POR QUE, AFINAL, A LITERATURA BRASILEIRA NÃO VENDE? E POR QUE VENDERIA?

quarta-feira | 16 | janeiro | 2013

Lit bras

1. Um problema de sintonia

“Eles não chegam lá”: o título da esclarecedora matéria de Marco Rodrigo Almeida na capa da Ilustrada(Folha da S. Paulo03/01/2013) sintetizaum dado revelador do velho problema da produção e do consumo literários brasileiros. Enquanto os livros de não-ficção mais vendidos no país são predominantemente brasileiros, os de ficção são estrangeiros: as ficções nacionais encalham. Por quê?

É relativamente fácil compreender o predomínio de autores nacionais na não-ficção: eles costumam tratar de temas nacionais (embora isto não seja necessário, ou necessariamente positivo, pois no limite denota provincianismo), de imediato interesse local. A biografia de um bilionário nativo desperta mais interesse, por exemplo, do que o debate sobre o controle (ou o descontrole) de armas nos EUA. Além disso, como afirma Pascoal Soto, diretor-geral da Leya,

Na não-ficção encontramos autores dispostos a atender à demanda do grande público. Eles abordam temas interessantes [principalmente no sentido acima comentado] e escrevem de forma acessível. Já os romancistas escrevem para os amigos, para ganhar o Nobel de literatura.

A primeira parte da resposta parece verdadeira, mas a segunda, por força da ironia, acaba por ocultar as coisas. Os romancistas brasileiros escrevem, de fato, “para os amigos”, mas não como motivo primário. Na verdade, eles não escrevem para o público, que desprezam.

Esse desprezo pelo público se manifesta reiteradas vezes na matéria secundária à de capa (“Ficção perdeu os leitores, diz o autor de ‘O Filho Eterno’”, p. 3). O que não se compreende: pois as afirmações dos autores não são exatamente sofisticadas.

“O autor que se guia pelas tendências do mercado deixa de ser um artista para ser um comerciante” (Marçal Aquino)

“O que é bom não vende muito. O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade” (Sérgio Sant’Anna)

“Há um sério problema de falta de sintonia entre o grande público e os escritores brasileiros” (Nelson de Oliveira)

“Nós perdemos o leitor depois dos anos 1970, quando a universidade passou a dominar a literatura. Houve uma poetização da prosa, a narrativa clássica implodiu. [...] Se vender, ótimo. Mas ficar obcecado com isso pode envenenar o autor” (Cristovão Tezza)

A frase de Marçal Aquino é um velho clichê tardorromântico, que pressupõe a pureza espiritual do artista contra a impureza materialista do vil comerciante e, portanto, esquece, por exemplo, que Michelangelo e Da Vinci trabalhavam sob encomenda. Também esquece a “perda da inocência” ao longo de todo o século XX. A afirmação de Sérgio de Sant´Anna, por outro lado, é mais direta, e também mais desleixada: “O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade”. O pessoal não tem nível intelectual? E se, para Pound, o artista era a antena da raça, para Nelson Oliveira é uma espécie de rádio, com um “sério problema de falta de sintonia” com o público. Já Cristóvão Tezza, antes de repetir o clichê de Aquino, parece confundir os anos 1970 com os anos 1920: a “poetização da prosa”, assim como a “explosão da narrativa clássica”, aconteceu cinquenta anos antes do que afirma. De qualquer modo, pouco poderia explicar das circunstâncias contemporâneas.

2. Gênio pobre versus vendilhão rico

O problema, em todo caso, estaria na defasagem entre o gosto médio do público por uma literatura igualmente média e a insistência dos ficcionistas brasileiros em criar uma literatura “sofisticada”. Isto geraria uma demanda sempre insatisfeita, de um lado, e uma oferta sempre insatisfatória, de outro. Pois a literatura “sofisticada” satisfaria apenas a demanda pessoal do próprio produtor, ignorando a demanda pública dos consumidores. Se fosse verdade, tratar-se-ia de um clássico problema de oferta. Neste caso, as próprias leis do mercado se encarregariam de solucioná-lo. Pois não é de se crer que o Brasil só produza candidatos a gênio literário, e nunca escritores que desejam simplesmente ficar ricos.

Prova disso é o mais rico escritor brasileiro – apesar de não se tratar, de fato, de um escritor. Refiro-me a Paulo Coelho. Ele não é um escritor porque escrever não é juntar palavras. Ou seja, juntar palavras não é suficiente. Por isso a lista telefônica não é literatura. Nem é literatura o que ele produz, pois literatura é trato com a linguagem verbal, de um lado, e trato da realidade pelo trato da linguagem verbal, de outro, e Coelho não faz uma coisa nem outra (operando por ocultamento do ocultamento, ao usar e abusar de clichês como se fossem obra sua, ou seja, por mera apropriação e reutilização do usado, abusado e gasto). Em todo caso, de seu sucesso comercial se concluiria que o gosto médio do público idem está de fato abaixo da média. Isto deixaria qualquer tentativa verdadeiramente literária de se adequar a esse gosto fadada ao fracasso. Mas também deixaria sem explicação outros fenômenos comerciais: de um lado, livros complexos ou complicados como O nome da rosa, de Umberto Eco; de outro, a verdadeira literatura média, mais do que robusta em lugares como EUA e Europa.

O caso de livros complexos de sucesso comercial é relativamente fácil de entender: trata-se do conhecido fenômeno do “livro de prestígio”, ou seja, que se torna importante ter, mas não necessariamente ler. Livros complexos, como regra, de fato não são fenômenos comerciais. Mas isto ainda não explica tudo. Mesmo porque, autores muito complexos já foram muito populares.

O exemplo máximo é Shakespeare, dramaturgo de maior sucesso popular na Inglaterra elisabetana, que, evidentemente, pensava em seu público ao escrever, ainda que não para simplesmente satisfazer do modo mais fácil o gosto desse público. O problema não está, de fato, em optar entre o baixo gosto médio do público e a alta arte sutil do grande escritor, assim condenado, ou à subliteratura, ou à solidão de estufa das flores raras. O problema está na incapacidade dos escritores de encarar o problema em sua inteireza e na inteireza de sua complexidade.

O verdadeiro dilema aqui é shakespeariano: ter o público em pauta ao escrever, mas não para simplesmente satisfazer de modo fácil o gosto desse público. Como a resposta-padrão dos escritores brasileiros retira o público mágica e convenientemente da equação (afinal, é um público que não serve para sua literatura), essa resposta-padrão nada responde e nada pode responder.

3. Literatura de entretenimento versus entretenimento pela literatura

Pesquisas indicam que o Brasil leitor é dez vezes menor do que o Brasil real, ou seja, um país de 20 milhões de habitantes. Mas um país de 20 milhões de habitantes ainda é meia Argentina, ou meia Espanha. Teríamos então, apesar de tudo, de ter um mercado equivalente à metade do argentino ou do espanhol. Mas estamos a anos-luz disso. A pequenez do público leitor brasileiro é, em todo caso, relativa. E não explica a falta de uma produção literária brasileira que o supra. Mesmo porque, toda a discussão começa pelo fato de esse público leitor se alimentar de livros importados.

Qual a principal característica desses livros? Ao contrário de Paulo Coelho, eles são literatura – mas integrada ao entretenimento, que é entretenimento do público. Portanto, o público faz parte da equação literária. A literatura média é, de fato, literatura de entretenimento.

Shakespeare também era, em sua época, entretenimento. Balzac era igualmente, em seu tempo, entretenimento. O problema é que hoje a literatura que prevê e, portanto, entretém o público seria uma literatura inferior. Ou talvez não. Porque o público atual é maior e mais diversificado: logo, não há apenas uma literatura de entretenimento, aquela reconhecida por este nome.

À exceção do relativamente recente e efêmero fenômeno das “sagas literárias”, que tiveram origem com O senhor dos anéisde Tolkien, a literatura moderna, passada a exceção vanguardista dos modernismos, é dominada, desde meados do século XIX, por duas vertentes centrais, derivadas dos dois principais criadores dessa literatura, Balzac e Poe. Enquanto Balzac consolidou e refinou a prosa de ficção como principal instrumento para retratar a sociedade urbana, burguesa e industrial, capaz de dar conta de seus aspectos materiais, psicológicos e sociais, o equivalente da épica para os povos antigos, Poe criou a literatura policial. Toda ou quase toda a literatura moderna deriva ou de Balzac, ou de Poe, ou de ambos. Jorge Luís Borges, Georges Simenon, Graham Greene, Dashiel Hamett, Patrícia Highsmith e ainda Stephen King e John Grisham são filhos de Poe, enquanto Ernest Hemingway, Saul Bellow, Phillip Roth, Amós Oz, Ohram Pamuk, Salman Rushdie, Ian McEwan e uma vasta lista descendem de Balzac (as vanguardas deixaram poucos descendentes na ficção mainstream, à diferença da poesia e das artes plásticas). E todos eles, a seu modo, são literatura de entretenimento. Porque são entretenimento pela literatura.

4. Entretendo-se com os herdeiros de Balzac e Poe

O inglês Graham Greene é o autor de ao menos uma perfeita obra-prima, o pequeno romance Fim de caso, que retrata em cápsula o momento histórico de Segunda Guerra Mundial e ainda cria uma das mais poderosas histórias de amor da literatura contemporânea, além de discutir a questão da teodiceia (a justiça divina). Há no livro algo de Stendhal, algo de Balzac e algo de Dostoievski. Mas também há muito da moderna literatura, bem, média norte-americana, cujo representante maior é Hemingway, o grande consolidador da escrita direta, seca, “objetiva”. Hemingway, um escritor médio? Sim, ao menos se comparado ao seu contemporâneo Joyce. Ou a Proust. Fundindo tudo isso, o que Greene consegue é um livro que, de fato, entretém, no sentido de que lê-lo não gera as angústias estético-intelectuais de um Joyce, mas sim puro prazer de leitura, sem deixar, no entanto, de ser um denso alimento para a inteligência. Na verdade, por ser, afinal, um denso alimento para a inteligência, sem falar nos sentidos, na imaginação e na empatia com os personagens. Portanto, Greene é de fato literatura de entretenimento – ainda que num sentido muito diferente do mais que banal Harold Robbins. Georges Simenon também, obviamente. Bertrand Russell costumava lê-lo todas as noites, e não por ser soporífero, mas o contrário: por ter grande leveza de fatura sem perder a densidade de estrutura narrativa e psicológica. Além de romances policiais, Simenon foi ainda o autor de uma longa série que chamou de romans durs, ou “romances duros”, que guardam certas semelhanças, mantidas todas as diferenças, com o Fim de caso de Greene. A “dureza” psicológico-realista desses romances curtos, em que o personagem central sempre está em uma situação limite criada ou possibilitada por ele mesmo, e em relação à qual não sabe se quer se salvar ou se perder, não impede, ao contrário, o puro prazer da leitura. Isto também mesmo vale para Phillip Roth, o mais balzaquiano desses três (portanto, o que mais status de alta literatura possui). Portanto, Roth também é, afinal, entretenimento. Literatura de entretenimento não é o mesmo que literatura ruim.

A incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo bons e prazerosos é apenas a incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo prazeroso e bons. Eles são, como regra, chatos, porque, como regra, são pretensiosos. E são pretensiosos por ignorarem o público leitor. Se não o ignorassem, não poderiam ser chatos, sob o risco do fracasso. Cria-se assim uma literatura satisfeita para ninguém, ou quase ninguém. Satisfeita talvez, mas não satisfatória. A menos que se considere a criação literária um hobby, que, de fato, só interessa para quem o pratica. Mas se se pretende algo além de um hobby, a literatura não pode satisfazer somente quem se dedica a ela. O público tem de ser posto na equação. Ou nas equações. Pois há uma simples e uma complexa.

A simples é simplesmente apostar no pior, no mais fácil, no mais paulo-coelho. A complexa é buscar a síntese de Simenon, de Greene, mas também de Roth e McEwan, ou de Shakespeare e Balzac: não trair a inteligência criativa, inclusive ou principalmente ao conquistar, sem traí-la, um grande público. Este é o caminho dos grandes escritores, sejam mediamente grandes ou grandemente geniais.

Somando-se a todos os conhecidos problemas editoriais e educativos, do lado da criação literária, não há no Brasil um grande mercado consumidor de leitores médios porque não há uma grande produção de literatura média. E não há porque os escritores brasileiros confundem literatura média com literatura menor, enquanto buscam certa “alta” literatura que, ao prescindir do público mas não ser nem poder se de vanguarda, é na verdade autista.

5. O cadáver insepulto da literatura policial brasileira

Resta comentar o caso específico da virtual inexistência de uma literatura policial no Brasil. Logo, um dos principais gêneros da ficção moderna, toda a linhagem derivada de Poe, simplesmente inexiste. Rubem Fonseca tentou criar uma literatura parapolicial no país, que abandona qualquer investigação de um crime para se concentrar (literalmente, em contos densos e duros) nos próprios crimes. Funcionou, mas se esgotou no próprio autor, que em seguida tentaria romances de investigação mais convencionais, chegando a tentar firmar seu próprio investigador canônico, o Mandrake. Não funcionou.

Os motivos do fracasso ainda maior de um ficcionismo brasileiro da linhagem de Poe, em relação ao da linhagem de Balzac, não estaria em qualquer descompromisso autista dos autores com o público, mas em circunstâncias objetivas – que nada tem a ver, no entanto, com nossos velhos problemas educativos e editoriais.

Para que haja interesse dramático numa novela policial é necessário que exista, no mínimo, além do imprescindível crime misterioso, uma coleção mais ou menos sortida de suspeitos sem culpa formada, sobre os quais nenhuma acusação se poderia formular. Em consequência, continuam soltos, atrapalhando o mais que podem a ação da polícia. O detetive seguirá pistas falsas, embrulhar-se-á, cairá em armadilhas habilmente urdidas. Até que, ao cabo de duzentas e cinquenta páginas, a ação se esgota, os recursos do criminoso esgotam-se, as faculdades inventivas do autor também se esgotam, a nervosa expectativa do leitor já se acha quase esgotada – e então o mistério é esclarecido e o romance acaba.

Mas no Brasil as coisas não se passariam assim. Se o romancista não quisesse fazer obra inteiramente falsa, sem qualquer possibilidade de convencer o leitor, deveria criar sua hipótese dramática de acordo com o que de fato aconteceria no caso de um crime real: a polícia começaria prendendo todos os suspeitos. Haveria, quando muito, uma trágica descrição de espancamentos, interrogatórios, torturas físicas e notícias berrantes nos jornais.

O que dá vida, interesse dramático e consistência à novela policial é um jogo sutil de raciocínio e brilho mental, a luta surda e ágil travada entre o investigador e o criminoso. Como se fosse uma dança, em que os dois se perseguem, se esquivam, se abraçam e se confundem.
Vê-se, desde logo, em que impossibilidade esbarraria o romance policial no Brasil e em outros países, nos quais os processos criminais não sejam orientados pelo maior liberalismo, nos quais não se admita, no suspeito, um possível inocente, em vez de nele se pressupor – como é de uso entre nós – um criminoso potencial. Não importam os textos dos códigos de direito penal, porque o que interessa não é a aparência formal e teórica das leis, mas, sobretudo, uma questão de aplicação prática das mesmas. [...]
A novela policial só pode se desenvolver em países cujas instituições políticas e jurídicas se baseiam em normas essencialmente democráticas, isto é, em que haja um verdadeiro respeito pela pessoa humana. (Luís Martins, “Prefácio”, in Obras-primas do conto policial, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1964, pp. 7-9)

O diagnóstico parece consistente demais para estar errado. Além disso, explica o fenômeno que pretende explicar de modo suficiente. Então talvez estejamos condenados a jamais ter uma literatura policial robusta. Ora, esta é outra explicação para as ficções nacionais não venderem – além de explicar a dificuldade em explicar o problema. Pois ela é normalmente ignorada. Com isso, não se discute o caso específico da linhagem de Poe, virtualmente amputada da produção literária nacional. Acontece que essa linhagem responde por boa parte dos livros mais vendáveis nos mercados centrais.

Recentemente, vários autores policiais suecos conquistaram seu mercado interno para, em seguida, lançaram-se sobre o mercado mundial e, naturalmente, acabaram virando filme. Ou filmes. No caso da trilogia Millenium, de Stieg Larsson, seu primeiro livro teve uma versão cinematográfica sueca e outra inglesa. A inglesa é superior, tratando de modo mais lento e consistente as várias camadas de circunstâncias que constroem a história, acabando por envolver e revolver o negro passado pró-nazista de parte da elite sueca, que se liga diretamente ao sadismo dos crimes contemporâneos de um de seus descendentes. Portanto, o sadismo deixa de ser gratuito (mero chamariz de emoções fáceis do leitor idem), tanto em termos literários quanto sociais (a lição de Balzac): não se trata de um “simples psicopata”, no sentido de que sua psicopatia se autoexplica para ser, então, “retratada” pelo autor em detalhadas cenas de sangue. Pois outra característica importante das ficções de alguma qualidade é que elas, de um modo ou de outro, mantêm a história na mira, não para fazer “romances históricos”, mas romances robustos, inclusive policiais. Algo que os escritores brasileiros têm dificuldade de manipular.

Mas se não tivemos, não temos e provavelmente não teremos uma literatura policial, o peso da responsabilidade sobre os herdeiros tupiniquins de Balzac é ainda maior. Eles podem continuar a ignorar soberbamente o público, e com isso deixar o mercado para seus congêneres estrangeiros, enquanto modorram em seu “olímpico” isolamento satisfeito por prêmios literários locais de prestígio duvidoso, ou tentar o caminho do verdadeiro criador, que é o caminho difícil. E a dificuldade, aqui, não é criar pálidas obras “sofisticadas” de estufa (na verdade, isso não é tão difícil: basta ter muito tempo, muita paciência e algum talento), mas livros que os leitores queiram ler (caso contrário, por que os leriam?).

6. Epílogo

Durante muitos anos, falou-se em certo “padrão Globo de qualidade”. Mas ele nunca existiu. Apenas a ausência das TVs americanas e europeias, enquanto não chegaram aqui as TVs a cabo, permitiu a manutenção desse mito provinciano. A Globo sempre foi o que é, incapaz de ir além de novelas, BBBs, comédias do mais baixo nível e “especiais” especialmente bregas de fim de ano. A TV de qualidade, assim como o cinema de qualidade, tem de ser importada. O mesmo vale, afinal, para a ficção. Os escritores de fato ignoram o público, mas não porque se dedicam a criar uma alta literatura brasileira contemporânea (tão real quanto o “padrão Globo”), e sim porque são incapazes de se profissionalizar, segundo padrões internacionais modernos.

Costuma-se acreditar que existem incontáveis empecilhos objetivos a essa profissionalização (que não dependeria, portanto, da postura dos escritores): das condições do mercado editorial à educação pública, passando pelas instituições políticas, ao menos no caso específico da ficção policial, como descreve convincentemente Luís Martins. Além disso, como referido de início, não fosse assim, a lei da oferta e da procura se encarregaria de gerar escritores eficientes, ou seja, simplesmente profissionais, como o são os ficcionistas estrangeiros. Mas o domínio do mercado interno brasileiro de não-ficção por autores nacionais complica o quadro das explicações conhecidas. Se os autores nacionais de não-ficção vendem relativamente bem, ser um autor brasileiro e vender relativamente bem é objetivamente possível. E se o problema se concentra, assim, na ficção, o problema não está, apesar de tudo, na demanda, no consumo ou em suas condições, mas na oferta: os produtos nacionais oferecidos não agradam o público consumidor, digo, o público leitor. Quem compraria um carro nacional se pudesse comprar um carro importado superior pelo mesmo preço? O que vale para os carros vale para os livros. Mesmo porque, não é apenas o pior da literatura de entretenimento que vende bem no Brasil, como Cinquenta tons de cinza, mas também seu melhor, como Philip Roth. E não temos equivalentes nacionais nem para um para o outro, mas apenas uma ficção tão pretensiosa quanto amadora – ao menos no sentido incontornável de não ser obra de profissionais, que vivem de seu trabalho literário e dependem, portanto, do público. Sendo nossos ficcionistas, afinal, amadores, podem ignorar o público, que, por sua vez, os ignora.
>> SIBILA – por Luis Dolhnikoff



A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

QUEER_capa

A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael


A MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA DOS SÉCULOS XX E XXI

quinta-feira | 10 | janeiro | 2013
A revista Locus realizou em Novembro de 2012, através do seu website, uma série de votações de modo a apurar as melhores obras de ficção científica e de fantasia escritas nos séculos XX e XXI. Os resultados, divididos por categorias, podem ser visualizados abaixo:

Short Fiction Categories
20th Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Story of Your Life (1998)
2
Le Guin, Ursula K. : The Word for World Is Forest (1972)
3
Tiptree, James, Jr. : Houston, Houston, Do You Read? (1976)
4
Campbell, John W. : Who Goes There? (1938)
5
Varley, John : The Persistence of Vision (1978)
6
Wolfe, Gene : The Fifth Head of Cerberus (1972)
7
Leiber, Fritz : Ill Met in Lankhmar (1970)
8
Heinlein, Robert A. : The Man Who Sold the Moon (1950)
9
Kress, Nancy : Beggars in Spain (1991)
10
Moore, C. L. (& Henry Kuttner) : Vintage Season (1946)
11
Bujold, Lois McMaster : The Mountains of Mourning (1989)
12
Martin, George R. R. : A Song for Lya (1974)
13
Lovecraft, H. P. : The Shadow Over Innsmouth (1942)
14
Heinlein, Robert A. : By His Bootstraps
15
Simak, Clifford D. : The Big Front Yard (1958)
16
Sturgeon, Theodore : Baby Is Three (1952)
17*
Moorcock, Michael : Behold the Man (1966)
17*
Varley, John : PRESS ENTER[] (1984)
19
Willis, Connie : The Last of the Winnebagos (1988)
20
Vinge, Vernor : True Names (1981)
21
Vance, Jack : The Last Castle (1966)
22*
Crowley, John : Great Work of Time (1989)
22*
Zelazny, Roger : 24 Views of Mt. Fuji, by Hokusai (1985)
24*
Vance, Jack : The Dragon Masters (1962)
24*
Vance, Jack : The Moon Moth (1961)
26
Heinlein, Robert A. : The Unpleasant Profession of Jonathan Hoag (1942)
27
Longyear, Barry B. : Enemy Mine (1979)
28
Asimov, Isaac : The Martian Way (1952)
29
Farmer, Philip Jose : Riders of the Purple Wage (1967)
30
Zelazny, Roger : He Who Shapes (1965)
31
Chiang, Ted : Seventy-two Letters (2000)
32
Shepard, Lucius : R&R (1986)
33
Wolfe, Gene : The Death of Doctor Island (1973)
34
Delany, Samuel R. : The Star Pit (1967)
35
McCaffrey, Anne : Dragonrider (1967)
36
Resnick, Mike : Seven Views of Olduvai Gorge (1994)
37
Heinlein, Robert A. : Universe (1941)
38
McCaffrey, Anne : Weyr Search (1967)
39
Silverberg, Robert : Nightwings (1968)
40
Anderson, Poul : The Queen of Air and Darkness (1971)
41
Lovecraft, H. P. : The Case Of Charles Dexter Ward
42*
Howard, Robert E. : Red Nails (1936)
42*
Silverberg, Robert : Sailing to Byzantium (1985)
44
Brin, David : The Postman (1982)
45
Bear, Greg : Hardfought (1983)
46
Russell, Eric Frank : …And Then There Were None
47
Zelazny, Roger : Home Is the Hangman (1975)
48*
Haldeman, Joe : The Hemingway Hoax (1990)
48*
Wolfe, Gene : Seven American Nights (1978)
50
Lovecraft, H. P. : The Dream Quest of Unknown Kadath (1943)
20th Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1959)
2
Asimov, Isaac : Nightfall (1941)
3
Zelazny, Roger : A Rose for Ecclesiastes (1963)
4
Asimov, Isaac : The Bicentennial Man (1976)
5
Martin, George R. R. : Sandkings (1979)
6
Bester, Alfred : Fondly Fahrenheit (1954)
7
Ellison, Harlan : A Boy and His Dog (1969)
8
Bear, Greg : Blood Music (1983)
9
Butler, Octavia E. : Bloodchild (1984)
10
Godwin, Tom : The Cold Equations (1954)
11
Tiptree, James, Jr. : The Women Men Don’t See (1973)
12
Tiptree, James, Jr. : The Girl Who Was Plugged In
13
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1977)
14
Chiang, Ted : Tower of Babylon (1990)
15
Weinbaum, Stanley G. : A Martian Odyssey (1934)
16
Delany, Samuel R. : Time Considered as a Helix of Semi-Precious Stones (1968)
17
Dick, Philip K. : We Can Remember It for You Wholesale (1966)
18
Gibson, William : Burning Chrome (1982)
19
Lovecraft, H. P. : The Call of Cthulhu (1928)
20
Brown, Fredric : Arena (1944)
21
Blish, James : Surface Tension (1952)
22
Willis, Connie : Fire Watch (1982)
23
Ellison, Harlan : The Deathbird
24
Miller, Walter M., Jr. : A Canticle for Leibowitz (1955)
25
Zelazny, Roger : The Doors of His Face, the Lamps of His Mouth (1965)
26*
Smith, Cordwainer : The Ballad of Lost C’Mell (1962)
26*
Niven, Larry : Inconstant Moon (1971)
28
Kuttner, Henry [Lewis Padgett] : Mimsy Were the Borogoves (1943)
29
Niven, Larry : Neutron Star (1966)
30
Kelly, James Patrick : Think Like a Dinosaur (1995)
31
Zelazny, Roger : For a Breath I Tarry (1966)
32
Sturgeon, Theodore : Microcosmic God
33
McCaffrey, Anne : The Ship Who Sang (1961)
34
Asimov, Isaac : Foundation (1942)
35*
Dick, Philip K. : Second Variety (1953)
35*
Smith, Cordwainer : Scanners Live in Vain (1950)
37
Shepard, Lucius : The Man Who Painted the Dragon Griaule (1984)
38
Heinlein, Robert A. : –And He Built a Crooked House (1941)
39
Leinster, Murray : First Contact (1945)
40
Kornbluth, C. M. : The Little Black Bag
41*
Aldiss, Brian W. : Hothouse (1961)
41*
Heinlein, Robert A. : The Roads Must Roll (1940)
43
Kornbluth, C. M. : The Marching Morons
44
Sterling, Bruce : Swarm (1982)
45
Lovecraft, H. P. : The Dunwich Horror (1929)
46
Asimov, Isaac : The Ugly Little Boy (1958)
47
Zelazny, Roger : The Keys to December (1966)
48
Leiber, Fritz : Gonna Roll the Bones (1967)
49
Chiang, Ted : Understand (1991)
50*
Waldrop, Howard : The Ugly Chickens
50*
Le Guin, Ursula K. : Buffalo Gals, Won’t You Come out Tonight
20th Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Clarke, Arthur C. : The Nine Billion Names of God (1953)
2
Le Guin, Ursula K. : The Ones Who Walk Away from Omelas (1973)
3
Ellison, Harlan : ‘Repent, Harlequin!’ said the Ticktockman (1965)
4
Ellison, Harlan : I Have No Mouth, and I Must Scream (1967)
5
Clarke, Arthur C. : The Star (1955)
6
Bradbury, Ray : A Sound of Thunder (1952)
7
Heinlein, Robert A. : All You Zombies– (1959)
8
Gibson, William : Johnny Mnemonic (1981)
9
Tiptree, James, Jr. : The Screwfly Solution (1977)
10
Jackson, Shirley : The Lottery (1948)
11
Bradbury, Ray : There Will Come Soft Rains (1950)
12
Asimov, Isaac : The Last Question (1956)
13
Shaw, Bob : Light of Other Days (1966)
14
Vonnegut, Kurt : Harrison Bergeron (1961)
15
Heinlein, Robert A. : The Green Hills of Earth (1947)
16
Smith, Cordwainer : The Game of Rat and Dragon (1955)
17
Pohl, Frederik : Day Million (1966)
18
Ellison, Harlan : Jeffty Is Five (1977)
19
Clarke, Arthur C. : The Sentinel (1951)
20
Russ, Joanna : When It Changed
21
Tiptree, James, Jr. : Love Is the Plan the Plan Is Death (1973)
22
Delany, Samuel R. : Aye, and Gomorrah
23
Bixby, Jerome : It’s a Good Life (1953)
24
Bradbury, Ray : The Veldt (1950)
25
Varley, John : Air Raid (1977)
26
Le Guin, Ursula K. : The Day Before the Revolution (1974)
27
Bisson, Terry : Bears Discover Fire (1990)
28
Butler, Octavia E. : Speech Sounds
29
Asimov, Isaac : Robbie (1940)
30*
Bradbury, Ray : The Million Year Picnic (1946)
30*
Willis, Connie : Even the Queen (1992)
30*
Sturgeon, Theodore : The Man Who Lost the Sea (1959)
33
Leiber, Fritz : A Pail of Air (1951)
34
Sturgeon, Theodore : Saucer of Loneliness (1953)
35*
Davidson, Avram : Or All the Seas with Oysters (1958)
35*
Russell, Eric Frank : Allamagoosa (1955)
37
Card, Orson Scott : Unaccompanied Sonata (1979)
38
Martin, George R. R. : With Morning Comes Mistfall (1973)
39
Gaiman, Neil : A Midsummer Night’s Dream (1990)
40
Bester, Alfred : The Men Who Murdered Mohammed (1958)
41
Asimov, Isaac : Liar! (1941)
42
Egan, Greg : Learning to Be Me (1990)
43
Gaiman, Neil : Troll Bridge (1993)
44
Wolfe, Gene : The Island of Doctor Death and Other Stories
45*
Leiber, Fritz : Coming Attraction
45*
Silverberg, Robert : Passengers
47
Ballard, J. G. : The Terminal Beach
48
Bradbury, Ray : All Summer in a Day (1954)
49
Knight, Damon : The Country of the Kind (1956)
50
Sturgeon, Theodore : Thunder and Roses (1947)
21st Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Link, Kelly : Magic for Beginners (2005)
2
Stross, Charles : Palimpsest (2009)
3
MacLeod, Ian R. : New Light on the Drake Equation (2001)
4
Chiang, Ted : Liking What You See: A Documentary (2002)
5
Vinge, Vernor : Fast Times at Fairmont High
6
Reynolds, Alastair : Diamond Dogs (2001)
7
Willis, Connie : Inside Job
8
Stross, Charles : The Concrete Jungle (2004)
9
Baker, Kage : The Empress of Mars (2003)
10
Scalzi, John : The God Engines (2009)
11*
Gaiman, Neil : Coraline
11*
Vinge, Vernor : The Cookie Monster (2003)
13
Swirsky, Rachel : The Lady Who Plucked Red Flowers beneath the Queen’s Window
14
Le Guin, Ursula K. : The Finder (2001)
15
McDonald, Ian : The Little Goddess (2005)
16
Stross, Charles : Missile Gap (2006)
17
Chiang, Ted : The Lifecycle of Software Objects
18
Kelly, James Patrick : Burn (2005)
19*
Kress, Nancy : The Erdmann Nexus (2008)
19*
Chwedyk, Richard : Bronte’s Egg (2002)
21st Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Hell Is the Absence of God (2001)
2
Chiang, Ted : The Merchant and the Alchemist’s Gate (2007)
3
Gaiman, Neil : A Study in Emerald (2003)
4
Bacigalupi, Paolo : The Calorie Man (2005)
5*
Link, Kelly : The Faery Handbag (2004)
5*
Bacigalupi, Paolo : The People of Sand and Slag (2004)
7
Ford, Jeffrey : The Empire of Ice Cream (2003)
8
Stross, Charles : Lobsters (2001)
9*
Mieville, China : Reports of Certain Events in London (2004)
9*
Watts, Peter : The Island
11
Reynolds, Alastair : Beyond the Aquila Rift (2005)
12
Doctorow, Cory : When Sysadmins Ruled the Earth (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : Yellow Card Man (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : The Fluted Girl (2003)
15
Gregory, Daryl : Second Person, Present Tense (2005)
16*
Bacigalupi, Paolo : Pump Six (2008)
16*
Egan, Greg : Dark Integers
18
Beagle, Peter S. : Two Hearts (2005)
19
Gardner, James Alan : The Ray-Gun: A Love Story
20
Swirsky, Rachel : Eros, Philia, Agape
21st Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Exhalation (2008)
2
Lanagan, Margo : Singing My Sister Down (2004)
3
Gaiman, Neil : How to Talk to Girls at Parties (2006)
4
Watts, Peter : The Things (2010)
5*
Swanwick, Michael : The Dog Said Bow-Wow (2001)
5*
Le Guin, Ursula K. : The Bones of the Earth (2001)
7
Johnson, Kij : 26 Monkeys, Also the Abyss
8
Abraham, Daniel : The Cambist and Lord Iron (2007)
9*
Johnson, Kij : Spar (2009)
9*
Reynolds, Alastair : Zima Blue (2005)
11
Liu, Ken : The Paper Menagerie (2011)
12
Gaiman, Neil : October in the Chair (2002)
13
Resnick, Mike : Travels with My Cats (2004)
14
Ford, Jeffrey : Creation (2002)
15
Bear, Elizabeth : Tideline (2007)
16
Stross, Charles : Rogue Farm (2003)
17
McIntosh, Will : Bridesicle
18
Ellison, Harlan : How Interesting: A Tiny Man (2010)
19
Johnson, Kij : Ponies (2010)
20*
Fowler, Karen Joy : The Pelican Bar
20*
Fowler, Karen Joy : What I Didn’t See (2002)
Novel Categories
20th Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Herbert, Frank : Dune (1965)
2
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1985)
3
Asimov, Isaac : The Foundation Trilogy (1953)
4
Simmons, Dan : Hyperion (1989)
5
Le Guin, Ursula K. : The Left Hand of Darkness (1969)
6
Adams, Douglas : The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (1979)
7
Orwell, George : Nineteen Eighty-Four (1949)
8
Gibson, William : Neuromancer (1984)
9
Bester, Alfred : The Stars My Destination (1957)
10
Bradbury, Ray : Fahrenheit 451 (1953)
11
Heinlein, Robert A. : Stranger in a Strange Land (1961)
12
Heinlein, Robert A. : The Moon Is a Harsh Mistress (1966)
13
Haldeman, Joe : The Forever War (1974)
14
Clarke, Arthur C. : Childhood’s End (1953)
15
Niven, Larry : Ringworld (1970)
16
Le Guin, Ursula K. : The Dispossessed (1974)
17
Bradbury, Ray : The Martian Chronicles (1950)
18
Stephenson, Neal : Snow Crash (1992)
19
Miller, Walter M. , Jr. : A Canticle for Leibowitz (1959)
20
Pohl, Frederik : Gateway (1977)
21
Heinlein, Robert A. : Starship Troopers (1959)
22
Dick, Philip K. : The Man in the High Castle (1962)
23
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
24
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
25
Lem, Stanislaw : Solaris (1970)
26
Dick, Philip K. : Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968)
27
Vinge, Vernor : A Fire Upon The Deep (1992)
28
Clarke, Arthur C. : Rendezvous with Rama (1973)
29
Huxley, Aldous : Brave New World (1932)
30
Clarke, Arthur C. : 2001: A Space Odyssey (1968)
31
Vonnegut, Kurt : Slaughterhouse-Five (1969)
32
Strugatsky, Arkady & Boris : Roadside Picnic (1972)
33
Card, Orson Scott : Speaker for the Dead (1986)
34
Brunner, John : Stand on Zanzibar (1968)
35
Robinson, Kim Stanley : Red Mars (1992)
36
Niven, Larry (& Pournelle, Jerry) : The Mote in God’s Eye (1974)
37
Willis, Connie : Doomsday Book (1992)
38
Atwood, Margaret : The Handmaid’s Tale (1985)
39
Sturgeon, Theodore : More Than Human (1953)
40
Simak, Clifford D. : City (1952)
41
Brin, David : Startide Rising (1983)
42
Asimov, Isaac : Foundation (1950)
43
Farmer, Philip Jose : To Your Scattered Bodies Go (1971)
44
Dick, Philip K. : Ubik (1969)
45
Vonnegut, Kurt : Cat’s Cradle (1963)
46
Vinge, Vernor : A Deepness in the Sky (1999)
47
Simak, Clifford D. : Way Station (1963)
48
Wyndham, John : The Day of the Triffids (1951)
49
Stephenson, Neal : Cryptonomicon (1999)
50*
Delany, Samuel R. : Dhalgren (1975)
50*
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1966)
52
Bester, Alfred : The Demolished Man (1953)
53
Stephenson, Neal : The Diamond Age (1995)
54
Russell, Mary Doria : The Sparrow (1996)
55
Dick, Philip K. : A Scanner Darkly (1977)
56*
Asimov, Isaac : The Caves of Steel (1954)
56*
Banks, Iain M. : Use of Weapons (1990)
58
Strugatsky, Arkady & Boris : Hard to Be a God (1964)
59
Delany, Samuel R. : Nova (1968)
60
Crichton, Michael : Jurassic Park (1990)
61
Heinlein, Robert A. : The Door Into Summer (1957)
62
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
63*
Clarke, Arthur C. : The City and the Stars (1956)
63*
Banks, Iain M. : The Player of Games (1988)
65
Bujold, Lois McMaster : Memory (1996)
66
Asimov, Isaac : The End of Eternity (1955)
67
Stewart, George R. : Earth Abides (1949)
68*
Heinlein, Robert A. : Double Star (1956)
68*
Burgess, Anthony : A Clockwork Orange (1962)
70
Bujold, Lois McMaster : Barrayar (1991)
71*
Stapledon, Olaf : Last and First Men (1930)
71*
McHugh, Maureen F. : China Mountain Zhang (1992)
73
Cherryh, C. J. : Cyteen (1988)
74
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
75
Heinlein, Robert A. : Citizen of the Galaxy (1957)
20th Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Tolkien, J. R. R. : The Lord of the Rings (1955)
2
Martin, George R. R. : A Game of Thrones (1996)
3
Tolkien, J. R. R. : The Hobbit (1937)
4
Le Guin, Ursula K. : A Wizard of Earthsea (1968)
5
Zelazny, Roger : Nine Princes in Amber (1970)
6
Mieville, China : Perdido Street Station (2000)
7
Lewis, C. S. : The Lion, the Witch and the Wardrobe (1950)
8
Gaiman/Pratchett : Good Omens (1990)
9
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Philosopher’s Stone (1997)
10
Crowley, John : Little, Big (1981)
11
Adams, Richard : Watership Down (1972)
12
Martin, George R. R. : A Storm of Swords (2000)
13
Goldman, William : The Princess Bride (1973)
14
Beagle, Peter S. : The Last Unicorn (1968)
15
White, T. H. : The Once and Future King (1958)
16
Kay, Guy Gavriel : Tigana (1990)
17
Gaiman, Neil : Neverwhere (1996)
18
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
19
Vance, Jack : The Dying Earth (1950)
20
Bulgakov, Mikhail : The Master and Margarita (1967)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Goblet of Fire (2000)
22
Tolkien, J. R. R. : The Silmarillion (1977)
23
Leiber, Fritz : The Swords of Lankhmar (1968)
24
Jordan, Robert : The Eye of the World (1990)
25
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (1999)
26
Donaldson, Stephen R. : Lord Foul’s Bane (1977)
27
Bradbury, Ray : Something Wicked This Way Comes (1962)
28
Peake, Mervyn : Gormenghast (1950)
29
Powers, Tim : The Anubis Gates (1983)
30
Martin, George R. R. : A Clash of Kings (1998)
31
Bradley, Marion Zimmer : The Mists of Avalon (1983)
32
Hobb, Robin : Assassin’s Apprentice (1995)
33
Pratchett, Terry : The Colour of Magic (1983)
34
Holdstock, Robert : Mythago Wood (1984)
35
King, Stephen : The Stand (1978)
36*
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
36*
Pratchett, Terry : Small Gods (1992)
38
Howard, Robert E. : Conan the Barbarian (1950)
39
Ende, Michael : The Neverending Story (1983)
40
Peake, Mervyn : Titus Groan (1946)
41
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
42
Feist, Raymond E. : Magician (1982)
43
Orwell : George : Animal Farm (1945)
44
Silverberg, Robert : Lord Valentine’s Castle (1980)
45
Lovecraft, H. P. : At the Mountains of Madness (1936)
46
Swanwick, Michael : The Iron Dragon’s Daughter (1993)
47
King, Stephen : The Shining (1977)
48
Garcia Marquez, Gabriel : One Hundred Years of Solitude (1970)
49
Saint-Exupery, Antoine de : The Little Prince (1943)
50
Hughart, Barry : Bridge of Birds (1984)
51*
Rice, Anne : Interview with the Vampire (1976)
51*
King, Stephen : It (1986)
53
Stewart, Mary : The Crystal Cave (1970)
54
Mirrlees, Hope : Lud-In-The-Mist (1926)
55
Anthony, Piers : A Spell for Chameleon (1977)
56
Pullman, Philip : The Amber Spyglass (2000)
57
McKillip, Patricia A. : The Riddle-Master of Hed (1976)
58
Jackson, Shirley : The Haunting of Hill House (1959)
59
Brooks, Terry : The Sword of Shannara (1977)
60
Heinlein, Robert A. : Glory Road (1963)
61
Eddison, E. R. : The Worm Ouroboros (1922)
62
Le Guin, Ursula K. : Tehanu (1990)
63
Eddings, David : Pawn of Prophecy (1982)
64
Grimwood, Ken : Replay (1987)
65
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
66
Grahame, Kenneth : The Wind in the Willows (1908)
67
Anderson, Poul : The Broken Sword (1954)
68
Kay, Guy Gavriel : The Lions of Al-Rassan (1995)
69
Barker, Clive : Imagica (1991)
70
Jones, Dianna Wynne : Howl’s Moving Castle (1986)
71*
Donaldson, Stephen R. : The Chronicles of Thomas Covenant
71*
Burroughs, Edgar Rice : A Princess of Mars (1917)
73*
Leiber, Fritz : Our Lady of Darkness (1977)
73*
Le Guin, Ursula K. : The Earthsea Trilogy
75
Priest, Christopher : The Prestige (1995)
21st Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Scalzi, John : Old Man’s War (2005)
2
Stephenson, Neal : Anathem (2008)
3
Bacigalupi, Paolo : The Windup Girl (2009)
4
Wilson, Robert Charles : Spin (2005)
5
Morgan, Richard : Altered Carbon (2002)
6
Watts, Peter : Blindsight (2006)
7
Collins, Suzanne : The Hunger Games (2008)
8
Gibson, William : Pattern Recognition (2003)
9
Mieville, China : The City & the City (2009)
10
Stross, Charles : Accelerando (2005)
11
Mitchell, David : Cloud Atlas (2004)
12
McDonald, Ian : River of Gods (2004)
13
Simmons, Dan : Ilium (2003)
14
McCarthy, Cormac The Road (2006)
15
Harrison, M. John : Light (2002)
16*
Willis, Connie : Black Out/All Clear (2010)
16*
Chabon, Michael : The Yiddish Policemen’s Union (2007)
18
Niffenegger, Audrey : The Time Traveler’s Wife (2003)
19*
Ishiguro, Kazuo : Never Let Me Go (2005)
19*
Doctorow, Cory : Little Brother (2008
21
McDonald, Ian : The Dervish House (2010)
22
Vinge, Vernor : Rainbows End (2006)
23
Stephenson, Neal : The Baroque Cycle: The Confusion; The System of the World (2004)
24
Robinson, Kim Stanley : The Years of Rice and Salt (2002)
25
Mieville, China : Embassytown (2011)
21st Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Gaiman, Neil : American Gods (2001)
2
Clarke, Susanna : Jonathan Strange & Mr Norrell (2004)
3
Rothfuss, Patrick : The Name of the Wind (2007)
4
Mieville, China : The Scar (2002)
5
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Deathly Hallows (2007)
6
Martin, George R. R. : A Feast for Crows (2005)
7
Bujold, Lois McMaster : The Curse of Chalion (2001)
8
Mieville, China : The City & the City (2009)
9
Fforde, Jasper : The Eyre Affair (2001)
10
Gaiman, Neil : Coraline (2002)
11
Wolfe, Gene : The Wizard Knight (2004)
12*
Bujold, Lois McMaster : Paladin of Souls (2003)
12*
Pratchett, Terry : Going Postal (2004)
12*
Pratchett, Terry : Night Watch (2002)
15
Lynch, Scott : The Lies of Locke Lamora (2006)
16
Abercrombie, Joe : The Blade Itself (2006)
17
Gaiman, Neil : The Graveyard Book (2008)
18
Jemisin, N. K. : The Hundred Thousand Kingdoms (2010)
19
Le Guin, Ursula K. : Lavinia (2008)
20
Sanderson, Brandon : Mistborn (2006)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Half-Blood Prince (2005)
22
Le Guin, Ursula K. : The Other Wind (2001)
23
Gaiman, Neil : Anansi Boys (2005)
24*
Novik, Naomi : His Majesty’s Dragon (2006)
24*
Kay, Guy Gavriel : Under Heaven (2010)

>> FALLING INTO INFINITY – por Ricardo Lourenço


SACI PERERÊ: UM MITO RACISTA?

quarta-feira | 9 | janeiro | 2013

saci não existeHá tempos li um artigo que condenava o mito do Saci “lobatiano” por ser esse fruto do racismo. Não entendi. Afinal, até que se prove o contrário, Monteiro Lobato não criou o mito do Saci (aliás, se ele o tivesse criado, este não seria, a rigor, um mito) e nem lhe deu uma forma específica. Talvez com a Cuca, a qual ele deu feições de réptil. Mas o Saci como moleque negro, de uma perna só e barrete vermelho na cabeça, já fazia parte do imaginário popular no ano de 1917, quando Monteiro Lobato resolve abrir um “inquérito” sobre essa figura mitológica.

Existem sim algumas variantes apresentadas no próprio livro. Há quem o tenha visto com um pé de cabra. Outro que lhe tenha metido um par de chifres na testa (como se a carapuça não fosse o suficiente para enfeitar-lhe a cabeça); outro que o colocou com duas pernas, sendo manco de uma delas. Isso tudo, no entanto, só demonstra uma verdade: o Saci é um mito em eterna construção. Já é quase consenso que surgiu como um mito indígena. O escritor Olívio Jekupé defende incessantemente essa tese, mostrando que o mito era um índio protetor da floresta e dos animais, chamado Kamba’i ou Jaxi Jatere. Tal fato já era aceito – ou ao menos suspeitado – já no século XIX. O pesquisador Adelino Brandão cita o testemunho de Couto de Magalhães, o qual registrou que o saci era “um pequeno tapuio, manco de um pé, com um barrete vermelho e uma ferida em cada joelho”.[1] No próprio “Inquérito” aberto por Lobato, aparece como origem do mito que este “vem do autochtone que lhe deu o nome actual, corruptela de ‘çaa cy perereg’”.[2] Adelino Brandão acrescenta ainda que “o saci nativo [dos índios] era uma ave, companheira do Caipora, tinha o corpo de pássaro e uma perna só”.[3] Do tapuia de duas pernas ao caboclinho e deste para o negro unípede, o processo de transformação visual foi resultante da reelaboração e recriação do mito, aliás, uma dinâmica constante e esperada em toda criação mitológica.

Desse modo, dentro de um processo natural, o mito sofre influências das outras culturas com as quais vai tendo contato. Outra vez recorrendo ao Inquérito do Monteiro Lobato, este diz que, com certa ironia, que o Saci “acabará ainda soffrendo a influencia do italiano”.[4] E o pesquisador José Carlos Rossato ensina que “é muito maior do que se pensa a influência lusitana do nosso Saci”,[5] recorrendo às histórias portuguesas do “Fradinho da Mão Furada” para relacioná-lo à construção imagética do Saci brasileiro. Aliás, brasileiro mesmo, pois o próprio Rossato explica que “Ele [o Saci] não é privilégio brasileiro. Outros países também conhecem o Saci”.[6] E acrescente-se ainda o que diz Brandão a esse respeito: “Não é mito exclusivamente brasileiro. Também faz parte das tradições argentinas, do Uruguai, do Paraguai e, praticamente, de todos os folclores sul-americanos”.[7]

Certo é que Monteiro Lobato ajudou a difundir a imagem do Saci dentro das características gerais que já compunham o mito nos idos de 1917, data do seu “Inquérito”. A variação de aspectos secundários é comum em todos os outros mitos. Não há sequer uma história de assombração ou de seres fantásticos que não sofra variações. No entanto, parece que é exatamente nesses aspectos secundários que se escoram aqueles que defendem ser o Saci um mito racista. O Saci aparece com chifres na cabeça e um porrete na mão, na ilustração da capa do livro “Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito”. Pois então alguém já supôs que isso fosse a demonização do mito e, pior, que o intuito do Lobato era exatamente promover a desqualificação do negro associando-o a um “demônio”. A imagem da capa é resultante de um dos depoimentos dados no “Inquérito”, o qual apresentou o Saci com chifres. Associação com o demônio cristão? Pode ser. Mas não foi o Saci de chifres que Monteiro Lobato difundiu e usou em suas obras, especialmente as infantis. O Saci do Sítio do Picapau Amarelo não possuía chifres. Mas está na capa do livro… Sim, está. E os chifres estão, ainda, na cabeça de imagens de Exu. Seria este um orixá racista por portar chifres?

Aliás, há muito mais relações entre a imagem atual do Saci com a mitologia africana. Um exemplo disso é o auxiliar do orixá Ossain ou Ossaim, chamado Aroni. Este, para quem ainda não conhece, é “um misterioso anãozinho perneta que fuma cachimbo (figura bastante próxima ao Saci-Pererê), possui um olho pequeno e o outro grande (vê com o menor) e tem uma orelha pequena e a outra grande (ouve com a menor). Muitas vezes Aroni é confundido com o próprio Ossaim, que, segundo dizem, também possui uma única perna”.[8] O pesquisador Ademir Barros dos Santos já havia alertado para tal semelhança.

E como fica agora? Aroni, por ser responsável “por causar o terror em pessoas que entram na floresta sem a devida permissão”[9], anão perneta, com olhos e orelhas irregulares (uma maior do que a outra), também é um ser que possa ser associado ao demônio e, por isso, e pelo fato de ser negro africano, é um mito racista? Se não, por que o Saci o é? Simplesmente porque Monteiro Lobato ajudou a divulgar o mito? É somente por isso, ou seja, pela origem? Se vem de Lobato, só pode ser racista? É fato que Monteiro Lobato defendia a eugenia. E, caso não saibam, a ciência da época dele também. Ele estava em sintonia com o que havia de mais avançado no pensamento da época. Anacronismo sem sentido julgar um pensamento do passado com parâmetros do presente.

É possível que alguns ficassem espantados em saber que Monteiro Lobato, em relação ao Saci, disse, pela boca do Tio Barnabé, que “O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça”.[10]Maldade pequena, ou seja, traquinagem. E traquinagens é com ele mesmo. O folclorista e escritor Waldemar Iglésias Fernandes recolheu uma história em Sorocaba na qual “o Saci apareceu numa casa e ‘garrou a fazer estrepolias, correndo dentro da casa e dando aqueles assobios de deixar todo mundo louco!”.[11] Para o renomado folclorista Alceu Maynard Araújo, o Saci “não é maldoso, porém brincalhão como toda criança é”.[12] Para muitos, o Saci é uma espécie de “Gnomo” – esse, europeu – que é “bastante brincalhão e adora pregar peças nos homens”.[13]

Em outras versões, o Saci ganhou a sua carapuça de Deus para que pudesse “tornar-se invisível aos olhos do Diabo”.[14] Portanto, a associação do Saci com o demônio não é unânime e é tão sem sentido quanto associar o orixá Exu ou mesmo o ajudante de Ossaim, Aroni, com o diabo cristão. Dessa forma, se há quem associe o Saci ao diabo, também há quem o faça com os orixás (se não com todos, com alguns pelo menos). Isso não torna os orixás uma crença ou mito racista. Também não deve, por analogia, transformar o Saci numa representação similar.

É possível mesmo que os negros tenham dado a forma final no aspecto visual do Saci como hoje o conhecemos. Essa é a opinião de muitos pesquisadores. Adelino Brandão, por exemplo, salienta que “é a figura domoleque sob a qual aparece o Saci atual. A influência africana aí nos parece fora de discussão”.[15] Monteiro Lobato também é da opinião de que o mito “soffreu o influxo africano, passando de caboclinho a molecote”.[16] E Pierre de Oliveira concebe que “o saci por exemplo é um Gnomo que veio junto com os negros da África”.[17]

Coincidentemente – ou nem tanto – o mito como o conhecemos hoje tem sua gênese exatamente no auge da escravidão no Brasil, do século XVIII ao XIX.[18] O jornalista Mouzar Benedito vê nessa caracterização do Saci uma estratégia de sobrevivência dentro das relações escravocratas. Assim, tudo o que ocorria fora da conformidade do senhor, era atribuído ao Saci e, dessa forma, segundo o jornalista, os negros escravizados escapavam muitas vezes dos castigos. Nas próprias palavras de Mouzar Benedito, “Era algo muito esperto da parte delas porque, por exemplo, elas sabiam que se errassem a mão em uma comida, seriam castigadas porque o senhor de escravos não tinha nenhum pouco de bondade. Então quando erravam no sal diziam ‘Ah, passou o Saci aqui e jogou sal na comida’. Em uma revolta na senzala, o líder que a comandasse, quando era novamente dominado respondia ao senhor que perguntava quem havia iniciado (caso se apresentasse, o líder seria no mínimo, marcado a ferro) e ele dizia que foi o negrinho de uma perna só que havia passado por lá”.[19]

Assim, o Saci foi aliado dos negros durante a escravidão. Ouso dizer que mais do que aliado. Foi a cristalização dos anseios dos escravizados em construir um mito heroico que burlasse o sistema escravista sem que o senhor branco pudesse fazer nada em relação a isso.

O Saci é todo símbolo da liberdade. Cavalga os redemoinhos de vento – símbolo maior da liberdade – controlando-os e indo de um lado para o outro sem que ninguém consiga impedi-lo. O vento é incontrolável. Jesus disse: “O vento assopra onde quer” (Jo 3.8). O Saci tem a liberdade da locomoção, mesmo sendo perneta. Aliás, há quem diga que corre tão rápido que aparenta ser perneta, ainda que não seja.[20] “Corre como um raio, aparece e desaparece, cresce e diminui”.[21] Carrega na cabeça uma carapuça ou barrete que também é símbolo da liberdade. Adelino Brandão, já citado largamente aqui, diz que “o barrete frígio, símbolo da liberdade e dos ideais republicanos, costuma ser vermelho [como o do Saci] também”.[22] E continua, nos ensinando que “O barrete do Saci, por seu turno, ainda se presta a outras considerações, além das vistas. Muitos séculos antes de Cristo, nas saturnais romanas, encontramos o “pileus” – carapuça de cor vermelha que simbolizava a liberdade. O pileus era também o emblema do escravo fôrro segundo os costumes da antiguidade latina”.[23]

Não é à toa que todas as histórias sobre Saci dizem que quem obtiver a carapuça dele será seu senhor. Monteiro Lobato dizia, pela boca de Tio Barnabé, que “a força dele [Saci] está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci, fica por toda a vida senhor de um pequeno escravo”.[24] Pudera, pois a carapuça é o que simboliza a sua liberdade! Por isso, “embora negro, o Saci, pelo barrete vermelho que ostenta, é livre. Por isso se vinga igualmente dos brancos, enfernizando-lhes a vida”.[25]

E é, certamente, o único negro que durante a escravidão podia azucrinar – ou infernizar, como disse o Adelino Brandão – a vida do branco sem que houvesse consequências disso para ele. Ninguém podia açoitar o Saci ou amarrá-lo a um tronco. O máximo que poderia ser feito contra ele era capturá-lo num redemoinho de vento e engarrafa-lo. Mesmo assim, deveria tirar-lhe a carapuça. Caso contrário… “perturba a vida doméstica, apagando o fogo e queimando os alimentos. Espanta também os animais. Assusta os viajantes, pedindo fumo”[26]; e não contente, sai “assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras”.[27] Por fim, salta “na garupa dos cavalos dos viajantes”.[28]

Para completar o quadro, o Saci usa dos furos das suas mãos para fraudar a crueldade do sistema escravista. É comum os relatos de fazendeiros que obrigavam a seus escravos carregarem brasas nas palmas das mãos com a finalidade de acender charutos ou cigarros. Nerize Quevedo Portela descreve uma cena como essa: “E o Coronel fumava seu charuto e a toda hora ele chamava uma escrava e dizia: ‒ Ô coisa preta – era como ele chamava seus escravos. ‒ Traz brasa para acender meu charuto, anda rápido! Então o coitado do escravo ou da escrava já tremia, porque sabia que tinha que trazer na palma da mão. Ele só aceitava se fosse na palma da mão. Os coitados sofriam demais”.[29] Para quem acredita que se trata apenas de uma obra de ficção, o relato Maria Arlete Ferreira da Silva, inserido no RELATÓRIO DO GRUPO DE TRABALHO CLÓVIS MOURA (2005-2010), não deixa dúvida na existência dessa prática durante a escravidão: “a tia Salomé, foi escravizada e tinha as marcas no corpo, a orelha rasgada, a mão queimada, pois era obrigada a levar a brasa na mão para o seu senhor acender o cigarro de palha e muitas vezes ficava segurando a brasa até que ele fizesse o cigarro para depois acendê-lo”.[30]

O Saci tinha seus furos nas mãos e com eles satirizava a tentativa dos senhores brancos de impor a ele o mesmo castigo que impunham aos seus escravos. “Se encontra ainda alguma brasa, malabarisa com ella e ri-se perdidamente quando acontece cahir a brasa pelo furo das mãos”, informa Monteiro Lobato.[31] O mesmo Lobato acrescenta: “Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo”.[32] E Adelino Brandão finaliza: “Graças a esta particularidade anatômica, diverte-se assustando as pessoas que pernoitam no campo, à roda das fogueiras, retirando as brasas que joga para cima fazendo-as passar pelo buraco da mão”.[33]

O Saci zombava da tentativa de impor a crueldade do sistema escravista a um “moleque” brejeiro e matreiro. Matreiro que, como ensina o lexicógrafo Cândido de Oliveira, significa astuto, manhoso, sagaz, pessoa esperta.

Acresce-se ainda que a intenção explícita de Monteiro Lobato quando criou o Inquérito do Saci foi o de valorizar a cultura brasileira que estava perdendo espaço para a invasão cultural – na época – francesa. Todo o livro vai para esse rumo. É sintomático que logo na abertura ele descreva o caso de uma pessoa que estava indignada com os anões de jardins – gnomos europeus – e propunha que se trocasse por sacis. Afirmou mesmo que sendo “filho da imaginação collectiva o Sacy é uma resultante psychica do nosso povo” e que “é estudando taes manifestações [da psíquica coletiva] que poderemos conhecer o povo; que o conhecimento traz a comprehensão, e a comprehensão traz o amor”.[34]

O Inquérito sobre o Saci é, portanto, um libelo pela cultura nacional, de construção coletiva. Não é uma obra de difusão do racismo ou coisa que o valha. Assim como, em princípio, o mito do Saci também não é.

[1] BRANDÃO, Adelino. Euclides e o Folclore. Jundiaí (SP): Literarte, 1985, p. 44.
[2] LOBATO, Monteiro. Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito [edição fac-similar]. Rio de Janeiro: Gráfica JB S. A., 1998, p. 20.
[3] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 44.
[4] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[5] ROSSATO, José Carlos. Saci. São José dos Campos (SP): Fundação Cultural Cassiano Ricardo, s/d, p. 18.
[6] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 15.
[7] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 43.
[8] Candomblé – O mundo dos orixás. Disponível em: http://ocandomble.wordpress.com/os-orixas/ossaim/ Acesso em 04 jan 2013.
[9] Idem acima.
[10] LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, 1952, p. 185.
[11] FERNANDES, Waldemar Iglésias. 52 estórias populares (Sul de São Paulo e Sul de Minas). Piracicaba (SP): Editora Franciscana, 1978, p. 93.
[12] ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil – Histórias, Costumes e Lendas. São Paulo: Editora Três, 2000.
[13] OLIVEIRA, Pierre de. O Livro dos Gnomos. São Paulo: PEN, 1992, pp. 15 – 16.
[14] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 25.
[15] BRANDÃO, Adelino. Presença do Saci. In Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo, 1971, p. 30.
[16] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[17] OLIVEIRA, Op. Cit, 1992, p. 15.
[18] ROSSATO, Op. Cit, s/d.
[20] SASS, Roselis Von. Revelações inéditas da História do Brasil. São Paulo: Ordem do Graal na Terra, 1983, p. 65.
[21] SANTOS, Theobaldo Miranda. Lendas e Mitos do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987, p. 119.
[22] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 23.
[23] Idem, p. 31.
[24] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 185.
[25] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 31.
[26] ARAÚJO, Op. Cit, 2000.
[27] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 90.
[28] LOPES NETO, João Simões. Lendas do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1983, p. 110.
[29] PORTELA, Nerize Quevedo. A velha da Gruta e outras histórias. São Paulo: Biblioteca24 horas, 2011, p. 176.
[31] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 73.
[32] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 188.
[33] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 20.
[34] LOBATO, Op. Cit, 1998, pp. 20 – 21.

>> SPARTACUS EM PROL DA LIBERDADE – por Carlos Carvalho Cavalheiro


UMA INTRODUÇÃO À LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 8 | janeiro | 2013

Hand_with_Reflecting_Sphere

Não há povo e não há homem que possa viver sem ela [a literatura], isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado [...] a literatura é o sonho acordado das civilizações. – Antonio Cândido. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

A Literatura é um fenômeno social/cultural nascido de gêneros milenares, que permanecem vivos apesar da passagem dos séculos. Em geral cada civilização gerou os mitos ligados às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo. Entrelaçados com o desenvolvimento da linguagem e da filosofia, as narrativas mitológicas constituem-se em relatos sobre deuses, heróis e antepassados, estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que permanecem até hoje no inconsciente humano, segundo Carl Gustav Jung. Com o passar do tempo, as narrativas religiosas que constituíam os mitos perderam seu valor sagrado para nós, mas permaneceram nas narrativas profanas que continuaram na boca do povo, mudando de forma, emigrando para novas terras, revestindo-se de novas roupagens e adereços.

Assim nasceram os relatos que hoje chamamos contos de fadas, contos maravilhosos ou contos folclóricos; mora neles o que restou dos elementos dos mitos, depois que eles foram dessacralizados. E não existe obra literária antiga ou moderna, que não tenha raízes nessas narrativas ancestrais.

Ora, mitos e contos folclóricos são a matéria-prima do subgênero, pertencente aos gêneros romance e novela, que chamamos de Literatura Fantástica. Contudo, por um motivo ou outro, acabaram incluídas nesse amplo “rótulo” tendências tão distintas quanto o que chamamos de Literatura Gótica, de Horror, de Ficção Científica, de Fantasia. Esses subgêneros propiciaram ainda o surgimento de um outro sub-subgênero: o dos livros ligados aos RPGs (Role-Playing Games, jogos de interpretação em que o jogador representa um personagem, em ambientações características dos universos de fantasia), e que podem pertencer a três tipos: os livros-jogos (também chamados aventuras-solo), os complexos livros de regras para jogar, e as novelas elaboradas em torno de elementos de determinados sistemas de jogo.

Vamos encontrar ainda o fantástico na Literatura Clássica, com elementos de mitologia presentes nas manifestações literárias Líricas e Épicas. E na Era Medieval na Europa testemunhamos o choque entre o pensamento Cristão e o Pagão, evidente nas canções, poemas trovadorescos e lais. Além disso, na Idade Média temos o nascimento dos romances viejos, que dariam origem ao romance cortês e às novelas de cavalaria. Nessas obras, embora arcaicas e hoje de difícil leitura, existe grande misticismo e certos elementos que reconhecemos com facilidade: heróis, feiticeiros, espectros, animais míticos, objetos mágicos, seres elementais (são estes os seres ligados aos quatro elementos, ar, água, terra, fogo – as ninfas, silfos, elfos, goblins…).

Com o Renascimento, a partir do século XV, vemos na literatura a tentativa de se equilibrar o pensamento Cristão com a filosofia greco-romana; busca-se um humanismo que se sobreponha ao misticismo medieval. Apesar disso, aqueles mesmos elementos fantásticos permaneceram nesse período que gerou a Literatura chamada Clássica. Em Cervantes, Shakespeare, Camões, até Dante, ainda trombamos com seres mágicos, míticos, sobrenaturais. Seguindo para o período Pré-Romântico (entre 1700 e 1800) veremos a consagração da forma literária do romance, marcado ainda por novelas de cavalaria e romances picarescos medievais, repletos de aventuras heróicas.

Diz Ítalo Calvino no livro Contos Fantásticos do Século XIX que o conto fantástico propriamente dito nasce da especulação filosófica entre os séculos XVIII e XIX.

“Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção, e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem, sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis”.

Ainda segundo Calvino, a literatura fantástica nasceu com o Romantismo alemão – é fácil fazer a ligação do povo alemão, também chamado Godo, ou Gótico, com o que hoje chamamos de novela gótica. O autor mais importante nessa vertente seria Hoffmann. Os autores ingleses também foram fundamentais no estabelecimento de uma literatura que privilegia a narrativa fantasiosa: Poe é considerado o mais influente de todos, embora alguns autores acreditem que a primeira novela de terror propriamente dita seja o Castelo de Otranto, de Horace Walpole. Já na França teremos até autores como Balzac também se dedicando à narrativa fantástica. Foi ainda o francês Galland quem traduziu As 1001 Noites, trazendo à Europa o sabor das narrativas árabes, repletas de djins e magos.

Na imensa lista de nomes ligados ao Romantismo, é difícil na verdade encontrar quem não tenha escrito ao menos alguns contos em que imperam o maravilhoso, o extraordinário, o fantasmagórico. Em alguns textos nos defrontamos tanto com seres míticos e fantasmas, quanto com cientistas insanos e detetives inusitados. Nessa época, aliás, é que irão nascer esses vários “compartimentos” que até então estavam misturados, porém separar-se-iam no futuro, embora acabassem incluídos na mesma “prateleira”, por assim dizer.

-  O romance de aventuras marítimas da época daria origem à ficção científica; de Daniel Defoe a Jules Verne, passando por H.G.Wells, eles abririam o caminho para Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov…

-  O romance gótico em si – aventuras fantasmagóricas, urbanas e sinistras, que gerariam as novelas vampíricas, o gênero específico de Terror e até o universo Cyberpunk; aqui os ingleses foram mestres, com Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker, prenunciando autores como H. P. Lovecraft, Anne Rice, Stephen King…

-  O romance de mistério, que começa com Wilkie Collins e Edgard Alan Poe, avô do atual gênero policial.

-  O romance de imaginação – segundo a Profª Nelly Novaes Coelho, temos aqui obras em que a fantasia transfigura a realidade cotidiana; nesta vertente incluiríamos não apenas obras com estrutura de contos de fada, e os “mundos inventados” tão comuns hoje em dia, mas também o Realismo Mágico latino-americano. Neste caminho teremos autores tão diversos quanto Kafka, Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Márquez; e os ingleses e americanos que deixaram sua marca ao criar não apenas alguns contos e seus personagens, porém universos inteiros: J.R.R. Tolkien, C.S.Lewis, Ursula Le Guin, Marion Zimmer Bradley, Diana Wynne Jones, Frank Herbert (que, apesar de ser rotulado como autor de ficção científica, também transita por aqui).

Acrescentaríamos ainda uma categoria satírica, reunindo os autores que satirizam esses universos e tecem novos clássicos, assim como Cervantes gerou o que talvez seja o maior de todos os clássicos ao satirizar o Romance de Cavalaria… Temos então obras como O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams ouA Cor da Magia e suas seqüências, por Terry Pratchett.

Mais uma vez recorrendo a Calvino, encontramos uma análise de Tzvetan Todorov, afirmando que na verdade o que distingue o “fantástico” narrativo é uma perplexidade diante de um fato inacreditável, a hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural.

Tolkien solucionou esse dualismo entre realidade e não-realidade criando os conceitos de Mundo Primário e Mundo Secundário; ou seja, o mundo em que vivemos é o Primário, mas o autor cria um universo Secundário derivado dele, em que o leitor penetra ao fruir da Literatura; e é nesse que tudo é possível, desde que respeitadas as leis particulares daquele universo. Ao ler fantasia, concordamos, então, em abdicar de nossos conceitos e preconceitos civilizados e embarcamos na leitura, conscientes de que na Terra-média, poderemos virar a estrada e ser atacados por um bando de orcs; que numa Londres Gótica ou na Transilvânia pode haver sombras ameaçadores em cada esquina; que em Nárnia é preciso conformar-se à ética de um Leão; e que em muitos mundos não se deve zombar de velhos estranhos que levam cajados cheios de inscrições rúnicas, ou levar para casa pedras estranhas que podem ser ovos de dragões…

O mais fantástico da Literatura Fantástica, porém, é que ela se mantém mais forte que nunca com o passar dos anos, dando origem a inúmeros filmes, peças de teatro e seriados, apesar de ser considerada pela crítica especializada um gênero menor… Quanto a nós, leitores, continuamos abdicando de nossos Mundos Primários e mergulhando com o maior prazer possível nesses Mundos Secundários em que, talvez, encontremos não apenas a fantasia, mas a nós mesmos.

Leituras sugeridas:
Calvino, Ítalo (org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Coelho, Nelly Novaes. Conto de fadas, O. São Paulo: Ática, 1987 / Literatura e Linguagem. São Paulo: Vozes, 1994.

Lopes, Reinaldo José. A Árvore das Estórias: Uma proposta de tradução para Tree and Leaf, de J.R.R. Tolkien. Dissertação de mestrado da FFLCH – USP, 2006.

>> VALINOR – por Rosana Rios


“CONTOS GAUCHESCOS”: O CENTENÁRIO DO LIVRO DE SIMÕES LOPES NETO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Alguns livros marcam uma geração, outros uma nação. Os Lusíadas se confundem com a formação da nação lusa, A Divina Comédia forjou o idioma italiano, assim como as obras de Walter Scott e Shakespeare foram fundamentais para os ingleses. No Brasil, temos os romances de Alencar, que esforçou-se por representar a nação brasileira como um todo. Há outros livros, porém, que forjam não nações, mas culturas, em especial culturas regionais que não chegam a se configurar como nacionais. E este é o caso, decididamente, da cultura sul-rio-grandense.

No Rio Grande do Sul, lembramos de nossos heróis, fazemos feriado e comemorações no nosso dia, o 20 de setembro, e cantamos com entusiasmo o Hino Rio-Grandense. Mas esse gaúcho, hoje representado no Laçador, cantado em nossos CTGs e revivido no acampamento farroupilha, é acima de tudo uma figura criada pelos escritores, e poucos foram tão importantes como Simões Lopes Neto. Em Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913), esse pelotense forjou muito da personalidade mítica do gaúcho, sua valentia, sua honra, o amor pela terra e pelo cavalo.

Neste ano, comemora-se exatamente cem anos do lançamento deContos Gauchescos, obra obrigatória nos bancos escolares e acadêmicos gaúchos, mas que poderia estar no cânone de qualquer seleção de literatura brasileira. A obra traz, além da apresentação em que Blau Nunes surge como narrador, 19 contos: “Trezentas onças”, “Negro Bonifácio”, “No manatial”, “O mate do João Cardoso”, “Deve um queijo!”, “O boi velho”, “Correr eguada”, “Chasque do imperador”, “Os cabelos da china”, “Melancia — Coco verde”, “O anjo da vitória”, “Contrabandista”, “Jogo do osso”, “Duelo de Farrapos”, “Penar de velhos”, “Juca guerra”, “Artigos de fé do gaúcho”, “Batendo orelha” e “O ‘menininho’ do presépio”.

Todos os contos são narrados por Blau Nunes, que em algumas histórias é protagonista, mas em tantas outros assiste como espectador interessado e atento. Outro aspecto fundamental do livro é a linguagem utilizada, que é representação da linguagem popular falada do gaúcho, mas retrabalhada de forma erudita a ponto de criar uma terceira linguagem rica e particular. O grande Guimarães Rosa, anos mais tarde, e confesadamente inspirado em Simões, utilizaria essa técnica emGrande Sertão: Veredas.

Trezentas Onças, o primeiro conto do livro, é um verdadeiro cartão de visitas da prosa e da linguagem de Simões, com seus gauchismos (“guaiaca, cusco”), espanholismos (“mui, cousa”) e ditos populares (“brabo como uma manga de pedras”). A temática também começa a moldar os valores do gaúcho, estando a honra acima de tudo, mesmo quando grande quantia de dinheiro está em jogo.

Este trabalho peculiar com a linguagem exige um pouco do leitor contemporâneo, que talvez tropece em alguns trechos, especialmente nos mais descritivos, como este de “No Manatial”: “Vancê acredita?… Nesta manhã, desde cedo, os pica-paus choraram muito nas tronqueiras do curral e nos palanques… e até furando no oitão da casa;… mais de um cachorro cavoucou o chão, embaixo das carretas;. e a Maria Altina achou no quarto, entre a parede e a cabeceira da cama, uma borboleta preta, das grandes, que ninguém tinha visto entrar…”

“No Manatial”, aliás, é o mais belo — e talvez mais triste — conto do livro, revelando um pouquinho de como nascem as lendas e as assombrações. O que impressiona em Simões é que apesar do linguajar próprio, a narrativa flui com facilidade, tal qual um causo contado de mate na mão:

“E os dois, ¾ a que te pego! a que te largo! ¾ se despencaram por aquele lançante, em direitura ao manantial! E, ou por querer atalhar, ou porque perdesse a cabeça ou nem se lembrasse do perigo, a Maria Altina encostou o rebenque no matungo, que, do lance que trazia costa abaixo, se foi, feito, ao tremendal, onde se afundou até as orelhas e começou a patalear, num desespero!. A campeirinha varejada no arranco, sumiu-se logo na fervura preta do lodaçal remexido a patadas!… E como rastro, ficou em cima, boiando, a rosa do penteado.”

O livro também pode ser muito interessante como um documento histórico, revelando um pouco do pensamento e da cultura gaúcha (e brasileira) de um século atrás. Em “O Negro Bonifácio”, por exemplo, a representação feita da mulher e do negro causa estranheza e até revolta no leitor moderno, mas retrata os valores da época de publicação do texto:

“Os dentes [da Tudinha eram] brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de guabiju…  (.) No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele negro excomungado, para aguar o pagode.”

Este famoso conto, a propósito, retrata a disputa de quatro gaúchos pela Tudinha, “a chinoca mais candongueira que havia naqueles pagos”. A disputa evolui para um duelo sangrento, do qual emerge ao final a revelação de uma história de amor secreta, ardente e improvável da bela morena com o Negro Bonifácio.

Talvez o sucesso dos contos seja que sua essência não está nas palavras, nas frases, na linguagem popular retrabalhada, e sim no subtexto, no não-dito, naquilo que só o leitor acostumado com os meandros do gênero conto poderá perceber, como a relação de Tudinha com o Negro.

Hoje, passados cem anos, pode-se dizer que Contos Gauchescos é um clássico em todas as acepções de clássico para Calvino, “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, “uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe”, “livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”. É, enfim, um livro além de seu tempo e de seu espaço, pois embora o espaço seja bem definido, o sul do sul, o pampa gaúcho, o pampa gaúcho de um tempo de guerras, facões, cavalos e heróis, as temáticas são universais: traição, ciúme, honra, mesquinhez, saudades.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


FANTASTICON LONDRINA: LITERATURA FANTÁSTICA EM FOCO

segunda-feira | 5 | março | 2012
Silvio Alexandre: organizador do maior evento de literatura fantástica do País. Foto Olga Leiria

Silvio Alexandre: organizador do maior evento de literatura fantástica do País. Foto Olga Leiria

A literatura fantástica desembarca hoje no ”Londrina Comic Con”, cuja programação tem movimentado os aficionados em histórias em quadrinhos desde o início da semana com lançamentos, exposições, workshops, palestras, mesas-redondas, feira de revistas e exibição de filmes.

O simpósio ”Fantasticon Londrina”, integrado ao Comic Con, debate o gênero no bate-papo ”Um Panorama da Literatura Fantástica no Brasil”, que acontece às 16h na Sala de Espetáculos do Sesc com participação de Silvio Alexandre e Francisco Medina.

O primeiro é o idealizador e organizador do ”Fantasticon”, maior evento nacional do gênero, realizado anualmente desde 2007 em São Paulo. Já Medina é autor do livro ”A Fada e o Bruxo”. O segmento, um sucesso nercadológico no País, abrange narrativas de ficção científica, fantasia e horror.

A seguir, leia trechos da entrevista feita com Silvio Alexandre, que fala sobre o sucesso dessa vertente literária no Brasil, as novas tendências e a criação de um núcleo londrinense da ”Fantasticon”.

Quais são as características da literatura fantástica? O que a diferencia dos outros gêneros literários?
De acordo com os estudos literários, trata-se de um gênero narrativo que lida com a realidade supra-humana, sobrenatural e inexplicável remontando a textos primordiais sobre magia e seres mitológicos, a formas primitivas do medo, a epopeias gregas. Remete também ao gótico do século 18 com seus cenários de labirintos, catapultas, catedrais, ambientes sombrios e noturnos, arcanjos e forças do bem e do mal.

O rótulo engloba sub-gêneros distintos, não?
É difícil definir e delimitar a literatura fantástica. Podemos dizer que ela abrange a ficção científica com suas viagens no espaço e no tempo; a fantasia com sua magia, elfos e dragões; e o horror com seus vampiros, zumbis e lobisomens. Mas hoje em dia existe uma tendência de misturar tudo incorporando outros gêneros de entretenimento como, por exemplo, o policial. O leque ficou mais amplo. Na verdade, rótulo é uma preocupação de mercado. Nossa preocupação é a boa literatura, o texto que faz o leitor viajar por aquela aventura e viver outros tempos e outros mundos.

Quem lê literatura fantástica no Brasil? É possível quantificar esse segmento do público?
É um público grande e cativo de leitores, não só do Brasil como do mundo todo. Basta ver a lista de livros mais vendidos dos últimos anos. Tivemos sucessivos fenômenos de vendas com “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “Crepúsculo” e agora “Guerra dos Tronos”, da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin. Aliás, os três primeiros volumes dessa série estão entre os 10 títulos mais vendidos no País.

O curioso é que uma numerosa fatia desse público leitor é formada por jovens, contrariando a idéia de que jovem não lê.
Sim. E são livros grossos lidos por garotos que não se intimidam diante de 500 ou 600 páginas.

Mas os autores nacionais do gênero estão encontrando público para seus livros?
Há alguns fenômenos também nesse segmento, como André Vianco, autor de cerca de 15 títulos sobre vampiros. Seus livros têm grande tiragem e vendem bem correndo por fora do mercado mainstream. Outro é Eduardo Spohr, autor de “Batalha do Apocalipse”, que começou publicando por pequenas editoras e atualmente lança pelo selo Verus, da Record. Há ainda uma série de editoras pequenas e médias investindo em autores nacionais do gênero, como a Tarja, a Draco e a Estronho. O nicho tem crescido acompanhando o aumento da produção. Além das obras individuais, têm sido publicadas antologias, que apesar de não serem homogêneas, revelam material de qualidade de novos escritores.

O “Fantasticon” que você organiza há cinco anos em São Paulo, tem repercutido essas novidades do mercado editorial?
Tivemos, por exemplo, 140 autores dando autógrafos na edição de 2011 para um público de mais de 1.200 pessoas durante três dias de programação. Veja lá no site (www.fantasticon.com.br). As pessoas reclamam que o espaço (uma biblioteca pública na Vila Mariana) já ficou pequeno para abrigar o evento. As próprias editoras já programam seus lançamentos no gênero pensando no “Fantasticon”.

Você pretende criar um núcleo do “Fantasticon” em Londrina?
Com a continuidade do “Londrina Comic Com”, a proposta é manter atividades ao longo do ano na cidade aglutinando pessoas para troca de idéias, informações e divulgação do gênero. Minha presença esta semana é a primeira etapa desse projeto.

>> FOLHA DE LONDRINA – por Nelson Sato


LITERATURA FANTÁSTICA: A NOVA CARA DA LITERATURA BRASILEIRA

sexta-feira | 24 | fevereiro | 2012

Com o sucesso internacional na literatura e cinema,
autores brasileiros comentam o sucesso do gênero
e como vem atraindo novos leitores

Martha Argel autora de "Amores Perigosos", "O Vampiro antes de Dráscula", entre outros e Giulia Moon, conhecida pelos livros “Kaori – Perfume de Vampira” e a continuação “Kaori – Coração de Vampira”- Foto Louise Duarte

Vampiros, bruxos, deuses, elfos, lobisomens e até anjos… Se você gosta de algumas das criaturas mitológicas citadas acima então você está com sorte. A chamada literatura fantástica nacional tem revelado nos últimos anos escritores talentosos antes escondidos pela obscuridade graças a preconceitos contra o gênero literário. Muitos deles não eram conhecidos porque o público achava estranho um vampiro ou lobisomem por exemplo, vivendo suas aventuras no Brasil. Mas se até Joss Whedon, criador das séries Buffy e Angel trouxe os vampiros Spike e Drusilla para o Brasil, por que não ter vampiros e outras criaturas em solo brasileiro? Afinal, nosso país tem uma vasta cultura mitológica que vai desde o Saci Pererê, passando pelo boto cor-de-rosa entre outros.

Levou um tempo para leitores se acostumarem com o gênero. Mesmo para os que já conheciam os clássicos como Drácula de Bram Stocker ou mesmo os livros da escritora Anne Rice, ainda existia um certo preconceito residual. Pior ainda para quem escrevia.  Giulia Moon, escritora conhecida pelos livros “Kaori – Perfume de Vampira” e a continuação “Kaori – Coração de Vampira” lembra da Bienal do Livro de 2011 quando tentou mostrar suas obras para um homem que reagiu de maneira agressiva em relação a temática de vampiros:“eu odeio esses livros de vampiros. Estou tentando tirar a minha filha dessa”, retrucou ele. Giulia explica: “fiquei espantada, pois ele se referia aos livros de vampiros como se fossem algum tipo de droga, de cuja má influência precisava salvar a filha. E ele, antes de ir embora, emendou: ‘e a senhora deveria fazer alguma coisa de útil em vez de escrever essas coisas!’,”ela lembra ainda perplexa com a atitude do homem.

A nova força da literatura nacional
Ainda falando dos vampiros, o personagem Lestat e Drácula são quase uma unanimidade entre os autores. Nazareth Fonseca, autora da saga “Alma e Sangue”  acredita que a literatura nacional vem ganhando força nos últimos anos quando o público finalmente começou a enxergar seus autores e acreditar em seu potencial formando novos leitores: “sim, a literatura fantástica tem o dom de pegar o leitor logo nas primeiras páginas.

A fantasia é inerente ao ser humano, ela está presente desde a infância quando somos bombardeados por contos de fadas, Papai Noel, o Bicho Papão. Crescemos e descobrimos que não existe príncipe encantado, que Papai Noel é seu pai, e que Peter Pan é um adulto que não quer crescer. O jeito é apelar para a fantasia. Nela ainda encontramos nossos monstros queridos, os heróis e as mocinhas. A maior prova disso é que no cinema as luzes são apagadas, assim podemos entrar na história e nos ocultar do julgamento de quem esta do lado, mas o certo é que pagamos para a fantasia continuar” , explica ela.

Nana B Poetisa, autora de Relíquias e Fragmentos

Muito além de Crepúsculo
Apesar de muitas pessoas acharem que a figura do vampiro tenha ficado mais romântica por causa da saga Crepúsculo, a escritora e romancista Nana B Poetisa, autora de Relíquias e de Fragmentos, além de ter participado de outras antologias, discorda: “muito antes de Stephanie Meyer criar seu romance Crepúsculo com vampiros que brilham, a autora Anne Rice já vinha arrebatando corações adolescentes, com suas Crônicas Vampirescas desde meados dos anos 70. Ela criou vampiros adoravelmente sofridos como, Louis de Ponte du Lac, ou poderosos e cheios de charme como o adorado e temido Lestat de Lioncourt. Isso tudo entre tantos outros que arrebatavam e ainda arrebatam os corações adolescentes. Essa autora sim, criou uma legião imensa e fiel de fãs, não apenas de adolescentes, mas de todas as idades, até hoje”, contesta ela.

Viviane Fair, autora da saga A Caçadora revela quais são os tipos de personagem que ela mais gosta de escrever: “os personagens que me atraem são os mais divertidos e sarcásticos; os personagens que surpreendem. Talvez porque me identifico mais neles e também porque são aqueles que causam no autor um desejo maior de continuar a história e sofrer reações”, ressalta.

Adriano Siqueira, autor de livros como Adorável Noite além de ter participado da antologia Amor Vampiro da qual também fazem parte Giulia Moon e Martha Argel, lembra de quando realmente começou o grande “ boom” literário no Brasil: “em 2007 começou esta grande onda fantástica da literatura nacional.Muito por causa das criaturas fantásticas que começaram a aparecer com maior intensidade nos livros estrangeiros e nos cinemas. Com as pesquisas que fiz indo em lançamentos nacionais houve um crescimento impressionante.Em 2008 tínhamos 10 lançamentos no ano, em 2009 chegou a 20 lançamentos só de livros de vampiros (nacionais e estrangeiros) e em 2010 chegou a passar dos 40 lançados.Já em 2011 cheguei a ir em mais de 50 eventos relacionados a lançamentos da literatura fantástica em geral e sem incluir a bienal do Rio que bateu recorde em lançamento da literatura fantástica. Neste ano ainda vai subir muito mais, pois novas editoras estão aparecendo tanto no campo de livros em papel como também em arquivos digitais. As editoras já estão mais seguras em acreditar no sucesso dos escritores nacionais e já se tornou sólido por isso ainda vamos ver muitos lançamentos”, explica Viviane.

Martha Argel autora de livros como Relações de Sangue, Amores Perigosos, O Vampiro da Mata Atlântica entre outros, lembra que após os lançamentos cinematográficos das sagas de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Crepúsculo foi que o mercado editorial começou a ver que o público gostava do gênero fantástico e também começaram a investir nesse gênero :“da forma como vejo, ao caírem no gosto popular, sobretudo dos adolescentes, esses blockbusters nascidos da literatura fizeram crescer o olho do mercado editorial, inclusive no Brasil. Toda editora e todo autor estreante agora quere ter o próximo mega-produto da indústria de entretenimento. Muita coisa de qualidade questionável acaba sendo publicada, mas o resultado final sem dúvida é positivo – o hábito da leitura parece estar em franca expansão, ao menos em nosso país,explica Martha.

Público brasileiro mergulha na fantasia literária nacional
E falando em antologias, Anny Lucard, organizadora da antologia Sociedade das Sombras – Contos Sobrenaturais lembra que apesar de ter sido árdua organizar uma antologia também foi prazerosa e menciona o preconceito em relação ao gênero tanto por parte das editoras como por parte do próprio público: “creio que no Brasil o preconceito é grande. Além da supervalorização dos autores internacionais, há aqueles que acham que literatura nacional se limita aos clássicos e não vê a literatura fantástica produzida aqui com bons olhos.

Infelizmente é comum críticos que são especializados em clássicos, falar mal dos novos autores nacionais, muitas vezes baseados em gosto pessoal ou em poucas referências, pois em geral as críticas não se sustentam. Umas fazem comparações absurdas entre autores que não possuem qualquer semelhança em seus trabalhos para tal”, critica. Simone Mateus, editora da Giz Editorial acredita que a barreira entre o público e a literatura fantástica de hoje vem se abrindo cada vez mais depois que o público descobre os livros e suas histórias fantásticas: “não sei se é resultado de uma barreira, mas, quando o leitor tem contato com a literatura de fantasia é comum ele se surpreender. Geralmente escutamos a seguinte frase: ‘nossa, não esperava que fosse tão bom. E ainda é de escritor nacional’, esclarece. Simone completa:”acredito que a maior barreira é o pouco contato do leitor com a nossa literatura fantástica, que é muito competente e não fica a dever para ninguém”.

Para Celly Borges e M.D Amado editores da Estronho, eles ainda encontram uma certa dificuldade em publicar livros do gênero fantástico já que nem todo mundo aceita:“como a divulgação ainda é feita a maior parte através de internet, é preciso trabalhar bastante para que chegue até aquelas pessoas que gostam da boa literatura, mas não conhecem muitos autores brasileiros.O fato é que hoje em dia tudo mudou para a literatura fantástica. Já é possível ver pessoas lendo livros fantásticos no ônibus ou metrô e a literatura fantástica nacional vem ganhando cada vez mais espaço com novos autores e editoras querendo divulgá-los.

Nos dias atuais as pessoas não te olham mais com cara feia se você admitir que tem predileção pela literatura fantástica”,concluem os editores..Isso só vem provar que a literatura fantástica nacional chegou para ficar e que está quebrando todas os preconceitos passados, fazendo com que mais leitores mergulhem nas páginas de nossos autores, viajando com eles em seus universos fantásticos.
>> O ESTADO RJ – por Louise Duarte


A HISTÓRIA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

domingo | 5 | fevereiro | 2012


Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o

“leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição deHamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice’s Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1862, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de

Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado emhttp://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/ num e-bookproduzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(.) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery “Alice”, uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (.) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web emhttp://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


OS BURACOS DA MÁSCARA: SETE NARRATIVAS GÓTICAS

terça-feira | 24 | janeiro | 2012

As histórias de Karen Blixen – em Sete narrativas góticas (Cosac Naify, 480 págs.) – negam as obviedades da tradição que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. [1]

A biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen tornou-se tão célebre quanto suas histórias. Casada com o barão sueco Bror von Blixen Finecke, acompanhou o marido para o Quênia, onde viveu entre 1914 e 1931. Além da fazenda de café endividada, que administrou até a bancarrota, Blixen também herdou do marido promíscuo uma doença com a qual conviveria pelo resto da vida, e que por fim a mataria: a sífilis. Após seu divórcio, em 1926, iniciou um caso amoroso com um piloto do exército britânico, Denys Finch Hatton, que morreria em um acidente de avião em 1931. Este relacionamento, como grande parte de sua experiência na África, foi narrado no romance autobiográfico A fazenda africana (Out of Africa, 1936), celebrizado pela adaptação cinematográfica protagonizada por Meryl Streep e Robert Redford. Foi durante a lenta e inevitável decadência de sua fazenda que a escritora escreveu suas Sete narrativas góticas [2] (1934). Escrito em inglês, inicialmente recusado pelas editoras, o livro foi publicado sob o pseudônimo de Isak Dinesen e se tornou um enorme sucesso de público, motivando a autora a se dedicar exclusivamente à carreira literária.

Na época em que as Sete narrativas góticas foram lançadas, houve quem criticasse a autora por causa do tom irreal de suas histórias, e a acusasse de exercer a arte pela arte, sem qualquer implicação social. Trata-se de um preconceito tolo, é verdade. Mas é indicativo do quanto os contos de Karen Blixen parecem deslocados de seu contexto original. Quase anacrônicos, mesmo.

São contos longos, quase novelas, cujos enredos se passam nos séculos 18 e 19, e tratam de certa nobreza que, mesmo decadente, ainda está muito ligada a determinadas tradições ancestrais. O início do conto “O dilúvio em Nordeney”, que abre o volume, é bastante representativo: estamos no início do século 19, em um balneário litorâneo freqüentado por “damas e cavalheiros elegantes”, e o ambiente está tomado por aquele espírito romântico

que se rejubilava diante de ruínas, espectros e lunáticos, e fazia de uma noite tempestuosa na charneca e de um profundo conflito passional regalos mais requintados para o conhecedor do que as amenidades de salão e a harmonia dos sistemas filosóficos [...]. A proximidade de algum naufrágio, com os restos da embarcação ainda visíveis na maré baixa, como um escuro esqueleto petrificado e salgado, tornou-se um dos locais prediletos para piqueniques, nos quais artistas armavam seus cavaletes. (p. 9)

São facilmente reconhecíveis nas Sete narrativas góticas muitos dos temas e procedimentos da literatura fantástica, como o já citado gosto pelo passado, a exploração dos sonhos, a metamorfose, as máscaras, o espelho, as referências à bruxaria e às superstições locais. Mas não se trata de contos fantásticos, no sentido mais estrito do termo. Isso porque aquela hesitação entre a explicação racional e a sobrenatural para os eventos descritos, hesitação que é central para o fantástico, não é o mais importante destas Sete narrativas góticas. Em algumas delas, o sobrenatural é apenas insinuado; em outras, possui um importante papel, mas surge com relativa naturalidade.

Como em “A ceia em Elsinore”: por motivos que fogem à compreensão da sociedade da região portuária de Elsinore, as irmãs De Coninck nunca contraíram núpcias. Encantadoras, nunca lhes faltaram pretendentes; mas elas permaneceram fechadas ao assédio, dedicadas à casa da família e à memória do irmão, ex-corsário e desaparecido misteriosamente. Já solteironas, e vivendo sozinhas em Copenhague, as irmãs continuavam sedutoras e entretidas com eventos sociais. Certa noite, enquanto recebiam um grupo de amigos, chega-lhes de visita sua antiga empregada, senhora Baek, agora responsável pela propriedade de Elsinore. O passado, na forma de um fantasma, parece rondar a casa. Não há grandes sustos ou questionamentos sobre a natureza sobrenatural dos eventos narrados, e o conflito principal está na maneira como os personagens envolvidos lidam com seu passado.

Histórias dentro de histórias

Também é recorrente nas histórias fantásticas que os objetos ou seres sobrenaturais sejam oriundos de países distantes. Lembremos da longínqua Transilvânia, terra natal do conde Drácula; da misteriosa Índia dos contos de Rudyard Kipling, a mesma Índia de onde veio “A pata do macaco” do conto de W. W. Jacobs; ou até mesmo daquele país exótico, o Brasil, de onde surgiu a estranha raça de vampiros descritos no clássico de Maupassant, “O Horla”. É claro que, em todos os casos, está em jogo uma noção de exótico e misterioso que tem muito de esquemático, e que varia com o tempo.

Nas Sete narrativas góticas, essa região exótica e fantástica é Zanzibar. De lá vem o macaco que dá título a um dos melhores contos do livro e protagoniza um dos desfechos mais inusitados de que se tem notícia. E é nas proximidades de Zanzibar que se inicia a história de “Os sonhadores”. Aqui, porém, a autora inverte totalmente a lógica tradicional do fantástico. É o explorador inglês que conta uma história aos nativos, história passada na distante, fria e civilizada Europa. Mira Jama, o contador de histórias local, fisicamente mutilado (simbolizando a decadência de seu ofício?), terá ao final a chance de contar uma fábula. Mas que servirá apenas como mais um desdobramento ― ou versão ― da(s) história(s) do inglês.

“Os sonhadores” é um conto exemplar de um dos procedimentos mais importantes para Karen Blixen, as histórias que surgem dentro da história principal. No caso, uma única personagem é descrita por vários homens que a conheceram, de modo que ela só é acessível ao leitor através de diferentes pontos de vista, de homens vitimados pelo delírio amoroso. Desse modo, a percepção das coisas é contaminada por um estado onírico em que prevalece a ambigüidade das formas. É assim também com o jovem apaixonado de “O poeta”, cujos

pensamentos faziam com que as coisas adquirissem proporções descomunais ― como nas montanhas as imensas sombras que os viajantes projetam em meio à neblina e que os enchem de terror ―, gigantescas e de certo modo grotescas, como objetos que se movem um pouco à margem da razão humana. (p. 395)

A articulação entre diferentes histórias é particularmente complexa em “Os caminhos em torno de Pisa”, em que relações entre os personagens são mais sugeridas do que mostradas. Um jovem conde, atormentado por problemas no casamento, conhece uma velha dama cuja carruagem se acidentara. A senhora, debilitada, conta-lhe a história de sua vida, e pede-lhe um importante favor: que o conde procure por sua neta, a fim de se reconciliarem. Durante a viagem, porém, o conde presencia uma estranha discussão em uma estalagem, e é impelido a testemunhar um duelo mortal entre os contestantes. De modo que surgem histórias que se desdobram dentro daquela que julgávamos a história principal.

O verdadeiro sentido do conto (e das histórias que, mesmo sem uma ligação aparente, espelham-se uma às outras) será sugerido por dois elementos aparentemente banais: um pequeno objeto, que revela relações insuspeitas e passadas entre os personagens; e um corriqueiro teatro de marionetes que, visto de passagem pelo conde em sua viagem, parece compor a principal metáfora do conto. O grande trunfo do destino é fazer-nos crer no acaso. Como a ilusão de um teatro de marionetes.

Sem obviedades

Não à toa, outro motivo recorrente nesses contos é o do autômato. De maneira discreta, diversos personagens são comparados a bonecos ou seres inanimados. A metáfora é literariamente eficiente, não apenas porque evoca um motivo caro à literatura fantástica (pensemos no “estranho”, ou Unheimlich, que Freud identificou em “O homem de areia”, de E. T. A. Hoffmann), como reforça a idéia da marionete, do homem como um joguete do Destino. Um Destino que, onipresente, parece manipular, um pouco arbitrariamente, o andamento do enredo e sua verossimilhança.

Como decorrência dessa aparente arbitrariedade, há uma flagrante artificialidade no modo como personagens que julgávamos secundários tomam a palavra e narram suas vidas. Bem como no tom filosófico e nas citações eruditas que facilmente tomam conta de uma conversa entre estranhos. O narrador de “O velho cavalheiro”, por exemplo, tem o capricho de interromper sua narrativa para explicar devidamente a natureza das mulheres de sua época, e descrever o quanto as vestimentas das damas diziam de suas personalidades. Essas pausas são recorrentes: os personagens ― e o narrador através deles ― estão sempre dispostos a discorrer a respeito dos assuntos mais graves e, para tanto, não hesitam em recorrer a citações eruditas ou a versos memoráveis.

Mario Vargas Llosa já havia identificado como algumas das principais qualidades de Blixen certa “elegância ligeiramente passada de moda, sua esquisitice e irreverência, seus jogos e desplantes de erudição, e seu escasso, para não dizer nulo, contato com o inglês vivo e falado da rua” [3]. Neste sentido, o texto de Karen Blixen é indisfarçadamente “literário”. Mas a sofisticação de sua prosa suplanta qualquer “artificialismo”. E suas narrativas negam as obviedades da tradição gótica que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. Metamorfoses, disfarces e conflitos de personalidade estão presentes em todas as histórias: jovens moças disfarçadas se passam por homens, uma velha senhora sem peruca adquire as feições de um ancião, uma mulher madura e casta forja para si mesma um passado de devassidão.

Como no caso de “O dilúvio em Nordeney”: quatro pessoas que não se conhecem encontram-se, devido a situações adversas, isoladas em um celeiro cercado pelas águas. Enquanto aguardam a manhã e a subseqüente ajuda, eles contam cada um a sua história. Ninguém é quem parece ser. Caem as máscaras sociais e se revelam os vícios ― o orgulho, principalmente ― que mantêm os disfarces. “Não é pela expressão que se deve conhecer o homem, e sim pela máscara” (p. 87), diz um dos personagens. O final do conto, em aberto, é desconcertante.

Máscaras, bonecos, disfarces: o referido “artificialismo” dos contos de Karen Blixen tem algo de teatral. E o leitor, como o personagem da obra-prima “O macaco”, não deve ser “tão dogmático a ponto de acreditar que é indispensável haver tablado e luzes de ribalta para se estar no teatro” (p. 156). Karen Blixen é uma escritora para aqueles que aceitam as convenções literárias e o quanto há de onírico em todas as histórias. E aceitam a idéia de participar de um baile de máscaras em que nunca se revelarão, senão por sutilizas e discretos buracos na máscara, as identidades de seus convivas.

[1] O título dessa resenha é uma referência ao conto de Jean Lorrain, chamado precisamente de “Os buracos da máscara” e que pode ser lido em Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] BLIXEN, Karen. Sete narrativas góticas. Trad. Cláudio Marcondes. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

[3] LLOSA, Mário Vargas. “Os contos da baronesa”. In: A verdade das mentiras. Trad. Cordélia Magalhães. São Paulo: Arx, 2004.

>> DIPLÔ – por Gregório Dantas


ANDREA DEL FUEGO: REALIDADE FANTÁSTICA QUE VIROU LITERATURA REALISTA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

Vencedora do prestigiado prêmio José Saramago com o livro Os Malaquias, Andréa Del Fuego é hoje um dos nomes mais importantes da nova literatura brasileira.

Ela conta que quando escreveu o conto “Como ganhar um Jabuti”, uma crítica sobre a neurose que envolve as vida dos escritores diante de um prêmio literário, Andréa nem sonhava que viria a ganhar um prêmio e muito menos o prêmio fundado pelo autor que ganhou o Nobel de literatura.

Acostumada com textos curtos, contos e livros infantis, Os Malaquias foi a obra que marcou a sua transição para o romance.

Apesar de trabalhar fortemente com prosa poética a escritora afirma: “Eu gosto de escritores que me dão a realidade, sem metáforas”. Mas ao analisar a história que originou Os Malaquias, aquilo que parecia fantástico passa a ser uma realidade impressionante. Andréa escreveu o livro se baseando na história de seus bisavós que foram vítimas de um raio em um vale no interior de Minas Gerais. Os dois faleceram mas seu filhos tiveram apenas machucados leves.

As crianças que ficaram órfãs acabaram sendo separados: a tia-avó foi adotada por uma família árabe em São Paulo, para ser empregada e não filha e o avô de Andréa foi trabalhar em uma fazenda em um esquema similar ao de trabalho escravo. Já o tio-avô Antônio que é anão, na mente de Andréa por muito tempo havia virado anão por conta do raio.

Com esses personagens na vida da autora não foi difícil transpor a história para as páginas, processo que começou quando a avó de Andréa faleceu. Até então Andréa escrevia apenas contos eróticos. Com a morte, que é inclusive um elemento muito presente no livro, ela percebeu que a sua capacidade de escrever ia muito além.

Outro episódio da realidade fantástica que é a família de Andréa pode ser contado na sua própria versão: “O tio Antônio já era bem velhinho, andava descalço com o chapéu de palha e se enfiava no meio do milharal e todos procuravam por ele. Quando ficou mais idoso ele ficou gordinho e tinha uma lordose bem profunda. Ele se sentava na cozinha perto do fogo e ficava lá por muito tempo, até que o gato subia na lordose dele e dormia. Não é para ser escritora?”.
>> TV CULTURA – por Bárbara Dantine
 


STEAMPUNK PAULISTA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

Jovens de São Paulo adotam estilo vitoriano
e idolatram tecnologia a vapor


Nos dias atuais, tem muita gente projetando que o eterno país do futuro Brasil emergirá como uma potência do século 21. Mas, alguns brasileiros preferem imaginar que já habitam um império, só que do passado. Eles reverenciam uma Londres do século 19, acham que os mares são ingleses e que o sol nunca se põe nos vastos territórios da rainha Vitória.

E nem só verão tropical atrapalha os nossos vitorianos. “Não avisaram vocês que o Carnaval já acabou?”, faz troça um pândego que passa pela curiosa órbita de donzelas de espartilho e rapagões de fraque se dirigindo para um piquenique no parque Trianon, em plena avenida Paulista.

“O pessoal vive perguntando onde é a peça de teatro. Ou pede para tirar fotos junto”, resigna-se Eduardo Castellini, que também atende pela alcunha de Lord Fire. Ele e sua pequena assembleia adentram no bosque atlântico decorado à maneira europeia, deixando para trás o escarcéu de uma batucada de estudantes na calçada.  Ao lado de uma fonte de água, começam o festim.

Essa tribo urbana possui uma vantagem magnífica sobre as outras: a consideração e a estima dos pais pelo modo respeitável de seus hábitos. “Eu era gótica. Minha mãe torcia o nariz e falava que eu parecia um urubu. Descobri o estilo vitoriano, passei a usar corsets, vestidos longos e gargantilhas. Agora minha mãe adora”, folga em dizer Jéssica Nascimento, que dispõe ainda de trajes de milady, aviadora, lolita e governanta.

No tocante à moral vitoriana, Jéssica confessa que é impossível seguir à risca suas manias e seus pudores, mas conserva-se um cavalheirismo dentro do grêmio. “Tratamos as mulheres como damas. A Inglaterra vitoriana era uma época de mais respeito”, opina Lord Fire.

Esse ressurgimento nos últimos anos surgiu no estrangeiro e foi nomeado de steampunk. Decerto esses sujeitos garbosos são mais steam (vapor) do que punk.

Uma explicação se faz necessária: o termo é derivado de cyberpunk, tipo de ficção científica que mostrava o homem dominado pelas máquinas – o livro fundador dessa onda, “Neuromancer” (1984), é do norte-americano William Gibson, autor que cunhou o termo “cyberspace”.

No lugar de pesadelos no mundo virtual e de vilões eletrônicos do cyberpunk, o steampunk é ambientado no começo da Revolução Industrial, quando a energia vinha das nada ecológicas caldeiras a vapor e os mecanismos eram movidos por engrenagens.

Esse subgênero literário privilegia os enredos da chamada  “história alternativa”, projetando que a tecnologia daquela época atingiria a criação de computadores de madeira e aviões movidos a vapor. Saindo do universo livresco, o movimento gerou uma subcultura que dispõe de músicas, vestimentas e códigos próprios. O filme preferido é “A Liga Extraordinária” (2003), e as bandas que o representam são Abney Park, Dresden Dolls e Clockwork Quartet.

Esse clube também tem um pé na onda RPG (Role-Playing Game), jogos em que os participantes incorporam personagens e criam coletivamente uma história. Por outro lado, alguns vitorianos participam de eventos de cosplay (mania de se vestir como personagens da TV ou das histórias em quadrinho).

Esses dois fatores mostram a teatralidade que os steampunks cultuam. Durante o piquenique, por exemplo, apareceu uma garota vestida de Alice, portando um coelho de pelúcia. “Perdão, acabei atrasando, mas a culpa é dele”, disse, apontando para o animalzinho e remetendo diretamente ao clássico de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”.

“Salve, salve. Junte-se ao grupo”, foi saudada a adolescente por Lord Fire, logo preocupado com a alimentação das moçoilas presentes: “Sugiro às amigas que provem este sanduíche de patê”.

No parque inaugurado em 1892, uma toalha quadriculada recebe um cesto de vime, de onde saem potes de geléia, biscoitos e outras amabilidades. Eles não lembraram do solene chá, e o líquido mais farto por lá é o refrigerante pátrio Diet Dolly. Até uma pizza e um leite de soja deram o ar da graça.

“Saí de casa tão apressada que esqueci de trazer minha xícara de porcelana com flores delicadas”, lastimou Alice, bebericando em copo plástico.

Quando o assunto passa à aclimatação dessa moda vitoriana futurista ao Brasil, não demoram a surgir figuras da história local para justificar a procedência desses fidalgos do século 21. “D. Pedro 2º foi um imperador steampunk”, define Luis Fernando de Oliveira (ou Jack Grave), lembrando que o monarca se encontrou com eminentes personalidades da época, como Nietzsche e Victor Hugo. “Ele tinha muito interesse em ciência e cultura. Mas outros steampunks foram o Barão de Mauá, por ser o primeiro industrial do Brasil, e Santos Dumont, como pai da aviação”, sentencia Lord Fire, cujo ofício é justamente o de técnico de aviação.

Outra matéria querida para eles é a decoração vintage dos dispositivos eletrônicos atuais. Ao contrário do que se possa pensar, as damas e os cavalheiros estão longe do ludismo, movimento do século 19 que preconizava a destruição das máquinas. Eles não renunciam às facilidades modernas, apenas cuidam de revesti-las como se tivessem saído de um antiquário. “Nós vivemos atualmente no mundo que os escritores do século 19 imaginaram. Estamos realizando o que eles fantasiaram”, pondera Lord Fire, que tem um laptop em forma de máquina de escrever. Já Jack Grave se orgulha de um netbook em forma de livro antigo.


Muito tempo atrás a vida era pura / O sexo era sujo e obsceno / Os ricos eram tão mesquinhos / As casas de campo para os lordes / Campos de croquet e gramados / Vitória era minha rainha

Tradução da letra de “Victoria“, canção do grupo de rock inglês dos anos 1960 The Kinks, regravada pelo The Fall na década de 80.

Relógios digitais de bolso e celulares com manivela mostram essa adoção mais decorativa que funcional. Vale também criar a sensação de anacronismo cobrindo com madeira, couro e bronze iPhones e telas de LDC.

Os seguidores nacionais, porém, tem contato tão somente pela internet com objetos steampunks mais notáveis,  como uma engenhoca que faz um braço biônico se mover alimentado pela energia gerada por uma caldeira instalada nas costas de seu usuário estado-unidense.

Os vitorianos adoram se aprumar. As mulheres ostentam camafeus sobre  os vestidos com cauda e os corsets que afinam a cintura, apertando as carnes e a respiração. Já os lordes brasileiros se deleitam com acessórios, como cartola, monóculos, bengala, colete e cachimbo. O brasão bordado é um opcional.

“Para a gente, é uma imersão. As roupas ajudam a entender como viviam as pessoas da época. Nós escrevemos contos steampunks e temos que saber, por exemplo, como é uma perseguição com fraque”, justifica Lord fire.

Os steampunk preferem Julio Verne a Machado de Assis, e Conan Doyle a José de Alencar. Escrevem ficção até com um certo linguajar desse período, mas esse subgênero pop não combina com o estilo descritivo e por vezes solene de dois séculos atrás. “A gente pode considerar O Xangô de Baker Street, do Jô Soares, como o primeiro livro steampunk do Brasil”, decreta Lord Fire.

Além do piquenique, o programa predileto do grupo é andar de trem Maria Fumaça, visitar lojas de antiguidade e comprar em ferro velho e brechó. “Vejo um brechó e já entro. Adoro comprar espartilhos. Quando visto um, aí sim, me sinto no século 19”, confessa Jéssica. Já Jack Grave prefere ir à rua Santa Ifigênia, centro paulistano de eletrônica, onde adquire toca-fitas quebrados para logo desmontar e aproveitar as engrenagens.

De forma bem vitoriana, os steampunks seguem uma hierarquia. Há um conselho nacional, ligados a lojas (isso mesmo, termo inspirado nas unidades maçônicas, tão típicas daquele século 19) em cada Estado – Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul são as “lojas” mais ativas fora de São Paulo.
>> UOL Notícias – por Rodrigo Bertolotto

Tecnologia a todo vapor

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    Teclado de computador retrô ganha botões de máquina de escrever e borda dourada
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    O celular steampunk tem ponteiro para indicar volume e cartões perfurados para a discagem
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    O fascínio pelas engrenagens fica claro neste pen drive coberto ainda por madeira e parafusos

“WEIRD TALES”: O PULP QUE APRESENTOU A LITERATURA FANTÁSTICA AO MUNDO

terça-feira | 17 | janeiro | 2012

Na primeira década do século XX, o que ocupava a cabeça e esvaziava os bolsos de jovens e muitos adultos eram magazines mensais com contos de ficção científica e fantasia heróica. Trazendo quase sempre em suas capas personagens exóticos ou garotas voluptuosas correndo perigo, estas “revistas” eram feitas da parte mais barata do papel, conhecido como “polpa” e deram origem ao termo “Pulp”.

A revistas “pulp” não tinham pretensão literária e se destinavam à entretenimento despretensioso, rápido e barato. Mas mesmo assim grandes escritores iniciaram suas carreiras nelas, gente do calibre de Isaac AsimovDashiell Hammett e Raymond Chandler. E as histórias em quadrinhos começaram sua trajetória como uma “evolução” dos pulps, já queGil Kane (Lanterna Verde, Esquadrão Atari), Mort Weisinger (co-criador do Arqueiro Verde e do Aquaman) e Julius Schwartz (lendário editor da DC Comics) também escreveram nestes revistas também.

E dentre as centenas de revistas que existiam na época, uma ostentava o slogan “Uma Revista Sem Similar”. Seu nome era Weird Tales.

Foi criada em 1923 por J. C. Henneberger, um ex-jornalista que possuía um peculiar gosto por histórias macabras fossem reais ou fictícias.  O segundo editor da revista foi Fransworth Wight, que tentando equilibrar a Weird Tales entre as exigências do mercado e seu gosto por literatura fantástica, deu a publicação uma identidade única.

Já publicava contos de H. P. Lovercraft (preciso mesmo explicar quem é esse cara?), quando, em julho 1925, teve em suas páginas o conto “Lança e Presa”, de Robert E. Howard. Daí em diante o Howard foi ficando cada vez mais frequente, ganhando sua primeira capa em abril de 1926 com o conto “Sombras Vermelhas”, onde apresentou o personagem Salomão Kane, um puritano do XVI que vaga pelo mundo caçando, monstros, demônios e feiticeiros, armado somente com uma espada e uma pistola. Outros personagens de Howard que fizeram sucesso foram Kull e Bran Mak Morn.

E em dezembro de 1932 temos a estréia de Conan da Ciméria com o conto “A Fênix na Espada”. Mesmo com Howard sendo um dos autores favoritos dos leitores, estréia do bárbaro não ocupou a capa da revista. Aqui temos Conan já em idade avançada como rei da Aquilônia tentando sobreviver à uma tentativa de assassinato.

O personagem foi bem recebido e não tardou para ser um dos pilares da revista, estrelando diversas capas. A Weird Tales não limitou-se a publicar somente contos, mas diversos poemas de Howard envolvendo seus personagens tiveram espaço nas páginas da revista.

Quando Wight morreu, a revista mudou sua linha editorial. Em meio a concorrência com livros de bolso, histórias em quadrinhos e novelas de rádio, a editora passou por dificuldades financeiras e a Weird Tales foi cancelada em 1954. A revista ressuscitou em 1970 com quatro edições e foi cancelada novamente. Uma nova surgiu em 1981 e dura até hoje, como revista bimestral. Clique aqui e conheça o site oficial da revista!

>> CONTRAVERSÃO – por Aléssio Esteves


MUNDO POVOADO POR SERES FANTÁSTICOS DÃO FÔLEGO A JOVENS ESCRITORES

quinta-feira | 12 | janeiro | 2012

O paulistano André Vianco publicou 14 obras, com 700 mil cópias vendidas e faz projeto piloto para série de tevê.

A popularização da literatura de fantasia levou alguns escritores brasileiros a trilharem os caminhos desse gênero. O mundo habitado por guerreiros, vampiros, lobisomens, demônios e anjos está ganhando cada vez mais espaço entre as publicações nacionais e diminuindo a dependência da criatividade estrangeira para satisfazer leitores adeptos ao estilo.

A fantasia nacional soma algumas dezenas de títulos, como as séries vampirescas de André Vianco; A batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr; e a trilogia Dragões de éter, de Raphael Draccon. O fenômeno editorial ocorreu no momento em que o mundo vislumbrava a magia de Harry Potter e o cinema resgatava a saga de O senhor dos anéis. Mas as inspirações dos escritores daqui foram várias, passando por J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling, C. S. Lewis e chegando a nomes do passado, como o criador do Conde Drácula, Bram Stoker.

Um dos precursores e disseminadores dessa tendência no país foi o paulistano André Vianco, 35 anos. Em 2000, ele lançou Os sete, livro que conta a história de sete vampiros que desembarcam no litoral brasileiro, e ainda hoje figura entre os mais vendidos. “A internet inverteu o fluxo de como as editoras decidiam o que publicar. A indústria do entretenimento passou a ver que os leitores liam também na internet. Então, começaram a entrar os autores nacionais de fantasia e terror. Perceberam que havia bons escritores aqui e começaram a ver que os leitores queriam ler esses autores, sim. Porque, mesmo sem existir na loja, o escritor tem o seu blog, o seu público, as editoras vão atrás deles também. Hoje, com as redes sociais, existe uma fidelização do público leitor, o que está fortalecendo esse nicho que até então era ignorado”, analisa.

Dono de um recorde de 700 mil cópias vendidas, com 14 livros publicados e um em produção, André Vianco ensaia os primeiros passos como diretor de uma série de tevê baseada na trilogia O turno da noite. A produção é independente, e conta apenas com o episódio piloto até o momento. “São passos tímidos ainda, mas os leitores adoram. É aquela coisa bem brasileira, bem autoral. Eu escrevi o roteiro, dirigi e abri minha produtora”, acentua.

Receita para o sucesso não existe, mas Vianco sempre dá dicas nas palestras que faz pelo Brasil a jovens que pretendem tornar-se escritores: “É gostar de escrever e sobretudo gostar de ler. Ser perseverante, porque o mercado não é fácil”.

Medieval e tecnológico
O estilo do carioca Raphael Draccon, 30 anos, é diferente, sem seres sanguinários. Autor da saga Dragões de éter, com mais de 50 mil exemplares vendidos, Draccon lançou-se no projeto de escrever um livro para ser como Bruce Lee. De tanto assistir a Operação Dragão na infância, ele prometeu para si que também seria escritor e faixa-preta, e trabalharia com cinema. “Precisei de 20 anos para cumprir toda a promessa”, brinca.

A trilogia Dragões de éter é uma releitura de vários contos de fada compartilhando a mesma trama, com uma linguagem para adolescentes, e não para crianças. Contém ação e magia na mesma medida, em um cenário medieval e tecnológico. Ninguém escapa. Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, a Branca de Neve e os sete anões, estão todos lá, com uma dose farta de cultura pop, vinda principalmente do rock.

A trilogia ganhou forma em meio a uma rotina agitada. Raphael estudava cinema de manhã, dormia à tarde, dava aulas à noite e escrevia de madrugada. O esforço rendeu, à época, um original de 400 páginas, entregues nas mãos do editor. A edição publicada tem cerca de 1.400. “Eu havia produzido uma capa simbólica, os personagens impressos em papel especial. A ideia era resgatar o que a minha geração sentia ao assistir a A caverna do dragão. Uma obra envolvendo um cenário sombrio, suavizado por uma visão juvenil”, explica Draccon.

Quando publicou os livros pela primeira vez, cinco anos atrás, a realidade era outra. “Hoje, o mercado é um pouco mais aberto a novos autores. Há alguns anos, aí podemos utilizar autores como Vianco e Spohr como exemplo, escritores nacionais de fantasia não eram best-sellers ,e nem editoras nem leitores confiavam tanto neles como atualmente”, resume.

Fada Mel
Mesmo dentro do gênero fantasia, o público é bastante diversificado. Distante das batalhas épicas e confrontos violentos, o livro A fada, de Carolina Munhoz, paulista de 22 anos, vencedora na categoria literatura do Prêmio Jovem Brasileiro 2011, é uma história de esperança diante de dificuldades.

A inspiração que Harry Potter deu a Carolina foi tanta que até a cidade onde a trama se desenrola é a mesma onde o bruxo morava: Londres. “Eu sempre fui apaixonada pelo local, pela história do Rei Arthur. Harry Potter intensificou e resolvi usar Londres como cenário. Antes de relançar o livro por uma outra editora, passei um mês lá e usei essa experiência para colocar mais detalhes na obra”, comenta Carolina.

As aventuras da personagem principal, a fada Mel, surgiram na imaginação dela aos 16 anos. Quatro anos depois, a história foi publicada e reeditada. “Eu nunca tive uma conexão muito grande com fadas, mas esse livro veio para mim em um sonho e no outro dia eu comecei a escrever.”

Já Bruna Torres não é escritora, mas é fã da obra de André Vianco. Aos 6 anos, leu Chapeuzinho Vermelho e, alguns anos depois, As aventuras de Robson Crusoé. Conheceu a obra de Vianco por meio de um parente. “Meu primo tinha uns 12 anos e lia a série que começou com Os sete. Ele me falava tanto dela que me interessei e acabei até presenteando amigos com livros do André. Até o meu namorado, que não lia nada, tomou gosto pela leitura. Hoje, conheço o André Vianco pessoalmente e sempre o encontro quando ele vem a Brasília”, completa.

Leitora dedicada, a brasiliense de 25 anos põe Vianco no patamar dos melhores escritores brasileiros. “São livros de excelente qualidade, que merecem leitura. Indico para todas as idades. São cheios de detalhes, personagens e histórias fascinantes”, descreve.
>> CORREIO BRAZILIENSE – da Redação


HEROÍNAS DA LITERATURA FANTÁSTICA

quarta-feira | 11 | janeiro | 2012

As heroínas são personagens que, envolvidas em confusões e mesmo que precisem de uma ajudinha de amigos ou mesmo de um herói, conseguem agir sozinhas. Porém a característica mais marcante de uma heroína, que a difere das mocinhas de histórias, é que elas não são conformistas. Enquanto as mocinhas, geralmente indefesas, sempre esperando pelos “príncipes encantados” para salvá-las, as heroínas vão brigar pelo direito de pensar por elas mesmas, certas ou erradas, com unhas e dentes.

Kara dos livros Alma e Sangue Imagem: Websérie Alma e Sangue

Na literatura fantástica é onde mais se encontra heroínas. Porque na literatura mundial, infelizmente, o número de mocinhas ainda é muito grande, o que mostra o quanto a sociedade literária ainda é machista. Porque as mocinhas são o verdadeiro exemplo da figura feminina idealizada por uma cultura patriarcal, onde o homem é o forte e corajoso, enquanto a mulher é a bela “donzela”, cobiçada por todos, que precisa ser salva pelo melhor entre todos os homens.

Já uma heroína é uma personagem feminina de temperamento forte, com defeitos e qualidades que a coloca em igualdade com um herói. Algumas chegam a condição de anti-heroínas de tão do contra que são. Porém as heroínas da literatura são mais realistas e diferem muito da maioria vista nos quadrinhos, por exemplo, as quais geralmente usam roupas sexy (e muitas vezes ridículas) só para agradar o público masculino, que ainda é maioria em publicações do tipo.

Conheci em minhas leituras, desde que iniciei o Projeto Literatura Nas Ondas Do Rádio, algumas heroínas e anti-heroínas bem legais. Tanto na literatura estrangeira como na nacional.

A tendência mundial atual são as Heroínas Adolescentes, entre as quais se destacaram, e/ou caíram no gosto do público em geral, a Hermione de Harry Potter, a Bella da saga Crepúsculo e Claire de Os Vampiros de Morganville. Curiosamente no Brasil, a tendência entre os autores brasileiros são Heroínas Adultas, mas encontrei algumas adolescentes bem interessantes como a Kaori, criação de Giulia Moon(Kaori – Perfume de vampira e Kaori 2 – Coração de Vampira), e Kôra, criação de Ana Flávia Abreu (Kôra – O Pressentimento do Dragão e Kôra e a Masmorra de Atro).

Na literatura fantástica mundial, poucas foram as Heroínas Adultas que achei até agora. Há muitas interessantes dentro do mundo dos quadrinhos, mas pouquíssimas são as que encontrei na literatura, as quais fossem cativantes como a detetive particular Vicki Nelson da série literária Blood Book de Tanya Huff, que, infelizmente, ainda não foi traduzido para o português (pelo que eu saiba). Porém alguns fãs de séries de TV fantásticas e/ou vampirescas, provavelmente, a conhecem, pois o livro foi inspiração para a série Blood Ties.

No entanto, os autores brasileiros conseguiram suprir a falta de tais personagens brilhantemente. Porque se falta heroínas lá fora, ou é apenas o mercado editorial por aqui, que ignora o fato dos brasileiros adultos curtirem LitFan (até mais que o público infanto-juvenil), o fato é que no meio nacional há várias e cada uma mais interessante que a outra.

Entre as personagens femininas com características de heroína ou anti-heroína da literatura nacional fantástica, eu tive o prazer de conhecer algumas que hoje estão na lista das minhas favoritas, como é o caso da Clara de Martha Argel (Relações de Sangue e Amores Perigosos), Kara de Nazarethe Fonseca (Alma e Sangue) e Jessi de Vivianne Fair (A Caçadora). As três personagens fazem parte de histórias de vampiros, mas há outras bem interessantes, que pertencem a outros universos fantásticos, como é o caso da Mestra Anna do livro O Castelo das Águias de Ana Lúcia Merege.

Também encontrei várias heroínas, entre adultas e adolescentes, em contos nacionais, como as personagens:
- Maya dos contos de Giulia Moon (Coletâneas Vampiros no EspelhoA Dama-Morcega e Luar de Vampiros).
- Sophie de Gabriel Arruda Burani, Barbara da Celly Borges, Berta da Nazarethe Fonseca e Luísa de Louise Duarte (Antologia Sociedade das Sombras da Editora Estronho).
- Anelisa da Cristina Rodriguez, Carolina da Adriana Araújo, Lili da Nazarethe Fonseca e Nix da Giulia Moon (Livro 1 da coleção Amores Proibidos da Editora Draco, Meu Amor é um Vampiro).

Essas personagens são apenas alguns exemplos, entre aquelas que eu mais gostei, ou que me chamaram atenção por alguma característica marcante, ao ponto de desejar continuações de suas histórias. Há várias outras personagens interessantes na LitFanBR, sem contar os livros que ainda estão na minha lista de leitura (que atualmente é enorme).Então se gosta de uma boa histórias com heroínas, tem para todos os gostos. E para quem não aquenta mais os inúmeros reality show e programas sensacionalistas das TVs brasileiras, que se repetem irritantemente a cada ano, eu recomendo a leitura de livros fantásticos. Vai gastar melhor seu tempo e pode se divertir muito mais… Assim, quem sabe, com um audiência baixa, as redes de TVs no Brasil comecem a investir em programação de qualidade e boas histórias para seus roteiros.
>> CONTOS SOBRENATURAIS – por Anny Lucard

TUPI OR NOT TUPI. ESTA NÃO É A QUESTÃO

quarta-feira | 11 | janeiro | 2012

Cacique Raoni, líder da tribo dos Kayapó.

Recentemente voltou a cena o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de Ivan Carlos Regina, pela mão de Tibor Moritz, que levantou a bola, e deixou o pessoal fazer algumas embaixadas. Porém a bola caiu no chão e pingou, pingou e Bráulio Tavares deu outro chute levantando um novamente a bola, que nos pés de Roberto Causo e do próprio Moritz voltou a pingar no meio do fandom.

Eu estou vendo a bola vir em minha direção e resolvi arriscar um chute ou uma cabeçada e não espero atingir o gol, pois péssimo jogador de futebol, nem sei onde ele está. Aliás, parece que ainda ninguém sabe, mas o importante é que a bola continue no ar a espera de que alguém saiba onde está o gol ou construa um.

Para iniciar a minha reflexão sobre o assunto antes de colocar a bola novamente em campo partiu dos textos já citados, dos Manifesto da Poesia Pau Brasil e Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, do Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, de minhas leituras de FC & F e outros gêneros de todos os cantos do mundo e da Opera Madame Butterfly sob a ótica de Katsuhiro Otomo, no curta Magnetic Rose presente do DVD Memories.

Alguém poderia estar perguntando, por que Madame Butterfly? Afinal não estamos falando de literatura brasileira de Ficção Científica?

Eu pergunto: quando pensa em madame Butterfly, qual o primeiro país que aflora a mente? Japão!  Só que ela é uma opera italiana (escrita por Puccini) que se apropria de alguns elementos culturais japoneses e de um momento histórico, onde ocorria justamente a dominação econômica e cultural americana nas terras nipônicas.

E o que fez Katsuhiro Otomo? Criou uma história onde uma nave especial com uma tripulação multinacional (não há um japonês sequer) segue um sinal de SOS que é justamente uma ária de Madame Butterfly. O destino é um grupo de asteróides com um perigoso campo magnético, Sargasso, nome de um mar onde na ficção é palco de naufrágios misteriosos.

Mesmo sem ver o filme, só por esta sinopse percebe-se que o local é uma armadilha. A atração magnética, a atração física por uma mulher, a atração por uma cultura diferente, a busca do lucro fácil e a ilusão de que se pode viver através das memórias compõe o quadro dramático do curta.

Apesar de todas as referencias não serem japonesas, sentimos que estamos diante de uma obra genuinamente japonesa. Por quê? Talvez pela forma? O tipo de narrativa? Ou o aprendizado de mais de um século que tivemos de ver Madame Butterfly como uma referência ao Japão?

Já em o Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto coloca um personagem patético que tenta sozinho salvar o país através de três projetos: um linguístico, um econômico e um político.

Nos interessa o linguístico, já que estamos envolvidos no uso da linguagem como forma de expressão. Quaresma é menosprezado primeiro por querer estudar violão, depois por estudar sem ter formação acadêmica e, por fim querer adotar uma visão nacionalista extrema, ao propor o uso do tupi como língua oficial.

Este é o perigo que temos que evitar. Até onde deve ir nossa busca do nacionalismo? Enfiar um índio numa história de FC fará meu texto ser mais brasileiro?

Eu particularmente penso que somos estrangeiros nesta terra. Nossas origens são européias e se queremos colocar elementos indígenas em nossas histórias temos que fazer um mergulho em suas tradições e crenças, criar uma boa história (um bom exemplo é o herói Tajarê, de Roberto Causo) e… lidar com uma possível rejeição do publico leitor.

Agora, vamos ao texto base, o Manifesto Antropofágico de Ficção Científica Brasileira:

“Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.

A ficção científica brasileira não existe.

A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos paises tecnologicamente desenvolvidos.”

O que seria este deglutir? Me vem a imagem de sandálias de dedo feitas a partir de garrafas pet. O Cacique Raoni de óculos e beiço de botocudo. Ou o Visconde de Sabugosa, com um laboratório de faz-de-conta. Alias Monteiro Lobato, apesar de não ter aderido ao movimento, é mestre nisto: seus livros infantis têm Saci e Peter Pan, Cuca e Gato Felix, onça e Tom Mix (caubói do cinema mudo). O sítio não vai ao universo, o universo vem ao sítio.

Me vem novamente a imagem de Madame Butterfly, mastigada e cuspida por Katsuhiro Otomo em forma de destroços.

Temos celulares de ultima geração, mas eles nos são roubados nos ônibus apertados. O saci fuma uma pedra de crack em seu cachimbo, acendendo-a com um isqueiro Zipo. A pesquisa é interrompida porque a verba foi desviada pra fazer um jardim na casa do ministro. É esta realidade que não é retratada, segundo Ivan Carlos Regina.

Por fim o próprio texto de Oswald de Andrade nos dá um tema pra uma boa obra de ficção especulativa, se alguém se dispuser a escrevê-la:

“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”

Infelizmente o que restou dos Caraíbas está prestes a ser inundado pela usina de Belo Monte.
>> BLOG DO PAI NERD – por Alvaro Domingues


“FANDEMÔNIO nº 1″: PARA DEGLUTIR O FUTURO

terça-feira | 10 | janeiro | 2012

Nos dolorosos estertores finais de 2011, o escritor e blogueiro Tibor Moricz, autor do romance O Peregrino (Draco, 2011), resolveu balançar a canoa da comunidade de fãs e autores de ficção científica – conhecida como fandom – com dois textos provocadores. Neles, lamenta a falta de discussões e de polêmicas nesta altura do ano, e pergunta: “Só a antropofagia nos unirá?”

A pergunta remete diretamente ao “Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, lançado em 1988 pelo escritor paulista Ivan Carlos Regina nas páginas do fanzine do Clube de Leitores de Ficção Científica, o Somnium. Moricz já havia levantado a mesma peteca antes, quando divulgou no seu É Só Outro Blogue o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, de Regina, e o entrevistou.
Na década de 1990, esse movimento, inspirado numa das principais tendências do Modernismo brasileiro, dividiu opiniões, causou polêmica, produziu declarações e ensaios publicados em fanzines, e, com erros e acertos, constituiu-se na questão literáriacaracterística da Segunda Onda da FC Brasileira (de 1982 ao presente). Além de Regina, se declararam simpáticos ao movimento Cesar Silva, Fábio Fernandes, Marcello Simão Branco, Roberto Schima e eu mesmo.

Hoje sabemos que a discussão de como ou por que trazer uma perspectiva brasileira ou terceiro-mundista à ficção científica já era discutida antes, durante a Primeira Onda (1958-1972), como atestam as perguntas que o escritor Walter Martins (1932-2010) dirigiu aos participantes internacionais do Simpósio de FC, o histórico evento realizado em 1969 no Rio de Janeiro.

O Movimento Antropofágico da FCB encerrou-se por volta de 1995, depois de Regina compreender que seu poder de mobilização e de debate havia alcançado seus limites. Mas é interessante que agora, quando se apresenta uma Terceira Onda de escritores de FC no Brasil, a discussão das idéias do movimento retorne com a intensidade que Moricz conseguiu provocar no seu blog. Parece que aqueles limites ainda não tinham sido atingidos.

O retorno da discussão vem no rastro de declarações muito recentes que o respeitado escritor e antologista Braulio Tavares fez à imprensa, por ocasião do lançamento da sua antologia Palavras do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica (Casa da Palavra, 2011). Para o jornal O Globo, ele fez esta declaração: “Tem muita gente lendo e gostando do gênero, e isso é ótimo. Mas há um cordão umbilical que precisa ser partido de uma vez por todas. O Brasil precisa se descolar dos Estados Unidos. Precisa trazer para a ficção científica o que os modernistas fizeram em 1922.”

A afirmativa se aproxima muito da proposta de Regina, e na discussão do É só Outro Blogue, Tavares fez novo esclarecimento: “Na entrevista ao Globo (por telefone), eu disse à jornalista que essa atitude antropofágica vem, pelo menos, desde que Ivan Carlos Regina publicou nos anos 1980 o ‘Manifesto Antropofágico da FC Brasileira’. Esta informação não apareceu na matéria final, o que lamento.” Já em matéria de 3 de janeiro de 2012, escrita por Luiz Zanin Oricchio para O Estado de São Paulo, tem-se a afirmativa: “Não por acaso, um autor como Ivan Carlos Regina publicou, em 1988, seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. Inspirado nos modernistas de 1922, Ivan entende ser necessária a deglutição radical dos nutrientes estrangeiros para a produção da proteína nacional.”

Braulio Tavares é a fonte desse comentário, como se vê pelacrônica que ele fez para o Jornal da Paraíba, em 23 de dezembro de 2011, na qual afirma que “O manifesto de [Ivan Carlos Regina] critica os autores brasileiros que preferem imitar o modelo norte-americano de FC, repetir os mesmos temas, os mesmos clichês, a mesma linguagem – porque, vamos e venhamos, é muito mais fácil fazer ‘fanfic’ do que literatura. (A ‘fanfic’, a ficção produzida por fãs, é quando os leitores de Harry Potter, Star Trek, etc. escrevem suas próprias histórias utilizando esses personagens e contextos. Não tem propósito criativo estrutural; apenas o prazer de produzir variantes das obras originais.)” Nisso, ele vai ao encontro da condenação de Cesar Silva, um dos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de que boa parte dos autores brasileiros de FC são apenas fãs que se contentam em firmar sua adesão ao gênero, sem o propósito de se expressarem ou de conduzi-lo a novas direções. Para Tavares, o lado crítico do movimento “permanece tão atual quanto em 1988”. “Deglutir, devorar, antropofagizar”, afirma, “implica sempre em destruir, ‘quebrar’ aquele material em seus elementos constitutivos, usá-lo como eventual banco de dados para produzir uma literatura que não venha do impulso de imitar, mas de dizer verdades pessoais. Literatura é a verdade pessoal de cada um, e para essa verdade emergir precisa desligar esse piloto-automático que gera a fanfic e a imitação.”

A conclusão de Tavares marca um posicionamento dele que não havia sido expresso durante os primeiros anos do movimento. Sua primeira reação foi relutante e cautelosa quanto a qualquer coloração nacionalista ou prescritiva que o movimento pudesse ter. Para o meu fanzine Papêra Uirandê, ele escreveu que o mais importante para o desenvolvimento da FC brasileira era a vantagem implícita que teríamos pela localização cultural do país, que nos permitiria absorver influências múltiplas – de dentro e de fora da FC anglo-americana, de dentro e de fora da própria literatura brasileira como um todo. Não é uma declaração conflitante com a antropofagia cultural, mas também não foi adesão clara às idéias de Regina. A crônica do Jornal da Paraíba e suas novas declarações parecem bem mais próximas dessa, talvez porque a distância temporal clarifica perspectivas – ou porque o momento atual da nossa FC justifique ainda mais um retorno desse debate.

E com certeza, o debate voltou. Os comentários à breve provocação de Moricz somaram setenta manifestações (no momento em que escrevo este texto). Mesmo excluindo respostas perfunctórias e ecos de comentários anteriores, é mais do que tudo o que foi discutido por escrito, entre 1988 e 1995.

O que esses comentários expressam acabou sendo, não obstante, muito próximo das polarizações e posicionamentos apressados daquele primeiro debate em torno do movimento. São imediatamente lançados apelos contra “patrulhas”, “ufanismo extremo”, “xenofobia”, “extremismo”, “postura brasilianista” – e, fora desse contexto em particular, contra o emprego de “estereótipos culturais”.

Além da advertência, há e houve argumentos opositivos, do tipo “regional vs. universal”, hoje transmutados na evocação do globalismo como tendência inescapável, que poria de lado qualquer projeto de se apresentar a “experiência brasileira” (expressão quase universalmente ausente do debate literário) como singular ou significativa, ou de se explorar criticamente a nossa realidade.

O que é “regional”, o que é “universal”? Muitas vezes, o que se diz é que a ficção seria mais universal se carecer de índices particulares. Se abrir mão do detalhe específico, se for vaga em relação a de onde,de como e para quem o autor se dirige. A despeito de qualquer apelo que o minimalismo possa ter, é difícil acreditar que uma literatura possa ser mais, por meio da insistência em ser menos. Leon Tolstoi recomendou: “Canta a tua aldeia e serás universal.” E para o crítico francês Antoine Compagnon (in O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum, 1998), citando o ensaísta Michel de Montagne, “Cada homem traz em si a forma completa da condição humana”. Muda a conjuntura em que a condição humana se expressa, mas atravessando o outro, experimentando a vida pelo ponto de vista dos personagens e do autor, se atinge o universal.

Na Terceira Onda, um dos elementos centrais da retórica que emerge da interação entre esses novos escritores parece ser a noção da identificação do autor e do conteúdo que ele produz, com um público leitor ideal. Esse público seria jovem, de classe média, maioria masculina e branca e com formação universitária, interessado em novidades tecnológicas e conhecedor da FC principalmente via televisão, cinema, quadrinhos e videogames. Resulta daí uma busca pelo universal a partir de um único particular, mas um particular que se apresenta como dominante. O risco maior da postura seria a extrapolação exclusiva de um só conjunto de coordenadas sócio-culturais que pertenceriam a essa geração de autores.

Risco porque a ficção científica é a literatura da mudança, do estranho, do inesperado e daquilo que hoje é apenas vislumbrado, mas que tem o potencial de alterar dramaticamente as nossas vidas. Como escreveu (na antologia Future on Fire; 1991), Orson Scott Card, um dos grandes escritores que a FC já produziu, “Dúzias, centenas, milhares de vezes [os leitores de FC] viveram o processo de apreensão de uma realidade surpreendentemente nova. Não importa o que o futuro seja, eles já conhecem o processo: reconhecer a contradição entre a visão familiar do modo como as coisas são, e a nova ordem; extrapolar das contradições um novo sistema de causa e efeito; reconstruir uma visão do modo como as coisas são que inclua e acomode as antigas contradições; inventar o seu próprio papel na nova ordem; agir de acordo com o seu novo papel e sua nova visão da realidade.”

Esse seria o efeito geral da ficção científica como gênero. Mas não significa que cada narrativa de FC o realize. O escritor tem de buscá-lo intencionalmente, deliberadamente construindo, a partir das suas habilidades e experiências individuais, sua visão de mudanças potenciais e de reações possíveis. Por que uma literatura com esse potencial visionário deveria se ater a um único conjunto de valores, em nome de uma estratégia de mercado? Não haveria nisso um amesquinhamento da literatura – e em termos sociais, uma falta de solidariedade para com aqueles que são diferentes?

Recentemente, a escritora mainstream Martha Medeiros declarou no Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil de dezembro de 2011: “A literatura derruba paredes… Acho que nos liberta da mediocridade, faz com que a gente transcenda. Porque a nossa vida é muito estreita, muito reduzida.” Por que a ficção científica deveria andar na contramão desse entendimento?

O próprio processo de globalização tem nuances que o fazem escapar da idéia de que um conjunto de valores irá colonizar todas as instâncias do planeta. O antropólogo argentino Néstor García Canclini adverte (in Diferentes, Desiguais e Desconectados: Mapas da Interculturalidade; 2004): “Dizer que a redução do cultural ao mercado e à sua globalização neoliberal condiciona todas as relações interculturais induz hoje a renovados estereótipos de universalização inconsciente.” E a seguir afirma: “Os lugares continuam a existir por continuar a existir alteridade no mundo”, e que “ler o mundo na chave das conexões não elimina as distâncias geradas pelas diferenças nem as fraturas e feridas da desigualdade”.

Também posso citar, numa indicação de Nelson de Oliveira, o sociólogo brasileiro especialista em globalização, Renato Ortiz, que opina: “A globalização é uma totalidade que nos envolve a todos, ela cria uma nova situação. Sua abrangência é global, mas isso não significa que o mundo seja homogêneo. A situação de globalização redefine o nacional e o local, mas não os elimina. [...] A discussão da diversidade só faz sentido num mundo que se globalizou. Valoriza-se a diferença por que estamos todos na mesma situação.” Mas com a ressalva: “Fica evidente hoje que o processo de globalização constitui uma totalidade na qual as diferenças se manifestam. O mundo é um todo, mas nada tem de homogêneo. Tampouco ele é plural, como diziam os pós-modernos; as diferenças encontram-se hierarquizadas e constituem relações de poder bem determinadas.”

Enfim, sobre os que criticam esforços de valorização local, ele diagnostica: “Os críticos, ao se afastarem do que eles consideram como provincianismo nacionalista, cultivam a ilusão de serem cosmopolitas, cidadãos do mundo. Diante da estreiteza da visão particular, afirma-se pretensamente um universalismo abstrato. No caso brasileiro, existe ainda a herança colonial, isto é, o fato de o país situar-se na periferia. [...] A valorização do estrangeiro termina sendo um elemento de autoafirmação.”

Por sua vez, uma ficção científica consciente deveria abordar todas as faces da alteridade, as possibilidades de diferença em relação às estruturas dominantes ou hegemônicas. No debate em torno do Movimento Antropofágico da FCB, eu lancei uma metáfora para o que a nossa FC deveria propor: “Assim como o Brasil dos muitos biomas é detentor da maior biodiversidade do planeta, nossa literatura deveria refletir a mesma diversidade – a diversidade cultural do Brasil urbano e do rural, do Brasil que fabrica satélites artificiais e do que constrói casas de barro e sapé, do Brasil do Primeiro Mundo e do Paleolítico internado na selva” (in Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras; 2010 ). Nesse sentido, Canclini também observa, que, “Assim como cada vez mais tende a aceitar-se a necessidade da diversidade biológica como condição para garantir o desenvolvimento conjunto da humanidade, a diversidade cultural e o reconhecimento das minorias começam a ser vistos como requisitos para que a globalização seja menos injusta e mais inclusiva.”

Um dos grandes problemas do movimento foi dar seqüência às idéias do manifesto de Regina, aprofundando-as, fornecendo exemplos positivos e oferecendo recomendações diretas. Regina insistia que seu manifesto era texto literário, talvez temendo que ele se descaracterizasse se fossem adotados desdobramentos ensaísticos ou acadêmicos. Talvez temesse uma interpretação prescritiva das suaãs posições, ou apenas se sentisse embaraçado se fosse preciso apontar posturas ingênuas dos seus pares. É difícil, por exemplo, chamar de outra coisa a oposição automática entre “regional” e “universal”, já que ela ignora um sem-número de complexidades a que Canclini e Ortiz se referem.

O que existe além do horizonte retórico do movimento, e que o limitaram gravemente, são de fato expressões bastante difíceis de dirigir aos nossos pares: ingenuidade literária, colonização cultural, alienação, submissão ao mercado, derivação, subserviência intelectual. Muitas delas foram atiradas contra mim ao longo de minha carreira, e posso atestar que deixam cicatrizes. Atualmente, Cesar Silva é a única personalidade da área que empunha impunemente esses chicotes, porém mais para fustigar o fandompropriamente, do que a autores individuais.

Mas o Movimento Antropofágico teria sido de algum modo prescritivo ou dogmático, em sua curta existência? Talvez eu tenha sido (em minha correspondência, especialmente), na minha própria ingenuidade e insegurança, mas o movimento como um todo foi bastante aberto. Em termos formais e de uma recuperação da herança modernista brasileira, foi a corrente tupinipunk da FC brasileira que realizou o projeto de Ivan Carlos Regina – e o fez remetendo-se diretamente a essa herança, sem tomar conhecimento do seu manifesto. São obras formalmente mais complexas e experimentais, como o romance Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett, que Tavares cita como paradigma antropofágico.

Minha abordagem pessoal foi diferente (só estou me aproximando do tupinipunk agora), e encontrei meus próprios modelos, fora do movimento, do que seria interessante para a escrita de uma FC mais interessada da experiência brasileira – como histórias de Ivanir Calado e Gerson Lodi-Ribeiro. Em nenhum momento, porém, Ivan Carlos Regina veio me dizer que eu me afastava dos seus ideais, ou que meu caminho era equivocado.

Num sentido mais extremo, seria possível dizer que a afirmação dos ideais do movimento significariam uma ameaça para quem não os partilha? Se ele firmasse um paradigma, isso implicaria em julgar a totalidade da FC brasileira pela sua régua? Dificilmente. Os primeiros participantes do movimento têm sido cuidadosos em apontar interesse e valor literário num amplo espectro, e é impossível não reconhecer que muitos escritores podem contribuir fortemente para a evolução do gênero no Brasil, sem tocar diretamente na realidade ou na cultura brasileiras. Obras como Piscina Livre (1980), de André Carneiro, Do Outro Lado do Protocolo (1985), de Paulo de Sousa Ramos, ou O 31.º Peregrino (1993), de Rubens Teixeira Scavone, estão entre os melhores exemplos.

Além disso, parte da lógica subjacente ao movimento e sua denúncia da imitação de clichês (e da aceitação acrítica da ideologia que muitas vezes vem com eles) pressupõe uma consciência do lugardo qual falamos. E o lugar específico da FC no sistema literário brasileiro ainda é perfeitamente secundário e periférico. O lugar do movimento antropofágico dentro da FC brasileira é ainda maissecundário. Sua voz francamente miúda e minoritária não tem poder de realizar qualquer patrulhamento, mesmo que quisesse. Tudo o que faz é lançar breves conclamações e fornecer umas poucas metáforas que poderiam orientar uma abordagem, uma busca que venha substanciar a emersão daquela “verdade pessoal” de cada escritor, de que Braulio Tavares falava.

Essa voz recebeu um poderoso reforço com as novas opiniões de Tavares, mas não se tornou menos minoritária, como deixou claro a resposta a esta que foi claramente a segunda rodada do debate antropofágico.

Mas a resposta também deixou claro que nunca esse debate foi tão necessário. Individualmente, autores podem se isolar, mas as questões literárias são o sangue e a alma de uma literatura. No finalzinho de 2011, o Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira retornou para sugerir que ainda tem fôlego para ser uma questão viva, entre os autores da Terceira Onda.
>> O BULE – por Roberto de Sousa Causo

ROBERTO DE SOUSA CAUSO é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica. Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônymo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco. Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da TardeFolha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas ExtrapolationScience Fiction StudiesCultCiência HojePalavra Dragão Brasil. Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.


BANG BANG! – “SAGAS 2, ESTRANHO OESTE”

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Antes de começar a falar sobre esse livro de contos sobre o Estranho Oeste (Argonautas, 144 págs.), devo esclarecer uma pergunta que muitos de vocês devem estar fazendo neste momento,“O que diabos é Estranho Oeste?!”

Estranho Oeste ou Weird West, para as pessoas nem um pouco familiarizadas com o termo, é um gênero mistura o Faroeste americano com outros estilos, normalmente, o horror, o oculto ou a fantasia. Acredito que o exemplo mais recente seria Cowboys & Aliens (leia a resenha da Cherry_B aqui), mas há outros exemplos igualmente famosos como Jonah Hex, a sagada Torre Negra do Stephen King, os quadrinhos Weird Western Tales da DC Comics e até mesmo o animê Trigun.

Agora que estamos todos na mesma página (vocês estão, NÉ??!!), vamos ao livro!Sagas 2 – Estranho Oeste é o segundo volume da coleção de contos da série Sagas da Argonautas Editora (confira a resenha de Sagas 1). O livro é bem curtinho e é composto por cinco contos, na seguinte ordem:

Bisão do Sol Poente por Duda Falcão
Aproveite o Dia por Christian David
 por Alícia Azevedo
Justiça… Vivo ou Morto por M.D. Amado
The Gun, the Evil and the Death por Wilson Vieira

O primeiro conto é sobre um caçador de recompensas, Kane Blackmoon, que está à procura de Herdandés Calderón, um ladrão de bancos altamente procurado e com uma cabeça extremamente valiosa. No meio de sua perseguição, Kane encontra muitos mutilados, uma cidade fantasma, um índio sioux e uma lenda sobre demônios envolvendo sua linhagem indígena. Por algum motivo que ainda não soube identificar, não gostei muito desse conto do Duda, sei lá, simplesmente não consegui me empolgar muito com ele e os personagens não me cativaram. O Bisão do Sol Poente foi um dos contos mais fracos do livro, não que seja ruim, mas…

Em seguida, somos apresentados ao conto de Christian David, que é sobre o pistoleiro Jeremiah ou O Profeta, como é conhecido pelas bandas do Oeste por seus pressentimentos, que, curiosamente, ele simplesmente tenta ignorar ao máximo. Ignorar o próprio instinto é o que o leva a entrar e permanecer no Belle’s Saloon, que desde o início já estava ativando aquele botãozinho atrás da cabeça que diz , “PELO AMOR DE DEUS, ARREDA O PÉ DAQUI, PESSOA!”. Jeremiah é avisado pela gaçornete a sair de lá e comer em outro lugar, mas o estômago foi mais forte e obrigou o pobre homem a comer aquela comida de aparência horrível. Logo depois de comer, Jeremiah descobre que realmente deveria ter dado atenção ao seu mau pressentimento e a garçonete desde o início… Verdade seja dita, esse foi o melhor conto do livro inteiro! A narrativa do Chris (sim, já somos íntimos apesar de não nos conhecermos! :3) te prende desde o início e não tem cômo não gostar do Jeremiah e rir horrores com seu pânico e sua constante batalha interna sobre seus dons paranormais.  E o final do conto é ótimo! Aliás, tudo no conto é muito bom! O meu favorito, com certeza.

No terceiro conto conhecemos a história da freira Beatrix, que tem todas suas crenças mudadas completamente após um ataque ao convento onde ela vivia no qual ela foi a única a sair com vida, ao ser salva por um misterioso homem com um manto negro que cobra de Beatrix como pagamento por salvá-la apenas fé incondicional. Graças a esse homem, Beatrix, agora uma pistoleira, é capaz de se vingar dos assassinos que atacaram seu convento.  é recheado de diálogos e questionamentos interessantes e o tempo todo você quer saber quem é o cara com o manto negro (o que infelizmente não é revelado =X). Esse conto só não é tão bom porque não é um livro completo (sim, ele daria um livro muito bom).

O quarto conto é a história de um pistoleiro, Cole Monco, que fica curioso ao ver um garoto atirando em várias latinhas e vai até ele para perguntar por que ele está fazendo isso. Cole descobre que o nome do menino é Josh e que ele está treinando para matar os executores de sua família. O pistoleiro não é de ajudar muito as pessoas, mas se identifica com o menino e sua história e decide por ajudá-lo. Cole, então, vai atrás do delegado Pat Stevenson para axiliá-lo, mas quando eles voltam ao Saloon onde Cole encontrara o menino, o dono do salão diz que não existe nenhum garoto e que Cole conversava sozinho o tempo todo… Justiça…Vivo ou Morto é um ótimo conto e bem narrado, em muitos momentos fiquei questionando assim como o próprio Cole se ele estava ficando louco e se Josh realmente existia. E o final? Eu não esperava um desfecho daqueles e eu gosto muito ser surpreendida com um bom final. Gostei muito deste conto!

O quinto conto é a narrativa de um assassino que mata por prazer, Tom William Ketchun, que ao chegar em uma cidade praticamente deserta num dia bem chuvoso, entra em um local chamado Las Cruces. Logo Tom é avisado de que o lugar estava fechado, porque logo haveria um julgamento. O que Tom não esperava é o julgamento fosse o dele! Me sinto até mal e culpada por falar isso, mas eu DETESTEI o conto do Wilson, que tem uma ótima premissa, no entanto desandou completamente. Não me dei com narrativa lenta e previsível do autor e a história depois de algumas páginas ficou sem pé nem cabeça e terminou de uma forma mais maluca ainda. Em comparação aos outros quatro contos, este é bem fraquinho. Contudo, a prática, a tentativa e o erro são ótimos amigos e professores, sendo assim, acredito que Wilson Vieira melhorará com o tempo e o treino.

No geral, Sagas 2 – Estranho Oeste é um livro bem divertido e assim como o primeiro coleção, o prefácio (dessa vez escrito por Thomaz Albornoz) está maravilhoso (sério, descubro horrores de coisas interessantes nesses prefácios) e a edição está ótima, apesar de uns errinhos aqui ou acolá, mas acontece.
>> NEM UM POUCO ÉPICO – por Val


“AMOR OCULTO”, DE LAURA ELIAS

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Contar uma boa história em volta da fogueira é uma imagem idílica, até certo ponto mitológica, que não me abandona. Quem consegue, através de sua narrativa, fazer com que suas palavras permaneçam impressas atrás de minhas retinas desta maneira merece todo o meu respeito.

Ao ler Amor oculto (Mythos, 2011 – 126 páginas)esta é a impressão que tenho. Laura Elias domina as palavras, é uma contadora de histórias experiente, sabe jogar com o leitor, foi forjada na arte de escrever e se formou pela receptividade dos leitores. Deveria ser uma fórmula de sucesso. Mas o reconhecimento por aqui é difícil, a internet quebra barreiras, mas não diminui o abismo com o que vem de fora. O descaso com que nossos autores são tratados muitas vezes me deixa enojado.

Já escreveu mais de 30 livros, quase todos publicados, muitos deles de banca, sob pseudônimos Loreley McKenzie, Laura Brightfield, Suzy Stone, Elizabeth Carrol, Sophie H. Jones. Experiência não lhe falta. Depois de saber desta história através de uma comunidade, quis conhecer mais sobre a autora e trocamos algumas palavras e alguns emails, que me fizeram fã, por sua postura e ainda mais por sua imensa simpatia.

Partamos para o que realmente interessa – a narrativa desta escritora genial. Como todos podem observar gosto de ligar narrativas a imagens de outros livros ou de filmes para que possamos fazer inferências, para que tudo se torne um pouco mais claro a quem ainda não tem contato com alguns autores.

No caso de Laura Elias, não consegui fazê-lo. Seria isso então originalidade? Não diria isso, mas é difícil classificá-la.  Ela tem sua fórmula: mistério + paixão. Tem um público alvo, mas ainda assim consegue despertar em qualquer público o prazer da leitura. Muitos são os diálogos, que tornam o livro saboroso, pois eles são a alma de uma boa narrativa.

Antes do prólogo, uma espécie de prenúncio já dá o teor do que virá pelo livro:

A barreira da ética profissional dissolvia-se diante do que lhe era oferecido, diante do que ele tanto queria, diante da tentação que via em seus olhos, não mais serenos, mas ardentes como as fogueiras pagãs.

Pronto, já estamos fisgados, e o que vem depois é “hot” muito “hot”. O livro conta a história de Bervely Manson, escritora, que após matar sua personagem principal acaba matando sua inspiração. Resolve então acompanhar uma amiga a um antiquário e encontra lá um caderno cheio de histórias inacabadas. Ela decide terminar as histórias, sua inspiração renasce. Porém, há uma advertência feita pela antiga dona dos cadernos. Ela não dá nenhuma importância a ela. Daí coisas estranhas começam a acontecer, tudo o que escreve passa a acontecer. Seria uma maldição? Aha… não irei contar mais nada. O inexplicável geralmente nos perturba e o livro está repleto de coisas que irão se encaixar apenas no final.

“… como fugir da realidade quando ela se torna ainda mais bizarra que o sonho? Como fugir se nem mesmo dormindo havia paz? Se os fantasmas e demônios alheios passaram a habitar sua vida?

E não poderia deixar de colocar aqui alguns trechos para deixar a todos um pouco mais alvoroçados:

O desejo:

“… olhou para ela, ainda segurando-a pelos ombros. Sentia vontade de tocá-la, passar os dedos por aqueles mamilos que a blusa insinuava, beijar-lhe a delicada linha do queixo, os lábios sedentos, os olhos serenos… explorar aquela mulher com força, com carinho, com sofreguidão.

A sedução:

“… balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro, a malícia dançando em seus olhos. Com um gesto rápido, ergueu-se e arrancou o vestido, expondo-se, despudorada, em sua calcinha negra, rendada, por onde os pelos loiros apareciam, qual tesouro guardado apenas para ele.”

O embate:

“Apalpou-lhe as formas e depois se deixou pesar em seu corpo, apenas para ouvi-la gemer. Sua voz penetrava-lhe os ouvidos e o deixava cada vez mais excitado.”

É claro que cortei os diálogos e as partes mais quentes. Portanto, podem correr! Leiam e me contem depois se Laura é ou não dona de uma imaginação fértil e diabólica. Estamos totalmente desarmados quando ela começa a contar suas histórias. E citando um trecho de seu próprio livro: Que segurança as armas poderiam oferecer contra a imaginação?
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Rodolfo Euflazino


PERSONAGENS SOBRENATURAIS INVADEM NOVELAS BRASILEIRAS

quinta-feira | 5 | janeiro | 2012

Personagens sobrenaturais estão cada vez mais presentes nas produções brasileiras. Foto: Afonso Carlos/Carta Z/Divulgação

O naturalismo das novelas sempre conviveu com o sobrenatural. Desde a pioneira O Terceiro Pecado, de 1969, que autores como Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes recorrem a fenômenos que passam ao largo das explicações científicas. Com o entretenimento na ordem do dia, criadores variam estilos e inspirações, que vão das lendas folclóricas ao futurismo da ficção-científica. Além disso, o sobrenatural também está fortemente presente em folhetins com temas religiosos, seja na polêmica discussão sobre a vida após a morte, ou na adaptação de histórias bíblicas. “As pessoas querem ligar a tevê e sonhar. Sempre que posso, coloco personagens com algum dom obscuro em minhas novelas”, diverte-se Aguinaldo Silva, que desde o início da carreira, bebe na fonte do realismo fantástico original de Dias Gomes, autor de clássicos do gênero, como O Bem-Amado, de 1973, e Saramandaia, de 1976.

Aguinaldo já brincou com o sobrenatural em várias de suas novelas. Inclusive, na atual Fina Estampa, o autor vem aumentando cada vez mais a dose de situações inexplicáveis, com as visões sobre o futuro de Luana, de Joana Lerner, e o súbito aparecimento de Enzo, de Júlio Rocha, que supostamente, caiu do céu. Com intensidades diferentes e resultados oscilantes, outras produções recentes apostam em uma injeção de histórias do além em seus roteiros. A abordagem de forças ocultas está fortemente presente na recém-terminada O Astro , na nova das sete, e Aquele Beijo - onde Bruno Garcia faz um vidente. E é a base da atual temporada de Malhação, cheia de referências a séries americanas, que misturam ficção científica e histórias em quadrinhos. “Queria falar da conectividade das pessoas com elas mesmas, com seus sonhos e intuições. O que puxa a trama é o número 1046″, explica a autora Ingrid Zavarezzi, referindo-se ao número que aparece nos sonhos de Alexia, de Bia Arantes.

Embora o tema tenha derrubado a audiência da novelinha da Globo, que patina nos 16 pontos, a inspiração em gibis e “sci-fi” já rendeu à Record bons índices no ibope. No entanto, com a saga mutante de Caminhos do Coração - criada por Tiago Santiago, em 2008 – as referências foram além. No mesmo caldeirão, Tiago misturou vampiros, super-heróis, espiritismo, mitologia grega, entre outras. “A grande viagem da novela foi não se limitar. Essa liberdade foi fundamental para o sucesso dos mutantes”, conta o autor.

Mais recentemente, outra trama que aglutinou inúmeras referências foi o “remake” de O Astro. Baseado na novela original de Janete Clair, exibida em 1978, a adaptação abusou de assombrações, alucinações e ilusionismo. “O Herculano poderia ter ido por vários caminhos, desde a esquizofrenia até o espiritismo”, analisa Rodrigo Lombardi, intérprete do anti-herói, que com seus “poderes”, escapa inúmeras vezes da morte e chega ao comando do grupo Hayalla. Para Thiago Fragoso, que deu vida ao frágil Márcio, a angústia espiritual dos personagens da novela foi o principal chamariz de público. “A levada espírita da novela estava diretamente ligada ao jogo de poder entre os personagens. As cenas do Salomão tentando de se comunicar com o Márcio eram bem assustadoras”, conta Thiago, referindo-se aos ataques sofridos por seu personagem ao se comunicar com o falecido pai, Salomão Hayalla, de Daniel Filho.

A interação entre pessoas em planos espirituais diferentes foi o mote de muitas novelas de Ivani Ribeiro, comoO Sexo dos Anjos e A Viagem. Atualmente, a herdeira direta de tramas com essa temática é a mineira Elizabeth Jhin, autora de Escrito nas Estrelas, novela que abordou a fertilização de uma mulher a partir do sêmen de um homem já morto. “Quis falar como o espírito desse homem lida com esse filho que vai nascer. Para minha sorte, o público embarcou na história”, ressalta a autora, que volta ao ar no primeiro semestre de 2012, com outra trama de tons espirituais, que tem título provisório de Marajó.

Transtornos e delírios
Além do sobrenatural, alguns mistérios da teledramaturgia nacional também têm atestado médico. Seja para destacar a doença ou apenas fazer rir, a esquizofrenia já foi tema de novelas e seriados da tevê. Em Alma Gêmea, de 2005, a personagem Alexandra, de Nívea Stelman, sofria com as vozes e os espíritos que lhe atormentavam. “O problema dela foi crescendo aos poucos, e não poderia ser definido apenas como esquizofrenia. Pois ela conseguia se comunicar com os mortos da trama”, opina a atriz.

Na contramão do drama, o seriado A Mulher Invisível, parte da doença para fazer humor. Baseado no filme homônimo de 2009, a produção acaba de ganhar uma segunda temporada, e conta a história de Pedro, de Selton Mello, um publicitário que encontra a mulher de seus sonhos. Porém, só ele consegue enxergá-la. “É uma comédia sobre esquizofrenia, ou sobre a solidão. Ela só é realmente a mulher ideal porque não existe”, destaca Selton.

Instantâneas
# No ano passado, Selton Mello também protagonizou A Cura, série cheia de mistérios que relacionavam medicina, assassinatos e religiosidade.

# Em Araguaia, de 2010, Solano, de Murilo Rosa, era um homem marcado para morrer por conta de uma maldição indígena que assombrava sua família há muitas gerações. Nela, todos os homens de sua linhagem morrem muito jovens, sempre próximos às margens do rio Araguaia.

# Histórias de lobisomens e vampiros andam em alta nos filmes de Hollywood, e já figuraram em diversas novelas brasileiras, como Roque Santeiro, de 1985, Vamp, de 1991, e O Beijo do Vampiro, de 2002.

# Em Páginas da Vida, de 2006, a jovem Nanda, de Fernanda Vasconcellos, morre logo no início da trama, mas aparece em forma de fantasma para pessoas de sua família.
>> TERRA – da Redação


A DIVERSIDADE SEXUAL NA LITERATURA FANTÁSTICA

quinta-feira | 5 | janeiro | 2012

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Enquanto a mídia discute a temática da diversidade sexual à medida que os governos do mundo todo começam a adotar políticas que finalmente param de fechar os olhos a algo que já é realidade há muitos anos, observamos que a literatura começou a incluir personagens gays em suas histórias.

E, como não poderia deixar de ser, gostaria de focar na literatura fantástica, que, por natureza, é a que atinge os jovens e consegue chamar a atenção deles para os mais diversos assuntos, mesmo que de forma sutil. Li ultimamente livros de grande sucesso internacional (entre os best-sellers do The New York Times) que traziam personagens gays no núcleo protagonista.

A série Morada da Noite (House of Night, no original), de PC Cast e Kristin Cast, traz Damien como um dos melhores amigos da personagem principal, assim como a série Os Imortais, de Alison Nöel, traz Miles, também gay, no círculo das principais amizades da protagonista.

As duas séries tem muito em comum, já que surgiram na onda dos romances sobrenaturais, e Miles e Damien se parecem muito: são legais, adoráveis, e um tanto estereotipados.

No entanto, as histórias não são sobre eles. Os rapazes, nos livros em que aparecem, são apenas coadjuvantes, de cuja vida nem ficamos sabendo muito. Na verdade, salvo poucas palavras, e o papel que desempenham na vida da protagonista, poderiam sumir da história ou serem trocados por uma amiguinha, e não faria a menor diferença.

Isso é bom ou ruim?

Se a proposta é mostrar que os gays estão sendo incluídos, é péssimo, porque não os inclui. Por outro lado, podemos considerar que a inserção de um personagem homossexual acabou ficando tão natural que nem é preciso grande alarde para o fato. E, nesse caso, é um pouco hipócrita, porque a sociedade ainda teima em segregar essas pessoas como se fossem realmente diferentes de todo o resto – os normais, os héteros.

Um amigo meu uma vez escreveu em algum canto, talvez no Twitter, que não é que os gays queiram dominar o mundo. Eles simplesmente querem ter o direito de ler um livro ou ver um filme em que o foco da história seja um casal gay. E isso não precisa ser ofensivo para quem é hétero, porque há décadas e décadas todos leem e assistem o que está passando. Sempre a mocinha e o mocinho apaixonados passando por uma espécie de conflito e vivendo felizes para sempre depois.

JK Rowling revelou, fora do ambiente de Harry Potter, que o mago e mentor de Harry, Dumbledore, era gay e apaixonado por seu maior inimigo e antes melhor amigo, Grindenwald. Alguns falaram que a autora não quis revelar essa informação antes porque seria muito estranho os dois andarem juntos sendo que o velho diretor era gay. Pessoalmente, acho que nada foi mencionado no livro porque a informação não cabia no contexto da história.

É de extremo mau gosto a enxurrada de comentários sobre Dumbledore ser um pedófilo que se seguiu ao anúncio de Rowling. Isso só prova o quanto a sociedade continua preconceituosa, e os parcos progressos legislativos são hipócritas quando os comparamos às notícias de agressões.

A literatura sempre teve o papel de conversar conosco. Então, porque não permiti-la mostrar o que uma boa corrente da sociedade está tentando dizer há tempos? O óbvio: que os gays são simplesmente gays. Nada mais além disso. Que não há nada de errado, imoral ou qualquer outra coisa que as pessoas queiram pregar contra. Que a opção sexual de um indivíduo faz parte de sua identidade, e não há nada para ser ‘aceito’ ou ‘mal visto’.

Essa foi a premissa da coletânea A Fantástica Literatura Queer, publicada em dois volumes pela Tarja Editorial, pioneira no tema em solo brasileiro – mas também uma das primeiras a decidir tratar o tema da diversidade sexual dentro da literatura fantástica.

Li apenas o volume vermelho, por enquanto, e, de minha parte, posso dizer que li contos dos mais brilhantes em que já coloquei os olhos.
>> REVISTA FANTÁSTICA – por Carol Chiovatto


A LITERATURA FANTÁSTICA DO CEARÁ: O CRAVO ROXO DO DIABO

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

No ano passado, foi lançada em Fortaleza a antologia “O Cravo Roxo do Diabo”: o Conto Fantástico no Ceará”, organizada pelo escritor Pedro Salgueiro. A pesquisa durou três anos e resultou num rico acervo do gênero, revelando a prodigiosa criação dos escritores cearenses desde o século XIX, quando vieram a público as primeiras publicações de textos literários em nosso estado

A antologia “O Cravo Roxo do Diabo”: o Conto Fantástico no Ceará” é a primeira coletânea de contos fantásticos produzidos na terra de Alencar.

A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.

O volume da pesquisa fez necessária a participação de outros três nomes da nossa literatura: Sânzio de Azevedo, Alves de Aquino (Poeta de Meia Tigela) e Carlos Roberto Vasconcelos, o que resultou num livro de 674 páginas, cujo título foi tomado de empréstimo de um conto de Álvaro Martins, infelizmente não localizado pelos pesquisadores. A bela capa criada pelo escritor Raymundo Neto, bem como o trabalho gráfico da Expressão dão ao vultoso acervo o aspecto de obra definitiva. A istematização dos cânones do Fantástico passou por muitas revisões. A mais tradicional, de Todorov, no livro Introdução à literatura fantástica, assevera que ele se alicerça por meio da hesitação do leitor em ´aceitar´ ou não os fenômenos narrados, desde que tais fenômenos não predisponham uma leitura alegórica nem poética.

O enquadramento

O crítico estruturalista opõe, ainda, o que ele chama fantástico a outros dois conceitos fronteiriços: o estranho ou o maravilhoso; o fantástico ocupa o tempo da incerteza, da vacilação entre aceitar ou não o evento extranatural; assim que se escolhe uma resposta ou outra, o fantástico é abandonado e entra-se no domínio de um dos gêneros vizinhos: o estranho ou o maravilhoso. Nessa acepção, nem todos os textos aqui coletados estariam inseridos no gênero.

Tomando, entretanto, a concepção mais atual, de Ana María Barrenechea, que afirma a configuração do fenômeno em forma de problemas feitos a-normais, a-naturais ou irreales em contraste com factos reais, normais ou naturais, considera-se fantástico todo texto cujo enredo encene acontecimentos que transponham as leis naturais, ou seja, que coloquem em conflito o mundo empírico e o mundo fantasioso.

A Antologia

Na primeira parte da antologia, dedicada aos contos, constam 172 narrativas organizadas em ordem cronológica do ano de nascimento dos seus autores, tal como ocorre nos dois Apêndices. Todos os textos, embora focalizem o extranatural por procedimentos estéticos diferentes, inserem-se no que se denomina, hoje, literatura fantástica, numa acepção ampla do gênero, tomando-o, pois, como narrativas de mistérios que confrontam o racional e o irracional.

No Ceará, o primeiro conto fantástico de que se tem registro foi escrito por Juvenal Galeno. “Senhor das Caças” tem a mesma estrutura das narrativas de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna: enquanto trabalham com a mandioca, num serão na farinhada, os sertanejos contam histórias de caiporas, aventuras de caçadas e encantamentos. São histórias dentro de uma história. Igual estrutura está no conto “Capitão Maciel, 3.ª companhia”, de Tomás Lopes, cujo enredo deixa claros seus desdobramentos: “Depois do jantar, na salinha do café, falava-se de casos estranhos, mistérios do além-túmulo. Cada um contava a sua história, todos, porém, afetando descrença, ceticismo, explicando tudo pela coincidência”, numa tentativa de racionalização que não impede o espanto quando se constata a aparição de um morto, motivo também presente em Cruz Filho (“A basílica”), cujo enredo comprova a presença da ex-escrava nas ruínas da igreja onde morreu. Florival Seraine, igualmente, em seu “Guajará”, coloca o insólito em contação de ´causos´ numa venda.

O realismo cearense foi prodigioso no espírito inventivo das narrativas fantásticas do início do século XIX. Duas representações significativas estão nas narrativas de Pápi Jr. (“A cruz-das-malvas”) e Oliveira Paiva (“O ar do vento, Ave-Maria”). No enredo do primeiro, há uma atmosfera propícia para o sobrenatural, na descrição esmerada da escuridão da noite impenetrável e compacta, corria-nos pela frente como um largo pano sujo de fuligem, em que aparece, na estrada, em frente à cruz-das-malvas, o fantasma da pessoa que lá foi enterrada. Na do segundo, a aparição de um monstro, no meio da noite, carregando a cabeça de uma mulher (fazendo, ainda, umas caretas horrorosas) para enterrar.

E vários motivos dão asas à criação do conto fantástico cearense, como as peripécias do capeta (“O dia aziago”, Lopes Filho), aparição de almas penadas (“Alma penada”, de Américo Facó), espectros (“Espectros”, Gustavo Barroso), visagens (“Junho é um mês que não tem fim”, de Batista de Lima). Histórias de pescador com aparição de sereias (“Sereias”, Herman Lima) ou botijas (“Uma história fantástica”, Martins d´Alvarez; “A botija”, Genoíno Sales e “A botija”, Lustosa da Costa).

Outras faces

Algumas vezes, não se configura nenhum fenômeno, tão somente a atmosfera de mistério estabelece a presença do extranatural ou seu prenúncio, como ocorre no conto “Casas mal-assombradas” de, Carlyle Martins (Numa visão macabra e sinistra, atestando a transitoriedade de uma vida de opulência e conforto, a velha casa, como que indiferente ao perpassar dos anos, ensombrada pelas mongubeiras sempre monótonas e sussurrantes, tinha as paredes carcomidas e cobertas de fendas./…/

Por seu aspecto aterrador, atestava ela a glória do passado distante, obscurecido pelas brumas dos tempos e demonstrando como a felicidade humana é incerta e passageira…) e em “A Oiticica”, de Otávio Lobo (Se alguém, rompendo o escuro, passa debaixo de alguma oiticica, sente arrepios de medo, pavor de visagens e, ainda, assombrações de almas do outro mundo).

Fique por dentro
A gênese do discurso

O gênero fantástico tem suas raízes nas histórias de deuses, fadas e feiticeiras da Antiguidade Clássica, mas se consolidou como estética a partir do Romantismo, com suas narrativas góticas. Como todo gênero, o Fantástico teve estabelecidos os seus cânones, continuamente fundamentados e revisados por teóricos como Roger Callois, Tzvetan Todorov, Irene Bessiérre, Louis Vax, Victor Bravo, Filipe Furtado, e, mais adiante, a filóloga argentina Ana María Barrenechea, entre outros. Mestres do Horror, como H.P. Lovercraft, E. T. A. Hoffman, Edgar Allan Poe e Teophile Gautier deixaram um legado para os amantes do sobrenatural e exerceram influências na ficção fantástica produzida em todo o mundo.
>> DIÁRIO DO NORDESTE – por Aíla Sampaio


ESPECULANDO O RETROFUTURISMO DE 2012

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

“Turning here, looking back in time”

logos sociais 2011 foi um ano dificílimo e complexo de ser apreendido por uma só ótica. Mobilizações e manifestações de cunho político, social, econômico, cultural, etc (ok, não é possível traçar linhas entre essas categorias ou tampouco delineá-las dados os embates de interesses cada vez maiores) através dos sites de redes sociais ganharam novos contornos e pautaram a mídia de referência (ou massiva ou mainstream, whatever). As guerras entre fandoms de gêneros musicais, bandas ou artistas; o ativismo político foi tudo trend topic. A rua e a tecnologia estiveram cada vez mais entrelaçadas através do fluxo de postagens e produção de conteúdos disponibilizados via celulares, tablets e dispositivos móveis em geral.

Ao contrário das previsões de alguns catastróficos, os blogs não morreram. Eles ganharam outras apropriações, voltadas a nichos cada vez mais específicos e se integraram à circulação e à re-circulação através de práticas como a da re-blogagem. Eis ai o excesso cognitivo e o destaque que o Tumblr ganhou nesse ano, sobretudo no que diz respeito à velocidade do humor e dos memes que “contagiaram” boa parte do que foi postado, sobretudo no Facebook e no Twitter. Curtir, retuitar, timeline, o vocabulário da computação social popularizou de tal forma que esteve presente nos mais diversos lugares como salões de beleza, almoços de família e discussões de bares. O excesso de conteúdo também nos deu momentos de estresse informacional por vezes divertidos e sociais  – como na cobertura de eventos como o Rock in Rio por exemplo – por vezes estúpidos em casos de racismo, homofobia, discriminação, etc. Tudo isso tem muito menos a ver com as plataformas e suas materialidades, mas com as misérias da humanidade. Contudo, O silêncio e a desconexão também são necessários.

Desde sempre visualizei o entrelaçamento dos ambientes, conteúdos, emoções, pessoas, mas em 2011 ficou tudo muito mais explícito com tantos aplicativos que congelam momentos da vida ou nos dão pistas e tracejados dos caminhos escolhidos. A instagramização da vida cotidiana; os amigos encontrados via geolocalização e a constante vigilância 4squareana do todos vêem, todos sabem; os angry birds da vida presencial nos atirando pedras a cada erro. A música e os videoclipes continuaram fluindo através do YouTube e seus comerciais insuportáveis; pelas nuvens cada vez mais populares do SoundCloud e o “modelão” de negócios do iTunes chegou ao final do ano no Brasil. A tensão entre o comércio,  as estratégias de marketing e as liberdades e anonimatos entraram em disputa várias vezes.

ABC

Em termos de cultura pop, 2011 apostou no revival, sobretudo tirando o mofo das camisas xadrezes e coturnos do grunge dos armários e guarda-roupas com os 20 anos de Nevermind, o retorno do Foo Fighters – com um álbum declaradamente nostálgico, Wasting Light – as referências em seriados (como Californication e outros) e filmes. O álbum tributo à Achtung Baby do U2 (1991) fechou um círculo de influenciáveis e influenciados com o Garbage do Butch Vig, o NIN de Trent Reznor e o eterno Depeche Mode (também produzido por Flood em Violator, outro grande álbum noventista).O dubstep virou pop e deu vida aos remixes de Justin Biber a Katy Perry, e o witch-house assombrou a música eletrônica.

A fantasia, ainda bem, retornou em grande estilo ao horário nobre da televisão com Game of Thrones sendo disparado o melhor seriado do ano (na minha opinião, claro). O horror e a bizarrice neo-gótica da América do Norte também teve seu espaço com American Horror Story oscilando entre o riso nervoso e o surrealismo fetichista. O retrô das mais variadas épocas deu a tônica em muitos momentos de 2011. Nunca se falou tanto nas redes  sobre as mais diversas épocas: o neovitorianismo steampunk; o fantástico medieval; os anos 90 nas festas e produções musicais. Até a realeza britância deu os ares de sua graça transformando novamente o ritual de um casamento real em um espetáculo global televisionado ao vivo, tuitado, blogado, etc. A curadoria de informações é um instrumento metodológico cada vez mais relevante, vejam só.

Não tenho bola de cristal, sou apenas uma pesquisadora das culturas emergentes, embora tenha os dons “cayce pollardianos de mediunidade semiótica coolhunting das ruas” (Fabio Fernandes All Rights Reserved). Especulo a partir de todo esse Zeitgeist – no sentido da especulação utilizado pela ficção-científica – que esse iníciozinho dos anos 10 (que começa com mais força agora em 2012) vai ser muito pautado por essa ambivalência experimental de sensações de tempo e espaço. Ainda estamos nos acostumando, enquanto sociedade, a nos apropriar dos meios, a nos estender tecno-social e materialmente pelos territórios, a compreender nossos corpos, desejos, sentimentos e pensamentos dentro desse contexto (re)mediado full-time, o que não é nada fácil, dai o apelo tão forte da nostalgia na construção de um futuro em constante conexão. E é nesse ponto que uma (an)arqueologia midiática se torna tão rica para observamos o presente e vislumbres do futuro dos artefatos e suas trajetórias narrativas, que contam cada um do seu jeito, nossas histórias/estórias.

Nesse sentido, desejo um 2012 repleto de narrativas, de grandes conquistas, de prazeres diários. “Celebrate the life and times of splendor” diz o VNV Nation em Space & Time, uma das melhores faixas de Automatic (2011), não por acaso um álbum conceitual acerca das tecnologias e estéticas dos anos 30, retrô-futurismo indicando até mesmo minha última songpost do ano. Em 2012, mais Victories Not Vengeances!
>> AS PALAVRAS E AS COISAS – por Adriana Amaral

Space & Time

VNV Nation

Tear apart the life and times of familiar faces
And tracing lines to what connects me and binds me to
Images of the remote and never-changing
Grand designs, style and grace
And am i

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time

One and all let us celebrate the rise and fall
Celebrate the life and times of splendor
Desire and love constant and never-changing
The flow of times, closed in lines
Can’t tell if i’m just

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time


BLIND GUARDIAN E A LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

Que a literatura serviu e ainda serve de inspiração para muitos letristas da música pesada não é nenhuma novidade. Que a banda alemã Blind Guardian é uma das bandas que mais bebem dessa fonte também não. Porém, ainda há aqueles que desconhecem as origens de algumas das letras dos alemães. Por uma questão de espaço comentarei um número limitado dessas obras.

O escritor mais influente para Hansi Kursh e sua trupe é J. R. R. Tolkien. A banda já prestou homenagem ao escritor inglês em seu primeiro álbum, Battalions of Fear, nas músicas Majesty e nas duas instrumentais, By the Gates of Moria e Gandalf’s Rebirth. No disco Tales from the Twilight World também podemos encontrar mais referências ao Professor Tolkien: a óbvia Lord of the Rings, e a mais sutil Lost in the Twilght Hall onde se pode interpretar a letra como descrevendo os pensamentos de Gandalf após derrotar o Balrog de Morgoth nas profundezas de Moria.

Contudo, o álbum mais complexo inspirado por uma obra de Tolkien é Nightfall in Middle-Earth baseado nos acontecimentos descritos n’O Silmarillion, livro póstumo do professor, editado pelo seu filho, Christopher Tolkien. Apesar de o livro descrever a criação do mundo, o surgimento dos elfos e dos homens, até o final da primeira era do mundo, quando Morgoth o Senhor do Escuro é derrotado e aprisionado pelos Valar, sobre a queda da ilha de Númenor e sobre Sauron, o novo Senhor do Escuro e a criação dos anéis de poder, o disco se concentra na parte principal que é a História das Silmarils. Assunto extenso e complexo para ser tratado em espaço tão pequeno, mas o Silmarillion é altamente recomendável àqueles que querem saber mais sobre os acontecimentos que antecederam o primeiro encontro de Bilbo e Gollum e o que isso acarretou ao longo do Senhor dos Anéis.

Outra música que merece destaque é War of the Thrones, do mais recente disco At the Edge of Time. Música é baseada no primeiro volume ­– a Guerra dos Tronos – das Crônicas de Fogo e Gelo do escritor americano George R. R. Martin, considerado pela imprensa como o Tolkien americano (o que para este humilde leitor que vos escreve é um exagero; um, porque a obra de Martin não tem semelhança alguma com as obras de Tolkien; dois, porque Tolkien foi o primeiro e seu estilo é único; e três, porque Martin é um excelente escritor por seus próprios méritos e não precisa desse tipo de comparação.) Os livros são um prato cheio para os fãs de fantasia, cheios de reviravoltas, batalhas, intrigas, etc. Outra música do mesmo álbum baseada na Guerra dos Tronos é o primeiro single do disco, A Voice in the Dark. Não escreverei detalhes sobre a letra, pois ela trata de um evento muito importante, portanto não irei entregar o ouro para quem não leu o livro ainda.

Voltando ao álbum Batallions of Fear encontramos a música Guardian of the Blind, inspirada no livro A Coisa do mestre do horror Stephen King. Um dos meus livros favoritos do escritor americano, a estória gira em torno de amigos que foram atormentados por um palhaço chamado Parcimomioso quando crianças e que já adultos têm que reviver o pesadelo de sua infância. A série de ficção científica Eternal Champion, de Michael Moorcock foi usada como inspiração para a faixa Quest for Tanelorn do álbum Somewhere far Beyond, e em Tanelorn (into the void), no álbum At the Edge of Time.

As referências são inúmeras. Ao longo de sua discografia, muitas músicas do quarteto alemão foram inspiradas pela literatura fantástica, seja ela fantasia, ficção científica ou horror. Seja qual for a sua preferência, corra atrás das obras (algumas delas não foram publicadas em português, mas aí há uma oportunidade para você praticar seu inglês), coloque os discos para rodar e aproveite a viagem.
>> DIE HARD – por Eduardo Barcelona Alves

Do álbum At The Edge of Time (2010) ouça a música “War of the Thrones”:


“VIKINGS”: SÉRIE SOBRE OS GUERREIROS NÓRDICOS PELA MGM E OS PRODUTORES DE “TUDORS”

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

Programa terá dez episódios e
deve começar a ser gravado neste ano

vikingsAs séries de TV com enfoques medievais continuam em alta com o sucesso de Game of Thrones. Segundo o Deadline, E a ex-falida MGM anunciou que vai produzir junto com os produtores de Os Tudors e Camelot, uma série sobre vikings, os guerreiros nórdicos famosos por suas embarcações, longas tranças, capacetes com chifres e muita destruição.

A ideia de Vikings (título provisório) veio de Sherry Marsh, que a levou para Alan Gasmer. Os dois apresentaram o projeto à MGM TV, que então sugeriu a co-produção internacional de Morgan O’Sullivan, que por sua vez ligou para o seu colaborador habitual e historiador Michael Hirst. Hirts foi o criador de Os Tudors e coproduziu Camelot ao lado de O’Sullivan. Hirst é fanático pela cultura viking e tem um roteiro jamais filmado sobre os bárbaros, por isso já está trabalhando em uma bíblia para a série e deve também escrever a maioria (ou todos) os roteiros. (São deles todos os roteiros de Os Tudors.)

A série vai mostrar os Vikings como exploradores, guerreiros, construtores, mercadores, piratas e mercenários, entre o fim do século 8 e meados do século 11, época conhecida como A Era Escandinava, nas histórias britânica e irlandesa. O personagem principal será Ragnar Lodbrok, um dos mais populares heróis vikings, grande comandante que governou por um tempo a Dinamarca e Suécia e teve relacionamentos com duas mulheres guerreiras e uma rainha.

A produção dos dez episódios da primeira temporada da série deve começar na Irlanda, nos estúdios de Morgan O’Sullivan. A MGM vai financiar 100% dos custos fora do Canadá e Irlanda e distribuirá a série tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo.
>> OMELETE – por Marcelo Forlani


LITERATURA FANTÁSTICA BRASILEIRA

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

Vector light renderSe aquilo que escrevemos é oriundo do imaginário, o fantástico é fruto dos sonhos. Isso coloca a literatura fantástica brasileira como tendo uma gênese semionírica tinta de verde e amarelo.

Seria querer fechar os olhos a quem nos traz um legado tão importante dizer que o gênero fantástico no Brasil é algo que nasceu nas últimas décadas. Lembro-me de quando li Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, ainda na adolescência: ignorar que seja literatura fantástica (chamar de quê? realismo criativo? histórias pseudorreais sanguinolentas? ultra-romantismo?) é querer negar que em 1855 um brasileiro, mesmo que postumamente, teve sua narrativa fantástica publicada.

Não podemos querer usar eufemismos aqui, como bem aponta Nilto Maciel, na revista de contos Bestiário: não se trata do maravilhoso, do sobrenatural aceito, do hiperbólico, exótico ou mesmo estranho ou grotesco. Existe alguma razão prática para se negar que se produz literatura fantástica no Brasil? Por ser uma literatura de entretenimento deve-se colocá-la num patamar menor, como se fosse uma pequena arte? – isso se for considerada arte…

Temos, sim, autores de literatura fantástica. Escrevemos histórias maravilhosas e exóticas e estranhas e até mesmo grotescas, mas tudo isso é apenas a manifestação do fantástico. Seja carregado de simbolismo ou tão direto quanto o autor deseje, é assim que se produz a literatura fantástica brasileira.

É claro que há expoentes lá fora: Tolkien, Martin, Rowling, Poe, Le Guin… Mas não ofusquemos nossos olhos ao ver o brilho que trazem sem ousarmos conhecer o quão brilhantes são nossos autores. Temos obras tão profundas, e tão divertidas, quanto as que são traduzidas… Muitas delas na estante da livraria próxima da sua casa ou apenas a um clique de distância em lojas virtuais. Mas existem barreiras para se conhecer tais livros?

Ainda existem. Às vezes parece que o que se escreve em território nacional não é visto com bons olhos. Dizem que é problema de preconceito… Eu, contudo, acredito que seja apenas falta de divulgação.

Como já disse em outros momentos, se o leitor não sabe que a obra está à venda, é como se ela não tivesse sido escrita: ninguém lê o que não sabe que existe. Felizmente existem iniciativas como o Fantasticon que primam pela divulgação e fortalecimento da literatura fantástica brasileira. É uma estrada longa a ser percorrida, mas já estamos dando os primeiros passos.

Para que ajudemos esse gênero fantástico que tanto amamos a crescer, basta quatro simples passos, que consolido como princípio EDEN (afinal, o Paraíso é também um lugar fantástico, não?):

  • Escrever
  • Divulgar
  • Enfrentar
  • Nobilitar

Os autores nacionais de literatura fantástica devem Escrever sempre, aprimorando suas técnicas de narrativa, buscando inspiração e colocando no papel o melhor que puderem. É preciso ter obras de qualidade para que se busque o reconhecimento (que vem, naturalmente, com o tempo).

Leitores, autores e editores devem Divulgar a literatura fantástica brasileira. Gosta de um livro? Faça uma resenha, recomende para um amigo… Ou melhor: dê livros de presente. Editores que apoiam seus autores e buscam estar presente em eventos literários também são ferramentas inestimáveis.

Fundamentalmente, é preciso Enfrentar as barreiras do preconceito. Assumindo que a literatura fantástica seja divulgada (ver princípio acima), uma das coisas que pode impedir a leitura é o preconceito de ver o nome de um autor nacional na capa. Ajude as pessoas a formar conceitos, deixando de lado quaisquer ideias preestabelecidas.

E, por fim, é preciso Nobilitar a literatura fantástica brasileira. Nobilitar significa tanto enobrecer como celebrar, e devemos tanto fazer dessa arte algo nobre (e, portanto, respeitada) como também devemos comemorar as vitórias que conseguimos no dia a dia. Cada leitor novo que reconhece o valor das narrativas fantásticas, cada livro publicado, cada manuscrito pronto… Tudo isso representa um grandioso avanço para todos nós.

Sonhemos. E realizemos. Só assim conseguiremos uma realidade fantástica onde nossas histórias terão excelso valor.
>> LETRA IMPRESSA – por Marcelo Paschoalin


FICÇÃO CIENTÍFICA E ANTROPOFAGIA

domingo | 1 | janeiro | 2012
Revista "Amazing Stories" (setembro 1960) - ilustração de Albert Nuetzell

Revista "Amazing Stories" (setembro 1960) - ilustração de Albert Nuetzell

Existe uma discussão permanente, nos círculos brasileiros de ficção científica, sobre a necessidade (ou a mera possibilidade) de um FC que funcione, entre nós, como o movimento modernista de 1922 funcionou em relação à poesia, a pintura, etc.
A discussão vem sendo travada nestes termos pelo menos desde 1988, quando Ivan Carlos Regina publicou o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”. A esta altura, todo mundo entende qual era mais ou menos a proposta dos “antropófagos” de 1922, tal como a colocou Oswald de Andrade: devorar a cultura européia como os índios caetés devoraram o Bispo Sardinha. Usá-la não como modelo, mas como combustível, para pôr em movimento uma cultura repleta de elementos nossos.
O manifesto de ICR critica os autores brasileiros que preferem imitar o modelo norte-americano de FC, repetir os mesmos temas, os mesmos clichês, a mesma linguagem – porque, vamos e venhamos, é muito mais fácil fazer “fanfic” do que literatura. (A “fanfic”, a ficção produzida por fãs, é quando os leitores de Harry Potter, Star Trek, etc. escrevem suas próprias histórias utilizando esses personagens e contextos. Não tem propósito criativo estrutural; apenas o prazer de produzir variantes das obras originais.)

Diz o manifesto: “(…) Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. / A ficção científica brasileira não existe. / A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem a capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos países tecnologicamente desenvolvidos. / A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos. (…)”.

Este é o lado crítico do manifesto, e acho que permanece tão atual quanto em 1988. Deglutir, devorar, antropofagizar, implica sempre em destruir, “quebrar” aquele material em seus elementos constitutivos, usá-lo como eventual banco de dados para produzir uma literatura que não venha do impulso de imitar, mas de dizer verdades pessoais. Literatura é a verdade pessoal de cada um, e para essa verdade emergir precisa desligar esse piloto-automático que gera a fanfic e a imitação.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares


CRESCE NÚMERO DE ESCRITORES BRASILEIROS QUE TRABALHAM O MEDO EM SEUS LIVROS

domingo | 1 | janeiro | 2012

 (Arquivo Pessoal)

O escritor André Vianco é um dos autores de Literatura Fantástica mais vendidos do Brasil

O medo é o objetivo. E o limite entre o terror e a tranquilidade faz a diferença na hora de atrair leitores jovens. A literatura de terror produzida por autores contemporâneos brasileiros não tem contornos definidos e muito menos a pretensão de criar qualquer tradição de gênero, mas cresce, revela nomes e envereda por caminhos ainda muito ancorados nas referências de língua inglesa. O terror brasileiro herdou as criaturas e fantasmas geradas no Hemisfério Norte. Em alguns casos, incorporou pimenta própria com cores locais. Há seres saídos das lendas brasileiras diretamente para a tramas protagonizadas por vampiros e almas penadas. Ou então cenários favoráveis com especificidades urbanas que atendem os requisitos para se equiparar às metrópoles melancólicas típicas de certas histórias. Mas tradição, não há.

Na análise do paulistano André Vianco, 36 anos, o cenário mudou muito desde o ano 2000. “Há 10 anos, as editoras eram bastante reticentes quanto a receber fantasia e terror por parte dos autores nacionais, mas eu sabia que tinha esse público, gente que queria ler uma literatura de terror que não fosse infantil e escrita por brasileiros.” Vampiros foram os primeiros parceiros do escritor na empreitada que rendeu mais de 13 livros, a maioria publicada pela Novo Século. No mais recente, O caso Laura, lançado pela Rocco, as criaturas ficaram de fora e o terror se voltou para um suspense mais humano.

Vianco também gosta de inserir, nas narrativas, algumas referências brasileiras, como o Curupira e outras criaturas lendárias. Alimentado pelo cinema, ele prefere se concentrar no conteúdo e deixar a forma de lado. “Cresci assistindo muita coisa na tevê, lendo quadrinhos, jogando videogame e os autores contemporâneos vão se apropriando disso tudo. É claro que há aqueles que gostam mais da literatura clássica de terror. No meu caso, dou mais valor à história e não a como ela vai ser apresentada. A gente vive disputando atenção do leitor com playstation, internet, seriado na tevê e isso também traduz nossa linguagem.”

O leitor jovem é maioria nas apresentações e eventos dos quais Vianco participa, mas ele garante também conversar com vovós, mães e pais que acompanham a prole na leitura. É o mesmo público visado por Douglas MCT e Ademir Pascale, nomes do topo da lista de livros de terror da Draco, editora especializada em fantasia e ficção científica. Roteirista de games, Douglas publicou o primeiro romance no ano passado. Necrópolis — A fronteira das almas traz a saga da alma perdida de um garotinho que precisa ser resgatada pelo irmão mais velho. É o primeiro de uma série de três e o segundo está previsto para 2012. Nascido no interior de São Paulo, Douglas, 28 anos, confessa ter explorado temores pessoais para escrever a história.

Fã de Stephen King e Guillermo del Toro, ele levou para o livro a mescla de bizarro, horror épico e terror psicológico comum nas narrativas desses autores. “O público são jovens pós-Restart e adultos, ainda que adolescentes mais novos tenham se interessado também, como apontam as estatísticas da rede social livreira Skoob. Mas gosto de dizer que o público é aquele que busca um frescor em tramas de fantasia e terror. Daqueles que gostam de sentir medo por meio de uma mídia”, garante. Ademir Pascale, autor de O desejo de Lilith, acrescenta à fórmula algumas mensagens de superação. Para o paulistano de 35 anos, o medo contido na trama de terror só é justificável se conduzir a uma espécie de “lição”.

Fórmula do medo

 “Numa história de Terror
não pode faltar a imersão: levar
quem lê para a profundeza, na
qual ele possa sentir na pele
a possibilidade daquilo, temer
junto do personagem e morrer
junto dele, se possível”, 


Douglas MCT, autor de Necrópolis —
A fronteira das almas 


“Tem que ter aproximação com o leitor, colocar o leitor juntinho com as personagens que estão encenando a história e essa proximidade vai dar toda a atmosfera. Por mais fantasiosa que seja a premissa do romance, (o autor tem que) fazer o leitor acreditar naquilo “, 

André Vianco,
autor de O caso Laura 

“Gosto do terror abstrato.
É o terror que tá dentro da pessoa.
É uma pessoa que acorda de
noite com síndrome do
pânico e começa a ver coisas onde não
existe, esse é o terror realmente bom,
que me dá medo”, 


Heloísa Seixas, autora de O pente de Vênus — Histórias do amor assombrado

>> CORREIO BRAZILIENSE – por Nahima Maciel


FANTASIA BRASILEIRA GANHA PRÊMIO “REALMS OF FANTASY READERS’ CHOICE AWARD”

segunda-feira | 13 | junho | 2011

“The Fortuitous Meeting of Gerard van Oost e Oludara”, noveleta de fantasia baseada no Brasil colonial, recebeu mais uma honra este ano quando foi escolhida como melhor ficção publicada na revista Realms of Fantasy durante o ano de 2010.  A seleção foi feito pelos leitores, e a noveleta empatou a votação com outra noveleta, “Queen of the Kanguellas”, escrita por Scott Dalrymple.

A noveleta é a primeira em uma série intitulada A Bandeira do Elefante e da Arara, ou The Elephant and Macaw Banner, sobre dois aventureiros no Brasil do século XVI.  Esta primeira história está disponível no Brasil sob o título de “O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara” no livroDuplo Fantasia Heróica (Devir Livraria), junto com a noveleta “A Travessia” por Roberto de Sousa Causo.

A segunda noveleta da série tem lançamento marcado para agosto, também pela editora Devir Livraria. Mais informação sobre a série pode ser encontrada no site: www.eamb.org/brasil.

Christopher Kastensmidt batendo um papo
com escritor premiado Paolo Bacigalupi
e artista premiado Barry Deutsch


“AS CRÔNICAS DE IMAGINARIUM GEOGRAPHICA”: ONDE HABITA A FANTASIA

quarta-feira | 1 | junho | 2011

Ser portador de um objeto mágico já fez parte do imaginário da maioria das pessoas. Povoou os mais variados romances em épocas e linguagens distintas. Afinal, é da capacidade humana sonhar com aquilo que mais anseia. Algo que o tire da realidade e liberte a sua imaginação e seus anseios infantis que estão ali, escondidinhos no seu coração.

James A.Owen, na minha opinião, é um captador de sonhos. O seu primeiro livro editado aqui no Brasil da série As Crônicas de Imaginarium Geographica me encantou logo de cara pela beleza da capa. Ao ler a sinopse, assumo que pensei que seria bem infantil, mas ao ouvir as opiniões que estavam rolando pelo meio editorial, resolvi me arriscar e comprei.

Vocês devem estar se perguntando: E aí, Danilo, você não respondeu por que acha o cara bom?! Bom, vou explicar… Quando comecei a ler Onde Habitam os Dragões, comecei a perceber nas páginas desta obra fantástica de fantasia que todos os sonhos de infância ali seriam realizados, durante o decorrer daquela história. Neste livro, (Editora Underworld, 308 páginas) é como se ele pegasse cada referência boa que batia suas asas na minha imaginação infantil, misturado tudo e transformasse em algo único. Simplesmente mágico!

O livro se passa durante a Primeira Guerra Mundial, em Londres. John, um homem atormentado pela sombra da Guerra, recebe um chamado urgente do seu professor de Oxford. Lá, junto com Jack e Charles, ele descobre que seu professor foi assassinado e que o destino deste trio inusitado é de serem os guardiões do Atlas Imaginarium Geographica, um livro poderoso que contém os mapas de todas as terras mágicas e humanas, em todas as dimensões possíveis.

Sem dúvida, foi um dos melhores livros que li no gênero. O autor consegue trazer a magia do infantil para uma linguagem adulta sem parecer piegas. Seu estilo de texto, apesar de conter muito mais elementos mágicos, me remeteu ao lirismo de Coração de Tinta. Ele conseguiu nos presentear por ser ousado – criar a maior miscelânea de personagens de lendas e contos de fada que eu já vi! E para nossa alegria, conseguia manter uma linha de linearidade singular.

Temos o grande Rei Arthur, capitão Nemo com o seu grandioso Náutilus e a Caixa de Pandora em um mesmo ambiente, sem que o leitor ache absurdo em nenhum ponto. O ritmo em nenhum momento se torna cansativo e o texto é dinâmico e rico em detalhes. Os personagens principais, o nosso trio de humanos, crescem no decorrer das páginas, não com a certeza de suas missões, mas como qualquer pessoa normal, sentindo o peso nas costas de uma responsabilidade tamanha que não sabem se vão aguentar vencer esta jornada.

Toda grande história não pode deixar de ter um grande inimigo – este é o Rei Branco. Ele quer ser o Grão-Rei do Trono de Prata e governar todos os mundos, que antes era governado apenas pelos herdeiros de Arthur. E junto com um exército de monstros, ele quer dominar tudo! Como todo vilão deste gênero ele é frio, maldoso e sarcástico. O perfeito cara ruim que tínhamos medo de que pegasse nossos pés debaixo da cama nas noites de chuva.

Muitos leitores podem se perder em meios a tantas referências, mas não se desespere. No final, tudo se explica… E por falar nisso, que final! Este é o livro que nunca me cansarei de recomendar, não leia as últimas páginas antes da hora, por favor! Os bookaholics de plantão vão se deliciar a esta homenagem mais que merecida ao nosso universo literário…

Não ousem perder a chance de mergulhar neste universo mágico! Uma homenagem à fantasia que só um mestre poderia tecer!
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Danilo Barbosa


LITERATURA FANTÁSTICA: A HORA DO ESPANTO

segunda-feira | 23 | maio | 2011

Autores gaúchos tentam, na raça,
popularizar a literatura fantástica no Estado

Eles não têm medo de assombrações. E, se for o caso, não hesitam em escrever sobre elas – ou sobre vampiros, bruxas, ETs e até entidades do folclore campeiro

São os exemplares heroicos mas cada vez mais numerosos de uma geração de escritores que quer quebrar o preconceito contra a literatura de gênero produzida no Estado. Uma turma – porque não são um movimento – interessada não apenas em ser uma “cena”, mas em chegar ao público.

Depois que Harry Potter e a saga Crepúsculo ampliaram ao longo da última década e meia o alcance da literatura fantástica para milhões, esse tipo de narrativa se popularizou também no Brasil – chamando atenção mesmo para autores que já estavam por aí bem antes, como o paulista André Vianco, campeão nacional de vendas com histórias de vampiro anos antes da saga Crepúsculo.

– Para surgirem publicações de fantasia, é preciso uma geração de editores que cresceram lendo fantasia. Cada geração tem potencial para formar a próxima, ainda maior. A fantasia épica chegou mais tarde ao Brasil. Surgiram umas poucas editoras nos anos 80 e 90, que fomentaram as editoras novas que estão agora publicando as suas próprias obras. Imagino que a geração Harry Potter vá aumentar ainda mais este fenômeno – diz Christopher Kastensmidt, americano residente em Porto Alegre e conhecedor de ambos os mercados, o de lá e o daqui.

No Rio Grande do Sul, os últimos anos viram surgir antologias voltadas para a literatura de gênero. A série Ficção de Polpa, da Não Editora, organizada por Samir Machado de Machado e já em seu quarto número, é uma delas. As Sagas, da Editora Argonautas, fundada pelos também escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, estão no segundo volume. Ambas apresentam contos de autores locais e nacionais, oferecendo um panorama abrangente da ficção de gênero no Brasil. São experiências que podem ajudar a quebrar a grande barreira entre os autores e o público – erguida principalmente pelos problemas de distribuição e edição do mercado literário tradicional.

– As novas editoras usam a inteligência para ocupar o vácuo deixado pelas grandes. São espaços que outrora foram ocupados por escritores famosos que vendiam muito literatura fantástica, como Cortázar ou Borges. Na ausência de novos grandes, as editoras acabam se contentando com relançamentos. É aí que entram as pequenas, lançando autores menos conhecidos, com contos inéditos para alimentar os apreciadores de novidades do gênero – diz Cleo de Oliveira, autor de Descontágio (Scortecci Editora) – livro em que alguns contos se valem de recursos do fantástico.

As vertentes da fantasia no Estado vão desde jovens escritores que criam histórias usando os temas recorrentes na atual ficção internacional de gênero, como vampiros, seres imortais ou anjos, a autores que aproveitam a realidade nacional e os temas de seu folclore para criar sua narrativa. Kastensmidt foi recentemente indicado ao Nebula, um dos prêmios internacionais mais importantes dedicados à literatura fantástica, narrando o encontro de um aventureiro holandês com o Saci-Pererê no Brasil do século 17. Outra autora que se utiliza da matriz local para contar suas histórias é Simone Saueressig, nascida em Campo Bom mas residente hoje em Novo Hamburgo. Seu recentemente lançado Aurum Domini: o Ouro nas Missões (Artes & Ofícios), é uma aventura histórica passada no século 19 que explora a lendária fortuna em ouro supostamente guardada pelos jesuítas nas missões.

– Tenho confiança no valor do nosso material próprio, nosso folclore, nossa história. Nossas lendas são um material tão rico quanto qualquer outro para se fazer literatura. Sempre tenho aquela noção de que um livro estrangeiro vem cheio das noções de moral, de honra, de postura política do país ou do segmento em que ele foi escrito. Então creio que nós autores nacionais temos de apresentar nossa visão, também, como espécie de resposta – diz Simone.

Rede macabra
Internet concentra os debates e populariza a literatura fantástica
Dois fenômenos formam o eixo da literatura fantástica produzida no Estado: o uso da internet como ferramenta de divulgação e um bom número de trabalhos produzidos por autores do Interior. Ambos estão relacionados: com a rede, quem produz fora da Capital ganha leitores e se sente encorajada a continuar produzindo.

Muitas das publicações de e sobre literatura fantástica no Estado estão na internet. Uma das mais conhecidas revistas virtuais sobre o gênero é a Fantástica, editada por um escritor que trabalha em Porto Alegre e mora em Sapucaia: Luiz Ehlers, 30 anos. A Fantástica traz resenhas, ensaios e reportagens com foco na ficção produzida exclusivamente no Brasil, de sucessos como André Vianco, Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e Rafael Caldela (gaúcho autor da série Tormenta, da editora Jambô), até jovens cuja repercussão ainda se dá principalmente no universo online. Conta, também, com articulistas de todo o Brasil.

– Muitos colaboradores ficaram surpresos quando a revista surgiu, acharam estranho que uma iniciativa dessas fosse editada aqui em vez de em São Paulo, por exemplo – diz Ehlers, engenheiro-químico de formação mas escritor fantástico por opção.

A Fantástica é um dos elementos mais visíveis de um fenômeno com a marca da web: a proliferação de fóruns, revistas, portais e blogs que servem como espaço de crítica e reflexão sobre a literatura de gênero à margem da grande imprensa. Feitos na base da paixão comum, muitos desses sites angariam colaboradores de todo Brasil e são mantidos por gente jovem disposta a compartilhar suas leituras. É o caso do Sobre Livros, blog editado desde 2009 por dois jovens da cidade de Encantado: os gêmeos Tiago e Rafael Casanova, 22 anos. O blog tem parcerias com editoras e funciona como um portal do cenário nacional da ficção de fantasia – no espírito “faça você mesmo” que caracteriza a geração das redes sociais:

– Planejávamos criar uma rede social literária e constatamos que não havia muitos sites voltados apenas para literatura de gênero no país. Nenhum dos poucos sites encontrados preenchia os requisitos pensados por nós, decidimos criar o Sobre Livros, para tentar conseguir e propagar essas informações – dizem ambos, em entrevista por e-mail.

A rede também tem servido para publicar – há um bom número de obras publicadas diretamente na internet. Vencedor do Fumproarte para um financiamento do seu primeiro livro, a fantasia infanto-juvenil O Rei e O Camaleão, Christian David, 38 anos, publicou recentemente uma antologia online e gratuita de ficção fantástica local: O Mal Bate à sua Porta.

– O potencial da internet ainda engatinha na literatura. A parceria com os blogs é interessante, porque eles fazem um trabalho de divulgação muito joia que dá visibilidade ao autor. No portal Skoob 50 leitores resenharam meu primeiro livro, espontaneamente – diz David.
>> ZERO HORA – por Carlos André Moreira


RAPHAEL DRACCON LANÇA LIVRO EXCLUSIVO EM PORTUGAL

sexta-feira | 13 | maio | 2011

O autor brasileiro Raphael Draccon, 29 anos, da trilogia de fantasia Dragões de Éter (Editora Leya) lançou o livro Espíritos de Gelo, criado exclusivamente para GaiLivro de Portugal.

Raphael  é o primeiro autor da nova geração brasileira de ecritores de fantasia a publicar na Europa. A proposta da editora é montar uma série de terror inspirada em lendas urbanas, com livros e preços populares (€ 7.90) e com um design estilo “old school”.

O livro faz parte de uma nova coleção intitulada “Mitos Urbanos” que a editora portuguesa desenvolveu, e foi apresentado na Feira do Livro de Lisboa (http://www.feiradolivrodelisboa.pt/) no espaço LeYa. O evento contou com a presença do autor portugues Fernando Ribeiro, um dos autores portugues dessa coleção. No evento também foi transmitido um vídeo do Raphael contando um pouco sobre o enredo do livro e sua carreira até o momento.

A Gailivro já publicou em Portugal títulos como Crepúsculo e Eragon.


Sobre o livro:
Um homem acorda acorrentado com os braços para cima em uma sala escura, com dois torturadores vestidos com detalhes masoquistas ao lado e um interrogador baixinho, com a cabeça desproporcional ao corpo, vestido com roupas sociais e uma camisa surrada do Black Sabbath.

Eles o informam que ele acordou em uma banheira sem um rim e sofreu um choque amnésico, que o impede de lembrar os detalhes. Assim sendo, eles partem do princípio de que outros choques traumáticos podem desbloquear essas memórias, se necessário. E em meio ao interrogatório, se iniciam as piores partes.

O livro faz referências à lenda urbana da banheira de gelo, às lendas ao redor da história do rock’n roll e até às motivações e psicologia ao redor da própria criação de lendas desse tipo.


“GAME OF THRONES”: PRODUZINDO “GUERRA DOS TRONOS”

segunda-feira | 9 | maio | 2011

A mais nova superprodução da TV estreou nos EUA e no Brasil pela HBO cercada de muita publicidade e expectativas. Registrando cerca de 2.2 milhões de telespectadores, nos EUA, “Game of Thrones” repetiu o feito de outras séries do canal ao ter sua produção renovada para sua segunda temporada, com a exibição de apenas um episódio. Não que existisse alguma dúvida a respeito de sua continuidade, afinal, dificilmente o canal cancelaria uma série em sua primeira temporada após o investimento de cerca de 60 milhões de dólares para se produzir os primeiros dez episódios.

Desde que foi anunciada em 2008, a produção deixou claro que sua intenção é produzir, pelo menos, quatro temporadas. O equivalente aos quatro primeiros livros de George R.R. Martin, da série “A Song of  Ice and Fire”. O autor já tem o quinto volume pronto para seu lançamento em julho de 2011, sendo que a série literária deverá ter um total de sete volumes.

O reino de Westeros surgiu da vontade de Martin em se afastar da televisão, veículo para o qual escreveu diversos roteiros para séries. O autor foi roteirista e produtor de “Além da Imaginação” e “A Bela e a Fera”, ambas da década de 1980. A primeira apresentava uma nova versão da visão de Rod Serling para as fantásticas possibilidades proporcionadas pela ficção científica, enquanto que a segunda era um conto de fadas moderno, sobre o amor impossível entre uma criatura meio homem meio fera, e uma advogada vivendo em Nova Iorque.

Apesar do sucesso que as duas séries conquistaram na época em que eram exibidas, Martin decidiu se afastar desse meio. O motivo era simples: na TV seu trabalho estava limitado a um orçamento, a um formato de produção e a uma censura. Pensando em criar um universo povoado por diversos personagens, situados em cenários grandiosos, vivenciando uma trama repleta de reviravoltas, Martin escreveu o livro “Game of Thrones” que introduz o leitor ao reino de Westeros.

Publicado em 1996, o livro atraiu o interesse de um público ávido por esse tipo de história. Recebendo prêmios, a obra começou a despertar o interesse de Hollywood, principalmente depois que “O Senhor dos Anéis” fez sucesso. Mas Martin recusava-se a autorizar que sua obra ganhasse uma adaptação cinematográfica. Para ele, um filme não conseguiria reproduzir o conteúdo do livro. Para que Hollywood pudesse adaptar sua obra, os estúdios teriam que se comprometer a produzir, pelo menos, 27 filmes. Algo impensável.

Até que, por volta de 2007, a HBO começou a negociar com o autor uma adaptação de sua obra, com o objetivo de transformá-la em uma série de TV. Buscando investir em produções ousadas, o canal propôs ao autor adaptar cada livro em uma temporada de, inicialmente, 12 episódios (posteriormente foram definidos 10 episódios por temporada). Considerando esse formato mais adequado para contar sua história e levando em consideração a fama conquistada pelo canal com produções como “Deadwood”, “A Família Soprano” ou “Roma”, Martin aceitou a proposta.

Produzido em parceria com a Management 360, o projeto ganhou a encomenda de um episódio piloto para avaliação. Pura formalidade, visto que a decisão de se produzir uma série já estava tomada. No entanto, a produção sofreu um revés. Entre 2007 e 2008 ocorreu uma greve dos roteiristas americanos que paralisou Hollywood ao longo de quatro meses. Com isso, a HBO precisou adiar a produção de “Game of Thrones”, a qual somente teve início em 2009. Em março de 2010, o canal anunciou a encomenda da série.

No entanto, após o anúncio, a produção precisou refilmar boa parte do episódio piloto para poder acomodar a substituição de duas atrizes. Jennifer Ehle (da minissérie inglesa “Orgulho e Preconceito”), contratada para interpretar Catelyn Stark, foi substituída pela irlandesa Michelle Fairley (a sra. Granger dos filmes de “Harry Potter”). O mesmo aconteceu com Tamzin Merchant, que interpretou Daenerys Targaryen no primeiro piloto, sendo substituída por Emilia Clarke. Embora seja comum a troca de atores quando um piloto é transformado em série, nenhuma explicação foi passada à imprensa.

A troca adiou o início da produção do segundo episódio tendo em vista a necessidade de se fazer testes para selecionar as novas atrizes, bem como a refilmagem de várias das cenas do piloto em que as personagens aparecem.

Inicialmente, as filmagens da temporada seriam feitas no Marrocos, mas a produção decidiu se estabelecer na Irlanda com locações na Ilha de Malta. Com o objetivo de desenvolver o idioma Dothraki, a HBO entrou em contato com a Language Creation Society. Vários de seus membros submeteram suas propostas ao canal, que escolheu o trabalho de David J. Peterson. O especialista em línguas desenvolveu um vocabulário com cerca de 1800 palavras tomando como referência os idiomas russo, turco, estoniano, suahili e diversos dialetos inuits falados no Canadá.

Em seu contrato com a HBO, Martin tem o compromisso de escrever um roteiro por temporada. Na primeira, o episódio oito foi escrito por ele. Com o título de “The Pointy End”, ele será exibido nos EUA no dia 5 de junho e, no Brasil, no dia 26 do mesmo mês.

Com apenas quatro episódios exibidos, a série vem conseguindo manter a média de 2.3 milhões de telespectadores em sua primeira exibição. Embora seja uma audiência baixa em relação ao custo, “Game of Thrones” é considerada mais uma série de sucesso da HBO. Além dos EUA e do Brasil, a produção já foi vendida a canais da Inglaterra, Irlanda, Canadá, Noruega, Suécia, Espanha, Austrália, países Árabes e Europa Central.
>> VEJA – por Fernanda Furquim


O ROCK: POR UMA PRINCESA, UM CAVALEIRO E UM DRAGÃO

sexta-feira | 29 | abril | 2011

Para entender as diferentes vertentes do Metal e do Rock, vamos imaginar uma situação e seus respectivos desfechos na abordagem de cada estilo.

“No alto do castelo, há uma linda princesa – muito carente – que foi ali trancada, e é guardada por um grande e terrível dragão”…
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HEAVY METAL:
O protagonista chega no castelo numa Harley Davidson, mata o dragão, enche a cara de cerveja com a princesa e depois transa com ela. Posteriormente se separam quando ela descobre que ele transou com uma groupie.

METAL MELÓDICO:
O protagonista chega no castelo num cavalo alado branco, escapa do dragão, salva a princesa, fogem para longe e fazem amor.

THRASH METAL:
O protagonista chega no castelo, duela com o dragão, salva a princesa e transa com ela.

POWER METAL:
O protagonista chega brandindo sua espada e trava uma batalha gloriosa contra o dragão. O dragão sucumbe enquanto ele permanece em pé, banhado pelo sangue de seu inimigo, sinal de seu triunfo. Resgata a princesa. Esgota a paciência dela com auto-elogios e transa com ela.

FOLK METAL:
O protagonista chega acompanhado de vários amigos e duendes tocando acordeon, alaúde, viola e outros instrumentos estranhos. Fazem o dragão dormir depois de tanto dançar, e vão embora, sem a princesa, pois a floresta está cheia de ninfas, elfas e fadas.

VIKING METAL:
O protagonista chega em um navio, mata o dragão com um machado, assa e come. Estupra a princesa, pilha o castelo e toca fogo em tudo antes de ir embora.

BLACK METAL:
Chega de madrugada, dentro da neblina. Mata o dragão e empala em frente ao castelo. Sodomiza a princesa, a corta com uma faca e bebe o seu sangue em um ritual até matá-la. Depois descobre que ela não era mais virgem e a empala junto com o dragão.

DEATH METAL:
O protagonista chega, mata o dragão, transa com a princesa, mata a princesa e vai embora.

GORE:
Chega, mata o dragão. Sobe no castelo, transa com a princesa e a mata. Depois transa com ela de novo. Queima o corpo da princesa e transa com ele de novo.

SPLATTER:

Chega, mata o dragão, abre-o com um bisturi. Sodomiza a princesa com as tripas do dragão. Abre buracos nela com o bisturi e estupra cada um dos buracos. Tira os globos oculares da princesa e estupra as órbitas. Depois mata a princesa, faz uma autópsia, tira fotos, e lança um album cuja capa é uma das fotos.

DOOM METAL:

Chega no castelo, olha o tamanho do dragão, fica deprimido e se mata. O dragão come o cadáver do protagonista e depois come a princesa.

WHITE METAL:

Chega no castelo, exorciza o dragão, converte a princesa e usa o castelo para sediar mais uma “Igreja Universal do Reino de Deus”.

NEW METAL:

Chega no castelo se achando o bonzão e dizendo o quanto é bom de briga. Quer provar para todos que também é foda e é capaz de salvar a princesa. Acha que é capaz de vencer o dragão; perde feio e leva o maior cacete. O protagonista New Metal toma um prozak e vai gravar um disco “The Best Of”.

GRUNGE:
Chega drogado, escapa do dragão e encontra a princesa. Conta para ela sobre a sua infância triste. A princesa dá um soco na cara dele e vai procurar o protagonista Heavy Metal. O protagonista grunge sofre uma overdose de heroína.

ROCK N’ROLL CLÁSSICO:
Chega de moto fumando um baseado e oferece para o dragão, que logo fica seu amigo. Depois acampa com a princesa numa parte mais afastada do jardim e depois de muito sexo, drogas e rock n roll, tem uma overdose de LSD e morre sufocado no próprio vômito.

PUNK ROCK:
Cospe no dragão, joga uma pedra nele e depois foge. Pixa o muro do castelo com um “A” de anarquia. Faz um moicano na princesa e depois abre uma barraquinha de fanzines no saguão do castelo.

EMOCORE:
Chega ao castelo e conta ao dragão o quanto gosta da princesa. O dragão fica com pena e o deixa passar. Após entrar no castelo ele descobre que a princesa fugiu com o protagonista Heavy Metal. Escreve uma música de letra emotiva contando como foi abandonado pela sua amada e como o mundo é injusto.

PROGRESSIVO:
Chega, toca um solo virtuoso de guitarra de 26 minutos. O dragão se mata de tanto tédio. Chega até a princesa e toca outro solo que explora todas as técnicas de atonalismo em compassos ternários compostos aprendidas no último ano de conservatório. A princesa foge e vai procurar o protagonista Heavy Metal.

HARD ROCK:
Chega em um conversível vermelho, com duas loiras peitudas e tomando Jack Daniel’s. Mata o dragão com uma faca e faz uma orgia com a princesa e as loiras.
ou
HARD ROCK (2):
Sobe no castelo e mata o dragão jogando uma TV lá de cima pela janela.

HARDCORE
Chega de skate, organiza um protesto em frente ao castelo contra a ditadura dos dragões. Sobe na torre, transa com a princesa e grava um álbum com 25 faixas de 2 minutos cada descendo o pau no governo.
ou
HARDCORE (2)
O protagonista Hardcore chega bangueando, coloca o dragão na roda, o enche de chutes e o derruba no fosso. Sobe todo o castelo, e dá um mosh da torre mais alta.

GLAM ROCK:
Chega no castelo. O dragão rí tanto quando o vê que o deixa passar. Ele entra no castelo, rouba o hair dresser e o batom da princesa. Depois a convence a pintar o castelo de rosa e a fazer luzes nos cabelos.

INDIE ROCK:
Entra pelos fundos do castelo. O dragão fica com pena de bater em um nerd franzino de óculos e deixa ele passar. A princesa não aguenta ouvir ele falando de moda e cinema, e foge com o protagonista Heavy Metal.

NEW WAVE

Ao chegar no castelo mata o dragão e doa toda a sua carne às familias pobres da África.

GOTHIC METAL
Chega no castelo e monta uma banda com a princesa e o dragão fazendo vocais líricos e guturais respectivamente.

>> CAPINAREMOS – por Zanfa


“A GUERRA DOS TRONOS”: GEORGE R. R. MARTIN, O NOVO MESTRE DA FANTASIA

segunda-feira | 25 | abril | 2011

O autor se consagra como sucessor de J. R. R. Tolkien
– e chega às telas

Nick Briggs

George R.R. Martin no set de A guerra dos tronos. Com a adaptação do livro pela HBO, o autor se tornou uma celebridade.

FAMA TARDIA
Em 1994, aos 46 anos, o roteirista de televisão George R.R. Martin decidiu mudar de profissão. Cansado das restrições orçamentárias da série em que trabalhava (A bela e a fera), que podavam sua imaginação, Martin decidiu retomar seu passado pouco glorioso de escritor de fantasia e ficção científica. Seu objetivo era quase uma desforra contra os produtores de televisão: criar um ambicioso épico de fantasia, com batalhas grandiosas, que ninguém ousaria levar às telas.

Dezessete anos depois, a televisão se curvou a Martin. A série A guerra dos tronos, baseada no primeiro volume de sua saga de fantasia As crônicas de gelo e fogo, estreará neste domingo nos Estados Unidos com um orçamento estimado em US$ 60 milhões – e a expectativa de se tornar um dos maiores sucessos da temporada.

Nos 15 minutos da série revelados pelo canal americano HBO antes da estreia, é possível perceber que ela tem pouco em comum com outras sagas de fantasia. Para quem se acostumou com o mundo de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien, em que as diferenças entre o bem e o mal são claras e o final feliz é quase inevitável, A guerra dos tronosparece pertencer a outro gênero. O mundo de Westeros, criado por George R.R. Martin, é repleto de sombras e sangue. Personagens recém-apresentados ao espectador podem morrer poucas cenas depois, sem aviso e de forma violenta, e a disputa entre heróis e vilões dá lugar a uma trama cheia de intrigas e traições, na qual diferentes clãs da nobreza disputam o poder sobre o reino.

Parte das mudanças no gênero pode ser atribuída ao meio escolhido para a adaptação: a televisão, e não o cinema. A audiência da HBO está acostumada a tramas mais adultas: o drama A família Soprano e o faroeste Deadwood são algumas de suas séries mais bem-sucedidas nos Estados Unidos. Para ser aceita por esse público, uma série de fantasia precisaria manter o tom adulto. A classificação indicativa, que impede cenas muito fortes nas grandes produções de cinema sob o risco de diminuir seu público (e seus lucros), não é uma preocupação tão grande para os canais de televisão. Isso permite exibir sem pudores imagens de personagens mutilados ou decapitados. Outra vantagem das séries sobre os filmes está na duração. Enquanto os três livros de O senhor dos anéis foram transformados em pouco mais de nove horas de filme, a primeira temporada de A guerra dos tronos terá dez episódios de uma hora para contar a história de apenas um romance. A maior duração dá espaço a uma trama mais lenta e elaborada, em que as intenções dos personagens se revelam gradualmente.

Assista ao trailer de “A guerra dos tronos”.

   Divulgação

AMBIÇÃO
Acima, Sean Bean, de O senhor dos anéis, na pele do nobre Eddard Stark. No alto, cavaleiros em uma montanha de Westeros. A série recria o mundo descrito pelo autor em mais de 3.800 páginas

Mas o tom sombrio que parece caracterizar a série tem origem nos próprios livros. Em um universo literário dominado pela influência de J.R.R. Tolkien, Martin se recusou a ser um imitador. No mundo de Westeros, criado por ele, há pouca magia e muita humanidade. Seus personagens não são movidos pelo desejo de salvar o mundo, mas por motivos menos nobres: sexo, dinheiro e poder. Para escapar da influência de O senhor dos anéis, buscou inspiração no tom sóbrio adotado por escritores de romances históricos e acrescentou à fórmula técnicas que aprendeu como roteirista de televisão. Ao contrário de Tolkien, que se detém muitas vezes em descrições exageradamente detalhadas, Martin mantém a trama sempre em movimento e prende a atenção do leitor com “ganchos” ao final de cada capítulo. A fórmula deu certo: com os quatro romances de As crônicas de gelo e fogo, Martin tornou-se o escritor mais influente do gênero na atualidade – e o principal representante de uma geração de bem-sucedidos autores de fantasia (leia o quadro abaixo).

   Reprodução   Reprodução

Apesar do sucesso, a relação de Martin com os fãs nem sempre é amistosa. Sua demora de quase seis anos para lançar o quinto volume da série (A dance with dragons, previsto para julho) motivou a criação de sites de protesto. Alguns acusam o autor de ter perdido o interesse pela saga, que só será concluída no sétimo volume, e não dedicar tempo suficiente à escrita.

Para eles, A guerra dos tronos é uma má notícia: a série, na qual Martin ocupa o cargo de produtor executivo, seria mais um motivo para afastar o autor do “dever” de terminar logo os três livros restantes. Os fãs menos impacientes de Martin – e de boas séries de televisão – vão gostar de ver o mundo de Westeros recriado nas telas, de uma maneira que Martin imaginava impossível em 1994.
>> REVISTA ÉPOCA – por Danilo Venticinque


6º CINEFANTASY – HORROR, FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

segunda-feira | 25 | abril | 2011


“STALKER”, DE ANDREI TARKOVSKI: GARIMPANDO O IMPONDERÁVEL – ENERGIA LIMPA E SOCIEDADE SUJA

sábado | 23 | abril | 2011

Porvir imediato e pretérito automático
Estamos preparados para um mundo limpo? “Os filme do mestre russo Andrei Tarkovski são mais ambientações que entretenimento”, diz o crítico Roger Ebert (EBERT, 465). Podemos acrescentar que eles se usam de uma narrativa demorada, como no caso de Stalker, para representar o que seria uma “velocidade da vida”, jogando a audiência numa zona crepuscular, onírica, propícia à meditação. Essa “vida lenta” incomoda os espíritos mais fugazes, que buscam no cinema apenas o escapismo e a diversão, pois a lentidão produz a ansiedade do porvir, da cena seguinte, o que obriga nossa consciência a ir além do “agora”, mirando um futuro que nunca se materializa em presente, pois logo é passado. É esse vício no porvir imediato e no pretérito automático que compromete a aposta num mundo limpo, sem o consumo que é o combustível para a felicidade idealizada ocidental, tema que aparece nas entrelinhas (ou deveríamos dizer, “entrefotogramas”) deStalker, com seus peregrinos cercados por artefatos degradados, em busca de um local idealizado, a Zona, onde todos os desejos se materializariam.

No romance Piknik na Obotchine (algo como “Piquenique à beira da estrada”), de Arkadi e Boris Strugatski, no qual o filme foi baseado, as Zonas de Visita (na verdade, existiriam seis delas, em torno do planeta) são resultado de uma ação extraterrestre nunca descrita em detalhes (STRUGASTSKI, 7) e os stalkers do título são uma mescla de guias, exploradores, garimpeiros e contrabandistas que exploram essas Zonas em busca de artefatos estranhos que possam ser vendidos a colecionadores ou universidades. Um desses objetos é um anel que, uma vez colocado em movimento, jamais cessa de girar, ou seja, um moto-contínuo que produz a energia da qual se alimenta. Mas, como se a Zona fosse um tipo de Serra Pelada alienígena, os objetos recuperados jamais alcançam um valor de mercado muito alto por conta da incapacidade humana de decifrá-los, o que faz deles meros artigos “colecionáveis”, curiosidades sem uso prático, “objetos-paixão”, nas palavras de Jean Baudrillard:

Todo objeto tem dessa forma duas funções: uma que é ser utilizado, a outra a de ser possuído. (…) O objeto estritamente prático toma um estatuto social: é a máquina.Ao contrário, o objeto puro, privado de função ou abstraído de seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção(BAUDRILLARD, pg 94)

Um objeto esférico, porém, subverte essa regra, pois há quem diga que se trata de uma “lâmpada de Aladim”, capaz de realizar as vontades do usuário. Assim, romance e filme têm finais contraditórios quando os personagens reagem de maneiras diferentes aos objetos de desejo. Enquanto Tarkovski faz com que o receio impeça a trinca de protagonistas (eles não têm nomes no filme, são chamados por suas ocupações: um é o Stalker, o segundo é o Físico e o último é o Escritor) de entrar no quarto dos sonhos, na novela dos Strugatski, Redrick Stuart, um stalker veterano, não tem pruridos em aferrar-se à bola e fazer um voto em prol de toda a humanidade (STRUGATSKI, 185)

    Felicidade para todos. Gratuitamente. E que ninguém saia prejudicado.
Como interpretar esse clamor sobre a felicidade irrestrita numa história que, entre outras coisas, pode ser encarada como uma alegoria crítica ao desejo, ao consumo, ao tráfico, à posse? Néstor Canclini afirma que o consumo poderia ser uma ferramenta para a melhoria da sociedade se conseguíssemos democratizar a oferta a um nível mundial compatível com a realidade salarial das diversas populações (CANCLINI, 89). Tal utopia econômica, porém, necessitaria de uma publicidade menos afeita a exageros e distorções e de uma distribuição de renda equânime, o que implicaria em mais e mais produção para um consumo cada vez maior, com artefatos e produtos sendo substituídos por modelos mais novos duas ou três vezes por ano. Ou seja, apesar de gerar mais empregos e girar o fluxo de caixa, distribuindo riquezas a um número maior de pessoas, o sonho socioeconômico necessariamente colocaria em risco o meio ambiente, pois enraizaria suas soluções numa hipotética natureza auto-renovável, capaz de prover matéria prima eternamente. Felicidade para todos, como se encarada dentro de uma ótica individualista/capitalista, implicaria no fim irrevogável do planeta, imerso em lixo não degradável.

Thorstein Veblen explicita que o consumo exacerbado é uma prática (ou desejo consolidado) recente na sociedade, já que antes da Revolução Industrial, acreditava-se que apenas uma pequena classe ociosa e aristocrática teria o “direito” (leia-se “dinheiro”) de/para cultivar hábitos como o colecionismo, o consumo pelo consumo, não necessariamente relacionado às necessidades imediatas de subsistência. Porém, com o incentivo advindo da publicidade, um tipo de “necessidade de consumo”, aliada ao inconformismo resultado do desejo de posse de artigos e artefatos como representativos de staus quo, estabelece-se como mola mestra de uma produção constante e avassaladora. Conceitos como “obsolescência programada” tornaram-se indispensáveis para a saúde de empresas que mesclam moda, design e tecnologia como elementos sedutores do público, apostando na constante descartabilidade. Stalker é um filme sobre a integridade perene, sobre os valores do indivíduo e a fé imutável que resistem ao ambiente em constante mutação. Seus personagens garimpam o cenário em busca de respostas, mas no máximo resgatam outras perguntas, artefatos imponderáveis e sedutores que não apresentam um fim, mas podem ser apenas lixo largado à beira da estrada por visitantes que não se importam com os anfitriões.

Humberto Pererira da Silva afirma que “Tarkovski é um artista cuja obra incomoda porque exige que o espectador pense tanto na função da arte sobre sua própria vida e o mundo quanto no papel do cinema para exibir os sentimentos mais sublimes” (SILVA, 120).  Deleuze, por sua vez, evoca a imagem do “cristal de tempo” (DELEUZE, 95) para definir o cinema de Tarkovski, que ao girar em torno de si próprio interroga aqueles que nele se refletem, seja a Rússia natal, sejam os personagens ou cada um de seus espectadores, mas ressalta que, em Stalker, há um teor de opacidade encarnado na porta fechada que impede o trio de adentrar no quarto milagroso. Ali não há há reflexo, apenas a certeza da intransponibilidade e da impossibilidade de solucionar os mistérios por meio da realização dos desejos.
>> OCTÁVIO ARAGÃO


FINALMENTE GROO ENFRENTARÁ CONAN

sábado | 23 | abril | 2011

O cartunista Sergio Aragonés confirmou que as duas primeiras edições de Sergio Aragonés´ Groo vs. Conan estão prontas e que a minissérie, que terá quatro números, será lançada, provavelmente, na convenção de San Diego deste ano.

A história, que vem sendo trabalhada desde 2007, mostra o próprio Aragonés levando uma pancada na cabeça enquanto tenta defender uma comic shop que está prestes a ser demolida. Atordoado, ele começa a pensar que é o verdadeiro Conan, mas, já no mundo da fantasia, se depara com o bárbaro verdadeiro e descobre que ele está sendo contratado pelas pessoas do mundo de Groo para defendê-las contra o Errante.

Os desenhos foram divididos entre Aragonés e Thomas Yates, que faz a arte referente a Conan. As páginas apresentam um resultado interessante da arte cartunesca de Aragonés, que fez o layout de toda a história, com os desenhos mais realistas de Yeates.

Groo é um personagem criado por Sergio Aragonés, em colaboração com Mark Evanier, no começo dos anos 80. O personagem é uma paródia a Conan, o Bárbaro, e juntamente com sua galeria de personagens, conquistou grande sucesso, que dura até hoje.

Através dos anos, foi publicado em várias editoras nos EUA, atualmente pela Dark Horse. Aqui no Brasil, Groo surgiu em 1989, em uma Graphic Novel pela Editora Abril. No ano seguinte, ganhou um título mensal, que perdurou até 1992. Depois foi publicado e reeditado em edições especiais, minisséries e compilações, pela Abril, Pandora BooksOpera Graphica Mythos.

Conan foi criado por Robert E. Howard em 1932. Inicialmente, o personagem aparecia em contos publicados na revista Weird Tales. No começo dos anos 70, a Marvel Comics começou a publicar a versão em quadrinhos do personagem, em séries mensais e minisséries que duraram até 2004, quando os direitos foram adquiridos pela Dark Horse, que segue com o herói até hoje.

O personagem também ganhou duas adaptações para o cinema, estreladas por Arnold Schwarzenegger; além de uma série para TV com atores e outra animada. Atualmente suas histórias são publicadas no Brasil pela Mythos Editora.

Conan nasceu na Ciméria, em um período de tempo conhecido como Era Hiboriana, uma época pré-glacial anterior ao registro da história conhecida. O bárbaro foi escravo, saqueador, pirata, mercenário, tendo enfrentado todo tipo de criaturas, feiticeiros, vampiros, demônios, lobisomens e até mesmo seres de outras dimensões. Por fim, Conan se torna o rei da Aquilônia, uma das mais altivas e poderosas nações hiborianas, posto que, já em idade avançada, deixa para seu filho, voltando a se aventurar mundo afora.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


NO MUNDO DOS CONTOS DE FADA

sábado | 23 | abril | 2011

No mundo dos contos de fadas

Era uma vez uma mocinha indefesa, que vai parar num mundo encantado cheio de criaturas mágicas, onde enfrenta um ser malévolo e muitos outros obstáculos, e que, no final, consegue o seu final feliz. É essa a premissa básica do conto de fadas, manifestado na literatura a partir do século VII. Com o surgimento do cinema, em 1896, não demorou muito para os contos de fadas fazerem história também na sétima arte.

O primeiro conto visto em película foi Cinderela (1898), sobre a gata borralheira que sofre nas mãos da madrasta. Mas os contos de fadas ganharam mesmo popularidade foi pelas mãos da Disney. Cinderela, aliás, também foi adaptado numa animação clássica do estúdio, em 1950.

Branca de Neve

O primeiro conto de fadas da Disney foi Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937). Outros títulos populares são: Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951), A Bela Adormecida (Sleeping Beauty, 1959), A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989) e Aladin (Alladin, 1992).

A quadrilogia Shrek (2001, 2004, 2007, 2010) ficou responsável por subverter clássicos personagens dos contos de fadas, como o Lobo Mau, Os Três Porquinhos, Cinderela e Bela Adormecida, apresentando-os de forma satírica e irônica. Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked!, 2005) mostra uma versão bem humorada do conto de fadas que rendeu até continuação: Deu a Louca na Chapeuzinho 2 (Hoodwinked Too! Hood vs. Evil), com estreia marcada para 02 de setembro.

Versões live-action

A história de Chapeuzinho Vermelho também está no filme A Garota da Capa Vermelha, que estreia nesta quinta-feira (21/04). Nele, um vilarejo recebe o alerta de que o lobo está à espreita e o povoado precisa tomar cuidado. Valerie (Amanda Seyfried) está apaixonada por Peter (Shiloh Fernandez). No entanto, ela está prometida a Henry (Max Irons). Valerie e Peter decidem fugir, mas o perigo os acompanha com o lobo à solta.

O cinema soviético teve diversas adaptações de contos de fadas em live-action, como A Lâmpada Mágica de Aladdin (Volshebnaya Lampa Aladdina, 1966), A Princesa e a Ervilha (Printsessa na Goroshine, 1976) e A Pequena Sereia (Rusolochka, 1976).

Sombrios ganham cor Na tradição literata dos contos de fadas, havia uma carga sombria nas histórias. Com o passar do tempo, foram feitas adaptações para os contos se adequarem ao público infantil, alvo para as animações da Disney. Agora, o cinema volta às origens soturnas dos contos de fadas da literatura para versões em live-action.

A Garota da Capa Vermelha é apenas o começo de uma série de adaptações em live-action de contos de fadas. No ano passado, já havia estreado Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), dirigido por Tim Burton. Ainda este ano, estreia A Fera (Beastly), versão moderna de A Bela e a Fera, em 03 de junho, e o terror Curse of the Smoke O’ Lantern.

Mais por vir

Em 2012, a Branca de Neve aparecerá em dois filmes. O primeiro, The Brothers Grimm: Snow White terá Lily Collins como a heroína do título e Julia Roberts como Rainha Má. Já Snow White and the Huntsman contará com Kristen Stewart como Branca de Neve.

Hansel and Gretel: Witch Hunters traz de volta os irmãos João e Maria, que, na literatura, encontram uma casa feita de doces, que tem como dona uma bruxa. O filme mostra os irmãos crescidos e agora caçadores de bruxas. Jeremy Renner (Atração Perigosa – The Town, 2010) e Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo – Prince of Persia: The Sands of Time, 2010) são Hansel e Gretel, e atualmente estão na cidade de Braunschweig, naAlemanha, para as filmagens. João e Maria também vão aparecer no filme Hansel e Gretel in 3D.

O pacote de contos de fadas em carne e osso ainda terá Cinderela, cuja protagonista  ainda é um mistério, e A Bela Adormecida, esse com Emily Browning (Sucker Punch – Mundo Surreal) na pele da personagem-título.

Assim como em muitas das páginas da literatura, os contos de fadas têm tudo para conquistar um final feliz também no cinema.
>> YAHOO – BR Press – por Vanessa Wonhrath


“OS SETE SELOS”, DE LUIZA SALAZAR

segunda-feira | 18 | abril | 2011
Sinopse: Lara Carver é uma jovem de 21 anos que trabalha para a Agência, um local especializado em estudar, localizar e conter fenômenos paranormais. Um evento inesperado tira Lara do conforto da Agência em Londres e a leva para Paris, onde ela descobre que uma força muito além de qualquer coisa que a Agência já enfrentou assolou a cidade à procura de um artefato milenar. Lara precisa se unir a um velho amigo e ex-agente, Jason e a um demônio, Lucius, inimigo declarado de Lara desde sua infância, para descobrir quem está atrás do artefato e porque ele é tão importante. No entanto, a jornada de Lara vai lhe mostrar coisas que ela jamais esperava sobre perigo, amor, amizade e acima de tudo, sobre os estranhos e poderosos segredos do seu próprio passado.

Ontem terminei de ler o livro Os Sete Selos, o que podeia dizer deste livro?Surpreendente.

O livro conta a história de Lara Carver, ela trabalha para a “Agência” uma instituição especializada em fenômenos paranormais.

Lara é chamada para resolver um caso de ataque a um Bispo que trabalhava para a Agência, chegando na Igreja em que o Bispo foi morto Lara fica sabendo que quem matou o Bispo foi o Anjo Gabriel, o maior de todos os Anjos.

Gabriel e Lúcifer como todos sabem queriam acabar com a humanidade, porém Gabriel acabou desistindo do plano e “traindo” Lúcifer.

Lara é designada a resolver este caso porém terá que “aguentar” a presença de Lucius, o demônio que anos antes assassinou o pai de Lara e agora vai ajudar na investigação.

Com a condição de levar Jason, um antigo amigo e agente, Lara concorda em trabalhar com Lucius. A partir desde momento a história começa a ganhar vida.

Achei que a história fosse ser de uma menina que se apaixonaria pelo Anjo e pelo Demônio, que ficaria mais focado no romance ou em Lara. Ai que me enganei, o livro conta a história de uma Guerra travada desde os confins da Terra, pelo poder, a ganância de dois Anjos que são tão parecidos e se dizem tão diferentes um do outro.

Os Sete Selos conta com Gárgulas, espectros, armas de última geração, romance, traição e os principais valores da humanidade, Amor e Amizade.

O livro tem vários cenários, isso é que é o mais legal. Lara viaja por vários países, e várias dimensões. Indo do mundo dos mortos até o paraíso.

No meio da história acaba entrando para o grupo Roseanne, uma amiga de Jason que vai ajudar a desvendar os mistérios da busca pelo Objeto que Gabriel tanto deseja para exterminar a humanidade.

Os Sete Selos é um livro sobre anjos e demônios, a luta do bem e do mal em seus mais variados pontos de vista. Nem sempre os Anjos são Anjos como deveriam ser.

Para quem quer ler este livro, prepare-se pois você vai encontrar aventura do começo ao fim do livro.

O livro superou as minhas expectativas, pois a história acabou sendo totalmente diferente do que eu achava que fosse ser.

super recomendo e espero que o livro tenha continuação, pois Luiza autora do livro deixa abertura para novas histórias e aventuras, talvez com a Lara, mais de outros personagens.

Espero que tenham gostado da resenha, tentei falar um pouco do livro sem contar muito a história. Eu Adorei Os Sete Selos. Adorei os personagens e consegui montar na minha cabeça todas as passagens do livro. Sempre gostei de mitologia Grega e Religião, então pra mim Os Setes Selos foi um “prato cheio”.
>> MEU LIVRO ROSA PINK – por A Leitora


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