A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

QUEER_capa

A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael


HQ ENFRENTA FANTASMAS DE MÁQUINAS INTELIGENTES

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Graphic novel ‘V.I.S.H.N.U.’ (Quadrinhos na Cia.)
rediscute terceirização da consciência humana

VISHNU

Ficção científica em quadrinhos brasileira é uma parceria entre Ronaldo Bressane, Eric Acher e Fabio Cobiaco

No futuro, cientistas, guerrilheiros, governantes e religiosos tentam tomar as rédeas de uma misteriosa inteligência artificial em um mundo dominado pela tecnologia, em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais. Até que tudo, de repente, entra em colapso.

Essa distopia pós-moderna desencadeia uma mudança na ordem mundial, mas não sem antes provocar grandes tragédias pelo planeta.

Tempos depois, uma nova consciência eletrônica, denominada V.I.S.H.N.U, surge de forma espontânea.

Primeira experiência de fôlego dos quadrinhos nacionais no campo da ficção científica, “V.I.S.H.N.U.” conta com roteiro do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de “Céu de Lúcifer” (Azougue Editorial), e se baseia em um argumento de Eric Acher. A arte é de Fabio Cobiaco.

A aventura tecnológica, primeira de uma trilogia, dialoga com traços do quadrinista francês Jean “Moebius” Giraud (1938-2012) e com os conceitos estéticos do artista plástico suíço H. R. Giger, famoso por compor os monstros e cenários do primeiro filme da saga “Alien” (1979).

“O livro é um resultado das inquietações em relação ao livre-arbítrio do homem e ao que ele quer para o futuro. Toca em temas como a transferência de consciência e a imortalidade”, diz Bressane.

Segundo o escritor, a ideia era discutir os dilemas de ciência e tecnologia por uma perspectiva pop, imaginando da interação sexual entre homem e máquina a uma questão filosófica central: até que ponto um objeto high-tech pode ser dotado de alma?

Vishnu, na mitologia hindu, é o deus responsável pela manutenção do universo. O romance transforma a entidade em um impulso eletrônico messiânico, gerado dentro de um supercomputador, mas a sociedade corre novo risco de se deixar governar.

Ao compor o argumento, em 2007, Eric Acher revisitou a obra do filósofo indiano
Jiddu Krishnamurti (1895-1986) como inspiração para “V.I.S.H.N.U”, questionando o que enxerga como a “terceirização” da inteligência humana para os computadores.

“Hoje usamos dispositivos externos como smartphones para nos conectar. Em alguns anos, poderemos ter computadores com realidade aumentada e, quem sabe, virão os implantes neurais. Difícil prever o que acontecerá em seguida”, reflete Acher.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Douglas Gravas


A MÁQUINA DIFERENCIAL, DE WILLIAM GIBSON E BRUCE STERLING

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O termo steampunk em literatura é aplicado para histórias que se passam em uma realidade alternativa na qual o século XIX ainda tem como principal fonte de energia o vapor (daí o termo “steam”), mas encontra-se mais avançada tecnologicamente do que realmente foi em nossa história. Seja a Inglaterra vitoriana, seja o velho oeste norte-americano, a ideia é incluir no cotidiano das personagens elementos que não existiam na época e que hoje em dia nos são comum, tudo isso adequado ao que estava disponível naquele tempo em termos de matéria prima ou mesmo de tecnologia.

Foi em 1990 que dois autores famosos por trilharem o caminho docyberpunk (William Gibson e Bruce Sterling) escreveram a quatro mãos uma história que parte desse princípio, criando o agora clássico da ficção científica A Máquina Diferencial. Vencedor de prêmios, o livro embora não possa exatamente ser chamado como o primeiro steampunk da literatura, ainda assim tem papel fundamental na divulgação desse gênero, sendo que por isso frequentemente aparece como referência ao falar desse tipo de obra.

A Máquina Diferencial tem um enredo muito bem sacado, porque elabora a dita realidade alternativa a partir de fatos e personagens históricos, fazendo literalmente uma ficção especulativa (termo utilizado para falar de ficção científica). A ideia aqui é: e se Charles Babbage tivesse concluído seu modelo chamado Máquina Diferencial? Quais as consequências de termos na Inglaterra vitoriana algo bastante próximo do conceito de computador? De que forma isso mudaria os rumos da história como conhecemos? É a partir disso que Gibson e Sterling partem, criando uma aventura sensacional que lembra muito a ótima HQ de Alan Moore, A Liga Extraordinária.1

Só que ao invés de necessariamente termos figuras da literatura como nos quadrinhos de Moore, em A Máquina Diferencial temos personagens históricas diversas, que aparecem listadas no final do livro em um Guia de Personagens bem bacana que a Editora Aleph elaborou. Na realidade construída por Gibson e Sterling, Babbage vira figura política importante (“Lorde” Babbage), temos Charles Darwin, Sir Richard Francis Burton entre outras figuras conhecidas da história inglesa. E sim, temos escritores também. Lord Byron surge como Primeiro Ministro, e temos até figuras como Keats, Shelley e Disraeli. Mas o ponto forte da narrativa é que ninguém é colocado ali de forma forçada, as personagens parecem reais dentro daquele mundo.

O foco da narrativa muda algumas vezes, começando com Sybil Gerard, inspirada em personagem de Disraeli e aqui aparecendo como filha de um líder Ludita. A trama se baseia principalmente sobre certos cartões perfurados, ou mais especificamente a natureza desses. A partir disso se desenvolve em uma narrativa envolvendo conspirações contra o poder, mesclada com fatos históricos que de fato ocorreram (como o Grande Fedor que aconteceu em Londres em 1858). É, talvez por isso mesmo, um prato cheio para qualquer um que tenha um gosto por história do século XIX.

Até por conta dos detalhes da narrativa, de como são colocados os elementos de steampunk no livro. Algumas coisas são tão sutis que em determinado momento você até esquece que é um anacronismo, que aquilo não seria possível naquela época. Os efeitos do funcionamento da Máquina Diferencial são vistos em pequenas coisas, nas mudanças do cotidiano vitoriano tão como o conhecemos. É um trabalho tão bem feito que acredito que chega a valer até uma segunda leitura, para observar o que Gibson e Sterling conseguiram fazer, recriar, imaginar.

É até por esse cuidado, e mais ainda pela diversão certa que traz o livro, que não creio que seja voltado apenas para fãs de steampunk. É, sem sombra de dúvidas, altamente recomendado para quem gosta de uma narrativa de aventura, e arrisco dizer, serve até como porta de entrada para quem não está muito familiarizado com a ficção científica. Somando a isso o tratamento dado ao livro pela Aleph (que além do já mencionado Guia de Personagens, traz também um Glossário e Posfácio escrito pelos autores), faz valer ainda mais a pena conferir.
>> MEIA PALAVRA – por Anica


BORGES: UMA VIDA, POR EDWIN WILLIAMSON

terça-feira | 21 | fevereiro | 2012

No embalo do relançamento das obras completas de Jorge Luis Borges, a Companhia das Letras traduziu Borges: a life(2004), de Edwin Williamson, professor de literatura espanhola em Oxford. Aparentemente, a vida de Borges, que se dedicou à literatura, não soa tão interessante.

Mas um elogio de Harold Bloom, o maior crítico literário vivo, a essa obra sobre a vida do “mestre argentino”, talvez nos faça mudar de opinião. Embora tenha reconhecido a genialidade deMachado de Assis, Bloom recusou-se a ler Guimarães Rosa, pois disse que “não tinha mais tempo”. O “mestre argentino” ganhou, com Machado, um dos capítulos de Gênio (2003). E é impossível não aproximar o maior crítico contemporâneo do, possivelmente, maior leitordo século XX. E se Bloom “perdeu tempo” com a biografia de Borges, mantendo Guimarães Rosa na espera, é que ela merece ser lida.

De fato, se a vida de Borges foi dedicada à literatura, o que lemos, no livro de Williamson, não é uma biografia tradicional, afinal ele busca “correspondências entre o texto literário e o contexto pessoal”. Borges: uma vida surpreende, em primeiro lugar, pelas mulheres que habitaram a vida, ou o pensamento, de Borges. Para surpresa geral, declara o próprio: “Como passei a vida pensando em mulheres, ao escrever tratei de pensar em outra coisa”. A uma mulher, por exemplo, ele dedicou “O Aleph” (1949). Em “A morte a bússola”, um conto de Ficções (1944), Borges conclui que “o intelecto sozinho leva à morte”, enquanto “o amor se constitui na bússola que nos levará à salvação”. Passou quase a vida inteira lamentando “ter repetidamente sacrificado sua chance de felicidade com uma mulher”.

E, quando morreu sua mãe, escreveu, num poema: “Eu cometi o pior dos pecados possíveis a um homem. Não ter sido feliz”. Leonor Acevedo, aliás, quase centenária, seria outro dos centros de gravidade na vida de Borges. Declararia ela a Bioy Casares(historicamente, o maior amigo de Jorge Luis): “Passei a vida entre dois loucos e às vezes me pergunto se esses dois loucos não tiveram razão”. O “segundo louco” era o Doutor Borges, pai de Jorge Luis (na intimidade,Georgie). Tendo fracassado na literatura, e tendo sido acometido pela cegueira mais cedo que o filho, Doutor Borges transmitiu a Jorge Luis a missão de ser realizar como escritor. E “Georgie”, além da salvação pelo amor, acreditava, obviamente, na salvação pela literatura. Acreditava, como diz Williamson, que “uma obra-prima autêntica seria suficiente para justificar a vida de um escritor”.

Nesse sentido, a Divina Comédiaforneceu a chave que faltava para conferir sentido à existência de Jorge Luis: se encontrasse sua Beatriz, como Dante encontrou, Borges poderia ser feliz, e realizar-se como homem, e como escritor. Ainda que boa parte do mundo não concordasse, acreditou ter encontrado sua “Beatriz” no fim da vida: era María Kodama, que faria Luisa Valenzuela, uma romancista argentina, definir assim o casal: “O venerável velho e a mulher que tirou o venerável velho de seu encapsulamento e o pôs em contato com a vida”. Casaram-se praticamente no leito de morte de Borges. Se o amor quase não chegou a tempo, a consagração também atrasou.

E uma das fases mais célebres de Borges, como “mestre oral”, teve início quando ele se aproximava do seu cinquentenário: “Assim, aos 47 anos, descobri que se abria diante de mim uma vida nova e emocionante”. Conquistou o mundo, nas palavras do escritor norte-americano Richard Burgin: “Quando deu sua última palestra em Harvard, Borges já era o herói literário de Cambridge”. Em 1983, recebeu a Legião de Honra do presidente François Mitterand. E só não ganhou o Nobel, pois defendeu as ditaduras, na América Latina, contra populistas como Perón. Williamson conta que, na Itália, Borges passou a definir o que era “o gosto literário” e, mesmo, “a própria ideia de literatura”.

A verdade é que continua definindo, e não so dentro da Itália, mas fora dela também. Modesto, Borges concluiria, numa entrevista, não ter sido “um pensador”: “nunca havia chegado a nada”; era, no máximo, “um homem de letras”… “um tecelão de sonhos”. E ainda que se considerasse, como poeta, um “grandiloquente de terceira categoria”, criaria, na definição de Bioy Casares, “um novo gênero literário”, “entre o ensaio e a ficção”, inaugurando “as possibilidades literárias da metafísica”. Se a “vida” desse homem não pode ser emocionante, o que pode ser, então? Borges, de Williamson, não só traz de volta a noção perdida de literatura, mas também a noção perdida de uma vida dedicada à literatura.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Julio Daio Borges


JULES VERNE: 20 MIL LÉGUAS DE AVENTURA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

A edição “definitiva” do livro de Verne
não é para jovens,
mas para velhos amantes da literatura

"20 mil léguas submarinas" (comentada e ilustrada), de Jules Verne

Antes de a ciência médica aparecer com os exames de DNA e os procedimentos de barriga de aluguel, alguns piadistas misóginos costumavam dizer que a identidade da mãe é sempre uma certeza; já a do pai jamais passa de mera conjectura. A ficção científica, como forma literária, se encaixa bem nesse antigo aforismo da cafajestagem: a mãe é obviamente Mary Shelley, autora do assombroso Frankenstein, mas e o pai? Seria o francês Jules Verne ou o britânico H.G. Wells?

Verne certamente começou antes, tendo publicado em 1863 o romance Cinco Semanas em Balão, narrativa em que um grupo de exploradores sobrevoa a África num balão que, para os padrões da época, era quase uma nave espacial. Esse livro veio a público três anos antes de Wellsnascer. Os defensores da primazia do britânico (culpado, meritíssimo) geralmente argumentam com base numa certa concepção de ficção científica: enquanto, em Wells, a ciência é um meio para entender e modificar o mundo, em Verne ela é apenas o pretexto da aventura.

Em Guerra dos Mundos ou na Máquina do Tempo, por exemplo, vemos a civilização ocidental soçobrar sob um ataque alienígena, num caso, ou debaixo de pressões econômicas, sociais e biológicas, no outro. Em Viagem ao Centro da Terra ou 20 Mil Léguas Submarinas, em comparação, o que temos é a aventura científica servindo como uma espécie de parêntese em meio ao fluxo do status quo, que prossegue inabalado. Nesse aspecto, os livros de Verne lembram muito as histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, nas quais nenhuma revelação, fosse a da existência de vida extraterrestre ou do ressurgimento da Atlântida, era capaz de abalar a rotina das donas-de-casa de vestido rodado e de seus maridos de terno marrom, chapéu e gomalina.

Se o título de Verne a pai da ficção científica é contestado, é difícil, no entanto, negar a ele a paternidade de outro gênero popular, o technothriller, onde tramas rocambolescas são desencadeadas por, e giram em torno de, avanços tecnológicos únicos, muitas vezes descritos com um nível obsessivo de detalhe. É difícil imaginar Tom Clancy ou mesmo Michael Crichton sem Verne. E Caçada ao Outubro Vermelho, o livro mais famoso de Clancy, provavelmente não existiria sem o antecedente de 20 Mil Léguas Submarinas.

É deste romance, talvez o mais famoso de Verne, que chega uma “edição definitiva” publicada pela Zahar. Suponho que a maioria dos leitores desta resenha já esteja familiarizada com o enredo geral da obra, mas aqui vai um breve resumo: nos anos finais da década de 1860, o biólogo francês Pierre Aronnax, acompanhado por seu fiel valete Conselho e por Ned Land, um intrépido arpoador de baleias canadense, se vê aprisionado a bordo de um magnífico submarino, o Náutilus, e à mercê de seu comandante, o anti-heroi quase-byroniano Capitão Nemo. Na condição de hóspedes involuntários de Nemo, os três percorrem 20.000 léguas sob as águas do mar, visitando as ruínas da Atlântida, os campos de cultivo de pérolas do Pacífico e a Antártida.

Quem conhece outras “edições definitivas” lançadas pela mesma casa editorial, como as de Sherlock Holmes, anotadas pelo estudioso Leslie S. Klinger, ou a Alice de Lewis Carroll, anotada por Martin Gardner, corre o risco de se desapontar: as notas do tradutor André Telles são úteis, interessantes e corretas, mas estão longe de oferecer a exuberância de estilo e erudição desses outros títulos, onde muitas das anotações se desdobram em verdadeiros ensaios históricos e literários.

O papel ensaístico fica por conta da mais que interessante introdução de Rodrigo Lacerda, que contextualiza, para o leitor desavisado, a gênese das Viagens Extraordinárias – série que inclui, além das 20 Mil Léguas, outros títulos famosos, como Viagem ao Centro da Terra, por exemplo. Lacerda lembra que as Viagens foram concebidas como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado Revista de Educação e Recreação.

Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, é uma que ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo, e segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira. Ela ajuda, também, a entender as principais limitações dos livros de Verne, a saber: o caráter episódico da ação; a natureza caricatural de boa parte dos personagens; e os fantásticosinfodumps.

Parte do jargão dos escritores de ficção científica, “infodump” – literalmente, “despejo de informação “ – é o momento em que a ação da narrativa para, a fim de que algum tipo de informação seja transmitida ao leitor. Histórias passadas no futuro têm infodumps sobre os costumes, a moral e a sociedade em que a trama se passa; histórias sobre armas nucleares têminfodumps sobre física atômica; e assim por diante.

Momentos de infodump tendem a ser especialmente desajeitados, e iseri-los no fluxo narrativo sem perder o leitor é um dos grandes desafios técnicos da escrita de ficção científica. No caso dasViagens Extraordinárias de Verne, no entanto, o infodump é a razão de ser do livro: na lógica daRevista de Educação e Recreação, as aventuras do Professor Aronnax e do Capitão Nemo são apenas um pretexto para que os petizes franceses de 1870 aprendam que os peixes podem ser cartilaginosos ou ósseos, que polvos, lulas e calamares são cefalópodes, quais são as principais variedades de vida comestível dos mares do mundo e como preparar uma refeição decente à base de fruta-pão.Entre outras coisas.

Em sua introdução, Lacerda diz que é virtualmente impossível encontrar uma edição brasileira de 20 Mil Léguas, anterior à “defintiva” da Zahar, da qual os infodumps, principalmente os extensos parágrafos de descrição taxonômica da vida marinha, não tenham sido extirpados. Ele elogia a arte de Verne na construção dessas passagens (como: “no ramo dos zoófitos e na classe dos alcionários, observa-se a ordem das gorgonáceas…”), notando que o autor consegue encadear as descrições forma quase poética, e muitas vezes obter belos efeitos literários (“focas de barriga branca e pelagem preta, conhecidas como “monges”, por terem efetivamente o aspecto de dominicanos com três metros de comprimento”.)

Mesmo reconhecendo a importância de uma edição integral do romance em português, no entanto, vejo-me forçado a confessar que os trechos mais explicitamente didáticos quase me fizeram desanimar da leitura.

O verdadeiro gênio de Verne, a meu ver, está na capacidade de criar imagens de pura imaginação, como quando o Náutilus é avistado, pela primeira vez, por Aronnax, que se espanta com a forma como o submarino ilumina a água do mar:

O halo de luz descrevia sob o mar um arco amplo e retesado, do qual o centro condensava-se num foco ardente, cujo insustentável brilho apagava-se por gradações sucessivas.

Quantas vezes essa mesma cena já não foi vista, em filmes e episódios de TV que tratam misteriosos objetos submarinos? E, no entanto, muito provavelmente surgiu, inédita, da pena do escritor francês. Essa é a verdadeira capacidade de antecipação de Jules Verne. Não “prever” o submarino, mas prever, literariamente, qual o efeito poético que a aparição súbita de um submarino teria sobre o espírito humano.

O poder evocativo do autor ressurge, bem adiante, na descrição de um naufrágio visitado pelo Náutilus, onde Aronnax vê, iluminado pela luz fria do submarino, o cadáver de uma mulher ainda preso ao caso submerso, que “erguera o filho acima da cabeça, pobre criaturinha, cujos braços abraçavam o pescoço da mãe”.

Quanto a personagens, de fato 20 Mil Léguas Submarinas só tem dois dignos do nome: o próprio submarino Náutilus e seu capitão, o enigmático Nemo.

Ficamos sabendo, na introdução de Lacerda, que Nemo deveria ser um revolucionário polonês, que perdera a família numa repressão provocada pelo governo russo. Induzido pelo editor a abandonar essa biografia de seu personagem – por questões comerciais e políticas – Verne simplesmente desiste de dar uma vida pregressa a seu enigmático capitão (uma biografia diversa da do rebelde polonês aparece em uma obra posterior, A Ilha Misteriosa).

Mesmo sem uma vida pregressa ou uma motivação clara, no entanto, Nemo – feroz, inteligente, irônico, assombrado, melancólico – é o ser humano mais bem acabado do livro e sua obra, o submarino Náutilus, é uma extensão de sua personalidade.

Dos demais, Aronnax é às vezes um professor arquetípico de Ciências, o mesmo tipo de que Monteiro Lobato viria a troçar, ainda que com afeto e simpatia, na figura do Visconde de Sabugosa; seu criado, Conselho, faz as vezes de aluno, a quem Aronnax faz perguntas cuja resposta já conhece, para edificação do leitor; e o arpoador Ned Land está ali apenas para dar a Conselho um parceiro para cenas cômicas.

Mencionei, também, o caráter episódico da obra. Se alguns desses episódios têm um vibrante poder literário – como o funeral submarino ou a visita à Atlântida – ou são aventuras que nada ficam a dever aos melhores textos do gênero – o combate com a lula gigante logo vem à mente – o fato é que a falta de um desenvolvimento mais notável dos personagens, ou do propósito da viagem do Náutilus, somada às aulas de taxonomia marinha, tornam a leitura, por vezes, penosa.

A edição definitiva de 20 Mil Léguas Submarinas não é, hoje, um livro para jovens (a menos que se trate de um jovem candidato a oceanógrafo); também é um livro que poderá desapontar os que têm, das antigas versões condensadas, uma forte memória afetiva vinda da infância. Como peça histórica, o livro chama atenção para os alertas que Verne põe na boca de Nemo e de Aronnax quanto ao risco de extinção de baleias e morsas por meio da caça predatória: isso na década de 60 do século retrasado, o que mostra que o problema mão é novo.

Mais do que uma peça de nostalgia ou curiosidade histórica, no entanto, trata-se de um livro para os amantes de literatura: o desafio de exploração da linguagem de Verne, a tentativa de extrair poesia do jargão da ciência, merece ser enfrentado. Nem que seja para que o leitor chegue, ofegante e sedento como os tripulantes do Náutilus, à fantástica luta com a lula gigante dos capítulos finais.
>> AMALGAMA – por Calos Orsi


PÁGINAS DO FUTURO: FICÇÃO CIENTÍFICA À BRASILEIRA

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Uma coletânea de contos de ficção científica, mas sem Isaac Asimov, H.G. Wells ou Ray Bradbury. Nela, em vez desses nomes óbvios do gênero, você vai encontrar autores brasileiros, alguns bem conhecidos, outros nem tanto. É assim o livro Páginas do Futuro, organizado pelo escritor Bráulio Tavares, que reúne nomes como Ademir Assunção, Jerônymo Monteiro e Fábio Fernandes e outros que dificilmente se poderia imaginar como cultores do gênero sci-fi entre nós: Raquel de Queiroz, Joaquim Manuel de Macedo e Rubem Fonseca.

De fato, como imaginar que a autora de um clássico do romance regionalista como O Quinze poderia escrever um conto de ficção científica como Ma-Hôre, tão intenso e enxuto que bem poderia ser filmado por um grande estúdio norte-americano? “É a única incursão conhecida dela no gênero”, diz Bráulio, ele próprio um cultor da ficção científica (é autor de Mundo Fantasmo, entre vários outros livros). Quem diria que Joaquim Manuel de Macedo, autor de um daqueles romances mais lidos de forma compulsória pelos estudantes brasileiros, A Moreninha, investiria imaginação numa descrição apocalíptica como em O Fim do Mundo? Ou que um príncipe da narrativa policial como Rubem Fonseca fizesse também sua única incursão no gênero sci-fi com um thriller futurista sobre um Rio de Janeiro, que se parece à Los Angeles de Blade Runner, de tão distópico, violento e caótico?

O fato é que, surpresas à parte, com Ma-Hôre, Raquel de Queiroz assina um dos melhores contos do volume. O título seria o nome de um homúnculo de aparência benigna, embarcado involuntariamente em uma nave pilotada por humanos e que o leva à Terra, para longe do seu planeta natal. Raquel trabalha com habilidade o tema do “estranho entre nós” e prepara um desfecho surpreendente para o leitor. Ao ler esse conto, impossível não pensar que a autora deveria ter se dedicado um pouco mais ao gênero.

O Fim do Mundo, originalmente publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 1857, é o mais antigo texto da antologia. Aparece mais como uma curiosidade, glosa reiterada sobre os supostos efeitos libertários de um eventual cataclisma planetário. O tema, de tão presente no inconsciente coletivo, reaparece até mesmo na música popular, no conhecidíssimo “Anunciaram que o mundo ia se acabar”, de Assis Valente, celebrizado na voz de Carmem Miranda .

Já O Quarto Selo, texto originalmente publicado em Lucia McCartney, em 1967, mostra a narrativa típica de Fonseca, com seu estilo e personagens implacáveis, apenas deslocados para um futuro um tanto indefinido. Como escreve Braulio Tavares, Rubem Fonseca, embora admirador confesso da ficção científica, pouco se aproximou do gênero, sendo este conto uma notável exceção em sua obra.

É, no entanto, com os autores menos conhecidos que o livro reserva as melhores e maiores surpresas, em especial para o leitor pouco familiarizado com o que se faz na FC brasileira. Por exemplo, Exercícios de Silêncio, de Finisia Fideli. O organizador nos informa que Finisia é médica homeopata e faz parte do grupo de autores cujo surgimento é ligado ao Clube de Leitores de Ficção Científica. A abordagem do conto é muito original e lembra, em seu clima, algumas passagens de uma obra famosa nos anos 1960, O Despertar dos Mágicos, de Louis Powells e Jacques Bergier. No relato, o protagonista Theo (a escolha do nome não se dá por acaso) tem a nave avariada e desce num planeta onde vive uma população que se desenvolveu de maneira diferente da humana. É uma civilização low-tech, na qual a apropriação tecnológica da natureza é substituída pela consciência de si e da sua posição no cosmos. Ao invés de método científico, meditação transcendental. Por paradoxo, é através da meditação e do silêncio interior que Theo poderá resolver o grave problema técnico que o impede de voltar à Terra.

Inútil dizer que essas histórias – a de Finisia e outras – contêm um comentário crítico da relação do homem com a técnica, quando esta parece dominá-lo e não o contrário. É um traço interessante e ambivalente o da sci-fi, ao apoiar-se num virtual avanço tecnológico para, não raro, denunciar-lhe as implicações e os perigos para a vida humana. Caso, por exemplo, de Eu, Robô, de Isaac Asimov, um clássico sobre a revolta das máquinas.

De qualquer forma, nota-se na seleção proposta a preocupação com uma FC que seja, não digo “autenticamente” brasileira (já que esse estado de pureza não existe), mas que se expresse em sotaque nacional, respire nossos temas, e corte, de certa forma, o cordão umbilical com o o qual se liga ao mainstream do gênero, a matriz anglo-saxônica.

No estudo introdutório que escreve para Páginas do Futuro, Braulio remonta a três tradições presentes na formação da FC contemporânea: a dos antigos, com seus relatos fantásticos, tais como a Odisseia de Homero e as Metamorfoses de Ovídio. O Scientific Roman europeu, cunhado no seio da Revolução Industrial, e que tem Jules Verne e H. G. Wells entre seus nomes mais representativos. Por fim, os pulp magazines norte-americanos que, nos anos 1920 e 1930, estabelecem as bases da FC moderna. É com essas tradições que os autores brasileiros têm de dialogar. Porém, sem se submeter a elas. Como escreve Braulio, “A FC brasileira não pode abrir mão de um conhecimento da FC internacional sob o risco de deixar de ser FC, e não pode abrir mão de um conhecimento equivalente da literatura do nosso país, sob o risco de deixar de ser brasileira”.

A diversidade apresentada no volume e sua antiguidade nas letras brasileiras, ainda que de forma episódica, deixam antever boas páginas no futuro da FC à brasileira. Desde que a deglutição das tradições estabelecidas se dê de maneira criativa e original. Não por acaso, um autor como Ivan Carlos Regina publicou, em 1988, seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. Inspirado nos nos modernistas de 1922, Ivan entende ser necessária a deglutição radical dos nutrientes estrangeiros para a produção da proteína nacional. Num trecho do manifesto, escreve: “Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.”

Páginas do Futuro dá uma amostra bem variada de como esse processo de deglutição e digestão tem se dado entre nós.

Sobre o coordenador do livro
Braulio Tavares (1950) nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e mora no Rio de Janeiro. É escritor, poeta, compositor (tem cerca de 20 músicas em parceria com Lenine, por exemplo), cronista e organizador de antologias. Entre elas, Páginas de Sombra (Contos Fantásticos Brasileiros), Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, Freud e O Estranho (Contos Fantásticos do Inconsciente) e Contos Obscuros de Edgard Allan Poe. É autor dos livros A Espinha Dorsal da Memória (1989), A Máquina Voadora (1994), Mundo Fantasmo (1996) e ABC de Ariano Suassuna (2007), entre outros. Escreve crônicas diárias para o Jornal da Paraíba, transcritas em seu blog Mundo Fantasmo  mundofantasmo.blogspot.com). Como concilia tantas atividades? “No fundo sou apenas um escritor”, disse, em conversa com o Estado. “É o exercício da palavra escrita que dá o fio condutor em tudo o que faço”.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Luiz Zanin

TRECHOS

“A sorte, pensavam os astronautas, é que o seu pequeno cativo tinha o coração ligeiro ou filosófico. Porque depressa aceitou o irreparável e tratou de adaptar-se. Auxiliado pelos desenhos, com rapidez adquiriu um bom vocabulário na língua dos humanos. Tinha a inteligência ávida de um adolescente bem dotado…Também contava coisas da sua gente que, na água, elemento dominante em nove décimos do pequeno planeta, passavam grande parte da sua vida”
(Ma-Hôre, Raquel de Queiroz)

“Passaram toda a noite imersos no mundo luminoso do copo de cristal, ela vendo massas humanas a caminhar por um terreno sem fim, entremeadas de pesados carros de guerra. Via o brilho de armas, das pontas das lanças; o reflexo da luz nas lâminas de espadas desembainhadas. Via rolos de pó erguerem-se por cima dos soldados.”
(O Copo de Cristal, Jerônymo Monteiro)

Serviço:
“Páginas do Futuro – Contos Brasileiros de Ficção Científica”
(seleção e apresentação de Braulio Tavares. Ilustrações de Romero Cavalcanti).Editora Casa da Palavra, 160 páginas.


“A ILHA”, DE FLÁVIO CARNEIRO

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Com A Ilha (Rocco, 208 págs.), o escritor goiano Flávio Carneiro fecha a sua Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com A Confissão (que resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007), tendo como segundo volume O Campeonato, de 2002.

Um dos mais interessantes projetos da literatura brasileira da atualidade, a trilogia trabalha obras fronteiriças entre o mainstream literário nacional e a ficção popular de gênero: o primeiro livro se aproxima do horror sobrenatural, com uma história de um vampiro emocional carioca; o segundo dialoga com a ficção de crime; e, finalmente, A Ilha é uma ficção científica que evoca a nobre tradição da utopia.

No Brasil, a utopia e sua gêmea do mal, a distopia, têm uma longa história. Na década de 1920 tivemos um Ciclo de Panfletos Utópicos que defendia a eugenia e a higienização como soluções para o subdesenvolvimento tupiniquim. Cinquenta anos depois, o mainstream recrutou as duas irmãs para, veladamente, satirizar a ditadura militar e a tecnocracia que o acompanhava. Na primeira fase, nomes como Monteiro Lobato e Rodolpho Teóphilo; e na segunda, Ruth Bueno, Chico Buarque, André Carneiro e Ignácio de Loyola Brandão.

Flávio Carneiro escapa das armadilhas desses dois momentos anteriores, já que evita ser prescritivo ou abertamente crítico, num romance que dialoga com nada menos que A Utopia (1516), de Thomas More (1478-1535), também ambientado em uma ilha. Mas se trata de um diálogo discreto, conduzido de modo apenas alusivo. Também de maneira muito condizente com o projeto geral da antologia, o livro convoca outros diálogos intertextuais: um trecho das praias do Rio de Janeiro, centrado em torno do Leme até o Morro de Santa Teresa e a Lagoa Rodrigo de Freitas, separa-se do continente e passa a vagar pelo Atlântico – como acontece com Portugal, em A Jangada de Pedra (1986), do nobelista José Saramago (1922-2010).

Garrafas começam a chegar à praia, contendo em seu interior mapas artesanais. Por meio desses, alguns dos moradores vão se dando conta de que a sua ilha pode estar se dirigindo de volta ao continente. Esses personagens – Bernardo e Clara, Pepe e Catarina, Andador e seu cachorro – se sentem intrigados pela possibilidade, e começam a se perguntar como isso seria possível. A primeira hipótese levantada seria a da deriva tectônica, fenômeno natural que, cientificamente, nunca poderia explicar o deslocamento. Mais tarde, uma complexa teoria high-tech passa a tomar forma, envolvendo clonagem e uma tecnologia revolucionária que permitiria a recriação da matéria complexa. Ao mesmo tempo em que os dois casais (em especial) realizam a sua investigação – a partir da sua sociedade low tech -, pessoas e depois construções inteiras começam a desaparecer da ilha.

A fonte dessa teoria sobre a qual eles especulam é um romance de ficção científica chamado O Projeto Genesis, escrito por um certo P. D. Deckard – nome que traz o renomado autor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) para o jogo intertextual de Carneiro. A exegese dessa obra de “Deckard” (homônimo do herói de O Caçador de Andróides, livro inspirador do filme Blade Runner) é que fornece as pistas que os casais de protagonistas investigam. O romance de Carneiro, porém, não tem nada do clima de paranoia habitual em Dick, e a investigação do que se passa na ilha não leva os protagonistas a situações de perigo nem a descobertas que ameacem as suas identidades. Ao contrário, mesmo com os desaparecimentos, a vida na ilha segue mansa, e os protagonistas parecem tão interessados um no outro quanto na resolução do mistério.

O autor não caracteriza a vida utópica na ilha, seja em termos políticos ou sociais. É essa vida mansa praiana – amparada por uma prosa agradável, impregnada de doçura e calor humano – uma das poucas pistas que o leitor tem para compreender como funciona a alegoria no romance. A alegoria de A Jangada de Pedra remete a um sentimento de inadequação de Portugal, em relação ao restante da Europa. Em A Ilha, parece sugerir que um certo espírito carioca, romântico, descomplicado e singelo, só poderia sobreviver com a sua separação física do resto do Brasil. Por isso, minha tendência é associar o teor do livro à minha ideia de um “sonho brasileiro” de vida mansa próxima à natureza, que estaria presente na ficção científica brasileira desde, por exemplo, a novela utópica “Zanzalá” (1936) de Afonso Schmidt (1890-1964). E nesse mesmo sentido, é interessante contrapor A Ilha ao romance tupinipunk de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist (1991), com seu relato distópico e desumanizado de Copacabana.

Mas A Ilha não se resume à evocação de um sonho brasileiro que parece ameaçado – literalmente em desintegração – pelo retorno a (ou advento de) uma realidade nacional que não lhe dá amparo, mas traz nova instância do tipo de dramatização da relação autor/leitor que Flávio Carneiro já havia favorecido em A Confissão. Desta vez, o narrador partilha do espaço em que vivem os personagens, e aponta situações e cenas a um “leitor” que às vezes parece estar ao seu lado, olhando de longe ou de perto por uma janela metafórica que representa o foco narrativo. Ele pode estar organicamente ligado às situações do romance como um supervisor ou observador daquele grande experimento aludido nas teorias de Bernardo e Clara, Pepe e Catarina. Nos livros da Trilogia do Rio de Janeiro, Carneiro parece estar criando a sua própria prática metaficcional.

Livre de peripécias e sem um enredo estrito, a narrativa de A Ilha caminha num espaço de indeterminação entre afirmação e dúvida. Um projeto engenhoso e intrigante, um bom momento daquela tendência dominante da ficção científica feita no Brasil, que emprega as imagens do gênero com objetivos programáticos e estéticos próprios do mainstream literário.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

Num futuro indeterminado, os habitantes de uma ilha perdida num oceano qualquer acreditam que são os únicos sobreviventes de uma grande catástrofe, que teria varrido o resto do planeta para debaixo das águas. Até o dia em que aparecem na praia misteriosas garrafas, com mapas sugerindo a existência de um continente, não muito distante dali. A partir de então estranhos acontecimentos vão mudar, de forma radical, a rotina da ilha.

O narrador dessa aventura é um velho bibliotecário franciscano, enclausurado na torre de um convento. Cercado de livros, é ele quem conduz o leitor por um estreito caminho entre a realidade e a fantasia, num relato em que conceitos como vida artificial, campo magnético e experiências genéticas convivem com cenários paradisíacos, lembrando um passado remoto.

Em meio às cenas insólitas que vão compondo a trama, o leitor vai conhecendo personagens que encarnam a cada página a loucura, o sonho, a dúvida, vivendo sempre a um passo da próxima surpresa.

Se você é alguém de carne e osso, está em suas mãos um romance que fala sobre a dificuldade de estabelecer o que é real e o que é imaginário, o que é sonho e o que de fato aconteceu. Como diz a certa altura o narrador, confiar em romances é como confiar nas ondas do mar. Por isso, na busca dos personagens pela verdade, cabe ao leitor a última palavra sobre os mistérios que envolvem A ilha.
Texto publicado na orelha do livro)


“AMOR OCULTO”, DE LAURA ELIAS

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Contar uma boa história em volta da fogueira é uma imagem idílica, até certo ponto mitológica, que não me abandona. Quem consegue, através de sua narrativa, fazer com que suas palavras permaneçam impressas atrás de minhas retinas desta maneira merece todo o meu respeito.

Ao ler Amor oculto (Mythos, 2011 – 126 páginas)esta é a impressão que tenho. Laura Elias domina as palavras, é uma contadora de histórias experiente, sabe jogar com o leitor, foi forjada na arte de escrever e se formou pela receptividade dos leitores. Deveria ser uma fórmula de sucesso. Mas o reconhecimento por aqui é difícil, a internet quebra barreiras, mas não diminui o abismo com o que vem de fora. O descaso com que nossos autores são tratados muitas vezes me deixa enojado.

Já escreveu mais de 30 livros, quase todos publicados, muitos deles de banca, sob pseudônimos Loreley McKenzie, Laura Brightfield, Suzy Stone, Elizabeth Carrol, Sophie H. Jones. Experiência não lhe falta. Depois de saber desta história através de uma comunidade, quis conhecer mais sobre a autora e trocamos algumas palavras e alguns emails, que me fizeram fã, por sua postura e ainda mais por sua imensa simpatia.

Partamos para o que realmente interessa – a narrativa desta escritora genial. Como todos podem observar gosto de ligar narrativas a imagens de outros livros ou de filmes para que possamos fazer inferências, para que tudo se torne um pouco mais claro a quem ainda não tem contato com alguns autores.

No caso de Laura Elias, não consegui fazê-lo. Seria isso então originalidade? Não diria isso, mas é difícil classificá-la.  Ela tem sua fórmula: mistério + paixão. Tem um público alvo, mas ainda assim consegue despertar em qualquer público o prazer da leitura. Muitos são os diálogos, que tornam o livro saboroso, pois eles são a alma de uma boa narrativa.

Antes do prólogo, uma espécie de prenúncio já dá o teor do que virá pelo livro:

A barreira da ética profissional dissolvia-se diante do que lhe era oferecido, diante do que ele tanto queria, diante da tentação que via em seus olhos, não mais serenos, mas ardentes como as fogueiras pagãs.

Pronto, já estamos fisgados, e o que vem depois é “hot” muito “hot”. O livro conta a história de Bervely Manson, escritora, que após matar sua personagem principal acaba matando sua inspiração. Resolve então acompanhar uma amiga a um antiquário e encontra lá um caderno cheio de histórias inacabadas. Ela decide terminar as histórias, sua inspiração renasce. Porém, há uma advertência feita pela antiga dona dos cadernos. Ela não dá nenhuma importância a ela. Daí coisas estranhas começam a acontecer, tudo o que escreve passa a acontecer. Seria uma maldição? Aha… não irei contar mais nada. O inexplicável geralmente nos perturba e o livro está repleto de coisas que irão se encaixar apenas no final.

“… como fugir da realidade quando ela se torna ainda mais bizarra que o sonho? Como fugir se nem mesmo dormindo havia paz? Se os fantasmas e demônios alheios passaram a habitar sua vida?

E não poderia deixar de colocar aqui alguns trechos para deixar a todos um pouco mais alvoroçados:

O desejo:

“… olhou para ela, ainda segurando-a pelos ombros. Sentia vontade de tocá-la, passar os dedos por aqueles mamilos que a blusa insinuava, beijar-lhe a delicada linha do queixo, os lábios sedentos, os olhos serenos… explorar aquela mulher com força, com carinho, com sofreguidão.

A sedução:

“… balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro, a malícia dançando em seus olhos. Com um gesto rápido, ergueu-se e arrancou o vestido, expondo-se, despudorada, em sua calcinha negra, rendada, por onde os pelos loiros apareciam, qual tesouro guardado apenas para ele.”

O embate:

“Apalpou-lhe as formas e depois se deixou pesar em seu corpo, apenas para ouvi-la gemer. Sua voz penetrava-lhe os ouvidos e o deixava cada vez mais excitado.”

É claro que cortei os diálogos e as partes mais quentes. Portanto, podem correr! Leiam e me contem depois se Laura é ou não dona de uma imaginação fértil e diabólica. Estamos totalmente desarmados quando ela começa a contar suas histórias. E citando um trecho de seu próprio livro: Que segurança as armas poderiam oferecer contra a imaginação?
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Rodolfo Euflazino


A LITERATURA FANTÁSTICA DO PARÁ: VICENTE CECIM E A VIAGEM A ANDARA

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

Há 32 anos, Andara emergia dos sonhos do escritor Vicente Franz Cecim. Uma região imaginária, que fez da Amazônia sua matéria-prima, uma floresta sagrada de águas, peixes, aves. Paraíso encantado onde tudo pode acontecer. “Árvores podem falar com os homens, aves que caem do céu se transformam instantaneamente em terra, retornando ao pó, o vento vem nos contar histórias, tu podes te deparar com uma mulher alada.

Há muitos outros seres alados em Andara, talvez anjos ou sejam demônios, que descem do céu com suas asas negras, com suas asas brancas para conviver com os seres humanos”, descreve Cecim sobre sua terra enfeitiçada.

Andara fez sua primeira aparição em 1979, no livro “A Asa e a Serpente e Manifestos Curau”, publicação que inaugura “Viagem a Andara, o Livro Invisível”, obra fantasma, que vai tomando corpo à medida que são escritos cada um dos doze livros que até agora insurgiram da imaginária floresta de Cecim. “Quando os livros escritos de Andara tiverem deixado de existir um dia, a ‘Viagem a Andara, o Livro Invisível’ que não é escrito continuará existindo em sua existência de não-livro”, diz o autor, que relança sua primeira obra dentro do projeto “Orgulho de Ser do Pará”, do DIÁRIO, promovido pelo Grupo RBA de Comunicação.

“A Asa e a Serpente e Manifestos Curau” inaugurou um dos mergulhos mais abissais a uma Amazônia reinventada, rompendo a fronteira entre prosa e poesia, numa fusão entre o natural e o sobrenatural, o profano e o sagrado, para se lançar numa intensa busca metafísica do sentido do ser e da vida.

“Andara é lugar de sonhar, Andara é a imaginação em liberdade, Andara quer abolir a razão do ato de escrever. Andara é quase um manifesto prático contra a literatura regionalista, mimética, que geralmente se limitava a copiar, e copiar mal, a realidade amazônica. Mas a realidade é oculta em si mesmo: se disfarça em sua epiderme.

Fazer literatura assim é ampliar o ilusório”, defende Vicente, que buscou nas memórias de infância o alimento de sua escrita.

“Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe, Yara Cecim, que nos contava, não os contos dos irmãos Grimm, de Perrault, que tem coisas geniais, mas umas histórias delirantes da região, para nos fazer dormir, a mim e aos meus irmãos. O sono vinha, mas como um portal de acesso a todo esse mundo feérico. Não sabíamos mais o que era natural e o que era sobrenatural”.

A literatura fantástica de Cecim arrebatou a crítica pelo país, e alcançou reconhecimento além mar. “Ò Serdespanto”, lançado em Lisboa em 2001, foi apontado como o segundo melhor livro do ano. Tempos antes, em 1980, Cecim recebeu o prêmio Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, por sua segunda obra, “Os animais da terra”. Em 1988, o

Grande Prêmio da Crítica da APCA, nessa década somente atribuído também a Hilda Hilst, Cora Coralina e Mário Quintana. Em 1994, “Silencioso como o Paraíso” foi aclamado pelo jornalista e crítico literário Leo Gilson Ribeiro como “um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos, encanto a que Guimarães Rosa chamava de ‘peregrinação álmica’”.

O crítico gaúcho Antônio Hohlfeldt, no Correio do Povo, também viu na escrita inventiva de Cecim aproximação com as palavras do autor mineiro. “Depois de Guimarães Rosa, o paraense Vicente Cecim é o responsável por um dos mergulhos mais fantásticos e essenciais que a literatura brasileira já realizou sobre o sentido do homem.” E Oscar D’Ambrosio, no Jornal de Tarde, de São Paulo, endossou o diálogo: “Ler Viagem a Andara é penetrar em narrativas poéticas subversivas e míticas que trazem à tona, sempre renovado, o aforismo roseano: Viver é perigoso.”

Cecim e Rosa como alquimistas em suas criações. “Minha escritura tem a mesma má intenção da de Guimarães Rosa: abolir as fronteiras artificialmente demarcadas entre a prosa e a poesia. Mas, talvez, principalmente, porque Rosa fez com o Sertão a mesma coisa que eu estou tentando fazer com a Amazônia: transmudar, ele, o Sertão, eu, a Amazônia, no que eu chamo de regiões metáforas da vida”.
>> DIÁRIO DO PARÁ – da Redaçao


A LITERATURA FANTÁSTICA DE GOIÁS: O SENHOR DOS DRAGÕES

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

Entrevista com o escritor goiano Itamar Pires Ribeiro, que – sete anos após o lançamento de “Histórias da Terra Vazia” – estreia no romance com “Lygia entre os Dragões”

Itamar Pires Ribeiro é um comunicador nato. Informa na condição de jornalista profissional, dialoga com as musas por meio da literatura e da música, apresenta o programa Constelações na Rádio Universitária de Goiânia, e é também um grande papista, capaz de fazer o assunto mais indigente render horas e horas de conversa e informações engraçadas e eruditas. Contista premiado, venceu a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos de 1993, com “Contos de Solibur”. Em 2008 publicou o segundo volume de contos, “Histórias da Terra Vazia”.

Depois de sete anos de trabalho acaba de lançar “Lygia Entre os Dragões”, um romance histórico ambientado numa Goiânia de sonhos e sombras, no presente e no passado. Livro de linguagem experimental, Itamar Pires Ribeiro promove nele o diálogo entre a literatura, a música, a fotografia, HQs. Segue uma conversa sobre o presente e o passado com quem sabe falar; e escrever.

Pergunta – Você é um intelectual multifacetado: é escritor, compositor, jornalista, blogueiro, gestor cultural, apresenta um programa de rádio etc. É possível estabelecer uma conexão entre todas essas atividades? Qual a linha mestra de sua obra?
Itamar Pires Ribeiro – Todas essas atividades foram surgindo em decorrência da própria vida. A primeira, a principal opção é a literatura. Na literatura tenho trabalhos na área do conto, da crônica, do teatro, da poesia e agora do romance.

O trabalho na poesia propiciou um novo desdobramento: a construção de letras para músicas. As parcerias na área musical terminaram me levando à escrita, em parceria com Débora di Sá, do musical teatral “O Circo dos Amores Impossíveis”. O trabalho profissional que exerço no rádio, onde atualmente sou diretor de programação da Rádio Universitária, me permite uma grande proximidade diária com a música. Além das funções de direção mantenho dois programas diários — um na madrugada, Constelações, de meia noite às seis e outro de música erudita, Sala de Concertos. Ainda produzo dois outros programas no fim de semana, Clássicos do Rock e Um Jeito de Jazz.

O rádio veio como decorrência do curso e da profissão de Jornalista. Sou servidor da UFG desde 1980, época em que ingressei na Rádio Universitária. Na música eu tenho trabalhado com gente muito talentosa, meus parceiros Du Oliveira, Débora di Sá, Kan Kambai, Gustavo Veiga e Reny Cruvinel. Minha principal parceria hoje é com a cantora, compositora, atriz e circense – ou seja também um talento múltiplo – que é Débora di Sá. Ela tem uma das melhores vozes de Goiás além de uma presença de palco extraordinária. Já as atividades enquanto gestor cultural decorreram da atividade política, sou militante desde a primeira juventude, e olha que isso já tem tempo! Fui Secretário de Cultura de Goiânia, na gestão de Darci Accorsi, e diretor do Instituto Goiano do Livro, nos dois primeiros governos de Marconi Perillo. Já a atividade artística, e, principalmente, a literatura, essas não apenas surgiram na vida, para mim elas são partes essenciais da minha vida.

Eu descobri que não conseguiria viver sem a literatura lá pelos 16, 17 anos, quando resolvi me preparar para ser escritor, que é o que eu realmente queria fazer na vida. Para isso virei “rato de biblioteca”. Eu estudava no Colégio Pedro Gomes, que possuía uma boa biblioteca e fazia um curso com o qual eu pouco me identificava, era um curso de Química. A situação do ensino público naquela época era bastante conturbada, frequentemente não tínhamos todas as aulas previstas no dia, eu aproveitava aqueles momentos para ir para a biblioteca. Por sorte a parte literária da biblioteca era boa e a fome de leitura, enorme. Ali li as obras de Guimarães Rosa, Kafka, Proust, Clarice Lispector, Machado de Assis, Graciliano Ramos e tantos outros. Na UFG foi mais ou menos a mesma coisa, virei rato da biblioteca central, e também um assíduo frequentador dos sebos da Rua 4, no centro.

Outra decorrência do curso de Jornalismo foi a minha paixão pela fotografia, o curso de Química terminou servindo e muito na hora de executar o indispensável trabalho de laboratório, o qual, antes da fotografia digital, era absolutamente imprescindível. Através do Jornalismo também me envolvi com as artes gráficas. Comecei fazendo diagramações e artes finais numa gráfica clandestina que era do PCdoB, isso quando o partido ainda se achava na clandestinidade e vivíamos a miséria da ditadura militar.

Quanto à linha mestra da minha obra literária talvez seja a tentativa de, mantendo o realismo como lastro, exercitar sempre a imaginação, perceber os desvãos da realidade e explorá-los. “Lygia entre os dragões”, romance que estou lançado agora, é justamente isso: a fusão entre o realismo, que às vezes chega ao limite do hiper-realismo na descrição de lugares, cenas reais, memórias e personagens reais, com a imaginação que vivifica o real e descobre suas estranhezas. Outra das minhas preocupações literárias é escrever sobre aquilo que conheço a fundo, por isso as minhas obras literárias mais recentes tem todas como cenário a cidade de Goiânia. Imaginação e realismo, talvez seja essa síntese. A literatura fantástica surge como um instrumento para aprofundar o conhecimento da realidade e não como um valor por si só.

Pergunta - Sua passagem pela diretoria do Instituto Goiano do Livro (IGL), entre 2000 e 2004, foi marcada por uma melhora substância na qualidade gráfica e editorial dos livros lançados via poder público em Goiás. É possível resumir como se deu esse processo?
Itamar - Eu assumi o IGL em meados de 2000. O Instituto Goiano do Livro passava por um processo de reestruturação e vivificação empreendido pela escritora Yêda Schmaltz. Por motivos particulares Yêda deixou a direção do IGL e eu assumi sua condução. A AGEPEL dispunha de uma direção muito ativa, que apoiava as iniciativas inovadoras, destaco nesse ponto o papel de Nasr Chaul e de José Eduardo Morais.

Na gestão de Yêda haviam sido criadas várias coleções literárias, que abrangiam praticamente todos os gêneros literários — ficção, poesia, ensaio, teatro, literatura infantil e infanto-juvenil — foi também criado um Conselho Editorial, que era formado por representantes da UFG, UCG, das academias, da UBE, ou seja um conselho aberto para a sociedade e muito qualificado. Quando assumi a direção já haviam sido selecionados os livros que integrariam as coleções literárias de 1999 e as obras vencedoras da Bolsa de Publicações Cora Coralina, totalizando 19 livros. Destes apenas parte da tiragem de um livro de Marieta Telles havia sido publicada, todos os outros ainda estavam em processo de finalização ou embaralhados pela burocracia. Ao longo do ano de 2000 realizamos a seleção de novas obras literárias e finalizamos o processo de publicação, com algumas reformas no formato de algumas coleções e terminamos por lançar as coleções de 1999 e 2000 em novembro de 2000.

Durante minha passagem pelo IGL nós buscamos aperfeiçoar o processo de seleção pública dos livros a serem publicados, com a edição dos editais de seleção para as coleções, tornando isso o mais transparente possível, e também qualificar o aspecto gráfico, editorial das produções. Eu contei com a ajuda inestimável de Ciça Fittipaldi, que é uma grande profissional da área editorial e que nós contratamos para colaborar na definição dos padrões de qualidade gráfica e editorial de todos os livros publicados. Cada coleção tinha uma identidade própria, mas que não se sobrepunha à individualidade do livro, da obra concreta a ser editada. Fui o responsável pelo projeto gráfico de 32 dos 51 livros que lançamos durante minha passagem pelo IGL, li cada um deles e preparei suas capas e seu projeto de miolo.

A experiência como Jornalista foi fundamental. A passagem pelo IGL me mostrou como é rica a produção literária em Goiás e como é necessário ter instrumentos para dar vazão a toda essa produção. Nos três anos que passei à frente daquele órgão publicamos 51 títulos, e esses foram rigorosamente selecionados a partir de, pelo menos, 2500 obras inéditas que foram submetidas a julgamento. Tive o prazer de publicar 27 escritores inéditos, inclusive o seu primeiro romance “Hirundo Medicinalis”. Infelizmente o trabalho do IGL não teve continuidade e hoje aquele instrumento encontra-se desativado. A Bolsa de Publicações Cora Coralina, de tanta tradição, também se encontra desativada, é uma pena.

Hoje temos publicação de obras literárias através das coleções da Secretaria Municipal de Cultura e através das leis de incentivo estadual e municipal — pela qual inclusive “Lygia Entre os Dragões” está sendo publicada. São mecanismos importantes mas vejo que é necessário, por exemplo, criar espaços para a seleção rigorosa e a publicação dos autores inéditos, como fizemos no IGL, isso valoriza o novo autor e ajuda a projetá-lo e consolidar sua vocação.

Pergunta
 – Seu livro “Contos de Solibur” foi premiado com a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, em 1993. Acredito que o tom da obra, marcado pela erudição e fantasia, remete diretamente a dois mestres: Jorge Luis Borges e J. R. R. Tolkien. Pensando um pouco na Terra Média e no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, podemos afirmar que você almejou “construir um mundo” ao criar Solibur de maneira tão complexa, com história, geografia, lendas e tradições?
Itamar – A ideia de criar um mundo sempre me fascinou. Aos 19 anos, quando li justamente “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” de Borges me senti meio roubado: puxa, olha aí o que eu queria fazer! Depois, em 1982, li uma edição incrivelmente ruim do “Senhor dos Anéis”, de Tolkien, aí sim caiu a ficha: a criação do mundo já havia sido realizada! Ora pois! Então o que fazer: recriá-lo, era a questão óbvia. “Contos de Solibur” insinua essa existência paralela, de um mundo, um universo, uma realidade que tem condutos de comunicação com a nossa do dia-a-dia, que nela interfere, que sobre ela se realiza e desdobra. A mesma temática está presente também em meu segundo livro de contos “Histórias da Terra Vazia”, de 2008, e também no atual “Lygia Entre os Dragões”.

A diferença é que na primeira obra eu ainda não tinha situado claramente os cenários em que as histórias se desdobram, poderia ser em qualquer lugar, mas tanto em “Terra Vazia”, quanto em “Lygia” o cenário é esse mesmo em que vivemos: a cidade de Goiânia. O Edival Lourenço escreveu o prefácio de meu romance e caracterizou bem um de seus elementos: os labirintos desapercebidos. Vivemos uma realidade muito mais complexa que o ramerrão do dia-a-dia, somente não nos damos ao trabalho de percebê-la em profundidade e esse é o campo da literatura. Borges diz em algum de seus contos, e talvez, borgianamente, eu esteja inventando isso, que Deus só pode criar o paraíso e que nós é que não nos percebemos estar no paraíso.

Esse é aliás um dos temas, uma das perguntas de “Lygia Entre os Dragões”: será que nossa liberdade, enquanto seres humanos, se reduz a não ver a plenitude do universo, do paraíso, como queiram, e ir edificando, pedra a pedra, crime a crime, outra coisa senão o inferno? A edificação do inferno é a obra da humanidade? Não creio nesse tipo de fatalismo, mas a questão da liberdade humana e da responsabilidade humana por todos seus atos é fundamental para a edificação de uma ética que se baseie na liberdade e não coação ou em promessas de um futuro paradisíaco.

Pergunta – Você é membro fundador de duas academias de letras, a Aparecidense e a Goianiense. Na primeira ocupa a cadeira número 2, cujo patrono é o poeta Afonso Félix de Sousa. Na Academia Goianiense sua cadeira é a 26, patroneada por José J. Veiga. É o acadêmico-fundador que indica o patrono? Se sim, qual sua relação com as obras desses autores?
Itamar - Afonso Félix de Sousa é um poeta ao qual admiro muito. Vigoroso, com veio político e forte reflexão passional, já José J. Veiga é um escritor com o qual me identifico muito. A fusão do fantástico com a realidade que ele fazia é, em certo sentido, a mesma que me proponho a fazer. O cenário muda totalmente: ele trabalhava a ambientação da pequena cidade do interior, do campo; eu, que não tenho nenhuma vivência naquele tipo de realidade, situo minha ficção na grande cidade, no ambiente puramente urbano. Veiga, Miguel Jorge e Heleno Godoy estão entre os prosadores goianos com os quais mais me identifico.

Pergunta - A fundação da Academia Goianiense de Letras em 2005, a despeito de uma tentativa de instituí-la na década de 1970, causou polêmica. O motivo seria porque misturava escritores conhecidos com pessoas consideradas diletantes. Tendo passado mais de cinco anos, como estão os trabalhos da AGnL?
Itamar - Atualmente a AGnL é presidida por uma pessoa extremamente capaz e dinâmica que é a escritora Malu Ribeiro. Ela já conseguiu uma sede própria, mantém um site bem elaborado de divulgação da Academia e tem desenvolvido todo um esforço para consolidar definitivamente aquela instituição. É uma instituição que tende a crescer e a se tornar relevante para a cultura em Goiás, é claro que isso vai depender dos projetos que venha a desenvolver, mas vejo o quadro com otimismo.

Pergunta – Você está lançando o romance “Lygia Entre os Dragões”. Trata-se de um romance histórico estilizado. A narrativa não é linear e o cenário é a cidade de Goiânia, do presente e do passado recente, destacando-se a luta pela redemocratização. Afora a pesquisa histórica que realizou, existe algum resquício autobiográfico no livro? Suas memórias pessoais, suas lembranças de adolescente, ajudaram na composição do texto?
Itamar - As paixões ajudaram muito. A paixão pela fotografia, que está no núcleo de uma das histórias; a paixão pelos livros, pela música, pelos cenários da cidade de Goiânia. Como você disse são vários planos narrativos que se intercalam e vão construindo o texto. Miguel Jorge, grande amigo e crítico arguto, escreveu a orelha de “Lygia Entre os Dragões” e observou que seus capítulos se estruturam quase como ensaios autônomos que tem um personagem como centro.

O primeiro plano narrativo se passa nos dias atuais, caso alguém faça as contas verá que decorrem exatamente 40 dias do início da ação até seu desfecho. Esse plano é dominado pela busca por uma explicação para alguns objetos inusitados que são encontrados pelo personagem que narra todo o livro, Alberto Alves, e tudo se move por outra busca, mas profunda e terrível: a tentativa de compreender o suicídio da mulher amada. Outros planos narrativos se desdobram na memória. Há também cenários da Goiânia dos anos 50 e 60.

Algumas das principais ações se dão no momento do lusco-fusco da ditadura militar, em 1979, quando a anistia já trouxera de volta os exilados e libertará os presos políticos, mas quando os grupos de extrema direita ainda se aventuravam em atentados e ações para apagar seus rastos. Há planos narrativos que se desenvolvem inteiramente naquela outra realidade, paralela ou alternativa, como queiram, e cuja influência é tremenda em todos os outros planos. Inevitavelmente usei todo o arsenal da memória pessoal da era final da ditadura, e também busquei muita colaboração de gente que viveu em Goiânia nos anos 50. Uma pessoa importante nesse sentido foi meu grande amigo Eduardo Benfica, que faleceu em 2006. Benfica terminou virando personagem do romance, ele achou graça quando mostrei o trecho em que ele aparece, e graças a Benfica fiquei sabendo qual era exatamente a aparência do ilustre fotógrafo Jean Luc Carpentier, um borgiano pioneiro da fotografia da jovem capital.

Pergunta - Seu estilo prima pela exatidão. Mesmo seu texto estando longe de ser seco, minimalista, como o de um Graciliano Ramos ou Hemingway, as palavras parecem contadas, nada é por acaso. “Lygia Entre os Dragões” é resultado de sete anos de trabalho. Como é seu processo criativo? Reescreve diversas vezes uma mesma página? O enredo está definido quando começa a escrever ou ele sofre mudanças ao longo do processo?
Itamar- “Lygia Entre os Dragões” foi durante anos um conto, mas nunca fiquei satisfeito com aquela condição. Parecia sempre que havia muito mais coisa, que a forma conto não consegue abranger. Suas primeiras versões são do início dos anos 90, depois de muita teima resolvi, em 2004, que não havia outro jeito de enfrentar aquele material senão sob a forma de um romance.
Como eu já tinha definido o rumo geral do romance passei a trabalhar da única forma que me foi possível fazer: através do acúmulo de fragmentos. Uma frase, um trecho, o esboço de um personagem, uma intuição: anotava tudo, transformava aquilo em um fragmento que recebia um número de série para ser depois revisitado, repensado e reescrito. A linha geral era clara, mas seu desenvolvimento completo não, quis manter sempre essa abertura, não planejar demais, não saber demais sobre a história antes que ela se realizasse em sua forma definitiva. Isso permitiu “encontrar” alguns personagens fundamentais: Hanna surgiu de um fragmento desses, e mesmo o Doutor Aquiles veio quase pronto em outro fragmento. A Lygia que dá título ao romance foi a mais fugidia de todos os personagens, não foi fácil caçá-la, apreendê-la.

É claro que um método de construção como este, que se baseia no fragmento e que tem permanentemente aberta a porta da intuição, demanda muito tempo para se consolidar em um texto coerente. Terminei a primeira redação geral deste romance em 2007. Deixei-o descansar por quase todo aquele ano e fui retomar seu trabalho em 2008. Já não era o momento nem dos fragmentos e nem da intuição, trabalhos a quente, mas da racional construção dos vínculos, da estruturação definitiva das partes, da revisão cuidadosa da escrita. Escrever para mim é quase sempre reescrever, sinto um grande prazer em ir explorando um texto, percebendo suas falhas, seus desvãos, suas possibilidades, por isso escrevo lentamente, senão, não tem graça.

P ergunta- “Lygia Entre os Dragões” é um romance, digamos, multimídia. Histórias em Quadrinhos, imagens trabalhadas em computador e mesmo músicas são parte fundamental de sua estrutura narrativa. Você acredita que tais estratégias, que deram outras dimensões ao texto, retirando-o da página impressa, podem ajudar a redefinir o gênero romance para o século 21? Ou pelo contrário, foram elementos explorados exclusivamente nessa obra, não devendo ser estendidos como uma proposta de tendência?

Itamar - “Lygia Entre os Dragões” bebe em muitas fontes de inspiração. Vamos achar reflexões sobre o mal, que tem antecedentes em Santo Agostinho, e também citações da saga de “Jornada nas Estrelas”, a música de Astor Piazzolla e Chico Buarque, nesse sentido é um romance “pop”. Mas não sei se esse é um nome ou definição dos mais apropriados, é também um romance fantástico, histórico, existencial, é mais um romance de “integração”. As fontes são as mais diversas possíveis, da lenda folclórica, à descrição técnica de batalhas, de processos químicos da fotografia, mas tudo serve ao propósito de inteireza do texto.

A música é uma fonte de ritmos narrativos, de climas, de evocação de memórias, de instigamento para que, se o leitor não conhecer aquela peça, que venha a conhecê-la. Isso pode ser sim uma tendência? Não sei. O fato é que hoje em dia não se pode ignorar tudo o que podemos pesquisar pela internet, tudo o que podemos ter de informação quase que instantânea, são elementos, assim como os da cultura “pop”, que podem ser usados no romance, mas não creio que isso seja o fundamental para a literatura. O romance usa esses “traços circunstanciais exigidos pelo leitor moderno” (Borges), como um recurso para capturar alguma coisa que caracteriza esse nosso tempo. Enquanto escritores estamos presos a nosso tempo, mesmo que construindo romances de ficção histórica. A literatura é um fenômeno do tempo histórico e talvez somente ela seja capaz de decifrá-lo em profundidade.

Pergunta - “Lygia Entre os Dragões” é, nitidamente, o trabalho de um autor que conhece as estruturas teóricas da produção do romance, um estudioso da estética literária. Como trazer o conhecimento erudito, quiçá acadêmico, para a produção da obra de arte?
Itamar- A teoria literária, o conhecimento da história da literatura e de suas escolas tudo isso é parte da formação básica do escritor. Não se pode ser ingênuo na literatura. É dever do escritor conhecer seu ofício, como é dever do pintor dominar sua arte, ou do cineasta, do músico. O conhecimento teórico supre bases profundas para o trabalho literário, mas evidentemente não basta para sua realização, a obra de arte é produto múltiplo do conhecimento, da razão, como queiram, e do inconsciente, Palas Athena e Orfeu.

Pergunta - Os dragões são criaturas que assombram o imaginário da humanidade. Podem ser tanto um símbolo positivo, como os dragões elementais do Oriente, quanto negativo, como as bestas mortíferas que herdamos do Ocidente medieval. É correto afirmar que seus dragões provêem de uma reconfiguração do inconsciente coletivo a partir dessa imagem dúbia?
Itamar - Os dragões são para mim um símbolo dialético no qual se unem a representação ocidental do mal consumado e a representação oriental da sabedoria e da força viva. Lygia, a personagem, é, nesse sentido, um genuíno dragão. Não é um personagem-vítima: mulher, jovem, negra, com um destino cruel a cumprir, mas uma força que move todo o romance em seu giro. Os dragões do título vieram já no primeiríssimo momento de construção daquele texto, ainda em sua origem como conto.

Durante o romance são uma representação gráfica, um carimbo de identificação, uma criatura que se aproxima, alguma coisa que não se entende, um desvão. É evidente que ao usar um símbolo de tanta força sempre pagamos o preço devido a seu ancestral uso e abuso, se puder acrescentar uma nuance a mais: o dragão como imagem do tempo que ao mesmo que voa e devora se mantém incólume nas chamas que são ele mesmo, dou-me por muito satisfeito.

>> VERMELHO – por Ademir Luiz 
(entrevista ao Jornal Opção, de Goiânia. Publicada aqui com pequenas mudanças feitas pela redação do Vermelho)


LYGIA ENTRE DRAGÕES
(Trecho de abertura do romance)

“Desde então ela enviava sinais, insinuava sua aproximação, o que, enfim, nos consumiria, mas eu era surdo e cego. Os três cadernos foram um prenúncio, que, como acontece com a maior parte dos prenúncios, só são entendidos depois, muito depois. A morte de Hanna ocupou todo o tempo e o espaço disponível, alongou por uma sensação de meses e anos o que foram dias e semanas, restou provada para mim a estranha afirmação da física de que o tempo depende de seu observador. Para mim ficou claro que o tempo depende da agonia.

De Hanna sobraram as fotos, um atestado de óbito em nome de Hanna Eleanor Rigby de Souza, que nasceu e assim foi registrada e batizada aos 25 dias do mês de abril do ano da graça de 1974, o dia da Revolução dos Cravos, “Grândola vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti ó cidade”. Filha de um pai doido pelos Beatles e por Chaplin, e uma mãe que um pouco se parecia com ela, em tudo uma versão menor e mais tranquila, durável, persistente, terrível, uma canária filha de uma coruja. O fogo gelado dos olhos castanhos de Hanna, nunca mais. “Dentro de ti ó cidade”, enquanto no Brasil se consumia o esgoto escuro da ditadura “que há de durar para além do ano 2000”, se lascando, se fodendo de verde-e-amarelo. Ela nascia, abria o duplo farol de fogo gelado, o fogo castanho dos olhos, que talvez ainda não queimasse como queimara, tanto, tanto.

Nunca mais. Nunca mais a voz grave e, pela manhã, rouca, o riso, e a vontade de voltar para o balé: não. Sonhando com o brilho sobre os palcos, sonhando: não. E nenhuma outra daquelas filmagens bobocas, que consumiam fitas intermináveis de VHS, as quais nem ela tinha paciência para ver. As crises de choro. As agonias. O silêncio espreitando e armado com facas, garras, presas, armadilhas que estalavam em frases curtas e frias, que faziam o exato estrago necessário — não mais. Hanna Eleanor Rigby — ela e todos os solitários, os incuravelmente sós — nunca mais. Never more, dizia o corvo, never more. Pouca gente no enterro, recolhi duas pétalas de rosa, guardei-as no bolsinho da calça — o arroz de um casamento alheio. Adeus. Hanna Eleanor Rigby de Souza, 33 anos, matou-se de medo e silêncio. Um tiro, direto, na cabeça, e que, no entanto, se desviou, ricocheteando e foi se alojar numa posição inoperável, fundo, bem fundo no cérebro, apenas por um capricho sádico da natureza.”

Itamar Pires Ribeiro, goiano, é escritor, poeta e jornalista profissional. Foi Secretário de Cultura de Goiânia e um dos criadores do Fórum Goiano Sobre Cultura; dirigiu Instituto Goiano do Livro (2000-2004); produz e apresenta o programa Constelações, Rádio Universitária, onde produz e apresenta o programa musical Constelações. Como letrista, tem parcerias com Débora di Sá, Du Oliveira, Reny Cruvinel, Gustavo Veiga e Kan Kambay.


3%: PROGRAMA PILOTO DA SÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE

segunda-feira | 13 | junho | 2011

Está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/serie3porcento), dividido em 3 partes, o programa piloto da série de ficção científica 3%, produção da Maria Bonita Filmes dirigida por Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com apoio do programa FICTV/Mais Cultura, do governo federal, a divulgação do piloto visa atrair patrocínio para continuidade da série a ser exibida na TV.

3% foi vencedor da Etapa I do edital de seleção de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TVs Públicas – FicTV / Mais Cultura (MinC), e vencedor da Mostra Competitiva de Pilotos Brasileiros na categoria Séries de Ficção, Festival Internacional de Televisão 2010.

Segundo Jotagá Crema, um dos diretores de 3%, a primeira temporada inteira da série já foi escrita: “estamos espalhando o piloto pela internet na esperança de conseguir um canal de TV interessado em exibir.” Informações detalhadas sobre a série podem ser procuradas no Facebook emhttp://www.facebook.com/3porcento.

A fábula de 3% se passa num futuro próximo cinzento, no qual as pessoas vivem divididas entre duas sociedades muito diferentes. Pressupõe-se que uma sociedade (o “Outrol Lado”), a dos “entrevistadores”, seja sensivelmente desenvolvida, enquanto a outra, dos “entrevistados”, seja extremamente atrasada. Impossível não lembrar da fronteira do México com os EUA ou das antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. O “Outro Lado” é a “terra dos sonhos” para os jovens que vivem em condições supostamente subumanas, porém apenas3% dos candidatos à imigração conseguem aprovação após uma série de testes rigorosos, ora bizarros ou simplesmente estúpidos. 97% fracassam, o que pode significar a própria morte no percurso de provações.

O piloto avança inicialmente sob o ponto de vista de uma jovem candidata. É dela a voz over que comenta e instrui o espectador acerca das peculiaridades de seu mundo. Ao fim do episódio-piloto, porém, essa “protagonista preliminar” está morta. Sua narrativa vai introduzir o que se supõe que sejam os protagonistas “verdadeiros”, um rapaz que fraudou seus documentos para conseguir ser aceito no processo de seleção, uma moça e um rapaz paraplégico. O futuro desses personagens vai depender do sucesso na captação de recursos para a continuidade da série.

3% é uma distopia futurista com ecos de 1984 (1948), de George Orwell, e Nós(1932), de Evgueny Zamiatin, além de um toque dos puzzle films ou séries de TV norte-americanas como Lost. A pouca originalidade do eixo temático é compensada pela promessa de um tratamento tipicamente brasileiro e contemporâneo. O piloto demonstra também a acuidade com que a série parece pretender não só tratar de uma longa tradição no universo da ficção científica (a do embate entre o indivíduo e sociedades tecnocráticas totalitárias), mas também urdir uma curiosa alegoria sobre o fantasma da burocracia que assola a sociedade brasileira desde o descobrimento.

Os cenários são essencialmente cinzentos, quase “monocromáticos”. Os figurinos dos candidatos a imigração lembram o dos trabalhadores do filme Metropolis(1927), de Fritz Lang, por sua vez inspirados nos coros expressionistas. Indivíduos massificados, mecanizados e sem identidade. “Números” vestidos em uniformes minimalistas padronizados. 3% aposta no minimalismo dos cenários, figurinos e diálogos, na intimidade das cenas, proximidade dos personagens. Minimalista também são os diálogos e o roteiro. O piloto acena com a possibilidade de uma série de ficção científica genuinamente brasileira e viável, livre da necessidade de efeitos especiais sofisticados que caracterizam os blockbustersamericanos. Nesse sentido, 3% parece corroborar a minha tese de que uma “terceira via” da ficção científica brasileira ainda seja possível, uma alternativa à “primeira” (a do cinema de grande orçamento, pleno de recursos tecnológicos) e à “segunda” via (a dos filmes B ou, por extensão, trash movies). Centrado num roteiro de suspense, 3% investe na mise-en-scène mais intimista dos espaços fechados e da ação baseada em diálogos.

Rodado com câmeras Red One com capacidade de resolução de 4K (aproximadamente 8 milhões de pixels), 3% é parcimonioso nos planos gerais com grande profundidade de campo, privilegiando closes ou planos mais próximos. Uma opção plenamente compreensível numa produção de recursos modestos que pretende lidar com temática fantástica.
>> CRONOPIOS – por Alfredo Suppia


REBOOT NO UNIVERSO DC – UMA TRAIÇÃO PARA OS VELHOS LEITORES

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A DC Comics decidiu reiniciar toda a sua
linha de quadrinhos, começando em agosto.
Quais as razões para isso e qual a perspectiva
para os velhos DCnautas?

Não é raro que me perguntem por onde começar a ler HQs e a resposta sempre se torna complicada justamente por conta de questões envolvendo continuidade e cronologia, que são os maiores diferenciais dos quadrinhos das grandes editoras americanas. As histórias, via de regra, tem efeito permanente na vida daqueles personagens e devem ser levadas em conta pelos roteiristas que vierem a trabalhar com esse ou aquele título.

Isso acaba por funcionar como uma faca de dois gumes. Por um lado, temos um universo gigantesco de histórias, onde o leitor mais antigo se vê recompensado ao acompanhar por tanto tempo a vida desse ou daquele herói, sentindo que realmente faz parte do cotidiano dele. Por outro, acaba por engessar um pouco os criadores e dificulta a entrada de novos leitores para determinados títulos. 

Ou seja, não foi a troco de nada que a DC anunciou nesta semana que irá realizar em setembro um relançamento em seu universo de heróis, reiniciando todos os títulos publicados desde o número um, aproveitando o gancho da saga “Flashpoint”, publicada atualmente nos EUA. Há alguns anos, a Marvel Comics criou uma linha separada para versões atualizadas de seu panteão, mas manteve também a continuidade clássica. Ou seja, trata-se de a DC adotou um procedimento bem mais radical.

Personagens clássicos serão modificados e atualizados, tanto em seus uniformes quanto em suas histórias. 52 edições serão lançadas ao longo daquele mês, reapresentando os heróis ao público, com um universo redesenhado por novas equipes criativas, chefiadas por Geoff Johns (“Lanterna Verde”) e Jim Lee (“Batman – Silêncio”).

Não é a primeira vez que a editora faz isso. Em 1986, no auge de uma verdadeira balbúrdia que era o Universo (aliás, Multiverso) DC, foi lançada a maxissérie “Crise nas Infinitas Terras”, que enxugou os excessos de versões múltiplas de personagens e deu novas origens a alguns heróis e vilões. O resultado foi que a última história do Superman, “O Que Aconteceu ao Homem de Aço?”, escrita por Alan Moore foi seguida pela minissérie “Superman – O Homem de Aço”, versão de John Byrne para o nascimento do último kryptoniano e que foi a linha-base para os escritores até recentemente. Por sua vez, o Batman teve seu “Ano Um” narrado magistralmente por Frank Miller e David Mazzucchelli.

A questão aqui é que não foram as dobras cronológicas que levaram a DC a realizar esta manobra tão arriscada novamente, mas sim uma necessidade mercadológica. O público que vai sair dos cinemas após uma sessão de “Lanterna Verde” e for atrás de histórias do personagem, provavelmente se assustaria ao ver que teria de ir atrás de mais de 60 edições, mais infindáveis especiais e tie-ins para se inteirar das tramas. O gamer que acabou de zerar “Batman – Arkham Asylum” e que está na pilha para descobrir mais sobre o homem-morcego vai querer abrir uma HQ na qual Bruce Wayne é o Batman.

Interessante notar que a própria DC começou a lançar, em 2010, uma nova  linha de graphic novels chamada “Earth One”, cujo objetivo era justamente lançar versões contemporâneas dos seus principais heróis. Com o reboot na principal, o destino dessa alternativa editorial é incerto, mesmo com o roteirista J. Michael Straczynski (que escreveu o script do filme “A Troca“) tendo afirmado recentemente no Twitter que já estava terminando o roteiro do segundo livro da série “Superman – Earth One“.

Lembremos ainda que a DC agora é “DC Entertainment”, não estando focada apenas nos quadrinhos, mas em um mercado bem mais abrangente. Não é por acaso que, a partir desta mudança, as HQs da editora sairão simultaneamente em papel e em formato digital, oferecendo ao público, além das HQs de modo tradicional, a opção de compra das edições em combos digital + física, ou mesmo apenas as edições virtuais. Essa será uma mudança significativa para o modo de vendagem dos gibis, principalmente em tempos de iPhones e iPads.

Além disso, há outro fator a ser considerado: o processo movido pelos herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, com esse litígio ameaçando quebrar o personagem em dois, tendo em vista que a DC se torna dona de tudo o que veio APÓS a publicação da primeira “Action Comics”, mas os conceitos que tinham naquela publicação, como a capacidade de saltar grandes distâncias e a famigerada “cueca por cima das calças” ainda estão sob disputa. O celebrado autor Grant Morrison, responsável pela fantástica minissérie “Grandes Astros – Superman”será o responsável por revitalizar Kal-El.

No entanto, os fãs do casal Lois e Clark estão em pânico com uma provável dissolução de um dos casamentos mais duradouros dos quadrinhos e com uma possível aproximação entre o Homem de Aço e a Mulher-Maravilha (o primeiro a fazer piada sobre aquela música ridícula ganha uma viagem só de ida para a Zona Fantasma). Para quem já viu o Superman agüentando séculos “na seca” junto à bela Diana por pura devoção à sua amada esposa, será um golpe duríssimo (sem trocadilhos). Bom, pelo menos o Azulão não vendeu o casamento dele para o capeta, como um certo herói aracnídeo da Marvel…

Falando na Princesa Amazona, que teve seu uniforme redesenhado há alguns meses, as mudanças de figurino devem atingir as demais heroínas na DC. A ordem é que maiôs e meias-arrastão fiquem de fora dos guarda-roupas das vigilantes a partir de agora. Chora o nosso conterrâneo, o ótimo desenhista cearense Ed Benes, famoso por mostrar bem certos “detalhes anatômicos” das belas guerreiras em seus trabalhos para a editora.

Os leitores mais velhos – eu incluso – com certeza se sentirão traídos pelo investimento emocional jogado quase que no lixo, após de continuidade desconsiderados com este novo recomeço no Universo DC, sem contar a perda histórica para a já citada clássica Action Comics, que recentemente atingiu sua edição de número 900 e deverá voltar ao um.

Como vimos, há mais em jogo nessa decisão do que o coração de nós, fãs devotados. O que está na balança o próprio futuro financeiro e a rentabilidade dos heróis DC. O que resta para os fãs é rezar que as novas equipes criativas tragam boas histórias com nossos amados personagens, agora repaginados para um novo público.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Thiago Siqueira


“UM NOVO DESPERTAR”: MEL GIBSON SE ENTREGA EM FILME DE JODIE FOSTER

sexta-feira | 3 | junho | 2011

A idéia da marionete que manipula o próprio dono já apareceu em histórias de horror como, por exemplo, em “Magia Negra” (1978), com direção de Richard Attenborough e Anthony Hopkins no papel do boneco. É mais uma edição do tema da criatura que se volta contra o criador, como no clássico gótico “Frankenstein”, ou nas muitas narrativas de ficção científica em que as máquinas se revoltam contra os humanos.

Em variação dessa temática, neste “Um Novo Despertar”, o terceiro filme dirigido por Jodie Foster, o personagem de Mel Gibson sofre uma ruptura psíquica e abre espaço para um alter ego, ou seja, uma extensão de si mesmo que assume o comando da sua existência. Esse “duplo”, que de resto é ele mesmo, toma a forma de um desses bichos de pelúcia que podemos “vestir” como uma luva e, usar os dedos para movimentar a sua boca, enquanto falamos por ele. Um brinquedo que se transformou em personagem de TV em diversas séries infantis, depois de “Vila Sésamo”.

No filme, temos um castor de pelúcia, que Mel Gibson acha numa lata de lixo, momentos antes de tentar o suicídio.

O inusitado é que ele enfia o tal fantoche no braço e não o tira mais de lá, nem para tomar banho ou fazer amor com a esposa, aliás, interpretada com a costumeira competência pela própria Jodie Foster. E passa a se comunicar com as pessoas como se o bicho de pano estivesse falando no lugar dele. Mas claro, todos vêm que é o próprio Mel Gibson que fala, ainda que use uma voz estranha e um forte sotaque britânico para caracterizar o personagem do castor.

Apesar de maluco e bastante tolo, esse procedimento serve a princípio para afastar a depressão e permitir o reatamento da esposa de quem tinha se separado. Só que, ao passar do tempo, ela entra em colisão com essa farsa e tudo se complica.

O filme não segue o percurso costumeiro dos roteiros em que a dramaturgia se mistura com a psicanálise e toma o rumo de uma contundente alegoria da vida em família no mundo ocidental.

Desprovido de todas as bóias salva-vidas que o Actor’s Studio e demais métodos de preparação do ator poderiam oferecer, Mel Gibson se entrega plenamente ao papel, numa atuação em que prova ser um artista de muitos recursos, independente de todas as vacilações em sua carreira.

Não se sabe direito por que motivo o protagonista se acha deprimido, ainda que seja um industrial profissionalmente bem sucedido e bem casado. Mas isso não tem grande importância na trama, fundamentada no desacerto dele com o filho mais velho que o rejeita a ponto de estudar meticulosamente os seus hábitos, só para não repeti-los no cotidiano.

Embora uma melodia chapliniana pontue a trilha sonora, trata-se aqui de um drama sobre o milenar conflito de gerações, em que o filho odeia o pai, que por sua vez odeia o pai e assim por diante. Mas o comando firme e suave de Jodie Foster atenua excessivo peso dessa corrente e mantém o filme em seu prumo, apesar de alguns transbordamentos emocionais.
>> PIPOCA MODERNA – por Luciano Ramos


“GARRA CINZENTA”: A PRIMEIRA HISTÓRIA EM QUADRINHOS DE TERROR DO BRASIL ESTÁ DE VOLTA

sexta-feira | 3 | junho | 2011

Garra cinzenta Ampliada

Se parar para pensar que em 1937 heróis comoBatman e Super-Homem ainda não existiam e que a Marvel nem havia sido fundada, o surgimento deGarra Cinzenta neste ano é nada menos que revolucionário.  Publicada pela primeira vez no jornal paulista A Gazeta, a obra é tida por muitos como a primeira HQ de terror do Brasil, já que traz no personagem-título um vilão insano e maquiavélico com face sinistra semelhante a uma caveira. Considerada uma das obras mais cultuadas, discutidas e pouco conhecidas da história dos quadrinhos no país, de acordo com vários estudiosos Garra Cinzenta  teria influenciado diversas HQs italianas e até a própria Marvel Comics, criada dois anos depois, através de sua exportação para países como México, França e Bélgica, onde fez grande sucesso.

Além do interesse despertado por seu conteúdo – roteiros baseados em filmes norte-americanos e desenhos inspirados no gênero noir -, a lendária história em quadrinhos têm diversos outros pontos intrigantes. Um deles é a identidade de seu autor, que até 2008 se acreditava ser de um jornalista chamado Francisco Armond, mas que na verdade se tratava do pseudônimo de Helena Ferraz de Abreu, diretora da Livraria Civilização e dos jornais Gazeta de São Paulo e Correio Universal. Livro com valor de documento histórico não apenas para os quadrinhos mas para a reconstrução do passado brasileiro, Garra Cinzenta ganha merecida edicação de luxo pela Conrad, já disponível no site da editora por R$ 39,90.
>> OS ARMÊNIOS – por Fone Bone


“AS CRÔNICAS DE IMAGINARIUM GEOGRAPHICA”: ONDE HABITA A FANTASIA

quarta-feira | 1 | junho | 2011

Ser portador de um objeto mágico já fez parte do imaginário da maioria das pessoas. Povoou os mais variados romances em épocas e linguagens distintas. Afinal, é da capacidade humana sonhar com aquilo que mais anseia. Algo que o tire da realidade e liberte a sua imaginação e seus anseios infantis que estão ali, escondidinhos no seu coração.

James A.Owen, na minha opinião, é um captador de sonhos. O seu primeiro livro editado aqui no Brasil da série As Crônicas de Imaginarium Geographica me encantou logo de cara pela beleza da capa. Ao ler a sinopse, assumo que pensei que seria bem infantil, mas ao ouvir as opiniões que estavam rolando pelo meio editorial, resolvi me arriscar e comprei.

Vocês devem estar se perguntando: E aí, Danilo, você não respondeu por que acha o cara bom?! Bom, vou explicar… Quando comecei a ler Onde Habitam os Dragões, comecei a perceber nas páginas desta obra fantástica de fantasia que todos os sonhos de infância ali seriam realizados, durante o decorrer daquela história. Neste livro, (Editora Underworld, 308 páginas) é como se ele pegasse cada referência boa que batia suas asas na minha imaginação infantil, misturado tudo e transformasse em algo único. Simplesmente mágico!

O livro se passa durante a Primeira Guerra Mundial, em Londres. John, um homem atormentado pela sombra da Guerra, recebe um chamado urgente do seu professor de Oxford. Lá, junto com Jack e Charles, ele descobre que seu professor foi assassinado e que o destino deste trio inusitado é de serem os guardiões do Atlas Imaginarium Geographica, um livro poderoso que contém os mapas de todas as terras mágicas e humanas, em todas as dimensões possíveis.

Sem dúvida, foi um dos melhores livros que li no gênero. O autor consegue trazer a magia do infantil para uma linguagem adulta sem parecer piegas. Seu estilo de texto, apesar de conter muito mais elementos mágicos, me remeteu ao lirismo de Coração de Tinta. Ele conseguiu nos presentear por ser ousado – criar a maior miscelânea de personagens de lendas e contos de fada que eu já vi! E para nossa alegria, conseguia manter uma linha de linearidade singular.

Temos o grande Rei Arthur, capitão Nemo com o seu grandioso Náutilus e a Caixa de Pandora em um mesmo ambiente, sem que o leitor ache absurdo em nenhum ponto. O ritmo em nenhum momento se torna cansativo e o texto é dinâmico e rico em detalhes. Os personagens principais, o nosso trio de humanos, crescem no decorrer das páginas, não com a certeza de suas missões, mas como qualquer pessoa normal, sentindo o peso nas costas de uma responsabilidade tamanha que não sabem se vão aguentar vencer esta jornada.

Toda grande história não pode deixar de ter um grande inimigo – este é o Rei Branco. Ele quer ser o Grão-Rei do Trono de Prata e governar todos os mundos, que antes era governado apenas pelos herdeiros de Arthur. E junto com um exército de monstros, ele quer dominar tudo! Como todo vilão deste gênero ele é frio, maldoso e sarcástico. O perfeito cara ruim que tínhamos medo de que pegasse nossos pés debaixo da cama nas noites de chuva.

Muitos leitores podem se perder em meios a tantas referências, mas não se desespere. No final, tudo se explica… E por falar nisso, que final! Este é o livro que nunca me cansarei de recomendar, não leia as últimas páginas antes da hora, por favor! Os bookaholics de plantão vão se deliciar a esta homenagem mais que merecida ao nosso universo literário…

Não ousem perder a chance de mergulhar neste universo mágico! Uma homenagem à fantasia que só um mestre poderia tecer!
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Danilo Barbosa


WARNER FARÁ FILME DE FICÇÃO CIENTÍFICA SOBRE O FACEBOOK

quarta-feira | 1 | junho | 2011

n385836A Warner Bros. irá adaptar para o cinema o romance inédito “The Future of Us”, de Jay Asher e Carolyn Mackler.

A trama, ambientada em 1996, acompanha uma garota que, ao acessar a internet pela primeira vez, descobre o seu perfil no Facebook de 15 anos no futuro. Depois da descoberta, a jovem e sua melhor amiga terão que escolher entre se encaixar com as suas vidas sugeridas pelo Facebook ou ignorá-las completamente.

O livro em questão só será lançado em novembro nos EUA. O filme ainda não tem roteirista ou diretor, mas claramente virá atrelado ao sucesso de público e crítica de “A Rede Social” (2010), sobre os estudantes universitários que conceberam o Facebook.
>> PIPOCA MODERNA – por Caio Arroyo


INDICAÇÕES FANTÁSTICAS: “CYBER BRASILIANA”, DE RICHARD DIEGUES, ESTREIA NOVO PROGRAMA

segunda-feira | 23 | maio | 2011

A escritora Carol Chiovatto colocou no ar na Revista Fantástica sua nova coluna: INDICAÇÕES FANTÁSTICAS.

Trata-se de um projeto que pretende indicar livros em forma de resenha/entrevista em vídeo com os autores dos livros.

Os vídeos terão periodicidade quinzenal, alternando com textos.

Indicações Fantásticas 01


ASSEMBLEIA ESTELAR”, MARCELLO SIMÃO BRANCO

segunda-feira | 16 | maio | 2011

Pode ser que eu esteja enganado, mas tenho a impressão de que já houve época em que os contos de ficção científica eram mais presentes no Brasil. Claro, já tivemos algumas revistas dedicadas ao gênero, o que facilitava as coisas, mas os livros com contos também eram mais numerosos.

E é bom que se diga que alguns dos melhores momentos da ficção científica estão nos contos, sem desmerecer os imensos volumes que vêm sendo produzidos ultimamente, às vezes em trilogias, quadrilogias e outras “gias” – alguns com histórias realmente espetaculares.
Hoje, uma das editoras que tem se dedicado à publicação dos contos do gênero é a Devir, que apresenta agora esteAssembleia Estelar, que comprova que tamanho não é documento, fazendo uma coletânea excelente do que foi chamado pelo editor de “histórias de ficção científica política”, com autores brasileiros e estrangeiros.

E o livro já inicia muito bem, com uma introdução de 26 páginas, “Afinidades Eletivas Entre Ficção Científica e Política”, escrita pelo editor Marcello Simão Branco, que por si só já valeria o livro. Ele não só apresenta algumas definições e características da política, como estabelece a relação entre ela e a literatura de ficção científica. Além disso, elabora um painel histórico das obras que circulam direta ou indiretamente pelo subgênero “fc + política”, o que mostra, entre outras coisas, a abrangência do gênero e a facilidade com que transita pelos mais variados temas.

E variadas também são as abordagens fornecidas nos contos do livro, o primeiro deles, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, escrito pelo português Luís Filipe Silva, já conhecido dos fãs de fc no Brasil, em particular pelos excelentes Galxmente e Terrarium (escrito com João Manuel Barreiros). Aqui, ele imaginou um futuro com um sistema de votação que se aproximasse da perfeição, exatamente por dispensar tanto os políticos quanto seus discursos vazios, centrando-se em resoluções baseadas na lógica e na real necessidade da nação e seus habitantes.

O segundo conto é “Anauê”, do brasileiro Roberval Barcellos. Para quem ainda não sabe, “anauê” era a antiga saudação dos integralistas brasileiros. Barcellos segue um tipo de história do gênero que se tornou bastante comum entre os escritores nacionais. Imagina que, em determinado momento da história, certos acontecimentos levaram-nos em outra direção. No caso, os integralistas de Plínio Salgado derrubaram o governo de Getúlio Vargas, estabelecendo uma aliança com os nazistas, que venceram a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, o autor desenvolve o que teria sido a sociedade brasileira do futuro nos anos 1980.

Também está presente na coletânea André Carneiro, um dos mais importantes escritores do gênero no Brasil, com o conto “Gabinete Blindado”, que remete aos anos da ditadura militar no País, contado por uma personagem em forma de memórias resgatadas, entremeadas a dúvidas e lembranças emotivas.

Roberto de Sousa Causo apresenta o conto “Triunfo de Campanha”. Causo é um dos nomes mais importantes do cenário da fc nacional, e costuma utilizar muito bem o ambiente militar para compor suas histórias, e aqui não é diferente. O conto faz parte de uma série de aventuras com o personagem Jonas Peregrino, numa galáxia cada vez mais povoada e colonizada por humanos. A história não traz qualquer ação militar propriamente dita, mas o envolvimento de militares nas tentativas de políticos em dominarem o ambiente, após o aparente e inexplicável término de uma guerra contra uma raça alienígena. A história trabalha muito bem com a forma pela qual os políticos utilizam figuras públicas, famosas, para atingir seus objetivos.

“Diário do Cerco de Nova York” foi escrito por outro dos excelentes escritores brasileiros do gênero, Daniel Fresnot, autor do sensacional livro A Terceira Expedição (1987). Cenário e narrativas excelentes que, apesar de se situar em Nova York, poderia perfeitamente ser aplicado para qualquer grande cidade do Brasil, nas quais alguns dos mesmos problemas se verificam. O centro do conto é, na verdade, a estupides humana e a facilidade com que políticos tomam decisões que afetam profundamente a vida de milhões de pessoas, sem sequer pestanejar. No caso, um prefeito de Nova York, insatisfeito com os pesados impostos que a cidade tem de pagar ao governo federal – tal como ocorre no Brasil – decide revoltar-se. Com o apoio da população, a revolta resulta num confronto armado com tropas federais.

“Saara Gardens”, de Ataíde Tartari, apresenta um mundo globalizado no qual os interesses econômicos das grandes corporações continuam tendo mais importância, utilizando-se dos políticos como ferramentas para obter o que desejam. No caso, é a transformação do deserto do Saara num verdadeiro jardim, abrindo caminho para uma especulação imobiliária como jamais se viu. Existem referências bem claras ao nosso famoso “jeitinho” de se fazer as coisas, com favorecimentos e negociatas envolvendo empreiteiras.

O conto de Miguel Carqueija – outro dos grandes nomes da fc nacional, surgido na chamada “segunda onda” do gênero no Brasil – apareceu originalmente no famoso fanzine Somnium, no final do anos 1980, compondo um cenário possível para o País no início do século 21, com, bastante ironia. Nesse futuro imaginado, tornou-se comum o assassinato de figuras políticas, com a população cansada de esperar que os políticos resolvessem os problemas da nação como deveriam, sem se envolver em escândalos atrás de escândalos.

Fernando Bonassi talvez seja mais conhecido como o autor dos roteiros dos filmes Lula, o Filho do Brasil e Carandiru, entre outros, mas também tem participação ativa no gênero. Aqui ele apresenta “A Evolução dos Homens Sem Pernas”, publicado originalmente numa antologia francesa, em 2009. Trabalha, com muita ironia e sarcasmo, com a possibilidade de mutações ocorrerem nos humanos a partir da evolução de algumas tecnologias, utilizadas sem qualquer controle. Interessante, também, que o conto é narrado no passado, dando um certo tom de conto de fadas.

Em “A Pedra que Canta”, vemos novamente Henrique Flory, que surgiu na fc nacional nos final dos anos 1980, com obras sensacionais que chamaram a atenção da crítica, antes de interromper sua produção do gênero e se dedicar a outras atividades profissionais. O conto foi publicado originalmente numa coletânea com o mesmo titulo, em 1991, e aqui ele traz uma nova versão da história de um conflito que se intensifica entre Brasil e Argentina, no ano de 2018. É uma boa oportunidade para quem ainda não conhece a obra do autor.

A excepcional escritora Ursula K. Le Guin tem publicado seu conto “O Dia Antes da Revolução”, escrito com sua capacidade habitual, mas que deverá ser melhor entendido por aqueles que conhecem seu livro Os Despossuídos (1974), uma vez que traz personagens e eventos que antecederam a história narrada na obra, que apresenta uma sociedade anarquista “quase” perfeita. O conto segue as lembranças íntimas de Laia Odo, a principal líder da revolução anarquista que mobiliza o planeta Urrás, momentos antes da rebelião se alastrar.

“O Grande Rio”, de Flávio Medeiros Jr., é uma excelente história de viagens no tempo, com ação iniciando-se num momento futuro de uma Terra alternativa, na qual o presidente John F. Kennedy não foi assassinado. Isso provocou uma alteração significativa no planeta, e para pior, de modo que um viajante tenta reverter a situação viajando no passado, mas encontrando inúmeras dificuldades.

Já bem conhecido do público de fc no Brasil, Orson Scott Card tem o conto “O Originista”, que tem como atração principal o fato de se situar no universo da série Fundação, de Isaac Asimov. Originalmente, foi publicado na antologia Foundation’s Friends (1989), no qual vários escritores elaboraram histórias baseadas no universo criado por Asimov. Até mesmo Hari Seldon está presente no conto, que centra-se no cientista Leyel Forska e sua esposa Deet, também cientista, e o envolvimento de ambos na construção da Segunda Fundação, detalhando as intrigas políticas existentes no gigantesco planeta Trantor, o centro do Império. É o conto mais longo do livro, e uma delícia; dá vontade de ler Fundação novamente.

“Questão de Sobrevivência” é de um dos autores mais atuantes e respeitados da fc nacional, Carlos Orsi. O conto foi publicado originalmente na revista Sci Fi News Contos, em 2001. Imagina a cidade de São Paulo no ano 2030, com uma crise social sem precedentes, que levou o centro da cidade a se transformar num acampamento de desfavorecidos, sofrendo com as consequências de um ataque anterior. Uma doença impede o aleitamento materno e crianças nascem com deformidades, mas uma empresa desenvolveu uma forma de “limpar” o leite, que revende a preços exorbitantes, mas apenas para os “favorecidos”. É um cenário terrível e desenvolvido com imensa competência.

Fechando o livro, o conto “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, de Bruce Sterling, uma das figurinhas carimbadas da fc a partir dos anos 1980, sempre associado ao desenvolvimento do subgênero cyberpunk, ao lado de William Gibson. Aqui, ele compôs um cenário futuro em que o mundo islâmico se expandiu, e os EUA se tornaram um país com imensos problemas econômicos. E o contraste entre as sociedades é apresentado na narrativa de uma visita de um jornalista árabe aos EUA, onde pretende entrevistar um famoso cantor de rock, que também é um político em ascensão.

Trata-se de uma obra interessante, sempre instigante, e uma boa oportunidade; para aqueles que ainda não têm muita afinidade com a produção nacional de ficção científica, de conhecer alguns dos principais autores; para os que já conhecem, confirmar a altíssima qualidade da produção literária brasileira de ficção científica.
>> VIMANA – por Gilberto Schoereder


“VISÃO ALIENÍGENA”: ASSEMBLEIA ESTELAR

segunda-feira | 16 | maio | 2011

Com Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Devir Livraria, 400 pág.), Marcello Simão Branco organizou uma antologia de textos variados e interessantes, ressaltando a FC brasileira em vez da estrangeira, já que dos catorze autores só três são americanos – Le Guin, Card e Sterling -, se bem que estes estão entre os mais conscientes de diferenças culturais e perspectivas mais internacionais.

A introdução da antologia abrange a história da FC como a “literatura de mudança”, para usar a frase de James Gunn (autor não citado pelo organizador), e oferece um bom panorama do gênero desde suas origens em Platão com A República, passando por Thomas More e sua “utopia”, para chegar aos tempos modernos. Partindo da tradição política, Branco associa obras de FC com vários eventos históricos, como a revolução soviética, as guerras mundiais e a guerra fria, citando autores de diversas tendências como Heinlein e Pohl, até as modernas ou pós-industriais. Além do mais, apresentam-se as vertentes mais críticas como as do feminismo, ecologia e cyberpunk, esta última, curiosamente sem definir e sem mencionar William Gibson, um dos mais influentes autores docyberpunk.

O panorama de tendências brasileiras oferece uma meta-história do gênero, passando por etapas satíricas, eugenistas, aventureiras, e utópicas que apareceram entre o final do século 19 até os anos 40 do século 20. Na história da FC mais contemporânea, passa por fases da Primeira Onda dos anos 60, para as distopias de autores dos 70 protestando contra o regime militar, para chegar à Segunda Onda a partir dos anos 80. Segundo Branco, entre os tópicos políticos abordados por esta geração há políticas relacionadas à região amazônica, divergências históricas em forma de histórias alternativas, e visões mais pessimistas ou satíricas como as de autores cyberpunks. Porém, omite-se a menção da Terceira Onda, que só surge na apresentação do conto do escritor Flávio Medeiros, uma geração que focaliza assuntos e perspectivas mais internacionais.

A introdução de Branco tem um propósito duplo: oferece uma ampla visão do gênero ao mesmo tempo que serve para explicar a trajetória da FC brasileira desde o século 19 até a atualidade. Isto preenche as lacunas porque a perspectiva da antologia não é de oferecer textos representativos de várias épocas nem de ilustrar tendências específicas; ao invés, quase todos os textos são contemporâneos de 2010. O que falta na introdução é uma justificativa ou discussão da escolha ou princípio organizador dos mesmos. Por isso, a ordem dos textos parece aleatória, mudando de assunto e de época sem transição. O editor afirma que seguiu o modelo de Asimov em Election Day 2084 (1984), dizendo que esta coletânea “inspirou a organização deste que você tem nas mãos”, mas não elabora mais. Por isso, tentarei uma organização temática própria, sem seguir a ordem do índice.

Ditadura e Rebelião

A época da ditadura é lembrada em textos da guerrilha e a luta esquerdista. A evocação da ditadura está presente no conto “O Gabinete Blindado” de André Carneiro, mas de forma subjetiva porque é narrado por uma jovem lutando contra um regime repressor. A militância e a liberação sexual evocam os anos 60, época da militância do próprio autor. Portanto, o interessante do texto recai justamente no uso de uma voz narrativa feminina, técnica utilizada nesta e só em mais uma história, a de Ursula K. Le Guin, “O Dia Antes da Revolução” (1974). O conto da autora americana é sobre uma militante anarquista que, na terceira idade, se lembra da sua juventude e sua vida de luta. Mesmo à beira da morte, ela lembra que a revolução é um processo que continuará com ou sem ela. A evocação subjetiva de experiência política é convincente nestes contos, que trazem finais ambíguos ou abertos para especulação, em contraste com os outros da coletânea.

Redemocratização

Entre os tópicos abordados pelos autores brasileiros está a da redemocratização. No texto do autor português Luís Filipe Silva, “Queda de Roma, antes da Telenovela”, o idealismo democrático e grandes metas políticas estão mortos. Sem memória da luta contra regimes ditatoriais, a televisão toma conta de tudo. Em “Trunfo de Campanha,” Roberto de Sousa Causo lida com o problema ético de um herói de guerra pressionado para participar da política galáctica, enquanto em “Saara Gardens”, Ataíde Tartari imagina uma eleição que determinará o futuro do deserto do Saara num contexto global. A corrupção ou manipulação política brasileira agora aparece num palco mais amplo. No caso de Causo, existe um fim menos cínico do que as histórias de Silva ou Tartari, mas todos questionam o futuro da política brasileira e sua possível expansão.

Distopia e as Políticas Neoliberais

A distopia e o futuro pesadelo também florescem com a época do neoliberalismo em meados da década de 80 e o início de 90, como vemos no caos político dos contos de Fresnot, Flory e Carqueija. A noveleta “O Cerco de Nova York” (1984) de Fresnot evoca o tema de desastre urbano na metrópole americana, onde um político populista inspira rebelião nos habitantes de Nova Iorque. Embora esta política caiba melhor no centro conservador dos EUA e não em uma cidade cosmopolita, o diário do visitante francês em busca de solidariedade e sobrevivência lembra as imagens do atentado real das torres do 11 de setembro. Em “A Pedra que Canta” (1991, atualizado em 2011) de Flory, temos outro futuro de pesadelo com o Brasil em guerra contra a Argentina. Aqui a manipulação de um jovem para assegurar uma vitória brasileira contra o velho inimigo, alude ao romance O Jogo do Exterminador (1983) de Orson Scott Card, só que o jovem brasileiro tem um “implante” feito no Japão. O fato de que o Paraguai tem um líder e investimento chineses pode se referir ao novo poder econômico asiático do século 21, e a pressão para uma vitória política e econômica do Brasil contra a rival Argentina. O conto de Carqueija, “Era do Aquário”, também lida com o nacionalismo, mas de forma abertamente irônica: um senador brasileiro, após ter sofrido vários ataques durante um breve trajeto de carro no Rio de Janeiro, fala ante uma platéia universitária para falar do triunfo da democracia do “país do futuro”, numa extrapolação da política neoliberal que só consegue dividir em vez de unir a população.

Histórias Alternativas

Duas histórias alternativas, uma sobre os integralistas no Brasil e outra sobre John F. Kennedy, são textos que continuam um movimento importante da Segunda Onda da FC brasileira. Em “Anauê”, Roberval Barcellos oferece o dilema moral do protagonista diante as ordens dos nazistas a respeito da população judaica no Brasil. O precipitado final do conto não evoca o mesmo realismo que o início, mas o conto aborda um tema relativamente tabu dentro dos estudos históricos e literários: o fascismo brasileiro. Em “O Grande Rio”, Flávio Medeiros explora uma viagem no tempo para matar o presidente Kennedy, evitando assim um futuro pesadelo que resulta da sua sobrevivência. Como escritor da Terceira Onda de FC, Medeiros ambienta sua história de conspiração inteiramente nos EUA, como admirável pesquisa, só errando a ortografia de John Connely (que deve ser Connolly).

Império

A futura sociedade baseada no consumismo é o tópico do conto “A Evolução dos Homens sem Pernas” de Fernando Bonassi. Ensaístico e abstrato, o conto elabora em página após página, como o constante consumo de bens leva à desumanização. Estes novos humanos deformados lembram os excessos de uma sociedade consumista e politicamente correta. Quase um quarto da antologia se dedica a um só texto: “O Originista” (1989) de Orson Scott Card, que utiliza personagens da série Fundação de Asimov. Mas o texto de Card trata menos de golpes da política imperial e mais da relação íntima do protagonista e sua mulher e da sua busca para garantir o futuro da humanidade após a queda inevitável do império.

Cyberpunk

Não é à toa que os últimos contos sejam de cyberpunk – um brasileiro, outro americano – sendo estes os mais críticos e chocantes da antologia. O conto de Carlos Orsi, “Questão de Sobrevivência”, parece o protótipo de FC política brasileira, não só no assunto, mas também na sua ambientação, num futuro Vale de Anhangabaú poluído, cheio de indigentes, onde a luta de classes, a questão ambiental, e o controvertido uso do leite humano lembram o melhor da FC ambiental dos anos 70 e 80, junto com uma visão cyberpunk de rebeldia. O conto de Bruce Sterling “Vemos as Coisas de Modo Diferente” (1989), explora a visão de um muçulmano em um EUA futuro já em plena decadência. Como não é de surpreender, o protagonista/narrador realiza sua jihad, mas de forma particular, sutil e insidiosa, desde sua perspectiva ou visão do mundo.

Uma crítica da antologia seria a falta de participação de mulheres, com a exceção de Le Guin. A antologia de Asimov não tem nenhuma escritora, como também se vê nas novas antologias recentes de Steampunk, Vaporpunk e Dieselpunk. Que eu saiba, até agora Lugar da Mulher É na Cozinha, antologia organizada por Martha Argel, é a única que traz só escritoras. Até a imagem da capa deAssembleia Estelar retrata três oradores masculinos, um homem branco, um homem de cor, e um robô masculino, com umas mulheres na plateia. Eu também teria gostado de ver incluído contos como “Guerra Civil” (1997) de Domingos Pellegrini. Nesta história, grupos de cachorros começam a atacar populações humanas, mas talvez não se trate de FC propriamente dita mas uma alegoria política. Existem pequenos erros ortográficos dos nomes John Wyndham, Cyril M. Kornbluth, Herberto Sales e China Miéville, mas fora isto, a edição é boa.

Em geral, Branco oferece uma sólida orientação sem ser pedante na introdução, e também nos resumos e nas biografias que antecedem os contos. Com os temas de redemocratização, mundos distópicos, histórias alternativas, caos urbano, consumismo, e tecnologia, esta antologia pode repercutir tanto para o leitor experiente, quanto ao iniciante no gênero. Representa uma antologia para provocar discussão entre fãs, leitores comuns e até entre alunos em sala de aula.

–M. Elizabeth Ginway leciona na University of Florida. Uma das maiores especialistas na ficção cientíifica do Brasil, é autora de Ficção Científica Brasileira e Visão Alienígena.
>> TERRA MAGAZINE – por M. Elizabeth Ginway


RAPHAEL DRACCON LANÇA LIVRO EXCLUSIVO EM PORTUGAL

sexta-feira | 13 | maio | 2011

O autor brasileiro Raphael Draccon, 29 anos, da trilogia de fantasia Dragões de Éter (Editora Leya) lançou o livro Espíritos de Gelo, criado exclusivamente para GaiLivro de Portugal.

Raphael  é o primeiro autor da nova geração brasileira de ecritores de fantasia a publicar na Europa. A proposta da editora é montar uma série de terror inspirada em lendas urbanas, com livros e preços populares (€ 7.90) e com um design estilo “old school”.

O livro faz parte de uma nova coleção intitulada “Mitos Urbanos” que a editora portuguesa desenvolveu, e foi apresentado na Feira do Livro de Lisboa (http://www.feiradolivrodelisboa.pt/) no espaço LeYa. O evento contou com a presença do autor portugues Fernando Ribeiro, um dos autores portugues dessa coleção. No evento também foi transmitido um vídeo do Raphael contando um pouco sobre o enredo do livro e sua carreira até o momento.

A Gailivro já publicou em Portugal títulos como Crepúsculo e Eragon.


Sobre o livro:
Um homem acorda acorrentado com os braços para cima em uma sala escura, com dois torturadores vestidos com detalhes masoquistas ao lado e um interrogador baixinho, com a cabeça desproporcional ao corpo, vestido com roupas sociais e uma camisa surrada do Black Sabbath.

Eles o informam que ele acordou em uma banheira sem um rim e sofreu um choque amnésico, que o impede de lembrar os detalhes. Assim sendo, eles partem do princípio de que outros choques traumáticos podem desbloquear essas memórias, se necessário. E em meio ao interrogatório, se iniciam as piores partes.

O livro faz referências à lenda urbana da banheira de gelo, às lendas ao redor da história do rock’n roll e até às motivações e psicologia ao redor da própria criação de lendas desse tipo.


“GAME OF THRONES”: PRODUZINDO “GUERRA DOS TRONOS”

segunda-feira | 9 | maio | 2011

A mais nova superprodução da TV estreou nos EUA e no Brasil pela HBO cercada de muita publicidade e expectativas. Registrando cerca de 2.2 milhões de telespectadores, nos EUA, “Game of Thrones” repetiu o feito de outras séries do canal ao ter sua produção renovada para sua segunda temporada, com a exibição de apenas um episódio. Não que existisse alguma dúvida a respeito de sua continuidade, afinal, dificilmente o canal cancelaria uma série em sua primeira temporada após o investimento de cerca de 60 milhões de dólares para se produzir os primeiros dez episódios.

Desde que foi anunciada em 2008, a produção deixou claro que sua intenção é produzir, pelo menos, quatro temporadas. O equivalente aos quatro primeiros livros de George R.R. Martin, da série “A Song of  Ice and Fire”. O autor já tem o quinto volume pronto para seu lançamento em julho de 2011, sendo que a série literária deverá ter um total de sete volumes.

O reino de Westeros surgiu da vontade de Martin em se afastar da televisão, veículo para o qual escreveu diversos roteiros para séries. O autor foi roteirista e produtor de “Além da Imaginação” e “A Bela e a Fera”, ambas da década de 1980. A primeira apresentava uma nova versão da visão de Rod Serling para as fantásticas possibilidades proporcionadas pela ficção científica, enquanto que a segunda era um conto de fadas moderno, sobre o amor impossível entre uma criatura meio homem meio fera, e uma advogada vivendo em Nova Iorque.

Apesar do sucesso que as duas séries conquistaram na época em que eram exibidas, Martin decidiu se afastar desse meio. O motivo era simples: na TV seu trabalho estava limitado a um orçamento, a um formato de produção e a uma censura. Pensando em criar um universo povoado por diversos personagens, situados em cenários grandiosos, vivenciando uma trama repleta de reviravoltas, Martin escreveu o livro “Game of Thrones” que introduz o leitor ao reino de Westeros.

Publicado em 1996, o livro atraiu o interesse de um público ávido por esse tipo de história. Recebendo prêmios, a obra começou a despertar o interesse de Hollywood, principalmente depois que “O Senhor dos Anéis” fez sucesso. Mas Martin recusava-se a autorizar que sua obra ganhasse uma adaptação cinematográfica. Para ele, um filme não conseguiria reproduzir o conteúdo do livro. Para que Hollywood pudesse adaptar sua obra, os estúdios teriam que se comprometer a produzir, pelo menos, 27 filmes. Algo impensável.

Até que, por volta de 2007, a HBO começou a negociar com o autor uma adaptação de sua obra, com o objetivo de transformá-la em uma série de TV. Buscando investir em produções ousadas, o canal propôs ao autor adaptar cada livro em uma temporada de, inicialmente, 12 episódios (posteriormente foram definidos 10 episódios por temporada). Considerando esse formato mais adequado para contar sua história e levando em consideração a fama conquistada pelo canal com produções como “Deadwood”, “A Família Soprano” ou “Roma”, Martin aceitou a proposta.

Produzido em parceria com a Management 360, o projeto ganhou a encomenda de um episódio piloto para avaliação. Pura formalidade, visto que a decisão de se produzir uma série já estava tomada. No entanto, a produção sofreu um revés. Entre 2007 e 2008 ocorreu uma greve dos roteiristas americanos que paralisou Hollywood ao longo de quatro meses. Com isso, a HBO precisou adiar a produção de “Game of Thrones”, a qual somente teve início em 2009. Em março de 2010, o canal anunciou a encomenda da série.

No entanto, após o anúncio, a produção precisou refilmar boa parte do episódio piloto para poder acomodar a substituição de duas atrizes. Jennifer Ehle (da minissérie inglesa “Orgulho e Preconceito”), contratada para interpretar Catelyn Stark, foi substituída pela irlandesa Michelle Fairley (a sra. Granger dos filmes de “Harry Potter”). O mesmo aconteceu com Tamzin Merchant, que interpretou Daenerys Targaryen no primeiro piloto, sendo substituída por Emilia Clarke. Embora seja comum a troca de atores quando um piloto é transformado em série, nenhuma explicação foi passada à imprensa.

A troca adiou o início da produção do segundo episódio tendo em vista a necessidade de se fazer testes para selecionar as novas atrizes, bem como a refilmagem de várias das cenas do piloto em que as personagens aparecem.

Inicialmente, as filmagens da temporada seriam feitas no Marrocos, mas a produção decidiu se estabelecer na Irlanda com locações na Ilha de Malta. Com o objetivo de desenvolver o idioma Dothraki, a HBO entrou em contato com a Language Creation Society. Vários de seus membros submeteram suas propostas ao canal, que escolheu o trabalho de David J. Peterson. O especialista em línguas desenvolveu um vocabulário com cerca de 1800 palavras tomando como referência os idiomas russo, turco, estoniano, suahili e diversos dialetos inuits falados no Canadá.

Em seu contrato com a HBO, Martin tem o compromisso de escrever um roteiro por temporada. Na primeira, o episódio oito foi escrito por ele. Com o título de “The Pointy End”, ele será exibido nos EUA no dia 5 de junho e, no Brasil, no dia 26 do mesmo mês.

Com apenas quatro episódios exibidos, a série vem conseguindo manter a média de 2.3 milhões de telespectadores em sua primeira exibição. Embora seja uma audiência baixa em relação ao custo, “Game of Thrones” é considerada mais uma série de sucesso da HBO. Além dos EUA e do Brasil, a produção já foi vendida a canais da Inglaterra, Irlanda, Canadá, Noruega, Suécia, Espanha, Austrália, países Árabes e Europa Central.
>> VEJA – por Fernanda Furquim


PHILIP K. DICK VOLTA À CENA COM LIVRO E UMA SÉRIE DE PRODUÇÕES BASEADAS EM SUAS HISTÓRIAS

sexta-feira | 6 | maio | 2011

Divulgação / Philip K. Dick Trust
Você pode até não saber quem é Philip K. Dick, mas com certeza você já ouviu falar de pelo menos um dos filmes baseados no que ele escreveu. Afinal de contas, a obra do escritor americano gerou adaptações milionárias para a telona, como Blade runner: o caçador de androides,Minority report: a nova lei e O homem duplo, todos com grandes nomes como atores principais e excelentes diretores por trás das câmeras.

E vem aí mais uma avalanche de filmes inspirados em suas obras. O diretor francês Michel Gondry (O besouro verde) está adaptando para o cinema o livro Ubik, considerado pela revista Time um dos 100 melhores romances em língua inglesa – mostra o planejamento que pessoas mortas fazem de suas próximas vidas. O diretor Ridley Scott, que dirigiu Blade runner, está produzindo série baseada no mundo em que os nazistas venceram a Segunda Guerra, tema do livro O homem do castelo alto. E o longa Os agentes do destino, com Matt Damon, adaptado do conto “Adjustment time”, tem estreia prevista para este mês no Brasil.

Outra boa notícia é que, depois de um tempo sumido das prateleiras, Philip K. Dick volta a ser encontrado com facilidade nas livrarias. O lançamento mais recente do autor no Brasil é Os três estigmas de Palmer Eldritch, publicado pela Editora Aleph e escrito originalmente em 1964. No livro, Philip K. Dick mescla religião, colonização de outros planetas e um tema extremamente atual: o aquecimento global, que leva as pessoas a usarem aparelhos de ar-condicionado portáteis e a passar férias na Antártida para fugir do calor. Qualquer semelhança com o noticiário cada vez mais alarmante com o clima pode não ser mera coincidência. A obra se junta a outras publicações recentes do autor no país, como O caçador de androides, que baseou o hoje clássico Blade runner, e O homem do castelo alto, que mostra uma distopia em que os nazistas venceram a Segunda Guerra.

Nem sempre foi assim. Depois dos anos 1980, quando teve inúmeros livros publicados no país e edições importadas de Portugal ajudavam a disseminar as obras, o autor praticamente desapareceu das livrarias, com exceção de uma ou outra publicação pontual, baseada na adaptação de algum livro para o cinema. Só a partir de 2006, com a publicação de O homem do castelo alto, ele passou a merecer uma atenção melhor tanto do mercado quanto dos leitores.

Temas atuais
Marcos Fernando de Barros Lima, produtor editorial da Editora Aleph, uma das responsáveis pelo retorno do autor às prateleiras, afirma que, “sendo Philip K. Dick um dos autores mais renomados da área de ficção científica, ele faz parte da proposta da editora de resgatar os clássicos desse ramo da literatura, que merece mais atenção e destaque”. Segundo ele, os livros estão vendendo bem. Para o produtor, as obras do escritor americano voltaram a interessar o público pelo fato de tratarem de temas que estão em discussão hoje em dia, mesmo tendo sido escritas há mais de 40 anos.

“Philip K. Dick tem potencial suficiente para atingir diversos tipos de leitores. Em seus livros, trata de temas muito atuais, como aquecimento global, drogas e aborda questões filosóficas, espirituais e tecnológicas”, explica. De fato, esta mistura entre tecnologia e misticismo é marcante na obra de Philip K. Dick. Um dos precursores do gênero cyberpunk, ele passou cada vez mais a incrementar o cenário hi-tech de seus livros com abordagem sobre abusos de drogas, parapsicologia, sem falar em questionamentos religiosos, baseados principalmente nas próprias experiências no assunto. Em 1974, passou por momento de delírio. Acreditava ter vida dupla, como escritor no século 20 e cristão perseguido pelos romanos no século 1. A experiência, claro, marcou seu trabalho, principalmente nos escritos no fim da vida, como Valis.

Para este ano, não há mais lançamentos previstos, mas isso não é necessariamente uma notícia ruim. Além de os livros do autor seguirem no prelo para novas traduções, dá tempo de quem se interessar pelo estranho universo de Philip K. Dick se inteirar do assunto. Afinal, é sempre bom saber como vai ser o mundo quando a temperatura média bater os 50 graus.

Para começar a ler
A bibliografia de Philip K. Dick é vasta. São 36 romances e centenas de contos que o autor produziu entre 1950 e 1982. Muito pouco do que ele publicou chegou a ser traduzido no Brasil e os livros encontrados com maior facilidade são os publicados pelas editoras Aleph e Rocco, que dividem os direitos do autor no país. Duas boas portas de entrada para o mundo de Dick são O caçador de androides e O homem do castelo alto.

Se o leitor tiver disposição de explorar sebos, as opções de leitura ficam mais diversificadas. As edições portuguesas da Editora Europa-América e os livros publicados nos anos 1980 pelas editoras Melhoramentos e Brasiliense, como O labirinto da morte e Os clãs da lua Alfa, podem ser encontrados com facilidade pelas estantes, apesar de estarem esgotados há vários anos.

Livros de Philip K. Dick no Brasil
Pela Editora Aleph
O homem do castelo alto (304 páginas, R$ 44)
Os três estigmas de Palmer Eldricht (248 páginas, R$ 42)
Ubik (238 páginas, R$ 42)
Valis (304 páginas, R$ 44)

Pela Editora Rocco
O caçador de androides (256 páginas, R$ 36)
O homem duplo (308 páginas, R$ 38,50)
Vozes da rua (432 páginas, R$ 58,50)

Inspiração do cinema

Sem dúvidas, o filme mais famoso baseado em uma obra de Philip K. Dick é Blade runner: o caçador de androides. O trabalho foi o primeiro a ser adaptado, em 1982, pelo diretor Ridley Scott. Com Harrison Ford no papel de Deckart, um policial cujo trabalho é perseguir os replicantes, robôs que são idênticos aos humanos, mas estão fora da lei. O visual impressionante da Los Angeles futurista, onde não há animais de carne e osso e a vida está se extinguindo, juntamente com a trilha criada por Vangelis, ajudou a catapultar o filme para o status de cult. Philip K. Dick em pessoa chegou a visitar o set de filmagens e aprovar tudo que estava sendo feito, antes de morrer de um AVC, seis meses antes do lançamento do filme.

Além do clássico, vários outros filmes alcançaram sucesso razoável e contaram com grandes estrelas em papéis principais e por trás das câmeras. O vingador do futuro (1990) traz no elenco Sharon Stone e Arnold Schwarzenegger, que interpreta um homem que vai até Marte em busca de respostas para suas memórias implantadas. Minority report (2002) foi dirigido por Steven Spielberg e tem Tom Cruise no papel do policial que precisa proteger uma paranormal que prevê crimes.

Já O homem duplo, de 2006, conta com Richard Linklater (Waking lifeEscola do rock), além de uma trinca de atores de fazer inveja. Keanu Reeves tem o papel principal, um detetive que se infiltra em um grupo de viciados na droga Substância D para descobrir quem a produz. Winona Ryder faz a namorada do policial e Robert Downey Jr. é um dos dependentes químicos. Para quem ficou com vontade de ver: todos estão disponíveis em DVD e podem ser facilmente encontrados até em grandes lojas de departamento.

 

Filmografia

. Blade runner: o caçador de androides, de 1982. Dirigido por Ridley Scott, com Harrison Ford. Baseado no livro Caçador de androides
. O vingador do futuro, de 1990. Dirigido por Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone. Baseado no conto “Podemos recordar para você, por um preço razoável”
. Confissões de um louco, de 1992. Dirigido por Jérôme Boivin. Baseado no livro Confessions of a crap artist
. Screamers: assassinos cibernéticos, de 1995. Dirigido por Christian Duguay. Baseado no conto “Second Variety”
. O impostor, de 2002. Dirigido por Gary Fleder. Baseado no conto “Impostor”
. Minority report: a nova lei, de 2002. Dirigido por Steven Spielberg, com Tom Cruise. Baseado no conto “The Minority report”
. O pagamento, de 2003. Dirigido por John Woo, baseado na história “Paycheck”
. O homem duplo, de 2006. Dirigido por Richard Linklater, com Keanu Reeves, Winona Ryder e Robert Downey Jr. Baseado no livro O homem duplo
. O vidente, de 2007. Dirigido por Lee Tamahori, baseado no conto “The Golden Man”
>> UAI – por João Renato Faria


“CARNIVALE STEAMPUNK”: A PRIMEIRA FOTONOVELA BRASILEIRA STEAMPUNK

quinta-feira | 5 | maio | 2011

Fotonovela Carnivale SteamPunk realizada pela Loja Paraná no intuito de divulgar o movimento SteamPunk no Brasil. A idéia da historieta é ser engraçada e divertir. Todas as personagens foram criadas e idealizadas pelos integrantes da Loja Paraná: http://pr.steampunk.com.br/


“MENINA MORTA-VIVA”, DE ELIZABETH SCOTT

sexta-feira | 29 | abril | 2011

‘Sei o que dizem os contos de fadas, mas estão mentindo.
Contos são exatamente isso, sabe. Mentiras. ’
Pág. 57

Era uma vez uma garotinha, Alice. Todas eram Alice. As Alice’s queridinhas do Ray. Era uma vez uma garotinha, ela não estava morta, nem estava viva. Sua voz não era ouvida, todos a olhavam, mas ninguém realmente a via. Ela não queria ser queridinha, ela queria ser livre. E apenas deixar de ser uma menina morta-viva.

‘Alice’ tinha quase 10 anos quando foi seqüestrada pelo Ray. Ela era uma garotinha forte, nunca chorava, até conhecê-lo. E ela a transformar numa quase mulher, num quase ninguém. Cinco anos sendo abusada, física e psicologicamente.

Comece a se desculpar agora, ele diz, e empurra minha cabeça em seu colo. Enfia os dedos com força em meu ombro.
Odeio o Ray. O pensamento surge como a dor e fica latejando, gritando. Odeio, odeio, odeio.
Tinha me esquecido de quanto doem os sentimentos.

Pág. 143

Ela era sua garotinha, não podia crescer. Quando começou a crescer e seu corpo mudar, foi obrigada a  uma rígida dieta, para não crescer, não ganhar peso. Passava fome, usava roupas e sapatos apertados. Era obrigada a tomar pílulas para não menstruar, nunca. Tinha que ir religiosamente à depiladora. Ela não poderia parecer uma mulher, tinha que ser eternamente a garotinha do Ray, senão…

Senão os moradores da Daisy Lane, n° 623, iriam conhecer a ira dele. Ela não poderia deixá-los morrer. E sabe o que é mais engraçado? ‘Sempre acham que a culpa é minha’, pensa Alice. ‘Como se fosse fácil fugir e denunciá-lo’. Ela sabia o que acontecera com a Alice anterior e seus pais. E ela não podia deixar o mesmo acontecer com sua família.

Ela precisava encontrar uma nova Alice, uma garotinha linda, forte, como ela  fora um dia. Ensiná-la a fazer como Ray gostava e assim, finalmente, ser livre.

O que mais a incomodava era: Ray não a matava e também não a deixava livre. Ela vivia num mundo de nada, vegetando, uma marionete nas mãos de um doente. Às vezes sonhava com a faca da cozinha, dilacerando-a, acabando com seu tormento. Era um sonho feliz.

Menina Morta-Viva, de Elizabeth Scott (Underworld, 169 páginas, R$ 39,90), me deixou perplexa, angustiada, deprimida. Ela tem o dom de descrever certas barbaridades de um jeito único. Você sente na pele o horror imposto à Alice. Ficamos chocadas, sufocadas. E o pior de tudo, choramos porque sabemos que como a Alice do livro, há milhões de outras Alice’s que sofrem o mesmo abuso. Alice’s reprimidas, mudas de medo. Denunciar é fácil para quem está de fora. A vítima do medo nunca irá denunciar.

Scott é de uma rara sensibilidade, a leitura é dura, mas escrita de maneira genial. O livro mexeu comigo e vai mexer com todos que lerem. É simplesmente impossível ficar apático diante de tanta maldade. Ray é o verdadeiro lobo em pele de cordeiro.

>> MENINA DA BAHIA


“MUITAS PELES”, DE LUIS BRÁS

sexta-feira | 29 | abril | 2011

“Muitas Peles” (Terracota, 128 páginas) é uma coletânea de artigos e crônicas de Luiz Bras publicado no jornal virtual de literatura O Rascunho, centradas no ato de escrever, sobretudo Ficção Científica e gêneros afins.

Os textos de Luiz Bras tem a principal função provocar o ato de pensar, que deveria ser comum em quem escreve ou simplesmente lê, por necessidade ou por prazer.

A matéria prima está ali, desde o primeiro texto, “O infinito: um delírio”, onde o conceito de infinito e de eternidade são buscados a partir de um acontecimento simples: um fila de banco. E termina com a citação do filme O Feitiço do Tempo e do conto de Borges, Tlön. Meu lado de fã lamenta que ele não incluiu o excelente Matadouro 5de Kurt Vonnegut Jr.

O texto seguinte, “Fim do papel, fim da poesia”, discute as mudanças provocadas pela introdução das tecnologias digitais que pretendem substituir o livro em papel. Será mesmo que o fim do papel significará o fim da poesia?

“Escolha um futuro”, é exatamente o exercício que todo autor de FC deve fazer. Porém, o que este pensar no futuro realmente retrata?

“Convite ao mainstream”, foi uma provocação que Luiz lançou aos autores do mainstream, tentando fazê-los enxergar primeiro a estagnação da ficção literária no Brasil e, depois, fazê-los ver que a salvação poderá vir dos rejeitados “bárbaros”, os autores de Ficção Científica. Este artigo teve uma repercussão grande no meio da FC, a partir da intervenção, de Roberto Causo, no seu espaço no Terra Magazine.

O artigo seguinte, “Um bárbaro que se preze não vem para o chá das cinco”, é assinado Roberto Causo, e retrata a posição pessoal deste autor em relação ao artigo anterior. Causo se diz um iconoclasta, pelas suas posições dentro e fora do fandom de FC.

E o que acontece quando um autor de mainstream, atendendo ao convite, resolve optar por escrever FC? Em “Cinco erros” alguns escritores de FC convidados apontam quais os erros mais graves que estes autores cometem.

E a crítica, como se comporta? Em “Duas elites”, Bras convida escritores, críticos e editores para comparar o comportamento crítica acadêmica e da crítica da literatura de gênero e destaca os princípios norteadores de cada uma delas.

Em “Três leis”, Luiz Bras usa as três leis da robótica de Azimov para indicar, por similaridade, os princípios básicos que norteiam sua escrita.

Em “Sabedoria Secreta”, Bras questiona sobre os contos de fadas de tradição oral que foram terrivelmente mutilados pelos seus compiladores, para adequá-los à sua época ou expurgar trechos mais picantes ou violentos para poderem ser entendidos por crianças.

Em “Olha mamãe, uma cor voando”, comenta a forma de escrever do poeta Leo da Cunha, que segundo ele, é capaz de “captar inocências”, como a da frase que dá título ao artigo.

Em “Encontro com o autor personagem”, o escritor Índigo é o analisado, do ponto de vista de ser ele muito parecido com suas personagens.

“O autor e seu editor”, nos trás o eterno conflito entre estas duas figuras importantes que dão vida a um livro. Termina com uma bem humorada coleção de modelos de cartas de recusa, de acordo com as diversas posturas e personalidades de editores. Hilariante, independentemente do lado em que você está da missiva (remetente ou destinatário).

“Elogio do acaso” aponta a importância do fator sorte em relação ao sucesso de um livro e do poder da insistência na sua busca. Afinal, é acaso ou perseverança (teimosia)?

Será que a nossa infância é algo que pode ser resgatado? Foi mesmo um paraíso ou isto é um mito? É o que é discutido em “Paraíso perdido: a infância”.

O artigo “Morte e imortalidade” discute nosso destino final e o nosso desejo de que ele nunca chegue.

Fechando o livro, a crítica mais uma vez é abordada no artigo ”Crítica é cara ou coroa”. Nele, Bras aponta que a crítica aceita ou rejeita um texto de acordo com um modelo de civilização que o autor da crítica aceita como válido.

Podemos afirmar que todos os textos cumprem o seu papel de nos fazer pensar e, ainda que discordemos dele, alguma vezes sequer teríamos pensado na questão se ele não tivesse levantado a bola.
>> PAI NERD – por Álvaro Domingues


ULTRAMAN 45 ANOS – DESAFIOS E EXPECTATIVAS

sexta-feira | 29 | abril | 2011

Este é o ano em que a franquia Ultra, a mais antiga marca de super-heróis japoneses, completa 45 anos. As comemorações se iniciaram já em 2010, com o lançamento deUltraman Zero The Movie, mas o filme não emplacou nos cinemas, amargando apenas o décimo lugar no lançamento, caindo mais ainda nos dias que se seguiram. Para se ter uma ideia de comparação, o filme Let´s Go Kamen Riders, lançado em primeiro de abril deste ano para comemorar os 40 anos da igualmente famosa franquia dos Kamen Riders, ficou duas semanas em primeiro lugar nas bilheterias japonesas. Obviamente isso não quer dizer que o filme de Ultraman Zero, lançado no último dia 22 de abril em DVD e Blu-ray no Japão, seja ruim ou de baixa qualidade. Ao contrário, todos os trailers mostraram imagens de impacto em uma produção de alto nível, bem à frente da concorrência. Mas teriam os Ultras ficado para trás e a marca está desaparecendo lentamente conforme seus astros do passado envelhecem? É o que veremos analisando as atividades anunciadas para este ano.
 
Zero Ultimate Force – Fraco nas bilheterias

EVENTOS E ESPECULAÇÕES

Susumu Kurobe, o Hayata (forma humana do primeiro Ultraman), já anunciou várias vezes sua aposentadoria. Em 2007 ele achava que tinha interpretado Hayata pela última vez, em dois episódios de Ultraman Möebius. Voltou atrás e em 2008 atuou em Superior Ultra 8 Brothers, o maior sucesso da Tsuburaya nos cinemas até hoje e anunciou que aquela seria sua despedida oficial, pois já estava com quase 70 anos na época. Diga-se de passagem, estava (e está) mais inteiro do que Koji Moritsugu, o Dan Moroboshi(Ultraseven), que é cinco anos mais jovem.Em 2009, voltou à ação no mais bem produzido filme da franquia, que apresentou pela primeira vez Ultraman Zero, o filho de Ultraseven. No filme de Zero de 2010, Kurobe apenas fez a voz do herói transformado, assim como todos os outros veteranos. Talvez tenha sido esse o grande erro, apostar o filme em personagens e atores desconhecidos do grande público. Três heróis clássicos da Tsuburaya – FiremanJanborg Ace e Mirrorman – foram repaginados como GlenfireJanbot Mirror Knight e dividiram a cena com Zero. Os Ultras originais ficaram relegados a segundo plano na aventura. Depois do fiasco da ideia nos cinemas, fica difícil imaginar que o estúdio não faça uma oferta para que alguns veteranos voltem à ação, não apenas fazendo a voz do herói transformado, mas também suas identidades humanas.

 
Ultraman Premium: Veteranos de volta à ação ao vivo

A prova de que eles não estão “velhos” demais é que entre primeiro e cinco de maio, em Nagoya, será apresentado o evento Ultraman Premium 2011. Consiste em uma aventura teatral com Susumu Kurobe, Koji Moritsugu e Ryu Manatsu interpretando novamente Hayata, Dan Moroboshi e Gen Ootori (Ultraman Leo), ao lado deShota Minami (Reimon, da sérieUltra Galaxy). Se estivessem mesmo incapazes para rodar um filme, devido à idade, como estão bem para uma peça de teatro, onde tudo é ao vivo, em tempo real? A peça ainda tem Shigeki Kagemaru(o Shinjo da série Ultraman Tiga – na foto, ele está com uma gravata vermelha), com história de Keiichi Hasegawa (Ultraman Dyna, Nexus, Ultraseven X, Kamen Rider W), e a direção é de Hirochika Muraishi, veterano diretor de Ultraman Tiga, Dyna e do clássico Cybercop.

Além da peça, o evento irá apresentar o grupo Voyager, criação da Tsuburaya Pro. para executar os temas de seus personagens. Formado por um rapaz e três garotas, o Voyager atua desde 2009 e tem um ótimo trabalho de harmonias vocais e repertório pop-rock. É absurdamente superior às Kamen Rider Girls, banda formada pela Toei e a gravadora Avex Trax para a trilha do recente Let´s Go Kamen Riders. A performance vocal delas (audivelmente trabalhada em estúdio pra arrumar a desafinação) e o arranjo medonho de rap destruíram a famosa canção tema do primeiro Kamen Rider, regravada para o novo filme.
 
Voyager: Músicas de qualidade

Falando em filmes, para o final do ano um novo longa será lançado, encerrando a trilogia de batalhas entre Ultraman Zero e o maligno Ultraman Belial. Resta saber se os Ultras irão marcar presença forte no filme ou se novamente serão coadjuvantes. Como o filme anterior lançou um supergrupo, o Zero Ultimate Force, formado por Zero, Janbot, Glenfire e Mirror Knight e deixou a história em aberto para uma conclusão, pode-se dizer que o estúdio terá que conciliar muito bem personagens e interesses comerciais.

E ainda o público japonês verá o tradicional Ultraman Festival, que neste ano acontecerá de 22 de julho a 28 de agosto, em Tokyo, com exposição, performances, vendas de produtos e diversas atrações.

ULTRAMAN RETSUDEN – A NOVA SÉRIE
Como preparação para o novo filme, que deverá ser repleto de Ultras, a Tsuburaya irá lançar uma nova série, na verdade uma coletânea de cenas das séries e filmes, explicando características de heróis e monstros da franquia. O “apresentador” será Ultraman Zero, que irá aprender sobre todos os heróis que o antecederam, reunindo todas os Ultras de diferentes dimensões e linhas cronológicas, uma tendência que tem se fortalecido nos últimos anos.
Zero tem a voz do famoso dublador Mamoru Miyano (Light Yagami emDeath Note), sendo que seu hospedeiro humano, Ran, é vivido por Yu Koyanagi. A presença de nenhum dos dois foi confirmada, mas Miyano deve reprisar seu papel, pois tem gravado a voz de Zero para especiais em DVD e até para a já citada apresentação teatral. Por outro lado, a Tsuburaya já confirmou a presença de alguns convidados ilustres, a saber: Hiroshi Nagano(Daigo, o Ultraman Tiga), Takeshi Tsuruno (Asuka, o Ultraman Dyna),Takeshi Yoshioka (Gamu, o Ultraman Gaia) e Taiyou Sugiura (Musashi, oUltraman Cosmos), que deverão apresentar segmentos do programa. Vários outros convidados irão aparecer, nessa série comemorativa do aniversário da franquia. Indicado para iniciantes no Universo Ultra ou para os colecionadores hardcore, Ultraman Retsuden (Ultraman – Biografias) será exibido toda quarta às 18h00 na TV Tokyo, com início em 6 de maio. Voltando ao campo das especulações, não será surpresa nenhuma se os Tiga, Dyna, Gaia e Cosmos retornarem para “salvar” o próximo filme do risco de novo fiasco. Se isso acontecer, será outro problema de excesso de personagens para o roteirista resolver.
A franquia Ultra tem se renovado, atualizado valores de produção e distanciou-se de padrões que, de tanto serem insistidos, viraram estigmas. Mas uma parcela enorme do público, e mesmo fãs de tokusatsu, sequer tem vontade de assistir, pois esperam já que verão algo batido. Ultra Galaxy, o longa de 2009, apresentou cenários em CG, trilha exuberante de Mike Verta, compositor deHollywood e distribuição da Warner Bros. atestando a qualidade internacional da película. Respeitando o passado e atualizando histórias e efeitos, a Tsuburaya tem produzido um bom material para fãs e para novos públicos, mas enfrenta agora o peso de seus 45 anos de aventuras.
A renovação técnica e estrutural do Universo Ultra aconteceu, mas de tão tardia, pouca gente tem se interessado. Eis o grande desafio do estúdio: fazer da marca Ultraman continuar relevante para os próximos anos e atrair novos fãs sem perder os antigos.
Finalizando, um divertido vídeo lançado em abril pela empresa ABC Housing, que cria casas visando conforto e praticidade, mostra os Ultras relaxando como pessoas normais.

A FUNDAÇÃO ULTRAMAN

A Tsuburaya lançou a Ultraman Foundation, especialmente para ajudar as crianças nas áreas atingidas pelo grande terremoto e tsunami de 11 de março.

Em seu site oficial, a entidade divulga mensagens e presta contas de suas atividades para arrecadação. Mais uma das muitas ações criadas pela mídia japonesa para apoiar seus cidadãos nesse momento difícil.
>> SUSHI POP – por Alexandre Nagado


6º CINEFANTASY – HORROR, FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

segunda-feira | 25 | abril | 2011


NO MUNDO DOS CONTOS DE FADA

sábado | 23 | abril | 2011

No mundo dos contos de fadas

Era uma vez uma mocinha indefesa, que vai parar num mundo encantado cheio de criaturas mágicas, onde enfrenta um ser malévolo e muitos outros obstáculos, e que, no final, consegue o seu final feliz. É essa a premissa básica do conto de fadas, manifestado na literatura a partir do século VII. Com o surgimento do cinema, em 1896, não demorou muito para os contos de fadas fazerem história também na sétima arte.

O primeiro conto visto em película foi Cinderela (1898), sobre a gata borralheira que sofre nas mãos da madrasta. Mas os contos de fadas ganharam mesmo popularidade foi pelas mãos da Disney. Cinderela, aliás, também foi adaptado numa animação clássica do estúdio, em 1950.

Branca de Neve

O primeiro conto de fadas da Disney foi Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937). Outros títulos populares são: Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951), A Bela Adormecida (Sleeping Beauty, 1959), A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989) e Aladin (Alladin, 1992).

A quadrilogia Shrek (2001, 2004, 2007, 2010) ficou responsável por subverter clássicos personagens dos contos de fadas, como o Lobo Mau, Os Três Porquinhos, Cinderela e Bela Adormecida, apresentando-os de forma satírica e irônica. Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked!, 2005) mostra uma versão bem humorada do conto de fadas que rendeu até continuação: Deu a Louca na Chapeuzinho 2 (Hoodwinked Too! Hood vs. Evil), com estreia marcada para 02 de setembro.

Versões live-action

A história de Chapeuzinho Vermelho também está no filme A Garota da Capa Vermelha, que estreia nesta quinta-feira (21/04). Nele, um vilarejo recebe o alerta de que o lobo está à espreita e o povoado precisa tomar cuidado. Valerie (Amanda Seyfried) está apaixonada por Peter (Shiloh Fernandez). No entanto, ela está prometida a Henry (Max Irons). Valerie e Peter decidem fugir, mas o perigo os acompanha com o lobo à solta.

O cinema soviético teve diversas adaptações de contos de fadas em live-action, como A Lâmpada Mágica de Aladdin (Volshebnaya Lampa Aladdina, 1966), A Princesa e a Ervilha (Printsessa na Goroshine, 1976) e A Pequena Sereia (Rusolochka, 1976).

Sombrios ganham cor Na tradição literata dos contos de fadas, havia uma carga sombria nas histórias. Com o passar do tempo, foram feitas adaptações para os contos se adequarem ao público infantil, alvo para as animações da Disney. Agora, o cinema volta às origens soturnas dos contos de fadas da literatura para versões em live-action.

A Garota da Capa Vermelha é apenas o começo de uma série de adaptações em live-action de contos de fadas. No ano passado, já havia estreado Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), dirigido por Tim Burton. Ainda este ano, estreia A Fera (Beastly), versão moderna de A Bela e a Fera, em 03 de junho, e o terror Curse of the Smoke O’ Lantern.

Mais por vir

Em 2012, a Branca de Neve aparecerá em dois filmes. O primeiro, The Brothers Grimm: Snow White terá Lily Collins como a heroína do título e Julia Roberts como Rainha Má. Já Snow White and the Huntsman contará com Kristen Stewart como Branca de Neve.

Hansel and Gretel: Witch Hunters traz de volta os irmãos João e Maria, que, na literatura, encontram uma casa feita de doces, que tem como dona uma bruxa. O filme mostra os irmãos crescidos e agora caçadores de bruxas. Jeremy Renner (Atração Perigosa – The Town, 2010) e Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo – Prince of Persia: The Sands of Time, 2010) são Hansel e Gretel, e atualmente estão na cidade de Braunschweig, naAlemanha, para as filmagens. João e Maria também vão aparecer no filme Hansel e Gretel in 3D.

O pacote de contos de fadas em carne e osso ainda terá Cinderela, cuja protagonista  ainda é um mistério, e A Bela Adormecida, esse com Emily Browning (Sucker Punch – Mundo Surreal) na pele da personagem-título.

Assim como em muitas das páginas da literatura, os contos de fadas têm tudo para conquistar um final feliz também no cinema.
>> YAHOO – BR Press – por Vanessa Wonhrath


“OS SETE SELOS”, DE LUIZA SALAZAR

segunda-feira | 18 | abril | 2011
Sinopse: Lara Carver é uma jovem de 21 anos que trabalha para a Agência, um local especializado em estudar, localizar e conter fenômenos paranormais. Um evento inesperado tira Lara do conforto da Agência em Londres e a leva para Paris, onde ela descobre que uma força muito além de qualquer coisa que a Agência já enfrentou assolou a cidade à procura de um artefato milenar. Lara precisa se unir a um velho amigo e ex-agente, Jason e a um demônio, Lucius, inimigo declarado de Lara desde sua infância, para descobrir quem está atrás do artefato e porque ele é tão importante. No entanto, a jornada de Lara vai lhe mostrar coisas que ela jamais esperava sobre perigo, amor, amizade e acima de tudo, sobre os estranhos e poderosos segredos do seu próprio passado.

Ontem terminei de ler o livro Os Sete Selos, o que podeia dizer deste livro?Surpreendente.

O livro conta a história de Lara Carver, ela trabalha para a “Agência” uma instituição especializada em fenômenos paranormais.

Lara é chamada para resolver um caso de ataque a um Bispo que trabalhava para a Agência, chegando na Igreja em que o Bispo foi morto Lara fica sabendo que quem matou o Bispo foi o Anjo Gabriel, o maior de todos os Anjos.

Gabriel e Lúcifer como todos sabem queriam acabar com a humanidade, porém Gabriel acabou desistindo do plano e “traindo” Lúcifer.

Lara é designada a resolver este caso porém terá que “aguentar” a presença de Lucius, o demônio que anos antes assassinou o pai de Lara e agora vai ajudar na investigação.

Com a condição de levar Jason, um antigo amigo e agente, Lara concorda em trabalhar com Lucius. A partir desde momento a história começa a ganhar vida.

Achei que a história fosse ser de uma menina que se apaixonaria pelo Anjo e pelo Demônio, que ficaria mais focado no romance ou em Lara. Ai que me enganei, o livro conta a história de uma Guerra travada desde os confins da Terra, pelo poder, a ganância de dois Anjos que são tão parecidos e se dizem tão diferentes um do outro.

Os Sete Selos conta com Gárgulas, espectros, armas de última geração, romance, traição e os principais valores da humanidade, Amor e Amizade.

O livro tem vários cenários, isso é que é o mais legal. Lara viaja por vários países, e várias dimensões. Indo do mundo dos mortos até o paraíso.

No meio da história acaba entrando para o grupo Roseanne, uma amiga de Jason que vai ajudar a desvendar os mistérios da busca pelo Objeto que Gabriel tanto deseja para exterminar a humanidade.

Os Sete Selos é um livro sobre anjos e demônios, a luta do bem e do mal em seus mais variados pontos de vista. Nem sempre os Anjos são Anjos como deveriam ser.

Para quem quer ler este livro, prepare-se pois você vai encontrar aventura do começo ao fim do livro.

O livro superou as minhas expectativas, pois a história acabou sendo totalmente diferente do que eu achava que fosse ser.

super recomendo e espero que o livro tenha continuação, pois Luiza autora do livro deixa abertura para novas histórias e aventuras, talvez com a Lara, mais de outros personagens.

Espero que tenham gostado da resenha, tentei falar um pouco do livro sem contar muito a história. Eu Adorei Os Sete Selos. Adorei os personagens e consegui montar na minha cabeça todas as passagens do livro. Sempre gostei de mitologia Grega e Religião, então pra mim Os Setes Selos foi um “prato cheio”.
>> MEU LIVRO ROSA PINK – por A Leitora


“DOCTOR WHO”: VEJA UM NOVO TRAILER

segunda-feira | 18 | abril | 2011

Sexta temporada começa a ser exibida na Páscoa

Enfim vai começar a sexta temporada de Doctor Who.

E a BBC não está economizando em comerciais, trailers e fotos. Assista abaixo a um novo trailer. O primeiro episódio, vai ao ar na Páscoa.

A série, produzida e exibida pela BBC, acompanha um personagem conhecido apenas como “The Doctor”, que viaja a bordo de sua máquina do tempo, a Tardis.

Doctor Who foi exibida entre 1963 e 1989, o que lhe garantiu um lugar no livro dos recordes como “a mais longa série de ficção científica do mundo”. Depois de um hiato (e alguns especiais), voltou a ser produzida em 2005 e retomou seu sucesso.
>> OMELETE – por Marcelo Forlani


“AS AVENTURAS DE TINTIM”: PETER JACKSON FILMARÁ “O TEMPLO DO SOL”

segunda-feira | 18 | abril | 2011

TintimO roteirista Anthony Horowitz anunciou numa entrevista à rádio BBC, que Peter Jackson (da trilogia O Senhor dos Anéis) filmará As Aventuras de Tintim – O Templo do Sol.

Horowitz está adaptando para o cinema os álbunsAs Aventuras de Tintim – As Sete Bolas de Cristal e As Aventuras de Tintim – O Templo do Sol, de Hergé. O filme será produzido por Jackson e Steven Spielberg.

A HQ As Sete Bolas de Cristal (Les 7 boules de cristal) foi originalmente publicada no jornal Le Soir, entre 16 de dezembro de 1943 e 3 de setembro de 1944, durante a ocupação da Bélgica na Segunda Guerra Mundial. O material foi interrompido e teve continuidade em O Templo do Sol (Le Temple du Soleil). O primeiro álbum de As Sete Bolas de Cristalfoi lançado em 1948.

O Templo do Sol foi publicado na revista Journal de Tintin, entre 26 de setembro de 1946 e 22 de abril de 1948. A Casterman lançou o álbum dessa história em 1949.

Essa aventura já foi adaptada para um longa-metragem de animação, na década de 1970, num filme do estúdio Belvision.

primeiro filme da nova sérieAs Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne, dirigido por Spielberg, será lançado nos cinemas em outubro de 2011.
>> UNIVERSO HQ – por Sérgio Codespoti


“KILL BILL VOL. 3″: DARRYL HANNAH CONFIRMA FILMAGEM

domingo | 10 | abril | 2011
Daryl Hannah em "Kill Bill" (Foto: Divulgação)

Daryl Hannah em "Kill Bill"

A atriz americana Daryl Hannah confirmou a filmagem da terceira sequência da saga “Kill Bill”, do diretor Quentin Tarantino, e contou que o roteiro contará com duelos entre a filha da protagonista, a Noiva, e da filha de sua inimiga, Cabeça de Cobre.

Hannah foi a estrela internacional convidada para inauguração desta quinta da Mostra de Valência, que nesta edição, a segunda dedicada ao cinema de ação e aventura, homenageou a atriz.

Uma de suas atuações mais conhecidas é a de Ellen Driver de “Kill Bill”, no qual interpreta uma assassina sanguinária que deve voltar às telas de cinema em 2014, ano previsto para a estreia da terceira sequência da saga de ação que apontou Uma Thurman como heroína justiceira.

Em entrevista coletiva, Hannah não revelou detalhes sobre o próximo filme, porque o próprio Tarantino não sabe ainda se o projeto incorporará recursos de animação ou outra tecnologia.

A atriz explicou que Tarantino adiou a continuação de “Kill Bill”, cujos dois volumes estrearam em 2003 e 2004, porque esperou que “a filha da Noiva”, interpretada por Uma Thurman, e a filha de Cabeça de Cobre” – pertencente ao Esquadrão Assassino de Víboras Mortais que tenta matar a Noiva – “fossem suficientemente mais velhas para poderem serem inimigas”.

Segundo Hannah, a filha da inimiga, Nikki Green (Ambrosia Kelley), vai querer enfrentar a filha da Noiva porque presenciou a morte de sua mãe pelas mãos da personagem de Uma Thurman no primeiro filme “Kill Bill”, quando tinha apenas 10 anos.

A atriz homenageada na Mostra confessou que fazer cinema foi para ela “um sonho que se tornou realidade” e que o melhor que a profissão lhe deu foi a possibilidade de “se perder em um mundo imaginário, viajar para muitos lugares e viver diferentes vidas”.

“Filmar com Quentin [Tarantino] é a melhor experiência que um ator pode ter porque é como ir a uma escola de cinema. Ele sabe tudo de qualquer filme que se tenha feito”. Além disso, acrescenta, “sua felicidade é contagiante”.

A atriz, que se formou como produtora, prepara um documentário e vai dirigir “uma pequena série de comédia”, apesar de reconhecer que a direção de cinema é “difícil e tira muito tempo”.
>> G1 – por EFE


“CAPITÃO AMÉRICA”: FILME PORNÔ EM PRODUÇÃO

domingo | 10 | abril | 2011

Seguindo o caminho de todos os outros super-heróis dos quadrinhos, o Capitão América também terá sua versão “adulta” comCaptain America: An Extreme Comixxx Parody, filme pornô que está sendo produzido pela Extreme Comixxx.

O lançamento está prevista para julho, mesmo mês em que a produção da Marvel Studios chegará aos cinemas.

O Capitão América foi criado em 1941 por Joe SimonJack Kirby. No início da 2ª Guerra Mundial, o soldado Steve Rogers foi voluntário em um experimento com o soro do super-soldado, desenvolvido pelo Dr. Abraham Erskine. Dessa maneira, ele se transformou de um rapaz franzino no combatente perfeito. Armado somente com seu escudo, e tendo ao lado seu parceiro Bucky, o Capitão América enfrentou os nazistas durante a guerra. Acabou sendo congelado perto do final do conflito e voltou à ativa depois de ser encontrado pelos Vingadores, anos depois.

Morto após os eventos da saga Guerra Civil, foi logo substituído por seu antigo parceiro Bucky, que atua como Capitão América usando um uniforme levemente modificado, mesmo após o retorno de Rogers.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


“GAME OF THRONES”: HBO EXIBE PRÉVIA DE 12 MINUTOS

quarta-feira | 6 | abril | 2011

A HBO está apostando alto em “Game of thrones” e segue divulgando a série de fantasia medieval com o maior alarde possível. Neste domingo foi ao ar uma prévia de 12 minutos do primeiro episódio, aumentando ainda mais a expectativa entre o fãs do livro de George R.R. Martin. A série estreia dia 17 de abril nos EUA. Com orçamento de US$ 60 milhões, a primeira temporada será dividida em 10 espisódios.

A prévia mostra o prólogo do primeiro livro e apresenta os personagens da família Stark. A cena da execução de um desertor da Patrulha da Noite, presente em quase todos os trailers lançados até agora, é mostrada na íntegra. Clique aqui para ver os 12 primeiros minutos.

A série é inspirada nas “Crônicas de Gelo e Fogo”, saga de sete livros escritos por Martin. Quatro livros já foram publicados nos EUA e o quinto chega às lojas em junho. No Brasil, apenas os dois primeiros livros – “A Guerra dos Tronos” e “A Fúria dos Reis” – já foram publicados.

A história gira em torno de sete famílias que disputam o trono do reino de Westeros, enquanto enfrentam a ameaça de uma invasão de bárbaros vindos do norte além de criaturas ainda mais assustadoras. Martin é aclamado como o “Tolkien americano” pela qualidade do seu texto e o apelo da história e dos personagens mesmo entre o público menos ligado em histórias de fantasia.

Além dos trailers tradicionais, a HBO criou diversas formas de manter os fãs ligados na série mesmo antes da estreia. No site oficial há jogos que revelam novas cenas, fotosenquetessobre a casa e personagem preferido de cada um.
>> O GLOBO – da Redação


“ASSEMBLEIA ESTELAR”: FICÇÃO CIENTÍFICA E POLÍTICA, TUDO A VER

segunda-feira | 4 | abril | 2011


Inovadora, ao menos para o Brasil, é a iniciativa da Devir Livraria de editar, em seu selo de ficção científica Pulsar, a antologia “Assembleia Estelar: histórias de ficção científica política” (408 páginas, R$ 39,90) O organizador e editor, escritor de ficção científica e cientista político Marcello Simão Branco, teve uma ótima ideia e conseguiu uma interessante seleção de textos, que inclui algumas obras-primas e cobre um amplo espectro de estilos, posturas e preocupações.

Pena que a introdução do organizador, “Afinidades Eletivas entre Ficção Científica e Política”, seja surpreendentemente parcial e superficial na discussão das temáticas e tendências das tantas obras que cita. É desconcertante que se afirme sem justificar que “‘Fundação’ realiza no fundo uma defesa da democracia em meio à ascensão dos regimes totalitários da época”. A trilogia de Isaac Asimov é a epopeia de uma organização secreta que manipula toda a Galáxia de acordo com supostas leis psico-históricas sem consultar as massas e sem deixá-las conhecer seus objetivos. Não se poderia pedir melhor exemplo do “governo de técnicos” que o próprio autor associa a Platão e Hegel e, com popperiano maniqueísmo, define no primeiro parágrafo da introdução como elitista, centralizadora e o oposto da “democracia” para ele representada por Aristóteles e James Madison (um dos “pais fundadores” da Constituição dos EUA e seu quarto presidente). Ora, nada mais parecido com um Hegel interestelar que Hari Seldon, o criador imaginário da “Fundação”!
Ler que “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley “vislumbra os regimes totalitários de então” é também insólito. Essa sociedade consumista conta os anos “depois de Ford”, promove o uso recreacional de sexo e drogas e tem como lema “Mais vale dar fim que consertar. Quanto mais se remenda, menos se aproveita”. Será mesmo que estava falando só de Mussolini ou Stálin?

É empobrecedor reduzir Duna de Frank Herbert a um romance sobre ecologia – como se não tratasse, de forma ainda mais patente, de imperialismo, fanatismo religioso e mesmo da dependência do Ocidente do petróleo árabe e iraniano. E mais ainda dizer que O Sonho de Ferro de Norman Spinrad é sobre um Hitler que, em vez de se tornar o Führer, emigrou para os EUA e se tornou autor de ficção científica, evitando “a nova guerra mundial e seus horrores”. Isso é apenas a irônica orelha do livro. O núcleo é uma “jornada do herói” intitulada “O Senhor da Suástica”, de autoria do Hitler ficcional, que é uma paródia feroz dos subtextos racistas e fascistas de uma tradição de literatura de fantasia e ficção científica heroica que inclui Edgar Rice Burroughs, J. R. R. Tolkien, Robert Howard, Philip Nowlan e Alex Raymond, entre outros. Segue-se uma resenha da obra de Hitler por um crítico imaginário, na qual se deixa entrever que sua desistência da política possibilitou o domínio soviético da maior parte do mundo alternativo e um genocídio ainda maior.

Ainda assim, a introdução vale pelo amplo levantamento da história da ficção científica política do Brasil e do mundo, que talvez surpreenda quem vê o gênero como mero entretenimento inconsequente – ideia comum não só entre os que o desprezam, como também entre muitos fãs. Faltou, talvez, mencionar o papel da política em obras que não a tematizam explicitamente, mas nem por isso deixam de ser fortemente carregadas de ideologia – o que inclui desde a complexa caracterização do iluminismo, do “bom selvagem” e das ideias da Revolução Francesa no “Frankenstein” de Mary Shelley até os subtextos políticos, sutis ou nem tanto, da maior parte da ficção científica de “aventura”, do ufanismo conservador do “Independence Day” de Roland Emmerich ao ecologismo sentimental do “Avatar” de James Cameron.

O primeiro conto, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, é do escritor português Luís Filipe Silva. O tema é um futuro sistema de governo por meio de debates públicos e plebiscitos eletrônicos. Os eleitores escolhem entre propostas elaboradas por especialistas e acompanhadas de estudos sobre viabilidade econômica, impacto social e ecológico e assim por diante.

A ideia de democracia informática direta é comum na ficção científica e em fóruns de internet e geralmente vista com otimismo, quando não como uma via expressa para a utopia. Mas neste conto, essa perspectiva leva apenas à mediocridade “tecnocrática” (e ao mesmo tempo, “democrática”), por esvaziar a política de emoção e de objetivos grandiosos. O protagonista é um político da velha guarda que em outros tempos teria sido um grande líder, mas nessa realidade é um velho decadente cujos discursos inspirados fracassam em motivar os cidadãos em torno de sua proposta de busca de vida extraterrestre.

Nesta curiosa ficção parece se fazer sentir o desencanto de muitos europeus com a tecnocracia de Bruxelas e a frieza distante do sistema político da União Europeia, que se supõe democrático, mas é tão mediado por representantes e burocracias e restringido por normas legais, técnicas e financeiras que faz o cidadão sentir-se irrelevante e impotente. O estranho é se associar o mal-estar não ao amplamente reconhecido “déficit democrático” de uma democracia excessivamente indireta, mas a uma forma de democracia direta jamais testada. Por outro lado, é uma das poucas tentativas nesta coletânea de realmente especular sobre o futuro da política, em vez de ambientar conflitos políticos do passado ou do presente em um cenário especulativo.

Como é o caso de “Anauê”, do advogado carioca Roberval Barcellos. A ideia de um Brasil alternativo no qual o integralismo chegou ao poder e aliou-se à Alemanha nazista poderia render uma história instigante, mas a má execução faz deste o conto menos interessante da coletânea.

É basicamente uma adaptação para o Brasil do romance “Pátria Amada” do britânico Richard Harris, adaptado como filme para a tevê por Christopher Menaul como “A Nação do Medo” (“Fatherland”, no original). Em 1980, um certo Ubiratan Silva, “relações públicas” do Partido Integralista, se desencanta do regime que começa a perseguir judeus sob pressão do Führer Rudolf Hess. Perde a confiança do governo, é repudiado pela esposa e enviado para perto da fronteira da Colômbia, controlada pelo inimigo, os EUA.

Não é bom entretenimento, devido à construção desajeitada, interrompida a toda hora por explicações com jeito de nota de rodapé no lugar errado. Também não é boa especulação, devido ao excesso de incongruências e soluções forçadas. Sua versão do integralismo repudiou por décadas o racismo e o antissemitismo de Gustavo Barroso para afastar a “ameaça de intervenção americana”, mas da noite para o dia passa a exterminar judeus para agradar o Führer prestes a visitar o Brasil. A esposa do “relações públicas” exige o divórcio em um regime supostamente católico e tradicionalista. Brasil e Colômbia estão em guerra não declarada, mas uma linha de trem expresso cruza a fronteira.

O povo, submisso e manipulado há décadas pelo regime, fica indiferente quando judeus são subitamente presos nas ruas e escolas e desaparecem, mas a simples divulgação de fotos dos campos de concentração e fornos crematórios armados na Amazônia provoca “uma grande revolta com o apoio americano e de brasileiros exilados”.

Do veterano escritor André Carneiro, o curto conto “Gabinete” gira em torno das lembranças e experiências subjetivas da protagonista, de seus afetos, medos e aflições enquanto seu grupo guerrilheiro planeja e leva a cabo um grande atentado. Como envolve um “prédio do governo” de duzentos andares e “aviões 878”, pode-se dizer que o ambiente é vagamente futurista, mas o clima, os hábitos e o que se percebe da vida e da sociedade remetem às organizações armadas da extrema-esquerda brasileira durante a ditadura militar. Embora literariamente atraente, é na realidade pouco político. Não se menciona a razão da luta, a natureza do regime ou a ideologia da guerrilha: soa antes como um conto sobre a falta de sentido de tudo isso.

A noveleta “Trunfo de Campanha”, do escritor Roberto Causo, retoma seu personagem Jonas Peregrino. Capitão da ELAE, “Esquadra Latinoamericana na Esfera”, esse caboclo matogrossense já protagonizara o conto “Descida no Maelström” da antologia “Futuro Presente” da Record, no qual conquistou uma grande vitória contra os misteriosos alienígenas tadai e frustrou uma tentativa de assassinato e sabotagem por parte dos aliados euro-russos, que tentaram impedir os latinoamericanos de colherem os frutos da vitória.

Nesta sequência, a saída de cena dos tadais alimenta a rivalidade interestelar entre facções humanas – citam-se latinoamericanos, euro-russos, transatlântico-pacíficos, asiáticos-centro-oceânicos e ecumênicos-islâmicos. Para não se envolver na guerra fratricida, Peregrino quer deixar a vida militar, mas o almirante Túlio, seu superior, retarda a dispensa e o envia a um hotel de luxo onde encontra uma agente, ruiva e voluptuosa, é claro, que tenta todas as formas de persuasão, suborno, adulação e sedução para convencê-lo a pôr seu prestígio de herói espacial a serviço de um político que pretende liderar os latinoamericanos no conflito “internacional” que se aproxima, inimigo do superior de Peregrino. Tendo já provado sua coragem física e habilidade tática, o herói testa agora sua integridade moral e astúcia política.

A noveleta tira parte do seu interesse do processo de construção de um idealizado herói militar, que a cada vez se mostra imaculado, íntegro e de vontade inquebrantável. Outra parte vem da trama política que atrai por sua complexidade e ambivalência, apesar de não trazer especulações instigantes.

A “Latinoamérica” é uma federação semipresidencialista de escala interestelar. Parte do jogo político depende da representação mais que proporcional de territórios pouco povoados na federação, uma questão bem familiar ao Brasil – só que em vez de pequenos estados do norte e nordeste trata-se aqui de sistemas solares inteiros. Somando-se o confronto direto pelo poder entre um comandante militar e um político civil, inadmissível num regime democrático, não sobram dúvidas de que se trata de uma projeção no espaço interestelar do futuro de conflitos do Brasil (ou da América Latina) do século passado. Mas a vasta escala de uma sociedade com complexas relações com alienígenas mostra certo descompasso com a transposição demasiado direta das provincianas rivalidades geopolíticas de um minúsculo planeta no início do século 21 para uma escala galáctica. Soaria irônico se não fosse o tom de cândido ufanismo, com direito a aparição especial do Saci-Pererê e orgulho pela colonização latinoamericana de uma estrela do Cruzeiro do Sul.

Sente-se falta de um melhor aproveitamento das possibilidades de um cenário de space opera. O conto anterior envolvia estratégia militar espacial, experiências biológicas avançadas e relações com muitas espécies alienígenas, mas neste tudo se passa como numa história de espionagem nos dias de hoje, com refeições, garçonetes, laptops, livros e bottons banais.

A linguagem da noveleta é rica e fluente, apesar de dois tropeços – “ponto passivo” por ponto pacífico, “destilado” por fermentado (vinho) – e ao menos uma frase que precisaria ser retraduzida: “tinha longos cabelos castanhos e era acompanhada por um gato obviamente elevado, com uma cibercoleira”. Popularizado pela série “Uplift” de David Brin (nunca editada no Brasil), uplifted é um jargão já convencional na ficção científica anglo-saxônica para um animal tornado inteligente, mas “elevado” precisaria ser explicado ao leitor brasileiro.

Daniel Fresnot, filho do cineasta Alain Fresnot (diretor de “Lua Cheia” e “Desmundo”, entre outros), contribui com “Diário do Cerco de Nova York”. Como o romance “O Presidente Negro” de Monteiro Lobato, esse conto parece presciente à primeira vista, mas a uma leitura mais atenta mostra que qualquer semelhança com a realidade é mesmo pura coincidência. Publicado originalmente em 1984 (no primeiro mandato de Reagan, portanto), narra uma revolta separatista liderada por um populista de direita contra o governo e os impostos federais. Apesar de ambientada no mundo dos anos 80, quando “só os Estados Unidos têm computadores antiquados à venda como ferro-velho”, faz pensar por um momento no fanatismo Tea Party de hoje. Obama ainda era um recém-formado, mas o protagonista escreve um livro sobre o amor mal-sucedido entre uma mulher branca estadunidense e um intelectual africano.

O problema é que se afasta tanto das realidades da política estadunidense que, mesmo assim, é inverossímil. Fosse a rebelião liderada pelo governador de um estado conservador, cheio de milícias bem armadas e rico em recursos naturais, como o Alasca ou o Arizona, pareceria mais plausível – mas se trata do prefeito de Nova York, uma cidade liberal e multicultural que depende do resto do país para energia, água, comunicações e combustíveis, para ter atividade econômica (visto ser um centro financeiro e de serviços para o país) e até para que seus moradores possam tomar o elevador para seus apartamentos e escritórios.

Apesar disso, os nova-iorquinos, incluindo o liberal New York Times, são seduzidos em massa pela retórica populista para lutar contra uma intervenção federal (descabida, porque isso seria atribuição do governo estadual, ignorado no conto) e com armas leves e barricadas resistem por três meses aos marines, cruzadores e caças do Pentágono. É uma transposição forçada da Comuna de Paris. Não leva em conta que a natureza política do movimento francês de 1870 era o exato oposto do que imagina para sua Nova York, nem que uma cidade do século XX é muito mais vulnerável que uma do século XIX. Não traz uma reflexão política interessante, pois a adesão das massas ao líder surge como irracional e incompreensível. Vale pelo relato pessoal e sentimental do protagonista, um escritor francês que observa os acontecimentos de uma perspectiva, digamos, obelixiana (“esses romanos são loucos!”), enquanto se envolve amorosamente com uma nova-iorquina e escreve seu livro.

“Saara Gardens”, do advogado e empresário Ataíde Tartari, é uma ficção política que, embora ambientado numa futura “União Global” com capital em Istambul, faz uma transposição tão direta de questões do Brasil recente que chega a soar como um roman à clef. A presidência desse governo mundial está sendo disputado entre a “preservacionista militante” Miranda Ribeiro, uma brasileira cronicamente anêmica (terá também nascido no Acre?) e um candidato colombiano chamado Alonzo Urano (hum…). Urano é apoiado por uma empreiteira chamada Camaro Korrea (!) que pretende a todo custo impedir a eleição da brasileira porque ela é contra o projeto de irrigação do Saara (leia-se Transposição do São Francisco) do qual participaria, e que daria enormes lucros a seu dono, que há anos comprava terras no deserto. Para impedir a eleição de Miranda, recorrem a uma manobra engenhosa que a torna inelegível. O conto se prestaria a uma especulação mais densa sobre as possibilidades e problemas de um governo global, mas o pouco que é dito sobre seus mecanismos e princípios serve apenas para tornar viáveis a trama e seu desenlace. Mais uma vez, é uma mera tradução do passado recente do Brasil no futuro do planeta, com a conclusão implícita de que nada pode mudar.

Do bancário carioca Miguel Carqueija, “Era de Aquário”, de fins dos anos 80, testemunha o cínico pessimismo que se apossou de grande parte do País nos anos seguintes ao fracasso do Plano Cruzado. Em um dia de um ano indeterminado do século 21, no qual helicarros e aerônibus são comuns, um guarda-costas ouve no noticiário da manhã que “somente três deputados e um governador haviam sido assassinados na véspera” e em seguida a transmissão é interrompida por uma bomba na estação de tevê. Juntamente com uma colega o guarda-costas trata de levar um senador de sua casa para uma palestra sobre o grandioso futuro do Brasil, e para isso precisa enfrentar uma violenta batalha aérea com assassinos dispostos a tudo. De político, o conto só tem propriamente a a presença do senador, pois não tenta nenhuma análise ou explicação das causas por trás dessa violência. Reflete antes a visão superficial e apolítica do espectador de noticiários policiais sensacionalistas, que tudo atribui à incompetência das autoridades e à maldade humana, conformando-se com uma realidade que não faz questão de entender.

“A Evolução dos Homens sem Pernas”, do roteirista e dramaturgo paulistano Fernando Bonassi, de 2009, fala não tanto de política quanto da estupidez da história humana, vista como uma acumulação sem sentido de inovações tecnológicas inúteis e nocivas, culminando numa evolução lamarckiana que leva os homens a perderem as pernas, por falta de uso e justificar sua deficiência com a ideologia que fez disso uma “evolução lógica” e pelos livrinhos de autoajuda garantindo que “menos é mais”. Vale pela habilidade irônica da prosa ágil e satírica do autor, mas uma ideia parecida é contada de maneira especulativamente bem mais instigante (e mais pungente) na animação Wall-E (2008). E o autor, talvez sem perceber, dá uma feia trombada nos direitos dos cadeirantes, ao zombar da quase revolução feita pelos “homens sem pernas” ao exigir melhores acessos a edifícios e repartições públicas até que “os anormais assumiram totalmente os controles reprodutivos sociais e os normais finalmente tornaram-se a minoria que sempre foram”.

De Henrique Flory, matemático e empresário, “A Pedra que Canta” é a ambientado no Brasil de 2018. Publicado originalmente numa coletânea do autor de 1991, o conto foi atualizado para esta antologia com alusões a Lula (impedido “pela guerra” de tomar posse em 2018, o que parece supor um golpe militar), Hugo Chávez e Evo Morales (depostos) e à China como grande potência emergente, mas seu horizonte político é o de meados do século passado, quando o risco de guerras de conquista entre países sul-americanos era (ao menos entre os militares) levado muito a sério e a Argentina, com forças armadas modernas e um desenvolvimento econômico qualitativamente superior, era vista como um grande perigo para o Brasil.

Em vez do “peronismo”, há no país vizinho um movimento liderado por um certo Perez, ou “perismo”. Com apoio da China, a Argentina alia-se em 2010 a um Paraguai transformado em “tigre asiático” por um certo presidente Kim Uan com o objetivo de dividir Brasil e Bolívia entre eles, nada menos. Como trama política, deixa muito a desejar, tanto por inverossimilhança quanto por não se dar ao trabalho de explicar o que é o tal “perismo” ou como empolgou a Argentina. Como história de guerra, consegue, porém, ser interessante.

Os argentinos estão ganhando a guerra e já ocuparam todo o sul do Brasil e o oeste de São Paulo até perto de Bauru. Para detê-los, os brasileiros decidem pôr em ação a teoria da conspiração favorita dos militares argentinos dos anos 70: abrir as comportas de Itaipu de modo que todas as cidades mais populosas da Argentina, inclusive Buenos Aires, sejam arrastadas pelas águas. Como a represa está em território ocupado pelo inimigo, é necessária uma difícil missão de infiltração e sabotagem, complicada pela necessidade de o tenente encarregado da missão levar consigo um adolescente portador de osteogênese imperfeita, popularmente conhecida como “ossos de vidro”: esqueleto extremamente frágil, sujeito a fraturas a qualquer esforço.

Por quê? A justificativa é forçada: inventou-se um chip que pode ser implantado no cérebro e ajuda o doente a pressentir o risco de fratura, visualizando-o como um “ponto vermelho” nos seus ossos. O governo brasileiro, com ajuda europeia, suborna a empresa japonesa para implantar uma versão “aperfeiçoada” do chip que permite visualizar os pontos fracos de qualquer objeto, inclusive uma grande represa. A pergunta é inevitável: supondo que esse chip existisse, por que não implantá-lo diretamente no militar, evitando as dificuldades morais e práticas de conduzir um despreparado deficiente físico através das linhas inimigas? Vale só como artifício para explorar a perplexidade, as dúvidas e os medos de um protagonista frágil e sensível, enquanto o tenente que o carrega nas costas assume plenamente o clichê do soldado de elite eficiente, invencível e impiedoso. Uma vez aceita a premissa improvável, o conto consegue interessar e até emocionar, ainda que não do ponto de vista político. A guerra pode até ser a continuação da política por outros meios, como dizia Von Clausewitz, mas não é a mesma coisa.

“O Dia Antes da Revolução”, conto de 1974 da escritora estadunidense de ficção científica Ursula K. LeGuin, é uma prequela a um de seus romances mais famosos, “Os Despossuídos”, mas não é indispensável tê-lo lido para entender o conto. No romance, os seguidores de uma líder anarquista chamada Laia Odo tinham migrado há gerações para o satélite habitável Anarres e criado uma nova sociedade, depois de uma revolução bem-sucedida no planeta Urrás e o tema é a ambiguidade da nova utopia, cujo maior cientista é forçado a retornar ao planeta de origem (onde é disputado por regimes capitalistas e socialista de tipo soviético) porque seus companheiros de comunidade lhe recusavam os recursos e privilégios de tempo livre necessários para aprofundar sua pesquisa.

Esta prequela trata da própria Laia Odo. Idosa, fragilizada por um derrame e próxima do fim, recorda sua vida de rebeldia e agitação às vésperas da vitória do movimento revolucionário. Misto de Lucy Parsons, Emma Goldman e Simone Weil, mas com o prestígio de um Karl Marx, vive numa comunidade anarquista instalada no que outrora fora o prédio de grande banco e se orgulha e comove por ver tantos jovens seguirem a vida de tranquila liberdade que ela propôs. Mas a maior parte do seu pensamento vão para seu passado e suas perdas, principalmente a do marido – conceito obsoleto para seus cabeludos seguidores – morto há décadas pela repressão. Pouco se entusiasma pela vitória iminente e pelo papel que os odonistas ainda querem que represente.

É uma história que consegue ser ao mesmo tempo intensamente política e delicadamente pessoal. O ambiente cultural e tecnológico é o do século 20 e se percebe a tentativa de recuperar o potencial utópico de Woodstock, do movimento hippie na sua fase mais politizada. Mas esse frescor dos fins dos anos 60 não faz desta mais outra história sobre um passado disfarçado de futuro. Trata-se, neste caso, de verdadeira especulação sobre outro mundo possível (como se diz no Foro Social Mundial), descrito com sinceridade nos aspectos atraentes e nos desagradáveis, mesclada com reflexões sobre identidade e existência pessoal. Do ponto de vista da ficção política, se não também da realização literária, é o ponto culminante da antologia.

Mesmo assim, “O Grande Rio”, do médico mineiro Flávio Medeiros Jr., não faz má figura a seu lado. É assumidamente uma história sobre política do passado, mas muito bem contada no formato de um suspense policial sui generis. Em um mundo pós-apocalíptico do futuro, devastado pela radioatividade e por hordas armadas que disputam os últimos restos de civilização, um grupo de cientistas consegue construir uma máquina do tempo para voltar ao passado e assassinar o responsável por isso antes que deflagre a funesta guerra nuclear com a União Soviética. A saber, o ex-presidente John Kennedy.
O problema é que a história se mostra bem difícil de mudar. O pobre agente fracassa na primeira tentativa e obrigado a voltar e tentar outras vezes. A história é como um grande rio e seu curso é muito difícil de mudar. Mas não impossível, julga ele, se conseguir remontar às suas nascentes. A cada vez, volta mais “cedo” e passa mais anos infiltrando-se na CIA e nas organizações anticastristas, recrutando cúmplices, articulando o atentado e evitando o risco de encontrar-se com ele mesmo. Ao longo da história, envelhece e experimenta ao mesmo tempo tanto a versão oficial como várias das teorias de conspirações sobre o assassinato do presidente. O thriller é muito bem sucedido em prender a atenção e as tensões políticas da época e as motivações dos inimigos de Kennedy são desenvolvidas com realismo.

A história seguinte, “O Originista”, é do escritor Orson Scott Card, que foi missionário mórmon no Brasil e no espectro político da ficção científica estadunidense está na ponta oposta a Ursula K. LeGuin. Nos últimos anos, se fez notar por artigos exaltados contra o casamento homossexual e críticas ao darwinismo e às evidências do aquecimento global.
Esta novela, em particular, foi escrita em 1989 como parte de uma antologia de contos de vários autores ambientados no universo “Fundação”. Está situada no período em que Hari Seldon articula sua futura tecnocracia benevolente de reis-filósofos (ou, mais precisamente, reis-bibliotecários) sob as barbas do Império prestes a entrar em decadência. Nesse aspecto, é fiel à concepção do “bom doutor” Isaac Asimov, descrevendo com inteligência o maquiavelismo com que Seldon e seus seguidores usam a “psico-história” para manipular militares, políticos e intelectuais importantes para seus planos de longuíssimo prazo – mil anos serão necessários para a construção do novo império.

Enquanto isso, Card não resiste à oportunidade de tentar sua própria manipulação psico-histórica do leitor. O protagonista Leyel Forska é um historiador multimilionário, diletante mas competente, que vive em Trantor, o planeta capital do Império Galáctico, busca a esquecida origem da humanidade e é casado há décadas com Deet, uma antropóloga que estuda a equipe de Seldon, cujos filhos são perfeitos, mas já deixaram a casa e não os perturbam.
E assim, o poderoso cenário asimoviano se torna um veículo para a agenda de Card. De um lado, um meloso e repetitivo elogio do amor conjugal, da fidelidade absoluta e da família idealizada. De outro, longas reflexões sobre a importância dos mitos, dos rituais, das línguas e da literatura para criar as comunidades e a lealdade de seus membros e distinguir os homens verdadeiros de primatas brutos. Tradição, Família e Pátria, enfim.

Forska tenta entrar para a Fundação que será estabelecida no planeta Terminus, na periferia da Galáxia, para desenvolver a Enciclopédia Galáctica (imagine uma super-Wikipedia). Hari Seldon o recusa com o pretexto de não querer separá-lo de Deet, pois esta adora seu trabalho em Trantor. Mesmo assim, Forska não perde o respeito e admiração por Seldon e quando este morre, torna-se politicamente suspeito pelo elogio fúnebre ao homem que previa a decadência do Império. Perde sua imensa fortuna e afunda-se em frustração enquanto sua mulher se dedica à biblioteca criada por Seldon.

Descobrirá ele, porém, que, como toda a Galáxia, também teve a vida manipulada (inclusive na perda de suas riquezas) pela poderosa Segunda Fundação, da qual Deet é integrante e a biblioteca em Trantor é a inocente fachada. Claro que o amor tudo vence, o historiador compreende que assim tem de ser para o bem da Via Láctea e se integra na leal comunidade dos reis-bibliotecários, ultra-exclusiva e esclarecidamente despótica em relação ao resto do universo, mas internamente igualitária e comunista, exatamente como a “República” do mestre de Aristóteles. Além disso, descobre a utilidade para sua pesquisa do revolucionário sistema de indexação da Segunda Fundação que, a olhos de 2011, parece um Google mais inteligente – e quase morre, pois o brinquedo novo o faz navegar dias e noites seguidos sem comer ou dormir, numa notável prefiguração dos ciberdependentes de nosso tempo.

A trama política explícita da novela é sutil e convincente em sua combinação de Platão e Maquiavel, de política imperial romana e organizações acadêmicas modernas, mas pouco acrescenta a quem já leu Asimov. Para este, é mais interessante a meta-trama, também política, do escritor que usa uma concepção ideológica muito distinta da sua para afirmar suas próprias ideias.

O jornalista paulista Carlos Orsi traz “Questão de Sobrevivência”, conto publicado em 2001 na revista “Sci Fi News Contos” nº2 e também na ótima antologia autoral “Tempos de Fúria” (Novo Século, 2005). Nesta coletânea, este trabalho volta a destacar-se como um dos melhores contos nacionais, ao lado de “O Grande Rio”.

O cenário é uma São Paulo extremamente distópica dos anos 2030. Um enorme acampamento sem-teto chamado Campo Fidel ocupa o centro da cidade. Em algum lugar a caminho do porto de Santos, uma grande favela da periferia foi bombardeada há anos por armas químicas pelo governador, numa desastrosa ação de reintegração de posse e tornou-se um “Vale da Morte” inabitável. Poucas horas em meio a seus eflúvios cancerígenos bastam para condenar uma pessoa a uma morte lenta. Por ali, com destino ao porto, deve passar mais um valioso caminhão de leite materno para exportação, protegido por uma escolta fortemente armada. Mas o Campo Fidel precisa do leite para suas crianças, cujas mães foram contaminadas por um anticoncepcional holandês misturado à água que é muito prejudicial às suas crianças.

Assim, sua milícia de guerrilheiros heroicos – ou terroristas fanáticos, dependendo do ponto de vista –, prepara uma ação violenta para interceptar o comboio, sob a liderança do índio Pedro Minanhanga. É excelente como ação e suspense, sem prejuízo de reflexões políticas sérias e sem maniqueísmo. A história é contada do ponto de vista de feios e duros despossuídos e não se escamoteia sua brutalidade, nem sua necessidade de compactuar com duvidosos interesses estrangeiros para conseguir armas e continuar a luta. Faz pensar em organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e seu papel nos conflitos sociais dos anos 90, mas os extrapola para criar uma especulação distópica consistente, que não é mera projeção para o futuro de um passado superado. É um futuro possível do qual o Brasil ainda não está definitivamente livre e, ao contrário de “Era de Aquário”, este conto faz uma séria tentativa de expor e analisar o que está por trás de toda a violência que descreve.
Fecha a coletânea o conto cyberpunk “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, do escritor estadunidense Bruce Sterling, um dos criadores do subgênero. Publicado originalmente em 1989 nos EUA, também já tinha sido editado no Brasil, na coletânea “Futuro Proibido”, de 2003.

O conto passa-se em dias não especificados do século 21, mas aparentemente pouco distantes, nos quais os EUA estão em profunda decadência econômica e suas forças armadas estão paralisadas, devido à dívida pública acumulada pelo excesso de gastos militares. O dólar perdeu seu papel de moeda mundial, substituído por um acordo global entre europeus e japoneses, enquanto novas potências emergentes surgem do antigo Terceiro Mundo, das quais a mais poderosa e confiante é o grande Califado sunita que engoliu Israel e líderes árabes laicos como Saddam Hussein e avança sobre o que restou da União Soviética. Esta desapareceu como potência e está mergulhada no caos desde que um grupo guerrilheiro afegão destruiu Moscou com uma bomba termonuclear, aparentemente cedida pelos próprios EUA. Venezuela, Cuba e Irã são citadas como nações prósperas, cujos turistas dão boas gorjetas.

É curioso como este conto soa muito mais profético hoje do que quando foi escrito. Em 1989, a União Soviética ainda existia, a imprensa estadunidense chamava os talibãs de freedom fighters e os EUA estavam prestes a iniciar a década mais próspera e arrogante de sua história, como superpotência imperial única e senhor incontestado da economia global. A perspicácia do autor percebeu perigos latentes nas tendências de longo prazo, aos quais economistas, analistas políticos e jornalistas da época eram insensíveis. É verdade que o califado árabe ainda é um sonho fundamentalista, mas no tempo em que se escreveu, poucos sabiam no Ocidente que esse projeto existia, nem se esperava que os fundamentalistas viessem a ter um papel político tão importante no mundo islâmico – e graças à ajuda dos EUA, como Sterling apontou. O fenômeno mais importante que lhe escapou foi a ascensão dos BRIC e em especial da China, muito mais rápida que a dos árabes.

É nesse contexto que Tom Boston, um roqueiro negro formado em ciência política e casado com uma refugiada russa, brilha com shows que fazem descontos para portadores de cartões de desemprego e títulos eleitorais, clamam pelo renascimento do país e da democracia e denunciam a hegemonia dos ricos, dos advogados e das corporações que sugam a riqueza dos EUA para os bancos da Europa e Japão. Curioso como o cantor, um populista de esquerda, usa símbolos hoje associados ao Tea Party, como chapéus tricornes, bandeiras da revolução de 1776 e o lema “Não pise em mim”.

Ao chegar a Miami para o show, o protagonista se apresenta a Tom Boston e sua equipe como um jornalista do Cairo (coração do Califado) que admira o rock e tem todos os seus discos (pois é, o pai do cyberpunk não previu o MP3) e quer fazer uma reportagem para a juventude árabe. Mas o leitor, que acompanha seus pensamentos secretos, percebe a dissonância de suas palavras com seu desprezo pela cultura ocidental. Ele “vê as coisas de maneira diferente”. Acha Boston admirável à sua maneira, sim, mas da maneira que um agente dos EUA poderia pensar o mesmo de um Fidel Castro ou Khomeini. Para ele (talvez também para Sterling) o rock tem a força de uma religião.

As frequentes alusões do protagonista ao líder xiita, aliás, são um ponto fraco na verossimilhança do texto, pois dificilmente ocorreriam a um fiel sunita, mas é que, em 1989, ele era o único líder fundamentalista islâmico “do mal” familiar ao público estadunidense. O recém-fundado Hamas ainda não cometera nenhum atentado e tinha as simpatias de Israel (cuja prioridade era enfraquecer a Al Fatah), Osama bin Laden ajudava os EUA a treinar freedom fighters para combater o governo pró-soviético do Afeganistão e o mulá Omar era um deles, tendo acabado de perder heroicamente um olho em batalha.

Prever o futuro não é obrigação da ficção científica. Sua função, além de entreter, é alimentar uma especulação racional e inteligente sobre possibilidades e tendências do presente ou do passado e aonde elas poderiam conduzir (ou ter conduzido), seja apenas para nos maravilhar, seja para nos animar a tornar real a especulação ou, pelo contrário, lutar para que não se concretize. Neste caso, é provável que o próprio Sterling não desejasse que sua especulação chegasse tão perto da realidade. Engraçado como muitos de seus leitores não entenderam isso. Uma resenha de leitor (de 2006, no site da Amazon) ainda o repreende: “o conto postula um Oriente Médio que realmente não mudou. Mas as coisas mudaram um bocado”. É mesmo?
>> CARTA CAPITAL – por Antonio Luiz M. C. Costa


“E. T.”: KATY PERRY EM HISTÓRIA DE AMOR EXTRATERRESTRE

sábado | 2 | abril | 2011

Você se lembra do enredo da animação “Wall-E”, dirigida por Andrew Stanton e vencedora do Oscar na categoria em 2009? A cantora norte-americana Katy Perry vive situação semelhante no videoclipe “E.T.”, lançado no Youtube, na quinta-feira (31/3), dirigido pela fotógrafa e cineasta canadense Floria Sigismondi e que conta com participação do rapper Kanye West e com um modelo de bunda de fora. A canção é o quarto single do álbum “Teenage Dream”, de 2010.

O videoclipe começa com travelling aéreo sobre planeta desabitado e cheio de lixo, idêntico ao início de “Wall-E” e ao som de clássico do jazz. Em seguida, a câmera penetra no coração de um robô abandonado como sucata e, no interior dele, aparece uma nave, dentro da qual está Kanye West flutuando como se estivesse em gravidade zero. Em seguida, um extraterrestre com alguns tecidos roxos flutua pelo espaço até se transformar na cantora. Após várias imagens da natureza em movimento, ela chega ao tal planeta, encontra o robô e consegue trazê-lo de volta à vida após um beijo.

Diante de um roteiro tão comum e previsível, o que mais chama atenção nessa história de amor interplanetária é o extremo cuidado com as cores das imagens, que variam do azul escuro e preto, com alguns detalhes brancos, ao rosa e roxo. Katy Perry também aparece muito mais discreta do que nos videoclipes anteriores. Com três diferentes figurinos, o que se destaca são os longos vestidos e tecidos flutuantes. Uma curiosidade do videoclipe é que ele marca o lançamento de óculos da marca Vogue Eyewear, que aparecem no rosto da artista.

O longo processo para se transformar em extraterrestre exigiu muito esforço de Katy Perry, como declarou à MTV norte-americana: “Foi muito difícil para mim. Esse clipe realmente foi uma coisa de paciência. Mas, sabe, é como quando você faz um filme. Às vezes tem que ficar muito velha, ou ser transformada em um animal ou monstro – esse processo foi mais ou menos assim”.

Floria Sigismondi é diretora do filme “The Runaways – Garotas do Rock”, de 2010, mas ficou mais conhecida em função de vários videoclipes premiados. Entre eles, estão “Beautiful People” (1997), do Marilyn Manson; “Little Wonder” (1998), do David Bowie; e “Fighter” (2004), da Christina Aguilera. Aliás, essa realizadora parece estar se especializando em produções em que imperam a maquiagem carregada.

“E.T.” não prima por grande criatividade narrativa. Muito pelo contrário. Floria Sigismondi não realizou nada mais do que algo envolvente, agradável e bem cuidado técnica e artisticamente. Porém, isso pode ser considerado algo extremamente positivo num momento em que parece dominar certa bizarrice intergaláctica, em meio a muitos efeitos especiais, tanto no videoclipe, como no cinema de longa-metragem.
>> YAHOO – por Guilherme Bryan


VII FANTASPOA: HORROR Á ITALIANA

sexta-feira | 1 | abril | 2011

Daqui a três meses, no dia 1º de julho, terá início a VII edição do Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre. O festival irá ocorrer até o dia 17 de julho.

O Fantaspoa está com as suas inscrições abertas, para curtas e longas-metragens até o dia 22 de abril.  Os interessados em obter maiores informações podem acessar o site http://www.fantaspoa.com.

O convidado homenageado desta edição é o ilustre diretor italiano Lamberto Bava.  Lamberto é a terceira geração de cineastas da família Bava. Seu avô, Eugenio Bava, era câmera e especialista em efeitos ópticos nos primórdios do cinema mudo italiano. Seu pai, o renomado Mario Bava, trabalhou como diretor de fotografia, roteirista e diretor, tendo trabalhado em mais de 70 filmes ao longo da sua carreira e é lembrado como um dos grandes nomes da era de ouro do Cinema de Horror Italiano.
Após trabalhar 15 anos com seu pai, como assistente de direção e roteirista em diversos filmes, e tendo colaborado com Dario Argento e Ruggero Deodatto, partiu para a direção  de seu primeiro filme Macabro (Macabre), roteirizado por, entre outros, o grande cineasta Pupi Avati, em 1980. Lamberto dirigiu mais de 30 filmes em sua carreira, contando com títulos para o cinema e para a televisão, tendo realizado três novos filmes em 2010 e 2011.

A mostra que será apresentada no Fantaspoa conta com 16 títulos: 8 filmes dirigidos por Lamberto Bava e 8 filmes dirigidos por Mario Bava.
O diretor estará presente em Porto Alegre entre os dias 05 e 08 de julho, participando de debates com o público diariamente.


“AS CRÔNICAS DE NÁRNIA”: “O SOBRINHO DO MAGO” SERÁ O PRÓXIMO FILME DA SÉRIE

quarta-feira | 30 | março | 2011

O leão Aslam é o grande protagonista de As Crónicas de Nárnia

Em entrevista ao The Christian Post, o produtor Michael Flaherty disse que o novo filme da série “As Crónicas de Nárnia” será “O Sobrinho do Mago“, o penúltimo livro da série a ser lançado. A obra, escrita por C.S. Lewis, conta a origem de Nárnia e do guarda-roupa que aparece no livro que deu origem ao primeiro filme da série.

 

Na história, os amigos Digory Kirke e Polly Plummer por acidente vão parar em outro mundo, com o auxílio de dois anéis mágicos. Lá, eles acidentalmente libertam a Feiticeira Branca e vão para Nárnia, onde veem a criação daquele mundo.

Ainda não há maiores informações sobre possível elenco, diretor ou data de lançamento para o filme.
>> NA TELINHA – da Redação


ANDRÉ VIANCO: ELE JÁ FALAVA SOBRE VAMPIROS MUITO ANTES DE “CREPÚSCULO”

quarta-feira | 30 | março | 2011

É surpreendente a desenvoltura e a facilidade com que o escritor, ex-entregador de pizzas, ex-editor de seus próprios livros e ex-vendedor de mão em mão André Vianco revela neste romance “O Caso Laura” (272 páginas, R$ 32,50), o primeiro de sua autoria lançado pela Editora Rocco, com chegada às livrarias em todo o País prevista já para o próximo dia 2. A tiragem inicial prevista é de 30 mil exemplares (normalmente os romances brasileiros são lançados em 2 mil ou 3 mil exemplares, ou até menos).

Misto de romance psicológico, policial e sobrenatural, este trabalho de Vianco – que, com doze livros publicados, já vendeu perto de 500 mil exemplares – mostra que o autor, de origem modesta, é um artista de grandes recursos literários, que domina como poucos grandes autores a técnica de escrever bem, com ritmo que, na forma e conteúdo, envolve imediatamente o leitor e a leitora. Na forma porque, visivelmente com muito esforço e muito trabalho de carpintaria literária, escreve textos ao mesmo tempo atrevidamente novos, com frases que nunca foram escritas antes, e, ao mesmo tempo, imediatamente assimiladas pelo leitor e leitora como coisas bem conhecidas e com as quais se sente logo de início uma confortadora familiaridade. No conteúdo, porque sabe criar uma trama intricada.

Dirigido sempre ao grande público, e, por isso, passível de ser chamado de “popularesco” pelos críticos universitários, Vianco, na verdade, é um autor que sabe construir o caráter de cada personagem, e apresentar esse caráter pelas falas e pelas ações dos mesmos, sem ter de apelar para o recurso artisticamente inferior de descrever ou analisar a personalidade de cada um. Ele prefere aqui o caminho mais difícil. Sabe como burilar uma frase, tornando-a agradável aos ouvidos; sabe como concatenar uma trama, sabe como manter ininterruptamente o suspense sempre renovado em curtos intervalos da narrativa, e como alternar as situações e os personagens.

Neste “O Caso Laura”, um detetive particular é contratado por um idoso desconhecido para investigar os encontros de uma mulher chamada Laura, restauradora de imagens sacras, num banco de jardim, com um homem misterioso. Há outros tipos envolvidos em outras situações, como o policial que é investigado por uma agente da Corregedoria por ser suspeito de homicídios que teria praticado como justiceiro. Tudo, porém, entrelaça-se e os diferentes mistérios vão se adensando progressivamente, até o surpreendente desenlace esclarecedor.

Em suma, Vianco é um narrador hábil e com desenvoltura. Como poucos escritores, mesmo entre os mais famosos, todas as técnicas da arte literária e do artesanato de bem escrever ele conhece. Apenas pôs a sua pena a serviço, não da chamada grande arte tal como a concebiam os críticos universitários tradicionais, nem de uma “conscientização” de seus leitores e suas leitoras tal como a imaginavam os escritores ditos engajados. Ele visa simplesmente entreter agradavelmente seu público. Com isso, presta serviços a um leitor que, nas selvas urbanas de hoje, carece de emoções. Um trabalho tão digno quanto qualquer outro, que lhe garante a situação de ser um dos poucos escritores, no Brasil, a sobreviver apenas de seu ofício. Em tempo: o livro já é um roteiro de filme.
>> DIÁRIO DE SÃO PAULO – por Renato Pompeu


“SUPER 8″: ASSISTA AO PRIMEIRO TRAILER DA FICÇÃO CIENTÍFICA DE J.J. ABRAMS

terça-feira | 22 | março | 2011

Um dos filmes mais aguardados do ano, ficção científica “Super 8“, ganhou o seu primeiro trailer completo. O longa, dirigido por J.J. Abrams (“Star Trek“), tem Steven Spielberg como produtor:

O filme também teve sua sinopse oficial liberada:

No verão de 1979, um grupo de amigos em uma pequena cidade de Ohio testemunha um acidente de trem catastrófico ao fazer um filme e logo suspeitam que não foi um acidente. Pouco depois, desaparecimentos incomuns e acontecimentos inexplicáveis ​​começam a acontecer na cidade, e o delegado local tenta descobrir a verdade – que é algo mais aterrorizante do que qualquer um deles poderia ter imaginado.

O elenco é composto por Kyle Chandler (“King Kong”), Amanda Michalka (“Um Olhar do Paraíso”), Elle Fanning (“Um Lugar Qualquer”), Ron Eldard (“A Cor de um Crime”), Noah Emmerich (“Jogo de Poder”), Joel Courtney, Riley Griffiths, Ryan Lee (“A Pedra Mágica”), Zach Mills (“A Troca”) e Gabriel Basso (da série “The Big C”).

“Super 8″ será lançado 10 de junho nos EUA e 9 de setembro no Brasil.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Camila Fernandes


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