FICÇÃO CIENTÍFICA E ANTROPOFAGIA

domingo | 1 | janeiro | 2012
Revista "Amazing Stories" (setembro 1960) - ilustração de Albert Nuetzell

Revista "Amazing Stories" (setembro 1960) - ilustração de Albert Nuetzell

Existe uma discussão permanente, nos círculos brasileiros de ficção científica, sobre a necessidade (ou a mera possibilidade) de um FC que funcione, entre nós, como o movimento modernista de 1922 funcionou em relação à poesia, a pintura, etc.
A discussão vem sendo travada nestes termos pelo menos desde 1988, quando Ivan Carlos Regina publicou o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”. A esta altura, todo mundo entende qual era mais ou menos a proposta dos “antropófagos” de 1922, tal como a colocou Oswald de Andrade: devorar a cultura européia como os índios caetés devoraram o Bispo Sardinha. Usá-la não como modelo, mas como combustível, para pôr em movimento uma cultura repleta de elementos nossos.
O manifesto de ICR critica os autores brasileiros que preferem imitar o modelo norte-americano de FC, repetir os mesmos temas, os mesmos clichês, a mesma linguagem – porque, vamos e venhamos, é muito mais fácil fazer “fanfic” do que literatura. (A “fanfic”, a ficção produzida por fãs, é quando os leitores de Harry Potter, Star Trek, etc. escrevem suas próprias histórias utilizando esses personagens e contextos. Não tem propósito criativo estrutural; apenas o prazer de produzir variantes das obras originais.)

Diz o manifesto: “(…) Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. / A ficção científica brasileira não existe. / A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem a capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos países tecnologicamente desenvolvidos. / A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos. (…)”.

Este é o lado crítico do manifesto, e acho que permanece tão atual quanto em 1988. Deglutir, devorar, antropofagizar, implica sempre em destruir, “quebrar” aquele material em seus elementos constitutivos, usá-lo como eventual banco de dados para produzir uma literatura que não venha do impulso de imitar, mas de dizer verdades pessoais. Literatura é a verdade pessoal de cada um, e para essa verdade emergir precisa desligar esse piloto-automático que gera a fanfic e a imitação.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares


O MITO DO ALIENÍGENA MAL INTENCIONADO

domingo | 1 | janeiro | 2012

Por que Stephen Hawking está errado sobre o perigo da inteligência de extraterrestres?

Com o Arranjo de Telescópios Allen mantido pelo Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês), no norte da Califórnia, chegará a hora em que encontraremos uma inteligência artificial (Eti). O contato provavelmente chegará mais cedo que se espera por causa da lei de Moore ─ proposta pelo cofundador da Intel, Gordon E. Moore, que propõe a duplicação da capacidade dos computadores a cada um ou dois anos. Acontece que essa curva de crescimento exponencial se aplica à maioria das tecnologias, incluindo a busca por Etis: de acordo como o astrônomo e fundador do Seti, Frank Drake, nossas pesquisas hoje são 100 trilhões de vezes mais poderosas que há 50 anos, sem previsão para o fim dessas melhorias. Se houver um ET lá fora, faremos contato. O que acontecerá quando o fizermos? Como será a resposta deles?

Questões como essas, mesmo no âmbito da ficção científica, estão sendo seriamente consideradas pelo mais antigo e um dos mais prestigiados periódicos científicos do mundo ─ Philosophical Transactions of the Royal Society A ─ que dedica 17 artigos da edição de fevereiro à “Detecção de Vida Extraterrestre e suas Consequências para a Ciência e Sociedade”. Por exemplo, várias respostas apregoam o mito de que a sociedade colapsará pelo medo ou se despedaçará pelo balburdia provocada ─ ou que os cientistas e políticos se unirão numa conspiração para ocultar a verdade. Dois desses exemplos foram testemunhados: um em dezembro de 2010, quando a Nasa anunciou, numa palestra aberta à imprensa, uma possível nova forma de vida baseada no arsênico, e outro em 1966, quando cientistas publicaram que uma rocha marciana continha evidências fósseis de vida primitiva no Planeta Vermelho e o presidente Bill Clinton se pronunciou a respeito. Agências espaciais que disputam acirradamente os recursos disponíveis como a Nasa e organizações privadas que dependem do levantamento de fundos como o Instituto Seti divulgarão em alto e bom som qualquer sinal extraterrestre que encontrarem, de micro-organismos a marcianos. Mas podemos voltar aos alienígenas?

De acordo com Stephen Hawking, devemos nos calar. “Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente pode se desenvolver e resultar em alguma coisa que não gostaríamos de encontrar”, ele explicou na série de documentários do Discovery Chanel em 2010. “Eu os imaginava viajando em naves robustas, depois de terem esgotado todos os recursos naturais de seus planetas de origem. Alienígenas tão avançados talvez pudessem ter se tornado nômades, tentando conquistar e colonizar qualquer planeta que encontrassem”. Considerando a história de confrontos entre civilizações terrestres nas quais os mais avançados escravizavam ou destruíam os menos desenvolvidos, Hawking conclui: “Se alienígenas nos visitarem um dia, eu acredito que o resultado seria muito parecido com o que aconteceu quando Cristovão Colombo pisou em terras da América, o que não foi muito agradável para os nativos americanos”.

Sou cético. Embora só possamos fazer uma tentativa em n elementos e apesar de nossa espécie ter um registro não invejável dos primeiros contatos entre civilizações, a tendência dos dados para a metade do milênio passado é encorajadora: o colonialismo está morto, a escravidão está morrendo, a porcentagem de pessoas que perece em guerras diminuiu, o crime e a violência estão em queda, liberdades civis são sendo preservadas e como testemunhamos no Egito e em outros países árabes, o desejo de ter democracias representativas está se espalhando, juntamente com a educação, ciência e tecnologia. Essas tendências tornaram nossa civilização mais inclusiva e menos exploradora. Se extrapolarmos essa tendência dos últimos 500 anos para os próximos cinco mil ou 500 mil anos, teremos uma noção de qual seria a aparência de um Eti.

Na verdade, qualquer civilização capaz de empreender longas viagens espaciais terá avançado muito além do colonialismo explorador e de fontes de energia não sustentáveis. Escravizar nativos e apoderar-se de seus recursos pode ser lucrativo a curto prazo para as civilizações terrestres, mas essa estratégia poderá não persistir nas dezenas de milhares de anos necessários para as viagens espaciais interestelares.

Nesse contexto podemos entender que as civilizações extraterrestres nos pressionam a considerar a natureza e o progresso da civilização terrestre e nos dão a esperança de que quando fizermos contato, pelo menos uma inteligência terá conseguido atingir um nível no qual a incorporação de novas tecnologias substituiu o controle das pessoas e a exploração do espaço superou a conquista de terras. Ad astra!

>> SCIENTIFIC AMERICAN – por Michael Shermer


“FÁBULAS DO TEMPO E DA ETERNIDADE”, DE CRISTINA LASAITIS

domingo | 1 | janeiro | 2012

Lançado em 2008 e já em sua segunda edição, “Fábulas do Tempo e da Eternidade” (Tarja Editorial, 206 páginas), livro de estreia da paulistana Cristina Lasaitis, é uma coletânea de contos que transitam majoritariamente entre ficção científica e fantasia, tendo como tema principal a passagem do Tempo. Com abordagens sempre particulares e estabelecendo entre si algumas interessantes conexões, os doze textos que compõem o livro destacam-se pela qualidade da escrita e pelas tramas multifacetadas, abraçando o fantástico sem nunca se descuidar do aspecto humano, com todos os sentimentos e contradições que o envolvem.
O primeiro conto, “Além do Invisível”, apresenta-nos um cenário futurístico em que a realidade virtual tornou-se a realidade, onde acompanhamos o romance de Marcos e Maya. A autora é competente em contrastar a magnitude dos cenários irreais com a decadência do mundo onde os usuários se conectam, e retrata o amor entre os dois de maneira bastante sensível, apesar das circunstâncias surreais em que a relação se situa (ou quem sabe exatamente por causa delas). A conclusão do conto é singela e enigmática, tornando-o uma boa amostra do que se seguiria nos próximos textos.

Em “As Asas do Inca”, conhecemos um poderoso imperador do império pré-colombiano obcecado pelo desejo de observar o futuro. Para isso, recorre à magia. O conto tem um tom claramente fabuloso – que a pequena introdução já antecipa – e, apesar do desfecho algo previsível, naturalmente balizado por uma lição de moral (não seria uma fábula caso não houvesse uma), consegue convencer, remetendo à natural curiosidade humana e colocando-a lado a lado com o desejo pelo poder, uma combinação que fatalmente trás consequências.

“Nascido das Profundezas” narra um encontro entre culturas num Atacama pós-apocalíptico. De um lado, os neo-atlantes, desenvolvidos em saberes e tecnologia, de outro, grupos nativos que literalmente pararam no tempo após um período de guerras e peste. A reação é de estranhamento por parte dos primeiros, e festa por parte dos segundos. A autora explora bem o cenário criado, e os desdobramentos do pano de fundo – a história por trás da história, que aqui surge adequadamente em volta de uma fogueira, contada por um velho, envolta num tom lendário – soam verossímeis dentro daquelas circunstâncias obviamente fantásticas. Um ótimo texto.

Em seguida vem “Revés Alquímico”, provavelmente o conto que menos me agradou. Nele, uma farmacêutica começa a trabalhar com um excêntrico professor amante da alquimia, e os dois metem-se com o segredo do famoso Elixir da Longa Vida. O principal problema do texto são os personagens, um tanto desinteressantes, e o tom cômico de muitas das situações, que a meu ver atrapalha por impedir um envolvimento maior com a trama. Por outro lado, os efeitos do elixir são um pouco diferentes do que seria de se supor, e a autora merece pontos pela boa sacada. Ainda assim, penso que um desenvolvimento um pouco mais sério contribuiria para um todo mais satisfatório.

A ficção científica volta em “Assassinando o Tempo”. Uma cientista brasileira está às vésperas de colocar em prática uma experiência que pode vir a provar uma teoria sem precedentes na história da Ciência: a não existência do Tempo. Dispensando a atenção necessária ao aspecto científico da trama sem soar maçante ou prolixa, a autora também acerta ao investir algum tempo no desenvolvimento da protagonista, Cláudia Mansilha. Bem trabalhado ainda na construção do suspense em torno do experimento e na especulação de possíveis desdobramentos do mesmo (nesse sentido, a oposição de grupos religiosos soa mais do que verossímil), o conto destaca-se como um dos melhores do livro.

Segue-se “A Outra Metade”, e o nível continua alto. Uma sibila* caminha pelas ruas de uma metrópole, sozinha, fadada a nunca encontrar sua alma gêmea, de quem fora separada na Criação. Porém, oferecendo um sacrifício à Solidão, a mulher tem a chance de olhar para o futuro e capturar um breve vislumbre daquela que lhe completaria de acordo com a ordem do universo – seu amor, sua outra metade. Lasaitis trata o tema com uma singeleza desconcertante num conto que merece destaque pela beleza das palavras. A solidão da sibila surge de maneira aterradora, amparada pela prosa ágil e quase lírica da autora, permeando cada linha e culminando num clímax poderoso – o encontro -, uma intensa explosão de sentimentos habilmente narrada e bem urdida. De longe, meu texto favorito.

Em “Viagem Além do Absoluto”, os dois últimos seres viventes vagam por um universo em ruínas, com a entropia alcançando seu limite. Em certo sentido, dada a temática do livro, esse conto representa seu ápice, o momento em que o Tempo e tudo mais deixarão de existir. A perspectiva do Fim por si só já desperta interesse e fascinação, e a autora é competente ao explorá-la, coroando o texto com passagens que revelam sentimentos de maneira sutil e humana.

“De Onde Viemos, Para Onde Vamos” tem como grande barato a inusitada identidade de seu narrador, uma escolha criativa e divertida que dá algo mais ao breve conto – trata-se do menor do livro. Destaque também para o ótimo final.

“Irmãos Siameses” vem em seguida. O título é autoexplicativo: os protagonistas são dois irmãos que nascem ligados pelo pescoço. O cenário é o mesmo deserto visto em “Nascido das Profundezas” (os dois contos dialogam abertamente, em dado momento). A trama foca basicamente no crescimento dos irmãos, e, em certo momento, numa dura escolha que terão de fazer. O conto naufragaria caso os personagens principais não fossem bem construídos, e, felizmente, isso não ocorre. O leitor se envolve com a narrativa na mesma medida em que se importa com os irmãos, em outra boa demonstração do bom gosto da autora na criação de personagens.

“Caçadores de Anjos” abraça novamente a fantasia, narrando a jornada de uma caçadora especializada em transformar anjos caídos em humanos. Funciona bem, com um clímax bastante intenso, mas, por outro lado, pareceu-me um tanto deslocado em meio aos outros contos do livro quanto a sua relação com a temática central. De todo modo, um bom texto.

“Os Parênteses da Eternidade” consiste numa troca de correspondências entre duas pessoas distantes alguns séculos uma da outra, através do Correio do Não-Tempo. Este conta apresenta alguns interessantes desdobramentos dos acontecimentos vistos em “Assassinando o Tempo”, além explorar alguns dos paradoxos e riscos da comunicação entre épocas diferentes. Bom como a maioria.

Fechando as Fábulas, apropriadamente, “Meia-noite”. Passado no mesmo universo de “Além do Invisível”, que abre os trabalhos, e compartilhando com este primeiro alguns personagens, a história de Syl, funcionária de uma poderosa corporação atacada por uma Inteligência Artificial dá um ótimo fechamento ao livro, remetendo diretamente ao cyberpunk das tecnologias integradas de maneira quase orgânica à vida cotidiana e dos grandes conglomerados mandando no mundo. Com um término vibrante – o último parágrafo fica na cabeça depois que se fecha o livro – o conto estabelece-se facilmente como um dos melhores da seleção e mostra definitiva do talento da autora.

“Fábulas do Tempo e da Eternidade” é uma forte recomendação. Boas leituras.
>> DEPÓSITO DE DESATINOS – por Josué de Oliveira


A FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA: O FUTURO DO PRESENTE NO PRETÉRITO

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil estava confiada a uma mulher. O país estava mais forte, mais belo e rico. Para aqui convergiam povos de todos os recantos da Terra. A Amazônia está urbanizada, o analfabetismo foi abolido e, na roça, os trabalhadores cantam trechos da última ópera a que assistiram ou recitam, de cor, os poemas mais lindos.” Aviso: isso não é um texto institucional desvairado do governo atual. A autora, Adalzira Bittencourt (1904-1976), descreveu essa “previsão” em 1929 em Sua Excia. a presidente da República. Mas esse “paraíso” de ficção científica tem um porém: tudo isso foi conseguido graças à ascensão na política das mulheres, que implementam um rígido programa de eugenia e higiene social. Por uma ironia do destino, a presidente, dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se pelo pintor Jorge, que só conhece por cartas amorosas. Cansada de esperar o amante, a primeira mandatária ordena que seja trazido, algemado, em sua presença. “Era lindo de rosto, mas tinha não mais do que 90 cm de altura e tinha nas costas uma corcunda enorme.” A presidente eugenista ordena, implacável, a eutanásia profilática no amado. “Era mulher”, encerra-se, em tom vitorioso, a novela.

O tom “ideológico” da novela percorreu, e ainda se mantém, a produção de ficção científica brasileira, infelizmente pouco estudada e vista, em geral, como “produto de segunda ordem” e indigno do cânone literário. “Desde o século XIX o gênero provou ser um veículo ideal para registrar tensões na definição da identidade nacional e do processo de modernização. Essas tensões são exacerbadas na América Latina e, por isso, a produção da ficção em países como Brasil, Argentina e México, grandes representantes desse gênero no continente, é muito mais politizada do que a escrita nos países do Norte. No Brasil, o gênero ajudou a refletir uma agenda política mais concreta e os escritores, ontem e hoje, estão mais intimamente envolvidos com os rumos futuros de seu país e usaram o gênero nascente não apenas para circular suas idéias na arena pública, mas também para mostrar aos seus compatriotas suas opiniões sobre a realidade presente e suas visões sobre um tempo futuro, melhor e mais moderno”, explica a historiadora Rachel Haywood Ferreira, da Universidade  do Estado de Iowa, autora de The emergence of Latin American science fiction, que acaba de ser lançado nos EUA pela Wesleyan University Press. “A ficção científica brasileira permite traçar a crise de identidade que acompanhou a modernização, juntamente com o senso de perda que a persegue, e que é parte da entrada do Brasil na condição pós-moderna. A ficção nacional em parte exemplifica a erosão da narrativa latino-americana de identidade nacional, porque ela se torna cada vez mais influenciada pela troca cultural inerente à globalização iniciada nos anos 1990”, concorda a professora de literatura Mary Ginway, da Universidade da Flórida, autora de Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir Livraria). Apesar disso, o gênero continua considerado como “menor”. “É uma pena, porque o deslocamento da tradição da ficção para o contexto de um país em desenvolvimento nos permite revelar certas assunções sobre como se dá esse desenvolvimento e determinar a função desse gênero nesse tipo de sociedade. A ficção científica fornece um barômetro para medir atitudes diante da tecnologia, ao mesmo tempo que reflete as implicações sociais da modernização da sociedade brasileira”, avalia Mary. “Há mesmo uma variação gradual de um clima de otimismo para outro, de pessimismo: a ciência parece não mais ser a garantia da verdade, como se pensava, e o impacto da tecnologia pode nem sempre ser positivo, o que dificulta que se alcance o potencial nacional. Tudo isso se pode ver na ficção científica latino-americana: a definição da identidade nacional; as tensões entre ciência e religião e entre campo e cidade; a pseudociência”, nota Rachel.

Para a pesquisadora, a literatura especulativa é importante em paí-ses como o Brasil, onde “ciência e tecnologia têm um papel-chave na vida intelectual, já que a tecnologia é vista como a solução possível para que o país possa superar o atraso histórico do desenvolvimento econômico com a esperança de se criar uma sociedade melhor e mais utópica”. Infelizmente, foi justamente essa ligação com o nacional que representou a glória e o desprezo da ficção científica no Brasil, apesar de termos acompanhado com certa rapidez a expansão do gênero na Europa. A primeira ficção científica nacional data de 1868 (foi publicada no jornal O Jequitinhonha até 1872), Páginas da história do Brasil, escrita no ano 2000, de Joaquim Felício dos Santos, uma obra satírica sobre a monarquia que leva dom Pedro II numa viagem pelo tempo até o futuro, onde descobre como seu regime de governo era pernicioso ao país. “Obras como essas que adentram o século XX, até os anos 1920, mostram que havia interesse dos brasileiros em desenvolver narrativas utópicas, fantasias moralizadoras e até o romance científico, um corpo de ficção especulativa que poderia ter sustentado uma produção maior nas décadas seguintes. Infelizmente, como viria a acontecer nos anos 1970, os exercícios nacionais não resistiram à pressão estrangeira, à pressão da crítica, que não criou um nicho para o gênero no Brasil, e ao relativo desinteresse do público leitor”, analisa Roberto de Sousa Causo, autor de Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (Editora da UFMG). “A separação rígida entre a literatura sancionada e a não sancionada redundou na quase total ausência de umapulp era no contexto brasileiro. A ficção especulativa perdeu esse espaço de inventividade desregrada, de abertura de novas possibilidades, de constituição de uma tradição mais empreendedora”, avalia.

Como observa Antonio Candido, em sua Formação da literatura brasileira, há uma posição fechada no país de considerar a literatura como prática constitutiva de nacionalidade, um pragmatismo que implica até hoje a diminuição da imaginação, pelo interesse de se usar politicamente as letras como forma de representar a experiência social e humana. Nesse movimento, avalia Causo, os usos da literatura como instrumento de formação da nacionalidade teriam preferido a documentação realista e naturalista orientada pelo progresso e pelo determinismo. “A versão brasileira sofre duplamente por causa de suas associações com ‘arte baixa’, fruto de uma tradição autoritária nacional que abomina a cultura de massas e a arte popular, e por ser um gênero imaginativo num país que dá alto valor ao realismo literário”, concorda a brasilianista Mary Gingway. Num conto de Jorge Calife, um dos mais conhecidos autores contemporâneos de ficção científica, Brasil, país do futuro, um jovem, em 1969, durante a ditadura, tem como dever de casa escrever um ensaio sobre o Brasil do ano 2000. Ele, de fato, consegue viajar no tempo e ver o Rio do futuro, uma dolorosa decepção ao descobrir que nada mudara e a vida dos brasileiros continuava miserável. De volta ao quarto, escreve o texto descrevendo uma cidade imaginária sob um domo, com medo de ser reprovado pelo professor se falasse a verdade. “Essa história é um lembrete de que, a despeito da modernização global, o Brasil pode enfrentar uma longa espera antes de receber os benefícios da tecnologia”, afirma a pesquisadora americana.

Os inícios da ficção científica foi o chamado romance científico, desenvolvido entre 1875 e 1939, que tomava como modelos europeus os livros de Jules Verne e Wells. “Embora as contribuições científicas latino-americanas desse período fossem pequenas em comparação com o resto do mundo, os cientistas desses países estavam em sintonia com o que fazia na Europa e a adoção da eugenia é um sinal da aprovação generalizada da ciência como prova de modernidade cultural. Os textos criados nesse espírito não se revelam como imitações de modelos literários imperialistas que mostravam sociedades imaginárias baseadas em tecnologias inviáveis, mas em obras que descreviam o presente com a autoridade do discurso científico e almejavam o futuro brilhante que viria com certeza. São textos utópicos que acontecem em lugares remotos ou tempos distantes, descrevendo sociedades inexistentes em detalhes”, analisa Rachel. A eugenia dessas obras, porém, vem embalada numa versão mais soft, um ramo alternativo das noções hereditárias de Lamarck, em que havia espaço para a reforma das deformações humanas, algo que entusiasmava os brasileiros, já que ofereciam soluções científicas viáveis para os “problemas” nacionais. “Era um neolamarckismo tingido com cores otimistas em que reformas do meio social poderiam resultar em melhoras permanentes e que o progresso, mesmo nos trópicos, era possível. Mais tarde, o darwinismo social se juntaria ao caldo que produziria a ficção”, conta a pesquisadora. Um bom exemplo é o romance pioneiro no gênero, Dr. Benignus (1875), de Augusto Zaluar, uma expedição científica ao interior do Brasil, com direito a seres vindos do Sol, muita conversa e pouca aventura. Para Benignus, a ciência serviria para dar valor ao cidadão importante ou resgataria a nação “bárbara” e abandonada.

Outro tema característico aparece em O presidente negro ou O choque das raças (1926), de Monteiro Lobato, que mostra como a divisão do eleitorado branco em 2228 permite a eleição nos EUA de um presidente negro, o que faz os brancos se unirem novamente para colocar os negros “sob controle”. Para o escritor, a mestiçagem era justamente o fator responsável pelo atraso econômico e cultural. A solução era seduzir os negros com um alisador de cabelos, os “raios Ômega”, que provocavam a esterilização do usuário. De forma menos agressiva, o tom eugenista transparece nas obras do jornalista Berilo Neves, autor da coletânea A costela de Adão (1930) e O século XXI (1934), histórias satíricas passadas no futuro cujo alvo preferencial eram o feminismo e as frivolidades femininas. Em geral suas narrativas misóginas envolvem a criação de máquinas de reprodução humana que fazem as mulheres obsoletas ou um mundo futuro em que os gêneros aparecem trocados. Em A liga dos planetas (1923), de Albino José Coutinho, o primeiro romance nacional a mostrar uma viagem espacial, o narrador constrói seu “aeroplano” e finca a bandeira brasileira na Lua. Mas não foge do pensamento corrente: a missão espacial tinha como justificativa um pedido presidencial para que o herói encontrasse, em outros mundos, gente de qualidade, porque aqui isso não acontecia.

Mas houve exceções honrosas ao darwinismo social, como A Amazônia misteriosa (1925), de Gustavo Cruls, inspirado em A ilha do Dr. Moureau, de Wells, com uma solução nacional: o protagonista perdido pela Amazônia se encontra com um cientista alemão, o professor Hartmann, que faz experiências em crianças do sexo masculino desprezadas pelas amazonas. Como se isso não bastasse, o médico, após tomar uma droga alucinógena, topa com Atahualpa, que descreve a ele os abusos feitos pelos europeus. O protagonista vê que esses foram mantidos pelo cientista tedesco e rejeita as explorações colonialistas e o abuso da ciência. Em A república 3.000 ou A filha do inca (1930), o modernista Menotti Del Picchia descreve uma expedição que se depara com uma civilização de grande tecnologia em pleno Brasil Central, isolada sob uma cúpula invisível. Os protagonistas rejeitam os postulados positivistas, fogem com a princesa inca e tudo se encerra com uma elegia à vida simples. Jerônymo Monteiro, o futuro autor do personagem Dick Peter, usa seu romanceTrês meses no século 81 (1947) para mostrar o seu protagonista Campos confrontando o próprio Wells sobre a viagem do tempo, usando o recurso da “transmigração da alma”, provocada por médiuns. “O herói de Monteiro não apenas viaja no tempo, mas lidera uma rebelião de humanistas contra a elite massificadora da Terra futura, aliando-se aos marcianos com quem o nosso planeta está em guerra”, diz Causo. “Por um lado, a nossa ficção científica vai se imbuindo da realidade trágica do subdesenvolvimento e ilumina a compreensão do leitor sobre a conjuntura particular em que vive, o que nos diferenciava da ficção científica do Primeiro Mundo. Ao mesmo tempo, reconhecer isso nos fez rejeitar conceitos importados, como o darwinismo social. Não havia mais razão na convivência entre esse discurso e uma conjuntura de neocolonialismo, como se vê na ficção científica brasileira do final do século XIX e início do XX, salvo dentro de uma postura elitista interna ao país”, analisa o pesquisador.

Enquanto isso, florescia nos EUA, em revistas populares, as pulp magazines, uma ficção científica tecnófila, pouco preocupada com o estilo ou com a caracterização de personagens, mais interessada no engajamento do leitor na ação, na aventura e na extravagância das ideias, as pulp fictions. Apesar dos esforços pulps de Berilo Neves e em particular de Jerônymo Monteiro (considerado o “pai da ficção científica brasileira”), essa forma popular não vingou no país. “O Brasil perdeu ao não ter acesso a esse material ou por não ter criado a sua versão de uma era de revistas populares, em que a inventividade estava presente e o público reagia, criando um forte vínculo entre produtores e consumidores de ficção científica”, lembra Causo. Ao lado dessa golden age anglo–americana, a ficção nacional, também em função dos efeitos do pós-guerra, passa a apresentar uma desconfiança básica da ciência e da tecnologia nas mãos dos humanos por conta do poder da razão em face dos excessos da emoção. “Em razão da aguda divisão de classes da sociedade brasileira, com forte concentração de renda nas mãos da elite, a tecnologia é vista como um elemento divisor, e não unificador. Para os brasileiros, a tecnologia é mais um problema político e econômico, e não uma forma de resolvê-lo”, analisa Mary Ginway. Apesar disso, os anos 1960 presenciam uma explosão do gênero graças aos esforços do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, criador das Edições GRD, que passam a batizar e abrigar uma nova geração de escritores, incluindo-se criadores do mainstream convidados a criar ficção como Dinah Silveira de Queiroz, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha, entre outros.

Entre EUA e Brasil passam a acontecer descompassos ficcionais. “Se a ficção científica americana abraça a tecnologia e a mudança, mas teme rebeliões ou invasões por robôs e alienígenas, a ficção brasileira tende a rejeitar a tecnologia, mas abraça os robôs e acha os alienígenas como sendo indiferentes ou exóticos, mas pouco ameaçadores, quando não portadores de uma mensagem de paz ao mundo”, afirma Mary. Tampouco as visões americanas de megalópoles plenas de mecanismos futuristas agradavam aos brasileiros. “A sociedade brasileira, por seu passado rural e patriarcal, valoriza o personalismo nas relações, colocando valo no contato humano. Assim, essa rejeição pode ser lida como a negação de uma nova ordem baseada na uniformização e na obediência cega a uma cultura organizacional”, continua a pesquisadora. A ficção científica nacional começa a colocar o seu sabor sobre os arroubos do futuro. “A tecnologia só pode ser solução, nessas obras, quando é reduzida e humanizada. Os alienígenas, comparados aos estrangeiros, são descritos como indiferentes aos humanos e seus destinos, tomando recursos e abandonando os humanos à sua sorte. A Amazônia, por exemplo, passa a ser alvo desses invasores, que pousam ali. Já os robôs são vistos com grande simpatia, talvez em função do passado escravista em que havia uma promiscuidade entre servos e senhores. Assim, os ícones da ficção são transformados pelas relações sociais brasileiras tradicionais e suas possibilidades como agentes de mudança social, enquanto possibilidades utópicas são geralmente negadas.” Os autores nacionais se apropriam de um gênero do Primeiro Mundo que lida com ciência e tecnologia e, ao transformarem seus paradigmas, tornam-no antitecnológico e nacional, segundo a pesquisadora, um gesto compreensível de resistência ante o temor da modernização que ameaçava destruir a cultura e as tradições humanistas do Brasil, como se verá com o golpe de 1964.

Esse período da ditadura marca o início da ficção científica distópica, ou seja, usar elementos familiares e fazê-los estranhos para discutir ideias e fazer denúncias. “Ao usar um mundo futurista imaginário, as distopias se concentram em temas políticos e satirizam tendências presentes na sociedade. Daí as distopias nacionais serem todas representações alegóricas de um Brasil sob regime militar, com alusões à censura, tortura, controle etc. Os enredos são sempre sobre rebeliões contra uma tecnocracia perversa e arbitrária”, nota Mary. É um abrasileiramento da tendência da new age da ficção científica internacional, sob os auspícios de Ray Bradbury, em que a tecnologia aparece como vilã ao roubar dos brasileiros a sua identidade (uma questão recorrente desde o século XIX), em especial quando em mãos de um governo autoritário. “No lado oposto está o mito da identidade, visto como natural e imutável, assumindo a forma da natureza, da mulher, da sexualidade, da terra”, nota Causo.  Com o fim da ditadura, a ficção científica volta ao seu padrão em formas mais sofisticadas como o cyberpunk, a ficção hard e as histórias alternativas, muitas escritas por mulheres.

Em 1988, Ivan Carlos Regina lança o manifesto antropofágico da ficção científica brasileira, que como o manifesto de Oswald de Andrade, propõe uma “canabalização” do gênero pelos escritores brasileiros. “Precisamos deglutir, após o bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz e o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.” “Ao combinar formas altas e baixas de literatura, ao unir mito, mídia, tecnologia moderna e ao abordar questões como raça e gênero sexual, a ficção nacional da pós-ditadura desconstrói a noção de Brasil como uma nação tropical exótica, cheia de gente feliz, oferecendo um mosaico pós-moderno dos conflitos brasileiros para lutar com a sua própria história e com a crescente globalização”, nota Mary. Nesse momento há mesmo quem advogue o gênero como terreno fértil para os escritores do mainstream. “Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Faz pelo menos 20 anos que a sua rotina não muda”, avisa o escritor Nelson de Oliveira, autor deOs transgressores, em seu “Convite ao mainstream”. “Nossa sorte é que na literatura brasileira existem outras correntes além da principal. A mais vigorosa, brutal e vulgar é a ficção científica. Ela é como os bárbaros que puseram abaixo Roma. Os bárbaros são a solução para uma civilização  decadente. Os temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos e romances mais consistentes e menos artificiais.”
>> REVISTA FAPESP – por Carlos Haag


3%: PROGRAMA PILOTO DA SÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE

segunda-feira | 13 | junho | 2011

Está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/serie3porcento), dividido em 3 partes, o programa piloto da série de ficção científica 3%, produção da Maria Bonita Filmes dirigida por Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com apoio do programa FICTV/Mais Cultura, do governo federal, a divulgação do piloto visa atrair patrocínio para continuidade da série a ser exibida na TV.

3% foi vencedor da Etapa I do edital de seleção de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TVs Públicas – FicTV / Mais Cultura (MinC), e vencedor da Mostra Competitiva de Pilotos Brasileiros na categoria Séries de Ficção, Festival Internacional de Televisão 2010.

Segundo Jotagá Crema, um dos diretores de 3%, a primeira temporada inteira da série já foi escrita: “estamos espalhando o piloto pela internet na esperança de conseguir um canal de TV interessado em exibir.” Informações detalhadas sobre a série podem ser procuradas no Facebook emhttp://www.facebook.com/3porcento.

A fábula de 3% se passa num futuro próximo cinzento, no qual as pessoas vivem divididas entre duas sociedades muito diferentes. Pressupõe-se que uma sociedade (o “Outrol Lado”), a dos “entrevistadores”, seja sensivelmente desenvolvida, enquanto a outra, dos “entrevistados”, seja extremamente atrasada. Impossível não lembrar da fronteira do México com os EUA ou das antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. O “Outro Lado” é a “terra dos sonhos” para os jovens que vivem em condições supostamente subumanas, porém apenas3% dos candidatos à imigração conseguem aprovação após uma série de testes rigorosos, ora bizarros ou simplesmente estúpidos. 97% fracassam, o que pode significar a própria morte no percurso de provações.

O piloto avança inicialmente sob o ponto de vista de uma jovem candidata. É dela a voz over que comenta e instrui o espectador acerca das peculiaridades de seu mundo. Ao fim do episódio-piloto, porém, essa “protagonista preliminar” está morta. Sua narrativa vai introduzir o que se supõe que sejam os protagonistas “verdadeiros”, um rapaz que fraudou seus documentos para conseguir ser aceito no processo de seleção, uma moça e um rapaz paraplégico. O futuro desses personagens vai depender do sucesso na captação de recursos para a continuidade da série.

3% é uma distopia futurista com ecos de 1984 (1948), de George Orwell, e Nós(1932), de Evgueny Zamiatin, além de um toque dos puzzle films ou séries de TV norte-americanas como Lost. A pouca originalidade do eixo temático é compensada pela promessa de um tratamento tipicamente brasileiro e contemporâneo. O piloto demonstra também a acuidade com que a série parece pretender não só tratar de uma longa tradição no universo da ficção científica (a do embate entre o indivíduo e sociedades tecnocráticas totalitárias), mas também urdir uma curiosa alegoria sobre o fantasma da burocracia que assola a sociedade brasileira desde o descobrimento.

Os cenários são essencialmente cinzentos, quase “monocromáticos”. Os figurinos dos candidatos a imigração lembram o dos trabalhadores do filme Metropolis(1927), de Fritz Lang, por sua vez inspirados nos coros expressionistas. Indivíduos massificados, mecanizados e sem identidade. “Números” vestidos em uniformes minimalistas padronizados. 3% aposta no minimalismo dos cenários, figurinos e diálogos, na intimidade das cenas, proximidade dos personagens. Minimalista também são os diálogos e o roteiro. O piloto acena com a possibilidade de uma série de ficção científica genuinamente brasileira e viável, livre da necessidade de efeitos especiais sofisticados que caracterizam os blockbustersamericanos. Nesse sentido, 3% parece corroborar a minha tese de que uma “terceira via” da ficção científica brasileira ainda seja possível, uma alternativa à “primeira” (a do cinema de grande orçamento, pleno de recursos tecnológicos) e à “segunda” via (a dos filmes B ou, por extensão, trash movies). Centrado num roteiro de suspense, 3% investe na mise-en-scène mais intimista dos espaços fechados e da ação baseada em diálogos.

Rodado com câmeras Red One com capacidade de resolução de 4K (aproximadamente 8 milhões de pixels), 3% é parcimonioso nos planos gerais com grande profundidade de campo, privilegiando closes ou planos mais próximos. Uma opção plenamente compreensível numa produção de recursos modestos que pretende lidar com temática fantástica.
>> CRONOPIOS – por Alfredo Suppia


“NEUROMANCER”: CLÁSSICO DA FICÇÃO CIENTÍFICA QUE INSPIROU “THE MATRIX” FINALMENTE VIRA FILME

sexta-feira | 3 | junho | 2011

“Neuromancer” começa a ser gravado em 2012

‘Neuromancer’, de William Gibson, um dos livros de ficção científica mais famosos dos anos 80, vai finalmente virar filme. As especulações sobre a obra ir parar nas telonas existem desde 2007, mas só agora as produtoras Seven Arts Pictures e GFM Films anunciaram oficialmente que vai rolar.

O projeto foi vendido nos primeiros três dias do festival de Cannes para distribuidoras da Ásia, Polônia e Oriente Médio. Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido ainda negociam a compra. Mesmo sem ter o orçamento fechado, os trabalhos de efeitos visuais já começaram e a filmagem deve acontecer em Istambul, Tóquio, Londres e Canadá, no início de 2012.

A clássica obra do cyberpunk já levou os três principais prêmios de ficção científica desde sua estreia em 1984 – Nebula, Hugo e Philip K. Dick. No Brasil, o livro só chegou em 1991, contando a história do ex-hacker Case que não podia exercer a profissão por causa de um erro cometido ao tentar roubar os patrões. Impossibilitado de se conectar à Matrix, sem dinheiro, drogado e desempregado, ele conhece Molly, que tenta ajudá-lo.

Inspirada no conceito da obra, a trilogia ‘The Matrix’, protagonizada por Keanu Reeves e Laurence Fishburne, teve lançamento em 1999 e rendeu mais de US$ 450 milhões aos seus produtores, contra apenas US$ 65 milhões gastos. Veja o trailer!
>> MTV-UOL – por Carol Tavares

O longa de ficção científica ‘Johnny Mnemonic’ (1995) foi produzido com base no livro de mesmo nome de William Gibson, publicado em 1981. Apesar de o elenco também trazer Keanu Reeves, o filme não chegou a ser um sucesso, mesmo tendo custado US$ 26 milhões. Confira o trailer.


“UM NOVO DESPERTAR”: MEL GIBSON SE ENTREGA EM FILME DE JODIE FOSTER

sexta-feira | 3 | junho | 2011

A idéia da marionete que manipula o próprio dono já apareceu em histórias de horror como, por exemplo, em “Magia Negra” (1978), com direção de Richard Attenborough e Anthony Hopkins no papel do boneco. É mais uma edição do tema da criatura que se volta contra o criador, como no clássico gótico “Frankenstein”, ou nas muitas narrativas de ficção científica em que as máquinas se revoltam contra os humanos.

Em variação dessa temática, neste “Um Novo Despertar”, o terceiro filme dirigido por Jodie Foster, o personagem de Mel Gibson sofre uma ruptura psíquica e abre espaço para um alter ego, ou seja, uma extensão de si mesmo que assume o comando da sua existência. Esse “duplo”, que de resto é ele mesmo, toma a forma de um desses bichos de pelúcia que podemos “vestir” como uma luva e, usar os dedos para movimentar a sua boca, enquanto falamos por ele. Um brinquedo que se transformou em personagem de TV em diversas séries infantis, depois de “Vila Sésamo”.

No filme, temos um castor de pelúcia, que Mel Gibson acha numa lata de lixo, momentos antes de tentar o suicídio.

O inusitado é que ele enfia o tal fantoche no braço e não o tira mais de lá, nem para tomar banho ou fazer amor com a esposa, aliás, interpretada com a costumeira competência pela própria Jodie Foster. E passa a se comunicar com as pessoas como se o bicho de pano estivesse falando no lugar dele. Mas claro, todos vêm que é o próprio Mel Gibson que fala, ainda que use uma voz estranha e um forte sotaque britânico para caracterizar o personagem do castor.

Apesar de maluco e bastante tolo, esse procedimento serve a princípio para afastar a depressão e permitir o reatamento da esposa de quem tinha se separado. Só que, ao passar do tempo, ela entra em colisão com essa farsa e tudo se complica.

O filme não segue o percurso costumeiro dos roteiros em que a dramaturgia se mistura com a psicanálise e toma o rumo de uma contundente alegoria da vida em família no mundo ocidental.

Desprovido de todas as bóias salva-vidas que o Actor’s Studio e demais métodos de preparação do ator poderiam oferecer, Mel Gibson se entrega plenamente ao papel, numa atuação em que prova ser um artista de muitos recursos, independente de todas as vacilações em sua carreira.

Não se sabe direito por que motivo o protagonista se acha deprimido, ainda que seja um industrial profissionalmente bem sucedido e bem casado. Mas isso não tem grande importância na trama, fundamentada no desacerto dele com o filho mais velho que o rejeita a ponto de estudar meticulosamente os seus hábitos, só para não repeti-los no cotidiano.

Embora uma melodia chapliniana pontue a trilha sonora, trata-se aqui de um drama sobre o milenar conflito de gerações, em que o filho odeia o pai, que por sua vez odeia o pai e assim por diante. Mas o comando firme e suave de Jodie Foster atenua excessivo peso dessa corrente e mantém o filme em seu prumo, apesar de alguns transbordamentos emocionais.
>> PIPOCA MODERNA – por Luciano Ramos


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