A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

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A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael


HQ ENFRENTA FANTASMAS DE MÁQUINAS INTELIGENTES

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Graphic novel ‘V.I.S.H.N.U.’ (Quadrinhos na Cia.)
rediscute terceirização da consciência humana

VISHNU

Ficção científica em quadrinhos brasileira é uma parceria entre Ronaldo Bressane, Eric Acher e Fabio Cobiaco

No futuro, cientistas, guerrilheiros, governantes e religiosos tentam tomar as rédeas de uma misteriosa inteligência artificial em um mundo dominado pela tecnologia, em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais. Até que tudo, de repente, entra em colapso.

Essa distopia pós-moderna desencadeia uma mudança na ordem mundial, mas não sem antes provocar grandes tragédias pelo planeta.

Tempos depois, uma nova consciência eletrônica, denominada V.I.S.H.N.U, surge de forma espontânea.

Primeira experiência de fôlego dos quadrinhos nacionais no campo da ficção científica, “V.I.S.H.N.U.” conta com roteiro do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de “Céu de Lúcifer” (Azougue Editorial), e se baseia em um argumento de Eric Acher. A arte é de Fabio Cobiaco.

A aventura tecnológica, primeira de uma trilogia, dialoga com traços do quadrinista francês Jean “Moebius” Giraud (1938-2012) e com os conceitos estéticos do artista plástico suíço H. R. Giger, famoso por compor os monstros e cenários do primeiro filme da saga “Alien” (1979).

“O livro é um resultado das inquietações em relação ao livre-arbítrio do homem e ao que ele quer para o futuro. Toca em temas como a transferência de consciência e a imortalidade”, diz Bressane.

Segundo o escritor, a ideia era discutir os dilemas de ciência e tecnologia por uma perspectiva pop, imaginando da interação sexual entre homem e máquina a uma questão filosófica central: até que ponto um objeto high-tech pode ser dotado de alma?

Vishnu, na mitologia hindu, é o deus responsável pela manutenção do universo. O romance transforma a entidade em um impulso eletrônico messiânico, gerado dentro de um supercomputador, mas a sociedade corre novo risco de se deixar governar.

Ao compor o argumento, em 2007, Eric Acher revisitou a obra do filósofo indiano
Jiddu Krishnamurti (1895-1986) como inspiração para “V.I.S.H.N.U”, questionando o que enxerga como a “terceirização” da inteligência humana para os computadores.

“Hoje usamos dispositivos externos como smartphones para nos conectar. Em alguns anos, poderemos ter computadores com realidade aumentada e, quem sabe, virão os implantes neurais. Difícil prever o que acontecerá em seguida”, reflete Acher.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Douglas Gravas


A VASTIDÃO A QUE O LEITOR DE BORGES É CONDENADO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Talvez a marca mais grandiosa da literatura de Jorge Luis Borges seja a impureza. A mistura e a contaminação fazem seus contos serem lidos como ensaios e vice-versa, num jogo que só comprova uma questão: quem faz o gênero é o leitor; é ele quem compreende um livro seguindo seus próprios desejos e necessidades, como se guiado por uma bússola particular e intransferível. Como leitor fiel de Borges, por exemplo, acredito que a ficção O Aleph é uma descrição das mais fieis do universo e da sua gênese. É como se estivesse lendo um livro de ciências que me revelasse a simultaneidade com que as coisas convivem e dependem uma das outras. E mais: releio O Aleph acreditando que vou ter alguma revelação ao final da leitura, ainda que a revelação maior seja a minha crença de que algo será revelado, num claro processo de imersão borgeana.

É lendo Borges dessa forma bem particular que recomendo Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare, que a Companhia das Letras lança agora dentro da sua coleção Biblioteca Borges. A obra se insere de maneira exemplar na perspectiva de impureza e contaminação, a que nos referimos anteriormente. Há contos, ensaios, fragmentos e um prólogo que é tudo isso ao mesmo tempo. Cabe ao leitor escolher a classificação da sua leitura.

E o leitor, já acostumado ao universo borgeano, sabe da vastidão do imaginário do escritor argentino em se tratando de Dante. O texto (vamos chamá-lo assim, para não aprisioná-lo na “armadura” de ensaio) O último sorriso de Beatriz dá uma boa ideia de como Borges amplia o mestre italiano: “Tenho a impressão de que Dante edificou o melhor livro produzido pela literatura para intercalar alguns encontros com a irrecuperável Beatriz. Melhor dizendo, os círculos do castigo e o Purgatório austral e os nove círculos concêntricos e Francesca e a sereia e o Grifo e Bertrand de Born são intercalações; um sorriso e uma voz, que ele sabe perdidos, são o que importa”. Sua perspectiva tão aguda da estratégia dantesca de se aproximar da musa Beatriz é compreensível. O Aleph trata de um homem que escolhe ver o universo inteiro apenas para ler as cartas íntimas da amante morta. A visão Total seria apenas o álibi de um voyeur atormentado por detalhes.

Se com esse livro compreendemos melhor Dante, também visualizamos o fascínio de Borges pelo tigre, como símbolo e animal: “Uma famosa página de Blake fez do tigre um fogo que resplandece e um arquétipo eterno do Mal; prefiro a sentença de Chesterton, que o define como um símbolo de terrível elegância. Não há palavras, ademais, que possam cifrar o tigre, essa forma que há séculos habita a imaginação dos homens”. E, como Borges sempre nos alertou, é bom ter cuidado: o tigre está à solta na biblioteca.

>> JORNAL DE PERNAMBUCO – por Schneider Carpeggiani


A MÁQUINA DIFERENCIAL, DE WILLIAM GIBSON E BRUCE STERLING

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O termo steampunk em literatura é aplicado para histórias que se passam em uma realidade alternativa na qual o século XIX ainda tem como principal fonte de energia o vapor (daí o termo “steam”), mas encontra-se mais avançada tecnologicamente do que realmente foi em nossa história. Seja a Inglaterra vitoriana, seja o velho oeste norte-americano, a ideia é incluir no cotidiano das personagens elementos que não existiam na época e que hoje em dia nos são comum, tudo isso adequado ao que estava disponível naquele tempo em termos de matéria prima ou mesmo de tecnologia.

Foi em 1990 que dois autores famosos por trilharem o caminho docyberpunk (William Gibson e Bruce Sterling) escreveram a quatro mãos uma história que parte desse princípio, criando o agora clássico da ficção científica A Máquina Diferencial. Vencedor de prêmios, o livro embora não possa exatamente ser chamado como o primeiro steampunk da literatura, ainda assim tem papel fundamental na divulgação desse gênero, sendo que por isso frequentemente aparece como referência ao falar desse tipo de obra.

A Máquina Diferencial tem um enredo muito bem sacado, porque elabora a dita realidade alternativa a partir de fatos e personagens históricos, fazendo literalmente uma ficção especulativa (termo utilizado para falar de ficção científica). A ideia aqui é: e se Charles Babbage tivesse concluído seu modelo chamado Máquina Diferencial? Quais as consequências de termos na Inglaterra vitoriana algo bastante próximo do conceito de computador? De que forma isso mudaria os rumos da história como conhecemos? É a partir disso que Gibson e Sterling partem, criando uma aventura sensacional que lembra muito a ótima HQ de Alan Moore, A Liga Extraordinária.1

Só que ao invés de necessariamente termos figuras da literatura como nos quadrinhos de Moore, em A Máquina Diferencial temos personagens históricas diversas, que aparecem listadas no final do livro em um Guia de Personagens bem bacana que a Editora Aleph elaborou. Na realidade construída por Gibson e Sterling, Babbage vira figura política importante (“Lorde” Babbage), temos Charles Darwin, Sir Richard Francis Burton entre outras figuras conhecidas da história inglesa. E sim, temos escritores também. Lord Byron surge como Primeiro Ministro, e temos até figuras como Keats, Shelley e Disraeli. Mas o ponto forte da narrativa é que ninguém é colocado ali de forma forçada, as personagens parecem reais dentro daquele mundo.

O foco da narrativa muda algumas vezes, começando com Sybil Gerard, inspirada em personagem de Disraeli e aqui aparecendo como filha de um líder Ludita. A trama se baseia principalmente sobre certos cartões perfurados, ou mais especificamente a natureza desses. A partir disso se desenvolve em uma narrativa envolvendo conspirações contra o poder, mesclada com fatos históricos que de fato ocorreram (como o Grande Fedor que aconteceu em Londres em 1858). É, talvez por isso mesmo, um prato cheio para qualquer um que tenha um gosto por história do século XIX.

Até por conta dos detalhes da narrativa, de como são colocados os elementos de steampunk no livro. Algumas coisas são tão sutis que em determinado momento você até esquece que é um anacronismo, que aquilo não seria possível naquela época. Os efeitos do funcionamento da Máquina Diferencial são vistos em pequenas coisas, nas mudanças do cotidiano vitoriano tão como o conhecemos. É um trabalho tão bem feito que acredito que chega a valer até uma segunda leitura, para observar o que Gibson e Sterling conseguiram fazer, recriar, imaginar.

É até por esse cuidado, e mais ainda pela diversão certa que traz o livro, que não creio que seja voltado apenas para fãs de steampunk. É, sem sombra de dúvidas, altamente recomendado para quem gosta de uma narrativa de aventura, e arrisco dizer, serve até como porta de entrada para quem não está muito familiarizado com a ficção científica. Somando a isso o tratamento dado ao livro pela Aleph (que além do já mencionado Guia de Personagens, traz também um Glossário e Posfácio escrito pelos autores), faz valer ainda mais a pena conferir.
>> MEIA PALAVRA – por Anica


A ILHA DO DR. MOREAU, DE H. G. WELLS

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O que eles narram não é apenas engenhoso; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos” (Jorge Luis Borges).

Apresentamos nossas escusas a Zafón por adiarmos a coluna dedicada a mais um de seus livros e interpormos esta dedicada ao romance do inglês Herbert George Wells (1866-1946), recentemente reeditado no Brasil. Trata-se de um dos livros mais impressionantes que tivemos o prazer de ler e gostaríamos de aproveitar o calor das primeiras impressões para registrarmos nosso entusiasmo.

A ilha do Dr. Moreau foi escrito em 1896. Da infância trazemos a vaga lembrança de assistir uma adaptação cinematográfica da obra. O prefácio da nova edição revela outra de 1996. O enredo é relativamente conhecido: após o naufrágio do navio que o conduzia, o protagonista Charles Prendick é resgatado e vai parar em remota ilha do Pacífico, onde conhece o Dr. Moreau. Puxando o fio da memória, lembra-se de reportagem que lera em Londres, revelando as atrocidades cometidas por ele, o que levou ao seu autoexílio. Estabeleceu-se na ilha, contudo, não para penitenciar-se, mas para continuar seus experimentos sem interferência. E que experiências seriam estas? A transformação de animais selvagens em homens.

Prendick não desvenda os fatos imediatamente. Na escuna em que foi acolhido, estranha a presença de diversos animais — uma onça, um lhama, cães e coelhos — e a aparência do auxiliar do médico que cuidou de si. Este médico, Montgomery, por sua vez, é assistente de Moreau. No primeiro contato com o empregado de Montgomery, Prendick repara na parte inferior de seu rosto, que “se projetava para a frente, lembrando um focinho, e sua boca entreaberta mostrava dentes brancos que eram os maiores que eu já vi numa boca humana”. Sentindo o esbarrão de Prendick, “virou-se com uma agilidade animal”. Devido à latitude em que se encontrava, o personagem atribuiu a aparência do indivíduo — e dos demais que apareceram — às peculiaridades regionais de algum povo desconhecido dos europeus de então. Ninguém procura no extravagante a primeira resposta. Para sossegar sua estranheza, contentou-se com a solução oferecida pela geografia.

Desembarcando na ilha, não sem dificuldade e deparando-se com a recusa inicial de Moreau em recebê-lo, Prendick vê-se impedido de descansar devido à sucessão de urros que identificou como da onça da escuna. Afasta-se do quarto onde instalado e resolve explorar o local, como alternativa a continuar escutando aqueles uivos nos quais se concentrava “todo o sofrimento do mundo”. Nesta forçada excursão, conhece parte do território. Vê cenas ininteligíveis, que desafiam sua resposta inicial aos tipos físicos encontrados. A outra parte ele conhecerá depois, fugindo de Moreau e Montgomery. Si os indivíduos encontrados não apresentavam características endêmicas, intui-se uma segunda hipótese, igualmente errônea mas alarmante: Moreau transformaria pessoas em animais?

Temendo ser o próximo, Prendick foge e alcança a outra parte da ínsula.Encontra uma aldeia que reúne os mais diversos e estapafúrdios tipos. Acomoda-se numa cabana onde a figura de aspecto idoso incita os demais a repetir “A Lei” durante insólita e hipnótica ladainha:

“Não andar de quatro pés, essa é a Lei. Então não somos homens?
“Não beber com a língua, essa é a Lei. Então não somos homens? (…)

E assim por diante. O toque de mestre de Wells aparece neste capítulo na constatação: “Não havia sinal de fogo”. Já presenciamos pessoas vivendo nas ruas, lado a lado com cães. Sabemos de outras que vivem entocadas em casas abarrotadas e imundas, como nem os roedores admitem, pois mudam-se quando a permanência é insustentável. Já passamos na calçada por indivíduos cujo odor anunciou a exclusão do banho de entre seus hábitos. Conhecemos outro que se alimenta exclusivamente do encontrado nas caçambas de lixo. Apesar do esforço, não conseguimos lembrar-nos de uma só espécie animal que faça uso do fogo. Vemos homens que vivam como animais, mas animais que vivam como homens é de tal forma inusitado que Prendick deparou-se com o indício mas não conseguiu assimilá-lo.

Fato e que, após algum transtorno, Moreau decide esclarecer seu hóspede. O “cientista” é descrito como corpulento, de barbas e cabelos brancos e rosto quadrado. Wells, antes de firmar-se como jornalista e escritor, foi aluno e professor-assistente na Midhurst Grammar School, estudando em seguida com Thomas Huxley (), o conhecido “buldogue de Darwin”. Não conhecemos a relação de mestre e discípulo e podemos enganar-nos, mas a descrição de Moreau remeteu-nos ao retrato daquele. Seus motivos são expostos no capítulo XIV. Variam entre o positivismo científico do século XIX e o messianismo, agregando sofismas e argumentos de autoridade. Ao contrário de Huxley, Moreau não era nem cientista, nem humanista. Em nossa concepção, estes termos são sinônimos necessários. Temos na conta desta categoria de pessoas aqueles indivíduos que se dedicaram a ampliar os campos do conhecimento humano, ou mantê-los ampliados, ou ainda, levaram este conhecimento para aplicá-lo pelo mundo. São os Sabin, Curie, Edson e Franklin que ilustram nossa História. Moreau é o antípoda de Albert Schweitzer, por exemplo, prêmio Nobel da Paz de 1952. Schweitzer foi exímio organista, que se formou em Medicina com o específico intuito de levar alívio à África, onde aos rigores da natureza adicionou-se a inclemência dos que se apresentaram como colonizadores. Construiu e equipou ao menos um hospital com fundos levantados em concertos nos quais se apresentava.

Moreau soluciona em definitivo a dúvida de Prendick. O que ele via não eram homens e mulheres transformados em animais, mas o contrário. “São animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas”. A crueldade seria idêntica, em nossa opinião. Percebe-se sua preocupação em comprovar suas ideias e sua indiferença à dor decorrente. Adquiriu a insensibilidade de Mengele ou daquele que manipula químicos visando produzir um abortivo eficiente. Seu intento declarado é único: “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”. E só, sem aplicação prática em benefício de alguém, como questionou Prendick em outra passagem. Por maior sofrimento que causasse, reconhecia a vanidade de seus esforços e logo perdia o interesse pelos espécimes alterados.Rapidamente voltavam a ser o que eram antes, mesmo deformados. Eles regrediam.

Um dos mais cativantes representantes do povo animal — assim são referidos no livro — é o derivado de um cachorro São Bernardo. Ligou-se ao personagem quando ele ficou sozinho na ilha, montava guarda, protegia seu sono. Lembramos de Roger Grenier, no muitas vezes relidoDa dificuldade de ser cão, citando o poeta Rilke: “Sua semelhança confidencial e admirativa é tal que alguns dentre eles parecem ter renunciado a seus hábitos mais antigos, adotando até nossos erros. É exatamente isso que os torna trágicos e sublimes”. Outra figura é o homem-macaco, que despreza as palavras comuns e prefere repetir as que não entende, alegando desenvolver um grande pensamento. Após a leitura, desconfiamos que o sujeitinho escapou da ilha e veio ter ao Brasil, onde proliferou e seus descendentes hoje ocupam os mais diversos cargos.

Todos eles, contudo, regrediram. Parece-nos uma impropriedade vocabular falar em “regressão”. Os “pacientes” de Moreau sequer deixaram de ser o que eram. Após o experimento, perderam a forma original, foram hipnotizados e condicionados. Em relação a estes seres, Moreau cometeu o mesmo erro dos ascetas: não se aperfeiçoa o espírito mutilando o corpo. Portanto, não haveria como voltar de um ponto que não foi atingido. Afastada a interferência humana, retomaram seus hábitos, fosse qual fosse o tempo transcorrido. Retomadadefinitiva, pois as parciais davam-se diariamente, à noite. Estamos convictos de que ao homem é impossível regredir — aqui, sim, no sentido próprio — a estágios animalescos e de dócil submissão a comandos acompanhados de reforços ou punições. Felizmente, todos os anos temos o Big Brother Brasil para sedimentar-nos a convicção. “Então não somos homens?”.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Ricardo de Mattos


BORGES: UMA VIDA, POR EDWIN WILLIAMSON

terça-feira | 21 | fevereiro | 2012

No embalo do relançamento das obras completas de Jorge Luis Borges, a Companhia das Letras traduziu Borges: a life(2004), de Edwin Williamson, professor de literatura espanhola em Oxford. Aparentemente, a vida de Borges, que se dedicou à literatura, não soa tão interessante.

Mas um elogio de Harold Bloom, o maior crítico literário vivo, a essa obra sobre a vida do “mestre argentino”, talvez nos faça mudar de opinião. Embora tenha reconhecido a genialidade deMachado de Assis, Bloom recusou-se a ler Guimarães Rosa, pois disse que “não tinha mais tempo”. O “mestre argentino” ganhou, com Machado, um dos capítulos de Gênio (2003). E é impossível não aproximar o maior crítico contemporâneo do, possivelmente, maior leitordo século XX. E se Bloom “perdeu tempo” com a biografia de Borges, mantendo Guimarães Rosa na espera, é que ela merece ser lida.

De fato, se a vida de Borges foi dedicada à literatura, o que lemos, no livro de Williamson, não é uma biografia tradicional, afinal ele busca “correspondências entre o texto literário e o contexto pessoal”. Borges: uma vida surpreende, em primeiro lugar, pelas mulheres que habitaram a vida, ou o pensamento, de Borges. Para surpresa geral, declara o próprio: “Como passei a vida pensando em mulheres, ao escrever tratei de pensar em outra coisa”. A uma mulher, por exemplo, ele dedicou “O Aleph” (1949). Em “A morte a bússola”, um conto de Ficções (1944), Borges conclui que “o intelecto sozinho leva à morte”, enquanto “o amor se constitui na bússola que nos levará à salvação”. Passou quase a vida inteira lamentando “ter repetidamente sacrificado sua chance de felicidade com uma mulher”.

E, quando morreu sua mãe, escreveu, num poema: “Eu cometi o pior dos pecados possíveis a um homem. Não ter sido feliz”. Leonor Acevedo, aliás, quase centenária, seria outro dos centros de gravidade na vida de Borges. Declararia ela a Bioy Casares(historicamente, o maior amigo de Jorge Luis): “Passei a vida entre dois loucos e às vezes me pergunto se esses dois loucos não tiveram razão”. O “segundo louco” era o Doutor Borges, pai de Jorge Luis (na intimidade,Georgie). Tendo fracassado na literatura, e tendo sido acometido pela cegueira mais cedo que o filho, Doutor Borges transmitiu a Jorge Luis a missão de ser realizar como escritor. E “Georgie”, além da salvação pelo amor, acreditava, obviamente, na salvação pela literatura. Acreditava, como diz Williamson, que “uma obra-prima autêntica seria suficiente para justificar a vida de um escritor”.

Nesse sentido, a Divina Comédiaforneceu a chave que faltava para conferir sentido à existência de Jorge Luis: se encontrasse sua Beatriz, como Dante encontrou, Borges poderia ser feliz, e realizar-se como homem, e como escritor. Ainda que boa parte do mundo não concordasse, acreditou ter encontrado sua “Beatriz” no fim da vida: era María Kodama, que faria Luisa Valenzuela, uma romancista argentina, definir assim o casal: “O venerável velho e a mulher que tirou o venerável velho de seu encapsulamento e o pôs em contato com a vida”. Casaram-se praticamente no leito de morte de Borges. Se o amor quase não chegou a tempo, a consagração também atrasou.

E uma das fases mais célebres de Borges, como “mestre oral”, teve início quando ele se aproximava do seu cinquentenário: “Assim, aos 47 anos, descobri que se abria diante de mim uma vida nova e emocionante”. Conquistou o mundo, nas palavras do escritor norte-americano Richard Burgin: “Quando deu sua última palestra em Harvard, Borges já era o herói literário de Cambridge”. Em 1983, recebeu a Legião de Honra do presidente François Mitterand. E só não ganhou o Nobel, pois defendeu as ditaduras, na América Latina, contra populistas como Perón. Williamson conta que, na Itália, Borges passou a definir o que era “o gosto literário” e, mesmo, “a própria ideia de literatura”.

A verdade é que continua definindo, e não so dentro da Itália, mas fora dela também. Modesto, Borges concluiria, numa entrevista, não ter sido “um pensador”: “nunca havia chegado a nada”; era, no máximo, “um homem de letras”… “um tecelão de sonhos”. E ainda que se considerasse, como poeta, um “grandiloquente de terceira categoria”, criaria, na definição de Bioy Casares, “um novo gênero literário”, “entre o ensaio e a ficção”, inaugurando “as possibilidades literárias da metafísica”. Se a “vida” desse homem não pode ser emocionante, o que pode ser, então? Borges, de Williamson, não só traz de volta a noção perdida de literatura, mas também a noção perdida de uma vida dedicada à literatura.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Julio Daio Borges


A HISTÓRIA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

domingo | 5 | fevereiro | 2012


Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o

“leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição deHamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice’s Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1862, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de

Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado emhttp://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/ num e-bookproduzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(.) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery “Alice”, uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (.) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web emhttp://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


FREUD E O ESTRANHO – CONTOS DO INCONSCIENTE

domingo | 5 | fevereiro | 2012

“Freud e o estranho – contos do inconsciente”, organizado por Bráulio Tavares (Casa da Palavra, 350 págs.), mesmo sendo irregular, não deixa de ser interessante. Em primeiro lugar, pela caprichada apresentação do volume, com notas bastante explicativas acompanhando os contos, além de comentários reunidos ao final do volume.

Foi provavelmente a partir do sucesso da antologia organizada por Ítalo Moriconi, Os 100 melhores contos brasileiros do século(Editora Objetiva, 2000) que as antologias de contos viraram moda no mercado editorial brasileiro. Não que haja algo de errado com isso, muito pelo contrário: essas antologias, quando bem organizadas, são meios importantes para a divulgação de literatura de qualidade. E nos últimos anos surgiram boas antologias no Brasil, especialmente no que se refere à literatura fantástica. Os contos de horror do século XIX, escolhidos por Alberto Manguel, e os Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino (ambas editadas pela Editora Companhia das Letras), talvez sejam mesmo as mais famosas. Mas houve outras coletâneas altamente recomendáveis, como os Clássicos do sobrenatural (Editora Iluminuras), organizados por Enid Abreu Dobránszky, e Os melhores contos fantásticos (Editora Nova Fronteira), organizados por Flávio Moreira da Costa. Houve ainda antologias sobre loucura, morte, violência, vampiros e lobisomens, apenas para ficarmos nos temas que tangenciam a literatura fantástica.

Neste contexto, Bráulio Tavares tem feito um trabalho bastante interessante com a Editora Casa da Palavra. Sempre com ilustrações de Homero Cavalcanti, Tavares organizou, primeiramente, Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), cujo maior mérito é recuperar textos quase esquecidos, como “Os olhos que comiam carne”, de Humberto de Campos, e colocá-los ao lado de autores contemporâneos, como Rubens Figueiredo e Heloísa Seixas. O resultado é um panorama que, mesmo sem ser exaustivo, dá uma boa mostra das diferentes vertentes do fantástico nacional.

Depois, veio uma idéia à primeira vista inusitada: recolher, em uma antologia, contos cujos temas se aproximassem do universo literário de Jorge Luís Borges. O livro, Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), é muito bom e, de fato, consegue achar uma linha de contato entre contos de diferentes épocas, que representassem algumas das leituras mais caras a Borges: de Edgar Allan Poe a Franz Kafka, passando por Hawthorne e Chesterton.

Mas o título do último livro organizado por Bráulio Tavares é ainda mais inusitado: Freud e o estranho – contos fantásticos do inconsciente. O tema, agora, é o célebre ensaio “O estranho” (“Das Unheimlich”, 1919), em que Freud analisa o conto de E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia”. Tavares reúne, então, histórias anteriores ou contemporâneas de Freud e que desenvolvam temas presentes no referido ensaio. Como sempre, estão reunidos alguns grandes autores, como o próprio Hoffmann, Guy de Maupassant e Arthur Schnitzler, e contistas menos conhecidos, como Charlotte Perkins Gilman e F. Marion Crawford.

Gênero amplo

Em seu prefácio, Bráulio Tavares explica que o termo “inconsciente”, tendo se popularizado imensamente, pode abranger um número muito variado de histórias. Essa amplitude está presente também na própria acepção de “literatura fantástica” utilizada aqui: ao contrário do que pregam alguns teóricos, para os quais o fantástico é um gênero datado e com regras bastante definidas, Tavares toma o gênero em sentido mais amplo, entendendo como fantástica “qualquer modalidade não realista da narrativa”, o que inclui contos de fada, a ficção científica, além dos contos de terror propriamente ditos. Essa amplitude é, na verdade, um índice de liberdade criativa:

Como a linguagem dos sonhos, o Fantástico se permite qualquer tipo de livre associação, deslocação, condensação de imagens ou de cenas, paradoxos do tempo e do espaço, de acordo com a intuição do autor. Permite lidar com criaturas, lugares e circunstâncias inexistentes em nosso mundo cotidiano. Nesse sentido, o Fantástico não é uma fuga ou um recuo diante do Realismo, mas um passo além, contando histórias que o Realismo não pode contar pela sua limitação auto-imposta.

Não à toa, Freud recorre à literatura fantástica para descrever “o estranho”, “aquela categoria de assustador que remete ao que é conhecido, velho, e há muito familiar” [1]. Bráulio Tavares, porém, deixa de lado as análises psicanalíticas e se preocupa em elencar aqueles temas nos quais, segundo Freud, o Estranho pode ocorrer com mais freqüência: o retorno do reprimido, a indefinição entre fantasia e realidade, a loucura, o sonho, membros decepados que tomam vida, o retorno dos mortos, as repetições inexplicáveis, o autômato e sua semelhança com o homem.

Deste vasto repertório, o tema mais comum da coletânea é a animação de objetos supostamente inanimados. O resultado é irregular, e algumas vezes bastante ingênuo, como no caso de “Inexplicável”, de L. G. Moberly: uma mulher conta como ela e o marido são assombrados por uma mesa, entalhada com imagens de crocodilos, e que exala um cheiro forte de pântano. Aparentemente, uma das formas de madeira toma vida. Efeito semelhante é provocado pelo primeiro conto do livro, “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que também trata de um casal mudando-se para uma nova casa. Como convém ao gênero fantástico, ele é um médico, cético, que “não tem paciência para crenças, odeia superstições e ridiculariza abertamente qualquer conversa envolvendo coisas que não podem ser vistas e traduzidas em números”, enquanto ela ― que narra a história em um diário ― sofre de alguma perturbação psicológica que o médico define como histeria, e que a torna suscetível ao inexplicável. E, neste caso, o sobrenatural manifesta-se através de um estranho papel de parede, cujos desenhos escondem formas humanas. Mais especificamente, imagens de uma ou de várias mulheres rastejando, forçando sua saída para fora do desenho. A leitura mais evidente para o conto é feminista, com a imagem do papel de parede metaforizando a condição da narradora.

Contos inofensivos

Algumas histórias, como estas, trazem clichês bastante evidentes. No conto “Anima” ― na verdade uma história bastante interessante, apesar de um ou outro lugar comum ― um dos personagens conclui deste modo a reflexão sobre a existência de um “ghoul”, um espírito maligno: “Posso acreditar que não exista nenhum em Rhode Island ― o cônsul disse. ― Estamos na Pérsia, e a Pérsia fica na Ásia”. É bastante comum nos contos fantásticos que os eventos sobrenaturais transcorram em locais distantes do imaginário europeu, o que não é necessariamente ruim, e pode ser literariamente eficiente (é claro que esse artifício respeita uma noção de “exótico” muitas vezes datada e caricata, comum no discurso colonialista). Mas expor didaticamente esse procedimento equivale a transformá-lo naquilo que o próprio organizador, evocando a opinião de Freud, chama de “fórmulas que um leitor experimentado podia perceber num relance”. Quanto mais evidente a fórmula do conto, mais “domesticado” e inofensivo o efeito de estranhamento, menos perturbador o efeito do fantástico. Lembremo-nos que a maioria os contos da antologia é da virada do século 19 para o 20, quando as formas do conto fantástico já estavam cristalizadas há muito no imaginário do leitor. No já citado conto “Inexplicável”, a ingenuidade chega a ponto da personagem narradora se dirigir diretamente ao leitor, supostamente “estimulando-o” com uma interrogação: “Você consegue encontrar alguma explicação?”.

Há contistas, porém, que conseguem provocar um efeito de terror bastante eficiente a partir de conflitos aparentemente ingênuos. Como no caso do conto de Bram Stocker, “A pele-vermelha”, em que um evento banal ― a morte acidental de um filhote de gato ― provoca desdobramentos e um desfecho impressionante. O mistério do conto está na sugestão de que a gata vingativa esteja tomada pelo espírito de um índio pele-vermelha, capaz da vingança mais cruel. O resultado é sangrento, destoante do tom idílico do começo da história: na gradual transição entre o idílico e o horrível é que se encontra a qualidade do conto.

Em outros casos, a saída é o humor. Este parece ser o caso de “A caveira que gritava”, de F. Marion Crawford (ainda que o humor talvez não seja de todo proposital) e, principalmente, “A besta de cinco dedos”, de William F. Harvey, uma pérola do humor negro. A besta do título é, obviamente, uma mão decepada, a materialização de um tema muito em voga no início do século 20, a escrita automática (proposta pelos surrealistas) e a dissociação mental. O diretor da adaptação cinematográfica chegou a ser acusado de plágio por Luis Buñuel, para quem o tema da mão decepada era bastante caro.

Merecem destaque ainda os contos de Maupassant e Schnitzler, este último conterrâneo de Freud, com quem manteve uma relação de amizade e correspondência. Em uma carta curiosa reproduzida por Tavares, Freud explica a Schnitzler que havia evitado sua companhia por temer encontrar-se com seu duplo. Freud reconhecia nas criações do escritor muito do seu próprio pensamento sobre o inconsciente, as convenções sociais, a relação entre amor e morte. Pode-se dizer que a obra de Schnitzler despertava no pai da psicanálise uma sensação de estranha familiaridade.

Clássicos inesquecíveis

Freud e o estranho – contos do inconsciente, não é, enfim, tão bom quanto seu antecessor, Contos fantásticos no labirinto de Borges. Neste, mesmo nos contos mais fantasiosos, como os de Ray Bradbury e H. G. Wells, havia um efeito de fantástico bastante incomum, que fugia dos clichês do gênero. Mas a presente antologia, mesmo sendo mais irregular, não deixa de ser interessante. Em primeiro lugar, pela caprichada apresentação do volume, com notas bastante explicativas acompanhando os contos, além de comentários reunidos ao final do volume. Neste aspecto, a cultura “fantástica” do organizador se destaca, quando ele traça interessantes relações entre autores distantes, como Julio Cortazar e Hugh Walpole, E. T. A. Hoffmann e Philip K. Dick, Cleveland Moffett e Guimarães Rosa. Além disso, a antologia pode ser muito útil aos leitores de Freud, considerando que reúnem alguns contos citados em “O estranho”, como “A aranha” e “Inexplicável”, história que sequer é nomeada por Freud, mas cujo enredo lhe serve de exemplo.

Mas, acima de tudo, como acontece nos melhores contos fantásticos, há certas imagens que, finda a leitura do volume, deverão acompanhar o leitor: a aparição do conto de Maupassant, “A máscara de prata” velando pelo sono tumultuado de sua proprietária, a misteriosa moça à janela em “A aranha” e, claro, os olhos arrancados do autômato em “O homem de areia”, sem dúvida um clássico absoluto do fantástico, e o melhor texto desta antologia.
>> DIPLÔ Le Monde Diplomatique – por Gregório Dantas


OS BURACOS DA MÁSCARA: SETE NARRATIVAS GÓTICAS

terça-feira | 24 | janeiro | 2012

As histórias de Karen Blixen – em Sete narrativas góticas (Cosac Naify, 480 págs.) – negam as obviedades da tradição que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. [1]

A biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen tornou-se tão célebre quanto suas histórias. Casada com o barão sueco Bror von Blixen Finecke, acompanhou o marido para o Quênia, onde viveu entre 1914 e 1931. Além da fazenda de café endividada, que administrou até a bancarrota, Blixen também herdou do marido promíscuo uma doença com a qual conviveria pelo resto da vida, e que por fim a mataria: a sífilis. Após seu divórcio, em 1926, iniciou um caso amoroso com um piloto do exército britânico, Denys Finch Hatton, que morreria em um acidente de avião em 1931. Este relacionamento, como grande parte de sua experiência na África, foi narrado no romance autobiográfico A fazenda africana (Out of Africa, 1936), celebrizado pela adaptação cinematográfica protagonizada por Meryl Streep e Robert Redford. Foi durante a lenta e inevitável decadência de sua fazenda que a escritora escreveu suas Sete narrativas góticas [2] (1934). Escrito em inglês, inicialmente recusado pelas editoras, o livro foi publicado sob o pseudônimo de Isak Dinesen e se tornou um enorme sucesso de público, motivando a autora a se dedicar exclusivamente à carreira literária.

Na época em que as Sete narrativas góticas foram lançadas, houve quem criticasse a autora por causa do tom irreal de suas histórias, e a acusasse de exercer a arte pela arte, sem qualquer implicação social. Trata-se de um preconceito tolo, é verdade. Mas é indicativo do quanto os contos de Karen Blixen parecem deslocados de seu contexto original. Quase anacrônicos, mesmo.

São contos longos, quase novelas, cujos enredos se passam nos séculos 18 e 19, e tratam de certa nobreza que, mesmo decadente, ainda está muito ligada a determinadas tradições ancestrais. O início do conto “O dilúvio em Nordeney”, que abre o volume, é bastante representativo: estamos no início do século 19, em um balneário litorâneo freqüentado por “damas e cavalheiros elegantes”, e o ambiente está tomado por aquele espírito romântico

que se rejubilava diante de ruínas, espectros e lunáticos, e fazia de uma noite tempestuosa na charneca e de um profundo conflito passional regalos mais requintados para o conhecedor do que as amenidades de salão e a harmonia dos sistemas filosóficos [...]. A proximidade de algum naufrágio, com os restos da embarcação ainda visíveis na maré baixa, como um escuro esqueleto petrificado e salgado, tornou-se um dos locais prediletos para piqueniques, nos quais artistas armavam seus cavaletes. (p. 9)

São facilmente reconhecíveis nas Sete narrativas góticas muitos dos temas e procedimentos da literatura fantástica, como o já citado gosto pelo passado, a exploração dos sonhos, a metamorfose, as máscaras, o espelho, as referências à bruxaria e às superstições locais. Mas não se trata de contos fantásticos, no sentido mais estrito do termo. Isso porque aquela hesitação entre a explicação racional e a sobrenatural para os eventos descritos, hesitação que é central para o fantástico, não é o mais importante destas Sete narrativas góticas. Em algumas delas, o sobrenatural é apenas insinuado; em outras, possui um importante papel, mas surge com relativa naturalidade.

Como em “A ceia em Elsinore”: por motivos que fogem à compreensão da sociedade da região portuária de Elsinore, as irmãs De Coninck nunca contraíram núpcias. Encantadoras, nunca lhes faltaram pretendentes; mas elas permaneceram fechadas ao assédio, dedicadas à casa da família e à memória do irmão, ex-corsário e desaparecido misteriosamente. Já solteironas, e vivendo sozinhas em Copenhague, as irmãs continuavam sedutoras e entretidas com eventos sociais. Certa noite, enquanto recebiam um grupo de amigos, chega-lhes de visita sua antiga empregada, senhora Baek, agora responsável pela propriedade de Elsinore. O passado, na forma de um fantasma, parece rondar a casa. Não há grandes sustos ou questionamentos sobre a natureza sobrenatural dos eventos narrados, e o conflito principal está na maneira como os personagens envolvidos lidam com seu passado.

Histórias dentro de histórias

Também é recorrente nas histórias fantásticas que os objetos ou seres sobrenaturais sejam oriundos de países distantes. Lembremos da longínqua Transilvânia, terra natal do conde Drácula; da misteriosa Índia dos contos de Rudyard Kipling, a mesma Índia de onde veio “A pata do macaco” do conto de W. W. Jacobs; ou até mesmo daquele país exótico, o Brasil, de onde surgiu a estranha raça de vampiros descritos no clássico de Maupassant, “O Horla”. É claro que, em todos os casos, está em jogo uma noção de exótico e misterioso que tem muito de esquemático, e que varia com o tempo.

Nas Sete narrativas góticas, essa região exótica e fantástica é Zanzibar. De lá vem o macaco que dá título a um dos melhores contos do livro e protagoniza um dos desfechos mais inusitados de que se tem notícia. E é nas proximidades de Zanzibar que se inicia a história de “Os sonhadores”. Aqui, porém, a autora inverte totalmente a lógica tradicional do fantástico. É o explorador inglês que conta uma história aos nativos, história passada na distante, fria e civilizada Europa. Mira Jama, o contador de histórias local, fisicamente mutilado (simbolizando a decadência de seu ofício?), terá ao final a chance de contar uma fábula. Mas que servirá apenas como mais um desdobramento ― ou versão ― da(s) história(s) do inglês.

“Os sonhadores” é um conto exemplar de um dos procedimentos mais importantes para Karen Blixen, as histórias que surgem dentro da história principal. No caso, uma única personagem é descrita por vários homens que a conheceram, de modo que ela só é acessível ao leitor através de diferentes pontos de vista, de homens vitimados pelo delírio amoroso. Desse modo, a percepção das coisas é contaminada por um estado onírico em que prevalece a ambigüidade das formas. É assim também com o jovem apaixonado de “O poeta”, cujos

pensamentos faziam com que as coisas adquirissem proporções descomunais ― como nas montanhas as imensas sombras que os viajantes projetam em meio à neblina e que os enchem de terror ―, gigantescas e de certo modo grotescas, como objetos que se movem um pouco à margem da razão humana. (p. 395)

A articulação entre diferentes histórias é particularmente complexa em “Os caminhos em torno de Pisa”, em que relações entre os personagens são mais sugeridas do que mostradas. Um jovem conde, atormentado por problemas no casamento, conhece uma velha dama cuja carruagem se acidentara. A senhora, debilitada, conta-lhe a história de sua vida, e pede-lhe um importante favor: que o conde procure por sua neta, a fim de se reconciliarem. Durante a viagem, porém, o conde presencia uma estranha discussão em uma estalagem, e é impelido a testemunhar um duelo mortal entre os contestantes. De modo que surgem histórias que se desdobram dentro daquela que julgávamos a história principal.

O verdadeiro sentido do conto (e das histórias que, mesmo sem uma ligação aparente, espelham-se uma às outras) será sugerido por dois elementos aparentemente banais: um pequeno objeto, que revela relações insuspeitas e passadas entre os personagens; e um corriqueiro teatro de marionetes que, visto de passagem pelo conde em sua viagem, parece compor a principal metáfora do conto. O grande trunfo do destino é fazer-nos crer no acaso. Como a ilusão de um teatro de marionetes.

Sem obviedades

Não à toa, outro motivo recorrente nesses contos é o do autômato. De maneira discreta, diversos personagens são comparados a bonecos ou seres inanimados. A metáfora é literariamente eficiente, não apenas porque evoca um motivo caro à literatura fantástica (pensemos no “estranho”, ou Unheimlich, que Freud identificou em “O homem de areia”, de E. T. A. Hoffmann), como reforça a idéia da marionete, do homem como um joguete do Destino. Um Destino que, onipresente, parece manipular, um pouco arbitrariamente, o andamento do enredo e sua verossimilhança.

Como decorrência dessa aparente arbitrariedade, há uma flagrante artificialidade no modo como personagens que julgávamos secundários tomam a palavra e narram suas vidas. Bem como no tom filosófico e nas citações eruditas que facilmente tomam conta de uma conversa entre estranhos. O narrador de “O velho cavalheiro”, por exemplo, tem o capricho de interromper sua narrativa para explicar devidamente a natureza das mulheres de sua época, e descrever o quanto as vestimentas das damas diziam de suas personalidades. Essas pausas são recorrentes: os personagens ― e o narrador através deles ― estão sempre dispostos a discorrer a respeito dos assuntos mais graves e, para tanto, não hesitam em recorrer a citações eruditas ou a versos memoráveis.

Mario Vargas Llosa já havia identificado como algumas das principais qualidades de Blixen certa “elegância ligeiramente passada de moda, sua esquisitice e irreverência, seus jogos e desplantes de erudição, e seu escasso, para não dizer nulo, contato com o inglês vivo e falado da rua” [3]. Neste sentido, o texto de Karen Blixen é indisfarçadamente “literário”. Mas a sofisticação de sua prosa suplanta qualquer “artificialismo”. E suas narrativas negam as obviedades da tradição gótica que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. Metamorfoses, disfarces e conflitos de personalidade estão presentes em todas as histórias: jovens moças disfarçadas se passam por homens, uma velha senhora sem peruca adquire as feições de um ancião, uma mulher madura e casta forja para si mesma um passado de devassidão.

Como no caso de “O dilúvio em Nordeney”: quatro pessoas que não se conhecem encontram-se, devido a situações adversas, isoladas em um celeiro cercado pelas águas. Enquanto aguardam a manhã e a subseqüente ajuda, eles contam cada um a sua história. Ninguém é quem parece ser. Caem as máscaras sociais e se revelam os vícios ― o orgulho, principalmente ― que mantêm os disfarces. “Não é pela expressão que se deve conhecer o homem, e sim pela máscara” (p. 87), diz um dos personagens. O final do conto, em aberto, é desconcertante.

Máscaras, bonecos, disfarces: o referido “artificialismo” dos contos de Karen Blixen tem algo de teatral. E o leitor, como o personagem da obra-prima “O macaco”, não deve ser “tão dogmático a ponto de acreditar que é indispensável haver tablado e luzes de ribalta para se estar no teatro” (p. 156). Karen Blixen é uma escritora para aqueles que aceitam as convenções literárias e o quanto há de onírico em todas as histórias. E aceitam a idéia de participar de um baile de máscaras em que nunca se revelarão, senão por sutilizas e discretos buracos na máscara, as identidades de seus convivas.

[1] O título dessa resenha é uma referência ao conto de Jean Lorrain, chamado precisamente de “Os buracos da máscara” e que pode ser lido em Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] BLIXEN, Karen. Sete narrativas góticas. Trad. Cláudio Marcondes. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

[3] LLOSA, Mário Vargas. “Os contos da baronesa”. In: A verdade das mentiras. Trad. Cordélia Magalhães. São Paulo: Arx, 2004.

>> DIPLÔ – por Gregório Dantas


JULES VERNE: 20 MIL LÉGUAS DE AVENTURA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

A edição “definitiva” do livro de Verne
não é para jovens,
mas para velhos amantes da literatura

"20 mil léguas submarinas" (comentada e ilustrada), de Jules Verne

Antes de a ciência médica aparecer com os exames de DNA e os procedimentos de barriga de aluguel, alguns piadistas misóginos costumavam dizer que a identidade da mãe é sempre uma certeza; já a do pai jamais passa de mera conjectura. A ficção científica, como forma literária, se encaixa bem nesse antigo aforismo da cafajestagem: a mãe é obviamente Mary Shelley, autora do assombroso Frankenstein, mas e o pai? Seria o francês Jules Verne ou o britânico H.G. Wells?

Verne certamente começou antes, tendo publicado em 1863 o romance Cinco Semanas em Balão, narrativa em que um grupo de exploradores sobrevoa a África num balão que, para os padrões da época, era quase uma nave espacial. Esse livro veio a público três anos antes de Wellsnascer. Os defensores da primazia do britânico (culpado, meritíssimo) geralmente argumentam com base numa certa concepção de ficção científica: enquanto, em Wells, a ciência é um meio para entender e modificar o mundo, em Verne ela é apenas o pretexto da aventura.

Em Guerra dos Mundos ou na Máquina do Tempo, por exemplo, vemos a civilização ocidental soçobrar sob um ataque alienígena, num caso, ou debaixo de pressões econômicas, sociais e biológicas, no outro. Em Viagem ao Centro da Terra ou 20 Mil Léguas Submarinas, em comparação, o que temos é a aventura científica servindo como uma espécie de parêntese em meio ao fluxo do status quo, que prossegue inabalado. Nesse aspecto, os livros de Verne lembram muito as histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, nas quais nenhuma revelação, fosse a da existência de vida extraterrestre ou do ressurgimento da Atlântida, era capaz de abalar a rotina das donas-de-casa de vestido rodado e de seus maridos de terno marrom, chapéu e gomalina.

Se o título de Verne a pai da ficção científica é contestado, é difícil, no entanto, negar a ele a paternidade de outro gênero popular, o technothriller, onde tramas rocambolescas são desencadeadas por, e giram em torno de, avanços tecnológicos únicos, muitas vezes descritos com um nível obsessivo de detalhe. É difícil imaginar Tom Clancy ou mesmo Michael Crichton sem Verne. E Caçada ao Outubro Vermelho, o livro mais famoso de Clancy, provavelmente não existiria sem o antecedente de 20 Mil Léguas Submarinas.

É deste romance, talvez o mais famoso de Verne, que chega uma “edição definitiva” publicada pela Zahar. Suponho que a maioria dos leitores desta resenha já esteja familiarizada com o enredo geral da obra, mas aqui vai um breve resumo: nos anos finais da década de 1860, o biólogo francês Pierre Aronnax, acompanhado por seu fiel valete Conselho e por Ned Land, um intrépido arpoador de baleias canadense, se vê aprisionado a bordo de um magnífico submarino, o Náutilus, e à mercê de seu comandante, o anti-heroi quase-byroniano Capitão Nemo. Na condição de hóspedes involuntários de Nemo, os três percorrem 20.000 léguas sob as águas do mar, visitando as ruínas da Atlântida, os campos de cultivo de pérolas do Pacífico e a Antártida.

Quem conhece outras “edições definitivas” lançadas pela mesma casa editorial, como as de Sherlock Holmes, anotadas pelo estudioso Leslie S. Klinger, ou a Alice de Lewis Carroll, anotada por Martin Gardner, corre o risco de se desapontar: as notas do tradutor André Telles são úteis, interessantes e corretas, mas estão longe de oferecer a exuberância de estilo e erudição desses outros títulos, onde muitas das anotações se desdobram em verdadeiros ensaios históricos e literários.

O papel ensaístico fica por conta da mais que interessante introdução de Rodrigo Lacerda, que contextualiza, para o leitor desavisado, a gênese das Viagens Extraordinárias – série que inclui, além das 20 Mil Léguas, outros títulos famosos, como Viagem ao Centro da Terra, por exemplo. Lacerda lembra que as Viagens foram concebidas como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado Revista de Educação e Recreação.

Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, é uma que ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo, e segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira. Ela ajuda, também, a entender as principais limitações dos livros de Verne, a saber: o caráter episódico da ação; a natureza caricatural de boa parte dos personagens; e os fantásticosinfodumps.

Parte do jargão dos escritores de ficção científica, “infodump” – literalmente, “despejo de informação “ – é o momento em que a ação da narrativa para, a fim de que algum tipo de informação seja transmitida ao leitor. Histórias passadas no futuro têm infodumps sobre os costumes, a moral e a sociedade em que a trama se passa; histórias sobre armas nucleares têminfodumps sobre física atômica; e assim por diante.

Momentos de infodump tendem a ser especialmente desajeitados, e iseri-los no fluxo narrativo sem perder o leitor é um dos grandes desafios técnicos da escrita de ficção científica. No caso dasViagens Extraordinárias de Verne, no entanto, o infodump é a razão de ser do livro: na lógica daRevista de Educação e Recreação, as aventuras do Professor Aronnax e do Capitão Nemo são apenas um pretexto para que os petizes franceses de 1870 aprendam que os peixes podem ser cartilaginosos ou ósseos, que polvos, lulas e calamares são cefalópodes, quais são as principais variedades de vida comestível dos mares do mundo e como preparar uma refeição decente à base de fruta-pão.Entre outras coisas.

Em sua introdução, Lacerda diz que é virtualmente impossível encontrar uma edição brasileira de 20 Mil Léguas, anterior à “defintiva” da Zahar, da qual os infodumps, principalmente os extensos parágrafos de descrição taxonômica da vida marinha, não tenham sido extirpados. Ele elogia a arte de Verne na construção dessas passagens (como: “no ramo dos zoófitos e na classe dos alcionários, observa-se a ordem das gorgonáceas…”), notando que o autor consegue encadear as descrições forma quase poética, e muitas vezes obter belos efeitos literários (“focas de barriga branca e pelagem preta, conhecidas como “monges”, por terem efetivamente o aspecto de dominicanos com três metros de comprimento”.)

Mesmo reconhecendo a importância de uma edição integral do romance em português, no entanto, vejo-me forçado a confessar que os trechos mais explicitamente didáticos quase me fizeram desanimar da leitura.

O verdadeiro gênio de Verne, a meu ver, está na capacidade de criar imagens de pura imaginação, como quando o Náutilus é avistado, pela primeira vez, por Aronnax, que se espanta com a forma como o submarino ilumina a água do mar:

O halo de luz descrevia sob o mar um arco amplo e retesado, do qual o centro condensava-se num foco ardente, cujo insustentável brilho apagava-se por gradações sucessivas.

Quantas vezes essa mesma cena já não foi vista, em filmes e episódios de TV que tratam misteriosos objetos submarinos? E, no entanto, muito provavelmente surgiu, inédita, da pena do escritor francês. Essa é a verdadeira capacidade de antecipação de Jules Verne. Não “prever” o submarino, mas prever, literariamente, qual o efeito poético que a aparição súbita de um submarino teria sobre o espírito humano.

O poder evocativo do autor ressurge, bem adiante, na descrição de um naufrágio visitado pelo Náutilus, onde Aronnax vê, iluminado pela luz fria do submarino, o cadáver de uma mulher ainda preso ao caso submerso, que “erguera o filho acima da cabeça, pobre criaturinha, cujos braços abraçavam o pescoço da mãe”.

Quanto a personagens, de fato 20 Mil Léguas Submarinas só tem dois dignos do nome: o próprio submarino Náutilus e seu capitão, o enigmático Nemo.

Ficamos sabendo, na introdução de Lacerda, que Nemo deveria ser um revolucionário polonês, que perdera a família numa repressão provocada pelo governo russo. Induzido pelo editor a abandonar essa biografia de seu personagem – por questões comerciais e políticas – Verne simplesmente desiste de dar uma vida pregressa a seu enigmático capitão (uma biografia diversa da do rebelde polonês aparece em uma obra posterior, A Ilha Misteriosa).

Mesmo sem uma vida pregressa ou uma motivação clara, no entanto, Nemo – feroz, inteligente, irônico, assombrado, melancólico – é o ser humano mais bem acabado do livro e sua obra, o submarino Náutilus, é uma extensão de sua personalidade.

Dos demais, Aronnax é às vezes um professor arquetípico de Ciências, o mesmo tipo de que Monteiro Lobato viria a troçar, ainda que com afeto e simpatia, na figura do Visconde de Sabugosa; seu criado, Conselho, faz as vezes de aluno, a quem Aronnax faz perguntas cuja resposta já conhece, para edificação do leitor; e o arpoador Ned Land está ali apenas para dar a Conselho um parceiro para cenas cômicas.

Mencionei, também, o caráter episódico da obra. Se alguns desses episódios têm um vibrante poder literário – como o funeral submarino ou a visita à Atlântida – ou são aventuras que nada ficam a dever aos melhores textos do gênero – o combate com a lula gigante logo vem à mente – o fato é que a falta de um desenvolvimento mais notável dos personagens, ou do propósito da viagem do Náutilus, somada às aulas de taxonomia marinha, tornam a leitura, por vezes, penosa.

A edição definitiva de 20 Mil Léguas Submarinas não é, hoje, um livro para jovens (a menos que se trate de um jovem candidato a oceanógrafo); também é um livro que poderá desapontar os que têm, das antigas versões condensadas, uma forte memória afetiva vinda da infância. Como peça histórica, o livro chama atenção para os alertas que Verne põe na boca de Nemo e de Aronnax quanto ao risco de extinção de baleias e morsas por meio da caça predatória: isso na década de 60 do século retrasado, o que mostra que o problema mão é novo.

Mais do que uma peça de nostalgia ou curiosidade histórica, no entanto, trata-se de um livro para os amantes de literatura: o desafio de exploração da linguagem de Verne, a tentativa de extrair poesia do jargão da ciência, merece ser enfrentado. Nem que seja para que o leitor chegue, ofegante e sedento como os tripulantes do Náutilus, à fantástica luta com a lula gigante dos capítulos finais.
>> AMALGAMA – por Calos Orsi


PÁGINAS DO FUTURO: FICÇÃO CIENTÍFICA À BRASILEIRA

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Uma coletânea de contos de ficção científica, mas sem Isaac Asimov, H.G. Wells ou Ray Bradbury. Nela, em vez desses nomes óbvios do gênero, você vai encontrar autores brasileiros, alguns bem conhecidos, outros nem tanto. É assim o livro Páginas do Futuro, organizado pelo escritor Bráulio Tavares, que reúne nomes como Ademir Assunção, Jerônymo Monteiro e Fábio Fernandes e outros que dificilmente se poderia imaginar como cultores do gênero sci-fi entre nós: Raquel de Queiroz, Joaquim Manuel de Macedo e Rubem Fonseca.

De fato, como imaginar que a autora de um clássico do romance regionalista como O Quinze poderia escrever um conto de ficção científica como Ma-Hôre, tão intenso e enxuto que bem poderia ser filmado por um grande estúdio norte-americano? “É a única incursão conhecida dela no gênero”, diz Bráulio, ele próprio um cultor da ficção científica (é autor de Mundo Fantasmo, entre vários outros livros). Quem diria que Joaquim Manuel de Macedo, autor de um daqueles romances mais lidos de forma compulsória pelos estudantes brasileiros, A Moreninha, investiria imaginação numa descrição apocalíptica como em O Fim do Mundo? Ou que um príncipe da narrativa policial como Rubem Fonseca fizesse também sua única incursão no gênero sci-fi com um thriller futurista sobre um Rio de Janeiro, que se parece à Los Angeles de Blade Runner, de tão distópico, violento e caótico?

O fato é que, surpresas à parte, com Ma-Hôre, Raquel de Queiroz assina um dos melhores contos do volume. O título seria o nome de um homúnculo de aparência benigna, embarcado involuntariamente em uma nave pilotada por humanos e que o leva à Terra, para longe do seu planeta natal. Raquel trabalha com habilidade o tema do “estranho entre nós” e prepara um desfecho surpreendente para o leitor. Ao ler esse conto, impossível não pensar que a autora deveria ter se dedicado um pouco mais ao gênero.

O Fim do Mundo, originalmente publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 1857, é o mais antigo texto da antologia. Aparece mais como uma curiosidade, glosa reiterada sobre os supostos efeitos libertários de um eventual cataclisma planetário. O tema, de tão presente no inconsciente coletivo, reaparece até mesmo na música popular, no conhecidíssimo “Anunciaram que o mundo ia se acabar”, de Assis Valente, celebrizado na voz de Carmem Miranda .

Já O Quarto Selo, texto originalmente publicado em Lucia McCartney, em 1967, mostra a narrativa típica de Fonseca, com seu estilo e personagens implacáveis, apenas deslocados para um futuro um tanto indefinido. Como escreve Braulio Tavares, Rubem Fonseca, embora admirador confesso da ficção científica, pouco se aproximou do gênero, sendo este conto uma notável exceção em sua obra.

É, no entanto, com os autores menos conhecidos que o livro reserva as melhores e maiores surpresas, em especial para o leitor pouco familiarizado com o que se faz na FC brasileira. Por exemplo, Exercícios de Silêncio, de Finisia Fideli. O organizador nos informa que Finisia é médica homeopata e faz parte do grupo de autores cujo surgimento é ligado ao Clube de Leitores de Ficção Científica. A abordagem do conto é muito original e lembra, em seu clima, algumas passagens de uma obra famosa nos anos 1960, O Despertar dos Mágicos, de Louis Powells e Jacques Bergier. No relato, o protagonista Theo (a escolha do nome não se dá por acaso) tem a nave avariada e desce num planeta onde vive uma população que se desenvolveu de maneira diferente da humana. É uma civilização low-tech, na qual a apropriação tecnológica da natureza é substituída pela consciência de si e da sua posição no cosmos. Ao invés de método científico, meditação transcendental. Por paradoxo, é através da meditação e do silêncio interior que Theo poderá resolver o grave problema técnico que o impede de voltar à Terra.

Inútil dizer que essas histórias – a de Finisia e outras – contêm um comentário crítico da relação do homem com a técnica, quando esta parece dominá-lo e não o contrário. É um traço interessante e ambivalente o da sci-fi, ao apoiar-se num virtual avanço tecnológico para, não raro, denunciar-lhe as implicações e os perigos para a vida humana. Caso, por exemplo, de Eu, Robô, de Isaac Asimov, um clássico sobre a revolta das máquinas.

De qualquer forma, nota-se na seleção proposta a preocupação com uma FC que seja, não digo “autenticamente” brasileira (já que esse estado de pureza não existe), mas que se expresse em sotaque nacional, respire nossos temas, e corte, de certa forma, o cordão umbilical com o o qual se liga ao mainstream do gênero, a matriz anglo-saxônica.

No estudo introdutório que escreve para Páginas do Futuro, Braulio remonta a três tradições presentes na formação da FC contemporânea: a dos antigos, com seus relatos fantásticos, tais como a Odisseia de Homero e as Metamorfoses de Ovídio. O Scientific Roman europeu, cunhado no seio da Revolução Industrial, e que tem Jules Verne e H. G. Wells entre seus nomes mais representativos. Por fim, os pulp magazines norte-americanos que, nos anos 1920 e 1930, estabelecem as bases da FC moderna. É com essas tradições que os autores brasileiros têm de dialogar. Porém, sem se submeter a elas. Como escreve Braulio, “A FC brasileira não pode abrir mão de um conhecimento da FC internacional sob o risco de deixar de ser FC, e não pode abrir mão de um conhecimento equivalente da literatura do nosso país, sob o risco de deixar de ser brasileira”.

A diversidade apresentada no volume e sua antiguidade nas letras brasileiras, ainda que de forma episódica, deixam antever boas páginas no futuro da FC à brasileira. Desde que a deglutição das tradições estabelecidas se dê de maneira criativa e original. Não por acaso, um autor como Ivan Carlos Regina publicou, em 1988, seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. Inspirado nos nos modernistas de 1922, Ivan entende ser necessária a deglutição radical dos nutrientes estrangeiros para a produção da proteína nacional. Num trecho do manifesto, escreve: “Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.”

Páginas do Futuro dá uma amostra bem variada de como esse processo de deglutição e digestão tem se dado entre nós.

Sobre o coordenador do livro
Braulio Tavares (1950) nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e mora no Rio de Janeiro. É escritor, poeta, compositor (tem cerca de 20 músicas em parceria com Lenine, por exemplo), cronista e organizador de antologias. Entre elas, Páginas de Sombra (Contos Fantásticos Brasileiros), Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, Freud e O Estranho (Contos Fantásticos do Inconsciente) e Contos Obscuros de Edgard Allan Poe. É autor dos livros A Espinha Dorsal da Memória (1989), A Máquina Voadora (1994), Mundo Fantasmo (1996) e ABC de Ariano Suassuna (2007), entre outros. Escreve crônicas diárias para o Jornal da Paraíba, transcritas em seu blog Mundo Fantasmo  mundofantasmo.blogspot.com). Como concilia tantas atividades? “No fundo sou apenas um escritor”, disse, em conversa com o Estado. “É o exercício da palavra escrita que dá o fio condutor em tudo o que faço”.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Luiz Zanin

TRECHOS

“A sorte, pensavam os astronautas, é que o seu pequeno cativo tinha o coração ligeiro ou filosófico. Porque depressa aceitou o irreparável e tratou de adaptar-se. Auxiliado pelos desenhos, com rapidez adquiriu um bom vocabulário na língua dos humanos. Tinha a inteligência ávida de um adolescente bem dotado…Também contava coisas da sua gente que, na água, elemento dominante em nove décimos do pequeno planeta, passavam grande parte da sua vida”
(Ma-Hôre, Raquel de Queiroz)

“Passaram toda a noite imersos no mundo luminoso do copo de cristal, ela vendo massas humanas a caminhar por um terreno sem fim, entremeadas de pesados carros de guerra. Via o brilho de armas, das pontas das lanças; o reflexo da luz nas lâminas de espadas desembainhadas. Via rolos de pó erguerem-se por cima dos soldados.”
(O Copo de Cristal, Jerônymo Monteiro)

Serviço:
“Páginas do Futuro – Contos Brasileiros de Ficção Científica”
(seleção e apresentação de Braulio Tavares. Ilustrações de Romero Cavalcanti).Editora Casa da Palavra, 160 páginas.


“A ILHA”, DE FLÁVIO CARNEIRO

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Com A Ilha (Rocco, 208 págs.), o escritor goiano Flávio Carneiro fecha a sua Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com A Confissão (que resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007), tendo como segundo volume O Campeonato, de 2002.

Um dos mais interessantes projetos da literatura brasileira da atualidade, a trilogia trabalha obras fronteiriças entre o mainstream literário nacional e a ficção popular de gênero: o primeiro livro se aproxima do horror sobrenatural, com uma história de um vampiro emocional carioca; o segundo dialoga com a ficção de crime; e, finalmente, A Ilha é uma ficção científica que evoca a nobre tradição da utopia.

No Brasil, a utopia e sua gêmea do mal, a distopia, têm uma longa história. Na década de 1920 tivemos um Ciclo de Panfletos Utópicos que defendia a eugenia e a higienização como soluções para o subdesenvolvimento tupiniquim. Cinquenta anos depois, o mainstream recrutou as duas irmãs para, veladamente, satirizar a ditadura militar e a tecnocracia que o acompanhava. Na primeira fase, nomes como Monteiro Lobato e Rodolpho Teóphilo; e na segunda, Ruth Bueno, Chico Buarque, André Carneiro e Ignácio de Loyola Brandão.

Flávio Carneiro escapa das armadilhas desses dois momentos anteriores, já que evita ser prescritivo ou abertamente crítico, num romance que dialoga com nada menos que A Utopia (1516), de Thomas More (1478-1535), também ambientado em uma ilha. Mas se trata de um diálogo discreto, conduzido de modo apenas alusivo. Também de maneira muito condizente com o projeto geral da antologia, o livro convoca outros diálogos intertextuais: um trecho das praias do Rio de Janeiro, centrado em torno do Leme até o Morro de Santa Teresa e a Lagoa Rodrigo de Freitas, separa-se do continente e passa a vagar pelo Atlântico – como acontece com Portugal, em A Jangada de Pedra (1986), do nobelista José Saramago (1922-2010).

Garrafas começam a chegar à praia, contendo em seu interior mapas artesanais. Por meio desses, alguns dos moradores vão se dando conta de que a sua ilha pode estar se dirigindo de volta ao continente. Esses personagens – Bernardo e Clara, Pepe e Catarina, Andador e seu cachorro – se sentem intrigados pela possibilidade, e começam a se perguntar como isso seria possível. A primeira hipótese levantada seria a da deriva tectônica, fenômeno natural que, cientificamente, nunca poderia explicar o deslocamento. Mais tarde, uma complexa teoria high-tech passa a tomar forma, envolvendo clonagem e uma tecnologia revolucionária que permitiria a recriação da matéria complexa. Ao mesmo tempo em que os dois casais (em especial) realizam a sua investigação – a partir da sua sociedade low tech -, pessoas e depois construções inteiras começam a desaparecer da ilha.

A fonte dessa teoria sobre a qual eles especulam é um romance de ficção científica chamado O Projeto Genesis, escrito por um certo P. D. Deckard – nome que traz o renomado autor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) para o jogo intertextual de Carneiro. A exegese dessa obra de “Deckard” (homônimo do herói de O Caçador de Andróides, livro inspirador do filme Blade Runner) é que fornece as pistas que os casais de protagonistas investigam. O romance de Carneiro, porém, não tem nada do clima de paranoia habitual em Dick, e a investigação do que se passa na ilha não leva os protagonistas a situações de perigo nem a descobertas que ameacem as suas identidades. Ao contrário, mesmo com os desaparecimentos, a vida na ilha segue mansa, e os protagonistas parecem tão interessados um no outro quanto na resolução do mistério.

O autor não caracteriza a vida utópica na ilha, seja em termos políticos ou sociais. É essa vida mansa praiana – amparada por uma prosa agradável, impregnada de doçura e calor humano – uma das poucas pistas que o leitor tem para compreender como funciona a alegoria no romance. A alegoria de A Jangada de Pedra remete a um sentimento de inadequação de Portugal, em relação ao restante da Europa. Em A Ilha, parece sugerir que um certo espírito carioca, romântico, descomplicado e singelo, só poderia sobreviver com a sua separação física do resto do Brasil. Por isso, minha tendência é associar o teor do livro à minha ideia de um “sonho brasileiro” de vida mansa próxima à natureza, que estaria presente na ficção científica brasileira desde, por exemplo, a novela utópica “Zanzalá” (1936) de Afonso Schmidt (1890-1964). E nesse mesmo sentido, é interessante contrapor A Ilha ao romance tupinipunk de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist (1991), com seu relato distópico e desumanizado de Copacabana.

Mas A Ilha não se resume à evocação de um sonho brasileiro que parece ameaçado – literalmente em desintegração – pelo retorno a (ou advento de) uma realidade nacional que não lhe dá amparo, mas traz nova instância do tipo de dramatização da relação autor/leitor que Flávio Carneiro já havia favorecido em A Confissão. Desta vez, o narrador partilha do espaço em que vivem os personagens, e aponta situações e cenas a um “leitor” que às vezes parece estar ao seu lado, olhando de longe ou de perto por uma janela metafórica que representa o foco narrativo. Ele pode estar organicamente ligado às situações do romance como um supervisor ou observador daquele grande experimento aludido nas teorias de Bernardo e Clara, Pepe e Catarina. Nos livros da Trilogia do Rio de Janeiro, Carneiro parece estar criando a sua própria prática metaficcional.

Livre de peripécias e sem um enredo estrito, a narrativa de A Ilha caminha num espaço de indeterminação entre afirmação e dúvida. Um projeto engenhoso e intrigante, um bom momento daquela tendência dominante da ficção científica feita no Brasil, que emprega as imagens do gênero com objetivos programáticos e estéticos próprios do mainstream literário.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

Num futuro indeterminado, os habitantes de uma ilha perdida num oceano qualquer acreditam que são os únicos sobreviventes de uma grande catástrofe, que teria varrido o resto do planeta para debaixo das águas. Até o dia em que aparecem na praia misteriosas garrafas, com mapas sugerindo a existência de um continente, não muito distante dali. A partir de então estranhos acontecimentos vão mudar, de forma radical, a rotina da ilha.

O narrador dessa aventura é um velho bibliotecário franciscano, enclausurado na torre de um convento. Cercado de livros, é ele quem conduz o leitor por um estreito caminho entre a realidade e a fantasia, num relato em que conceitos como vida artificial, campo magnético e experiências genéticas convivem com cenários paradisíacos, lembrando um passado remoto.

Em meio às cenas insólitas que vão compondo a trama, o leitor vai conhecendo personagens que encarnam a cada página a loucura, o sonho, a dúvida, vivendo sempre a um passo da próxima surpresa.

Se você é alguém de carne e osso, está em suas mãos um romance que fala sobre a dificuldade de estabelecer o que é real e o que é imaginário, o que é sonho e o que de fato aconteceu. Como diz a certa altura o narrador, confiar em romances é como confiar nas ondas do mar. Por isso, na busca dos personagens pela verdade, cabe ao leitor a última palavra sobre os mistérios que envolvem A ilha.
Texto publicado na orelha do livro)


BANG BANG! – “SAGAS 2, ESTRANHO OESTE”

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Antes de começar a falar sobre esse livro de contos sobre o Estranho Oeste (Argonautas, 144 págs.), devo esclarecer uma pergunta que muitos de vocês devem estar fazendo neste momento,“O que diabos é Estranho Oeste?!”

Estranho Oeste ou Weird West, para as pessoas nem um pouco familiarizadas com o termo, é um gênero mistura o Faroeste americano com outros estilos, normalmente, o horror, o oculto ou a fantasia. Acredito que o exemplo mais recente seria Cowboys & Aliens (leia a resenha da Cherry_B aqui), mas há outros exemplos igualmente famosos como Jonah Hex, a sagada Torre Negra do Stephen King, os quadrinhos Weird Western Tales da DC Comics e até mesmo o animê Trigun.

Agora que estamos todos na mesma página (vocês estão, NÉ??!!), vamos ao livro!Sagas 2 – Estranho Oeste é o segundo volume da coleção de contos da série Sagas da Argonautas Editora (confira a resenha de Sagas 1). O livro é bem curtinho e é composto por cinco contos, na seguinte ordem:

Bisão do Sol Poente por Duda Falcão
Aproveite o Dia por Christian David
 por Alícia Azevedo
Justiça… Vivo ou Morto por M.D. Amado
The Gun, the Evil and the Death por Wilson Vieira

O primeiro conto é sobre um caçador de recompensas, Kane Blackmoon, que está à procura de Herdandés Calderón, um ladrão de bancos altamente procurado e com uma cabeça extremamente valiosa. No meio de sua perseguição, Kane encontra muitos mutilados, uma cidade fantasma, um índio sioux e uma lenda sobre demônios envolvendo sua linhagem indígena. Por algum motivo que ainda não soube identificar, não gostei muito desse conto do Duda, sei lá, simplesmente não consegui me empolgar muito com ele e os personagens não me cativaram. O Bisão do Sol Poente foi um dos contos mais fracos do livro, não que seja ruim, mas…

Em seguida, somos apresentados ao conto de Christian David, que é sobre o pistoleiro Jeremiah ou O Profeta, como é conhecido pelas bandas do Oeste por seus pressentimentos, que, curiosamente, ele simplesmente tenta ignorar ao máximo. Ignorar o próprio instinto é o que o leva a entrar e permanecer no Belle’s Saloon, que desde o início já estava ativando aquele botãozinho atrás da cabeça que diz , “PELO AMOR DE DEUS, ARREDA O PÉ DAQUI, PESSOA!”. Jeremiah é avisado pela gaçornete a sair de lá e comer em outro lugar, mas o estômago foi mais forte e obrigou o pobre homem a comer aquela comida de aparência horrível. Logo depois de comer, Jeremiah descobre que realmente deveria ter dado atenção ao seu mau pressentimento e a garçonete desde o início… Verdade seja dita, esse foi o melhor conto do livro inteiro! A narrativa do Chris (sim, já somos íntimos apesar de não nos conhecermos! :3) te prende desde o início e não tem cômo não gostar do Jeremiah e rir horrores com seu pânico e sua constante batalha interna sobre seus dons paranormais.  E o final do conto é ótimo! Aliás, tudo no conto é muito bom! O meu favorito, com certeza.

No terceiro conto conhecemos a história da freira Beatrix, que tem todas suas crenças mudadas completamente após um ataque ao convento onde ela vivia no qual ela foi a única a sair com vida, ao ser salva por um misterioso homem com um manto negro que cobra de Beatrix como pagamento por salvá-la apenas fé incondicional. Graças a esse homem, Beatrix, agora uma pistoleira, é capaz de se vingar dos assassinos que atacaram seu convento.  é recheado de diálogos e questionamentos interessantes e o tempo todo você quer saber quem é o cara com o manto negro (o que infelizmente não é revelado =X). Esse conto só não é tão bom porque não é um livro completo (sim, ele daria um livro muito bom).

O quarto conto é a história de um pistoleiro, Cole Monco, que fica curioso ao ver um garoto atirando em várias latinhas e vai até ele para perguntar por que ele está fazendo isso. Cole descobre que o nome do menino é Josh e que ele está treinando para matar os executores de sua família. O pistoleiro não é de ajudar muito as pessoas, mas se identifica com o menino e sua história e decide por ajudá-lo. Cole, então, vai atrás do delegado Pat Stevenson para axiliá-lo, mas quando eles voltam ao Saloon onde Cole encontrara o menino, o dono do salão diz que não existe nenhum garoto e que Cole conversava sozinho o tempo todo… Justiça…Vivo ou Morto é um ótimo conto e bem narrado, em muitos momentos fiquei questionando assim como o próprio Cole se ele estava ficando louco e se Josh realmente existia. E o final? Eu não esperava um desfecho daqueles e eu gosto muito ser surpreendida com um bom final. Gostei muito deste conto!

O quinto conto é a narrativa de um assassino que mata por prazer, Tom William Ketchun, que ao chegar em uma cidade praticamente deserta num dia bem chuvoso, entra em um local chamado Las Cruces. Logo Tom é avisado de que o lugar estava fechado, porque logo haveria um julgamento. O que Tom não esperava é o julgamento fosse o dele! Me sinto até mal e culpada por falar isso, mas eu DETESTEI o conto do Wilson, que tem uma ótima premissa, no entanto desandou completamente. Não me dei com narrativa lenta e previsível do autor e a história depois de algumas páginas ficou sem pé nem cabeça e terminou de uma forma mais maluca ainda. Em comparação aos outros quatro contos, este é bem fraquinho. Contudo, a prática, a tentativa e o erro são ótimos amigos e professores, sendo assim, acredito que Wilson Vieira melhorará com o tempo e o treino.

No geral, Sagas 2 – Estranho Oeste é um livro bem divertido e assim como o primeiro coleção, o prefácio (dessa vez escrito por Thomaz Albornoz) está maravilhoso (sério, descubro horrores de coisas interessantes nesses prefácios) e a edição está ótima, apesar de uns errinhos aqui ou acolá, mas acontece.
>> NEM UM POUCO ÉPICO – por Val


“AMOR OCULTO”, DE LAURA ELIAS

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Contar uma boa história em volta da fogueira é uma imagem idílica, até certo ponto mitológica, que não me abandona. Quem consegue, através de sua narrativa, fazer com que suas palavras permaneçam impressas atrás de minhas retinas desta maneira merece todo o meu respeito.

Ao ler Amor oculto (Mythos, 2011 – 126 páginas)esta é a impressão que tenho. Laura Elias domina as palavras, é uma contadora de histórias experiente, sabe jogar com o leitor, foi forjada na arte de escrever e se formou pela receptividade dos leitores. Deveria ser uma fórmula de sucesso. Mas o reconhecimento por aqui é difícil, a internet quebra barreiras, mas não diminui o abismo com o que vem de fora. O descaso com que nossos autores são tratados muitas vezes me deixa enojado.

Já escreveu mais de 30 livros, quase todos publicados, muitos deles de banca, sob pseudônimos Loreley McKenzie, Laura Brightfield, Suzy Stone, Elizabeth Carrol, Sophie H. Jones. Experiência não lhe falta. Depois de saber desta história através de uma comunidade, quis conhecer mais sobre a autora e trocamos algumas palavras e alguns emails, que me fizeram fã, por sua postura e ainda mais por sua imensa simpatia.

Partamos para o que realmente interessa – a narrativa desta escritora genial. Como todos podem observar gosto de ligar narrativas a imagens de outros livros ou de filmes para que possamos fazer inferências, para que tudo se torne um pouco mais claro a quem ainda não tem contato com alguns autores.

No caso de Laura Elias, não consegui fazê-lo. Seria isso então originalidade? Não diria isso, mas é difícil classificá-la.  Ela tem sua fórmula: mistério + paixão. Tem um público alvo, mas ainda assim consegue despertar em qualquer público o prazer da leitura. Muitos são os diálogos, que tornam o livro saboroso, pois eles são a alma de uma boa narrativa.

Antes do prólogo, uma espécie de prenúncio já dá o teor do que virá pelo livro:

A barreira da ética profissional dissolvia-se diante do que lhe era oferecido, diante do que ele tanto queria, diante da tentação que via em seus olhos, não mais serenos, mas ardentes como as fogueiras pagãs.

Pronto, já estamos fisgados, e o que vem depois é “hot” muito “hot”. O livro conta a história de Bervely Manson, escritora, que após matar sua personagem principal acaba matando sua inspiração. Resolve então acompanhar uma amiga a um antiquário e encontra lá um caderno cheio de histórias inacabadas. Ela decide terminar as histórias, sua inspiração renasce. Porém, há uma advertência feita pela antiga dona dos cadernos. Ela não dá nenhuma importância a ela. Daí coisas estranhas começam a acontecer, tudo o que escreve passa a acontecer. Seria uma maldição? Aha… não irei contar mais nada. O inexplicável geralmente nos perturba e o livro está repleto de coisas que irão se encaixar apenas no final.

“… como fugir da realidade quando ela se torna ainda mais bizarra que o sonho? Como fugir se nem mesmo dormindo havia paz? Se os fantasmas e demônios alheios passaram a habitar sua vida?

E não poderia deixar de colocar aqui alguns trechos para deixar a todos um pouco mais alvoroçados:

O desejo:

“… olhou para ela, ainda segurando-a pelos ombros. Sentia vontade de tocá-la, passar os dedos por aqueles mamilos que a blusa insinuava, beijar-lhe a delicada linha do queixo, os lábios sedentos, os olhos serenos… explorar aquela mulher com força, com carinho, com sofreguidão.

A sedução:

“… balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro, a malícia dançando em seus olhos. Com um gesto rápido, ergueu-se e arrancou o vestido, expondo-se, despudorada, em sua calcinha negra, rendada, por onde os pelos loiros apareciam, qual tesouro guardado apenas para ele.”

O embate:

“Apalpou-lhe as formas e depois se deixou pesar em seu corpo, apenas para ouvi-la gemer. Sua voz penetrava-lhe os ouvidos e o deixava cada vez mais excitado.”

É claro que cortei os diálogos e as partes mais quentes. Portanto, podem correr! Leiam e me contem depois se Laura é ou não dona de uma imaginação fértil e diabólica. Estamos totalmente desarmados quando ela começa a contar suas histórias. E citando um trecho de seu próprio livro: Que segurança as armas poderiam oferecer contra a imaginação?
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Rodolfo Euflazino


PERSONAGENS SOBRENATURAIS INVADEM NOVELAS BRASILEIRAS

quinta-feira | 5 | janeiro | 2012

Personagens sobrenaturais estão cada vez mais presentes nas produções brasileiras. Foto: Afonso Carlos/Carta Z/Divulgação

O naturalismo das novelas sempre conviveu com o sobrenatural. Desde a pioneira O Terceiro Pecado, de 1969, que autores como Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes recorrem a fenômenos que passam ao largo das explicações científicas. Com o entretenimento na ordem do dia, criadores variam estilos e inspirações, que vão das lendas folclóricas ao futurismo da ficção-científica. Além disso, o sobrenatural também está fortemente presente em folhetins com temas religiosos, seja na polêmica discussão sobre a vida após a morte, ou na adaptação de histórias bíblicas. “As pessoas querem ligar a tevê e sonhar. Sempre que posso, coloco personagens com algum dom obscuro em minhas novelas”, diverte-se Aguinaldo Silva, que desde o início da carreira, bebe na fonte do realismo fantástico original de Dias Gomes, autor de clássicos do gênero, como O Bem-Amado, de 1973, e Saramandaia, de 1976.

Aguinaldo já brincou com o sobrenatural em várias de suas novelas. Inclusive, na atual Fina Estampa, o autor vem aumentando cada vez mais a dose de situações inexplicáveis, com as visões sobre o futuro de Luana, de Joana Lerner, e o súbito aparecimento de Enzo, de Júlio Rocha, que supostamente, caiu do céu. Com intensidades diferentes e resultados oscilantes, outras produções recentes apostam em uma injeção de histórias do além em seus roteiros. A abordagem de forças ocultas está fortemente presente na recém-terminada O Astro , na nova das sete, e Aquele Beijo - onde Bruno Garcia faz um vidente. E é a base da atual temporada de Malhação, cheia de referências a séries americanas, que misturam ficção científica e histórias em quadrinhos. “Queria falar da conectividade das pessoas com elas mesmas, com seus sonhos e intuições. O que puxa a trama é o número 1046″, explica a autora Ingrid Zavarezzi, referindo-se ao número que aparece nos sonhos de Alexia, de Bia Arantes.

Embora o tema tenha derrubado a audiência da novelinha da Globo, que patina nos 16 pontos, a inspiração em gibis e “sci-fi” já rendeu à Record bons índices no ibope. No entanto, com a saga mutante de Caminhos do Coração - criada por Tiago Santiago, em 2008 – as referências foram além. No mesmo caldeirão, Tiago misturou vampiros, super-heróis, espiritismo, mitologia grega, entre outras. “A grande viagem da novela foi não se limitar. Essa liberdade foi fundamental para o sucesso dos mutantes”, conta o autor.

Mais recentemente, outra trama que aglutinou inúmeras referências foi o “remake” de O Astro. Baseado na novela original de Janete Clair, exibida em 1978, a adaptação abusou de assombrações, alucinações e ilusionismo. “O Herculano poderia ter ido por vários caminhos, desde a esquizofrenia até o espiritismo”, analisa Rodrigo Lombardi, intérprete do anti-herói, que com seus “poderes”, escapa inúmeras vezes da morte e chega ao comando do grupo Hayalla. Para Thiago Fragoso, que deu vida ao frágil Márcio, a angústia espiritual dos personagens da novela foi o principal chamariz de público. “A levada espírita da novela estava diretamente ligada ao jogo de poder entre os personagens. As cenas do Salomão tentando de se comunicar com o Márcio eram bem assustadoras”, conta Thiago, referindo-se aos ataques sofridos por seu personagem ao se comunicar com o falecido pai, Salomão Hayalla, de Daniel Filho.

A interação entre pessoas em planos espirituais diferentes foi o mote de muitas novelas de Ivani Ribeiro, comoO Sexo dos Anjos e A Viagem. Atualmente, a herdeira direta de tramas com essa temática é a mineira Elizabeth Jhin, autora de Escrito nas Estrelas, novela que abordou a fertilização de uma mulher a partir do sêmen de um homem já morto. “Quis falar como o espírito desse homem lida com esse filho que vai nascer. Para minha sorte, o público embarcou na história”, ressalta a autora, que volta ao ar no primeiro semestre de 2012, com outra trama de tons espirituais, que tem título provisório de Marajó.

Transtornos e delírios
Além do sobrenatural, alguns mistérios da teledramaturgia nacional também têm atestado médico. Seja para destacar a doença ou apenas fazer rir, a esquizofrenia já foi tema de novelas e seriados da tevê. Em Alma Gêmea, de 2005, a personagem Alexandra, de Nívea Stelman, sofria com as vozes e os espíritos que lhe atormentavam. “O problema dela foi crescendo aos poucos, e não poderia ser definido apenas como esquizofrenia. Pois ela conseguia se comunicar com os mortos da trama”, opina a atriz.

Na contramão do drama, o seriado A Mulher Invisível, parte da doença para fazer humor. Baseado no filme homônimo de 2009, a produção acaba de ganhar uma segunda temporada, e conta a história de Pedro, de Selton Mello, um publicitário que encontra a mulher de seus sonhos. Porém, só ele consegue enxergá-la. “É uma comédia sobre esquizofrenia, ou sobre a solidão. Ela só é realmente a mulher ideal porque não existe”, destaca Selton.

Instantâneas
# No ano passado, Selton Mello também protagonizou A Cura, série cheia de mistérios que relacionavam medicina, assassinatos e religiosidade.

# Em Araguaia, de 2010, Solano, de Murilo Rosa, era um homem marcado para morrer por conta de uma maldição indígena que assombrava sua família há muitas gerações. Nela, todos os homens de sua linhagem morrem muito jovens, sempre próximos às margens do rio Araguaia.

# Histórias de lobisomens e vampiros andam em alta nos filmes de Hollywood, e já figuraram em diversas novelas brasileiras, como Roque Santeiro, de 1985, Vamp, de 1991, e O Beijo do Vampiro, de 2002.

# Em Páginas da Vida, de 2006, a jovem Nanda, de Fernanda Vasconcellos, morre logo no início da trama, mas aparece em forma de fantasma para pessoas de sua família.
>> TERRA – da Redação


A DIVERSIDADE SEXUAL NA LITERATURA FANTÁSTICA

quinta-feira | 5 | janeiro | 2012

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Enquanto a mídia discute a temática da diversidade sexual à medida que os governos do mundo todo começam a adotar políticas que finalmente param de fechar os olhos a algo que já é realidade há muitos anos, observamos que a literatura começou a incluir personagens gays em suas histórias.

E, como não poderia deixar de ser, gostaria de focar na literatura fantástica, que, por natureza, é a que atinge os jovens e consegue chamar a atenção deles para os mais diversos assuntos, mesmo que de forma sutil. Li ultimamente livros de grande sucesso internacional (entre os best-sellers do The New York Times) que traziam personagens gays no núcleo protagonista.

A série Morada da Noite (House of Night, no original), de PC Cast e Kristin Cast, traz Damien como um dos melhores amigos da personagem principal, assim como a série Os Imortais, de Alison Nöel, traz Miles, também gay, no círculo das principais amizades da protagonista.

As duas séries tem muito em comum, já que surgiram na onda dos romances sobrenaturais, e Miles e Damien se parecem muito: são legais, adoráveis, e um tanto estereotipados.

No entanto, as histórias não são sobre eles. Os rapazes, nos livros em que aparecem, são apenas coadjuvantes, de cuja vida nem ficamos sabendo muito. Na verdade, salvo poucas palavras, e o papel que desempenham na vida da protagonista, poderiam sumir da história ou serem trocados por uma amiguinha, e não faria a menor diferença.

Isso é bom ou ruim?

Se a proposta é mostrar que os gays estão sendo incluídos, é péssimo, porque não os inclui. Por outro lado, podemos considerar que a inserção de um personagem homossexual acabou ficando tão natural que nem é preciso grande alarde para o fato. E, nesse caso, é um pouco hipócrita, porque a sociedade ainda teima em segregar essas pessoas como se fossem realmente diferentes de todo o resto – os normais, os héteros.

Um amigo meu uma vez escreveu em algum canto, talvez no Twitter, que não é que os gays queiram dominar o mundo. Eles simplesmente querem ter o direito de ler um livro ou ver um filme em que o foco da história seja um casal gay. E isso não precisa ser ofensivo para quem é hétero, porque há décadas e décadas todos leem e assistem o que está passando. Sempre a mocinha e o mocinho apaixonados passando por uma espécie de conflito e vivendo felizes para sempre depois.

JK Rowling revelou, fora do ambiente de Harry Potter, que o mago e mentor de Harry, Dumbledore, era gay e apaixonado por seu maior inimigo e antes melhor amigo, Grindenwald. Alguns falaram que a autora não quis revelar essa informação antes porque seria muito estranho os dois andarem juntos sendo que o velho diretor era gay. Pessoalmente, acho que nada foi mencionado no livro porque a informação não cabia no contexto da história.

É de extremo mau gosto a enxurrada de comentários sobre Dumbledore ser um pedófilo que se seguiu ao anúncio de Rowling. Isso só prova o quanto a sociedade continua preconceituosa, e os parcos progressos legislativos são hipócritas quando os comparamos às notícias de agressões.

A literatura sempre teve o papel de conversar conosco. Então, porque não permiti-la mostrar o que uma boa corrente da sociedade está tentando dizer há tempos? O óbvio: que os gays são simplesmente gays. Nada mais além disso. Que não há nada de errado, imoral ou qualquer outra coisa que as pessoas queiram pregar contra. Que a opção sexual de um indivíduo faz parte de sua identidade, e não há nada para ser ‘aceito’ ou ‘mal visto’.

Essa foi a premissa da coletânea A Fantástica Literatura Queer, publicada em dois volumes pela Tarja Editorial, pioneira no tema em solo brasileiro – mas também uma das primeiras a decidir tratar o tema da diversidade sexual dentro da literatura fantástica.

Li apenas o volume vermelho, por enquanto, e, de minha parte, posso dizer que li contos dos mais brilhantes em que já coloquei os olhos.
>> REVISTA FANTÁSTICA – por Carol Chiovatto


A LITERATURA FANTÁSTICA DO PARÁ: VICENTE CECIM E A VIAGEM A ANDARA

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

Há 32 anos, Andara emergia dos sonhos do escritor Vicente Franz Cecim. Uma região imaginária, que fez da Amazônia sua matéria-prima, uma floresta sagrada de águas, peixes, aves. Paraíso encantado onde tudo pode acontecer. “Árvores podem falar com os homens, aves que caem do céu se transformam instantaneamente em terra, retornando ao pó, o vento vem nos contar histórias, tu podes te deparar com uma mulher alada.

Há muitos outros seres alados em Andara, talvez anjos ou sejam demônios, que descem do céu com suas asas negras, com suas asas brancas para conviver com os seres humanos”, descreve Cecim sobre sua terra enfeitiçada.

Andara fez sua primeira aparição em 1979, no livro “A Asa e a Serpente e Manifestos Curau”, publicação que inaugura “Viagem a Andara, o Livro Invisível”, obra fantasma, que vai tomando corpo à medida que são escritos cada um dos doze livros que até agora insurgiram da imaginária floresta de Cecim. “Quando os livros escritos de Andara tiverem deixado de existir um dia, a ‘Viagem a Andara, o Livro Invisível’ que não é escrito continuará existindo em sua existência de não-livro”, diz o autor, que relança sua primeira obra dentro do projeto “Orgulho de Ser do Pará”, do DIÁRIO, promovido pelo Grupo RBA de Comunicação.

“A Asa e a Serpente e Manifestos Curau” inaugurou um dos mergulhos mais abissais a uma Amazônia reinventada, rompendo a fronteira entre prosa e poesia, numa fusão entre o natural e o sobrenatural, o profano e o sagrado, para se lançar numa intensa busca metafísica do sentido do ser e da vida.

“Andara é lugar de sonhar, Andara é a imaginação em liberdade, Andara quer abolir a razão do ato de escrever. Andara é quase um manifesto prático contra a literatura regionalista, mimética, que geralmente se limitava a copiar, e copiar mal, a realidade amazônica. Mas a realidade é oculta em si mesmo: se disfarça em sua epiderme.

Fazer literatura assim é ampliar o ilusório”, defende Vicente, que buscou nas memórias de infância o alimento de sua escrita.

“Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe, Yara Cecim, que nos contava, não os contos dos irmãos Grimm, de Perrault, que tem coisas geniais, mas umas histórias delirantes da região, para nos fazer dormir, a mim e aos meus irmãos. O sono vinha, mas como um portal de acesso a todo esse mundo feérico. Não sabíamos mais o que era natural e o que era sobrenatural”.

A literatura fantástica de Cecim arrebatou a crítica pelo país, e alcançou reconhecimento além mar. “Ò Serdespanto”, lançado em Lisboa em 2001, foi apontado como o segundo melhor livro do ano. Tempos antes, em 1980, Cecim recebeu o prêmio Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, por sua segunda obra, “Os animais da terra”. Em 1988, o

Grande Prêmio da Crítica da APCA, nessa década somente atribuído também a Hilda Hilst, Cora Coralina e Mário Quintana. Em 1994, “Silencioso como o Paraíso” foi aclamado pelo jornalista e crítico literário Leo Gilson Ribeiro como “um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos, encanto a que Guimarães Rosa chamava de ‘peregrinação álmica’”.

O crítico gaúcho Antônio Hohlfeldt, no Correio do Povo, também viu na escrita inventiva de Cecim aproximação com as palavras do autor mineiro. “Depois de Guimarães Rosa, o paraense Vicente Cecim é o responsável por um dos mergulhos mais fantásticos e essenciais que a literatura brasileira já realizou sobre o sentido do homem.” E Oscar D’Ambrosio, no Jornal de Tarde, de São Paulo, endossou o diálogo: “Ler Viagem a Andara é penetrar em narrativas poéticas subversivas e míticas que trazem à tona, sempre renovado, o aforismo roseano: Viver é perigoso.”

Cecim e Rosa como alquimistas em suas criações. “Minha escritura tem a mesma má intenção da de Guimarães Rosa: abolir as fronteiras artificialmente demarcadas entre a prosa e a poesia. Mas, talvez, principalmente, porque Rosa fez com o Sertão a mesma coisa que eu estou tentando fazer com a Amazônia: transmudar, ele, o Sertão, eu, a Amazônia, no que eu chamo de regiões metáforas da vida”.
>> DIÁRIO DO PARÁ – da Redaçao


A LITERATURA FANTÁSTICA DO CEARÁ: O CRAVO ROXO DO DIABO

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

No ano passado, foi lançada em Fortaleza a antologia “O Cravo Roxo do Diabo”: o Conto Fantástico no Ceará”, organizada pelo escritor Pedro Salgueiro. A pesquisa durou três anos e resultou num rico acervo do gênero, revelando a prodigiosa criação dos escritores cearenses desde o século XIX, quando vieram a público as primeiras publicações de textos literários em nosso estado

A antologia “O Cravo Roxo do Diabo”: o Conto Fantástico no Ceará” é a primeira coletânea de contos fantásticos produzidos na terra de Alencar.

A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.

O volume da pesquisa fez necessária a participação de outros três nomes da nossa literatura: Sânzio de Azevedo, Alves de Aquino (Poeta de Meia Tigela) e Carlos Roberto Vasconcelos, o que resultou num livro de 674 páginas, cujo título foi tomado de empréstimo de um conto de Álvaro Martins, infelizmente não localizado pelos pesquisadores. A bela capa criada pelo escritor Raymundo Neto, bem como o trabalho gráfico da Expressão dão ao vultoso acervo o aspecto de obra definitiva. A istematização dos cânones do Fantástico passou por muitas revisões. A mais tradicional, de Todorov, no livro Introdução à literatura fantástica, assevera que ele se alicerça por meio da hesitação do leitor em ´aceitar´ ou não os fenômenos narrados, desde que tais fenômenos não predisponham uma leitura alegórica nem poética.

O enquadramento

O crítico estruturalista opõe, ainda, o que ele chama fantástico a outros dois conceitos fronteiriços: o estranho ou o maravilhoso; o fantástico ocupa o tempo da incerteza, da vacilação entre aceitar ou não o evento extranatural; assim que se escolhe uma resposta ou outra, o fantástico é abandonado e entra-se no domínio de um dos gêneros vizinhos: o estranho ou o maravilhoso. Nessa acepção, nem todos os textos aqui coletados estariam inseridos no gênero.

Tomando, entretanto, a concepção mais atual, de Ana María Barrenechea, que afirma a configuração do fenômeno em forma de problemas feitos a-normais, a-naturais ou irreales em contraste com factos reais, normais ou naturais, considera-se fantástico todo texto cujo enredo encene acontecimentos que transponham as leis naturais, ou seja, que coloquem em conflito o mundo empírico e o mundo fantasioso.

A Antologia

Na primeira parte da antologia, dedicada aos contos, constam 172 narrativas organizadas em ordem cronológica do ano de nascimento dos seus autores, tal como ocorre nos dois Apêndices. Todos os textos, embora focalizem o extranatural por procedimentos estéticos diferentes, inserem-se no que se denomina, hoje, literatura fantástica, numa acepção ampla do gênero, tomando-o, pois, como narrativas de mistérios que confrontam o racional e o irracional.

No Ceará, o primeiro conto fantástico de que se tem registro foi escrito por Juvenal Galeno. “Senhor das Caças” tem a mesma estrutura das narrativas de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna: enquanto trabalham com a mandioca, num serão na farinhada, os sertanejos contam histórias de caiporas, aventuras de caçadas e encantamentos. São histórias dentro de uma história. Igual estrutura está no conto “Capitão Maciel, 3.ª companhia”, de Tomás Lopes, cujo enredo deixa claros seus desdobramentos: “Depois do jantar, na salinha do café, falava-se de casos estranhos, mistérios do além-túmulo. Cada um contava a sua história, todos, porém, afetando descrença, ceticismo, explicando tudo pela coincidência”, numa tentativa de racionalização que não impede o espanto quando se constata a aparição de um morto, motivo também presente em Cruz Filho (“A basílica”), cujo enredo comprova a presença da ex-escrava nas ruínas da igreja onde morreu. Florival Seraine, igualmente, em seu “Guajará”, coloca o insólito em contação de ´causos´ numa venda.

O realismo cearense foi prodigioso no espírito inventivo das narrativas fantásticas do início do século XIX. Duas representações significativas estão nas narrativas de Pápi Jr. (“A cruz-das-malvas”) e Oliveira Paiva (“O ar do vento, Ave-Maria”). No enredo do primeiro, há uma atmosfera propícia para o sobrenatural, na descrição esmerada da escuridão da noite impenetrável e compacta, corria-nos pela frente como um largo pano sujo de fuligem, em que aparece, na estrada, em frente à cruz-das-malvas, o fantasma da pessoa que lá foi enterrada. Na do segundo, a aparição de um monstro, no meio da noite, carregando a cabeça de uma mulher (fazendo, ainda, umas caretas horrorosas) para enterrar.

E vários motivos dão asas à criação do conto fantástico cearense, como as peripécias do capeta (“O dia aziago”, Lopes Filho), aparição de almas penadas (“Alma penada”, de Américo Facó), espectros (“Espectros”, Gustavo Barroso), visagens (“Junho é um mês que não tem fim”, de Batista de Lima). Histórias de pescador com aparição de sereias (“Sereias”, Herman Lima) ou botijas (“Uma história fantástica”, Martins d´Alvarez; “A botija”, Genoíno Sales e “A botija”, Lustosa da Costa).

Outras faces

Algumas vezes, não se configura nenhum fenômeno, tão somente a atmosfera de mistério estabelece a presença do extranatural ou seu prenúncio, como ocorre no conto “Casas mal-assombradas” de, Carlyle Martins (Numa visão macabra e sinistra, atestando a transitoriedade de uma vida de opulência e conforto, a velha casa, como que indiferente ao perpassar dos anos, ensombrada pelas mongubeiras sempre monótonas e sussurrantes, tinha as paredes carcomidas e cobertas de fendas./…/

Por seu aspecto aterrador, atestava ela a glória do passado distante, obscurecido pelas brumas dos tempos e demonstrando como a felicidade humana é incerta e passageira…) e em “A Oiticica”, de Otávio Lobo (Se alguém, rompendo o escuro, passa debaixo de alguma oiticica, sente arrepios de medo, pavor de visagens e, ainda, assombrações de almas do outro mundo).

Fique por dentro
A gênese do discurso

O gênero fantástico tem suas raízes nas histórias de deuses, fadas e feiticeiras da Antiguidade Clássica, mas se consolidou como estética a partir do Romantismo, com suas narrativas góticas. Como todo gênero, o Fantástico teve estabelecidos os seus cânones, continuamente fundamentados e revisados por teóricos como Roger Callois, Tzvetan Todorov, Irene Bessiérre, Louis Vax, Victor Bravo, Filipe Furtado, e, mais adiante, a filóloga argentina Ana María Barrenechea, entre outros. Mestres do Horror, como H.P. Lovercraft, E. T. A. Hoffman, Edgar Allan Poe e Teophile Gautier deixaram um legado para os amantes do sobrenatural e exerceram influências na ficção fantástica produzida em todo o mundo.
>> DIÁRIO DO NORDESTE – por Aíla Sampaio


A LITERATURA FANTÁSTICA DE GOIÁS: O SENHOR DOS DRAGÕES

quarta-feira | 4 | janeiro | 2012

Entrevista com o escritor goiano Itamar Pires Ribeiro, que – sete anos após o lançamento de “Histórias da Terra Vazia” – estreia no romance com “Lygia entre os Dragões”

Itamar Pires Ribeiro é um comunicador nato. Informa na condição de jornalista profissional, dialoga com as musas por meio da literatura e da música, apresenta o programa Constelações na Rádio Universitária de Goiânia, e é também um grande papista, capaz de fazer o assunto mais indigente render horas e horas de conversa e informações engraçadas e eruditas. Contista premiado, venceu a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos de 1993, com “Contos de Solibur”. Em 2008 publicou o segundo volume de contos, “Histórias da Terra Vazia”.

Depois de sete anos de trabalho acaba de lançar “Lygia Entre os Dragões”, um romance histórico ambientado numa Goiânia de sonhos e sombras, no presente e no passado. Livro de linguagem experimental, Itamar Pires Ribeiro promove nele o diálogo entre a literatura, a música, a fotografia, HQs. Segue uma conversa sobre o presente e o passado com quem sabe falar; e escrever.

Pergunta – Você é um intelectual multifacetado: é escritor, compositor, jornalista, blogueiro, gestor cultural, apresenta um programa de rádio etc. É possível estabelecer uma conexão entre todas essas atividades? Qual a linha mestra de sua obra?
Itamar Pires Ribeiro - Todas essas atividades foram surgindo em decorrência da própria vida. A primeira, a principal opção é a literatura. Na literatura tenho trabalhos na área do conto, da crônica, do teatro, da poesia e agora do romance.

O trabalho na poesia propiciou um novo desdobramento: a construção de letras para músicas. As parcerias na área musical terminaram me levando à escrita, em parceria com Débora di Sá, do musical teatral “O Circo dos Amores Impossíveis”. O trabalho profissional que exerço no rádio, onde atualmente sou diretor de programação da Rádio Universitária, me permite uma grande proximidade diária com a música. Além das funções de direção mantenho dois programas diários — um na madrugada, Constelações, de meia noite às seis e outro de música erudita, Sala de Concertos. Ainda produzo dois outros programas no fim de semana, Clássicos do Rock e Um Jeito de Jazz.

O rádio veio como decorrência do curso e da profissão de Jornalista. Sou servidor da UFG desde 1980, época em que ingressei na Rádio Universitária. Na música eu tenho trabalhado com gente muito talentosa, meus parceiros Du Oliveira, Débora di Sá, Kan Kambai, Gustavo Veiga e Reny Cruvinel. Minha principal parceria hoje é com a cantora, compositora, atriz e circense – ou seja também um talento múltiplo – que é Débora di Sá. Ela tem uma das melhores vozes de Goiás além de uma presença de palco extraordinária. Já as atividades enquanto gestor cultural decorreram da atividade política, sou militante desde a primeira juventude, e olha que isso já tem tempo! Fui Secretário de Cultura de Goiânia, na gestão de Darci Accorsi, e diretor do Instituto Goiano do Livro, nos dois primeiros governos de Marconi Perillo. Já a atividade artística, e, principalmente, a literatura, essas não apenas surgiram na vida, para mim elas são partes essenciais da minha vida.

Eu descobri que não conseguiria viver sem a literatura lá pelos 16, 17 anos, quando resolvi me preparar para ser escritor, que é o que eu realmente queria fazer na vida. Para isso virei “rato de biblioteca”. Eu estudava no Colégio Pedro Gomes, que possuía uma boa biblioteca e fazia um curso com o qual eu pouco me identificava, era um curso de Química. A situação do ensino público naquela época era bastante conturbada, frequentemente não tínhamos todas as aulas previstas no dia, eu aproveitava aqueles momentos para ir para a biblioteca. Por sorte a parte literária da biblioteca era boa e a fome de leitura, enorme. Ali li as obras de Guimarães Rosa, Kafka, Proust, Clarice Lispector, Machado de Assis, Graciliano Ramos e tantos outros. Na UFG foi mais ou menos a mesma coisa, virei rato da biblioteca central, e também um assíduo frequentador dos sebos da Rua 4, no centro.

Outra decorrência do curso de Jornalismo foi a minha paixão pela fotografia, o curso de Química terminou servindo e muito na hora de executar o indispensável trabalho de laboratório, o qual, antes da fotografia digital, era absolutamente imprescindível. Através do Jornalismo também me envolvi com as artes gráficas. Comecei fazendo diagramações e artes finais numa gráfica clandestina que era do PCdoB, isso quando o partido ainda se achava na clandestinidade e vivíamos a miséria da ditadura militar.

Quanto à linha mestra da minha obra literária talvez seja a tentativa de, mantendo o realismo como lastro, exercitar sempre a imaginação, perceber os desvãos da realidade e explorá-los. “Lygia entre os dragões”, romance que estou lançado agora, é justamente isso: a fusão entre o realismo, que às vezes chega ao limite do hiper-realismo na descrição de lugares, cenas reais, memórias e personagens reais, com a imaginação que vivifica o real e descobre suas estranhezas. Outra das minhas preocupações literárias é escrever sobre aquilo que conheço a fundo, por isso as minhas obras literárias mais recentes tem todas como cenário a cidade de Goiânia. Imaginação e realismo, talvez seja essa síntese. A literatura fantástica surge como um instrumento para aprofundar o conhecimento da realidade e não como um valor por si só.

Pergunta - Sua passagem pela diretoria do Instituto Goiano do Livro (IGL), entre 2000 e 2004, foi marcada por uma melhora substância na qualidade gráfica e editorial dos livros lançados via poder público em Goiás. É possível resumir como se deu esse processo?
Itamar - Eu assumi o IGL em meados de 2000. O Instituto Goiano do Livro passava por um processo de reestruturação e vivificação empreendido pela escritora Yêda Schmaltz. Por motivos particulares Yêda deixou a direção do IGL e eu assumi sua condução. A AGEPEL dispunha de uma direção muito ativa, que apoiava as iniciativas inovadoras, destaco nesse ponto o papel de Nasr Chaul e de José Eduardo Morais.

Na gestão de Yêda haviam sido criadas várias coleções literárias, que abrangiam praticamente todos os gêneros literários — ficção, poesia, ensaio, teatro, literatura infantil e infanto-juvenil — foi também criado um Conselho Editorial, que era formado por representantes da UFG, UCG, das academias, da UBE, ou seja um conselho aberto para a sociedade e muito qualificado. Quando assumi a direção já haviam sido selecionados os livros que integrariam as coleções literárias de 1999 e as obras vencedoras da Bolsa de Publicações Cora Coralina, totalizando 19 livros. Destes apenas parte da tiragem de um livro de Marieta Telles havia sido publicada, todos os outros ainda estavam em processo de finalização ou embaralhados pela burocracia. Ao longo do ano de 2000 realizamos a seleção de novas obras literárias e finalizamos o processo de publicação, com algumas reformas no formato de algumas coleções e terminamos por lançar as coleções de 1999 e 2000 em novembro de 2000.

Durante minha passagem pelo IGL nós buscamos aperfeiçoar o processo de seleção pública dos livros a serem publicados, com a edição dos editais de seleção para as coleções, tornando isso o mais transparente possível, e também qualificar o aspecto gráfico, editorial das produções. Eu contei com a ajuda inestimável de Ciça Fittipaldi, que é uma grande profissional da área editorial e que nós contratamos para colaborar na definição dos padrões de qualidade gráfica e editorial de todos os livros publicados. Cada coleção tinha uma identidade própria, mas que não se sobrepunha à individualidade do livro, da obra concreta a ser editada. Fui o responsável pelo projeto gráfico de 32 dos 51 livros que lançamos durante minha passagem pelo IGL, li cada um deles e preparei suas capas e seu projeto de miolo.

A experiência como Jornalista foi fundamental. A passagem pelo IGL me mostrou como é rica a produção literária em Goiás e como é necessário ter instrumentos para dar vazão a toda essa produção. Nos três anos que passei à frente daquele órgão publicamos 51 títulos, e esses foram rigorosamente selecionados a partir de, pelo menos, 2500 obras inéditas que foram submetidas a julgamento. Tive o prazer de publicar 27 escritores inéditos, inclusive o seu primeiro romance “Hirundo Medicinalis”. Infelizmente o trabalho do IGL não teve continuidade e hoje aquele instrumento encontra-se desativado. A Bolsa de Publicações Cora Coralina, de tanta tradição, também se encontra desativada, é uma pena.

Hoje temos publicação de obras literárias através das coleções da Secretaria Municipal de Cultura e através das leis de incentivo estadual e municipal — pela qual inclusive “Lygia Entre os Dragões” está sendo publicada. São mecanismos importantes mas vejo que é necessário, por exemplo, criar espaços para a seleção rigorosa e a publicação dos autores inéditos, como fizemos no IGL, isso valoriza o novo autor e ajuda a projetá-lo e consolidar sua vocação.

Pergunta
 - Seu livro “Contos de Solibur” foi premiado com a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, em 1993. Acredito que o tom da obra, marcado pela erudição e fantasia, remete diretamente a dois mestres: Jorge Luis Borges e J. R. R. Tolkien. Pensando um pouco na Terra Média e no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, podemos afirmar que você almejou “construir um mundo” ao criar Solibur de maneira tão complexa, com história, geografia, lendas e tradições?
Itamar - A ideia de criar um mundo sempre me fascinou. Aos 19 anos, quando li justamente “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” de Borges me senti meio roubado: puxa, olha aí o que eu queria fazer! Depois, em 1982, li uma edição incrivelmente ruim do “Senhor dos Anéis”, de Tolkien, aí sim caiu a ficha: a criação do mundo já havia sido realizada! Ora pois! Então o que fazer: recriá-lo, era a questão óbvia. “Contos de Solibur” insinua essa existência paralela, de um mundo, um universo, uma realidade que tem condutos de comunicação com a nossa do dia-a-dia, que nela interfere, que sobre ela se realiza e desdobra. A mesma temática está presente também em meu segundo livro de contos “Histórias da Terra Vazia”, de 2008, e também no atual “Lygia Entre os Dragões”.

A diferença é que na primeira obra eu ainda não tinha situado claramente os cenários em que as histórias se desdobram, poderia ser em qualquer lugar, mas tanto em “Terra Vazia”, quanto em “Lygia” o cenário é esse mesmo em que vivemos: a cidade de Goiânia. O Edival Lourenço escreveu o prefácio de meu romance e caracterizou bem um de seus elementos: os labirintos desapercebidos. Vivemos uma realidade muito mais complexa que o ramerrão do dia-a-dia, somente não nos damos ao trabalho de percebê-la em profundidade e esse é o campo da literatura. Borges diz em algum de seus contos, e talvez, borgianamente, eu esteja inventando isso, que Deus só pode criar o paraíso e que nós é que não nos percebemos estar no paraíso.

Esse é aliás um dos temas, uma das perguntas de “Lygia Entre os Dragões”: será que nossa liberdade, enquanto seres humanos, se reduz a não ver a plenitude do universo, do paraíso, como queiram, e ir edificando, pedra a pedra, crime a crime, outra coisa senão o inferno? A edificação do inferno é a obra da humanidade? Não creio nesse tipo de fatalismo, mas a questão da liberdade humana e da responsabilidade humana por todos seus atos é fundamental para a edificação de uma ética que se baseie na liberdade e não coação ou em promessas de um futuro paradisíaco.

Pergunta – Você é membro fundador de duas academias de letras, a Aparecidense e a Goianiense. Na primeira ocupa a cadeira número 2, cujo patrono é o poeta Afonso Félix de Sousa. Na Academia Goianiense sua cadeira é a 26, patroneada por José J. Veiga. É o acadêmico-fundador que indica o patrono? Se sim, qual sua relação com as obras desses autores?
Itamar - Afonso Félix de Sousa é um poeta ao qual admiro muito. Vigoroso, com veio político e forte reflexão passional, já José J. Veiga é um escritor com o qual me identifico muito. A fusão do fantástico com a realidade que ele fazia é, em certo sentido, a mesma que me proponho a fazer. O cenário muda totalmente: ele trabalhava a ambientação da pequena cidade do interior, do campo; eu, que não tenho nenhuma vivência naquele tipo de realidade, situo minha ficção na grande cidade, no ambiente puramente urbano. Veiga, Miguel Jorge e Heleno Godoy estão entre os prosadores goianos com os quais mais me identifico.

Pergunta - A fundação da Academia Goianiense de Letras em 2005, a despeito de uma tentativa de instituí-la na década de 1970, causou polêmica. O motivo seria porque misturava escritores conhecidos com pessoas consideradas diletantes. Tendo passado mais de cinco anos, como estão os trabalhos da AGnL?
Itamar - Atualmente a AGnL é presidida por uma pessoa extremamente capaz e dinâmica que é a escritora Malu Ribeiro. Ela já conseguiu uma sede própria, mantém um site bem elaborado de divulgação da Academia e tem desenvolvido todo um esforço para consolidar definitivamente aquela instituição. É uma instituição que tende a crescer e a se tornar relevante para a cultura em Goiás, é claro que isso vai depender dos projetos que venha a desenvolver, mas vejo o quadro com otimismo.

Pergunta – Você está lançando o romance “Lygia Entre os Dragões”. Trata-se de um romance histórico estilizado. A narrativa não é linear e o cenário é a cidade de Goiânia, do presente e do passado recente, destacando-se a luta pela redemocratização. Afora a pesquisa histórica que realizou, existe algum resquício autobiográfico no livro? Suas memórias pessoais, suas lembranças de adolescente, ajudaram na composição do texto?
Itamar - As paixões ajudaram muito. A paixão pela fotografia, que está no núcleo de uma das histórias; a paixão pelos livros, pela música, pelos cenários da cidade de Goiânia. Como você disse são vários planos narrativos que se intercalam e vão construindo o texto. Miguel Jorge, grande amigo e crítico arguto, escreveu a orelha de “Lygia Entre os Dragões” e observou que seus capítulos se estruturam quase como ensaios autônomos que tem um personagem como centro.

O primeiro plano narrativo se passa nos dias atuais, caso alguém faça as contas verá que decorrem exatamente 40 dias do início da ação até seu desfecho. Esse plano é dominado pela busca por uma explicação para alguns objetos inusitados que são encontrados pelo personagem que narra todo o livro, Alberto Alves, e tudo se move por outra busca, mas profunda e terrível: a tentativa de compreender o suicídio da mulher amada. Outros planos narrativos se desdobram na memória. Há também cenários da Goiânia dos anos 50 e 60.

Algumas das principais ações se dão no momento do lusco-fusco da ditadura militar, em 1979, quando a anistia já trouxera de volta os exilados e libertará os presos políticos, mas quando os grupos de extrema direita ainda se aventuravam em atentados e ações para apagar seus rastos. Há planos narrativos que se desenvolvem inteiramente naquela outra realidade, paralela ou alternativa, como queiram, e cuja influência é tremenda em todos os outros planos. Inevitavelmente usei todo o arsenal da memória pessoal da era final da ditadura, e também busquei muita colaboração de gente que viveu em Goiânia nos anos 50. Uma pessoa importante nesse sentido foi meu grande amigo Eduardo Benfica, que faleceu em 2006. Benfica terminou virando personagem do romance, ele achou graça quando mostrei o trecho em que ele aparece, e graças a Benfica fiquei sabendo qual era exatamente a aparência do ilustre fotógrafo Jean Luc Carpentier, um borgiano pioneiro da fotografia da jovem capital.

Pergunta - Seu estilo prima pela exatidão. Mesmo seu texto estando longe de ser seco, minimalista, como o de um Graciliano Ramos ou Hemingway, as palavras parecem contadas, nada é por acaso. “Lygia Entre os Dragões” é resultado de sete anos de trabalho. Como é seu processo criativo? Reescreve diversas vezes uma mesma página? O enredo está definido quando começa a escrever ou ele sofre mudanças ao longo do processo?
Itamar- “Lygia Entre os Dragões” foi durante anos um conto, mas nunca fiquei satisfeito com aquela condição. Parecia sempre que havia muito mais coisa, que a forma conto não consegue abranger. Suas primeiras versões são do início dos anos 90, depois de muita teima resolvi, em 2004, que não havia outro jeito de enfrentar aquele material senão sob a forma de um romance.
Como eu já tinha definido o rumo geral do romance passei a trabalhar da única forma que me foi possível fazer: através do acúmulo de fragmentos. Uma frase, um trecho, o esboço de um personagem, uma intuição: anotava tudo, transformava aquilo em um fragmento que recebia um número de série para ser depois revisitado, repensado e reescrito. A linha geral era clara, mas seu desenvolvimento completo não, quis manter sempre essa abertura, não planejar demais, não saber demais sobre a história antes que ela se realizasse em sua forma definitiva. Isso permitiu “encontrar” alguns personagens fundamentais: Hanna surgiu de um fragmento desses, e mesmo o Doutor Aquiles veio quase pronto em outro fragmento. A Lygia que dá título ao romance foi a mais fugidia de todos os personagens, não foi fácil caçá-la, apreendê-la.

É claro que um método de construção como este, que se baseia no fragmento e que tem permanentemente aberta a porta da intuição, demanda muito tempo para se consolidar em um texto coerente. Terminei a primeira redação geral deste romance em 2007. Deixei-o descansar por quase todo aquele ano e fui retomar seu trabalho em 2008. Já não era o momento nem dos fragmentos e nem da intuição, trabalhos a quente, mas da racional construção dos vínculos, da estruturação definitiva das partes, da revisão cuidadosa da escrita. Escrever para mim é quase sempre reescrever, sinto um grande prazer em ir explorando um texto, percebendo suas falhas, seus desvãos, suas possibilidades, por isso escrevo lentamente, senão, não tem graça.

P ergunta- “Lygia Entre os Dragões” é um romance, digamos, multimídia. Histórias em Quadrinhos, imagens trabalhadas em computador e mesmo músicas são parte fundamental de sua estrutura narrativa. Você acredita que tais estratégias, que deram outras dimensões ao texto, retirando-o da página impressa, podem ajudar a redefinir o gênero romance para o século 21? Ou pelo contrário, foram elementos explorados exclusivamente nessa obra, não devendo ser estendidos como uma proposta de tendência?

Itamar - “Lygia Entre os Dragões” bebe em muitas fontes de inspiração. Vamos achar reflexões sobre o mal, que tem antecedentes em Santo Agostinho, e também citações da saga de “Jornada nas Estrelas”, a música de Astor Piazzolla e Chico Buarque, nesse sentido é um romance “pop”. Mas não sei se esse é um nome ou definição dos mais apropriados, é também um romance fantástico, histórico, existencial, é mais um romance de “integração”. As fontes são as mais diversas possíveis, da lenda folclórica, à descrição técnica de batalhas, de processos químicos da fotografia, mas tudo serve ao propósito de inteireza do texto.

A música é uma fonte de ritmos narrativos, de climas, de evocação de memórias, de instigamento para que, se o leitor não conhecer aquela peça, que venha a conhecê-la. Isso pode ser sim uma tendência? Não sei. O fato é que hoje em dia não se pode ignorar tudo o que podemos pesquisar pela internet, tudo o que podemos ter de informação quase que instantânea, são elementos, assim como os da cultura “pop”, que podem ser usados no romance, mas não creio que isso seja o fundamental para a literatura. O romance usa esses “traços circunstanciais exigidos pelo leitor moderno” (Borges), como um recurso para capturar alguma coisa que caracteriza esse nosso tempo. Enquanto escritores estamos presos a nosso tempo, mesmo que construindo romances de ficção histórica. A literatura é um fenômeno do tempo histórico e talvez somente ela seja capaz de decifrá-lo em profundidade.

Pergunta - “Lygia Entre os Dragões” é, nitidamente, o trabalho de um autor que conhece as estruturas teóricas da produção do romance, um estudioso da estética literária. Como trazer o conhecimento erudito, quiçá acadêmico, para a produção da obra de arte?
Itamar- A teoria literária, o conhecimento da história da literatura e de suas escolas tudo isso é parte da formação básica do escritor. Não se pode ser ingênuo na literatura. É dever do escritor conhecer seu ofício, como é dever do pintor dominar sua arte, ou do cineasta, do músico. O conhecimento teórico supre bases profundas para o trabalho literário, mas evidentemente não basta para sua realização, a obra de arte é produto múltiplo do conhecimento, da razão, como queiram, e do inconsciente, Palas Athena e Orfeu.

Pergunta - Os dragões são criaturas que assombram o imaginário da humanidade. Podem ser tanto um símbolo positivo, como os dragões elementais do Oriente, quanto negativo, como as bestas mortíferas que herdamos do Ocidente medieval. É correto afirmar que seus dragões provêem de uma reconfiguração do inconsciente coletivo a partir dessa imagem dúbia?
Itamar - Os dragões são para mim um símbolo dialético no qual se unem a representação ocidental do mal consumado e a representação oriental da sabedoria e da força viva. Lygia, a personagem, é, nesse sentido, um genuíno dragão. Não é um personagem-vítima: mulher, jovem, negra, com um destino cruel a cumprir, mas uma força que move todo o romance em seu giro. Os dragões do título vieram já no primeiríssimo momento de construção daquele texto, ainda em sua origem como conto.

Durante o romance são uma representação gráfica, um carimbo de identificação, uma criatura que se aproxima, alguma coisa que não se entende, um desvão. É evidente que ao usar um símbolo de tanta força sempre pagamos o preço devido a seu ancestral uso e abuso, se puder acrescentar uma nuance a mais: o dragão como imagem do tempo que ao mesmo que voa e devora se mantém incólume nas chamas que são ele mesmo, dou-me por muito satisfeito.

>> VERMELHO – por Ademir Luiz 
(entrevista ao Jornal Opção, de Goiânia. Publicada aqui com pequenas mudanças feitas pela redação do Vermelho)


LYGIA ENTRE DRAGÕES
(Trecho de abertura do romance)

“Desde então ela enviava sinais, insinuava sua aproximação, o que, enfim, nos consumiria, mas eu era surdo e cego. Os três cadernos foram um prenúncio, que, como acontece com a maior parte dos prenúncios, só são entendidos depois, muito depois. A morte de Hanna ocupou todo o tempo e o espaço disponível, alongou por uma sensação de meses e anos o que foram dias e semanas, restou provada para mim a estranha afirmação da física de que o tempo depende de seu observador. Para mim ficou claro que o tempo depende da agonia.

De Hanna sobraram as fotos, um atestado de óbito em nome de Hanna Eleanor Rigby de Souza, que nasceu e assim foi registrada e batizada aos 25 dias do mês de abril do ano da graça de 1974, o dia da Revolução dos Cravos, “Grândola vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti ó cidade”. Filha de um pai doido pelos Beatles e por Chaplin, e uma mãe que um pouco se parecia com ela, em tudo uma versão menor e mais tranquila, durável, persistente, terrível, uma canária filha de uma coruja. O fogo gelado dos olhos castanhos de Hanna, nunca mais. “Dentro de ti ó cidade”, enquanto no Brasil se consumia o esgoto escuro da ditadura “que há de durar para além do ano 2000”, se lascando, se fodendo de verde-e-amarelo. Ela nascia, abria o duplo farol de fogo gelado, o fogo castanho dos olhos, que talvez ainda não queimasse como queimara, tanto, tanto.

Nunca mais. Nunca mais a voz grave e, pela manhã, rouca, o riso, e a vontade de voltar para o balé: não. Sonhando com o brilho sobre os palcos, sonhando: não. E nenhuma outra daquelas filmagens bobocas, que consumiam fitas intermináveis de VHS, as quais nem ela tinha paciência para ver. As crises de choro. As agonias. O silêncio espreitando e armado com facas, garras, presas, armadilhas que estalavam em frases curtas e frias, que faziam o exato estrago necessário — não mais. Hanna Eleanor Rigby — ela e todos os solitários, os incuravelmente sós — nunca mais. Never more, dizia o corvo, never more. Pouca gente no enterro, recolhi duas pétalas de rosa, guardei-as no bolsinho da calça — o arroz de um casamento alheio. Adeus. Hanna Eleanor Rigby de Souza, 33 anos, matou-se de medo e silêncio. Um tiro, direto, na cabeça, e que, no entanto, se desviou, ricocheteando e foi se alojar numa posição inoperável, fundo, bem fundo no cérebro, apenas por um capricho sádico da natureza.”

Itamar Pires Ribeiro, goiano, é escritor, poeta e jornalista profissional. Foi Secretário de Cultura de Goiânia e um dos criadores do Fórum Goiano Sobre Cultura; dirigiu Instituto Goiano do Livro (2000-2004); produz e apresenta o programa Constelações, Rádio Universitária, onde produz e apresenta o programa musical Constelações. Como letrista, tem parcerias com Débora di Sá, Du Oliveira, Reny Cruvinel, Gustavo Veiga e Kan Kambay.


ESPECULANDO O RETROFUTURISMO DE 2012

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

“Turning here, looking back in time”

logos sociais 2011 foi um ano dificílimo e complexo de ser apreendido por uma só ótica. Mobilizações e manifestações de cunho político, social, econômico, cultural, etc (ok, não é possível traçar linhas entre essas categorias ou tampouco delineá-las dados os embates de interesses cada vez maiores) através dos sites de redes sociais ganharam novos contornos e pautaram a mídia de referência (ou massiva ou mainstream, whatever). As guerras entre fandoms de gêneros musicais, bandas ou artistas; o ativismo político foi tudo trend topic. A rua e a tecnologia estiveram cada vez mais entrelaçadas através do fluxo de postagens e produção de conteúdos disponibilizados via celulares, tablets e dispositivos móveis em geral.

Ao contrário das previsões de alguns catastróficos, os blogs não morreram. Eles ganharam outras apropriações, voltadas a nichos cada vez mais específicos e se integraram à circulação e à re-circulação através de práticas como a da re-blogagem. Eis ai o excesso cognitivo e o destaque que o Tumblr ganhou nesse ano, sobretudo no que diz respeito à velocidade do humor e dos memes que “contagiaram” boa parte do que foi postado, sobretudo no Facebook e no Twitter. Curtir, retuitar, timeline, o vocabulário da computação social popularizou de tal forma que esteve presente nos mais diversos lugares como salões de beleza, almoços de família e discussões de bares. O excesso de conteúdo também nos deu momentos de estresse informacional por vezes divertidos e sociais  – como na cobertura de eventos como o Rock in Rio por exemplo – por vezes estúpidos em casos de racismo, homofobia, discriminação, etc. Tudo isso tem muito menos a ver com as plataformas e suas materialidades, mas com as misérias da humanidade. Contudo, O silêncio e a desconexão também são necessários.

Desde sempre visualizei o entrelaçamento dos ambientes, conteúdos, emoções, pessoas, mas em 2011 ficou tudo muito mais explícito com tantos aplicativos que congelam momentos da vida ou nos dão pistas e tracejados dos caminhos escolhidos. A instagramização da vida cotidiana; os amigos encontrados via geolocalização e a constante vigilância 4squareana do todos vêem, todos sabem; os angry birds da vida presencial nos atirando pedras a cada erro. A música e os videoclipes continuaram fluindo através do YouTube e seus comerciais insuportáveis; pelas nuvens cada vez mais populares do SoundCloud e o “modelão” de negócios do iTunes chegou ao final do ano no Brasil. A tensão entre o comércio,  as estratégias de marketing e as liberdades e anonimatos entraram em disputa várias vezes.

ABC

Em termos de cultura pop, 2011 apostou no revival, sobretudo tirando o mofo das camisas xadrezes e coturnos do grunge dos armários e guarda-roupas com os 20 anos de Nevermind, o retorno do Foo Fighters – com um álbum declaradamente nostálgico, Wasting Light – as referências em seriados (como Californication e outros) e filmes. O álbum tributo à Achtung Baby do U2 (1991) fechou um círculo de influenciáveis e influenciados com o Garbage do Butch Vig, o NIN de Trent Reznor e o eterno Depeche Mode (também produzido por Flood em Violator, outro grande álbum noventista).O dubstep virou pop e deu vida aos remixes de Justin Biber a Katy Perry, e o witch-house assombrou a música eletrônica.

A fantasia, ainda bem, retornou em grande estilo ao horário nobre da televisão com Game of Thrones sendo disparado o melhor seriado do ano (na minha opinião, claro). O horror e a bizarrice neo-gótica da América do Norte também teve seu espaço com American Horror Story oscilando entre o riso nervoso e o surrealismo fetichista. O retrô das mais variadas épocas deu a tônica em muitos momentos de 2011. Nunca se falou tanto nas redes  sobre as mais diversas épocas: o neovitorianismo steampunk; o fantástico medieval; os anos 90 nas festas e produções musicais. Até a realeza britância deu os ares de sua graça transformando novamente o ritual de um casamento real em um espetáculo global televisionado ao vivo, tuitado, blogado, etc. A curadoria de informações é um instrumento metodológico cada vez mais relevante, vejam só.

Não tenho bola de cristal, sou apenas uma pesquisadora das culturas emergentes, embora tenha os dons “cayce pollardianos de mediunidade semiótica coolhunting das ruas” (Fabio Fernandes All Rights Reserved). Especulo a partir de todo esse Zeitgeist – no sentido da especulação utilizado pela ficção-científica – que esse iníciozinho dos anos 10 (que começa com mais força agora em 2012) vai ser muito pautado por essa ambivalência experimental de sensações de tempo e espaço. Ainda estamos nos acostumando, enquanto sociedade, a nos apropriar dos meios, a nos estender tecno-social e materialmente pelos territórios, a compreender nossos corpos, desejos, sentimentos e pensamentos dentro desse contexto (re)mediado full-time, o que não é nada fácil, dai o apelo tão forte da nostalgia na construção de um futuro em constante conexão. E é nesse ponto que uma (an)arqueologia midiática se torna tão rica para observamos o presente e vislumbres do futuro dos artefatos e suas trajetórias narrativas, que contam cada um do seu jeito, nossas histórias/estórias.

Nesse sentido, desejo um 2012 repleto de narrativas, de grandes conquistas, de prazeres diários. “Celebrate the life and times of splendor” diz o VNV Nation em Space & Time, uma das melhores faixas de Automatic (2011), não por acaso um álbum conceitual acerca das tecnologias e estéticas dos anos 30, retrô-futurismo indicando até mesmo minha última songpost do ano. Em 2012, mais Victories Not Vengeances!
>> AS PALAVRAS E AS COISAS – por Adriana Amaral

Space & Time

VNV Nation

Tear apart the life and times of familiar faces
And tracing lines to what connects me and binds me to
Images of the remote and never-changing
Grand designs, style and grace
And am i

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time

One and all let us celebrate the rise and fall
Celebrate the life and times of splendor
Desire and love constant and never-changing
The flow of times, closed in lines
Can’t tell if i’m just

Lost in thoughts on open seas
Let the currents carry me
If i could would i remain
Another life or another dream

No turning back, face the fact
I am lost in space and time
Turning here, looking back in time


BLIND GUARDIAN E A LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 3 | janeiro | 2012

Que a literatura serviu e ainda serve de inspiração para muitos letristas da música pesada não é nenhuma novidade. Que a banda alemã Blind Guardian é uma das bandas que mais bebem dessa fonte também não. Porém, ainda há aqueles que desconhecem as origens de algumas das letras dos alemães. Por uma questão de espaço comentarei um número limitado dessas obras.

O escritor mais influente para Hansi Kursh e sua trupe é J. R. R. Tolkien. A banda já prestou homenagem ao escritor inglês em seu primeiro álbum, Battalions of Fear, nas músicas Majesty e nas duas instrumentais, By the Gates of Moria e Gandalf’s Rebirth. No disco Tales from the Twilight World também podemos encontrar mais referências ao Professor Tolkien: a óbvia Lord of the Rings, e a mais sutil Lost in the Twilght Hall onde se pode interpretar a letra como descrevendo os pensamentos de Gandalf após derrotar o Balrog de Morgoth nas profundezas de Moria.

Contudo, o álbum mais complexo inspirado por uma obra de Tolkien é Nightfall in Middle-Earth baseado nos acontecimentos descritos n’O Silmarillion, livro póstumo do professor, editado pelo seu filho, Christopher Tolkien. Apesar de o livro descrever a criação do mundo, o surgimento dos elfos e dos homens, até o final da primeira era do mundo, quando Morgoth o Senhor do Escuro é derrotado e aprisionado pelos Valar, sobre a queda da ilha de Númenor e sobre Sauron, o novo Senhor do Escuro e a criação dos anéis de poder, o disco se concentra na parte principal que é a História das Silmarils. Assunto extenso e complexo para ser tratado em espaço tão pequeno, mas o Silmarillion é altamente recomendável àqueles que querem saber mais sobre os acontecimentos que antecederam o primeiro encontro de Bilbo e Gollum e o que isso acarretou ao longo do Senhor dos Anéis.

Outra música que merece destaque é War of the Thrones, do mais recente disco At the Edge of Time. Música é baseada no primeiro volume ­– a Guerra dos Tronos – das Crônicas de Fogo e Gelo do escritor americano George R. R. Martin, considerado pela imprensa como o Tolkien americano (o que para este humilde leitor que vos escreve é um exagero; um, porque a obra de Martin não tem semelhança alguma com as obras de Tolkien; dois, porque Tolkien foi o primeiro e seu estilo é único; e três, porque Martin é um excelente escritor por seus próprios méritos e não precisa desse tipo de comparação.) Os livros são um prato cheio para os fãs de fantasia, cheios de reviravoltas, batalhas, intrigas, etc. Outra música do mesmo álbum baseada na Guerra dos Tronos é o primeiro single do disco, A Voice in the Dark. Não escreverei detalhes sobre a letra, pois ela trata de um evento muito importante, portanto não irei entregar o ouro para quem não leu o livro ainda.

Voltando ao álbum Batallions of Fear encontramos a música Guardian of the Blind, inspirada no livro A Coisa do mestre do horror Stephen King. Um dos meus livros favoritos do escritor americano, a estória gira em torno de amigos que foram atormentados por um palhaço chamado Parcimomioso quando crianças e que já adultos têm que reviver o pesadelo de sua infância. A série de ficção científica Eternal Champion, de Michael Moorcock foi usada como inspiração para a faixa Quest for Tanelorn do álbum Somewhere far Beyond, e em Tanelorn (into the void), no álbum At the Edge of Time.

As referências são inúmeras. Ao longo de sua discografia, muitas músicas do quarteto alemão foram inspiradas pela literatura fantástica, seja ela fantasia, ficção científica ou horror. Seja qual for a sua preferência, corra atrás das obras (algumas delas não foram publicadas em português, mas aí há uma oportunidade para você praticar seu inglês), coloque os discos para rodar e aproveite a viagem.
>> DIE HARD – por Eduardo Barcelona Alves

Do álbum At The Edge of Time (2010) ouça a música “War of the Thrones”:


“FÁBULAS DO TEMPO E DA ETERNIDADE”, DE CRISTINA LASAITIS

domingo | 1 | janeiro | 2012

Lançado em 2008 e já em sua segunda edição, “Fábulas do Tempo e da Eternidade” (Tarja Editorial, 206 páginas), livro de estreia da paulistana Cristina Lasaitis, é uma coletânea de contos que transitam majoritariamente entre ficção científica e fantasia, tendo como tema principal a passagem do Tempo. Com abordagens sempre particulares e estabelecendo entre si algumas interessantes conexões, os doze textos que compõem o livro destacam-se pela qualidade da escrita e pelas tramas multifacetadas, abraçando o fantástico sem nunca se descuidar do aspecto humano, com todos os sentimentos e contradições que o envolvem.
O primeiro conto, “Além do Invisível”, apresenta-nos um cenário futurístico em que a realidade virtual tornou-se a realidade, onde acompanhamos o romance de Marcos e Maya. A autora é competente em contrastar a magnitude dos cenários irreais com a decadência do mundo onde os usuários se conectam, e retrata o amor entre os dois de maneira bastante sensível, apesar das circunstâncias surreais em que a relação se situa (ou quem sabe exatamente por causa delas). A conclusão do conto é singela e enigmática, tornando-o uma boa amostra do que se seguiria nos próximos textos.

Em “As Asas do Inca”, conhecemos um poderoso imperador do império pré-colombiano obcecado pelo desejo de observar o futuro. Para isso, recorre à magia. O conto tem um tom claramente fabuloso – que a pequena introdução já antecipa – e, apesar do desfecho algo previsível, naturalmente balizado por uma lição de moral (não seria uma fábula caso não houvesse uma), consegue convencer, remetendo à natural curiosidade humana e colocando-a lado a lado com o desejo pelo poder, uma combinação que fatalmente trás consequências.

“Nascido das Profundezas” narra um encontro entre culturas num Atacama pós-apocalíptico. De um lado, os neo-atlantes, desenvolvidos em saberes e tecnologia, de outro, grupos nativos que literalmente pararam no tempo após um período de guerras e peste. A reação é de estranhamento por parte dos primeiros, e festa por parte dos segundos. A autora explora bem o cenário criado, e os desdobramentos do pano de fundo – a história por trás da história, que aqui surge adequadamente em volta de uma fogueira, contada por um velho, envolta num tom lendário – soam verossímeis dentro daquelas circunstâncias obviamente fantásticas. Um ótimo texto.

Em seguida vem “Revés Alquímico”, provavelmente o conto que menos me agradou. Nele, uma farmacêutica começa a trabalhar com um excêntrico professor amante da alquimia, e os dois metem-se com o segredo do famoso Elixir da Longa Vida. O principal problema do texto são os personagens, um tanto desinteressantes, e o tom cômico de muitas das situações, que a meu ver atrapalha por impedir um envolvimento maior com a trama. Por outro lado, os efeitos do elixir são um pouco diferentes do que seria de se supor, e a autora merece pontos pela boa sacada. Ainda assim, penso que um desenvolvimento um pouco mais sério contribuiria para um todo mais satisfatório.

A ficção científica volta em “Assassinando o Tempo”. Uma cientista brasileira está às vésperas de colocar em prática uma experiência que pode vir a provar uma teoria sem precedentes na história da Ciência: a não existência do Tempo. Dispensando a atenção necessária ao aspecto científico da trama sem soar maçante ou prolixa, a autora também acerta ao investir algum tempo no desenvolvimento da protagonista, Cláudia Mansilha. Bem trabalhado ainda na construção do suspense em torno do experimento e na especulação de possíveis desdobramentos do mesmo (nesse sentido, a oposição de grupos religiosos soa mais do que verossímil), o conto destaca-se como um dos melhores do livro.

Segue-se “A Outra Metade”, e o nível continua alto. Uma sibila* caminha pelas ruas de uma metrópole, sozinha, fadada a nunca encontrar sua alma gêmea, de quem fora separada na Criação. Porém, oferecendo um sacrifício à Solidão, a mulher tem a chance de olhar para o futuro e capturar um breve vislumbre daquela que lhe completaria de acordo com a ordem do universo – seu amor, sua outra metade. Lasaitis trata o tema com uma singeleza desconcertante num conto que merece destaque pela beleza das palavras. A solidão da sibila surge de maneira aterradora, amparada pela prosa ágil e quase lírica da autora, permeando cada linha e culminando num clímax poderoso – o encontro -, uma intensa explosão de sentimentos habilmente narrada e bem urdida. De longe, meu texto favorito.

Em “Viagem Além do Absoluto”, os dois últimos seres viventes vagam por um universo em ruínas, com a entropia alcançando seu limite. Em certo sentido, dada a temática do livro, esse conto representa seu ápice, o momento em que o Tempo e tudo mais deixarão de existir. A perspectiva do Fim por si só já desperta interesse e fascinação, e a autora é competente ao explorá-la, coroando o texto com passagens que revelam sentimentos de maneira sutil e humana.

“De Onde Viemos, Para Onde Vamos” tem como grande barato a inusitada identidade de seu narrador, uma escolha criativa e divertida que dá algo mais ao breve conto – trata-se do menor do livro. Destaque também para o ótimo final.

“Irmãos Siameses” vem em seguida. O título é autoexplicativo: os protagonistas são dois irmãos que nascem ligados pelo pescoço. O cenário é o mesmo deserto visto em “Nascido das Profundezas” (os dois contos dialogam abertamente, em dado momento). A trama foca basicamente no crescimento dos irmãos, e, em certo momento, numa dura escolha que terão de fazer. O conto naufragaria caso os personagens principais não fossem bem construídos, e, felizmente, isso não ocorre. O leitor se envolve com a narrativa na mesma medida em que se importa com os irmãos, em outra boa demonstração do bom gosto da autora na criação de personagens.

“Caçadores de Anjos” abraça novamente a fantasia, narrando a jornada de uma caçadora especializada em transformar anjos caídos em humanos. Funciona bem, com um clímax bastante intenso, mas, por outro lado, pareceu-me um tanto deslocado em meio aos outros contos do livro quanto a sua relação com a temática central. De todo modo, um bom texto.

“Os Parênteses da Eternidade” consiste numa troca de correspondências entre duas pessoas distantes alguns séculos uma da outra, através do Correio do Não-Tempo. Este conta apresenta alguns interessantes desdobramentos dos acontecimentos vistos em “Assassinando o Tempo”, além explorar alguns dos paradoxos e riscos da comunicação entre épocas diferentes. Bom como a maioria.

Fechando as Fábulas, apropriadamente, “Meia-noite”. Passado no mesmo universo de “Além do Invisível”, que abre os trabalhos, e compartilhando com este primeiro alguns personagens, a história de Syl, funcionária de uma poderosa corporação atacada por uma Inteligência Artificial dá um ótimo fechamento ao livro, remetendo diretamente ao cyberpunk das tecnologias integradas de maneira quase orgânica à vida cotidiana e dos grandes conglomerados mandando no mundo. Com um término vibrante – o último parágrafo fica na cabeça depois que se fecha o livro – o conto estabelece-se facilmente como um dos melhores da seleção e mostra definitiva do talento da autora.

“Fábulas do Tempo e da Eternidade” é uma forte recomendação. Boas leituras.
>> DEPÓSITO DE DESATINOS – por Josué de Oliveira


REBOOT NO UNIVERSO DC – UMA TRAIÇÃO PARA OS VELHOS LEITORES

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A DC Comics decidiu reiniciar toda a sua
linha de quadrinhos, começando em agosto.
Quais as razões para isso e qual a perspectiva
para os velhos DCnautas?

Não é raro que me perguntem por onde começar a ler HQs e a resposta sempre se torna complicada justamente por conta de questões envolvendo continuidade e cronologia, que são os maiores diferenciais dos quadrinhos das grandes editoras americanas. As histórias, via de regra, tem efeito permanente na vida daqueles personagens e devem ser levadas em conta pelos roteiristas que vierem a trabalhar com esse ou aquele título.

Isso acaba por funcionar como uma faca de dois gumes. Por um lado, temos um universo gigantesco de histórias, onde o leitor mais antigo se vê recompensado ao acompanhar por tanto tempo a vida desse ou daquele herói, sentindo que realmente faz parte do cotidiano dele. Por outro, acaba por engessar um pouco os criadores e dificulta a entrada de novos leitores para determinados títulos. 

Ou seja, não foi a troco de nada que a DC anunciou nesta semana que irá realizar em setembro um relançamento em seu universo de heróis, reiniciando todos os títulos publicados desde o número um, aproveitando o gancho da saga “Flashpoint”, publicada atualmente nos EUA. Há alguns anos, a Marvel Comics criou uma linha separada para versões atualizadas de seu panteão, mas manteve também a continuidade clássica. Ou seja, trata-se de a DC adotou um procedimento bem mais radical.

Personagens clássicos serão modificados e atualizados, tanto em seus uniformes quanto em suas histórias. 52 edições serão lançadas ao longo daquele mês, reapresentando os heróis ao público, com um universo redesenhado por novas equipes criativas, chefiadas por Geoff Johns (“Lanterna Verde”) e Jim Lee (“Batman – Silêncio”).

Não é a primeira vez que a editora faz isso. Em 1986, no auge de uma verdadeira balbúrdia que era o Universo (aliás, Multiverso) DC, foi lançada a maxissérie “Crise nas Infinitas Terras”, que enxugou os excessos de versões múltiplas de personagens e deu novas origens a alguns heróis e vilões. O resultado foi que a última história do Superman, “O Que Aconteceu ao Homem de Aço?”, escrita por Alan Moore foi seguida pela minissérie “Superman – O Homem de Aço”, versão de John Byrne para o nascimento do último kryptoniano e que foi a linha-base para os escritores até recentemente. Por sua vez, o Batman teve seu “Ano Um” narrado magistralmente por Frank Miller e David Mazzucchelli.

A questão aqui é que não foram as dobras cronológicas que levaram a DC a realizar esta manobra tão arriscada novamente, mas sim uma necessidade mercadológica. O público que vai sair dos cinemas após uma sessão de “Lanterna Verde” e for atrás de histórias do personagem, provavelmente se assustaria ao ver que teria de ir atrás de mais de 60 edições, mais infindáveis especiais e tie-ins para se inteirar das tramas. O gamer que acabou de zerar “Batman – Arkham Asylum” e que está na pilha para descobrir mais sobre o homem-morcego vai querer abrir uma HQ na qual Bruce Wayne é o Batman.

Interessante notar que a própria DC começou a lançar, em 2010, uma nova  linha de graphic novels chamada “Earth One”, cujo objetivo era justamente lançar versões contemporâneas dos seus principais heróis. Com o reboot na principal, o destino dessa alternativa editorial é incerto, mesmo com o roteirista J. Michael Straczynski (que escreveu o script do filme “A Troca“) tendo afirmado recentemente no Twitter que já estava terminando o roteiro do segundo livro da série “Superman – Earth One“.

Lembremos ainda que a DC agora é “DC Entertainment”, não estando focada apenas nos quadrinhos, mas em um mercado bem mais abrangente. Não é por acaso que, a partir desta mudança, as HQs da editora sairão simultaneamente em papel e em formato digital, oferecendo ao público, além das HQs de modo tradicional, a opção de compra das edições em combos digital + física, ou mesmo apenas as edições virtuais. Essa será uma mudança significativa para o modo de vendagem dos gibis, principalmente em tempos de iPhones e iPads.

Além disso, há outro fator a ser considerado: o processo movido pelos herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, com esse litígio ameaçando quebrar o personagem em dois, tendo em vista que a DC se torna dona de tudo o que veio APÓS a publicação da primeira “Action Comics”, mas os conceitos que tinham naquela publicação, como a capacidade de saltar grandes distâncias e a famigerada “cueca por cima das calças” ainda estão sob disputa. O celebrado autor Grant Morrison, responsável pela fantástica minissérie “Grandes Astros – Superman”será o responsável por revitalizar Kal-El.

No entanto, os fãs do casal Lois e Clark estão em pânico com uma provável dissolução de um dos casamentos mais duradouros dos quadrinhos e com uma possível aproximação entre o Homem de Aço e a Mulher-Maravilha (o primeiro a fazer piada sobre aquela música ridícula ganha uma viagem só de ida para a Zona Fantasma). Para quem já viu o Superman agüentando séculos “na seca” junto à bela Diana por pura devoção à sua amada esposa, será um golpe duríssimo (sem trocadilhos). Bom, pelo menos o Azulão não vendeu o casamento dele para o capeta, como um certo herói aracnídeo da Marvel…

Falando na Princesa Amazona, que teve seu uniforme redesenhado há alguns meses, as mudanças de figurino devem atingir as demais heroínas na DC. A ordem é que maiôs e meias-arrastão fiquem de fora dos guarda-roupas das vigilantes a partir de agora. Chora o nosso conterrâneo, o ótimo desenhista cearense Ed Benes, famoso por mostrar bem certos “detalhes anatômicos” das belas guerreiras em seus trabalhos para a editora.

Os leitores mais velhos – eu incluso – com certeza se sentirão traídos pelo investimento emocional jogado quase que no lixo, após de continuidade desconsiderados com este novo recomeço no Universo DC, sem contar a perda histórica para a já citada clássica Action Comics, que recentemente atingiu sua edição de número 900 e deverá voltar ao um.

Como vimos, há mais em jogo nessa decisão do que o coração de nós, fãs devotados. O que está na balança o próprio futuro financeiro e a rentabilidade dos heróis DC. O que resta para os fãs é rezar que as novas equipes criativas tragam boas histórias com nossos amados personagens, agora repaginados para um novo público.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Thiago Siqueira


“AS CRÔNICAS DE IMAGINARIUM GEOGRAPHICA”: ONDE HABITA A FANTASIA

quarta-feira | 1 | junho | 2011

Ser portador de um objeto mágico já fez parte do imaginário da maioria das pessoas. Povoou os mais variados romances em épocas e linguagens distintas. Afinal, é da capacidade humana sonhar com aquilo que mais anseia. Algo que o tire da realidade e liberte a sua imaginação e seus anseios infantis que estão ali, escondidinhos no seu coração.

James A.Owen, na minha opinião, é um captador de sonhos. O seu primeiro livro editado aqui no Brasil da série As Crônicas de Imaginarium Geographica me encantou logo de cara pela beleza da capa. Ao ler a sinopse, assumo que pensei que seria bem infantil, mas ao ouvir as opiniões que estavam rolando pelo meio editorial, resolvi me arriscar e comprei.

Vocês devem estar se perguntando: E aí, Danilo, você não respondeu por que acha o cara bom?! Bom, vou explicar… Quando comecei a ler Onde Habitam os Dragões, comecei a perceber nas páginas desta obra fantástica de fantasia que todos os sonhos de infância ali seriam realizados, durante o decorrer daquela história. Neste livro, (Editora Underworld, 308 páginas) é como se ele pegasse cada referência boa que batia suas asas na minha imaginação infantil, misturado tudo e transformasse em algo único. Simplesmente mágico!

O livro se passa durante a Primeira Guerra Mundial, em Londres. John, um homem atormentado pela sombra da Guerra, recebe um chamado urgente do seu professor de Oxford. Lá, junto com Jack e Charles, ele descobre que seu professor foi assassinado e que o destino deste trio inusitado é de serem os guardiões do Atlas Imaginarium Geographica, um livro poderoso que contém os mapas de todas as terras mágicas e humanas, em todas as dimensões possíveis.

Sem dúvida, foi um dos melhores livros que li no gênero. O autor consegue trazer a magia do infantil para uma linguagem adulta sem parecer piegas. Seu estilo de texto, apesar de conter muito mais elementos mágicos, me remeteu ao lirismo de Coração de Tinta. Ele conseguiu nos presentear por ser ousado – criar a maior miscelânea de personagens de lendas e contos de fada que eu já vi! E para nossa alegria, conseguia manter uma linha de linearidade singular.

Temos o grande Rei Arthur, capitão Nemo com o seu grandioso Náutilus e a Caixa de Pandora em um mesmo ambiente, sem que o leitor ache absurdo em nenhum ponto. O ritmo em nenhum momento se torna cansativo e o texto é dinâmico e rico em detalhes. Os personagens principais, o nosso trio de humanos, crescem no decorrer das páginas, não com a certeza de suas missões, mas como qualquer pessoa normal, sentindo o peso nas costas de uma responsabilidade tamanha que não sabem se vão aguentar vencer esta jornada.

Toda grande história não pode deixar de ter um grande inimigo – este é o Rei Branco. Ele quer ser o Grão-Rei do Trono de Prata e governar todos os mundos, que antes era governado apenas pelos herdeiros de Arthur. E junto com um exército de monstros, ele quer dominar tudo! Como todo vilão deste gênero ele é frio, maldoso e sarcástico. O perfeito cara ruim que tínhamos medo de que pegasse nossos pés debaixo da cama nas noites de chuva.

Muitos leitores podem se perder em meios a tantas referências, mas não se desespere. No final, tudo se explica… E por falar nisso, que final! Este é o livro que nunca me cansarei de recomendar, não leia as últimas páginas antes da hora, por favor! Os bookaholics de plantão vão se deliciar a esta homenagem mais que merecida ao nosso universo literário…

Não ousem perder a chance de mergulhar neste universo mágico! Uma homenagem à fantasia que só um mestre poderia tecer!
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Danilo Barbosa


INDICAÇÕES FANTÁSTICAS: “CYBER BRASILIANA”, DE RICHARD DIEGUES, ESTREIA NOVO PROGRAMA

segunda-feira | 23 | maio | 2011

A escritora Carol Chiovatto colocou no ar na Revista Fantástica sua nova coluna: INDICAÇÕES FANTÁSTICAS.

Trata-se de um projeto que pretende indicar livros em forma de resenha/entrevista em vídeo com os autores dos livros.

Os vídeos terão periodicidade quinzenal, alternando com textos.

Indicações Fantásticas 01


ASSEMBLEIA ESTELAR”, MARCELLO SIMÃO BRANCO

segunda-feira | 16 | maio | 2011

Pode ser que eu esteja enganado, mas tenho a impressão de que já houve época em que os contos de ficção científica eram mais presentes no Brasil. Claro, já tivemos algumas revistas dedicadas ao gênero, o que facilitava as coisas, mas os livros com contos também eram mais numerosos.

E é bom que se diga que alguns dos melhores momentos da ficção científica estão nos contos, sem desmerecer os imensos volumes que vêm sendo produzidos ultimamente, às vezes em trilogias, quadrilogias e outras “gias” – alguns com histórias realmente espetaculares.
Hoje, uma das editoras que tem se dedicado à publicação dos contos do gênero é a Devir, que apresenta agora esteAssembleia Estelar, que comprova que tamanho não é documento, fazendo uma coletânea excelente do que foi chamado pelo editor de “histórias de ficção científica política”, com autores brasileiros e estrangeiros.

E o livro já inicia muito bem, com uma introdução de 26 páginas, “Afinidades Eletivas Entre Ficção Científica e Política”, escrita pelo editor Marcello Simão Branco, que por si só já valeria o livro. Ele não só apresenta algumas definições e características da política, como estabelece a relação entre ela e a literatura de ficção científica. Além disso, elabora um painel histórico das obras que circulam direta ou indiretamente pelo subgênero “fc + política”, o que mostra, entre outras coisas, a abrangência do gênero e a facilidade com que transita pelos mais variados temas.

E variadas também são as abordagens fornecidas nos contos do livro, o primeiro deles, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, escrito pelo português Luís Filipe Silva, já conhecido dos fãs de fc no Brasil, em particular pelos excelentes Galxmente e Terrarium (escrito com João Manuel Barreiros). Aqui, ele imaginou um futuro com um sistema de votação que se aproximasse da perfeição, exatamente por dispensar tanto os políticos quanto seus discursos vazios, centrando-se em resoluções baseadas na lógica e na real necessidade da nação e seus habitantes.

O segundo conto é “Anauê”, do brasileiro Roberval Barcellos. Para quem ainda não sabe, “anauê” era a antiga saudação dos integralistas brasileiros. Barcellos segue um tipo de história do gênero que se tornou bastante comum entre os escritores nacionais. Imagina que, em determinado momento da história, certos acontecimentos levaram-nos em outra direção. No caso, os integralistas de Plínio Salgado derrubaram o governo de Getúlio Vargas, estabelecendo uma aliança com os nazistas, que venceram a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, o autor desenvolve o que teria sido a sociedade brasileira do futuro nos anos 1980.

Também está presente na coletânea André Carneiro, um dos mais importantes escritores do gênero no Brasil, com o conto “Gabinete Blindado”, que remete aos anos da ditadura militar no País, contado por uma personagem em forma de memórias resgatadas, entremeadas a dúvidas e lembranças emotivas.

Roberto de Sousa Causo apresenta o conto “Triunfo de Campanha”. Causo é um dos nomes mais importantes do cenário da fc nacional, e costuma utilizar muito bem o ambiente militar para compor suas histórias, e aqui não é diferente. O conto faz parte de uma série de aventuras com o personagem Jonas Peregrino, numa galáxia cada vez mais povoada e colonizada por humanos. A história não traz qualquer ação militar propriamente dita, mas o envolvimento de militares nas tentativas de políticos em dominarem o ambiente, após o aparente e inexplicável término de uma guerra contra uma raça alienígena. A história trabalha muito bem com a forma pela qual os políticos utilizam figuras públicas, famosas, para atingir seus objetivos.

“Diário do Cerco de Nova York” foi escrito por outro dos excelentes escritores brasileiros do gênero, Daniel Fresnot, autor do sensacional livro A Terceira Expedição (1987). Cenário e narrativas excelentes que, apesar de se situar em Nova York, poderia perfeitamente ser aplicado para qualquer grande cidade do Brasil, nas quais alguns dos mesmos problemas se verificam. O centro do conto é, na verdade, a estupides humana e a facilidade com que políticos tomam decisões que afetam profundamente a vida de milhões de pessoas, sem sequer pestanejar. No caso, um prefeito de Nova York, insatisfeito com os pesados impostos que a cidade tem de pagar ao governo federal – tal como ocorre no Brasil – decide revoltar-se. Com o apoio da população, a revolta resulta num confronto armado com tropas federais.

“Saara Gardens”, de Ataíde Tartari, apresenta um mundo globalizado no qual os interesses econômicos das grandes corporações continuam tendo mais importância, utilizando-se dos políticos como ferramentas para obter o que desejam. No caso, é a transformação do deserto do Saara num verdadeiro jardim, abrindo caminho para uma especulação imobiliária como jamais se viu. Existem referências bem claras ao nosso famoso “jeitinho” de se fazer as coisas, com favorecimentos e negociatas envolvendo empreiteiras.

O conto de Miguel Carqueija – outro dos grandes nomes da fc nacional, surgido na chamada “segunda onda” do gênero no Brasil – apareceu originalmente no famoso fanzine Somnium, no final do anos 1980, compondo um cenário possível para o País no início do século 21, com, bastante ironia. Nesse futuro imaginado, tornou-se comum o assassinato de figuras políticas, com a população cansada de esperar que os políticos resolvessem os problemas da nação como deveriam, sem se envolver em escândalos atrás de escândalos.

Fernando Bonassi talvez seja mais conhecido como o autor dos roteiros dos filmes Lula, o Filho do Brasil e Carandiru, entre outros, mas também tem participação ativa no gênero. Aqui ele apresenta “A Evolução dos Homens Sem Pernas”, publicado originalmente numa antologia francesa, em 2009. Trabalha, com muita ironia e sarcasmo, com a possibilidade de mutações ocorrerem nos humanos a partir da evolução de algumas tecnologias, utilizadas sem qualquer controle. Interessante, também, que o conto é narrado no passado, dando um certo tom de conto de fadas.

Em “A Pedra que Canta”, vemos novamente Henrique Flory, que surgiu na fc nacional nos final dos anos 1980, com obras sensacionais que chamaram a atenção da crítica, antes de interromper sua produção do gênero e se dedicar a outras atividades profissionais. O conto foi publicado originalmente numa coletânea com o mesmo titulo, em 1991, e aqui ele traz uma nova versão da história de um conflito que se intensifica entre Brasil e Argentina, no ano de 2018. É uma boa oportunidade para quem ainda não conhece a obra do autor.

A excepcional escritora Ursula K. Le Guin tem publicado seu conto “O Dia Antes da Revolução”, escrito com sua capacidade habitual, mas que deverá ser melhor entendido por aqueles que conhecem seu livro Os Despossuídos (1974), uma vez que traz personagens e eventos que antecederam a história narrada na obra, que apresenta uma sociedade anarquista “quase” perfeita. O conto segue as lembranças íntimas de Laia Odo, a principal líder da revolução anarquista que mobiliza o planeta Urrás, momentos antes da rebelião se alastrar.

“O Grande Rio”, de Flávio Medeiros Jr., é uma excelente história de viagens no tempo, com ação iniciando-se num momento futuro de uma Terra alternativa, na qual o presidente John F. Kennedy não foi assassinado. Isso provocou uma alteração significativa no planeta, e para pior, de modo que um viajante tenta reverter a situação viajando no passado, mas encontrando inúmeras dificuldades.

Já bem conhecido do público de fc no Brasil, Orson Scott Card tem o conto “O Originista”, que tem como atração principal o fato de se situar no universo da série Fundação, de Isaac Asimov. Originalmente, foi publicado na antologia Foundation’s Friends (1989), no qual vários escritores elaboraram histórias baseadas no universo criado por Asimov. Até mesmo Hari Seldon está presente no conto, que centra-se no cientista Leyel Forska e sua esposa Deet, também cientista, e o envolvimento de ambos na construção da Segunda Fundação, detalhando as intrigas políticas existentes no gigantesco planeta Trantor, o centro do Império. É o conto mais longo do livro, e uma delícia; dá vontade de ler Fundação novamente.

“Questão de Sobrevivência” é de um dos autores mais atuantes e respeitados da fc nacional, Carlos Orsi. O conto foi publicado originalmente na revista Sci Fi News Contos, em 2001. Imagina a cidade de São Paulo no ano 2030, com uma crise social sem precedentes, que levou o centro da cidade a se transformar num acampamento de desfavorecidos, sofrendo com as consequências de um ataque anterior. Uma doença impede o aleitamento materno e crianças nascem com deformidades, mas uma empresa desenvolveu uma forma de “limpar” o leite, que revende a preços exorbitantes, mas apenas para os “favorecidos”. É um cenário terrível e desenvolvido com imensa competência.

Fechando o livro, o conto “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, de Bruce Sterling, uma das figurinhas carimbadas da fc a partir dos anos 1980, sempre associado ao desenvolvimento do subgênero cyberpunk, ao lado de William Gibson. Aqui, ele compôs um cenário futuro em que o mundo islâmico se expandiu, e os EUA se tornaram um país com imensos problemas econômicos. E o contraste entre as sociedades é apresentado na narrativa de uma visita de um jornalista árabe aos EUA, onde pretende entrevistar um famoso cantor de rock, que também é um político em ascensão.

Trata-se de uma obra interessante, sempre instigante, e uma boa oportunidade; para aqueles que ainda não têm muita afinidade com a produção nacional de ficção científica, de conhecer alguns dos principais autores; para os que já conhecem, confirmar a altíssima qualidade da produção literária brasileira de ficção científica.
>> VIMANA – por Gilberto Schoereder


“VISÃO ALIENÍGENA”: ASSEMBLEIA ESTELAR

segunda-feira | 16 | maio | 2011

Com Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Devir Livraria, 400 pág.), Marcello Simão Branco organizou uma antologia de textos variados e interessantes, ressaltando a FC brasileira em vez da estrangeira, já que dos catorze autores só três são americanos – Le Guin, Card e Sterling -, se bem que estes estão entre os mais conscientes de diferenças culturais e perspectivas mais internacionais.

A introdução da antologia abrange a história da FC como a “literatura de mudança”, para usar a frase de James Gunn (autor não citado pelo organizador), e oferece um bom panorama do gênero desde suas origens em Platão com A República, passando por Thomas More e sua “utopia”, para chegar aos tempos modernos. Partindo da tradição política, Branco associa obras de FC com vários eventos históricos, como a revolução soviética, as guerras mundiais e a guerra fria, citando autores de diversas tendências como Heinlein e Pohl, até as modernas ou pós-industriais. Além do mais, apresentam-se as vertentes mais críticas como as do feminismo, ecologia e cyberpunk, esta última, curiosamente sem definir e sem mencionar William Gibson, um dos mais influentes autores docyberpunk.

O panorama de tendências brasileiras oferece uma meta-história do gênero, passando por etapas satíricas, eugenistas, aventureiras, e utópicas que apareceram entre o final do século 19 até os anos 40 do século 20. Na história da FC mais contemporânea, passa por fases da Primeira Onda dos anos 60, para as distopias de autores dos 70 protestando contra o regime militar, para chegar à Segunda Onda a partir dos anos 80. Segundo Branco, entre os tópicos políticos abordados por esta geração há políticas relacionadas à região amazônica, divergências históricas em forma de histórias alternativas, e visões mais pessimistas ou satíricas como as de autores cyberpunks. Porém, omite-se a menção da Terceira Onda, que só surge na apresentação do conto do escritor Flávio Medeiros, uma geração que focaliza assuntos e perspectivas mais internacionais.

A introdução de Branco tem um propósito duplo: oferece uma ampla visão do gênero ao mesmo tempo que serve para explicar a trajetória da FC brasileira desde o século 19 até a atualidade. Isto preenche as lacunas porque a perspectiva da antologia não é de oferecer textos representativos de várias épocas nem de ilustrar tendências específicas; ao invés, quase todos os textos são contemporâneos de 2010. O que falta na introdução é uma justificativa ou discussão da escolha ou princípio organizador dos mesmos. Por isso, a ordem dos textos parece aleatória, mudando de assunto e de época sem transição. O editor afirma que seguiu o modelo de Asimov em Election Day 2084 (1984), dizendo que esta coletânea “inspirou a organização deste que você tem nas mãos”, mas não elabora mais. Por isso, tentarei uma organização temática própria, sem seguir a ordem do índice.

Ditadura e Rebelião

A época da ditadura é lembrada em textos da guerrilha e a luta esquerdista. A evocação da ditadura está presente no conto “O Gabinete Blindado” de André Carneiro, mas de forma subjetiva porque é narrado por uma jovem lutando contra um regime repressor. A militância e a liberação sexual evocam os anos 60, época da militância do próprio autor. Portanto, o interessante do texto recai justamente no uso de uma voz narrativa feminina, técnica utilizada nesta e só em mais uma história, a de Ursula K. Le Guin, “O Dia Antes da Revolução” (1974). O conto da autora americana é sobre uma militante anarquista que, na terceira idade, se lembra da sua juventude e sua vida de luta. Mesmo à beira da morte, ela lembra que a revolução é um processo que continuará com ou sem ela. A evocação subjetiva de experiência política é convincente nestes contos, que trazem finais ambíguos ou abertos para especulação, em contraste com os outros da coletânea.

Redemocratização

Entre os tópicos abordados pelos autores brasileiros está a da redemocratização. No texto do autor português Luís Filipe Silva, “Queda de Roma, antes da Telenovela”, o idealismo democrático e grandes metas políticas estão mortos. Sem memória da luta contra regimes ditatoriais, a televisão toma conta de tudo. Em “Trunfo de Campanha,” Roberto de Sousa Causo lida com o problema ético de um herói de guerra pressionado para participar da política galáctica, enquanto em “Saara Gardens”, Ataíde Tartari imagina uma eleição que determinará o futuro do deserto do Saara num contexto global. A corrupção ou manipulação política brasileira agora aparece num palco mais amplo. No caso de Causo, existe um fim menos cínico do que as histórias de Silva ou Tartari, mas todos questionam o futuro da política brasileira e sua possível expansão.

Distopia e as Políticas Neoliberais

A distopia e o futuro pesadelo também florescem com a época do neoliberalismo em meados da década de 80 e o início de 90, como vemos no caos político dos contos de Fresnot, Flory e Carqueija. A noveleta “O Cerco de Nova York” (1984) de Fresnot evoca o tema de desastre urbano na metrópole americana, onde um político populista inspira rebelião nos habitantes de Nova Iorque. Embora esta política caiba melhor no centro conservador dos EUA e não em uma cidade cosmopolita, o diário do visitante francês em busca de solidariedade e sobrevivência lembra as imagens do atentado real das torres do 11 de setembro. Em “A Pedra que Canta” (1991, atualizado em 2011) de Flory, temos outro futuro de pesadelo com o Brasil em guerra contra a Argentina. Aqui a manipulação de um jovem para assegurar uma vitória brasileira contra o velho inimigo, alude ao romance O Jogo do Exterminador (1983) de Orson Scott Card, só que o jovem brasileiro tem um “implante” feito no Japão. O fato de que o Paraguai tem um líder e investimento chineses pode se referir ao novo poder econômico asiático do século 21, e a pressão para uma vitória política e econômica do Brasil contra a rival Argentina. O conto de Carqueija, “Era do Aquário”, também lida com o nacionalismo, mas de forma abertamente irônica: um senador brasileiro, após ter sofrido vários ataques durante um breve trajeto de carro no Rio de Janeiro, fala ante uma platéia universitária para falar do triunfo da democracia do “país do futuro”, numa extrapolação da política neoliberal que só consegue dividir em vez de unir a população.

Histórias Alternativas

Duas histórias alternativas, uma sobre os integralistas no Brasil e outra sobre John F. Kennedy, são textos que continuam um movimento importante da Segunda Onda da FC brasileira. Em “Anauê”, Roberval Barcellos oferece o dilema moral do protagonista diante as ordens dos nazistas a respeito da população judaica no Brasil. O precipitado final do conto não evoca o mesmo realismo que o início, mas o conto aborda um tema relativamente tabu dentro dos estudos históricos e literários: o fascismo brasileiro. Em “O Grande Rio”, Flávio Medeiros explora uma viagem no tempo para matar o presidente Kennedy, evitando assim um futuro pesadelo que resulta da sua sobrevivência. Como escritor da Terceira Onda de FC, Medeiros ambienta sua história de conspiração inteiramente nos EUA, como admirável pesquisa, só errando a ortografia de John Connely (que deve ser Connolly).

Império

A futura sociedade baseada no consumismo é o tópico do conto “A Evolução dos Homens sem Pernas” de Fernando Bonassi. Ensaístico e abstrato, o conto elabora em página após página, como o constante consumo de bens leva à desumanização. Estes novos humanos deformados lembram os excessos de uma sociedade consumista e politicamente correta. Quase um quarto da antologia se dedica a um só texto: “O Originista” (1989) de Orson Scott Card, que utiliza personagens da série Fundação de Asimov. Mas o texto de Card trata menos de golpes da política imperial e mais da relação íntima do protagonista e sua mulher e da sua busca para garantir o futuro da humanidade após a queda inevitável do império.

Cyberpunk

Não é à toa que os últimos contos sejam de cyberpunk - um brasileiro, outro americano – sendo estes os mais críticos e chocantes da antologia. O conto de Carlos Orsi, “Questão de Sobrevivência”, parece o protótipo de FC política brasileira, não só no assunto, mas também na sua ambientação, num futuro Vale de Anhangabaú poluído, cheio de indigentes, onde a luta de classes, a questão ambiental, e o controvertido uso do leite humano lembram o melhor da FC ambiental dos anos 70 e 80, junto com uma visão cyberpunk de rebeldia. O conto de Bruce Sterling “Vemos as Coisas de Modo Diferente” (1989), explora a visão de um muçulmano em um EUA futuro já em plena decadência. Como não é de surpreender, o protagonista/narrador realiza sua jihad, mas de forma particular, sutil e insidiosa, desde sua perspectiva ou visão do mundo.

Uma crítica da antologia seria a falta de participação de mulheres, com a exceção de Le Guin. A antologia de Asimov não tem nenhuma escritora, como também se vê nas novas antologias recentes de Steampunk, Vaporpunk e Dieselpunk. Que eu saiba, até agora Lugar da Mulher É na Cozinha, antologia organizada por Martha Argel, é a única que traz só escritoras. Até a imagem da capa deAssembleia Estelar retrata três oradores masculinos, um homem branco, um homem de cor, e um robô masculino, com umas mulheres na plateia. Eu também teria gostado de ver incluído contos como “Guerra Civil” (1997) de Domingos Pellegrini. Nesta história, grupos de cachorros começam a atacar populações humanas, mas talvez não se trate de FC propriamente dita mas uma alegoria política. Existem pequenos erros ortográficos dos nomes John Wyndham, Cyril M. Kornbluth, Herberto Sales e China Miéville, mas fora isto, a edição é boa.

Em geral, Branco oferece uma sólida orientação sem ser pedante na introdução, e também nos resumos e nas biografias que antecedem os contos. Com os temas de redemocratização, mundos distópicos, histórias alternativas, caos urbano, consumismo, e tecnologia, esta antologia pode repercutir tanto para o leitor experiente, quanto ao iniciante no gênero. Representa uma antologia para provocar discussão entre fãs, leitores comuns e até entre alunos em sala de aula.

–M. Elizabeth Ginway leciona na University of Florida. Uma das maiores especialistas na ficção cientíifica do Brasil, é autora de Ficção Científica Brasileira e Visão Alienígena.
>> TERRA MAGAZINE – por M. Elizabeth Ginway


“GAME OF THRONES”: PRODUZINDO “GUERRA DOS TRONOS”

segunda-feira | 9 | maio | 2011

A mais nova superprodução da TV estreou nos EUA e no Brasil pela HBO cercada de muita publicidade e expectativas. Registrando cerca de 2.2 milhões de telespectadores, nos EUA, “Game of Thrones” repetiu o feito de outras séries do canal ao ter sua produção renovada para sua segunda temporada, com a exibição de apenas um episódio. Não que existisse alguma dúvida a respeito de sua continuidade, afinal, dificilmente o canal cancelaria uma série em sua primeira temporada após o investimento de cerca de 60 milhões de dólares para se produzir os primeiros dez episódios.

Desde que foi anunciada em 2008, a produção deixou claro que sua intenção é produzir, pelo menos, quatro temporadas. O equivalente aos quatro primeiros livros de George R.R. Martin, da série “A Song of  Ice and Fire”. O autor já tem o quinto volume pronto para seu lançamento em julho de 2011, sendo que a série literária deverá ter um total de sete volumes.

O reino de Westeros surgiu da vontade de Martin em se afastar da televisão, veículo para o qual escreveu diversos roteiros para séries. O autor foi roteirista e produtor de “Além da Imaginação” e “A Bela e a Fera”, ambas da década de 1980. A primeira apresentava uma nova versão da visão de Rod Serling para as fantásticas possibilidades proporcionadas pela ficção científica, enquanto que a segunda era um conto de fadas moderno, sobre o amor impossível entre uma criatura meio homem meio fera, e uma advogada vivendo em Nova Iorque.

Apesar do sucesso que as duas séries conquistaram na época em que eram exibidas, Martin decidiu se afastar desse meio. O motivo era simples: na TV seu trabalho estava limitado a um orçamento, a um formato de produção e a uma censura. Pensando em criar um universo povoado por diversos personagens, situados em cenários grandiosos, vivenciando uma trama repleta de reviravoltas, Martin escreveu o livro “Game of Thrones” que introduz o leitor ao reino de Westeros.

Publicado em 1996, o livro atraiu o interesse de um público ávido por esse tipo de história. Recebendo prêmios, a obra começou a despertar o interesse de Hollywood, principalmente depois que “O Senhor dos Anéis” fez sucesso. Mas Martin recusava-se a autorizar que sua obra ganhasse uma adaptação cinematográfica. Para ele, um filme não conseguiria reproduzir o conteúdo do livro. Para que Hollywood pudesse adaptar sua obra, os estúdios teriam que se comprometer a produzir, pelo menos, 27 filmes. Algo impensável.

Até que, por volta de 2007, a HBO começou a negociar com o autor uma adaptação de sua obra, com o objetivo de transformá-la em uma série de TV. Buscando investir em produções ousadas, o canal propôs ao autor adaptar cada livro em uma temporada de, inicialmente, 12 episódios (posteriormente foram definidos 10 episódios por temporada). Considerando esse formato mais adequado para contar sua história e levando em consideração a fama conquistada pelo canal com produções como “Deadwood”, “A Família Soprano” ou “Roma”, Martin aceitou a proposta.

Produzido em parceria com a Management 360, o projeto ganhou a encomenda de um episódio piloto para avaliação. Pura formalidade, visto que a decisão de se produzir uma série já estava tomada. No entanto, a produção sofreu um revés. Entre 2007 e 2008 ocorreu uma greve dos roteiristas americanos que paralisou Hollywood ao longo de quatro meses. Com isso, a HBO precisou adiar a produção de “Game of Thrones”, a qual somente teve início em 2009. Em março de 2010, o canal anunciou a encomenda da série.

No entanto, após o anúncio, a produção precisou refilmar boa parte do episódio piloto para poder acomodar a substituição de duas atrizes. Jennifer Ehle (da minissérie inglesa “Orgulho e Preconceito”), contratada para interpretar Catelyn Stark, foi substituída pela irlandesa Michelle Fairley (a sra. Granger dos filmes de “Harry Potter”). O mesmo aconteceu com Tamzin Merchant, que interpretou Daenerys Targaryen no primeiro piloto, sendo substituída por Emilia Clarke. Embora seja comum a troca de atores quando um piloto é transformado em série, nenhuma explicação foi passada à imprensa.

A troca adiou o início da produção do segundo episódio tendo em vista a necessidade de se fazer testes para selecionar as novas atrizes, bem como a refilmagem de várias das cenas do piloto em que as personagens aparecem.

Inicialmente, as filmagens da temporada seriam feitas no Marrocos, mas a produção decidiu se estabelecer na Irlanda com locações na Ilha de Malta. Com o objetivo de desenvolver o idioma Dothraki, a HBO entrou em contato com a Language Creation Society. Vários de seus membros submeteram suas propostas ao canal, que escolheu o trabalho de David J. Peterson. O especialista em línguas desenvolveu um vocabulário com cerca de 1800 palavras tomando como referência os idiomas russo, turco, estoniano, suahili e diversos dialetos inuits falados no Canadá.

Em seu contrato com a HBO, Martin tem o compromisso de escrever um roteiro por temporada. Na primeira, o episódio oito foi escrito por ele. Com o título de “The Pointy End”, ele será exibido nos EUA no dia 5 de junho e, no Brasil, no dia 26 do mesmo mês.

Com apenas quatro episódios exibidos, a série vem conseguindo manter a média de 2.3 milhões de telespectadores em sua primeira exibição. Embora seja uma audiência baixa em relação ao custo, “Game of Thrones” é considerada mais uma série de sucesso da HBO. Além dos EUA e do Brasil, a produção já foi vendida a canais da Inglaterra, Irlanda, Canadá, Noruega, Suécia, Espanha, Austrália, países Árabes e Europa Central.
>> VEJA – por Fernanda Furquim


“MATADOURO 5″: O CÔMICO E O TRÁGICO EM KURT VONNEGUT

quinta-feira | 5 | maio | 2011

O cômico e o trágico em Vonnegut Por ocasião da morte de Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo, em sua coluna no “Estado de São Paulo”, dizia que nenhum outro escritor brasileiro dominou como Scliar “aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico frequentada por Kafka e Vonnegut”.

A propósito, Kurt Vonnegut – no seu último livro, “A Man without a Country” (2005) – observa que o humor é uma resposta quase fisiológica ao medo. Ao explicar como o humor funciona, pergunta por que o creme de leite – que vem em pequenas caixinhas de papelão (e não em latas, como no Brasil) – custa tão caro. Ora – diz ele – considere que responder perguntas é difícil. Elas põem à prova nossa inteligência e ficamos envergonhados quando damos a resposta errada. Encabulados pela pergunta sobre o preço do creme de leite nos calamos.

Então, quem perguntou oferece a resposta. “Porque as vacas detestam se agachar em cima daquelas caixinhas.” Aliviados, rimos. Não porque a frase seja engraçada. Mas porque sentimos alívio ao saber que não existe “a” resposta correta. Absolvidos, relaxamos a tensão e achamos graça.

Muitas das narrativas de Vonnegut têm a estrutura das piadas, com a tensão que cresce até que, no momento certo, a virada certeira e inesperada providencia o alívio. Mas não se deixe enganar. Vonnegut é um moralista. E é, também, profundo conhecedor da cultura norte-americana e filósofo das tragédias fabricadas pelo homem.

Autor do best-seller “Matadouro 5” – também aplaudido pela crítica literária – Kurt Vonnegut morreu em 2007, aclamado como grande figura do humor negro e satirista social inimitável. O humor negro reconhece o absurdo das “coisas da vida” e as transforma em matéria para riso. Mas a classificação de Vonnegut seja como humorista seja como escritor de literatura de ficção científica limita a compreensão de sua obra, que foi profundamente inovadora, tanto na forma como no conteúdo. Escritor original, de fato merece o lugar ao lado de Kafka que lhe confere Luís Fernando Veríssimo. Na voz de Doris Lessing, Vonnegut foi inigualável: escritor que “dá nome aos lugares que melhor conhecemos.”

“Matadouro 5” (L&PM Editores) tem como pano de fundo a destruição de Dresden em 1945. Em 14 de dezembro de 1944, as forças alemãs e aliadas se enfrentaram na batalha das Ardenas, quando 120.000 alemães e 75.000 americanos morreram. Kurt Vonnegut estava lá.

O choque entre alemães e aliados culminou dois meses mais tarde com a destruição de Dresden em 14 de fevereiro de 1945, em ataque liderado pelas forças britânicas. Embora, naquela época, as forças aliadas tivessem declarado que Dresden era centro de transportes e comunicação, hoje se sabe que sua destruição não serviu a nenhum propósito militar. A rede ferroviária de Dresden não foi afetada pelo ataque. Mas 135.000 civis indefesos morreram incinerados
por tempestade de fogo de mais de 500º.

Depois da Segunda Grande Guerra, varreu-se a catástrofe de Dresden para debaixo do tapete. As histórias militares evitavam mencionar o episódio que permaneceu classificado durante algum tempo.
As autoridades britânicas evitaram gabar-se do feito, porque entenderam que não encontrariam apoio nem entre os ingleses nem entre os aliados para o bombardeio da população indefesa de uma das cidades mais bonitas da Europa.

Durante algum tempo fingiu-se que a cidade tivesse alguma importância militar. Não era o caso. David Irving documentou os fatos em “A destruição de Dresden” (Nova Fronteira).

A tragédia resultou da indiferença grosseira de seus promotores? De vingança? A destruição ocorreu antes que a existência dos campos de concentração se tornasse conhecida e a única explicação para o descaso que se seguiu à carnificina é aquela oferecida por um militar no livro de Vonnegut: a história verdadeira deixaria muito perturbada qualquer pessoa dotada de consciência.

Mais civis morreram carbonizados em Dresden do que em Hiroshima. Mas foi através da leitura de “Matadouro 5” que a maioria dos norte-americanos tomou conhecimento da tragédia pela primeira vez. A experiência de Kurt Vonnegut durante a Segunda grande Guerra lhe deu material para criar Billy Pilgrim, o protagonista do romance. A guerra do Vietnã lhe ofereceu o momento para 3 contar a história de Dresden. Hoje, da Líbia ao Afeganistão, sobram motivos para relembrá-la.

“Matadouro 5” começa com uma espécie de prefácio onde o autor descreve a dificuldade de escrever o livro. Em seguida entra Billy Pilgrim, viajante do tempo. A maior parte das viagens de Billy gira em torno de suas experiências como prisioneiro de guerra.

Depois de um acidente de avião, Billy deseja contar a todos suas aventuras no planeta Tralfamadore, cujos habitantes o tinham sequestrado. Entre uma e outra aventura, Billy também recebe pacientes em seu consultório de optometria, que vai muito bem, diz ele. E, porque ele é um viajante do tempo, sabe de antemão o resultado do que faz e o que vai lhe acontecer.

Enquanto a filha o repreende, Billy viaja para as linhas inimigas com outros soldados. Viaja também para a ala de doentes mentais do hospital onde ficara depois da guerra. Viaja para o jardim zoológico de Tralfamadore. Para a própria morte. Para a noite de núpcias com Valencia. Para o campo de prisioneiros de guerra. Para o matadouro (onde os americanos se hospedam em Dresden). Para uma fábrica de xarope. Para os braços de Montana…

Valencia morre a caminho do hospital onde Billy está internado depois do acidente de avião. Billy vai a Nova York falar, em entrevista de rádio, sobre o que aprendeu com os homenzinhos verdes de Tralfamadore. E viaja ainda para a mina de cadáveres de Dresden, onde trabalha desenterrando carcaças. Ali, a polícia apanha o professor secundário, Edgar Derby, com uma chaleira que ele retirara das catacumbas. Edgar Derby é preso por pilhagem, julgado e fuzilado.

Mas afinal chega a primavera. A Segunda Guerra Mundial termina e Billy sai caminhando. “Os pássaros estavam conversando. Um deles disse a Billy Pilgrim:Piu-piu-piu?”

“Matadouro 5” é também um livro sobre ele mesmo, sobre o ato de escrever e o ato de ler, segundo Jerome Klinkowitz, crítico literário e amigo de Vonnegut. Os tralfamadorianos não são invasores. Eles visitam a terra porque sentem curiosidade sobre seus habitantes. Afinal, os terráqueos são únicos seres no universo inteiro que acreditam no livre arbítrio. E acreditar no conceito de livre 4 arbítrio faz mal? Pode fazer, se as pessoas começam a acreditar que são responsáveis por tudo o que acontece e esquecem a responsabilidade maior de inventar histórias e buscar significados.

Billy Pilgrim, como Vonnegut, aceita a responsabilidade de se perguntar sobre o sentido das coisas. Ambos são escritores. Não representantes de escritores que estão ou estiveram escrevendo histórias, mas escritores da história que estamos lendo, ela mesma. Nenhum dos dois tenta representar a realidade. Ambos a inventam: assim buscam o sentido da vida. Tralfamadore é apenas uma imagem.

Os Tralfamadorianos não nos trazem novas tecnologias futuristas, mas uma nova compreensão do tempo. Essa compreensão não nos chega em termos científicos ou filosóficos, mas através da literatura e se relaciona ao propósito e significado da humanidade.

Para Klinkowitz, a preocupação de Kurt Vonnegut com a teoria literária fica clara, porque Billy Pilgrim toma parte num programa de rádio onde se discute um tópico quente daquela época: a morte do romance. Nos idos de 1960, a morte do romance era um tema tão em voga quanto é hoje a discussão sobre a morte do livro.

Billy examina os romances em Tralfamadore e chega à conclusão que se parecem a telegramas recheados de estrelas a separar grupos de símbolos. Seu anfitrião o corrige. Não existem telegramas em Tralfamadore. Telegramas implicam sequência e é exatamente dela que foge o romance tralfamadoriano. Cada grupo de símbolos é uma mensagem breve e urgente, que descreve uma situação. Os símbolos se leem ao mesmo tempo. A simultaneidade substitui a sequência. “O
autor os escolheu com cuidado, para que vistos ao mesmo tempo produzam uma imagem da vida que é bonita e surpreendente e profunda.” Não há começo nem fim, apenas momentos maravilhosos, todos eles vistos ao mesmo tempo.
>> VALOR ECONÔMICO – por Eliana Cardoso


“MENINA MORTA-VIVA”, DE ELIZABETH SCOTT

sexta-feira | 29 | abril | 2011

‘Sei o que dizem os contos de fadas, mas estão mentindo.
Contos são exatamente isso, sabe. Mentiras. ’
Pág. 57

Era uma vez uma garotinha, Alice. Todas eram Alice. As Alice’s queridinhas do Ray. Era uma vez uma garotinha, ela não estava morta, nem estava viva. Sua voz não era ouvida, todos a olhavam, mas ninguém realmente a via. Ela não queria ser queridinha, ela queria ser livre. E apenas deixar de ser uma menina morta-viva.

‘Alice’ tinha quase 10 anos quando foi seqüestrada pelo Ray. Ela era uma garotinha forte, nunca chorava, até conhecê-lo. E ela a transformar numa quase mulher, num quase ninguém. Cinco anos sendo abusada, física e psicologicamente.

Comece a se desculpar agora, ele diz, e empurra minha cabeça em seu colo. Enfia os dedos com força em meu ombro.
Odeio o Ray. O pensamento surge como a dor e fica latejando, gritando. Odeio, odeio, odeio.
Tinha me esquecido de quanto doem os sentimentos.

Pág. 143

Ela era sua garotinha, não podia crescer. Quando começou a crescer e seu corpo mudar, foi obrigada a  uma rígida dieta, para não crescer, não ganhar peso. Passava fome, usava roupas e sapatos apertados. Era obrigada a tomar pílulas para não menstruar, nunca. Tinha que ir religiosamente à depiladora. Ela não poderia parecer uma mulher, tinha que ser eternamente a garotinha do Ray, senão…

Senão os moradores da Daisy Lane, n° 623, iriam conhecer a ira dele. Ela não poderia deixá-los morrer. E sabe o que é mais engraçado? ‘Sempre acham que a culpa é minha’, pensa Alice. ‘Como se fosse fácil fugir e denunciá-lo’. Ela sabia o que acontecera com a Alice anterior e seus pais. E ela não podia deixar o mesmo acontecer com sua família.

Ela precisava encontrar uma nova Alice, uma garotinha linda, forte, como ela  fora um dia. Ensiná-la a fazer como Ray gostava e assim, finalmente, ser livre.

O que mais a incomodava era: Ray não a matava e também não a deixava livre. Ela vivia num mundo de nada, vegetando, uma marionete nas mãos de um doente. Às vezes sonhava com a faca da cozinha, dilacerando-a, acabando com seu tormento. Era um sonho feliz.

Menina Morta-Viva, de Elizabeth Scott (Underworld, 169 páginas, R$ 39,90), me deixou perplexa, angustiada, deprimida. Ela tem o dom de descrever certas barbaridades de um jeito único. Você sente na pele o horror imposto à Alice. Ficamos chocadas, sufocadas. E o pior de tudo, choramos porque sabemos que como a Alice do livro, há milhões de outras Alice’s que sofrem o mesmo abuso. Alice’s reprimidas, mudas de medo. Denunciar é fácil para quem está de fora. A vítima do medo nunca irá denunciar.

Scott é de uma rara sensibilidade, a leitura é dura, mas escrita de maneira genial. O livro mexeu comigo e vai mexer com todos que lerem. É simplesmente impossível ficar apático diante de tanta maldade. Ray é o verdadeiro lobo em pele de cordeiro.

>> MENINA DA BAHIA


“MUITAS PELES”, DE LUIS BRÁS

sexta-feira | 29 | abril | 2011

“Muitas Peles” (Terracota, 128 páginas) é uma coletânea de artigos e crônicas de Luiz Bras publicado no jornal virtual de literatura O Rascunho, centradas no ato de escrever, sobretudo Ficção Científica e gêneros afins.

Os textos de Luiz Bras tem a principal função provocar o ato de pensar, que deveria ser comum em quem escreve ou simplesmente lê, por necessidade ou por prazer.

A matéria prima está ali, desde o primeiro texto, “O infinito: um delírio”, onde o conceito de infinito e de eternidade são buscados a partir de um acontecimento simples: um fila de banco. E termina com a citação do filme O Feitiço do Tempo e do conto de Borges, Tlön. Meu lado de fã lamenta que ele não incluiu o excelente Matadouro 5de Kurt Vonnegut Jr.

O texto seguinte, “Fim do papel, fim da poesia”, discute as mudanças provocadas pela introdução das tecnologias digitais que pretendem substituir o livro em papel. Será mesmo que o fim do papel significará o fim da poesia?

“Escolha um futuro”, é exatamente o exercício que todo autor de FC deve fazer. Porém, o que este pensar no futuro realmente retrata?

“Convite ao mainstream”, foi uma provocação que Luiz lançou aos autores do mainstream, tentando fazê-los enxergar primeiro a estagnação da ficção literária no Brasil e, depois, fazê-los ver que a salvação poderá vir dos rejeitados “bárbaros”, os autores de Ficção Científica. Este artigo teve uma repercussão grande no meio da FC, a partir da intervenção, de Roberto Causo, no seu espaço no Terra Magazine.

O artigo seguinte, “Um bárbaro que se preze não vem para o chá das cinco”, é assinado Roberto Causo, e retrata a posição pessoal deste autor em relação ao artigo anterior. Causo se diz um iconoclasta, pelas suas posições dentro e fora do fandom de FC.

E o que acontece quando um autor de mainstream, atendendo ao convite, resolve optar por escrever FC? Em “Cinco erros” alguns escritores de FC convidados apontam quais os erros mais graves que estes autores cometem.

E a crítica, como se comporta? Em “Duas elites”, Bras convida escritores, críticos e editores para comparar o comportamento crítica acadêmica e da crítica da literatura de gênero e destaca os princípios norteadores de cada uma delas.

Em “Três leis”, Luiz Bras usa as três leis da robótica de Azimov para indicar, por similaridade, os princípios básicos que norteiam sua escrita.

Em “Sabedoria Secreta”, Bras questiona sobre os contos de fadas de tradição oral que foram terrivelmente mutilados pelos seus compiladores, para adequá-los à sua época ou expurgar trechos mais picantes ou violentos para poderem ser entendidos por crianças.

Em “Olha mamãe, uma cor voando”, comenta a forma de escrever do poeta Leo da Cunha, que segundo ele, é capaz de “captar inocências”, como a da frase que dá título ao artigo.

Em “Encontro com o autor personagem”, o escritor Índigo é o analisado, do ponto de vista de ser ele muito parecido com suas personagens.

“O autor e seu editor”, nos trás o eterno conflito entre estas duas figuras importantes que dão vida a um livro. Termina com uma bem humorada coleção de modelos de cartas de recusa, de acordo com as diversas posturas e personalidades de editores. Hilariante, independentemente do lado em que você está da missiva (remetente ou destinatário).

“Elogio do acaso” aponta a importância do fator sorte em relação ao sucesso de um livro e do poder da insistência na sua busca. Afinal, é acaso ou perseverança (teimosia)?

Será que a nossa infância é algo que pode ser resgatado? Foi mesmo um paraíso ou isto é um mito? É o que é discutido em “Paraíso perdido: a infância”.

O artigo “Morte e imortalidade” discute nosso destino final e o nosso desejo de que ele nunca chegue.

Fechando o livro, a crítica mais uma vez é abordada no artigo ”Crítica é cara ou coroa”. Nele, Bras aponta que a crítica aceita ou rejeita um texto de acordo com um modelo de civilização que o autor da crítica aceita como válido.

Podemos afirmar que todos os textos cumprem o seu papel de nos fazer pensar e, ainda que discordemos dele, alguma vezes sequer teríamos pensado na questão se ele não tivesse levantado a bola.
>> PAI NERD – por Álvaro Domingues


“A GUERRA DOS TRONOS”: GEORGE R. R. MARTIN, O NOVO MESTRE DA FANTASIA

segunda-feira | 25 | abril | 2011

O autor se consagra como sucessor de J. R. R. Tolkien
– e chega às telas

Nick Briggs

George R.R. Martin no set de A guerra dos tronos. Com a adaptação do livro pela HBO, o autor se tornou uma celebridade.

FAMA TARDIA
Em 1994, aos 46 anos, o roteirista de televisão George R.R. Martin decidiu mudar de profissão. Cansado das restrições orçamentárias da série em que trabalhava (A bela e a fera), que podavam sua imaginação, Martin decidiu retomar seu passado pouco glorioso de escritor de fantasia e ficção científica. Seu objetivo era quase uma desforra contra os produtores de televisão: criar um ambicioso épico de fantasia, com batalhas grandiosas, que ninguém ousaria levar às telas.

Dezessete anos depois, a televisão se curvou a Martin. A série A guerra dos tronos, baseada no primeiro volume de sua saga de fantasia As crônicas de gelo e fogo, estreará neste domingo nos Estados Unidos com um orçamento estimado em US$ 60 milhões – e a expectativa de se tornar um dos maiores sucessos da temporada.

Nos 15 minutos da série revelados pelo canal americano HBO antes da estreia, é possível perceber que ela tem pouco em comum com outras sagas de fantasia. Para quem se acostumou com o mundo de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien, em que as diferenças entre o bem e o mal são claras e o final feliz é quase inevitável, A guerra dos tronosparece pertencer a outro gênero. O mundo de Westeros, criado por George R.R. Martin, é repleto de sombras e sangue. Personagens recém-apresentados ao espectador podem morrer poucas cenas depois, sem aviso e de forma violenta, e a disputa entre heróis e vilões dá lugar a uma trama cheia de intrigas e traições, na qual diferentes clãs da nobreza disputam o poder sobre o reino.

Parte das mudanças no gênero pode ser atribuída ao meio escolhido para a adaptação: a televisão, e não o cinema. A audiência da HBO está acostumada a tramas mais adultas: o drama A família Soprano e o faroeste Deadwood são algumas de suas séries mais bem-sucedidas nos Estados Unidos. Para ser aceita por esse público, uma série de fantasia precisaria manter o tom adulto. A classificação indicativa, que impede cenas muito fortes nas grandes produções de cinema sob o risco de diminuir seu público (e seus lucros), não é uma preocupação tão grande para os canais de televisão. Isso permite exibir sem pudores imagens de personagens mutilados ou decapitados. Outra vantagem das séries sobre os filmes está na duração. Enquanto os três livros de O senhor dos anéis foram transformados em pouco mais de nove horas de filme, a primeira temporada de A guerra dos tronos terá dez episódios de uma hora para contar a história de apenas um romance. A maior duração dá espaço a uma trama mais lenta e elaborada, em que as intenções dos personagens se revelam gradualmente.

Assista ao trailer de “A guerra dos tronos”.

   Divulgação

AMBIÇÃO
Acima, Sean Bean, de O senhor dos anéis, na pele do nobre Eddard Stark. No alto, cavaleiros em uma montanha de Westeros. A série recria o mundo descrito pelo autor em mais de 3.800 páginas

Mas o tom sombrio que parece caracterizar a série tem origem nos próprios livros. Em um universo literário dominado pela influência de J.R.R. Tolkien, Martin se recusou a ser um imitador. No mundo de Westeros, criado por ele, há pouca magia e muita humanidade. Seus personagens não são movidos pelo desejo de salvar o mundo, mas por motivos menos nobres: sexo, dinheiro e poder. Para escapar da influência de O senhor dos anéis, buscou inspiração no tom sóbrio adotado por escritores de romances históricos e acrescentou à fórmula técnicas que aprendeu como roteirista de televisão. Ao contrário de Tolkien, que se detém muitas vezes em descrições exageradamente detalhadas, Martin mantém a trama sempre em movimento e prende a atenção do leitor com “ganchos” ao final de cada capítulo. A fórmula deu certo: com os quatro romances de As crônicas de gelo e fogo, Martin tornou-se o escritor mais influente do gênero na atualidade – e o principal representante de uma geração de bem-sucedidos autores de fantasia (leia o quadro abaixo).

   Reprodução   Reprodução

Apesar do sucesso, a relação de Martin com os fãs nem sempre é amistosa. Sua demora de quase seis anos para lançar o quinto volume da série (A dance with dragons, previsto para julho) motivou a criação de sites de protesto. Alguns acusam o autor de ter perdido o interesse pela saga, que só será concluída no sétimo volume, e não dedicar tempo suficiente à escrita.

Para eles, A guerra dos tronos é uma má notícia: a série, na qual Martin ocupa o cargo de produtor executivo, seria mais um motivo para afastar o autor do “dever” de terminar logo os três livros restantes. Os fãs menos impacientes de Martin – e de boas séries de televisão – vão gostar de ver o mundo de Westeros recriado nas telas, de uma maneira que Martin imaginava impossível em 1994.
>> REVISTA ÉPOCA – por Danilo Venticinque


PHILIP K. DICK, O FILÓSOFO FICCIONAL QUE INVADIU OS CINEMAS

segunda-feira | 25 | abril | 2011

Ele foi o responsável por reeinventar o gênero da ficção cientifica.

Matrix“, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças“, “O Show de Truman“, “Clube da Luta”, “Donnie Darko“, “A Origem“. Filmes famosos que levaram milhões de curiosos às salas de cinema. Mas além da óbvia popularidade, o que esses filmes têm em comum? Todos, segundo seus autores, foram inspirados no trabalho de Philip K. Dick, autor de ficção científica que reinventou o gênero ainda na década de 50 e cujas obras abordavam questionamentos sobre a realidade e o ser humano. Você não sabe de quem eu estou falando? Então se ajeita nessa cadeira e espia só que eu vou te contar quem foi esse gênio da ficção científica.

Nascido em 1928, em Chicago, o autor teve uma vida conturbada digna de suas obras. A começar pela perda da irmã gêmea, seis semanas após o nascimento de ambos, fato que afetaria profundamente sua escrita, relacionamentos e todos os outros aspectos de sua vida, estando presente em vários de seus livros por meio do tema recorrente do “gêmeo fantasma”.  Ainda por causa disso, ele desenvolveu um relacionamento difícil com os pais que se agravou com a separação dos mesmos quando ele tinha cinco anos de idade. Mudou-se com a mãe para a Califórnia onde moraria para o resto da vida.

Ao concluir o ensino médio em 1949, Dick ingressou na Universidade da California, mas devido a problemas de ansiedade logo abandonou os estudos. Somente então, após conseguir um emprego em uma loja de discos, teve mais tempo para se dedicar à literatura.

Em 1951, o autor finalmente publicou seu primeiro conto de forma independente. A partir de 1955, buscou seu lugar no mercado literário americano ao publicar seu primeiro livro, “Solar Lottery”, o ponto inicial para as várias histórias de ficção cientifica que escreveu entre as décadas de 50 e 60. Porém, o que poucas pessoas sabem é que Dick alimentava o sonho de estar entre os mais populares escritores americanos, naquela época composto por grandes romancistas, o que nunca chegou a acontecer uma vez que não houve interesse na publicação de seus romances fora do gênero da ficção científica.

No início da década de 60, veio o primeiro reconhecimento de suas obras na forma do Prêmio Hugo, por “O Homem no Castelo Alto”. A conquista, no entanto, não prestigiou seu estilo junto aos grandes nomes do mercado e o autor continuaria obrigado a publicar seus livros por  pequenas editoras.

Entre fevereiro e março de 1974, Dick afirmou ter visões e experiências extra-sensoriais e acreditou firmemente viver entre dois mundos paralelos, o que serviu de inspiração para a criação da trilogia VALIS: “Valis” (1981), “The Divine Invasion” (1981) e “The Own in Daylight” (1982), livros da última fase de sua carreira.

As visões, no entanto, são atribuídas ao uso de anfetaminas, LSD e psicotrópicos, os quais o autor experimentou por quase toda a vida, além de seu conhecido histórico de doença mental. Em 1982, ele morreu vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), deixando cinco ex-esposas e três filhos, além de um legado que incluem 44 livros e 121 contos, entre eles “O Homem do Castelo Alto“, “Minority Report“, “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch“, a trilogia “Valis“, “Vozes da Rua” e “O Pagamento“. Suas cinzas foram levadas para o Colorado e depositadas no túmulo de sua irmã.

Foi somente após sua morte, naquele mesmo ano, que seus livros ganharam notoriedade junto ao grande público, tendo seguidas adaptações de suas tramas para o cinema, começando pelo clássico “Blade Runner – O Caçador de Andróides”(1982), seguido por “O Vingador do Futuro” (1990), “Confissões de Um Louco” (1992), “Screamers – Assassinos Cibernéticos” (1995), “O Impostor” (2001), “Minority Report – A Nova Lei” (2002), “O Pagamento” (2003), “O Homem Duplo” (2006) e “O Vidente” (2007), responsáveis por tal feito.

Em 2011, o autor volta às telas com “Os Agentes do Destino“, filme baseado em seu conto “Adjusment Team“. O longa conta a história de David Norris (Matt Damon, de “O Vencedor”), um carismático congressista que parece destinado ao estrelato político nacional. Ele conhece Elise Sellas (Emily Blunt, de “O Diabo Veste Prada”), uma linda bailarina, mas começa a perceber circunstâncias estranhas e esforços ocultos atrapalhando o romance.

Mas quem ficou com vontade de ver mais, a Walt Disney promete para 2012 a adaptação em animação de “King of The Elvis”; além dessa, duas outras adaptações estão a caminho: “Radio Free Albemuth“, baseado no livro homônimo, finalizada e esperando distribuição; e “Ubik“, roteiro criado em 1974 pelo própio Dick, que ainda está em negociação. Quanta novidade aguarda os fãs de Philip K. Dick, não? Agora é só curtir esse novo filme e esperar.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Leilane Soares


NO MUNDO DOS CONTOS DE FADA

sábado | 23 | abril | 2011

No mundo dos contos de fadas

Era uma vez uma mocinha indefesa, que vai parar num mundo encantado cheio de criaturas mágicas, onde enfrenta um ser malévolo e muitos outros obstáculos, e que, no final, consegue o seu final feliz. É essa a premissa básica do conto de fadas, manifestado na literatura a partir do século VII. Com o surgimento do cinema, em 1896, não demorou muito para os contos de fadas fazerem história também na sétima arte.

O primeiro conto visto em película foi Cinderela (1898), sobre a gata borralheira que sofre nas mãos da madrasta. Mas os contos de fadas ganharam mesmo popularidade foi pelas mãos da Disney. Cinderela, aliás, também foi adaptado numa animação clássica do estúdio, em 1950.

Branca de Neve

O primeiro conto de fadas da Disney foi Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937). Outros títulos populares são: Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951), A Bela Adormecida (Sleeping Beauty, 1959), A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989) e Aladin (Alladin, 1992).

A quadrilogia Shrek (2001, 2004, 2007, 2010) ficou responsável por subverter clássicos personagens dos contos de fadas, como o Lobo Mau, Os Três Porquinhos, Cinderela e Bela Adormecida, apresentando-os de forma satírica e irônica. Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked!, 2005) mostra uma versão bem humorada do conto de fadas que rendeu até continuação: Deu a Louca na Chapeuzinho 2 (Hoodwinked Too! Hood vs. Evil), com estreia marcada para 02 de setembro.

Versões live-action

A história de Chapeuzinho Vermelho também está no filme A Garota da Capa Vermelha, que estreia nesta quinta-feira (21/04). Nele, um vilarejo recebe o alerta de que o lobo está à espreita e o povoado precisa tomar cuidado. Valerie (Amanda Seyfried) está apaixonada por Peter (Shiloh Fernandez). No entanto, ela está prometida a Henry (Max Irons). Valerie e Peter decidem fugir, mas o perigo os acompanha com o lobo à solta.

O cinema soviético teve diversas adaptações de contos de fadas em live-action, como A Lâmpada Mágica de Aladdin (Volshebnaya Lampa Aladdina, 1966), A Princesa e a Ervilha (Printsessa na Goroshine, 1976) e A Pequena Sereia (Rusolochka, 1976).

Sombrios ganham cor Na tradição literata dos contos de fadas, havia uma carga sombria nas histórias. Com o passar do tempo, foram feitas adaptações para os contos se adequarem ao público infantil, alvo para as animações da Disney. Agora, o cinema volta às origens soturnas dos contos de fadas da literatura para versões em live-action.

A Garota da Capa Vermelha é apenas o começo de uma série de adaptações em live-action de contos de fadas. No ano passado, já havia estreado Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), dirigido por Tim Burton. Ainda este ano, estreia A Fera (Beastly), versão moderna de A Bela e a Fera, em 03 de junho, e o terror Curse of the Smoke O’ Lantern.

Mais por vir

Em 2012, a Branca de Neve aparecerá em dois filmes. O primeiro, The Brothers Grimm: Snow White terá Lily Collins como a heroína do título e Julia Roberts como Rainha Má. Já Snow White and the Huntsman contará com Kristen Stewart como Branca de Neve.

Hansel and Gretel: Witch Hunters traz de volta os irmãos João e Maria, que, na literatura, encontram uma casa feita de doces, que tem como dona uma bruxa. O filme mostra os irmãos crescidos e agora caçadores de bruxas. Jeremy Renner (Atração Perigosa – The Town, 2010) e Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo – Prince of Persia: The Sands of Time, 2010) são Hansel e Gretel, e atualmente estão na cidade de Braunschweig, naAlemanha, para as filmagens. João e Maria também vão aparecer no filme Hansel e Gretel in 3D.

O pacote de contos de fadas em carne e osso ainda terá Cinderela, cuja protagonista  ainda é um mistério, e A Bela Adormecida, esse com Emily Browning (Sucker Punch – Mundo Surreal) na pele da personagem-título.

Assim como em muitas das páginas da literatura, os contos de fadas têm tudo para conquistar um final feliz também no cinema.
>> YAHOO – BR Press – por Vanessa Wonhrath


“OS SETE SELOS”, DE LUIZA SALAZAR

segunda-feira | 18 | abril | 2011
Sinopse: Lara Carver é uma jovem de 21 anos que trabalha para a Agência, um local especializado em estudar, localizar e conter fenômenos paranormais. Um evento inesperado tira Lara do conforto da Agência em Londres e a leva para Paris, onde ela descobre que uma força muito além de qualquer coisa que a Agência já enfrentou assolou a cidade à procura de um artefato milenar. Lara precisa se unir a um velho amigo e ex-agente, Jason e a um demônio, Lucius, inimigo declarado de Lara desde sua infância, para descobrir quem está atrás do artefato e porque ele é tão importante. No entanto, a jornada de Lara vai lhe mostrar coisas que ela jamais esperava sobre perigo, amor, amizade e acima de tudo, sobre os estranhos e poderosos segredos do seu próprio passado.

Ontem terminei de ler o livro Os Sete Selos, o que podeia dizer deste livro?Surpreendente.

O livro conta a história de Lara Carver, ela trabalha para a “Agência” uma instituição especializada em fenômenos paranormais.

Lara é chamada para resolver um caso de ataque a um Bispo que trabalhava para a Agência, chegando na Igreja em que o Bispo foi morto Lara fica sabendo que quem matou o Bispo foi o Anjo Gabriel, o maior de todos os Anjos.

Gabriel e Lúcifer como todos sabem queriam acabar com a humanidade, porém Gabriel acabou desistindo do plano e “traindo” Lúcifer.

Lara é designada a resolver este caso porém terá que “aguentar” a presença de Lucius, o demônio que anos antes assassinou o pai de Lara e agora vai ajudar na investigação.

Com a condição de levar Jason, um antigo amigo e agente, Lara concorda em trabalhar com Lucius. A partir desde momento a história começa a ganhar vida.

Achei que a história fosse ser de uma menina que se apaixonaria pelo Anjo e pelo Demônio, que ficaria mais focado no romance ou em Lara. Ai que me enganei, o livro conta a história de uma Guerra travada desde os confins da Terra, pelo poder, a ganância de dois Anjos que são tão parecidos e se dizem tão diferentes um do outro.

Os Sete Selos conta com Gárgulas, espectros, armas de última geração, romance, traição e os principais valores da humanidade, Amor e Amizade.

O livro tem vários cenários, isso é que é o mais legal. Lara viaja por vários países, e várias dimensões. Indo do mundo dos mortos até o paraíso.

No meio da história acaba entrando para o grupo Roseanne, uma amiga de Jason que vai ajudar a desvendar os mistérios da busca pelo Objeto que Gabriel tanto deseja para exterminar a humanidade.

Os Sete Selos é um livro sobre anjos e demônios, a luta do bem e do mal em seus mais variados pontos de vista. Nem sempre os Anjos são Anjos como deveriam ser.

Para quem quer ler este livro, prepare-se pois você vai encontrar aventura do começo ao fim do livro.

O livro superou as minhas expectativas, pois a história acabou sendo totalmente diferente do que eu achava que fosse ser.

super recomendo e espero que o livro tenha continuação, pois Luiza autora do livro deixa abertura para novas histórias e aventuras, talvez com a Lara, mais de outros personagens.

Espero que tenham gostado da resenha, tentei falar um pouco do livro sem contar muito a história. Eu Adorei Os Sete Selos. Adorei os personagens e consegui montar na minha cabeça todas as passagens do livro. Sempre gostei de mitologia Grega e Religião, então pra mim Os Setes Selos foi um “prato cheio”.
>> MEU LIVRO ROSA PINK – por A Leitora


“DOCTOR WHO”: VEJA UM NOVO TRAILER

segunda-feira | 18 | abril | 2011

Sexta temporada começa a ser exibida na Páscoa

Enfim vai começar a sexta temporada de Doctor Who.

E a BBC não está economizando em comerciais, trailers e fotos. Assista abaixo a um novo trailer. O primeiro episódio, vai ao ar na Páscoa.

A série, produzida e exibida pela BBC, acompanha um personagem conhecido apenas como “The Doctor”, que viaja a bordo de sua máquina do tempo, a Tardis.

Doctor Who foi exibida entre 1963 e 1989, o que lhe garantiu um lugar no livro dos recordes como “a mais longa série de ficção científica do mundo”. Depois de um hiato (e alguns especiais), voltou a ser produzida em 2005 e retomou seu sucesso.
>> OMELETE – por Marcelo Forlani


“AS BRUXAS DE WESTFIELD”: GABI DIEHL, A MAIS JOVEM ESCRITORA DA LITERATURA FANTÁSTICA

domingo | 17 | abril | 2011

Gabi Diehl se inspira em grandes nomes da literatura, como Agatha Christie, J. K. Rowling, entre outros.

Com apenas 17 anos, Gabi Diehl é a mais nova escritora brasileira. Lançou sua primeira obra na Bienal do Livro, As Bruxas de Westfield, o primeiro livro da trilogia. A escritora oferece, através da literatura fantástica, uma história baseada em elementos da fantasia juvenil, fictícios e repletos de mágica e mistério.

O ano de 2010 foi repleto de contemplações para a jovem escritora, que além de receber oPrêmio Jovem Brasileiro, na categoria cultural, foi convidada a fazer parte da Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências, sendo a mais nova acadêmica do País. O segundo livro da trilogia, “As Bruxas de Westfield e o Reino Desconhecido”, será lançado próximo a primavera e o terceiro está previsto para 2012.

Sua história: Com apenas oito anos de idade, Gabi Diehl começou a adquirir gosto pela leitura durante o período em que viveu nos Estados Unidos. Nesta época, ganhou um concurso na escola Chapel Trail Elementary School, em Pembroke Pines, na Flórida, com o conto “A Princesa e o Dragão”. A partir daí, não parou de escrever e pesquisar sobre elementos sobrenaturais. Ao completar 13 anos de idade, iniciou sua primeira trilogia, ‘As Bruxas de Westfiel’, lançado no ano passado.

Sobre o livro: Mortes sem explicações começam a alterar o cotidiano da pacata cidade de Westfield. Um grupo de adolescentes decifra uma lógica por trás das mortes e defronta pela primeira vez em suas vidas com a magia. Quando estão definitivamente envolvidos com toda essa trama, descobrem que já é tarde demais para se arrepender e voltar atrás. Só resta uma alternativa: colocar suas vidas em risco diante do desconhecido. Nesta áurea de magia e aventura, talvez nem todos daquele grupo irão sobreviver.

GABI DIEHL
A mais nova escritora brasileira, Gabi Diehl, com apenas 16 anos, lançou sua primeira obra, ‘ As Bruxas de Westfield’, na Bienal do Livro, em 2009. O segundo livro da trilogia, ‘As Bruxas de Westfield e o Reino Desconhecido’ já esta finalizado, e em pouco tempo será lançado. Suas obras são baseadas na literatura fantástica, e envolvem elementos sobrenaturais e fictícios, trazendo aos leitores muito mistério e magia.
>> REVISTA ZAP! – por Elizabeth Misciasci


MOACYR SCLIAR (1937-2011)

terça-feira | 12 | abril | 2011

Moacyr Scliar escreveu mais de 70 livros em sua carreira

Moacyr Scliar escreveu mais de 70 livros em sua carreira

O premiado escritor mainstream Moacyr Scliar faleceu aos 73 anos no dia 27 de fevereiro último, após quarenta dias em terapia intensiva, depois de um acidente vascular cerebral sofrido durante procedimentos cirúrgicos menores.

Nascido em 23 de março de 1937, em uma família de judeus russos estabelecida em Porto Alegre, RS, Scliar formou-se em medicina e fez estudos de pós-graduação em Israel. Como escritor, publicou o seu primeiro livro, Histórias de Médico em Formação, em 1962. Ele viria a receber o Prêmio Jabuti, o principal prêmio literário brasileiro, três vezes, além do prêmio cubano Casa de las Americas, em 1989, e foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2003. Escreveu mais de 70 livros em sua carreira, vários dos quais dirigidos ao leitor jovem.

Scliar frequentemente escreveu formas de fantasia literária alegórica, em romances como O Centauro no Jardim (1980, publicado em inglês como The Centaur in the Garden), que trata uma família de emigrantes judeus, vindos da Rússia para o Brazil fugindo dos pogroms, na qual um de seus filhos nasce com o corpo de um centauro – numa alegoria dos sentimentos judeus de inadequação social, em um país novo. Esse livro foi inserido em uma lista dos 100 melhores livros relacionados à história dos judeus, montado pelo National Yiddish Book Center, dos Estados Unidos. Um sucesso mais recente com uma inclinação para o fantástico foi A Mulher que Escreveu a Bíblia (1999), sobre uma mulher feia, mas alfabetizada na antiguidade, que vivia em Jerusalém durante o reinado de Solomão.

Scliar esteve recentemente no centro de uma polêmica literária envolvendo o romance ganhador do Man Booker Prize, o principal prêmio literário da Inglaterra,Life of Pi (2001), de Yan Martel, cuja premissa é muito similar à da novela de Scliar, publicada em 1981, Max e os Felinos: no romance de Scliar, um garoto está à deriva no mar, num pequeno bote no Atlântico, com uma onça pintada como companheira de viagem, enquanto no livro de Martel, é um tigre no Oceano Pacífico. A inclinação de Scliar para o fantástico deve algo a Franz Kafka (1883-1924), influência reconhecida por ele em sua novela de 2000, Os Leopardos de Kafka, que presta homenagem ao escritor checo. Muitas histórias de Scliar tinham tendência similar.

Em 1993 e em 1997, Scliar foi professor visitante na Brown University e na University of Texas-Austin. Em 2010, ele deu a palestra de abertura da 4.ª Fantasticon, o maior evento de fãs de ficção científica e fantasia do Brasil, organizado em São Paulo por Silvio Alexandre. Seus livros foram publicados em vinte países, incluindo Rússia, República Checa, Eslovênia, Suécia, Noruega, França, Alemanha, Estados Unidos e Espanha. Deixou a esposa Judith, e o filho Roberto, um fotógrafo.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo


A QUEM PERTENCE UMA SÉRIE?

domingo | 10 | abril | 2011

Nós brasileiros estamos acostumados a pensar que um canal de TV é dono de seu programa porque ele é quem produz. Por isso, fica difícil compreender que em outros países o procedimento é outro. Os canais são vitrines que exibem conteúdo.

Os proprietários dos programas são os produtores, que oferecem projetos aos canais. Estes pagam pela produção do projeto e pelo direito exclusivo de exibição.  Dependendo do sucesso, o valor para continuar a exibir o programa em sua grade se eleva. Se o programa sofre para manter sua audiência, o valor cai.

Basicamente, o lucro dos canais está na venda de espaços publicitários, ou seja, os famosos intervalos comerciais dentro do horário de exibição do programa (ou dentro da narrativa). Para que o canal possa ter um lucro bom, é necessário que o programa tenha uma boa audiência, ao menos entre o público alvo dos anunciantes, que geralmente compreende a faixa etária entre 18 e 49 anos. Já o lucro dos produtores está no bônus que recebem dos canais pelo sucesso dos programas e na venda do produto para reprises e outras mídias.

Atualmente, os grandes canais americanos pertencem a corporações (ou são associados a elas). Estas são proprietárias de redes de TV, de produtoras e de distribuidoras (entre empresas de outras áreas). Por exemplo: a CBS Corporation produz através da CBS Studios, exibe pelo canal CBS e vende programas para canais regionais, internacionais e outras mídias através da CBS Television Distribution.

Mas isto não significa que todas as produções da CBS Studios precisam ser exibidas pelo canal CBS. A lei de mercado determina que as produtoras ofereçam seus produtos a todo e qualquer canal operante no país. Caberá ao canal desejar comprar aquele determinado produto ou não. A partir do momento que ele compra o produto, um contrato de exclusividade é estabelecido para que as temporadas da série sejam exibidas por ele. O contrato tem validade e, por isso, precisa ser renovado. Caso contrário, a produtora terá liberdade de oferecer o produto a outro canal. O mesmo ocorre quando uma série é cancelada pelo canal.

Os programas também podem ser produzidos por empresas independentes, geralmente formadas por um grupo de produtores. Em geral, essas empresas têm três linhas de trabalho: elas podem desenvolver projetos por conta própria e oferecê-los a canais em geral; podem oferecer projetos para canais que pagarão pelo desenvolvimento dos mesmos; ou podem assinar um contrato com um canal específico para desenvolver um número ‘x’ de projetos durante um período ‘y’. Geralmente, empresas de médio porte trabalham com as três linhas ao mesmo tempo.

Por questões financeiras, é normal que essas empresas se associem a outras produtoras para conseguir desenvolver um produto, bem como a distribuidoras, que oferecerão os produtos a nível internacional.

Já as empresas pequenas, muitas vezes formadas por um ou dois produtores associados, trabalham a terceira opção: assinam contratos para oferecer um número ‘x’ de projetos para um determinado canal durante um período ‘y’. Neste caso, é comum que a empresa exista apenas no papel, não tendo um espaço físico próprio. Assim sendo, ocupam uma área cedida pelo canal.

Esta postagem traz uma visão geral de como funciona a produção nos EUA. Como todas as regras, existem as exceções, que estabelecem comportamentos diferenciados, os quais devem ser considerados caso a caso.

Confiram também a postagem “O Processo de Produção de Novos Projetos“. Quem estiver interessado em outros textos como este, acompanhem a seção Televisão deste blog.
>> VEJA – por Fernanda Furquim


“GAME OF THRONES”: HBO DIVULGA VÍDEO DE BASTIDORES COM 25 MINUTOS

domingo | 10 | abril | 2011

Série começa a ser exibida em 17 de abril nos Estados Unidos

A HBO lançou na última semana em seu canal oficial no YouTube um vídeo de 25 minutos que explora praticamente tudo sobre a nova série épica Game of Trones.

Assista abaixo ao elenco e equipe falando sobre os personagens, a trama e tudo mais relacionado ao seriado:

O vídeo é mais uma prova do empenho do canal na divulgação de Game of Thrones. No domingo passado foi exibida nos EUA uma prévia de 14 minutos do primeiro episódio.

A série se passa em Westeros, uma terra reminiscente da Europa Medieval, onde as estações duram por anos ou até mesmo décadas. A história gira em torno de uma batalha entre os Sete Reinos, em que duas famílias dominantes estão lutando pelo controle do Trono de Ferro, cuja posse assegura a sobrevivência durante o inverno de 40 anos que está por vir.

Game of Thrones é encabeçada por Lena HeadeySean BeanMark Addy.

Nikolaj Coster-WaldauKit HarringtonJack GleesonPeter DinklageHarry Lloydcompletam o elenco principal. David Benioff D.B. Weiss produzem e Thomas McCarthy (O Agente da Estação) dirige o piloto. Cada temporada cobrirá o enredo de um livro da série.

Game of Thrones estreia nos EUA em 17 de abril.

E o quinto volume, A Dance with Dragons, já teve sua data de lançamento anunciada.

Assista a um teaser e a um making-of

Leia mais sobre Game of Thrones
>> OMELETE – por Aline Diniz


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