora desse contexto em particular, contra o emprego de “estereótipos culturais”.

Além da advertência, há e houve argumentos opositivos, do tipo “regional vs. universal”, hoje transmutados na evocação do globalismo como tendência inescapável, que poria de lado qualquer projeto de se apresentar a “experiência brasileira” (expressão quase universalmente ausente do debate literário) como singular ou significativa, ou de se explorar criticamente a nossa realidade.

O que é “regional”, o que é “universal”? Muitas vezes, o que se diz é que a ficção seria mais universal se carecer de índices particulares. Se abrir mão do detalhe específico, se for vaga em relação a de onde,de como e para quem o autor se dirige. A despeito de qualquer apelo que o minimalismo possa ter, é difícil acreditar que uma literatura possa ser mais, por meio da insistência em ser menos. Leon Tolstoi recomendou: “Canta a tua aldeia e serás universal.” E para o crítico francês Antoine Compagnon (in O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum, 1998), citando o ensaísta Michel de Montagne, “Cada homem traz em si a forma completa da condição humana”. Muda a conjuntura em que a condição humana se expressa, mas atravessando o outro, experimentando a vida pelo ponto de vista dos personagens e do autor, se atinge o universal.

Na Terceira Onda, um dos elementos centrais da retórica que emerge da interação entre esses novos escritores parece ser a noção da identificação do autor e do conteúdo que ele produz, com um público leitor ideal. Esse público seria jovem, de classe média, maioria masculina e branca e com formação universitária, interessado em novidades tecnológicas e conhecedor da FC principalmente via televisão, cinema, quadrinhos e videogames. Resulta daí uma busca pelo universal a partir de um único particular, mas um particular que se apresenta como dominante. O risco maior da postura seria a extrapolação exclusiva de um só conjunto de coordenadas sócio-culturais que pertenceriam a essa geração de autores.

Risco porque a ficção científica é a literatura da mudança, do estranho, do inesperado e daquilo que hoje é apenas vislumbrado, mas que tem o potencial de alterar dramaticamente as nossas vidas. Como escreveu (na antologia Future on Fire; 1991), Orson Scott Card, um dos grandes escritores que a FC já produziu, “Dúzias, centenas, milhares de vezes [os leitores de FC] viveram o processo de apreensão de uma realidade surpreendentemente nova. Não importa o que o futuro seja, eles já conhecem o processo: reconhecer a contradição entre a visão familiar do modo como as coisas são, e a nova ordem; extrapolar das contradições um novo sistema de causa e efeito; reconstruir uma visão do modo como as coisas são que inclua e acomode as antigas contradições; inventar o seu próprio papel na nova ordem; agir de acordo com o seu novo papel e sua nova visão da realidade.”

Esse seria o efeito geral da ficção científica como gênero. Mas não significa que cada narrativa de FC o realize. O escritor tem de buscá-lo intencionalmente, deliberadamente construindo, a partir das suas habilidades e experiências individuais, sua visão de mudanças potenciais e de reações possíveis. Por que uma literatura com esse potencial visionário deveria se ater a um único conjunto de valores, em nome de uma estratégia de mercado? Não haveria nisso um amesquinhamento da literatura – e em termos sociais, uma falta de solidariedade para com aqueles que são diferentes?

Recentemente, a escritora mainstream Martha Medeiros declarou no Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil de dezembro de 2011: “A literatura derruba paredes… Acho que nos liberta da mediocridade, faz com que a gente transcenda. Porque a nossa vida é muito estreita, muito reduzida.” Por que a ficção científica deveria andar na contramão desse entendimento?

O próprio processo de globalização tem nuances que o fazem escapar da idéia de que um conjunto de valores irá colonizar todas as instâncias do planeta. O antropólogo argentino Néstor García Canclini adverte (in Diferentes, Desiguais e Desconectados: Mapas da Interculturalidade; 2004): “Dizer que a redução do cultural ao mercado e à sua globalização neoliberal condiciona todas as relações interculturais induz hoje a renovados estereótipos de universalização inconsciente.” E a seguir afirma: “Os lugares continuam a existir por continuar a existir alteridade no mundo”, e que “ler o mundo na chave das conexões não elimina as distâncias geradas pelas diferenças nem as fraturas e feridas da desigualdade”.

Também posso citar, numa indicação de Nelson de Oliveira, o sociólogo brasileiro especialista em globalização, Renato Ortiz, que opina: “A globalização é uma totalidade que nos envolve a todos, ela cria uma nova situação. Sua abrangência é global, mas isso não significa que o mundo seja homogêneo. A situação de globalização redefine o nacional e o local, mas não os elimina. [...] A discussão da diversidade só faz sentido num mundo que se globalizou. Valoriza-se a diferença por que estamos todos na mesma situação.” Mas com a ressalva: “Fica evidente hoje que o processo de globalização constitui uma totalidade na qual as diferenças se manifestam. O mundo é um todo, mas nada tem de homogêneo. Tampouco ele é plural, como diziam os pós-modernos; as diferenças encontram-se hierarquizadas e constituem relações de poder bem determinadas.”

Enfim, sobre os que criticam esforços de valorização local, ele diagnostica: “Os críticos, ao se afastarem do que eles consideram como provincianismo nacionalista, cultivam a ilusão de serem cosmopolitas, cidadãos do mundo. Diante da estreiteza da visão particular, afirma-se pretensamente um universalismo abstrato. No caso brasileiro, existe ainda a herança colonial, isto é, o fato de o país situar-se na periferia. [...] A valorização do estrangeiro termina sendo um elemento de autoafirmação.”

Por sua vez, uma ficção científica consciente deveria abordar todas as faces da alteridade, as possibilidades de diferença em relação às estruturas dominantes ou hegemônicas. No debate em torno do Movimento Antropofágico da FCB, eu lancei uma metáfora para o que a nossa FC deveria propor: “Assim como o Brasil dos muitos biomas é detentor da maior biodiversidade do planeta, nossa literatura deveria refletir a mesma diversidade – a diversidade cultural do Brasil urbano e do rural, do Brasil que fabrica satélites artificiais e do que constrói casas de barro e sapé, do Brasil do Primeiro Mundo e do Paleolítico internado na selva” (in Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras; 2010 ). Nesse sentido, Canclini também observa, que, “Assim como cada vez mais tende a aceitar-se a necessidade da diversidade biológica como condição para garantir o desenvolvimento conjunto da humanidade, a diversidade cultural e o reconhecimento das minorias começam a ser vistos como requisitos para que a globalização seja menos injusta e mais inclusiva.”

Um dos grandes problemas do movimento foi dar seqüência às idéias do manifesto de Regina, aprofundando-as, fornecendo exemplos positivos e oferecendo recomendações diretas. Regina insistia que seu manifesto era texto literário, talvez temendo que ele se descaracterizasse se fossem adotados desdobramentos ensaísticos ou acadêmicos. Talvez temesse uma interpretação prescritiva das suaãs posições, ou apenas se sentisse embaraçado se fosse preciso apontar posturas ingênuas dos seus pares. É difícil, por exemplo, chamar de outra coisa a oposição automática entre “regional” e “universal”, já que ela ignora um sem-número de complexidades a que Canclini e Ortiz se referem.

O que existe além do horizonte retórico do movimento, e que o limitaram gravemente, são de fato expressões bastante difíceis de dirigir aos nossos pares: ingenuidade literária, colonização cultural, alienação, submissão ao mercado, derivação, subserviência intelectual. Muitas delas foram atiradas contra mim ao longo de minha carreira, e posso atestar que deixam cicatrizes. Atualmente, Cesar Silva é a única personalidade da área que empunha impunemente esses chicotes, porém mais para fustigar o fandompropriamente, do que a autores individuais.

Mas o Movimento Antropofágico teria sido de algum modo prescritivo ou dogmático, em sua curta existência? Talvez eu tenha sido (em minha correspondência, especialmente), na minha própria ingenuidade e insegurança, mas o movimento como um todo foi bastante aberto. Em termos formais e de uma recuperação da herança modernista brasileira, foi a corrente tupinipunk da FC brasileira que realizou o projeto de Ivan Carlos Regina – e o fez remetendo-se diretamente a essa herança, sem tomar conhecimento do seu manifesto. São obras formalmente mais complexas e experimentais, como o romance Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett, que Tavares cita como paradigma antropofágico.

Minha abordagem pessoal foi diferente (só estou me aproximando do tupinipunk agora), e encontrei meus próprios modelos, fora do movimento, do que seria interessante para a escrita de uma FC mais interessada da experiência brasileira – como histórias de Ivanir Calado e Gerson Lodi-Ribeiro. Em nenhum momento, porém, Ivan Carlos Regina veio me dizer que eu me afastava dos seus ideais, ou que meu caminho era equivocado.

Num sentido mais extremo, seria possível dizer que a afirmação dos ideais do movimento significariam uma ameaça para quem não os partilha? Se ele firmasse um paradigma, isso implicaria em julgar a totalidade da FC brasileira pela sua régua? Dificilmente. Os primeiros participantes do movimento têm sido cuidadosos em apontar interesse e valor literário num amplo espectro, e é impossível não reconhecer que muitos escritores podem contribuir fortemente para a evolução do gênero no Brasil, sem tocar diretamente na realidade ou na cultura brasileiras. Obras como Piscina Livre (1980), de André Carneiro, Do Outro Lado do Protocolo (1985), de Paulo de Sousa Ramos, ou O 31.º Peregrino (1993), de Rubens Teixeira Scavone, estão entre os melhores exemplos.

Além disso, parte da lógica subjacente ao movimento e sua denúncia da imitação de clichês (e da aceitação acrítica da ideologia que muitas vezes vem com eles) pressupõe uma consciência do lugardo qual falamos. E o lugar específico da FC no sistema literário brasileiro ainda é perfeitamente secundário e periférico. O lugar do movimento antropofágico dentro da FC brasileira é ainda maissecundário. Sua voz francamente miúda e minoritária não tem poder de realizar qualquer patrulhamento, mesmo que quisesse. Tudo o que faz é lançar breves conclamações e fornecer umas poucas metáforas que poderiam orientar uma abordagem, uma busca que venha substanciar a emersão daquela “verdade pessoal” de cada escritor, de que Braulio Tavares falava.

Essa voz recebeu um poderoso reforço com as novas opiniões de Tavares, mas não se tornou menos minoritária, como deixou claro a resposta a esta que foi claramente a segunda rodada do debate antropofágico.

Mas a resposta também deixou claro que nunca esse debate foi tão necessário. Individualmente, autores podem se isolar, mas as questões literárias são o sangue e a alma de uma literatura. No finalzinho de 2011, o Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira retornou para sugerir que ainda tem fôlego para ser uma questão viva, entre os autores da Terceira Onda.
>> O BULE – por Roberto de Sousa Causo

ROBERTO DE SOUSA CAUSO é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica. Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônymo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco. Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da TardeFolha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas ExtrapolationScience Fiction StudiesCultCiência HojePalavra Dragão Brasil. Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (
http://terramagazine.terra.com.br
), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.


PERSONAGENS SOBRENATURAIS INVADEM NOVELAS BRASILEIRAS

quinta-feira | 5 | janeiro | 2012

Personagens sobrenaturais estão cada vez mais presentes nas produções brasileiras. Foto: Afonso Carlos/Carta Z/Divulgação

O naturalismo das novelas sempre conviveu com o sobrenatural. Desde a pioneira O Terceiro Pecado, de 1969, que autores como Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes recorrem a fenômenos que passam ao largo das explicações científicas. Com o entretenimento na ordem do dia, criadores variam estilos e inspirações, que vão das lendas folclóricas ao futurismo da ficção-científica. Além disso, o sobrenatural também está fortemente presente em folhetins com temas religiosos, seja na polêmica discussão sobre a vida após a morte, ou na adaptação de histórias bíblicas. “As pessoas querem ligar a tevê e sonhar. Sempre que posso, coloco personagens com algum dom obscuro em minhas novelas”, diverte-se Aguinaldo Silva, que desde o início da carreira, bebe na fonte do realismo fantástico original de Dias Gomes, autor de clássicos do gênero, como O Bem-Amado, de 1973, e Saramandaia, de 1976.

Aguinaldo já brincou com o sobrenatural em várias de suas novelas. Inclusive, na atual Fina Estampa, o autor vem aumentando cada vez mais a dose de situações inexplicáveis, com as visões sobre o futuro de Luana, de Joana Lerner, e o súbito aparecimento de Enzo, de Júlio Rocha, que supostamente, caiu do céu. Com intensidades diferentes e resultados oscilantes, outras produções recentes apostam em uma injeção de histórias do além em seus roteiros. A abordagem de forças ocultas está fortemente presente na recém-terminada O Astro , na nova das sete, e Aquele Beijo - onde Bruno Garcia faz um vidente. E é a base da atual temporada de Malhação, cheia de referências a séries americanas, que misturam ficção científica e histórias em quadrinhos. “Queria falar da conectividade das pessoas com elas mesmas, com seus sonhos e intuições. O que puxa a trama é o número 1046″, explica a autora Ingrid Zavarezzi, referindo-se ao número que aparece nos sonhos de Alexia, de Bia Arantes.

Embora o tema tenha derrubado a audiência da novelinha da Globo, que patina nos 16 pontos, a inspiração em gibis e “sci-fi” já rendeu à Record bons índices no ibope. No entanto, com a saga mutante de Caminhos do Coração - criada por Tiago Santiago, em 2008 – as referências foram além. No mesmo caldeirão, Tiago misturou vampiros, super-heróis, espiritismo, mitologia grega, entre outras. “A grande viagem da novela foi não se limitar. Essa liberdade foi fundamental para o sucesso dos mutantes”, conta o autor.

Mais recentemente, outra trama que aglutinou inúmeras referências foi o “remake” de O Astro. Baseado na novela original de Janete Clair, exibida em 1978, a adaptação abusou de assombrações, alucinações e ilusionismo. “O Herculano poderia ter ido por vários caminhos, desde a esquizofrenia até o espiritismo”, analisa Rodrigo Lombardi, intérprete do anti-herói, que com seus “poderes”, escapa inúmeras vezes da morte e chega ao comando do grupo Hayalla. Para Thiago Fragoso, que deu vida ao frágil Márcio, a angústia espiritual dos personagens da novela foi o principal chamariz de público. “A levada espírita da novela estava diretamente ligada ao jogo de poder entre os personagens. As cenas do Salomão tentando de se comunicar com o Márcio eram bem assustadoras”, conta Thiago, referindo-se aos ataques sofridos por seu personagem ao se comunicar com o falecido pai, Salomão Hayalla, de Daniel Filho.

A interação entre pessoas em planos espirituais diferentes foi o mote de muitas novelas de Ivani Ribeiro, comoO Sexo dos Anjos e A Viagem. Atualmente, a herdeira direta de tramas com essa temática é a mineira Elizabeth Jhin, autora de Escrito nas Estrelas, novela que abordou a fertilização de uma mulher a partir do sêmen de um homem já morto. “Quis falar como o espírito desse homem lida com esse filho que vai nascer. Para minha sorte, o público embarcou na história”, ressalta a autora, que volta ao ar no primeiro semestre de 2012, com outra trama de tons espirituais, que tem título provisório de Marajó.

Transtornos e delírios
Além do sobrenatural, alguns mistérios da teledramaturgia nacional também têm atestado médico. Seja para destacar a doença ou apenas fazer rir, a esquizofrenia já foi tema de novelas e seriados da tevê. Em Alma Gêmea, de 2005, a personagem Alexandra, de Nívea Stelman, sofria com as vozes e os espíritos que lhe atormentavam. “O problema dela foi crescendo aos poucos, e não poderia ser definido apenas como esquizofrenia. Pois ela conseguia se comunicar com os mortos da trama”, opina a atriz.

Na contramão do drama, o seriado A Mulher Invisível, parte da doença para fazer humor. Baseado no filme homônimo de 2009, a produção acaba de ganhar uma segunda temporada, e conta a história de Pedro, de Selton Mello, um publicitário que encontra a mulher de seus sonhos. Porém, só ele consegue enxergá-la. “É uma comédia sobre esquizofrenia, ou sobre a solidão. Ela só é realmente a mulher ideal porque não existe”, destaca Selton.

Instantâneas
# No ano passado, Selton Mello também protagonizou A Cura, série cheia de mistérios que relacionavam medicina, assassinatos e religiosidade.

# Em Araguaia, de 2010, Solano, de Murilo Rosa, era um homem marcado para morrer por conta de uma maldição indígena que assombrava sua família há muitas gerações. Nela, todos os homens de sua linhagem morrem muito jovens, sempre próximos às margens do rio Araguaia.

# Histórias de lobisomens e vampiros andam em alta nos filmes de Hollywood, e já figuraram em diversas novelas brasileiras, como Roque Santeiro, de 1985, Vamp, de 1991, e O Beijo do Vampiro, de 2002.

# Em Páginas da Vida, de 2006, a jovem Nanda, de Fernanda Vasconcellos, morre logo no início da trama, mas aparece em forma de fantasma para pessoas de sua família.
>> TERRA – da Redação


ESPECULANDO O RETROFUTURISMO DE 2012

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

“Turning here, looking back in time”

logos sociais 2011 foi um ano dificílimo e complexo de ser apreendido por uma só ótica. Mobilizações e manifestações de cunho político, social, econômico, cultural, etc (ok, não é possível traçar linhas entre essas categorias ou tampouco delineá-las dados os embates de interesses cada vez maiores) através dos sites de redes sociais ganharam novos contornos e pautaram a mídia de referência (ou massiva ou mainstream, whatever). As guerras entre fandoms de gêneros musicais, bandas ou artistas; o ativismo político foi tudo trend topic. A rua e a tecnologia estiveram cada vez mais entrelaçadas através do fluxo de postagens e produção de conteúdos disponibilizados via celulares, tablets e dispositivos móveis em geral.

Ao contrário das previsões de alguns catastróficos, os blogs não morreram. Eles ganharam outras apropriações, voltadas a nichos cada vez mais específicos e se integraram à circulação e à re-circulação através de práticas como a da re-blogagem. Eis ai o excesso cognitivo e o destaque que o Tumblr ganhou nesse ano, sobretudo no que diz respeito à velocidade do humor e dos memes que “contagiaram” boa parte do que foi postado, sobretudo no Facebook e no Twitter. Curtir, retuitar, timeline, o vocabulário da computação social popularizou de tal forma que esteve presente nos mais diversos lugares como salões de beleza, almoços de família e discussões de bares. O excesso de conteúdo também nos deu momentos de estresse informacional por vezes divertidos e sociais  – como na cobertura de eventos como o Rock in Rio por exemplo – por vezes estúpidos em casos de racismo, homofobia, discriminação, etc. Tudo isso tem muito menos a ver com as plataformas e suas materialidades, mas com as misérias da humanidade. Contudo, O silêncio e a desconexão também são necessários.

Desde sempre visualizei o entrelaçamento dos ambientes, conteúdos, emoções, pessoas, mas em 2011 ficou tudo muito mais explícito com tantos aplicativos que congelam momentos da vida ou nos dão pistas e tracejados dos caminhos escolhidos. A instagramização da vida cotidiana; os amigos encontrados via geolocalização e a constante vigilância 4squareana do todos vêem, todos sabem; os angry birds da vida presencial nos atirando pedras a cada erro. A música e os videoclipes continuaram fluindo através do YouTube e seus comerciais insuportáveis; pelas nuvens cada vez mais populares do SoundCloud e o “modelão” de negócios do iTunes chegou ao final do ano no Brasil. A tensão entre o comércio,  as estratégias de marketing e as liberdades e anonimatos entraram em disputa várias vezes.

ABC

Em termos de cultura pop, 2011 apostou no revival, sobretudo tirando o mofo das camisas xadrezes e coturnos do grunge dos armários e guarda-roupas com os 20 anos de Nevermind, o retorno do Foo Fighters – com um álbum declaradamente nostálgico, Wasting Light – as referências em seriados (como Californication e outros) e filmes. O álbum tributo à Achtung Baby do U2 (1991) fechou um círculo de influenciáveis e influenciados com o Garbage do Butch Vig, o NIN de Trent Reznor e o eterno Depeche Mode (também produzido por Flood em Violator, outro grande álbum noventista).O dubstep virou pop e deu vida aos remixes de Justin Biber a Katy Perry, e o witch-house assombrou a música eletrônica.

A fantasia, ainda bem, retornou em grande estilo ao horário nobre da televisão com Game of Thrones sendo disparado o melhor seriado do ano (na minha opinião, claro). O horror e a bizarrice neo-gótica da América do Norte também teve seu espaço com American Horror Story oscilando entre o riso nervoso e o surrealismo fetichista. O retrô das mais variadas épocas deu a tônica em muitos momentos de 2011. Nunca se falou tanto nas redes  sobre as mais diversas épocas: o neovitorianismo steampunk; o fantástico medieval; os anos 90 nas festas e produções musicais. Até a realeza britância deu os ares de sua graça transformando novamente o ritual de um casamento real em um espetáculo global televisionado ao vivo, tuitado, blogado, etc. A curadoria de informações é um instrumento metodológico cada vez mais relevante, vejam só.

Não tenho bola de cristal, sou apenas uma pesquisadora das culturas emergentes, embora tenha os dons “cayce pollardianos de mediunidade semiótica coolhunting das ruas” (Fabio Fernandes All Rights Reserved). Especulo a partir de todo esse Zeitgeist – no sentido da especulação utilizado pela ficção-científica – que esse iníciozinho dos anos 10 (que começa com mais força agora em 2012) vai ser muito pautado por essa ambivalência experimental de sensações de tempo e espaço. Ainda estamos nos acostumando, enquanto sociedade, a nos apropriar dos meios, a nos estender tecno-social e materialmente pelos territórios, a compreender nossos corpos, desejos, sentimentos e pensamentos dentro desse contexto (re)mediado full-time, o que não é nada fácil, dai o apelo tão forte da nostalgia na construção de um futuro em constante conexão. E é nesse ponto que uma (an)arqueologia midiática se torna tão rica para observamos o presente e vislumbres do futuro dos artefatos e suas trajetórias narrativas, que contam cada um do seu jeito, nossas histórias/estórias.

Nesse sentido, desejo um 2012 repleto de narrativas, de grandes conquistas, de prazeres diários. “Celebrate the life and times of splendor” diz o VNV Nation em Space & Time, uma das melhores faixas de Automatic (2011), não por acaso um álbum conceitual acerca das tecnologias e estéticas dos anos 30, retrô-futurismo indicando até mesmo minha última songpost do ano. Em 2012, mais Victories Not Vengeances!
>> AS PALAVRAS E AS COISAS – por Adriana Amaral

Space & Time

VNV Nation

Tear apart the life and times of familiar faces
And tracing lines to what connects me and binds me to
Images of the remote and never-changing
Grand designs, style and grace
And am i

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time

One and all let us celebrate the rise and fall
Celebrate the life and times of splendor
Desire and love constant and never-changing
The flow of times, closed in lines
Can’t tell if i’m just

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time


BLIND GUARDIAN E A LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

Que a literatura serviu e ainda serve de inspiração para muitos letristas da música pesada não é nenhuma novidade. Que a banda alemã Blind Guardian é uma das bandas que mais bebem dessa fonte também não. Porém, ainda há aqueles que desconhecem as origens de algumas das letras dos alemães. Por uma questão de espaço comentarei um número limitado dessas obras.

O escritor mais influente para Hansi Kursh e sua trupe é J. R. R. Tolkien. A banda já prestou homenagem ao escritor inglês em seu primeiro álbum, Battalions of Fear, nas músicas Majesty e nas duas instrumentais, By the Gates of Moria e Gandalf’s Rebirth. No disco Tales from the Twilight World também podemos encontrar mais referências ao Professor Tolkien: a óbvia Lord of the Rings, e a mais sutil Lost in the Twilght Hall onde se pode interpretar a letra como descrevendo os pensamentos de Gandalf após derrotar o Balrog de Morgoth nas profundezas de Moria.

Contudo, o álbum mais complexo inspirado por uma obra de Tolkien é Nightfall in Middle-Earth baseado nos acontecimentos descritos n’O Silmarillion, livro póstumo do professor, editado pelo seu filho, Christopher Tolkien. Apesar de o livro descrever a criação do mundo, o surgimento dos elfos e dos homens, até o final da primeira era do mundo, quando Morgoth o Senhor do Escuro é derrotado e aprisionado pelos Valar, sobre a queda da ilha de Númenor e sobre Sauron, o novo Senhor do Escuro e a criação dos anéis de poder, o disco se concentra na parte principal que é a História das Silmarils. Assunto extenso e complexo para ser tratado em espaço tão pequeno, mas o Silmarillion é altamente recomendável àqueles que querem saber mais sobre os acontecimentos que antecederam o primeiro encontro de Bilbo e Gollum e o que isso acarretou ao longo do Senhor dos Anéis.

Outra música que merece destaque é War of the Thrones, do mais recente disco At the Edge of Time. Música é baseada no primeiro volume ­– a Guerra dos Tronos – das Crônicas de Fogo e Gelo do escritor americano George R. R. Martin, considerado pela imprensa como o Tolkien americano (o que para este humilde leitor que vos escreve é um exagero; um, porque a obra de Martin não tem semelhança alguma com as obras de Tolkien; dois, porque Tolkien foi o primeiro e seu estilo é único; e três, porque Martin é um excelente escritor por seus próprios méritos e não precisa desse tipo de comparação.) Os livros são um prato cheio para os fãs de fantasia, cheios de reviravoltas, batalhas, intrigas, etc. Outra música do mesmo álbum baseada na Guerra dos Tronos é o primeiro single do disco, A Voice in the Dark. Não escreverei detalhes sobre a letra, pois ela trata de um evento muito importante, portanto não irei entregar o ouro para quem não leu o livro ainda.

Voltando ao álbum Batallions of Fear encontramos a música Guardian of the Blind, inspirada no livro A Coisa do mestre do horror Stephen King. Um dos meus livros favoritos do escritor americano, a estória gira em torno de amigos que foram atormentados por um palhaço chamado Parcimomioso quando crianças e que já adultos têm que reviver o pesadelo de sua infância. A série de ficção científica Eternal Champion, de Michael Moorcock foi usada como inspiração para a faixa Quest for Tanelorn do álbum Somewhere far Beyond, e em Tanelorn (into the void), no álbum At the Edge of Time.

As referências são inúmeras. Ao longo de sua discografia, muitas músicas do quarteto alemão foram inspiradas pela literatura fantástica, seja ela fantasia, ficção científica ou horror. Seja qual for a sua preferência, corra atrás das obras (algumas delas não foram publicadas em português, mas aí há uma oportunidade para você praticar seu inglês), coloque os discos para rodar e aproveite a viagem.
>> DIE HARD – por Eduardo Barcelona Alves

Do álbum At The Edge of Time (2010) ouça a música “War of the Thrones”:


CRESCE NÚMERO DE ESCRITORES BRASILEIROS QUE TRABALHAM O MEDO EM SEUS LIVROS

domingo | 1 | janeiro | 2012

 (Arquivo Pessoal)

O escritor André Vianco é um dos autores de Literatura Fantástica mais vendidos do Brasil

O medo é o objetivo. E o limite entre o terror e a tranquilidade faz a diferença na hora de atrair leitores jovens. A literatura de terror produzida por autores contemporâneos brasileiros não tem contornos definidos e muito menos a pretensão de criar qualquer tradição de gênero, mas cresce, revela nomes e envereda por caminhos ainda muito ancorados nas referências de língua inglesa. O terror brasileiro herdou as criaturas e fantasmas geradas no Hemisfério Norte. Em alguns casos, incorporou pimenta própria com cores locais. Há seres saídos das lendas brasileiras diretamente para a tramas protagonizadas por vampiros e almas penadas. Ou então cenários favoráveis com especificidades urbanas que atendem os requisitos para se equiparar às metrópoles melancólicas típicas de certas histórias. Mas tradição, não há.

Na análise do paulistano André Vianco, 36 anos, o cenário mudou muito desde o ano 2000. “Há 10 anos, as editoras eram bastante reticentes quanto a receber fantasia e terror por parte dos autores nacionais, mas eu sabia que tinha esse público, gente que queria ler uma literatura de terror que não fosse infantil e escrita por brasileiros.” Vampiros foram os primeiros parceiros do escritor na empreitada que rendeu mais de 13 livros, a maioria publicada pela Novo Século. No mais recente, O caso Laura, lançado pela Rocco, as criaturas ficaram de fora e o terror se voltou para um suspense mais humano.

Vianco também gosta de inserir, nas narrativas, algumas referências brasileiras, como o Curupira e outras criaturas lendárias. Alimentado pelo cinema, ele prefere se concentrar no conteúdo e deixar a forma de lado. “Cresci assistindo muita coisa na tevê, lendo quadrinhos, jogando videogame e os autores contemporâneos vão se apropriando disso tudo. É claro que há aqueles que gostam mais da literatura clássica de terror. No meu caso, dou mais valor à história e não a como ela vai ser apresentada. A gente vive disputando atenção do leitor com playstation, internet, seriado na tevê e isso também traduz nossa linguagem.”

O leitor jovem é maioria nas apresentações e eventos dos quais Vianco participa, mas ele garante também conversar com vovós, mães e pais que acompanham a prole na leitura. É o mesmo público visado por Douglas MCT e Ademir Pascale, nomes do topo da lista de livros de terror da Draco, editora especializada em fantasia e ficção científica. Roteirista de games, Douglas publicou o primeiro romance no ano passado. Necrópolis — A fronteira das almas traz a saga da alma perdida de um garotinho que precisa ser resgatada pelo irmão mais velho. É o primeiro de uma série de três e o segundo está previsto para 2012. Nascido no interior de São Paulo, Douglas, 28 anos, confessa ter explorado temores pessoais para escrever a história.

Fã de Stephen King e Guillermo del Toro, ele levou para o livro a mescla de bizarro, horror épico e terror psicológico comum nas narrativas desses autores. “O público são jovens pós-Restart e adultos, ainda que adolescentes mais novos tenham se interessado também, como apontam as estatísticas da rede social livreira Skoob. Mas gosto de dizer que o público é aquele que busca um frescor em tramas de fantasia e terror. Daqueles que gostam de sentir medo por meio de uma mídia”, garante. Ademir Pascale, autor de O desejo de Lilith, acrescenta à fórmula algumas mensagens de superação. Para o paulistano de 35 anos, o medo contido na trama de terror só é justificável se conduzir a uma espécie de “lição”.

Fórmula do medo

 “Numa história de Terror
não pode faltar a imersão: levar
quem lê para a profundeza, na
qual ele possa sentir na pele
a possibilidade daquilo, temer
junto do personagem e morrer
junto dele, se possível”, 


Douglas MCT, autor de Necrópolis —
A fronteira das almas 


“Tem que ter aproximação com o leitor, colocar o leitor juntinho com as personagens que estão encenando a história e essa proximidade vai dar toda a atmosfera. Por mais fantasiosa que seja a premissa do romance, (o autor tem que) fazer o leitor acreditar naquilo “, 

André Vianco,
autor de O caso Laura 

“Gosto do terror abstrato.
É o terror que tá dentro da pessoa.
É uma pessoa que acorda de
noite com síndrome do
pânico e começa a ver coisas onde não
existe, esse é o terror realmente bom,
que me dá medo”, 


Heloísa Seixas, autora de O pente de Vênus — Histórias do amor assombrado

>> CORREIO BRAZILIENSE – por Nahima Maciel


MERCADO EDITORIAL: O INCERTO CAMINHO DOS NOVOS ESCRITORES ATÉ A PUBLICAÇÃO

domingo | 1 | janeiro | 2012

Em enquete com 60 escritores,
levantamos os dilemas enfrentados
por autores em busca de editoras

 [Papo Cabeça] Mercado Editorial   O incerto caminho dos novos escritores até a publicação

Anos atrás, o editor Paulo Roberto Pires presenciou uma inflamada discussão acerca do excesso de autores estreantes que as grandes editoras andariam colocando no mercado. Ele sabia que, a qualquer momento, um dos críticos poderia apontá-lo entre os culpados pelo que seria “falta de parcimônia” editorial. Como jornalista cultural, depois um dos organizadores da primeira Flip (2003) e, por fim, editor em duas das maiores casas publicadoras do País, a Planeta e a Ediouro, ele apresentou a um público mais abrangente alguns dos principais nomes da Geração 00, como João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron e Santiago Nazarian.

Pires não considera isso negativo. “Se um escritor é bom ou ruim, o tempo é quem diz. Era preciso sacudir o mercado naquele momento em que era enorme a diferença entre o que se editava e o que se via de interessante na internet.” O fato é que atitudes como a dele ajudaram a estimular a aceitação a novos autores. “A internet alterou o perfil do lançamento de um estreante”, avalia Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco. “Está mais fácil ser autor agora do que quando quem badalava sua obra era visto com desconfiança, como se não tivesse a pátina correta de eruditismo. Hoje, ninguém vai criticar quem quer estar onde os leitores estão. As feiras literárias estão aí para provar.”

A exposição só não alterou o fato de que a publicação por uma grande editora marca, em geral, o momento em que tudo muda na trajetória de quem quer viver de literatura – ou se tornar uma pessoa jurídica, como diz Cristovão Tezza, que pôde parar de dar aulas e viver apenas em razão de seus livros desde que O Filho Eterno, publicado pela Record, abocanhou quase todos os prêmios literários de 2008. “É importante a recepção que o livro tem quando vem de uma grande. As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo”, diz Antonio Prata, que ingressou nesse olimpo literário em 2003, com As Pernas da Tia Coralina, publicado pela Objetiva.

O Sabático resolveu saber dos próprios autores qual o impacto de uma grande editora em sua carreira, como foi o caminho até ela e como se sentem a respeito numa época em que, cada vez mais, surgem boas casas de pequeno ou médio porte no País – como a 34, a Iluminuras e a Ateliê Editorial, só para ficar em três exemplos. Numa espécie de pesquisa informal, enviamos pequenos questionários a quase 70 escritores de todas as idades, dos quais 60 aceitaram participar. As questões foram feitas em cima do primeiro título lançado com distribuição nacional e grande alcance de divulgação. E que, na maior parte dos casos, não foi o primeiro que tiveram editado – Lya Luft, por exemplo, escreveu o primeiro livro 13 anos antes de chegar à Record, onde virou best-seller com As Parceiras, em 1980; Ana Miranda escreveu dois de poesias por editoras pequenas e ficou 10 anos retrabalhando o mesmo romance até enviar os originais de Boca do Inferno para a Companhia das Letras – foram mais de 200 mil exemplares desde 1989.

É claro, o caminho é bem mais rápido para quem não se dedica a outros trabalhos antes, como Lya, ou não se debruça tanto tempo sobre a mesma obra, como Ana. As duas, que estrearam em grande editora com 40 e 37 anos, respectivamente, estão acima da média de idade que os participantes da enquete tinham quando chegaram lá, 34 anos. Quase um quarto dos escritores (23%) conseguiu fechar um contrato no mesmo ano em que terminou de escrever o primeiro livro – apostas em iniciantes, como no caso dos autores editados por Paulo Pires, ajudam a engrossar esse número; prêmios literários e publicações anteriores de contos em periódicos e antologias também.

Mas um número parecido (20%) esperou mais de uma década desde as primeiras tentativas literárias até receber um convite de uma grande editora. Caso de gente como Affonso Romano de Sant’Anna (que esperou 22 anos até, aos 38, ter Poesia sobre Poesia publicado pela Imago), Cristovão Tezza (17 anos tendo obras recusadas até Traposair pela Brasiliense) e Marcelo Mirisola (15 anos escrevendo livros até ser convidado pela Record a lançar Joana a Contragosto).

Mas Mirisola, assim como Marcelino Freire e outros escritores, já era conhecido quando teve o romance editado pela maior editora do País. O reconhecimento chegou com Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, que a Estação Editorial, uma editora de médio porte, publicou em 1998. “No meu caso, não mudou nada”, diz o paulistano sobre o título que saiu pela Record. Tanto que, depois disso, voltou para uma editora média, a 34, e em breve terá um infantil (a quatro mãos com Furio Lonza) pela Barcarolla.

Indicações

Só quatro dos 60 autores (Mirisola, Ana Miranda, João Almino e Tiago Melo Andrade) disseram que recomendações feitas por outros escritores ou pessoas próximas não facilitam o caminho para um iniciante. Tirando um ou outro que preferiu não emitir opinião a respeito, a grande maioria respondeu ao Sabático que a indicação abre portas, sim – mas todos ressalvaram que apenas permite aos manuscritos uma mãozinha para chegar logo ao topo da pilha de originais. Vinte e um dos autores disseram que escreveram a convite – está certo que boa parte deles já era algo conhecida por textos em antologias, periódicos ou editoras pequenas. Outros 38 afirmaram que enviaram originais; desses, 24 conheciam o editor ou tiveram a tal recomendação, e os 14 restantes afirmaram só ter oferecido os originais nas editoras. E uma única, dentre os 60, recorreu a um agente – Ana Maria Machado, publicada pela Francisco Alves, uma das grandes em 1983. “Nos EUA, é mais comum iniciantes contratarem agentes. Por aqui é raro o autor se arriscar a pagar um agente sem a certeza da publicação; isso só costuma acontecer quando eles já estão com carreira mais estabelecida”, diz a editora Izabel Aleixo.

Por curiosidade, metade dos 38 autores que foram bem-sucedidos após enviar originais preferiram fazê-lo para uma só editora – uma espécie de ética que as casas publicadoras não exigem e que pode acabar sendo um problema para quem aspira ser editado. Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record, por exemplo, diz que não vê mais originais em papel não solicitados. “Não há como. Se vem um e-mail, a gente até se situa. Se achar que a carta está bem feita e que existe um mínimo de potencial, vai para leitura. Recebo uns 25 emails por mês, sem falar nos que recebem todos os outros editores, e uma quantidade absurda de papel que não serve para nada.”

Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco, diz que passam de 150 os originais que chegam por mês à editora. A Rocco não veta os que chegam em papel, mas exige que todos venham gravados em CD – se o autor quiser mandar a impressão em anexo, fica por conta dele. “E, vou te dizer uma coisa, 98% dos livros. logo nas primeiras páginas, senão na carta de apresentação, você vê que não é um livro de verdade. Não falo nem de regras gramaticais, e sim de um mínimo de estilo, de consciência literária”, diz Izabel Aleixo, ex-diretora editorial da Nova Fronteira, que acaba de assumir cargo na Paz e Terra. Isso faz com que bons livros se percam na montanha de aspirações literárias. E é aí que entra a recomendação. Não porque vá privilegiar alguém, mas porque permite a triagem.

Mas nem todos são adeptos da fidelidade. Elvira Vigna, ao terminar O Assassinato de Bebê Martê, abriu um catálogo do Snel (sindicato dos editores) e mandou uma cópia do romance a cada editora cujos nome reconheceu. Em menos de um mês, recebeu a resposta de uma das melhores do País, a Companhia das Letras. Nelson de Oliveira também mandou seus contos de estreia para cerca de 20 editoras, mas precisou esperar oito anos, ganhar um prêmio, o Casa de Las Americas, e ser recomendado por um dos jurados, Rubem Fonseca, para publicarpela mesma casa Naquela Época Tínhamos um Gato>. Hoje, voltou a publicar por pequenas editoras: “Não há mais muita diferença. Em geral, as pequenas se profissionalizaram.” Ignácio de Loyola Brandão, que mandou cópias de seu Depois do Sol para 13 editoras, recebeu cartas padrões de quase todas e uma que não esqueceu, da Civilização Brasileira: “O autor escreve como quem mija.” “Achei até que era elogio, mijar é um ato natural”, conta. Acabou sendo publicado logo pela Brasiliense – e o editor Caio Graco, lembra Ignácio, aceitou a obra sem nem fazer reparos de edição.

novosautores2 [Papo Cabeça] Mercado Editorial   O incerto caminho dos novos escritores até a publicação

Autores falam sobre o primeiro livro

“Já na Ateliê (de médio porte), com o Angu de Sangue, em 2000, minha vida literária mudou. Fui bastante resenhado, divulgado. Não sou desses que ficam com a bunda na cadeira, reclamando de editor”
Marcelino Freire

“As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo. Se fica mais fácil? Creio que sim. Mas não acho que no Brasil publicar seja problema. Isso é fácil. Difícil é vender”
Antonio Prata

“Aprendi que as pessoas não querem palpite nem sugestões, querem endosso e apadrinhamento. Qualquer restrição ou dica, por mínima que seja, é vista como ofensa e se ganha um desafeto”
Ana Maria Machado

“A passagem da Revan (de pequeno porte) para a Nova Fronteira não significou nada. Meu desempenho de público até piorou. Tanto que a Nova Fronteira não quis um segundo livro meu”
Alberto Mussa

“Aquele era o meu livro, era o livro possível, e se o editor fosse mais invasivo a obra não seria tão autêntica. Prefiro caminhar com as minhas próprias pernas e aprender com os meus próprios erros”
Adriana Lisboa

“A gente também passa a fazer outros trabalhos: textos de prosa e ficção para jornais, orelhas de livros, palestras. Para isso, é imprescindível ser publicado por uma grande editora, é evidente”
Cintia Moscovich

“Editoras grandes ajudam sobretudo em distribuição e divulgação, mas é precipitado dizer que necessariamente trazem mais público. Nada impede que isso seja alcançado em publicação independente”
Daniel Galera

“Quem leu (o primeiro livro que escrevi) achou péssimo e tive de concordar antes de enviar a qualquer editora. Mas todo livro é o primeiro. Já tive livros recusados depois de publicar o primeiro”
Bernardo Carvalho

“(A indicação) facilita o acesso à editora, mas não garante a publicação. É lenda achar que, por conhecer o autor ou ser amigo de alguém de seu círculo, o editor vai publicar o livro”
Cristovão Tezza

>> PAPO CABEÇA – por PDL


3%: PROGRAMA PILOTO DA SÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE

segunda-feira | 13 | junho | 2011

Está disponível no YouTube (
http://www.youtube.com/serie3porcento
), dividido em 3 partes, o programa piloto da série de ficção científica 3%, produção da Maria Bonita Filmes dirigida por Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com apoio do programa FICTV/Mais Cultura, do governo federal, a divulgação do piloto visa atrair patrocínio para continuidade da série a ser exibida na TV.

3% foi vencedor da Etapa I do edital de seleção de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TVs Públicas – FicTV / Mais Cultura (MinC), e vencedor da Mostra Competitiva de Pilotos Brasileiros na categoria Séries de Ficção, Festival Internacional de Televisão 2010.

Segundo Jotagá Crema, um dos diretores de 3%, a primeira temporada inteira da série já foi escrita: “estamos espalhando o piloto pela internet na esperança de conseguir um canal de TV interessado em exibir.” Informações detalhadas sobre a série podem ser procuradas no Facebook em
http://www.facebook.com/3porcento
.

A fábula de 3% se passa num futuro próximo cinzento, no qual as pessoas vivem divididas entre duas sociedades muito diferentes. Pressupõe-se que uma sociedade (o “Outrol Lado”), a dos “entrevistadores”, seja sensivelmente desenvolvida, enquanto a outra, dos “entrevistados”, seja extremamente atrasada. Impossível não lembrar da fronteira do México com os EUA ou das antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. O “Outro Lado” é a “terra dos sonhos” para os jovens que vivem em condições supostamente subumanas, porém apenas3% dos candidatos à imigração conseguem aprovação após uma série de testes rigorosos, ora bizarros ou simplesmente estúpidos. 97% fracassam, o que pode significar a própria morte no percurso de provações.

O piloto avança inicialmente sob o ponto de vista de uma jovem candidata. É dela a voz over que comenta e instrui o espectador acerca das peculiaridades de seu mundo. Ao fim do episódio-piloto, porém, essa “protagonista preliminar” está morta. Sua narrativa vai introduzir o que se supõe que sejam os protagonistas “verdadeiros”, um rapaz que fraudou seus documentos para conseguir ser aceito no processo de seleção, uma moça e um rapaz paraplégico. O futuro desses personagens vai depender do sucesso na captação de recursos para a continuidade da série.

3% é uma distopia futurista com ecos de 1984 (1948), de George Orwell, e Nós(1932), de Evgueny Zamiatin, além de um toque dos puzzle films ou séries de TV norte-americanas como Lost. A pouca originalidade do eixo temático é compensada pela promessa de um tratamento tipicamente brasileiro e contemporâneo. O piloto demonstra também a acuidade com que a série parece pretender não só tratar de uma longa tradição no universo da ficção científica (a do embate entre o indivíduo e sociedades tecnocráticas totalitárias), mas também urdir uma curiosa alegoria sobre o fantasma da burocracia que assola a sociedade brasileira desde o descobrimento.

Os cenários são essencialmente cinzentos, quase “monocromáticos”. Os figurinos dos candidatos a imigração lembram o dos trabalhadores do filme Metropolis(1927), de Fritz Lang, por sua vez inspirados nos coros expressionistas. Indivíduos massificados, mecanizados e sem identidade. “Números” vestidos em uniformes minimalistas padronizados. 3% aposta no minimalismo dos cenários, figurinos e diálogos, na intimidade das cenas, proximidade dos personagens. Minimalista também são os diálogos e o roteiro. O piloto acena com a possibilidade de uma série de ficção científica genuinamente brasileira e viável, livre da necessidade de efeitos especiais sofisticados que caracterizam os blockbustersamericanos. Nesse sentido, 3% parece corroborar a minha tese de que uma “terceira via” da ficção científica brasileira ainda seja possível, uma alternativa à “primeira” (a do cinema de grande orçamento, pleno de recursos tecnológicos) e à “segunda” via (a dos filmes B ou, por extensão, trash movies). Centrado num roteiro de suspense, 3% investe na mise-en-scène mais intimista dos espaços fechados e da ação baseada em diálogos.

Rodado com câmeras Red One com capacidade de resolução de 4K (aproximadamente 8 milhões de pixels), 3% é parcimonioso nos planos gerais com grande profundidade de campo, privilegiando closes ou planos mais próximos. Uma opção plenamente compreensível numa produção de recursos modestos que pretende lidar com temática fantástica.
>> CRONOPIOS – por Alfredo Suppia


FANTASIA BRASILEIRA GANHA PRÊMIO “REALMS OF FANTASY READERS’ CHOICE AWARD”

segunda-feira | 13 | junho | 2011

“The Fortuitous Meeting of Gerard van Oost e Oludara”, noveleta de fantasia baseada no Brasil colonial, recebeu mais uma honra este ano quando foi escolhida como melhor ficção publicada na revista Realms of Fantasy durante o ano de 2010.  A seleção foi feito pelos leitores, e a noveleta empatou a votação com outra noveleta, “Queen of the Kanguellas”, escrita por Scott Dalrymple.

A noveleta é a primeira em uma série intitulada A Bandeira do Elefante e da Arara, ou The Elephant and Macaw Banner, sobre dois aventureiros no Brasil do século XVI.  Esta primeira história está disponível no Brasil sob o título de “O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara” no livroDuplo Fantasia Heróica (Devir Livraria), junto com a noveleta “A Travessia” por Roberto de Sousa Causo.

A segunda noveleta da série tem lançamento marcado para agosto, também pela editora Devir Livraria. Mais informação sobre a série pode ser encontrada no site: www.eamb.org/brasil.

Christopher Kastensmidt batendo um papo
com escritor premiado Paolo Bacigalupi
e artista premiado Barry Deutsch


UNIVERSIDADE ESCOCESA INAUGURA MESTRADO SOBRE QUADRINHOS

segunda-feira | 13 | junho | 2011

“É, melhor começar a me preparar para as provas…”

Em setembro deste ano, a Universidade Dundee (sim, existe uma faculdade com esse nome), na Escócia, vai começar um curso de pós-graduação, digamos, único – um mestrado sobre quadrinhos. Entre os temas abordados na grade, haverá aulas sobre história das HQs, quadrinhos internacionais, prática criativa (em que o estudante cria sua própria história) e uma dissertação sobre o tema. De acordo com o site da BBC News, o programa de pesquisa da universidade foi criado por Chris Murray, uma das maiores autoridades britânicas sobre HQs.

Interessou? Então clique aqui para se inscrever e saber mais sobre a pós. O curso pode ser feito em um ou dois anos, dependendo da carga horária – o aluno tem a opção de estudar em meio período ou integral – e exige um certificado de proeficiência em inglês. Para estudantes internacionais, o custo total fica 9.500 libras (cerca de R$24.600, de acordo com o câmbio atual), sem hospedagem inclusa. É, meio caro. Você faria um curso como esse?
>> SUPER – por Cláudia Fusco


MARVEL E DC: QUADRINHOS NO SÉCULO ELETRÔNICO

segunda-feira | 13 | junho | 2011


A encruzilhada digital é implacável. Indústrias estabelecidas no século 20 graças à cultura de massas penam, no novo século, para se adaptar a uma realidade que celebra a cultura do nicho. Mais que isso, numa cultura digital, em que tudo pode ser copiado e reproduzido sem que o autor tenha controle da distribuição, fica cada vez mais complicado gerir um negócio que lide com a produção de conteúdo feita para milhões de pessoas. A indústria do disco sentiu isso na pele ao servir de boi de piranha digital quando assumiu o papel de primeiro antagonista da web e processou quem baixava MP3 sem pagar.

Hollywood sente dolorosamente essa mudança, quando o download de filmes via torrent a obrigou a apostar em superproduções e em novas tecnologias, como as salas Imax e 3D. Emissoras de TV do mundo inteiro veem suas programações escoarem para fora da grade rumo ao YouTube. Música, cinema e TV estão sempre nas notícias quando se fala nesse assunto, mas uma indústria que é a cara do século 20 e está quase sempre à margem dessa discussão vem penando para retomar sua importância na era digital: os quadrinhos.

E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC, editoras que criaram o conceito de super-herói moderno. A primeira tem se mexido drasticamente para continuar relevante nos dias de hoje, principalmente longe das revistas. Seu principal feito foi se transformar em estúdio de cinema para levar seus personagens para um público que não lê páginas em papel. A Marvel também pulou no iPad na primeira hora, criando um dos aplicativos mais festejados logo que o tablet apareceu. Mas a conta ainda não fechou – e a Marvel continua em busca de alternativas para fazer suas histórias em quadrinhos sobreviverem no século 21.

Sua principal rival, a DC, começou a se mexer de verdade na semana passada, quando anunciou que iria zerar sua linha de super-heróis e recomeçar a contagem de suas revistas, todas com um novo número 1. Não é a primeira vez que a editora que inventou o Super-Homem e o Batman tenta isso. Nos anos 80, conseguiu reiniciar seu universo com a saga Crise nas Infinitas Terras, em que permitiu que seus heróis pudessem fazer sentido no fim do século passado. O novo reinício mira no digital.

Além dos novos números 1, a editora deverá publicar, digitalmente, as mesmas histórias exatamente no dia em que elas chegam às bancas. O preço deverá ser mais barato que o das versões impressas, pois a editora quer que seu novo público volte para o papel uma vez que sentir o gosto dos novos títulos online. Mas isso pode dar bem errado, já que, assim, eles podem matar um de seus principais redutos, que são as lojas de quadrinho – como a música online fez com as tradicionais lojas de disco. A estratégia trará novos leitores se der certo. Mas se der errado, pode afugentar até os velhos. Ninguém disse que seria fácil.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Alexandre Matias


REBOOT NO UNIVERSO DC – UMA TRAIÇÃO PARA OS VELHOS LEITORES

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A DC Comics decidiu reiniciar toda a sua
linha de quadrinhos, começando em agosto.
Quais as razões para isso e qual a perspectiva
para os velhos DCnautas?

Não é raro que me perguntem por onde começar a ler HQs e a resposta sempre se torna complicada justamente por conta de questões envolvendo continuidade e cronologia, que são os maiores diferenciais dos quadrinhos das grandes editoras americanas. As histórias, via de regra, tem efeito permanente na vida daqueles personagens e devem ser levadas em conta pelos roteiristas que vierem a trabalhar com esse ou aquele título.

Isso acaba por funcionar como uma faca de dois gumes. Por um lado, temos um universo gigantesco de histórias, onde o leitor mais antigo se vê recompensado ao acompanhar por tanto tempo a vida desse ou daquele herói, sentindo que realmente faz parte do cotidiano dele. Por outro, acaba por engessar um pouco os criadores e dificulta a entrada de novos leitores para determinados títulos. 

Ou seja, não foi a troco de nada que a DC anunciou nesta semana que irá realizar em setembro um relançamento em seu universo de heróis, reiniciando todos os títulos publicados desde o número um, aproveitando o gancho da saga “Flashpoint”, publicada atualmente nos EUA. Há alguns anos, a Marvel Comics criou uma linha separada para versões atualizadas de seu panteão, mas manteve também a continuidade clássica. Ou seja, trata-se de a DC adotou um procedimento bem mais radical.

Personagens clássicos serão modificados e atualizados, tanto em seus uniformes quanto em suas histórias. 52 edições serão lançadas ao longo daquele mês, reapresentando os heróis ao público, com um universo redesenhado por novas equipes criativas, chefiadas por Geoff Johns (“Lanterna Verde”) e Jim Lee (“Batman – Silêncio”).

Não é a primeira vez que a editora faz isso. Em 1986, no auge de uma verdadeira balbúrdia que era o Universo (aliás, Multiverso) DC, foi lançada a maxissérie “Crise nas Infinitas Terras”, que enxugou os excessos de versões múltiplas de personagens e deu novas origens a alguns heróis e vilões. O resultado foi que a última história do Superman, “O Que Aconteceu ao Homem de Aço?”, escrita por Alan Moore foi seguida pela minissérie “Superman – O Homem de Aço”, versão de John Byrne para o nascimento do último kryptoniano e que foi a linha-base para os escritores até recentemente. Por sua vez, o Batman teve seu “Ano Um” narrado magistralmente por Frank Miller e David Mazzucchelli.

A questão aqui é que não foram as dobras cronológicas que levaram a DC a realizar esta manobra tão arriscada novamente, mas sim uma necessidade mercadológica. O público que vai sair dos cinemas após uma sessão de “Lanterna Verde” e for atrás de histórias do personagem, provavelmente se assustaria ao ver que teria de ir atrás de mais de 60 edições, mais infindáveis especiais e tie-ins para se inteirar das tramas. O gamer que acabou de zerar “Batman – Arkham Asylum” e que está na pilha para descobrir mais sobre o homem-morcego vai querer abrir uma HQ na qual Bruce Wayne é o Batman.

Interessante notar que a própria DC começou a lançar, em 2010, uma nova  linha de graphic novels chamada “Earth One”, cujo objetivo era justamente lançar versões contemporâneas dos seus principais heróis. Com o reboot na principal, o destino dessa alternativa editorial é incerto, mesmo com o roteirista J. Michael Straczynski (que escreveu o script do filme “A Troca“) tendo afirmado recentemente no Twitter que já estava terminando o roteiro do segundo livro da série “Superman – Earth One“.

Lembremos ainda que a DC agora é “DC Entertainment”, não estando focada apenas nos quadrinhos, mas em um mercado bem mais abrangente. Não é por acaso que, a partir desta mudança, as HQs da editora sairão simultaneamente em papel e em formato digital, oferecendo ao público, além das HQs de modo tradicional, a opção de compra das edições em combos digital + física, ou mesmo apenas as edições virtuais. Essa será uma mudança significativa para o modo de vendagem dos gibis, principalmente em tempos de iPhones e iPads.

Além disso, há outro fator a ser considerado: o processo movido pelos herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, com esse litígio ameaçando quebrar o personagem em dois, tendo em vista que a DC se torna dona de tudo o que veio APÓS a publicação da primeira “Action Comics”, mas os conceitos que tinham naquela publicação, como a capacidade de saltar grandes distâncias e a famigerada “cueca por cima das calças” ainda estão sob disputa. O celebrado autor Grant Morrison, responsável pela fantástica minissérie “Grandes Astros – Superman”será o responsável por revitalizar Kal-El.

No entanto, os fãs do casal Lois e Clark estão em pânico com uma provável dissolução de um dos casamentos mais duradouros dos quadrinhos e com uma possível aproximação entre o Homem de Aço e a Mulher-Maravilha (o primeiro a fazer piada sobre aquela música ridícula ganha uma viagem só de ida para a Zona Fantasma). Para quem já viu o Superman agüentando séculos “na seca” junto à bela Diana por pura devoção à sua amada esposa, será um golpe duríssimo (sem trocadilhos). Bom, pelo menos o Azulão não vendeu o casamento dele para o capeta, como um certo herói aracnídeo da Marvel…

Falando na Princesa Amazona, que teve seu uniforme redesenhado há alguns meses, as mudanças de figurino devem atingir as demais heroínas na DC. A ordem é que maiôs e meias-arrastão fiquem de fora dos guarda-roupas das vigilantes a partir de agora. Chora o nosso conterrâneo, o ótimo desenhista cearense Ed Benes, famoso por mostrar bem certos “detalhes anatômicos” das belas guerreiras em seus trabalhos para a editora.

Os leitores mais velhos – eu incluso – com certeza se sentirão traídos pelo investimento emocional jogado quase que no lixo, após de continuidade desconsiderados com este novo recomeço no Universo DC, sem contar a perda histórica para a já citada clássica Action Comics, que recentemente atingiu sua edição de número 900 e deverá voltar ao um.

Como vimos, há mais em jogo nessa decisão do que o coração de nós, fãs devotados. O que está na balança o próprio futuro financeiro e a rentabilidade dos heróis DC. O que resta para os fãs é rezar que as novas equipes criativas tragam boas histórias com nossos amados personagens, agora repaginados para um novo público.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Thiago Siqueira


“GARRA CINZENTA”: A PRIMEIRA HISTÓRIA EM QUADRINHOS DE TERROR DO BRASIL ESTÁ DE VOLTA

sexta-feira | 3 | junho | 2011

Garra cinzenta Ampliada

Se parar para pensar que em 1937 heróis comoBatman e Super-Homem ainda não existiam e que a Marvel nem havia sido fundada, o surgimento deGarra Cinzenta neste ano é nada menos que revolucionário.  Publicada pela primeira vez no jornal paulista A Gazeta, a obra é tida por muitos como a primeira HQ de terror do Brasil, já que traz no personagem-título um vilão insano e maquiavélico com face sinistra semelhante a uma caveira. Considerada uma das obras mais cultuadas, discutidas e pouco conhecidas da história dos quadrinhos no país, de acordo com vários estudiosos Garra Cinzenta  teria influenciado diversas HQs italianas e até a própria Marvel Comics, criada dois anos depois, através de sua exportação para países como México, França e Bélgica, onde fez grande sucesso.

Além do interesse despertado por seu conteúdo – roteiros baseados em filmes norte-americanos e desenhos inspirados no gênero noir -, a lendária história em quadrinhos têm diversos outros pontos intrigantes. Um deles é a identidade de seu autor, que até 2008 se acreditava ser de um jornalista chamado Francisco Armond, mas que na verdade se tratava do pseudônimo de Helena Ferraz de Abreu, diretora da Livraria Civilização e dos jornais Gazeta de São Paulo e Correio Universal. Livro com valor de documento histórico não apenas para os quadrinhos mas para a reconstrução do passado brasileiro, Garra Cinzenta ganha merecida edicação de luxo pela Conrad, já disponível no site da editora por R$ 39,90.
>> OS ARMÊNIOS – por Fone Bone


CRIAÇÃO E EVOLUÇÃO DAS HISTÓRIAS EM QUADRIHOS

sexta-feira | 3 | junho | 2011

Hogan’s Alley foi pioneira na produção de histórias em quadrinhos, seu personagem principal Mickey Dugan, mais conhecido como The Yellow Kid, foi quem estreou o artifício de usar balões para mostrar a fala dos personagens, apesar de o garoto se comunicar mais através das mensagens escritas em sua roupa. The Yellow Kid, uma criança dentuça que estava sempre sorrindo e vestindo um pijama amarelo, foi uma das primeiras HQs a ser impressa em cores. Sua primeira tira, criada pelo artista Richard Felton Outcault, apareceu em 1894, com publicações esporádicas na revista Truth. Um tempo depois, o garoto passou a ser desenhado por George Luks e foi extinto em 1898, com um período de vida curto mas muito marcante e inovador.

Hoje, a história em quadrinhos já reivindica para si o título de 8ª arte do século, colecionando admiradores dos mais diversos personagens no mundo todo. Em 1969, Rogério Sganzerla e Álvaro de Moya produziram um pequeno documentário que sintetiza a criação e a evolução das histórias em quadrinhos, desde Yellow Kid até Spirit. Assista abaixo:
>> EDITORA EVORA – da Redação


LITERATURA FANTÁSTICA: A HORA DO ESPANTO

segunda-feira | 23 | maio | 2011

Autores gaúchos tentam, na raça,
popularizar a literatura fantástica no Estado

Eles não têm medo de assombrações. E, se for o caso, não hesitam em escrever sobre elas – ou sobre vampiros, bruxas, ETs e até entidades do folclore campeiro

São os exemplares heroicos mas cada vez mais numerosos de uma geração de escritores que quer quebrar o preconceito contra a literatura de gênero produzida no Estado. Uma turma – porque não são um movimento – interessada não apenas em ser uma “cena”, mas em chegar ao público.

Depois que Harry Potter e a saga Crepúsculo ampliaram ao longo da última década e meia o alcance da literatura fantástica para milhões, esse tipo de narrativa se popularizou também no Brasil – chamando atenção mesmo para autores que já estavam por aí bem antes, como o paulista André Vianco, campeão nacional de vendas com histórias de vampiro anos antes da saga Crepúsculo.

– Para surgirem publicações de fantasia, é preciso uma geração de editores que cresceram lendo fantasia. Cada geração tem potencial para formar a próxima, ainda maior. A fantasia épica chegou mais tarde ao Brasil. Surgiram umas poucas editoras nos anos 80 e 90, que fomentaram as editoras novas que estão agora publicando as suas próprias obras. Imagino que a geração Harry Potter vá aumentar ainda mais este fenômeno – diz Christopher Kastensmidt, americano residente em Porto Alegre e conhecedor de ambos os mercados, o de lá e o daqui.

No Rio Grande do Sul, os últimos anos viram surgir antologias voltadas para a literatura de gênero. A série Ficção de Polpa, da Não Editora, organizada por Samir Machado de Machado e já em seu quarto número, é uma delas. As Sagas, da Editora Argonautas, fundada pelos também escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, estão no segundo volume. Ambas apresentam contos de autores locais e nacionais, oferecendo um panorama abrangente da ficção de gênero no Brasil. São experiências que podem ajudar a quebrar a grande barreira entre os autores e o público – erguida principalmente pelos problemas de distribuição e edição do mercado literário tradicional.

– As novas editoras usam a inteligência para ocupar o vácuo deixado pelas grandes. São espaços que outrora foram ocupados por escritores famosos que vendiam muito literatura fantástica, como Cortázar ou Borges. Na ausência de novos grandes, as editoras acabam se contentando com relançamentos. É aí que entram as pequenas, lançando autores menos conhecidos, com contos inéditos para alimentar os apreciadores de novidades do gênero – diz Cleo de Oliveira, autor de Descontágio (Scortecci Editora) – livro em que alguns contos se valem de recursos do fantástico.

As vertentes da fantasia no Estado vão desde jovens escritores que criam histórias usando os temas recorrentes na atual ficção internacional de gênero, como vampiros, seres imortais ou anjos, a autores que aproveitam a realidade nacional e os temas de seu folclore para criar sua narrativa. Kastensmidt foi recentemente indicado ao Nebula, um dos prêmios internacionais mais importantes dedicados à literatura fantástica, narrando o encontro de um aventureiro holandês com o Saci-Pererê no Brasil do século 17. Outra autora que se utiliza da matriz local para contar suas histórias é Simone Saueressig, nascida em Campo Bom mas residente hoje em Novo Hamburgo. Seu recentemente lançado Aurum Domini: o Ouro nas Missões (Artes & Ofícios), é uma aventura histórica passada no século 19 que explora a lendária fortuna em ouro supostamente guardada pelos jesuítas nas missões.

– Tenho confiança no valor do nosso material próprio, nosso folclore, nossa história. Nossas lendas são um material tão rico quanto qualquer outro para se fazer literatura. Sempre tenho aquela noção de que um livro estrangeiro vem cheio das noções de moral, de honra, de postura política do país ou do segmento em que ele foi escrito. Então creio que nós autores nacionais temos de apresentar nossa visão, também, como espécie de resposta – diz Simone.

Rede macabra
Internet concentra os debates e populariza a literatura fantástica
Dois fenômenos formam o eixo da literatura fantástica produzida no Estado: o uso da internet como ferramenta de divulgação e um bom número de trabalhos produzidos por autores do Interior. Ambos estão relacionados: com a rede, quem produz fora da Capital ganha leitores e se sente encorajada a continuar produzindo.

Muitas das publicações de e sobre literatura fantástica no Estado estão na internet. Uma das mais conhecidas revistas virtuais sobre o gênero é a Fantástica, editada por um escritor que trabalha em Porto Alegre e mora em Sapucaia: Luiz Ehlers, 30 anos. A Fantástica traz resenhas, ensaios e reportagens com foco na ficção produzida exclusivamente no Brasil, de sucessos como André Vianco, Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e Rafael Caldela (gaúcho autor da série Tormenta, da editora Jambô), até jovens cuja repercussão ainda se dá principalmente no universo online. Conta, também, com articulistas de todo o Brasil.

– Muitos colaboradores ficaram surpresos quando a revista surgiu, acharam estranho que uma iniciativa dessas fosse editada aqui em vez de em São Paulo, por exemplo – diz Ehlers, engenheiro-químico de formação mas escritor fantástico por opção.

A Fantástica é um dos elementos mais visíveis de um fenômeno com a marca da web: a proliferação de fóruns, revistas, portais e blogs que servem como espaço de crítica e reflexão sobre a literatura de gênero à margem da grande imprensa. Feitos na base da paixão comum, muitos desses sites angariam colaboradores de todo Brasil e são mantidos por gente jovem disposta a compartilhar suas leituras. É o caso do Sobre Livros, blog editado desde 2009 por dois jovens da cidade de Encantado: os gêmeos Tiago e Rafael Casanova, 22 anos. O blog tem parcerias com editoras e funciona como um portal do cenário nacional da ficção de fantasia – no espírito “faça você mesmo” que caracteriza a geração das redes sociais:

– Planejávamos criar uma rede social literária e constatamos que não havia muitos sites voltados apenas para literatura de gênero no país. Nenhum dos poucos sites encontrados preenchia os requisitos pensados por nós, decidimos criar o Sobre Livros, para tentar conseguir e propagar essas informações – dizem ambos, em entrevista por e-mail.

A rede também tem servido para publicar – há um bom número de obras publicadas diretamente na internet. Vencedor do Fumproarte para um financiamento do seu primeiro livro, a fantasia infanto-juvenil O Rei e O Camaleão, Christian David, 38 anos, publicou recentemente uma antologia online e gratuita de ficção fantástica local: O Mal Bate à sua Porta.

– O potencial da internet ainda engatinha na literatura. A parceria com os blogs é interessante, porque eles fazem um trabalho de divulgação muito joia que dá visibilidade ao autor. No portal Skoob 50 leitores resenharam meu primeiro livro, espontaneamente – diz David.
>> ZERO HORA – por Carlos André Moreira


“HEGEMONIA”: PROJETO QUE LEVA FICÇÃO CIENTÍFICA PARA SALAS DE AULA GANHA PRÊMIO SOCIOAMBIENTAL

segunda-feira | 23 | maio | 2011

O projeto “Pensando o futuro de Macaé” da Secretaria de Educação ganhou, nesta quinta-feira, 19 de maio, o Prêmio de Responsabilidade Social da Revista Visão. A cerimônia ocorreu às 19h na Cidade Universitária no último dia da IV Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos com as presenças de Fernanda Falquer (Onip), Rita Bersot (Acim), Aristóteles Riani (Sebrae-RJ), Gustavo Miguelez (Instituto Crescer), Rita Ippolito (consultora) e dos realizadores do Prêmio, os diretores da Revista Visão Socioambiental Bernadete Vasconcellos e Martinho Santafé, além do secretário de Meio-Ambiente, Maxwell Vaz, que entregou o prêmio, e da vice-prefeita, Marilena Garcia.

O projeto foi criado pelo escritor e jornalista Clinton Davisson em 2009 e visa o incentivo da leitura em salas de aula através da ficção científica e propondo conexões interdisciplinares envolvendo língua portuguesa, literatura, ciências, educação artística, geografia e história.  Tudo isso a partir de seu livro “Hegemonia – O Herdeiro de Basten”, que é considerado um dos mais importantes do gênero escrito no Brasil. “A idéia veio durante um encontro durante um evento  em São Paulo, chamado Fantasticon, onde foi sugerido que o caminho, para os escritores de fantasia e ficção científica no Brasil, estava em buscar uma interação maior com as salas de aula para formar novos leitores. Depois de uma experiência bem sucedida em Rio das Ostras, a idéia cresceu e tomou proporções maiores em Macaé e o livro está em todas as 110 escolas do município. Podemos citar o diretor de cinema, Ed Wood, quando digo que devemos incentivar nossos estudantes a começar desde cedo a pensar no futuro, porque é lá que passarão o resto da vida deles”, conta Clinton que dedicou o prêmio à coordenadora de Leitura da Secretaria de Educação, Maria Georgina de Sousa. “Ela leu o livro e se empolgou muito. Organizou as visitas em sala de aula, falou com professores das bibliotecas escolares e convenceu a todos que era possível. Sem ela, a coisa não decolaria do jeito que decolou”, completa.

Em novembro de 2010, o projeto já havia ganhado em São Paulo o prêmio Mary Shelley por incentivo a leitura de ficção científica em salas de aula. A entrega foi realizada durante o maior encontro nacional de aficionados do gênero. Este ano, o projeto entra em nova fase e lançará um concurso de contos entre os alunos com o tema: “Como será Macaé no futuro”.

O livro mistura fantasia e ficção científica ao contar a história de um jovem que estudou em uma civilização avançada durante anos e depois retorna para seu planeta subdesenvolvido e  participa de uma guerra que envolve humanos, sereias, fadas e dragões. O autor afirma ter se baseado na própria vivência em Macaé para criar a obra, que conquistou elogios internacionais e ganhou prêmios em todo o Brasil, incluindo o prêmio Nautilus da revista Scifi-News.

A vice-prefeita, Marilena Garcia, ressaltou a importância de reflexões sobre o futuro do município. “O petróleo é um recurso limitado. Mesmo com as novas descobertas do pré-sal, que propicia uma sobrevida, temos que pensar em alternativas para o futuro de nossa cidade. Isso é obrigação de cada cidadão que vive aqui”, diz.
>> PURPLEALIENS – por Equipe Semed


INDICAÇÕES FANTÁSTICAS: “CYBER BRASILIANA”, DE RICHARD DIEGUES, ESTREIA NOVO PROGRAMA

segunda-feira | 23 | maio | 2011

A escritora Carol Chiovatto colocou no ar na Revista Fantástica sua nova coluna: INDICAÇÕES FANTÁSTICAS.

Trata-se de um projeto que pretende indicar livros em forma de resenha/entrevista em vídeo com os autores dos livros.

Os vídeos terão periodicidade quinzenal, alternando com textos.

Indicações Fantásticas 01


O QUE É MAINSTREAM?

domingo | 22 | maio | 2011

O conceito de “mainstream” literário é tipicamente um conceito da mentalidade norte-americana. O primeiro indício disto é que até hoje não temos um termo brasileiro que o exprima. Há quem use “corrente principal” (que parece jargão de engenharia elétrica), “tronco literário” (idem da engenharia florestal). Eu uso geralmente um circunlóquio como “a literatura propriamente dita”, que me parece horrivelmente vago. “Mainstream” é usado em inglês para exprimir um modo como os norte-americanos visualizam a literatura: um enorme rio que tem uma correnteza principal, como o Nilo, e que como o Nilo se subdivide eventualmente num delta de correntezas menores, que seriam os gêneros (policial, terror, amor, faroeste, etc.), as quais, contudo só existem porque são um mero desvio de uma parte das águas dessa correnteza maior, que é o rio propriamente dito.

Quando os norte-americanos falam “mainstream” eles estão querendo dizer algo como: “o moderno romance realista urbano, que descreve a vida de tipos humanos reconhecíveis em ambientes humanos reconhecíveis, e que nos faz revelações sobre a estrutura sócio-histórica-econômica do ambiente, e sobre o perfil psicológico dos personagens”. Este é o modelo literário dominante no mundo ocidental, desde a crítica literária da imprensa e dos jornais aos estudos universitários. O fato de corresponder a uma fatia muito estreita da produção literária não tem importância. A “corrente principal” não é principal por causa da quantidade, mas por causa do seu mero poder de se impor como modelo. Esse tipo de livro tem credibilidade e poder político, um poder meramente espiritual, mas nem por isto menos poderoso. Tem a maioria dos críticos, dos professores e dos acadêmicos ao seu lado. E é um modelo que vem sendo aperfeiçoado há pelo menos duzentos anos.

No Brasil, esse mainstream se divide no realismo social-histórico e no realismo psicológico. Quando um autor pertencente a uma destas tendências começa a exagerar certos traços, começa a se desprender do mainstream. Rubem Fonseca, por exemplo, volta e meia parece estar sendo empurrado para o gueto da literatura policial, mas sempre retorna à corrente principal. (Entre outras coisas, porque a crítica não quer abrir mão dele.) Como o brasileiro culto tem obsessão por História, o romance histórico é entre nós parte do mainstream, e não da literatura de gênero.

Quando é que um conjunto de textos sai do mainstream e constitui um gênero? Eu diria que é quando ele cria um público próprio, um mercado próprio, um sistema de feedback (críticas, resenhas, publicações) próprio e passa a não precisar do sistema do mainstream. Ocorreu isso com a ficção científica dos EUA, e é irônico que ela, depois de se tornar independente do sistema maior, sofra hoje a nostalgia de não ser aceita por ele. Isso se dá provavelmente porque o mercado (apesar de imenso, comparado ao brasileiro) é pequeno, comparado ao mercado mainstream norte-americano.
>> MUNDO FANTASMO – por Bráulio Tavares


RAPHAEL DRACCON LANÇA LIVRO EXCLUSIVO EM PORTUGAL

sexta-feira | 13 | maio | 2011

O autor brasileiro Raphael Draccon, 29 anos, da trilogia de fantasia Dragões de Éter (Editora Leya) lançou o livro Espíritos de Gelo, criado exclusivamente para GaiLivro de Portugal.

Raphael  é o primeiro autor da nova geração brasileira de ecritores de fantasia a publicar na Europa. A proposta da editora é montar uma série de terror inspirada em lendas urbanas, com livros e preços populares (€ 7.90) e com um design estilo “old school”.

O livro faz parte de uma nova coleção intitulada “Mitos Urbanos” que a editora portuguesa desenvolveu, e foi apresentado na Feira do Livro de Lisboa (
http://www.feiradolivrodelisboa.pt/
) no espaço LeYa. O evento contou com a presença do autor portugues Fernando Ribeiro, um dos autores portugues dessa coleção. No evento também foi transmitido um vídeo do Raphael contando um pouco sobre o enredo do livro e sua carreira até o momento.

A Gailivro já publicou em Portugal títulos como Crepúsculo e Eragon.


Sobre o livro:
Um homem acorda acorrentado com os braços para cima em uma sala escura, com dois torturadores vestidos com detalhes masoquistas ao lado e um interrogador baixinho, com a cabeça desproporcional ao corpo, vestido com roupas sociais e uma camisa surrada do Black Sabbath.

Eles o informam que ele acordou em uma banheira sem um rim e sofreu um choque amnésico, que o impede de lembrar os detalhes. Assim sendo, eles partem do princípio de que outros choques traumáticos podem desbloquear essas memórias, se necessário. E em meio ao interrogatório, se iniciam as piores partes.

O livro faz referências à lenda urbana da banheira de gelo, às lendas ao redor da história do rock’n roll e até às motivações e psicologia ao redor da própria criação de lendas desse tipo.


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