“IMORTAL – HISTÓRIAS DE AMOR ETERNO”: CRAVADO NO PEITO

quarta-feira | 24 | fevereiro | 2010

Coletânea reúne histórias inéditas de vampiro

Chega ao Brasil a coletânea Imortal – histórias de amor eterno (Planeta, 256 pp., R$ 29,90). Organizado por P.C. Cast, consagrada entre o público jovem por sua série House of Night, este livro reúne alguns dos principais autores do mundo das criaturas sobrenaturais, como Nancy Holder, de Wicked, e Kristin Cast, que em seu texto cria um novo tipo de vampiro (com raízes na mitologia grega). São oito textos fascinantes nos quais vampiros e outros seres apaixonantes e assustadores se relacionam com os humanos em histórias de amor.

 
Rachel Caine revisita sua série Morganville Vampires, na qual os vampiros estão no comando e o amor é um negócio arriscado, mesmo quando se trata de sua própria família. A autora de Tantalize, Cynthia Leitich Smith, apresenta um triângulo amoroso entre um vampiro, um fantasma e uma garota, no qual nenhum deles é o que parece ser.
 
Claudia Gray nos leva ao mundo de sua série Noite Eterna (Evernight), em que uma futura cortesã do século XVII é assediada por um homem perigosamente atencioso.  Já a autora de Vampire Academy, Richelle Mead, traz o conto de um jovem vampiro que foge de seus semelhantes até encontrar um rapaz que lhe oferece carona e um bom motivo para continuar fugindo.
 

A escritora da série Wicked, Nancy Holder, entra em uma Nova York pós-apocalíptica na qual dois grandes amigos são forçados a tomar uma decisão que pode levá-los à morte. Rachel Vincent explora um novo aspecto do universo de seu Soul Screamers com a história de uma fada capaz de inspirar o músico a quem ama a alcançar novos pontos de criatividade – ou sugar dele seu talento.

A mestre em fantasia Tanith Lee nos mostra o que acontece quando uma moça bonita e dotada de uma sabedoria sobrenatural encontra um jovem e atraente vampiro. E Kristin Cast, coautora da série House of Night, cria um novo tipo de vampiro: aquele com raízes na mitologia grega, com o poder de alterar o espaço e o tempo para salvar a menina a quem ama.
>> PUBLISHNEWS – por Redação


“BENTO”, DE ANDRÉ VIANCO

terça-feira | 23 | fevereiro | 2010

Neste livro, André Vianco se posiciona concretamente como o maior autor brasileiro de fantasia na atualidade. Saindo da linha de ‘Os Sete’, o paulista cria um novo mundo, pós-Noite Maldita. Começando uma segunda vertente tão interessante quanto a primeira de Os Sete/Sétimo, BENTO já tem mais duas seqüências: O Vampiro Rei 1 e O Vampiro Rei 2.Uma trilogia recheada de fantasia e imaginação começa nesse volume.

Imagine uma noite infestada de magia, quando metade do mundo adormece e a população que ainda está desperta se vê mergulhada em acontecimentos inexplicáveis, como o surgimento de vampiros, o desaparecimento das doenças e mais um amontoado de acontecimentos que acaba fazendo com que as pessoas fujam das grandes cidades e passem a formar fortificações afastadas dos centros abandonados.

Ainda não descobri o que mais dá vivacidade na história, passando-a do papel para o imaginário, nos dando a sensação de estarmos lá num canto presenciando tudo, se é o fato da riqueza nos detalhes ou o cenário se passar em várias cidades conhecidas do nosso país.

“… Teve uma jornada cansativa naquele fatídico dia. Ao final do trabalho, ou pegou o metrô lotado para casa, ficando espremido como sardinha, ou ficou mofando no banco do carro, preso num congestionamento recorde e ouvindo o tamborilar da chuva no capô. E quando chegou em casa o que fez? Tomou um banho quente. Ficou encurvando o pescoço para aliviar a tensão do dia, relaxar a musculatura do pescoço. Aí veio o sono. Tomou água. Escovou os dentes. Foi pra cama e dormiu. Dormiu como nunca havia dormido antes. “

Talvez seja isso, a riqueza dos detalhes, o cenário conhecido, a descrição das personagens, que faz a leitura ser tão interessante.

Nos primeiros capítulos encontramos a história dos soldados de Nova Luz, são os heróis da vez, sua missão: ligar as cidades, manter a comunicação e mais do que tudo fazer o grade plano dar certo. Quando tudo parece perdido surge a profecia dos 30 guerreiros bentos. Quando eles se unirem, quatro milagres se desencadearão para salvar a humanidade. Contamos também com o despertar do trigésimo Bento, que encontra-se perdido ao acordar no meio de um mundo bem diferente do qual lembrava antes de dormir….a trinta anos atrás, o homem que viria para salvar a sociedade dos dentes daqueles que tinham sido transformados.

O livro demonstra também que com essa volta do mundo para os campos, longe da urbanização, o mundo começa a melhorar, acabando com os efeitos do aquecimento global dentre outros problemas ambientais e sociais. Com uma narrativa forte e rápida, Vianco também conta sobre os outros heróis Bentos e descreve várias histórias secundárias tão interessantes e gratificantes quanto a principal.
>> UNIVERSO INSONIA – por Camila Amanda


“VIRKRAM”: VAMPIRO À INDIANA

terça-feira | 23 | fevereiro | 2010

Cínico, o texto de época traz a ironia e o conhecimento de um dos mais importantes – e controversos – exploradores ingleses do século XIX

[digitalizar0007.jpg] Figura carimbada nas viagens de exploração da África e do Oriente, aventureiro dos de verdade e um dos responsáveis pela descoberta européia do Lago Tanganyica, o excelentíssimo cavaleiro da Rainha, Sir Richard Francis Burton (1821-1890) deixou para a posteridade muitas histórias para contar. E contou para a posteridade, também, muitas outras, como em “Vikram e o Vampiro”, editado pelo Círculo do Livro com tradução de Sérgio Augusto Teixeira.

O texto reúne onze narrativas das vinte e cinco que compõe o orignal Baital-Pachisi, ou “Vinte e cinco contos de um baital“, selecionadas e traduzidas para o idioma de Shakespeare pelo explorador. Como leitura de entretenimento talvez se faça muito pesada: as narrativas, afinal de contas, são parte da bagagem cultural que dá origem aos contos as “Mil e Uma Noites”, imortais, sem dúvida, mas às vezes cansativos. No caso presente, os textos às vezes se tornam ainda mais pesados, pela quantidade de filosofia indiana em suas linhas, mas pelo menos o autor/tradutor oferece notas que ajudam à sua compreensão. O que salva a leitura é a força de Burton, que transpassa o tempo e as traduções, e o próprio baital, personagem absolutamente maligno e cínico que é o narrador da maioria dos contos.

O fio condutor do livro é o Rajá Vikram que, para livrar-se de uma maldição, concorda em levar até o mago que deseja matá-lo, um baital, isto é, um vampiro. Ao ser capturado, a entidade maligna propõe a Vikram um autêntico jogo de vaidade: ele contará histórias para seu captor, propondo indagações ao final de cada uma, e se o humano responder a alguma delas, o vampiro voltará imediatamente à árvore onde o rajá o encontrou. O jogo é de vaidades porque Vikram, enquanto rajá, acredita-se sábio e poderoso, e porque uma de suas atribuições, enquanto governante, é julgar as querelas do reino. Vikram não se furta aos desafios contínuos e por isso o baital, ao final de cada narrativa, retorna ao seu poleiro predileto, de onde é derrubado continuamente pelo governante. Somente à última história, que é claramente uma contribuição de Burton, não obtém resposta, levando, assim, ao final do livro.

Como eu dizia, enquanto leitura de entretenimento, “Vikram e o Vampiro” pode se fazer um tanto pesado. Mas deveria de ser uma das leituras moralmente obrigatórias para quem escreve Literatura Fantástica. Primeiro porque várias linhas narrativas oferecidas pelos textos podem resultar em roteiros para a produção de novas histórias, com temáticas dramáticas realmente interessantes. E depois porque há pelo menos duas passagens que impressionam pela tensão e pela riqueza de bichos feios tradicionais da Índia, além da construção literária dos mesmos: são os dois momentos em que o rajá entra no espaço aterrorizante do cemitério para entrevistar-se com o mago que, aliás, deseja nada mais, nada menos, do que sua cabeça como oferenda à Kali.

Realmente é de se perguntar porque certos textos, ou pelo menos trechos deles, são tão pouco conhecidos entre nós e quais são suas influências na literatura de sua época. Por exemplo, é interessante observar que “Drácula” de Bram Stoker foi editado sete anos depois da primeira edição de “Vikram e o Vampiro”. Terão alguma relação, os dois livros? Stoker terá lido Burton e encontrado no livro a inspiração para seu próprio vampiro, que se rivaliza em cinismo, crítica e orgulho, tanto ao baital quanto ao mago?

Pois o baital, é exatamente isso: inspiração pura. Cínico, irônico, crítico dos costumes, inteligente e culto, o baital é uma entidade, uma espécie de espírito maligno que se apossa dos corpos dos mortos para continuar sua medonha existência. Posicionado em sua “árvore predileta” pendurado de cabeça para baixo pelos pés como um morcego, ele oferece uma visão no mínimo perturbadora que merece ser lida e saboreada. Uma assombração digna das mais arrepiantes histórias de terror.
>> PORTEIRA DA FANTASIA – por Simone Saueressig


“FEIOS”: SÉRIE É MISTURA DE “1984” COM “DIÁRIO DA PRINCESA”

terça-feira | 23 | fevereiro | 2010

Capa americana da obra que traz futuro perfeito só nas aparênciasCapa americana da obra que traz futuro perfeito só nas aparências

O recém-nascido selo Galera, que é voltado para jovens adultos e nasceu do infantojuvenil Galera Record, irá trazer este ano ao Brasil a trilogia de ficção científica “Feios”, de Scott Westerfeld. A série figurou na lista de mais vendidos no “NY Times” quando o primeiro livro foi lançado em 2005, assim como quando os volumes seguintes chegaram às livrarias internacionais.

“Feios”, que será lançado em março, trata de um futuro não muito distante no qual todos os adolescentes esperam ansiosos o aniversário de 16 anos, pois então serão submetidos a uma inacreditável cirurgia plástica, que corrigirá todas as suas imperfeições físicas, transformando-os em perfeitos.

Em segundo volume, Tally descobre que a perfeição tem seu preçoQuando a vez da protagonista Tally se aproxima, no entanto, ela descobre que isso tem o seu preço e que a perfeição da sociedade onde ela vive é tão superficial quanto a beleza de seus cidadãos. Espere um casamento entre “1984”, de George Orwell, e “Diário da Princesa”, de Meg Cabot. Tudo isso misturado com diversas cenas de ação e até perseguições em skates voadores.

Em agosto, será lançado o segundo volume, “Perfeitos”. Agora, Tally finalmente é perfeita, seus traços são perfeitos, suas roupas são maravilhosas, seu namorado é um gato e ela é muito popular. É tudo que ela sempre quis. Mas por trás de tanta diversão – festas que nunca terminam, luxo e tecnologia, e muita liberdade – há uma incômoda sensação de que algo está errado. Algo importante. Então uma mensagem, vinda do passado de Tally como feia, chega. Ao lê-la, Tally se lembra o que há de errado na sua vida perfeita, e a diversão chega ao fim. Ela terá de escolher entre lutar para esquecer o que sabe e lutar por sua vida, pois as autoridades não pretendem deixar que ninguém ciente desse tipo de informação sobreviva.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Livraria da Folha


FILÓSOFO VAI DE ARISTÓTELES A DESCARTES PARA ANALISAR PERSONAGENS DE SÉRIES

terça-feira | 23 | fevereiro | 2010

Professor de filosofia do que seria, na França, o ensino médio, Thibaut de Saint Maurice percebeu, numa tarde cinzenta de inverno, que as explicações sobre o “raciocínio experimental” eram incapazes de alterar, minimamente que fosse, o olhar de seus alunos. Estavam todos alheios ao que dizia. Foi então que, tal e qual reviravolta num roteiro, ele lembrou-se do doutor House, o médico que dá nome a uma das séries mais vistas no mundo.

“Ao escrever no quadro-negro, para ninguém, lembrei do House tentando explicar aos colegas, no hospital, a pertinência de suas hipóteses”, diz. “Perguntei aos alunos se conheciam o House. Até os que olhavam pela janela se voltaram para mim. Começamos a falar sobre a descoberta dos diagnósticos pelo personagem e, então, toda aquela história de ‘diálogo entre razão e experimento’ ganhou sentido.”

Nascia assim “Philosophie en Séries” (“Filosofia em Séries”), publicado na França, sem tradução no Brasil. Se são muitos os subprodutos que as séries procriam, poucos são os que se mostram tão inventivos e, digamos, filosóficos.

“A riqueza das séries é inexplorada”, diz o autor, em entrevista à Folha. “Todas juntas, são um formidável espelho da vida contemporânea e constituem um grande reservatório de experiências e de situações com as quais muita gente se identifica.” Por isso, sentado em frente à TV, Maurice resolveu filosofar e, de posse de um livro de Kant, acabou por pensar em Jack Bauer, “antikantiano” por excelência.

O autor está convicto de que séries como “Nip/Tuck”, “A Sete Palmos” e “Dexter”, diversão à parte, giram em torno de questionamentos sobre os valores sociais e a maneira de se ver o mundo. A obsessão estética, a morte e o senso de justiça numa sociedade que se sente refém da violência são, na visão de Maurice, o estofo desses programas.

Jack Bauer, por sua vez, seria o típico herói pós-moderno. “Seu heroísmo não repousa sobre uma virtude essencial, uma fé religiosa ou sobre valores universais. Seu heroísmo é o da eficácia. Sua moral é a utilitarista. A violência que ele pratica é vista como um preço a ser pago em nome da eficácia.”

Já House encarnaria a figura moderna de um Sócrates obcecado pela busca pela verdade. “O sucesso da figura de House é extremamente revelador de uma sociedade que não se importa mais com a verdade”, diz, dialético.

  arte Folha de S.Paulo  

Conciliação cultural

O que empurrou Maurice para o projeto foi o desejo de reconciliar cultura de massa e cultura acadêmica. Ele, que tem 30 anos e cresceu assistindo a “Buffy”, “Arquivo-X” e “Oz”, está convicto de que, por meio da cultura de massa, também é possível valorizar o que os grandes pensadores um dia disseram. “Quando se fala em cultura geral, se pensa na cultura clássica: a cultura do passado é transmitida pela escola enquanto a cultura de massa é tratada como mero entretenimento. Mas isso, simplesmente, não corresponde à maneira como as pessoas vivenciam sua prática cultural. Ver TV não exclui a leitura de livros.”

Maurice defende, ao contrário, que pelo fato de estarem no dia a dia de espectadores do mundo todo, as séries podem, se esmiuçadas, mostrar o quanto a filosofia clássica tem a dizer sobre a contemporaneidade. E por que as séries e não o cinema? “Se eu tivesse sido professor nos anos 50, certamente o cinema é que teria chamado a minha atenção, ou mesmo o rock’n’roll. Mas, hoje, o vigor criativo está nas séries.”

Maurice confessa, na entrevista, que dentre os 11 programas que analisa, os prediletos são “24 Horas” e “A Sete Palmos”. O primeiro, porque tem uma ação vigorosa e toca, de maneira explícita, nas questões da filosofia moral. O segundo, pela capacidade de falar sobre o lugar que a morte ocupa na vida de cada um.

O filósofo irrita-se, porém, com “CSI”, que, a seu ver, coloca os procedimentos científicos a serviço do fantasma da segurança e da resolução de crimes. “Me parece um tratamento complicado, pouco cuidadoso, da ciência, um dos bens mais preciosos da humanidade.”

E, no seu caso, é possível falar de séries sem desrespeitar a complexidade de certas teorias? “Você faria a mesma pergunta se eu usasse a filosofia para falar sobre pintura?”, pergunta, num momento-House. Ou seria Sócrates?
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Ana Paula Sousa


HISTÓRIAS DE ASSOMBRAÇÃO EM QUADRINHOS

domingo | 21 | fevereiro | 2010

Causos de assombramento em quadrinhos

A editora Jujuba lançou o livro Causos de assombramento em quadrinhos, do ilustrador e escritor paulista Mauricio Pereira.

Reunindo contos de terror com cenário e sotaque brasileiros, o autor narra histórias como O Lobisomem, O Homem da Mala e Corpo-Seco, que em sua infância eram contadas por seu pai ou pelos amigos em frente a um fogão à lenha ou em pescarias.

Pereira tem em seu currículo a autoria de outros dois livros: Asa Branca e Contos de Assombração, ambos pela editora DCL – Difusão Cultural do Livro.

Causos de assombramento em quadrinhos tem 40 páginas e custa R$ 29,90.
>> UNIVERSO HQ – por Marcos Ramone


“I, ZOMBIE”: NOVA SÉRIE DE MIKE ALLRED

domingo | 21 | fevereiro | 2010

Capa de I, Zombie, de Mike AllredGwendolyn “Gwen” Dylan é uma zumbi coveira de vinte e poucos anos de idade que trabalha em um cemitério preocupado com o meio ambiente. Uma vez por mês ela tem que comer um cérebro humano para não perder a memória, mas, ao fazer isso, ela fica possuída pelos pensamentos e personalidade da pessoa que era dona do cérebro comido e esse estado dura até que o próximo cérebro seja consumido.

Como Gwen é uma zumbi legal, ela decide realizar o último desejo das pessoas cujos cérebros ela consome, seja resolver um crime ou consertar uma atitude errada.

Ao lado dela estão Eleanor, sua melhor amiga e uma fantasma dos anos 60, um exército de vampiros que joga paintball, um cachorromem (um lobisomem, mas cachorro ao invés de lobo) apaixonado e uma múmia sexy e maluca.

Essa mistura de terror com humor negro com histórias policiais e lendas urbanas é o que constitui I, Zombie, nova série do selo adulto Vertigo, da DC Comics, criada por Chris Roberson e Mike Allred. Ao lado você pode conferir duas capas da primeira edição, uma do próprio Allred e outra de Darwin Cooke. A editora não revelou quando será o lançamento da publicação.

 

O selo Vertigo é responsável pelos títulos adultos da DC Comics (casa de Batman e Superman), que são desligados do universo regular de super-heróis da editora. Foi criado em 1993, tendo publicado títulos antológicos como Monstro do Pântano, Sandman, Os Invisíveis e Preacher. Atualmente, fazem parte da linha gibis como Fábulas e Escalpo.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


‘BASTARDOS INGLÓRIOS”: A FICÇÃO CIENTÍFICA DE QUENTIN TARANTINO

sábado | 20 | fevereiro | 2010

O novo filme de Tarantino é, segundo descrição dele mesmo, um bang-bang italiano ambientado na Europa ocupada pelos nazistas.  Modéstia de QT, que mistura meia dúzia de gêneros (como sempre) num coquetel que tem dois dedos disso, uma pitada daquilo, uma colher não-sei-do-quê.  Em grande parte, principalmente, na segunda metade, o filme pertence àquele sub-gênero que linka guerra e espionagem: agentes infiltrados nas linhas inimigas tentando fazer-se passar pelos próprios inimigos.  Quem não já viu 50 filmes assim, principalmente envolvendo nazistas?  A cena do porão da taverna é um suspense exemplar, não o suspense intelectual e distanciado de Hitchcock, mas o suspense “tudo-agora-mesmo-pode-estar-por-um-segundo” de Sergio Leone ou de Peckinpah, onde as mortes são reais.  Por outro lado, a cena da recepção antes da exibição do filme nazista, no final, com os Bastardos disfarçados de italianos, é uma mistura de Mel Brooks com Brian de Palma – tudo vai ficando ligeiramente over, distanciado, delirante, metalinguístico.

Tarantino é violento porque a gente sente que uma cena brutal, para ele, é como um gol.  Se não tiver de vez em quando o filme acaba 0x0.  Mas violência gráfica, explícita mesmo, acima do padrão, tem apenas na cena da ponte (os escalpos, a execução do nazista com bastão de beisebol), na cena de Brad Pitt interrogando a alemã ferida na maca, e na derradeira cena de todas (a marca de Caim).  O resto são mortes a tiros, rajadas de metralhadoras, etc., o feijão-com-arroz de qualquer filme de guerra dos últimos 40 anos.  Brad Pitt, que começa o filme alardeando um sadismo de arrepiar, durante o filme inteiro não dá um único tiro, um único murro.  Afora sua habilidade com a faca, a única coisa que seu personagem mutila é o idioma de Walt Whitman.

No coquetel de gêneros que é o filme, não posso deixar de lembrar a todos que se trata, acima de tudo (embora isto só fique claro no final), de um filme de ficção científica, certamente o primeiro de Tarantino.  Como sabem os aficionados, um dos sub-gêneros mais importantes da FC é a “História Alternativa”, em que a linha do Tempo que conhecemos é rompida e a História vira a esquina numa direção diferente.  Grandes clássicos da FC são baseados em premissas desse tipo: e se o Sul tivesse ganho a Guerra da Secessão?  Ver “Bring the Jubilee”, de Ward Moore.  E se a Peste Negra, no século 14, tivesse exterminado 99% da humanidade? Ver “The Years of Rice and Salt”, de Kim Stanley Robinson.  E se Hitler, derrotado na política, tivesse migrado para os EUA e virado ilustrador de pulp fiction?  Ver “O Sonho de Ferro” de Norman Spinrad.  E se os holandeses não tivessem sido expulsos de Pernambuco, e o Quilombo de Palmares tivesse se tornado uma nação independente?  Ver “O Vampiro de Nova Holanda”, de Gerson Lodi-Ribeiro.  O final apocalíptico e orgástico do filme de Tarantino cria um novo futuro, e o arremessa para essa galeria de clássicos.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares


“DOCTOR WHO”: A ESTRÉIA DE MATT SMITH

sábado | 20 | fevereiro | 2010

A tão aguardada estréia da quinta temporada da série inglesa “Doctor Who” (versão atual) ainda não tem uma data oficial. O canal BBC informa que será na primavera, a qual ocorre entre março e maio na Inglaterra. Alguns jornais informam que a estréia deverá ocorrer em abril; já o site IMDB divulga a data de 13 de março, com a exibição de  “The Eleventh Doctor”. Este será o título do episódio que trará a primeira aventura estrelada por Matt Smith e a nova companheira de viagem do doutor, Kaern Gillan, que interpretará Amy Pond. 

A mudança também ocorre por detrás das câmeras, com Russell T. Davies sendo substituído por Steven Moffat. Davies irá se dedicar à nova fase de “Torchwood”, que tem previsão de ganhar uma versão americana. Julie Gardner também será substituída por Piers Wenger na produção executiva.

Foram mais de 750 episódios produzidos para a série, que estreou em 1963, sofrendo uma parada nos anos 90, e retornando com nova roupagem em 2005 sob a batuta de Russell T. Davies. No universo da série, Matt Smith representa o 11º ator a interpretar o famoso personagem; pela contagem da nova fase, ele é o terceiro, tendo sido introduzido no final do especial de natal “The End of Time”, quando David Tennant interpretou o personagem pela última vez na série. 

Com 27 anos, Smith é o ator mais jovem a interpretar o personagem, que agora ganha uma nova expressão: “Gerônimo!” (referência ao chefe indígena americano, bom, supostamente). Quando Tennant interpretou o personagem, ele costumava dizer “Allons-y”. Trata-se de uma expressão francesa que significa “vamos lá”. Em função disso, seu sonho era conhecer alguém chamado Alonso, para poder dizer “Allons-y Alonso”.
>> TV SÉRIES – por feranda Furquim


“CORAÇÃO DE PEDRA”: GÁRGULAS, ESTIGMAS E CUSPIDOS

sábado | 20 | fevereiro | 2010

Uma Londres ao avesso, em um mundo paralelo onde todas as estátuas, cuspidos e estigmas estão vivos e em guerra, uma fuga alucinante e uma difícil missão que deverá ser cumprida custe o que custar é o que você encontrará no primeiro livro da trilogia Coração de Pedra (Geração Editorial), do inglês Charlie Fletcher.

George Chapman é um menino de 12 anos que passa por uma difícil fase na escola, infeliz e solitário não tem muitos amigos, tem uma mãe pouco presente e ninguém para conversar. A vida de George muda radicalmente quando em uma excursão ao Museu de História Natural de Londres, em um acesso de raiva ele ataca e quebra a cabeça de um dragão de pedra.

Após este acidente ele provoca a ira dos estigmas (estátuas de gárgulas e bestas mitológicas) em um mundo paralelo que só ele pode ver, perseguido por um pterodáctilo pelos corredores do museu, George recebe a ajuda inesperada de um cuspido (estátua de seres humanos) iniciando uma guerra entre as estátuas.

George com a ajuda do cuspido O artilheiro do Memorial de Guerra, começa uma corrida contra o tempo, tentando descobrir o que precisa fazer para consertar o que foi quebrado. Durante a busca ele conhece Edie, uma garota que consegue ver tudo o que acontece neste universo paralelo. Edie é forte, destemida e tem uma estranha capacidade que irá ajudar George em sua busca. Agora ele precisa correr contra o tempo, reparar o que foi danificado e enfrentar seres malignos que tentam impedir o seu sucesso.

O livro é muito bem ambientado, no final o autor explica que as estátuas citadas realmente podem ser visitadas nos mesmos lugares em Londres o que achei muito interessante. Os personagens são cativantes e bem interessantes, com alguns mistérios que só iremos descobrir durante a leitura. Vemos também claramente a evolução destes personagens e a mudança de atitude dos protagonistas.

Gostei muito do enredo, mas esperava mais do livro, não sei se pela capa ou se pela sinopse, pelos comentários atribuídos a trilogia como sendo “a sucessora de Harry Potter” (não passa nem perto disso) mas o livro me decepcionou um pouco. No começo faltou ação, faltou a aventura eletrizante que foi prometida e ficou um pouco cansativo, mas o livro melhora do meio para o final e se o segundo da trilogia mantiver o ritmo a série melhorará muito; até porque o primeiro livro sempre tem mesmo uma característica introdutória, então dou um desconto para o autor.

Sem dúvida tem tudo para ser mais um ótima série de literatura fantástica para o público juvenil, agora é aguardar para ler a continuação mas evite comparações, em minha opinião J.K. Rowling não se supera assim com tanta facilidade, quem chegou mais perto disso foi Rick Riordan em O ladrão de raios.

“Seu remédio jaz no Coração de Pedra, e a Pedra do Coração vai ser seu alívio. Para pôr um fim ao que começou, você deve primeiro encontrar o Coração de Pedra e depois fazer o sacrificio e as reparações para consertar o que foi quebrado ao colocar na Pedra do Coração de Londres aquilo que é necessário para o seu reparo”.

Pesquisando descobri também que a série foi lançada por duas editoras, não sei se é a mesma tradução nem o porque do ocorrido mas segue abaixo os títulos pelas duas editoras.

Trilogia Stoneheart pela Geração Editorial
  • Coração de Pedra
  • Iron Hand – Mão de Ferro (Os demais ainda não lançados no Brasil)
  • Silver Tongue – Língua de Prata.
Trilogia Stone Heart pela Editora Presença
  • O enigma da esfinge (2007)
  • O espelho negro (2009)
  • Silver Tongue (Ainda não lançado no Brasil).

>> VIAGEM LITERARIA – por Nanda


“A CASA DAS BRUXAS”, de H.P. LOVECRAFT

quinta-feira | 11 | fevereiro | 2010

Outro autor famoso que ainda não tinha aparecido por aqui. Falar sobre a vida de H.P. Lovecraft é repetir tudo que já foi dito, milhares e milhares de vezes, portanto, se tiver curiosidade de saber mais sobre o excêntrico escritor, clique aqui. Tudo que vou dizer é que o sujeito criou uma mitologia própria e muito pessoal, investindo no que chamava de “Horror Cósmico”, um terror que fazia o ser humano sentir-se insignificante frente à grandeza dos “Antigos”, criaturas malévolas que observam nossa realidade, esperando pelo momento de voltar. É claro que ele também utilizou lendas antigas (e já presentes em contos anteriores) em suas tramas, mas isso não tira de forma alguma sua originalidade, que ainda fundiu o terror com elementos de ficção científica. Ele criou seus mitos com tal capricho, que existe gente até hoje acreditando que um elemento de suas histórias, o Necronomicon (o livro maldito escrito pelo fictício e onipresente Abdul Alhazred) é real.

Mas enfim, hora de falar do livro (real) que é tema do presente post: A Casa das Bruxas, publicada pela Francisco Alves em sua maravilhosa coleção “Mestres do Horror e da Fantasia”. A obra trás quatro contos, que serão comentados a seguir:

Nas Montanhas da Loucura – Esta é uma das histórias mais famosas do autor, fazendo parte dos chamados “Mitos de Cthulhu“. O ponto de partida mostra o massacre dos membros de uma expedição à Antártida por alguma(s) criatura(s) misteriosa(s), e a posterior viagem realizada por dois homens para descobrir o que aconteceu. Através da típica narrativa em primeira pessoa, um dos personagens vai narrando (com um didatismo quase obsessivo) tudo que encontram no acampamento: os rastros da coisa gigantesca que matou todas aquelas pessoas, os fósseis bizarros que os cientistas haviam descoberto, anteriores ao tempo dos dinossauros, etc. O cenário lúgubre é rodeado de montanhas colossais, que trazem uma sensação de inquietude constante. Logo, os dois aventureiros descobrem que há uma cidade perdida lá dentro das cordilheiras; uma metrópole habitada por criaturas que, certamente, não eram humanas.
É um conto longo (quase um pequeno romance), repleto da profusão de adjetivos comum em Lovecraft. Muita gente adora, mas confesso que me irrito um pouco ao ler algo como “o horror indizível” pela terceira ou quarta vez no mesmo conto. O autor possuía um estilo pesado, que não é para todos os paladares literários. Inclusive, muita gente critica o estilo do gajo, afirmando que ele era um escritor limitado. Eu não poderia discordar mais, mas cada um é cada um. Porém, mesmo que não gosta sabe respeitar a importância do autor.
O final da história faz uma citação direta à história “A Narrativa de Arthur Gordon Pym”, de Edgar Allan Poe. Não é segredo para ninguém que Lovecraft era fãzaço de Poe, e o conto em questão serve, de certa forma, para explicar tudo que Edgar Allan Poe preferiu deixar no mistério. Enfim, o desfecho da história de Lovecraft só é compreensível para quem leu “A Narrativa de Arthur Gordon Pym”, o que me leva a crer que Nas Montanhas da Loucura é uma das mais famosas fanfics da literatura.
Apesar da narrativa densa, consegui ler sem esforço. Acho a trama fascinante e, sem sombra de dúvida, é uma das minhas favoritos do autor.

A Casa Abandonada – Conto mais “leve”, aborda uma estranha propriedade onde, segundo dizem, ocorreram inúmeras mortes misteriosas. O narrador inicia com lembranças da infância, quando ele e os amigos invadiam a casa para suas brincadeiras e aventuras imaginárias (é interessante notar detalhes tão prosaicos em um conto de Lovecraft, já que o autor dava muito mais ênfase nos aspectos incomuns); apesar da atitude temerária dos garotos, estes não deixavam de sentir um medo inexplicável dentro dos corredores escuros, impregnados de um fedor indescritível e fungos estranhos, de aparência esquisita. Já adulto, o personagem faz descobertas alarmantes a respeito do lugar.
Não é dos contos mais memoráveis, mas nem por isso é desprezível. De certa forma, diria que é um bom começo para os não iniciados em Lovecraft.

Os Sonhos na Casa das Bruxas – Esse é bastante interessante por trazer altas doses de ficção científica. Walter Gilman faz estudos científicos no sótão de uma velha casa, na cidade de Arkhan (de onde você acha que surgiu o nome do hospício das histórias do Batman, hein?). Fascinado pelos intrincados ângulos da arquitetura do recinto, o sujeito faz cálculos e mais cálculos envolvendo física quântica e equações não euclidianas, tentando achar uma explicação para algo que o incomoda naquilo. De noite, é vítima de intensos pesadelos, que o mergulham ainda mais em sua obsessão sinistra, que pode trazer resultados… Argh, quem eu quero enganar? Que EFETIVAMENTE TRAZEM resultados apavorantes! História das boas, também é das mais conhecidas. Curiosidade: o conto foi adaptado para a minissérie Mestres do Terror, e pode ser encontrado nas locadoras. Mas francamente, recomendo a leitura do conto, pois a adaptação não ficou lá das melhores.

O Depoimento de Randolph Carter – Randolph Carter é um personagem recorrente no universo criado por Lovecraft, além de ser seu alterego óbvio. Na trama em questão, Randolph acompanha (via cabo telefônico, uma novidade científica na época) a jornada de Harley Warrem para dentro de uma estranha necrópole subterrânea. A trama se resume a Randolph escutando a narração do amigo, que vai descrevendo os horrores que encontra pelo caminho. Embora o desfecho não seja dos mais originais hoje em dia, certamente o foi na época; mas não importa, pois ainda assim, é um clímax capaz de causar calafrios. É outra das minhas histórias favoritas do autor.

É importante ressaltar que os contos presentes nesse livro podem ser encontrados em outras coletâneas. Mesmo assim, a obra se destaca por trazer três das melhores histórias do lendário escritor. Recomendadíssimo!
>> BIBLIOTECA MALASSOMBRADA – por Mario Carneiro Jr.


“OS DIAS DA PESTE”: FÁBIO FERNANDES, OS CIBORGUES E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

quinta-feira | 11 | fevereiro | 2010

DivulgaçãoConversando com o jornalista, escritor, tradutor e professor Fábio Fernandes, sobre a Campus Party, afirmei:  “acho que o seu protagonista estava, de certa forma, lá”. Isso porque Os dias da peste (Tarja editorial), último livro de Fernandes, narra a vida de Artur, uma espécie de médico de computadores e afins, que tem uma relação simbiótica com as máquinas.

Leia um trecho do livro aqui.

A obra se passa num Brasil futurista – em vários períodos, no curto, médio e longo prazo –, em que as pessoas desenvolvem uma dependência dos seus computadores até que um dia… eles despertam. Tomam consciência, começam a decidir, se reúnem e propõem criar um país virtual. As relações de interdependência começam a pender para um dos lados (imagine qual) até que um dia… Bem, é melhor parar de contar o livro.

O bom de Os dias da peste é que ele ecoa na cabeça depois de fecharmos o livro. Ficamos com dúvidas, perguntas, questões, e vários “e se…”. Por isso, aproveitei para perguntar ao próprio autor, que já traduziu obras como Neuromancer e Laranja mecânica, o que ele achava das propostas levantadas em seu texto.

“Pode parecer paradoxal, mas eu não acredito na possibilidade das máquinas criarem consciência. Até gostaria que isso acontecesse, mas realmente não acredito”, contou por email:  “Acho que máquinas são fundamentalmente diferentes de humanos, e ainda que elas venham a se tornar tão desenvolvidas que em algum ponto nos ultrapassem (…) elas poderiam no máximo imitar humanos, mas não efetivamente pensar.”

Fernandes, entretanto, cita casos – no livro e fora dele – do que ele chama de “pseudo-entidades aplicadas”, em que as máquinas imitam o comportamento humano, a ponto de gente não saber se está, por exemplo, conversando com uma pessoa ou com um computador. Ele lembra dos “chattersbots que há anos pipocam na Web”:

“Eu cito no livro o exemplo (real, como quase todos os exemplos que uso dentro do livro) da Eliza, do Joseph Weizenbaum. Em 2001, uma equipe composta por profissionais de diversas áreas do conhecimento, liderada pelo Alceu Baptistão foi contratada pela Close-Up para criar uma espécie de ‘pseudo-entidade’ dessas, a Sete Zoom. Era uma personagem meio cartoon criada para o público adolescente. O barato era que você podia bater papo com ela via site ou ICQ, e o repositório de conteúdo dela era muito grande.” E adiciona: “Mas um chatterbot não é uma inteligência artificial nem de longe: é apenas um conjunto de sub-rotinas envolvendo um leque razoavelmente grande de respostas para uma quantidade determinada de perguntas.”

Mas se Fernandes – que dá aula nos cursos de Jogos digitais e tecnologia e Mídias digitais na PUC-SP – não acredita em uma inteligência artificial, tipo o Hal 9000, de 2001Odisseia no espaço, (livro de Arthur C. Clarke, filme de Stanley Kubrick) ele acha que haverá uma maior interdependência entre homens e máquinas, com os computadores se misturando ao nosso corpo, formando um tipo de organismo único.

“Acho que enveredamos por um caminho sem volta, do qual só sairemos como ciborgues do outro lado. E isso, reitero, é ótimo”. Para completar o raciocínio: “Acredito completamente nos conceitos de ciborgue, inteligência aumentada, trans-humanidade e pós-humanidade. Acho que já estamos dando o próximo passo, e ele tem a ver justamente com o silício que estamos implantando em nós – seja literal ou metaforicamente.”
>> O LIVREIRO – por Ronaldo Pelli


“PERCY JACKSON E OS OLIMPIANOS – O LADRÃO DE RAIOS”

quinta-feira | 11 | fevereiro | 2010

Se uma adaptação sofre com os ataques dos críticos por possíveis furos do roteiro, logo uma legião de fãs do original se ergue em defesa do filme, alegando que “a história é assim” e, portanto, não merece tais comentários negativos. Entretanto, se é a própria história que já carrega os defeitos, então é ela que não tem tanto valor artístico assim. De um jeito ou de outro, o problema continua a existir. Bem se esquecem que, justamente por ser uma adaptação para outra linguagem dentro do campo da arte, a possibilidade de alterações é infindável, o que extermina qualquer lógica em manter num filme os mesmos erros de um livro. Percy Jackson e os Olimpianos – O Ladrão de Raios já não é passível deste tipo de reação dos fãs. Fazendo profundas alterações na trama do best-seller de Rick Riordan, o filme afunda nas suas próprias águas.

Há tempos que os estúdios tentam lançar o seu rival à altura comercial de Harry Potter e, mais uma vez, não funcionou. Percy Jackson leva às telas um livro que patina na previsibilidade a todo tempo, no qual os mistérios e suspenses só existem efetivamente para o personagem central, jamais para o leitor. No filme, a coisa desanda em proporções bem maiores. É uma verdade absoluta que todos (sem exageros) os livros recordes de vendas já transpostos para o cinema perderam algumas páginas no caminho até as telonas. Cortes absurdos já foram feitos não só na série Potter, mas em todas as adaptações recentes que pertencem à temática fantasiosa, que hoje consome o dinheiro e tempo dos jovens como uma torneira aberta. Crepúsculo, Nárnia e até o aclamado O Senhor dos Anéis; todos tiveram a sua vez na sala de mutilações. Mas Percy Jackson vai além: não só altera e corta como também retira certa identidade da narrativa e compromete a qualidade do filme. Realmente, o roteiro não tem tantas pontas soltas, mas a sensação é que isso é resultado de uma raspagem tão agressiva que só restou ao script o estritamente necessário, sem margens para dúvidas, algo que dificilmente pode ser confundido com coesão.

O maior tombo de O Ladrão de Raios é utilizar a reforma em sua estrutura na direção errada. Cheio de boas intenções em tornar a produção agradável, mais próximo da absorção infantil e, obviamente, comercial (falhou aqui mais uma tentativa de franquia de sucesso), o diretor e roteirista Chris Columbus aniquila qualquer chance do longa atingir um bom nível. Ao contrário de muitas das alterações em produções similares, as presentes em Percy Jackson jamais estiveram ali para tornar o filme mais equilibrado ou minimamente desenvolto, e sim para deixar o trabalho de condensação mais fácil. Reprovador de comparações, Columbus que possa perdoar, mas para um diretor que fora erroneamente aclamado por uma quantidade considerável de fãs por ter sido o “responsável” pela fidelidade de Harry Potter e a Pedra Filosofal e Câmara Secreta (os dois filmes mais fracos da série – em aspectos gerais), deixou muito a desejar – o que só prova o abismo que pode existir entre o trabalho de um diretor e roteirista. No caso, Columbus se provou banal nas duas especialidades.

Rude na escrita do roteiro, o diretor repetiu a dose no comando do projeto, esclarecendo que nesta posição se faz humildemente inferior ao bom produtor que é. Demos os méritos: Chris é um dos poucos produtores que tem um ótimo senso para seleção de elenco e equipe técnica, e manteve o bom gosto em O Ladrão de Raios pelo menos no elenco estelar. Mas não fez o mesmo com os responsáveis pela pós-produção. As cenas de ação são medianas por se valerem de uma computação gráfica que pouco impressiona para criar seres e criaturas fantásticas, apesar da boa sequência com a Hydra, uma besta de três cabeças; isso sem mencionar a raiz dos cabelos da Medusa, previamente denunciada pelos últimos pôsteres. Já as cenas de ação, como a do clímax, estragam qualquer possibilidade de empolgação. A luta final entre Percy e seu inimigo (mudanças extremas aplicadas aqui) é o ponto alto da falta de coordenação e do péssimo manuseio de elementos virtuais em cena para enquadrar a fonte de conflito, causando uma confusão visual que inspira a desistência de acompanhar o embate. Mas nada substitui o desconforto em uma coreografia descartável da música “Poker Face”.

Felizmente, o pouco que Columbus tem para bem lhe servir surtiu algum efeito. Pierce Brosnan (Chiron) tem uma excelente postura e expressão para um ator que sabe que futuramente terá as pernas substituídas pelo corpo de um cavalo e Logan Lerman é, sem dúvida, uma escolha anos-luz superior em talento do que opções para protagonistas de filmes anteriores do diretor. Uma pena que a total entrega dos astros aos seus papéis se resuma aos dois.

Percy Jackson e os Olimpianos – O Ladrão de Raios pode não ter, desde o seu livro, todos os elementos necessários para alcançar um sucesso colossal (ainda há quem nem saiba do que se trata, ou jamais tenha ouvido falar da série de livros – e não são poucos), mas tinha material para criar uma boa aventura que despertasse o interesse do público em geral. Soube dar um tiro no pé que sustentava os fãs e no outro que poderia dar o pontapé para agradar a um público ainda não-familiarizado. Agora que Columbus, o mais fiel dos diretores, descascou uma obra deste porte, qual é o fã que se atreverá a defender o filme alegando que “a história é [fraca] assim”?
>> PIPOCA COMBO – por Arthur Melo


“OS PASSARINHOS”: COM HUMOR DELICADO, A TIRINHA DE ESTEVÃO RIBEIRO VIRA FEBRE

segunda-feira | 8 | fevereiro | 2010

anuncio_mad

Uma ave que sonha se tornar escritor é uma das novas sensações da internet. Com seus desenhos meigos, as tiras de Os passarinhos, do quadrinista capixaba Estevão Ribeiro, multiplicaram acessos desde seu lançamento, em agosto do ano passado. Em pouco tempo, já virou livro, apareceu na revista Mad e começou a ser agenciada pela Intercontinental Press, que representa no Brasil sucessos mundias da HQ como Garfield, Peanuts, O Homem-Aranha e Dilbert, entre outros. Refletindo sobre o mundo literário e “homenageando” autores, ganhou repercussão entre estrelas, como Paulo Coelho e Neil Gaiman, que, com bom humor, aprovaram a sua paródia nas tiras. Escritor, ilustrador e roteirista, Ribeiro aproveita a onda dos quadrinhos na rede, que já consagraram artistas como André Dahmer e Arnaldo Branco. Mas, ao contrário de Malvados e Mundinho Animal, seus passarinhos fogem da crueza e violência.

– Acho que o sucesso vem muito do fato de ser um humor acessível para todos, o tipo de tirinha que não tem maldade nenhuma, que seu pai não vai chamar de mau gosto – avalia Ribeiro, que integrou a equipe de Artes do Jornal do Brasil e autor do livro de ilustrações Enquanto ele estava morto. – Não sou o tipo de cara que faz piada suja e usa palavrão. Acho maravilhoso o que faz o Dahmer, por exemplo, mas não conseguiria escrever aquelas coisas, ficaria com vergonha. Tanto que muita gente que olha Passarinhos e diz que é “um Malvados bonitinho”.

A ideia dos Passarinhos veio por acaso, em meio a uma reunião. Enquanto se discutia a produção de um roteiro para uma empresa, Ribeiro fez uns esboços no caderno. Acabou surgindo alguns pássaros, desenhados com traços simples, vagamente parecido com o mascote do Twitter.

Piadas autobiográficas
A partir daí, foram surgindo os personagens principais, animais que vivem em um parque: Hector, aspirante a escritor, que deseja ser mais do que um simples pássaro, e Afonso, seu amigo, que serve como uma espécie de contraponto: é um materialista cruel e sarcástico, conformado com sua condição. Hector, com suas desilusões literárias, tem um quê de autobiográfico.

– A maçã nunca cai longe da macieira – compara Ribeiro, que já tem trabalhos como roteirista da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. – Tem um pouco de mim no personagem e das coisas que vivo no dia a dia. Quando quero uma solução mais cômica, apelo pelo lado “passarinhesco”, quando quero ser mais reflexivo, vou por um lado mais humano. Com o retorno que você tem na internet, percebe que você passa para os leitores coisas pelas quais eles também passam. Quem quer viver de escrever sabe os problemas que isso causa.

O universo literário sempre está rondando as tiras de Ribeiro. Na série, ele criou um versão passarinhesca de Neil Gaiman, cuja fama serve de contraste à obscuridade do aspirante Hector. O personagem, que representaria o inacessível, agradou ao próprio Gaiman. Ao se deparar com a versão em inglês das tirinhas (disponíveis no endereço http://hectorandalfonse.wordpress.com), o autor inglês gostou tanto da brincadeira que a postou em seu site pessoal.

Estveão também inventou um personagem chamado Paulo Coelho – um coelho que é uma alusão óbvia ao escritor brasileiro mais vendido e criticado do planeta. O ódio do passarinho Hector pelo sucesso do romancista rendeu até uma série chamada “Coisas que Hector odeia em Paulo Coelho”.

Sempre imprevisível, o Mago não apenas aprovou a brincadeira como ainda postou um comentário no site dos Passarinhos (“Vamos ver se visitam sua página. Muito boa, por sinal”) e colocou links das tirinhas em seu blog para ilustrar um assunto recorrente: “Por que algumas pessoas odeiam Paulo Coelho?”

– O Paulo percebeu que era uma brincadeira e levou na esportiva – conta Ribeiro. – A questão toda é que ele faz sucesso e o Hector, que é um desconhecido, odeia isso. O Paulo é um exemplo de autor que deu certo independentemente do que escreve. Não adianta ser bom e não vender nada. Recebi quase 1.500 acessos no mesmo instante em que ele fez menção à tira em seu blog.
>> JORNAL DO BRASIL – por Bolívar Torres

Assista ao book trailer de “Os Passarinhos – Hector & Afonso”, do autor Estevão Ribeiro. Um lançamento da Balão Editorial:


“A SONG OF ICE AND FIRE”, DE GEORGE R.R. MARTIN SERÁ LANÇADO NO BRASIL PELA EDITORA LEYA

sábado | 6 | fevereiro | 2010

Vencedora do Locus Award, e indicada ao Nebula, ao Hugo, ao Ignotus, ao British Fantasy Award e ao World Fantasy Award, reverenciada por nomes como Neil Gaiman e Bernard Cornwell, e transformada em cenário de tabuleiro, card game, RPG de mesa, videogame e série da HBO, A Song of Ice and Fire é uma série devastadora, que mais parece um trem bala japonês sem possibilidade de freio.

George R.R. Martin é um escritor grandioso e um roteirista que trabalhou por mais de dez anos em Hollywood. A Song of Ice and Fire é uma série de fantasia para adultos iniciada em 1991, e cujo primeiro volume acabou por ser publicado apenas em 1996.

É uma série de fantasia tão espetacular e popular na Europa e EUA, que muitos (muitos mesmo) a consideram a melhor série de fantasia de todos os tempos, mais até do que “O Senhor dos Anéis”.

Inspirada na “Guerra das Rosas”, a série conta a história de um continente chamado Westeros, dominado pelos Sete Reinos. O local é uma espécie de mega Inglaterra medieval do tamanho da América do Sul. Esse continente está separado do outro por um mar estreito (que por sinal remete ao Canal Da Mancha) e possui uma barreira (The Wall), que separa o mundo civilizado do mundo selvagem.

O clima é um personagem à parte, o verão e o inverno podem durar anos (até mais de dez anos!), e as pessoas têm de se preparar e adaptar suas vidas a isso.

O cenário não se trata exatamente da “fantasia clássica” com os tradicionais elementos high fantasy. Não existe um escolhido para salvar o mundo; não existem elfos em guerra com anões.

De fato, os livros trabalham mais com intriga política e a magia da série remete à uma magia mais ritualística,  pois em parte está mais ligada à religião em comunhão com a vida na floresta. Em Westeros, o povo antigo, por exemplo, adorava deuses árvores e eram chamadas “Crianças das Floresta”, uma raça que vivia em harmonia com a natureza bem ao estilo celta de ser. Logo, cada castelo tem uma” floresta divina” onde crescem “weirwood”, lindas e bizarras árvores brancas que parecem ter expressões nascidas de protuberâncias e seiva vermelha.

Só que um dia os “Andals” vieram do oeste e trouxeram com ele os Sete, sete deuses que viraram um só para substituir o culto anterior (em referência direta ao deus cristão único que chegara para substituir os deuses celtas).

“A Game of Throne”, o primeiro volume, é sobre a disputa de uma grande nação após a morte do rei Robert, e de toda intriga que envolve uma disputa desse porte, com aliados, inimigos, herdeiros e filhos bastardos.

Se antes havia Sete Reinos, hoje um único governa a todos na Dinastia dos Targaryen e se senta no Trono de Ferro. Essa monarquia foi formada a base de muito sangue e dizimou quase todos os outros reis, dando origem a uma nova monarquia unificada, porém frágil e instável.

E é essa fragilidade que dará origem ao “Jogo de Tronos” do título (se você quiser saber mais detalhes sobre a trama, há um link em português na Wikipédia aqui).

(Sean Bean, o Boromir de SdA, mudou de lado e estrela a adaptação)

O diferencial dessa série está em seus personagens densos e na forma como Martin alterna os pontos de vista. Apenas no primeiro livro, nós acompanhamos oito pontos de vistas diferentes, mais a visão de Will no prólogo. Os personagens acertam e cometem erros de maneira crível, e você tem de aprender a amá-los, odiá-los ou perdoá-los por isso.

Há diversas casas, e cada uma delas tem seu próprio motivo e propósito pela busca do poder, algumas vezes tendo de suportar aliados e inimigo na espera pelos embates.

Os livros são tão épicos nas batalhas em campos de guerra quanto o são em salões de castelos no desenvolvimento de intrigas políticas.

São vários personagens e todos eles têm uma profundidade psicológica bem construída. A trama política envolvendo o Jogo de Trono provavelmente será a mais complexa e bem-arquitetada que você já viu em um livro, e prometo que você terá noites de insônia virando páginas e mais páginas, e de vez em quando se emocionando fundo com determinadas passagens.

E é uma fantasia hardcore! Hardcore mesmo. Quando digo que George Martin é um “Tolkien para adultos”, eu falo sério. O livro tem sangue, sexo e violência desenfreada e faz muitas batalhas do Conan parecerem uma desavença de um churrasco entre amigos.

O artista Mark Evans fez alguns exelentes desenhos em uma galeria sobre a série, com trechos do livro até. Veja aqui.

Aqui abaixo, segue um vídeo gravado por um cinegrafista epilético na ComicCon, onde Martin lê um trecho de “A Dance With Dragons”, o quinto livro da série, prometido para esse ano.

Para a série sair aqui no Brasil foi uma batalha.

Na verdade, eu nunca entendi o que uma editora brasileira estava esperando para trazer essa série ao mercado.

Lembrou-me quando Peter Jackson disse que sempre ficou esperando fazerem um filme sobre “O Senhor dos Anéis”. Como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo dele se especializar como cineasta e ele mesmo decidir tocar a coisa.

Com as devidas proporções, eu também fiquei esperando publicarem essa série por aqui há tempos. Aí como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo de eu virar romancista por uma holding espanhola, virar peça-chave de uma holding portuguesa e ainda passar um ano e meio batalhando pela série por aqui.

O sucesso externo, os prêmios e a minha empolgação foram importantes, e o fato da HBO começar a produzir a série ajudou ainda mais nos argumentos ( aliás, segue abaixo um vídeo mostrando o elenco escalado).

Passado essa fase, veio uma segunda ainda mais difícil: a negociação. A agente de George Martin não é lá a pessoa mais fácil do mundo de se lidar (no fundo, agentes nunca são), e a Leya, na figura da Mariana Rolier, conduziu de maneira brilhante o processo. Acredite, há de se ter talento para isso também.

O fato é que agora a editora possuí os direitos dos quatro titulos já lançados da série e eu vou acompanhar o processo de preparação, tradução e coisas do tipo. Aí conforme sair capa e coisas do tipo, e for autorizado, eu vou compartilhando.

O livro irá chegar no segundo semestre desse ano. E para coroar de vez, minha vontade seria a de conseguir convencer a trazer o próprio George Martin para uma Bienal ou evento do tipo. Mas aí já começa a depender da aceitação do nosso mercado com a série.

Da minha parte, só vai me restar torcer para todo o esforço ter valido à pena, que vocês amem a história e a série possa continuar a ser publicada.
>> SEDENTARIO – por Raphael Draccon


“O SÍMBOLO PERDIDO”: ADAPTAÇÃO AO CINEMA DO LIVRO DE DAN BROWN CONTRATA ROTEIRISTA

sexta-feira | 5 | fevereiro | 2010

Steven Knight escreverá a nova aventura de Robert Langdon

A Columbia Pictures começa a se mexer para adaptar ao cinema o novo livro de Dan Brown, O Símbolo Perdido. O roteirista Steven Knight (Coisas Belas e Sujas, Senhores do Crime) foi contratado para escrever o roteiro. 

A história segue Robert Langdon, o protagonista de O Código Da Vinci e Anjos e Demônios, agora em meio aos monumentos de Washington. Tudo começa com uma conferência que Langdon aceita fazer para ajudar um amigo maçom. Mas, quando chega à capital, ele descobre que o amigo foi sequestrado e o envolveu em enigmas ocultos em obras e construções. 

Espera-se que Tom Hanks assine contrato em breve para reprisar o papel de Langdon. Leia aqui a crítica do Omelete do livro.

>> OMELETE – por Marcelo Hessel


ARGENTINA FANTÁSTICA: O PERDIDO REINO DE TRAPALANDA

domingo | 31 | janeiro | 2010

A região da Patagônia, no sul da Argentina, foi vista no passado como que acolhendo um lugar maravilhoso: o Reino da Trapalanda. Era uma espécie de El Dorado tão procurado pelos conquistadores espanhóis. Uma terra fantasticamente rica, onde todas as construções das cidades, ruas e casas, eram feitas de ouro maciço e puríssima prata. Segundo Ezequiel Martinez Estrada, um dos maiores ensaístas da língua espanhola, este mito especioso de existir uma pátria cheia de tesouros ocultos, a espera de quem os encontrasse, nunca teria sido esquecido pelos seus conterrâneos argentinos.

“ O ilusório superou o verdadeiro.
A verdade, a terra ilimitada e vazia, a solidão, sobre isso ninguém adverte.”

E.M.Estrada – Radiografia de la Pampa, 1933

As Cidades dos Césares
Conforme o conquistador Garcia Furtado de Mendonça e seus homens alcançavam as regiões mais meridionais do continente sul-americano, cresciam, intensos, os rumores da existência de um grande e riquíssimo império logo mais abaixo. Instalados no Chile, por volta de 1570, os murmúrios entre os espanhóis foram tão mais fortes que o adelantado, o governador, não teve outro remédio senão mandar um dos seus ir investigar aquela boataria. A soldadesca, aquela altura, falava abertamente no misterioso Reino de Trapalanda, lugar fabuloso, mágico, “onde as cidades tinhas as ruas pavimentadas com lingotes de ouro e as portas das casa eram de prata”. Cidades dos Césares encravadas entre os Andes e a planície.

Região de monstros
O relato dessa aventura, escrito pelo capitão Arias Pardo Maldonado, tornou-se , segundo Luis Sepulveda, o primeiro registro da literatura fantástica em língua castelhana que se conhece. Maldonado descreveu os habitantes de Trapalanda como figuras monstruosas, gigantes de pés enormes, que não precisavam de vestimenta nem de cobertores pois envolviam-se em suas próprias orelhas para dormir. Pior ainda era o cheiro que exalavam. Tal a pestilência que nenhum deles se aproximava do outro, formando uma estranha raça que não se acoplava nem tinha descendência. Nunca se soube a razão desse registro maluco deixado pelo capitão Maldonado. Alguns o imaginam com a intenção de espantar daquelas possíveis maravilhas, a cobiça dos bandos de aventureiros e desertores. Não passava de uma contrapropaganda.

Radiografia do pampa
Para Ezequiel Martínez Estrada, o soberbo ensaísta da Radiografia do Pampa( Buenos Aires, 1933), tais relatos tenebrosos, novelas do pútrido, não alteraram em nada as alucinações de opulência e esplendor que sempre excitaram a imaginação dos imigrantes que vieram para o Novo Mundo. Entre eles o fracassado pai de Ezequiel, um homem de Navarra, Espanha, que se desencantou na Argentina. Cada um que embarcava da Ibéria para as terras austrais vinha atrás da quimérica Trapalanda, sempre esperançosos em poder encontrar as barras douradas acumuladas em algum lugar inaudito, que ninguém vira antes , as quais bastaria por na algibeira e galopar de volta a um porto.

TRAPALANDA NÃO EXISTIA

O gaúcho argentino (Carlos Ferreyra)A decepção porém, chegava de chofre. Por vezes, já no desembarque, em Buenos Aires mesmo. Ao entrarem Pampa adentro, piorava. Espaço vazio, sem vivalma, deparavam-se, além da solidão absoluta, com “ um cansaço cósmico que caia dos céus com todo o seu peso”. Não havia nada no horizonte. Nunca se via onde acabava a terra e começava o céu. O pampa era o pampa. Os olhos, esbugalhados perante aquele mundo sem-fim, logo se desiludiam. Os filhos deles herdavam o malogro. Eram donos do nada, pois nunca ninguém encontrara a propalada Trapalanda. Concentraram-se então em Buenos Aires, que assim virou um enorme depósito de fracassos e frustrações dos que vieram antes e também dos recém chegados. Tornou-se, a capital portenha, um “polipero monstruoso”, como Martinez Estrada preferiu dizer.

A solidão e a imitação
A república argentina, para ele, nada mais era do que “ uma grande cidade de 3 milhões de quilômetros quadrados, com alguns terrenos baldios no seu centro e com dez quarteirões cercados por deserto”. Buenos Aires, então – sublimando as desditas e tentando superar a imensa solidão em que seus habitantes se encontram no perdido mundo americano – , imitou Paris, repetindo-lhe o traçado urbano, as avenidas largas, o obelisco, e o gosto pelos cafés. Importou os costumes da Europa: a ópera, a psicanálise, e até o tango, cujos primeiros acordes ouviram-se no bairro dos gringos: la Boca. Até um poeta cego, Jorge Luís Borges, fez-lhes as vezes de um Homero, enquanto Victoria Ocampo com sua Revista Sur apresentava-lhes a intelectualidade européia em primeira mão. Martinez Estrada apelidou-a de “ a cabeça de Golias”.

A civilização, a felicidade, enfim, veio-lhes de fora. Essa estrutura externa, a “ amplitude, as aparências de vida heróica e rápida…de cidade cosmopolita e rica, de grande destino” não lhe extirpou , entretanto, a alma de vilarejo bárbaro, onde a brutalidade da região se acoitara e que, por vezes, irrompia, fazendo os seus moradores regredirem à cenas de espantoso canibalismo político, como tantas vezes se viu: de Juan Domingo Perón a Jorge Rafael Videla.

A fantasia persiste
Não lhes abandonou também, mesmo quatro século depois, a delirante fantasia de estarem bem perto do Reino da Trapalanda, vizinhos da terra do ouro e do mel, escondida em algum lugar da Patagônia, o que levava os argentinos ao comportamento perdulário, a gastar tudo o que tinham e o que não tinham, porque um dia, tinham certeza disso, todos tropeçariam no baú da sorte, e o tampão do almejado tesouro, escancarado, infalivelmente se abriria para todos.

Síntese da radiografia do pampa
Numa entrevista, dada bem antes da sua morte, ocorrida em 1964, Ezequiel Martinez Estrada resolveu ,ele mesmo, fazer uma síntese das reflexões contidas no seu Radiografia de la Pampa. Começou por ressaltar o papel ilusório que o Reino de Trapalanda exerceu na imaginação dos conquistadores – e naqueles que imigraram depois para a Argentina – , denunciando a abismal desilusão que sofreram ao entrarem em contanto com a realidade. Utopia, diga-se, alimentada e difundida por Domingo Sarmiento, o grande intelectual e estadista argentino do século XIX, teimosos engenheiro construtor de pontes sobre a realidade, que insistia em pôr fraque e cartola nos gaúchos.

Ao invés de acharem tesouros ao rés do chão, os recém vindos deram com uma terra agreste, a qual era preciso lavrar e semear, regando-a com suor e sangue. O choque com esta situação inesperada, conduziu-os para poderem superar a frustração a que concebessem uma espécie de pseudotrapanlanda, fazendo com que o argentino cismasse em querer o que não tem, querendo-o como algum dia quisera ter.

SÓ NUM MUNDO SOLITÁRIO

A solidão do pampa ( tela ‘os peões’ de Carina L. Winschel)O povoador do pampa encontrou-se só num mundo solitário. A mãe dos filhos dele é de outro sangue ( uma índia do pampa). O enorme oceano que o separa da Europa fez com que o continente se assemelhasse a uma ilha, na qual ele se viu desamparado. Porém, ele não se sentia um Robinson, modesto e morigerado, vivendo numa choupana, com um Sexta-feira nativo ao seu lado. Ao contrário, viu-se como um grande senhor em momentânea pobreza. Como Prospero, o personagem de A Tempestade de Shakespeare, passou a supor fazer maravilhas na ilha conquistada. Ao contrário do que os ingleses fizeram na América do Norte, que ergueram uma pátria onde viver e morrer, o recém chegado ao pampa vive chorando a pátria perdida, a Jerusalém da qual ele foi obrigado a desterrar-se. Vive num exílio desconfortável, psicologicamente insatisfeito na terra que lhe deu abrigo.

A erosão do homem e o papel de B.Aires
Neste cenário entram em ação as forças telúricas, as energias primitivas , elementares, que trabalhando com a água, a terra e o vento, dão para destruir suas construções precárias feitas de adobe e couro que eles levantaram como abrigo no meio daquele nada. A terra corrige os erros dos homens, erodindo tudo aquilo que constróem. É então que surge Buenos Aires como a chave do entendimento da obra. A grande cidade, que Lugones disse ser banhada por um rio cor de leão, nada mais é do que a Espanha , “ nossa inimiga em casa” , disse dela Martinez Estrada. Ela absorve, devora, dilapida e corrompe. É um foco de infeção. Ela explora o interior, a nação , o povo, a quem esfola sem piedade. O resto do país é a sua colônia que ela mantém submetida e embrutecida para evitar que, como no passado, indomáveis caudilhos como Facundo Quiroga ou Chacho Peñalosa , a ameaçassem com suas cavalgadas de guerra e seus rastros de desordem.

O natural e o artificial
Há, portanto, na formação argentina, uma duplicidade insuperável entre a capital ( sede das instituições e costumes artificiais importados da Europa, cidade cosmopolita permanente representante de interesses coloniais, requentados e reatualizados, desde a independência, pela plutocracia portenha) , e o interior (nativista e autentico, sempre exposto às extorsões de Buenos Aires).

O resultado disso, desta latente tensão entre o falso e o natural, entre a grande metrópole e os territórios vizinhos (a quem ela vê como a morada dos brutos, dos selvagens a serem amansados), é o medo: o trauma inibitório da vida nacional. Portanto, a vida política esta impregnada por esse temor crônico que tudo invade e que se manifesta em reações irracionais. O que os argentinos entendem como sendo suas estruturas, não passam de edifícios sem pilotis, prédios flutuando sobre uma superfície de ilusões. Um labirinto de enganos, obrigando a todos, angustiados, a tentarem buscar estacas firmes que os mantenham presos ao continente para sempre.

O CONVÍVIO DOS EXTREMO

A tese dele, retrabalhando a dualidade “Civilização ou Barbárie”, exposta por Sarmiento no seu clássico ensaio Facundo (1845), é de que a civilização , no Prata, apesar de todo adamascado de Buenos Aires, com seus ares de grande urbe européia, não superara ou eliminara a barbárie. Convivia com ela, pois, as imperecíveis forças telúricas, selváticas, carnívoras, que muitos imaginavam esquecidas, retornavam a todo o momento como espectros, reaparecendo como a realidade profunda do país. Assim, a Argentina vive num cabo-de-guerra, onde está muito longe de decidir-se para que lado da ponta da corda ela irá pender definitivamente: se para o lado da civilização ou da temível barbárie.

Bibliografia
ESTRADA, Ezequiel Martínez – Radiografia de la pampa ( Colección Archivos-Unesco, B.Aires, 1991)
SARMIENTO, Domingo F. – Facundo: civilização e barbárie no pampa argentino ( Editora da Universidade RS-Edipucrs, P.Alegre, 1996)

>> TERRA – por Voltaire Schilling


O NOSFERATU DE HERZOG

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

Werner Herzog é o melhor diretor alemão da sua geração, que inclui Fassbinder, Wim Wenders e outros pesos-pesados.  Acho Herzog o mais interessante, pela variedade e pelo inesperado dos seus temas, pelo tom alucinatório de muitas das suas narrativas, pelo seu flerte permanente com o fantástico, pelas experiências radicais em que mergulha a si mesmo e sua equipe para realizar um filme.  Pode ser que tudo isso não sejam virtudes propriamente cinematográficas, mas Herzog é um diretor capaz de fazer milagres com uma câmara, meia dúzia de atores e uma trilha sonora.  A prova disso é este filme, um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Nos comentários à versão em DVD, Herzog afirma que todo mundo precisa de uma tradição, de uma ligação com o cinema do passado, e que a época hitlerista deixou muito pouco cinema para a geração que se seguiu.  Tiveram que remontar ao tempo do Expressionismo (décadas de 20-30), e, para ele, o melhor filme daquele tempo foi o “Nosferatu” de F. W. Murnau (1922), inspirado no romance “Drácula”, de Bram Stoker.  Daí a idéia de fazer uma nova versão em 1979, versão que ele afirma não se tratar de uma refilmagem.  De fato, trata-se do reaproveitamento de parte do mesmo material (o tema, o enredo básico, alguns personagens) para dar uma interpretação totalmente diversa.

Murnau foi um dos reis do claro-escuro na época do cinema em preto-e-branco; Herzog responde a suas imagens magníficas com um filme a cores em que as luzes e sombras são trabalhadas junto com contrastes de cores, numa fotografia memorável.  A trilha sonora, feita por Popol Vuh, é impressionante (e o áudio é um dos principais elementos narrativos do filme). 

Herzog rejeita as versões de Stoker e de Murnau.  Em Stoker, há a vitória final da ciência, do cavalheirismo masculino, dos valores vitorianos.  Em Murnau, a vitória do altruísmo feminino, do amor que leva ao auto-sacrifício, mas com final feliz (Drácula morre, Harker e a esposa acabam juntos).  Herzog descreve um mundo onde o Mal prevalece porque já está no interior das pessoas.  É Harker quem traz Drácula para destruir sua cidade.  Todo seu trajeto para a Transilvânia é um trajeto para o interior de si mesmo, para atender ao chamado do Drácula que quer emergir.  Drácula é seu retrato de Dorian Gray.

Como num conto de A. E. Van Vogt, em que a mente de um astronauta em hibernação permanece acordada durante séculos, Drácula é alguma coisa que está acordada e imóvel há séculos, ou milênios, na mente de Harker, pedindo para despertar.  É um conjunto de desejos insatisfeitos que giram perpetuamente num círculo vicioso, porque no momento em que encontram satisfação querem repeti-la, sem se darem nunca por saciados.  São como o cavalo do Barão de Munchausen, que bebia água sem parar porque fôra cortado ao meio e o estômago estava aberto.  Drácula é um sorvedouro de energia, vital mas destrutiva, que Harker reprimiu a vida toda e libertou toda de uma vez.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares

Assita à abertura do filme de Herzog


“RETORNO AO BIG-BANG MICROCÓSMICO”: FAGULHA CÓSMICA

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O escritor paulistano Denis Moura de Lima lança seu romance de estreia, a ficção científica “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”

Só a duras penas, a ficção científica conseguiu se estabelecer como gênero literário respeitável, como objeto de estudos literários que não depreciarão o estudioso. Claro que a mudança não se deu tal o milagre que verteu água e vinho. Ainda resiste muito preconceito (no caso da literatura, o paradoxo da não-leitura). O Brasil, onde ainda persiste vícios de um beletrismo francês, decadente, do século XX, a situação é ainda pior.

No então não faltam resistentes. E recentemente, numa daquelas circunstâncias difíceis de explicar, foi deflagrado um boom de títulos de ficção científica, com repercussões em diversos Estados. O Ceará contribui agora como “Retorno ao Big-Bang Microcósmico” (BNB, 196 páginas
2010
, do paulistano radicado no Estado Denis Moura de Lima.

Com trânsito entre os escritores locais – mais notadamente nas férteis cenas da poesia e do conto -, Denis Moura não se intimidou diante da forma longa e complexa do romance. Formado em Telemática, ele prefere se concentrar no ofício de escritor do que no de cientista (afinal, quem precisa do verossímil em FC?).

Ilustrações de Pedro Uchoa para o livro “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, de Denis Moura de Lima

O clássico e o presente
A leitura do livro mostra que ele não poderia ter seguido outro caminho. Aqui não se trata de uma história estendida, mas de uma narrativa que necessita das bases que o gênero romanesco dá: a possibilidade de se aprofundar na psicologia dos personagens; de trabalhar como tempo em camadas, com presente, passado e futuro; e permitem que o estilo dê reviravoltas, conforme a história avança.

A obra de Denis Moura de Lima é daquelas que se encaixam na concepção de Ursula K. Le Guin da ficção científica. A escritora, autora de clássicos do gênero como “A mão esquerda da escuridão”, diz que a “ficção científica não prevê: descreve”. Em “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, a descrição fica por conta de uma concepção de democracia digital, que rege o mundo em que transitam seus personagens. Não é o caso de dizer onde chegaremos na vida “conectada”, mas de fazer uma caricatura do ponto em que nos encontramos.

Além do suposto exercício de futurologia, que muitos tomam como essencial da FC, há no livro de Denis Moura aquele tipo de especulação existencial que, de fato, é uma das marcas das melhores obras do gênero. Especulação que se dá na revisão de um dos temas clássicos da ficção científica: a viagem no tempo. A diferença é que o escritor deixa que esta viagem sempre traumática modele o texto. O Big-Bang do título pode ser lido como uma pista a respeito da forma escolhida para narrar a história. Diversos fragmentos, difícieis de ordenar ou hierarquizar, mas cuja leitura conferem uma ideia de todo, de jogo, como num quebra-cabeças.
>> CADERNO 3 – por Dellano Rios

Para ver os primeiros capítulos, acessem:
http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com/

Assista ao booktrailer do livro:


FILME B JAPONÊS TEM HOMEM VESTIDO DE MULHER QUE BRIGA COM ESTUDANTES DA LIGA DAS TOTALMENTE NUAS

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O que é o que é? É filme B protagonizado por um travesti, mas não é “Glen ou Glenda”, clássico trash do “pior cineasta do mundo” Ed Wood. Tem ficção científica, mas não é Jaspion ou Godzilla. Mistura humor com erotismo, mas não é pornochanchada. É filme japonês sobre gangues, mas não foi dirigido por Takeshi Kitano. A resposta é “Sukeban Boy”, filme B japonês inspirado em mangá com humor, erotismo e ficção científica.

O filme japonês de 2006 é daqueles trabalhos que fazem os neurônios do espectador passarem por verdadeiro exercício de contorcionismo. Não que ele tenha uma trama rocambolesca ou seja de difícil compreensão. Longe disso. Mas sua história é uma gigantesca mistura de gêneros que mereceria uma prateleira à parte na locadora.

A história, baseada em um mangá japonês criado por Go Nagai em 1974, é uma comédia com toques eróticos sobre um estudante, o Sukeban do título, que tem que se vestir de garota para poder estudar em um colégio só para meninas.

Na escola, ela – ops, quis dizer ele – convive com colegas pouco amistosas. O caro internauta já deve ter ouvido falar de gangues escolares ou de panelinhas, certo? Pois o protagonista também vai ter que lidar com uma turminha da pesada. O colégio conta com várias gangues como a Liga da Meia-Calça, a Liga das Sem-Sutiãs e a Liga das Totalmente Nuas

Os nomes são bem sugestivos e atiçam a imaginação de qualquer homem. O problema, no entanto, é que o protagonista não vai ter tempo de colocar a sua testosterona em ação. As gangues são barra pesada e estão prontas para uma boa pancadaria. Mas não se trata de socos e pontapés. As garotas das gangues têm algumas armas secretas bem esquisitas. Só para dar o gostinho do arsenal bizarro vale citar uma garota que tem seios de onde florescem botões de rosas (!) que disparam balas como se fossem pistolas (!!).

O cineasta Noboru Iguchi abusou da imaginação e criou brigas que misturam um tanto de gore (prepare-se para ver uma boa dose de sangue jorrando na tela) com leve toque de sadismo.

O trabalho de pouco mais de uma hora de duração sintetiza um certo tipo de ficção nonsense produzido no Japão. É o mesmo gênero que serviu de fonte de inspiração para Quentin Tarantino criar seus trabalhos, em especial, os dois “Kill Bill”. Dá até para traçar um paralelo entre a gangue de Lucy Liu com as estudantes de “Sukeban Boy”. Perdoem o trocadilho, mas, no quesito pancadaria, as duas gangues ficam pau a pau.
>> UOL Tabloide em São Paulo


É UM PÁSSARO? UM AVIÃO? NÃO, É O PRESIDENTE!

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010
A política sempre foi uma grande inspiração para os humoristas. No caso dos chargistas, todos os Presidentes da República foram “vítimas” de lápis afiados em livros e jornais, sem desrespeito ou partidarismo. Mas e quando o principal dirigente do país acaba nas páginas dos quadrinhos? Essa situação está se tornando cada vez mais comum.

Nos EUA, a lista de presidentes coadjuvantes em HQs é imensa: Franklin Roosevelt, Ronald Reagan, Jimmy Carter, Bill Clinton e George Bush são alguns deles. Em 1964, John Kennedy aparece num gibi pedindo ajuda ao Superman para divulgar um programa nacional de prática de atividades físicas. Por sua vez, Richard Nixon é provavelmente o recordista de aparições, inclusive na minissérie Watchmen, como o presidente vitalício dos EUA.

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Bush em Ultimates 3

Obama e Sarkozy Na última eleição americana, um gibi com as
biografias de Barack Obama e John McCain foram vendidas aos borbotões. Havia uma versão simplificada de cada candidato e uma no formato “dois em um”. Em janeiro de 2009 a revista Amazing Spider-Man mostrou Obama cumprimentando o Homem-Aranha.“Foi algo natural depois que o novo presidente se declarou fã do personagem”, declarou Joe Quesada, editor-chefe da Marvel.LEIA A MATÉRIA COMPLETA

Obama na capa HQ homem aranha 2009

Na França, é normal as editoras lançarem álbuns durante as campanhas presidenciais, alegando que as vendas até o dia da eleição compensam o investimento. Um bom exemplo é La face karchée de Sarkozy (co-editado pela Fayard e a Vents d´Ouest). Resultado de uma detalhada reportagem do jornalista Philippe Cohen, com roteiro do advogado e cenarista de Richard Malka e desenhos de Riss, o livro biográfico de Nicolas Sarkozy vendeu mais de 200 mil exemplares. O sucesso foi tanto que inspirou o lançamento de outros dois álbuns de autores diferentes: Tout sur Sarko (Tudo Sobre Sarko) e Tout sur Ségo (Tudo Sobre Ségolene Royal, sua adversária política).

LULA EM QUADRINHOS

capa gibi Lula 2002 by Bira Dantas

Se hoje o presidente Lula é tema de filme, a tentativa de transpor sua vida para os quadrinhos aconteceu durante a corrida presidencial de 2002. Um movimento independente lançou o gibi Lula – A história de um vencedor com tiragem total de 580 mil exemplares. A revista contava a trajetória do “mocinho” Luiz Inácio Lula da Silva e apresentando seus então adversários José Serra e Ciro Gomes. Além do idealizador, o desenhista Bira Dantas, participaram do projeto o pesquisador Bargas, o arte-finalista Ricardo Cruzeiro e o cartunista Paulo Caruso, que escreveu a apresentação.

O financiamento para a tiragem inicial de 60 mil cópias veio de um fazendeiro de Ponta Grossa (PR). O lançamento aconteceu num jantar em Curitiba, com a presença do próprio Lula, que não esperava a surpresa.

– Ele não sabia de nada, só a Marisa, que acompanhou tudo, dando palpites nas caricaturas do marido – lembra Dantas.
– Quando o Lula viu a revista em cima do prato e começou a folhear, seus olhos encheram de lágrimas. Para a segunda edição ele só pediu uma mudança: que na cena dele no velório da primeira mulher, houvesse menos flores e que ele não aparecesse abraçando o caixão, que não aconteceu. Claro que atendi ao pedido pré-presidencial.

Membro do PT desde 1980, Dantas lembra que a revista fez sucesso entre os leitores, petistas ou não. Mas teve que passar por mudanças no segundo turno, quando Ciro passou a apoiar Lula.

– Sobre as mudanças, eu sempre fui muito categórico em aceitá-las. Mas quando fizemos a edição na Bahia eu disse: “Bargas, se você pedir para eu tirar o ACM ou Sarney, eu não tiro. Aí é questão de honra!” .

Para a eleição deste ano, Bira diz que aceitaria fazer um gibi com a biografia de Dilma Roussef. Mas e se algum quadrinista fizesse uma revista atacando o seu candidato? O artista acha saudável, desde que a discussão se dê no campo das idéias e propostas.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

Kennedy e Superman em 1964

VAMPIROS: AS EDITORAS DE LIVROS ESTÃO DE OLHO NESSA ONDA

terça-feira | 26 | janeiro | 2010


A estudante de psicologia rio-pretense Shya Alana, 25 anos,
leitora da saga Crepúsculo e dos livros de André Vianco
(como ‘Os Sete’): interesse pelo surreal (foto: Ferdinando Ramos)

 

Vampiros! Eles estão por toda parte. Seja na ficção literária, nas telas do cinema, na tevê. E quem sabe não exista mesmo um agora aí do seu lado, fazendo o que mais gostam: sugando a energia vital. A bem da verdade, atualmente, eles estão mais para mocinhos do que bandidos, já que se tornaram queridos graças às novas características românticas atribuídas aos personagens Edward e Bela, já há algum tempo a febre da ficção literária (e agora cinematográfica) jovem. Mas os sugadores de sangue têm cativado não apenas um público adolescente, mas arrastado adultos, vários adultos, para dentro de suas histórias – e não por acaso têm, com frequência, liderado rankings de bilheterias de cinema ou lista de livros mais vendidos.

“Uma loucura só”, é como Cristiane Freitas Ferreira, gerente de uma rede de livraria de Rio Preto, define a frequência na loja de aficionados pelo gênero logo após os lançamentos de filmes como os da saga “Crepúsculo”, da autora norte-americana Stephenie Meyer, publicados no País pela editora Intrínseca – cujo segundo episódio da série, “Lua Nova”, está no momento em cartaz.

O momento favorável à literatura de vampiro é tão grande que até editoras novas, menores, sem tradição, estão explorando o gênero. Não é o caso da editora Rocco, que já publicava livros com histórias de vampiros bem antes que Stephanie Meyer pensasse em escrever. É a editora, por exemplo, quem publica no Brasil a norte-americana Anne Ricce, responsável por criar os primeiros seguidores do gênero por aqui, ainda nos anos 1970. Anne tem mais de 20 livros publicados, entre eles “Vittorio, o vampiro”, “A hora das bruxas”, “A rainha dos condenados”, “Lasher”, “Taltos”, “Memnoch”, “Pandora”, “O vampiro Armand”, “O vampiro Lestat”, todos editados pela Rocco, que detém direitos sobre 15 obras da autora.

Mas não há como negar a força de “Crepúsculo” para esta novo estado de fama experimentado pelos vampiros. Tanto que, após arrecadar milhões de dólares em livros e filmes, a franquia vai explorar agora a linguagem das HQs. Sim, o fenômeno teve sua primeira história em quadrinhos, “Twilight: The Graphic Novel”, anunciada pela revista Entertainment Weekly, que divulgou uma das páginas, no último dia 20. O lançamento, marcado para o dia 16 de março, será por enquanto apenas no mercado americano.

As histórias estão sendo elaboras pelas mãos da artista Young Kim, que garante que os personagens Bela e Edward também vão virar desenho, em uma adaptação fiel do livro da escritora. O empresário e editor Paulo Tadeu, da Matrix, afirma que o primeiro projeto da editora nesta linha, “Vampiros, Origens, lendas e mistérios”, de autoria de Marcos Torrigo, pegou bem a carona do tema. “Já foram quase três mil livros da primeira edição em pouco mais de três meses, então, estou pensando em trabalhar mais títulos que forem chegando com a mesma temática. O livro lançado por aqui saiu em outubro e já está indo para a segunda edição.”

Tadeu explica que a obra chegou justamente quando estava começando o fenômeno Crepúsculo. “Foi uma aposta da editora. E ela tem se mostrado acertada. Afinal, toda essa onda em torno dos vampiros gera procura não só pelos livros da série, como por tudo que se relacione. Tem muita gente querendo informações sobre como os vampiros são, como se propagou a lenda, e daí por diante.”

Fãs do gênero se multiplicam
Mesmo quem nunca gostou de histórias de vampiros hoje se dobra à leitura de títulos como “Crepúsculo”. É o caso da enfermeira Eliene Minarini Alves, de 23 anos, que já leu toda a saga de Edward e Bella e ainda incentivou a irmã de 34 a se tornar fã. “Vi o filme e decidi ler o livro. Gostei tanto que não consegui parar enquanto não terminei a saga. Acho que o romance por trás da história é o que mais estimula”, diz.

Quem também não parou enquanto não concluiu a leitura de todos os títulos (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer) foi a estudante de psicologia Shya Alana M. Lim, de 25 anos. Como leitora de tudo que lhe cai às mãos, afirma que após ler “Os Sete”, de André Vianco, passou a se interessar pelo universo vampiresco. “Acho que o fato de ser algo tão surreal é que faz com que se torne interessante”, diz.

“O primeiro livro da série foi avaliado por nosso editor, Jorge Oakim, em um final de semana. Ele levou o livro para ler na sexta-feira e, no dia seguinte, sábado, já tinha certeza de que se tratava de um sucesso, tanto pela originalidade da história quanto pela qualidade do texto, que prende a atenção do leitor, um fenômeno chamado de ‘turning pages’”, diz Juliana Cirne, da editora Intrínseca. “ O enredo de Crepúsculo representa um retorno ao romantismo, uma nostalgia do amor romântico que tem forte apelo para os jovens.”

Outros produtos
O potencial dos vampiros despertou a atenção também dos produtores de tevê. Duas séries sobre o tema fazem sucesso atualmente nos canais por assinatura: “True Blood”, que teve duas temporadas exibidas pelo HBO, e “The Vampire Diaries”, pela Warner (o SBT também adquiriu os direitos e garante exibi-la este ano).

Eles já estavam presentes na mitologia grega
Para a antropóloga Niminon Suzel Pinheiro, professora da Unirp, o vampirismo está relacionado à crítica e ao moralismo cristão desde sempre. Seja por sua ligação com o humano à tensão entre a imaginação e a moralidade, a percepção do daimonismo na natureza e a culpa. “A dúvida e ansiedade daí decorrentes podem provocar e gerar a criação e o sucesso desse tipo de ficção”, afirma.

“Ao longo do processo histórico e social, diferentes figuras representaram o lugar hoje ocupado pelos vampiros. A Górgona grega mostra bem isso”, diz. Na arte antiga, ela é representada com uma cabeça sorridente, de barba e presas.

A professora observa que o vampirismo é como um escudo ou um ímã. “Nos vemos nele, se agimos mal, somos atraídos e engolidos e agimos bem. Ele nos fortalece. Observe que os navios antigos tinham cabeças de monstros na proas dos navios para desviar más influências. Nem tudo que parece do mal traz o mal. Eles servem para afastá-los, conforme a ideia de similaridade”, desafia.

Niminon propõe pensar outra questão importante. “O vampirismo da atualidade veiculado pela mídia e refinado pela imaginação popular é a relação com o sexo. Isso decorre da ideia, também antiga, da tocaia, do estupro e do devoramento da presa após o ato sexual. Assombrações, feiticeiros, duendes, gnomos, hárpias, seres das trevas, demônios errantes, morte e renascimento, partes complementares do ciclo da mãe-natureza, que sintetizam-se no vampiro glamurizado nas telas de hollywood”, diz.

Na internet
Nem todos os escritores do gênero vampiresco são conhecidos da grande mídia. Porém, a democracia de acesso do mundo virtual lhes permite atrair muitos fãs. É o caso do paulista Adriano Siqueira, diagramador e design gráfico de 44 anos que se tornou conhecido graças a seu trabalho no site www.adoravelnoite.com, seguido de perto por milhares de internautas.

“A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em Paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor”, diz.

Na entrevista abaixo, concedida pelo paulista Adriano Siqueira, de 44 anos, diagramador e design gráfico, autor do site Adorável Noite, o leitor vai conhecer um pouco mais sobre o leitor que de tanto colecionar livros, HQs, filmes, Cds e tudo mais que existe sobre vampiros, acabou por transformar isto em sua profissão. Ele conta como tudo começou e, garante, que já conseguiram – ele ao lado de vários outros escritores nacionais, que participam da criação do grupo de novos escritores “Tinta Rubra”, há dez anos – cravar seus dentes pontiagudos no cenário cultural do País. Hoje, além de escrever, Siqueira é consultor de novos sites sobre
vampiros, ministra palestras sobre vampiros, participa de exposições, e também concede entrevistas às diversas mídias, além de produzir curtas metragens, HQs e radionovelas sobre vampiros. Acompanhe a íntegra da entrevista.

Diário – Como começou a escrever sobre vampiros?
Adriano Siqueira – Foi em 1996, quando comprei um computador e tive acesso as BBS´s (sistema offmail de comunicação) A onda sobre vampiros crescia muito por causa do RPG que era a novidade dos vampiros. Comecei a escrever contos pequenos e em pouco tempo comecei a ter muitos leitores que apreciavam as histórias que eu escrevia. As raízes dos vampiros se fortaleciam a cada dia. Foi naquela década que passou nos cinemas, o Filme Entrevista com o vampiro e Drácula do Ford Copolla. Na TV passava o Seriado Buffy a caça-vampiros, o Seriado Maldição Eterna e o seriado Kindred – Irmãos de sangue, que era sobre RPG. A década de 90 também tivemos o lançamento do “Livro dos Vampiros” do autor Gordon Melton. Tudo isso fez com que a vitalidade do assunto sobre os vampiros crescesse muito e foi nesta década que comecei a escrever.

E como surgiu a idéia do site?
Criei um site em 1999 para colocar os contos que escrevia e logo em seguida criei o site Conto noturno (atual Adorável Noite) para divulgar mais ainda os meus contos. A ideia foi tão positiva que comecei também a divulgar os livros sobre vampiros. Eu precisava de mais apoio. Então pedi ajuda para um site que tinha muitos grupos no antigo e-groups (hoje é o Yahoo), sugerindo a criação de um grupo específico para contos de vampiros. Foi assim que no ano 2000, nasceu o primeiro grupo de contos de vampiros do Brasil, o Grupo Tinta Rubra. Com este grupo ficou bem mais fácil divulgar meu trabalho e o dos novos escritores de vampiros. Aliás, muitos livros existentes hoje são de autores que já passaram por ele. Até porque, o site Adorável Noite (www.adoravelnoite.com) e o grupo Tinta Rubra, completam este ano, 10 anos de vida!

Além deste grupo de escritores, o site deu origem a outras situações?
Em 2008 estreia o primeiro livro com a minha participação. “Amor Vampiro” junto com mais seis autores; em 2009, teve o livro “Draculea” – o livro secreto dos vampiros ao qual participei com um conto chamado Filosofia Vlad e em seguida “Metamorfose” a fúria dos lobisomens com uma história sobre um vampiro e um lobo.

O que, em sua opinião, cativa tanto os leitores, quando se aborda este assunto?
A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor. O vampiro tem muitas vertentes. E a cada livro, a cada autor, o leitor fica interessando em saber sobre qual o tipo de vampiro que o personagem é. As armadilhas sedutoras que o vampiro planeja para conquistar as suas vítimas deixa a dúvida se ele está apaixonado ou se ele só faz estes jogos para se alimentar. A curiosidade sobre o assunto é tão vasta que certamente ainda teremos muitas histórias a serem contadas.

Acredita que em algum momento este tipo de literatura terá tanto espaço, quanto tem hoje, os livros de auto-ajuda, por exemplo?
Faz pouco tempo que temos a categoria terror nacional nas livrarias. Antes, era tudo colocado em literatura nacional, romance ou infanto juvenil. Os vampiros ainda terão uma categoria própria, pois a quantidade de livros aumentam, a pesquisa que fiz em 2009 mostrou que tivemos mais de 20 livros sobre vampiros em um único ano. Isso é um record brasileiro. Se continuar assim neste ano vamos ter o dobro. O Brasil é uma forte potência sobre o tema. Tem escritores experientes e existem mais aparecendo. Tudo indica que em breve teremos mais editoras acreditando neste tema. Abrindo mais as portas para os escritores nacionais que escrevem sobre vampiros.

Como você vê a expansão da abordagem deste tema, com a repercussão de livros como “Crepúsculo”, e os demais da autora?
Foram os livros da Stephenie Meyer sobre vampiros, que fizeram com que a mídia fosse tomada pelo tema e as editoras abrissem mais ainda as portas para os escritores nacionais. Já vimos esta moda de vampiros no Brasil quando estreiou a série Buffy – a caça-vampiros e mais tarde com a novela “Beijo do Vampiro”. A cada década sempre tivemos os vampiros na moda. Na década de 90, foi o filme “Entrevista com o vampiro” que personalizou até a roupagem dos vampiros; na década de 80, foram “Os Garotos Perdidos” que estabeleceu a rebeldia dos adolescentes em sua eterna vida noturna; a década de 70, vieram os filmes do Chirstopher Lee sobre Drácula, que mostrou como um homem completamente desconhecido pode dominar as mulheres com poucas palavras. Nesta nova década, quem sabe não será a vez do Brasil, finalmente tomar a frente com suas próprias histórias.

Tem alguma publicação independentes sobre vampiros?
Eu organizo o Fanzine Adorável Noite – Contos de Vampiros. Ele foi criado em 2001, e tem por objetivo divulgar os contos e poemas de autores nacionais. O fanzine é entregue em casas noturnas e eventos sobre o tema. Se alguém estiver interessado em participar deste fanzine, ou mesmo ler alguns, pode fazê-lo através do site http://www.adoravelnoite.com/fanzines/index.html que é totalmente gratuito.
>> DIÁRIO DA REGIÃO – por Cecília Dionizio


UBIK E AS FALSAS PERCEPÇÕES DA REALIDADE

sexta-feira | 22 | janeiro | 2010


Podemos ter certeza do que estamos fazendo agora? Eu aqui escrevendo e você aí lendo, tudo isso é real? Será que não estamos sonhando e, na verdade, vivemos em outro lugar ou em outro tempo? Costumo dizer: estou convicto de que posso estar errado em minhas convicções. Estar certo de algo é temerário, por isso que a fé, muitas vezes, é perigosa. Ser cético sempre, também. Como disse o filósofo Henri Poincaré: “Duvidar de tudo ou crer em tudo são duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas, de refletir.”

Philip K. Dick (ou PKD para os leitores “íntimos”) foi um escritor que trabalhou bastante com a questão do espaço e do tempo em suas obras literárias. No romance Ubik (Editora Aleph, 240 páginas, 42 reais, tradução de Ludimila Hashimoto), é difícil precisar – tanto para os personagens quanto para o leitor – onde e quando os fatos estão se desenvolvendo.

A história se passa em 1992 (o romance foi publicado originalmente em 1969). Glen Runciter é dono de uma empresa cujos funcionários, chamados de inerciais, são contratados para neutralizarem o poder de telepatas e precogs (estes últimos aparecem também em outras obras de PKD, como, por exemplo, no conto Minority Report, adaptado para o cinema por Steven Spielberg). Nessa sociedade futurista as pessoas, depois de morrerem, são levadas para moratórios, ficando numa espécie de meia-vida, em que podem ter suas mentes ativadas para se comunicarem com os vivos. E é consultando sua esposa em um desses moratórios que Runciter aceita um trabalho na lua.

Lá, no entanto, junto com os antipsis, ele cai em uma armadilha provocada por uma empresa rival. Acontece uma explosão e Runciter morre. O enredo passa a se centrar em Joe Chip, que se torna o responsável pela empresa. Como não consegue levar a tempo o corpo de Runciter para realizar o processo de criogênese no moratório, fica sem poder se comunicar com o chefe. E agora, como conduzir os negócios?

MENSAGENS – A partir desse momento, fatos estranhos começam a acontecer. As coisas aos poucos parecem que vão envelhecendo, como o café com leite azedo, os cigarros se desmanchando, os elevadores que se tornam antigos. Alguns inerciais que escaparam do atentado na lua envelhecem até se desintegrarem. É como se o tempo tivesse retrocedendo, mas no mesmo espaço. Junte-se a isso estranhas mensagens em diferentes objetos e em lugares como um banheiro público, parecendo uma tentativa de Runciter, no além-túmulo, se comunicar com Joe Chip. Bem, caro leitor, revelar outros fatos é estragar as surpresas, que são muitas, as quais a história ainda tem para oferecer.

Em Ubik, o escritor nos faz refletir sobre as percepções que temos da realidade. Nem tudo que é percebido pelos sentidos pode ser considerado real. Assim como os personagens, que parecem ter certeza de tudo, o leitor – julgando saber mais do que eles (aquilo de ficar dizendo “não faça isso” ou “vai por esse lado”) – também pode estar sendo enganado. O narrador em terceira pessoa (falsamente onisciente) e o título do romance (que vem de ubiquidade, a capacidade de estar em todo lugar, onipresença) nos levam a uma falsa interpretação. Ou seja, PKD estimula a mente do leitor, o inquieta, tenta despertá-lo para enxergar sob um novo ângulo as coisas que o cercam.

Philip K. Dick, que morreu em 1982, foi o autor de histórias que deram origem – além do já citado Minority Report – a outros filmes de sucesso, como Blade Runner, o Caçador de Androides, O Vingador do Futuro e O Homem Duplo. No entanto, seus livros até hoje são poucos lidos. Então, se o leitor vai conhecer pela primeira vez uma obra de Philip K. Dick, seja bem-vindo a esse grupo de privilegiados, mas espero que não fique à vontade.
>> GAZETA DO SUL – por Cassionei Niches Petry


SANTA CLARA POLTERGEIST: “CYBERPUNK” À BRASILEIRA?

quinta-feira | 21 | janeiro | 2010

A Cultura “Cyberpunk”.
A cultura “cyberpunk” é um fato, uma mistura de esoterismo, programação informática, piratarias e ficção científica (1), influenciada pela contra-cultura americana e pelos humores dos anos 80. Ela é uma cultura de rua, presente em vários países e que se expressa através de revistas “especializadas” (2), de jogos eletrônicos clandestinos (3), da pirataria digital (“hacking”, “phreaking”), do cinema e da televisão (4), das revistas em quadrinhos (5), dos vírus de computador (6), da moda (7), das novas expressões artísticas e das novas imagens (8). A cultura “cyberpunk” é, antes de mais nada, a expressão de um comportamento irreverente em relação às novas tecnologias.

Não precisamos muito para observar as mudanças e os “bouleversements” sócio-culturais por que passa a nossa sociedade contemporânea a partir da miniaturização e banalização das novas tecnologias de base micro-eletrônica. Alguns vão ver aí traços da “pós-modernidade”, outros, o agravamento e a radicalização do que foi o sonho tecnológico moderno. A cultura “cyberpunk” nos leva a crer que as duas posições fazem sentido.

Por um lado, os “cyberpunk’s” rejeitam o sonho do paraíso tecnológico, “brincam” e “jogam” de maneira irreverente com as regras impostas pelo sistema tecnocrático. Eles pretendem, pela subversão das regras e pelo prazer, recolocar a questão do poder tecnológico e popularisar a idéia de que a tecnologia deve ser uma ferramenta de liberdade, prazer e comunicação ao alcance de todos, e não previlégio de uma elite (cientistas, militares e industriais).

As grandes promessas da modernidade desabaram. O “no future” impera e a única saída é investir tudo no presente. Agora, a tecnologia só faz sentido se ela ajudar nessa “apropriação do quotidiano”. A cultura “cyberpunk”, fruto do sonho maior da modernidade (a informatização da sociedade), se volta contra seus paradigmas fundadores e apresenta uma outra maneira de pensar e utilizar a tecnologia. Nesse sentido ela é um “pesadelo” da modernidade. Aqui podemos estar vendo o nascimento do imaginário tecnológico da “pós-modernidade”.

Por outro lado, a aceitação do destino tecnológico (“a tecnologia está aí e nada podemos fazer a não ser utilizá-la de maneira criativa”), o surgimento de uma nova utopia da comunicação, livre e tecnicamente perfeita (relançando um novo “projeto” e uma nova “ideologia”), o isolamento do sujeito, imerso em uma parafernália hyper-tecnológica que reforça os ideais individualistas modernos (os “Otakus”) (9), a paixão quase religiosa por tudo o que é novidade no mundo da técnica, só para citar algumas pistas, atestaria uma radicalização dos paradigmas legitimadores da modernidade. A tecnologia contemporânea é vivida assim sob o signo desse paradoxo.

Hoje, a tecnologia de ponta, produto supremo da racionalidade instrumental, parece se misturar a uma nova “sociabilidade”, a uma espécie de “re-encantamento do mundo”. Como mostra Maffesoli, “…aussi paradoxal que cela puisse paraître, on peut établir une étroite liaison entre le développement technologique et l’amplification de l’esthétique. La technique qui avait été l’élément essentiel de la reification, de la séparation, s’inverse en son contraire et favorise une sorte de tactilité, une expérience commune” (1O). A cultura “cyberpunk” é fruto da busca dessa “tactilidade” e dessa “experiência comum” de que fala Maffesoli.

Embora seja uma cultura tecnológica, a cultura “cyberpunk” não se define unicamente pela tecnologia. Ela é, mais profundamente, uma “atitude”, um comportamento sócio-cultural, fruto do encontro da tecnologia micro-eletrônica com uma “nova sociabilidade” quotidiana, tribal, neo-religiosa, efêmera, que não responde mais aos esquemas clássicos de compreensão. Nessa “nova sociabilidade”, as tecnologias de comunicação se tornam coadjuvantes da vida quotidiana. Elas são imersas, não no destino histórico e heróico mas, no “présenteisme” (Maffesoli), numa forma do “homem sem qualidades” (Musil) fugir das pressões da racionalidade tecnológica moderna.

A solução proposta pela cultura “cyberpunk” é a seguinte: faça você mesmo de sua vida uma obra de arte, aqui e agora. A tecnologia está aí para lhe ajudar, mas desconfie das promessas da ciência e da técnica. Explore todas as possibilidades concretas e imaginárias de utilisação dos objetos. Tome nas suas mãos o destino tecnológico do planeta. Para agir nesse quotidiano hiper-tecnológico, todas as formas são boas, desde a subversão de signos, passando pelas piratarias, improvisações, até a criação artística. Aqui a parte “punk” da expressão ganha força: “do it your-self”.

A “Atitude cyberpunk”.
Descrever o surgimento da “atitude cyberpunk” nos obriga, de uma certa maneira, contar um pouco da história da informática e, em particular, da micro-informática. A própria história da cultura “cyberpunk” se mistura à história dos micro-computadores e, mais radicalmente, é a “atitude cyberpunk”, filha da contra-cultura americana, que cria a micro-informática nos Estados Unidos em 1975.

A informática é produto do desenvolvimento de vários domínios científicos a partir da década de 40 (cibernética, 1950; inteligência artificial, 1956; teoria da auto-organização e de sistemas, 1960; e da comunicação de massa do pós guerra). Philippe Breton (11) propõe a divisão da história da informática em três etapas: a primeira, de 1940 à 1960, onde a informática estava diretamente ligada à cibernética; a segunda, de 1960 à 1970, com os grandes sistemas centralizados e vinculados à projetos militares; e a terceira, de 1970 até hoje, caracterizada pela micro-informática e pelas redes de telecomunicação.

Na primeira etapa, a construção dos computadores estava diretamente influenciada pela teoria cibernética. Nesse momento, a comunicação passa a ser compreendida como um “comportamento” da informação em relação a um “meio ambiente”. As novas máquinas cibernéticas buscam imitar o comportamento do cérebro humano, baseado no imaginário da imperfeição do ser humano, e na crença da técnica como a única solução para o crescimento da complexidade civilizacional. Para Breton, esse foi o período “métaphysique” da informática. Aqui toda a mitologia das “criaturas artificiais” mostra a sua força e sua atualização (12).

Wiener (pai da teoria cibernética) era hostil à interferência militar no desenvolvimento da cibernética. Daí a separação entre a cibernética e a informática. Em Wiener nós podemos ver os primeiros traços da “atitude cyberpunk”. Ele começa a se interrogar sobre os “enjeux” éticos do uso das novas tecnologias. Agora, independente da cibernética, a informática inicia a segunda etapa: a dos grandes sistemas centralizados ligados estreitamente aos institutos de pesquisa, universidades e ao complexo militar-industrial.

A fase “metafísica” se desloca assim para um outro “mito” fundador da modernidade, o da “administração” racional e lógica da vida social. A invenção dos computadores se afasta da interrogação sobre o que é o homem e a comunicação, para se ligar ao desenvolvimento de máquinas de “ordenar” (em francês “ordinateur”, em espanhol, “ordenador”). A “infor-mática” será o meio automático de tratar a informação. A segunda informática é concebida então, como uma nova “utopia” de transformação e gestão da sociedade.

A invenção do micro-computador funda em 1975 a terceira etapa da informática. Ela é fruto de dois acontecimentos (técnico e sócio-cultural) importantes desse fim de século: o barateamento e a miniaturização dos componentes eletrônicos, que possibilitam o desenvolvimento de máquinas mais potentes, eficazes e menores, e uma “demanda” social que impulsionava esses progressos. A vontade de construir máquinas menores, potentes e baratas se explicitava. A “atitude cyberpunk” nasce aqui.

A micro-informática foi uma invenção de “radicais” californianos que combatiam a centralização da informação pela elite tecnocrática. Eles pretendiam democratizar os computadores e expandir a participação “popular” aos novos desafios da informática. Os computadores deveriam servir, não só como máquinas de “ordenar”, mas como instrumentos de criação, de prazer, de diversão e de comunicação. Em 1977 nasce na garagem dos Steves (Jobs e Wozniak) o Apple II. Nos textos promocionais nós líamos: “We build a device that gives people the same power over information that large corporations and government have over people” (13). Em 1981 IBM laça o seu primeiro PC (personal computer).

Na origem da “cultura informática” existia então, uma contestação do “peso” da segunda informática que reforçava os valores modernos (grandes sistemas centralizados, objetivos militares, ideologias políticas, crença no futuro, no progresso e na razão). A terceira informática vai colocar o acento sobre a democratização da comunicação e das tecnologias de comunicação. O modelo da “Apple”, simbolizada por uma maça mordida, criada numa garagem e pretendendo ser mais interativa, convivial e democrática é um rompimento com os ideais modernos, cujo modelo era a IBM (uma gigante, centralizadora e ligada à pesquisa militar).

Foi provavelmente o surgimento dessa sociabilidade, mais do que as inovações técnicas, que deu luz à cultura informática, onde a “cultura cyberpunk” é uma de suas facetas. Com a “atitude cyberpunk” surge uma nova lógica na utilização das tecnologias onde a “lógica” tradicional dos computadores “céda en partie la place à une image ludique, créative; enrichissante de l’informatique” (14).

Os “cyberpunk’s” querem participar do universo informático e rediscutir as orientações da tecnologia na cultura contemporânea. As estruturas do poder tecnológico e jurídico devem se reorientar e se adaptar as novos comportamentos. Eles questionam e desconfiam da boa intenção dos tecnocratas. O mundo tecnológico é inevitável e irreversível. A tecnologia deve se tornar um instrumento de criatividade, de construção de simbologias e de convivialidade (15), aqui e agora. Vários projetos vão nesse sentido (16).

 

Os “Phreaks” e os “Hackers”.
A formação de uma cultura de rua “high-tech” foi influenciada diretamente pela contra-cultura americana e pela consolidação de uma sociedade de “masse-média”. Nessa conjuntura nascem os “phreaks” e, anos mais tarde, acompanhando o desenvolvimento tecnológico, os “hackers”, o “cyberpunk” por excelência.

Os “phreaks” surgem nos anos 60 com o objetivo de explorar as possibilidades abertas pelas redes de telefones. Eles visavam “liberar” a tecnologia do controle estatal e industrial, e injetar um pouco de criatividade no domínio da telecomunicação. O “phreaking” era a manipulação “pirata” do sistema telefônico americano Bell. O objetivo dos “preaks” é realisar “free long distance calls”. A palavra “phreak” é resultado de um neologismo entre “free”, “phone” e “freaks”.

O “phreak” dos anos 60 manipulava tonalidades “multi-frequência” do sistema Bell. A reprodução dessas tonalidades musicais, através de equipamentos caseiros e improvisados inventados por estudantes (as “Blue Box’s”), permitiam aos “phreaks” estabelecer ligações telefônicas gratuitas e “passear” pelas redes de comunicação mundial. Começa aqui o que seria depois ampliado pelos “hackers”, as “viagens” pelo novo universo de dados e pelas redes de comunicação.

O “phreaking” se tornou publico em 1971, através de um artigo de Ron Rosenbaum na revista inglesa “Esquire” que revelava os “Secrets of the Little Blue Box”. Nesse mesmo ano é formado o “Youth International Party Line”, o primeiro jornal underground dos “phreaks”. “Phreaks” como Mark Bernay, Joe Engressia e John Draper, são os pais da cultura “cyberpunk” (17).

A passagem do “phreaking” ao “hacking” era então uma questão de tempo e de desenvolvimento technológico. Os “hackers” serão assim os “phreaks” dos computadores, e vão ajudar a consolidar esse espécie de “contra-cultura tecnológica”. Numa cultura informatizada, a consequência natural do “phreak” é o “hacker” (em português cortar, entalhar, bisbilhotar), o “cyberpunk”, o pirata romântico, aventureiro e “bricoleur” do universo tecnológico. No entanto, os “phreaks” existem até hoje acompanhando os desenvolvimentos tecnológicos dos telefones. O “phreaking” por telefones celulares já é uma prática (18). Hoje o “phreaking” e o “hacking” são duas faces da mesma moeda.

Os primeiros “hackers” foram os “viciados” em computadores que trabalhavam no M.I.T.. Eles desenvolviam, para se divertir, os primeiros jogos eletrônicos e experimentavam as primeiras “viagens” pelas redes de informação. Mais tarde, os estudantes americanos começam a fazer parte dessa nova “tribo”, onde era prática corrente entre eles deixar um “vírus” ou uma “bomba lógica” no sistema informático da universidade após o doutoramento. Com a banalização da micro-informática, são os adolescentes que vão se servir e ampliar as potencialidades da máquina. Eles serão os “hackers”, os jovens “ingênuos” e “desinteressados” que vão subverter as regras do universo informático (penetrar sistemas informáticos, copiar programas, produzir vírus, etc).

A fundação do “Chaos Computer Club” (CCC) em 1981 em Hamburgo na Alemanha, é a expressão mais fiel desse primeiro momento dos “hackers”. No programa de base do CCC nós podíamos ler: “nós reclamamos o reconhecimento de um novo direito dos homens, o direito à uma comunicação livre, sem entraves e sem controle, através do mundo inteiro, entre todos os homens sem excessão…” (19). Eles se colocam como “piratas éticos”, se opondo ao vândalo e criminoso. Um “hacker” não visa roubar, destruir ou espionar os dados dos outros, ele procura simplismente “admirar” e se apropriar do “cyberspace” (20).

As grandes linhas da “ética do pirata” são: o acesso ao computador e a tudo o que mostra o funcionamento desse mundo deve ser sem limite; toda informação deve ser livre e sem controle; deve-se julgar um pirata depois de seus atos e não pelo seu aspecto exterior, idade, sexo, raça ou posição social; o computador deve permitir a criação estética e artística; não semeie a destruição dos dados alheios.

O romantismo e a boa intenção acabam aí. Embora existam o que podemos chamar de “hackers éticos”, a prática do “hacking criminoso” (destruição de informações, espionagem internacional, vírus destrutivos, manipulação de cartões de crédito e códigos de acesso confidenciais, etc) é hoje uma realidade e vários países atualizam sua legislação para impedir toda espécie de “hacking” (21).

O “hacker-cyberpunk” encarna assim uma transfiguração, o mito do “puer aeternus” (22). Ele é uma figura meio angelical, meio demoníaca. Ele é jovem, puro, ingênuo, brincalhão, inocente e, ao mesmo tempo, vândalo, pirata, bisbilhoteiro, perigoso, viciado. Ele vive em função de um objeto (o computador), ligado à materialidade, sem deixar de ser um “cowboy” (23), um aventureiro, um herói “high-tech” circulando num espaço de “informação pura”. O “hacker” passa em média 10 horas por dia na “materialidade metafísica” do computador “desligado” do mundo.

Ele é o oposto do que foi a figura máxima do reino tecnológico moderno, o especialista. Esse buscava o conhecimento total do particular, enquanto o outro busca se virar na pluralidade dos eventos banais do quotidiano. O “hacker” quer o prazer presente e improvisado, o seu domínio não está no particular mas na generalidade. O status daquele que domina a técnica passa então do especialista ao “hacker”, esse mais próximo do arquétipo do “bricoleur”.

O “radical” tecnológico dos nossos dias não é, como se poderia pensar há alguns anos, um cientista objetivo, frio, asséptico e racional. Ele é um adolescente aventureiro e romântico, “sujo”, ligado religiosamente a sua pequena tribo, a algumas drogas e a tudo que é novidade no mundo da técnica. O “cyberpunk” é, podemos dizer, um sujeito de transmutação e do “re-encantamento” da tecnologia.

O “Underground High-Tech”.
O “underground high-tech” é amorfo e plural, formado por “hackers” e “phreaks” que se multiplicam, a nível mundial, a partir dos anos 80. As motivações são as mais diversas, dentre elas: o desejo de uma comunicação livre, o desafio de jogar com grandes sistemas de computadores, o prazer, a diversão e a liberdade em relação a tudo que se refere às novas tecnologias. O que vai caracterizar essa nova expressão cultural dos anos 80 é uma “atitude punk” frente às imposições tecnocráticas. Podemos compreender esse “underground” a partir de alguns aspectos: o “espaço de socialização”, o “objeto culto”, os “discursos”, as “ações”, o “ambiente” e a “relação com o corpo”.

O espaço de socialização: a noção de espaço não é mais geográfica. As mesmas transformações por que passam as fronteiras, a partir da formação de uma rede mundial de informações, se reproduzem no seio dessas tribos. Os contatos entre os “hackers” é mediático, onde os encontros físicos são irrelevantes. O indivíduo é assim colocado em questão. Os “hackers” se conhecem por seus “pseudos”, escapando do constrangimento da verdadeira “identidade”. No entanto, esse contato mediático, que poderia representar um isolamento, é visto como uma verdadeira forma de “comunicação”. Nesse sentido os “espaços de socialização” são os “clubs”, os “Bulletins Boards”, os “congressos” (24), as “copy party’s” (festas para cópias e piratarias de programas), e a própria rede mundial de dados.

O objeto culto: o computador (assim como toda a parafernália para circular pelo “cyberspace”) é o “objeto de culto”. O aspecto religioso e mítico não é aqui um exagero. O computador é nesse sentido um totem sagrado (25) visto também como uma espécie de “droga”. Os “cyberpunk’s” são também conhecidos como “computer addicts” ou “code junkies”. O discurso: como já vimos, o discurso do CCC é um exemplo do discurso dos “cyberpunk’s”. As ações: as ações são realizadas sem grandes objetivos. A “finalidade” é se divertir e explorar todas as potencialidades dos grandes sistemas informáticos, questionando a tecnologia através do lúdico. Nesse espírito são relizadas as “piratarias de programas”, os “hackings”, os “vírus”, a prática do “social engineering” (26), as trocas de códigos de acesso, etc.

O corpo: a teoria cibernética cria um “modelo informacional do homem”, onde o corpo pode ser melhor definido em função das trocas de “informações” à nivel celular. Persiste aí uma negação “cartesiana” do corpo, onde a razão (programação) é mais importante que a materialidade. Podemos ressaltar ainda uma influência do esoterismo e do misticismo oriental onde a matéria é uma fonte de ilusão. Os “hackers” são conhecidos pelo mau trato do corpo, pela não preocupação quanto à estética e à higiene corporal e pelo consumo de drogas. Eles são chamados de “mendigos da informática”. O ambiente: o ambiente é basicamente “tecno-masculino”, talvez como consequência natural da nossa civilização técnica que privilegia uma dimensão masculina da sociedade, onde os valores de razão tecnológica vem ao lado da “masculinização da sociedade”.

A cultura “cyberpunk” expressa assim as contradições da tecnologia contemporânea. A tecnologia de ponta, figura suprema do “reino do quantificável”, se “reencanta” e passa a ser uma ferramenta, não só do controle objetivo e causal dos eventos do mundo, mas da criação, do prazer estético, do “partage” de sentimentos e da singularidade. A “transfiguração” do moderno que nos levaria à pós-modernidade (Maffesoli), encontra aqui um reforço. A profusão material dos objetos faz com que, longe das crenças “frankfurtianas” de homogeneização social pela “racionalidade instrumental”, o reino da quantidade homogênea se transforme, como por encanto, no reino da qualidade e da pluralidade.

“Cyberpunk” à Brasileira: Santa Clara Poltergeist.
Embora ainda seja cedo para afirmarmos a exitência de uma cultura “cyberpunk” no Brasil (27), que significaria a existência de um conjunto de componentes concretos (“hackers”, “vírus”, revistas, “Bulletins Boards”, “associações”) e imaginários (moda, quadrinhos, cinema, ficção científica), como constatados na Europa e nos Estados Unidos, podemos, no entanto, perceber traços de um “imaginário cyberpunk” brasileiro no romance “Santa Clara Poltergeist” (28) do artista multimídia Fausto Fawcett.

Nessa obra Fawcett alia temas caros ao imaginário “cyberpunk”: a mistura entre tecnologias de ponta, saturação informacional, orientalismo e misticismo, tribos urbanas, violência, cultura pop e vulgarização científica, estética pornô e ficção científica, simulação, virtualidades e simbiose homem-máquina. “Santa Clara” é assim contemporânea das diversas expressões da cultura “cyberpunk”.

O romance se ambianta numa Copacabana “tecno-mística-erótica-caótica”, onde Mateus, um N.E.I. (Negão Eletricista Informático) recebe uma tarefa que vai salvar o bairro de um apocalípse “tecno-erótico”. Mateus é completamente viciado em tudo que se refere à informática, adora mulheres e “funk” misturado com Vivaldi e Bach. Ele é assim uma espécie de “hacker terceiro mundista”. O excessivo contato com as radiações elétricas fez com que Mateus perdesse parte de sua energia cerebral, e ele precisa, de tempo em tempo, recarregar um “fusivel” implantado em seu cérebro. Mateus mora em São Paulo.

Ao mesmo tempo coisas estranhas aconteciam no Rio de Janeiro. Santa Clara Poltergeist revolucionava Copacabana. A história da Santa se confunde com a metamorfose sofrida por Verinha Blumenal, uma garota que fazia sucesso vendendo seu corpo e amortecedores para os caminhoneiros sulistas. Um belo dia, Verinha encontrou uma bicicleta e resolveu dar um passeio. Durante o passeio, o banco da bicicleta saiu do lugar e o cano de ferro que sustenta o banco penetrou Verinha. A partir desse acidente, ela começa a ter poderes paranormais (fenômenos de psicocinese) e resolve fazer uma operação onde recebe “um intestino prótese a base de bateria automobilística, que deveria ser recarregado toda semana” (29). A psicocinese no entanto continuava.

Vera resolve então explorar comercialmente seus poderes fazendo shows “tecno-pornô-místicos” virando a vedete dos caminhoneiros. Ela recebe um convite e vai trabalhar no Rio, em Copacabana, nas boates de “Ramayana Porshe” o “hindu manda chuva do comércio erótico do bairro” (30) e o fundador mundial das “academias aeróbicas do Tao pornô” (31).

Nesse momento, uma “falha magnética baixa” tomava conta de Copacabana e começava a interferir no corpo de Verinha. Ela descobre que o seu sangue pode curar e resolve, junto com o místico hindu, ajudar as milhares de pessoas necessitadas. Ela para os espetáculos pornôs e se dedica à boa causa. Descobre-se: Verinha seria a re-encarnação de Clara Vonheim, uma santa conhecida em toda a Europa central, principalmente na Alemanha.

A convocação para as seções de cura se dava através de televisões ligadas “fora do ar”. A TV “fora do ar” virou um totem místico em Copacabana. Todos tinham televisores “fora do ar” ligados em altares esperando a convocação da Santa. Copacabana se transforma assim num “balneário de misticismo erótico, num pólo de atração total” (32). A temperatura ambiente era de 55°C.

Santa Clara propõe ajudar a curar Mateus mas, para tanto, ele deveria ajudá-la a capturar “o ovário míssel” que está circulando nos subterrâneos do bairro. Ele tem no seu interior uma bomba e o único meio de salvar Copa é introduzindo-o no ventre de “Santa Clara”. Ele foi escolhido por suas capacidades técnicas, já que terá de construir um “híbrido de aspirador e imã com materiais só encontrados em certos estabelecimentos desse bairro esdrúxulo” (33) para recuperar o estranho míssel.

A partir daí a aventura de Mateus será recheada de personagens singulares (“xiitas orgônicos”, “místicos profissionais”, “cientistas ambulantes”, “Manson Chips”), lugares estranhos saturados de tecnologia, erotismo e misticismo (“Oba Oba Espíritas”, “Academias Aeróbicas do Tao Pornô”, “Clínicas de Próteses Tecnológicas”, “Serviços Ninja Sêmem”). A tecnologia está em todo o bairro, numa mistura de sucatas, objetos improvisados, telas de vídeo e micro-eletrônica (“ovário-míssel”, “aspirador detector do ovário míssel”, “gavião blaster”, “roupas refrigeradas”, “orgiódromos high-tech”, “céu televisivo”).

Um Brasil “cyberpunk”?
Para o sociólogo Michel Maffesoli, o Brasil é um “laboratório da pós-modernidade”. Num colóquio recente sobre a América Latina (34), Maffesoli começou sua exposição com uma imagem da pós-modernidade: “Lenin dizia que a modernidade seria a eletricidade mais os soviéticos. Para mim a pós-modernidade é a informática mais o candomblé”.

Nessa comparação podemos ressaltar que o que caracterizaria a pós-modernidade seria uma certa convivência entre lógicas distintas, uma mistura entre o passado e o futuro, como o “futurismo” da informática e o “arcaismo” do candomblé. Por outro lado, o papel fundamental da tecnologia como construtora do espaço/tempo, seja ele moderno (eletricidade) ou pós-moderno (informática), se explicita.

Lyotard mostrou bem como nossa época se legitima mais pela “paralogia” que pelo consenso (35). A modernidade enfatisava o “projeto coerente”, mirando o futuro e “administrando” a vida social. Vai aí a utopia e a coerência “eletricidade mais soviéticos”. A pós-modernidade, ao contrário, se estabelece pelo esgotamento de grandes projetos e pela pluralidade cultural. Vai aí a falta de compromissos e o “présentéisme” do “informática mais candomblé”.

O Brasil encarna bem as transfigurações por que passa a nossa sociedade contemporânea e a fórmula “informática mais candomblé” é um bom retrato do país. A diversidade e a pluralidade cultural, a crise política e econômica, o convívio entre bolsões de riqueza e de pobreza, de desenvolvimento tecnológico e de carência básica, só pra citar alguns exemplos, nos coloca diante dessa “transfiguração”.

Dentro desse quadro de contradições “futuristas e arcaicas”, seria possível encontrar traços da cultura “cyberpunk”, cultura tipicamente “high-tech” e característica de países “pós-industriais”, num país que ainda não alcançou sequer as promessas da modernidade? Nesse ponto uma outra questão se coloca: seria preciso esgotar a modernidade para entrar na pós-modernidade? Se pudermos responder afirmativamente à primeira questão, então a segunda seria respondida negativamente.

O “imaginário” de Santa Clara Poltergeist representa assim o Brasil: uma sociedade dominada pela informatização, povoada das mais diversas tribos urbanas, onde convivem “hackers” (os NEI’s), místicos, cientistas. A violência convive de perto com o misticismo, o erotismo e os “gadgets” technológicos. A sociabilidade se configura numa civilização de “imagens em telas” e da “comunicação mediatizada”. Copacabana tinha um “céu televisivo” assim como no romance de Gibson “le ciel au-dessus du port était couleur télé calée sur un émetteur hors service” (36). O caos urbano impera e as interferências corporais, pelo meio de componentes artificiais, se tornam quotidianas e banais.

O romance é influenciado principalmente pelos “bouleversement” filosóficos causados pela física quântica, pelas novas tecnologias micro-eletrônicas, pela cultura pop e pela ficção científica. Santa Clara Poltergeist é talvez uma primeira expressão do imaginário e da cultura “cyberpunk” brasileira. O romance é recheado de “nonsens”, de humor negro e de erotismo, sempre com um pano de fundo “tecno-místico”. O bairro de Copacabana representa a própria imagem da cultura contemporânea: um bairro terceiro mundista, num futuro próximo e já atual, recheado de contradições sociais, super-informatizado e ao mesmo tempo caótico e violento. Aqui se misturam o “pré-moderno” e as tecnologias de ponta, o passado e o futuro.

O misticismo recheado à violência e ao sexo representa a faceta da nossa “sociedade dionisíaca” (37). A super informatização social, a banalização tecnológica, e as simbioses corporais homem-máquina, expressam as profundas redefinições por que passa a nossa cultura tecnológica. A profusão de tribos urbanas e a presença do arquétipo do hacker (os N.E.Is) retratam a “transfiguração” do indivíduo clássico. A falta de orientação moral (tudo é bom), o sexo radicalizado e comercializado, o poder difuso das multinacionais, a faceta totalitária e perigosa da ciência (“polícia científica”, “xiitas orgônicos”) reproduzem o nosso “espírito do tempo”.

Quem conhece Copacabana sabe que a “caricatura” de “Santa Clara Poltergeist” não é muito distinta da face real da Copacabana de hoje. Aqui o imaginário e o real se confundem. Como diz o “Papa” da ciência ficção “cyberpunk”, Willam Gibson, “quem acha que ficção científica fala do futuro é um ingênuo”. A estética “cyberpunk” não é mais privilégio (se é que ela é um privilégio) dos países pós-industriais. O Brasil pintado por Fawcett é um “Brasil laboratório em exercício” da pós-modernidade. Pelo menos no imaginário nós já vivemos a “cultura cyberpunk”.

NOTAS e REFERÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
1. A origem do termo “cyberpunk” vem da corrente homônima da ficção científica. A obra que deu origem ao movimento foi “Neuromancer” de Willian Gibson em 1984. Ver também coletânia de Bruce Sterling, Mirroshades, New York, Arbor House, 1986.
2. As californianas “Mondo 2000″, “Reality Hackers”, e “Wired”, a francesa “Terminal”, a inglesa “Interzone”, a japonesa “Hayakawa’s SF Magasine”, a holandesa “HackTick”, entre outras.
3. Sobre os jogos nazistas e clandestinos que circulam nas escolas da Alemenha, Áustria e Holanda, ver Meissner, Gerd., “Marchandise nazie. Auscwitz en jeu informatique”., in Chaos Computer Club., Danger Pirates Informatiques., Paris, Plon, 1989.
4. O imaginário cinematográfico “cyberpunk” vem se expandindo a partir dos anos 80. São exemplos a série da televisão inglesa Max Headroom e os filmes Blade Runner (81), Tron (82), War Games (83), Brazil (84), Akira(88), Terminator 2 (91), The Lawnmower Man (92), Univeral Soldier (92) e Sneakers (92).
5. Katsuhiro Otomo (Akira), Moebius, Seyfried e Reiman (Future Subjunkies), Tornatore entre outros.
6. Sobre os “vírus”, “bombas lógicas” e “cavalos de tróia” ver Lovinfosse, J-P., Le Piratage Informatique, Alleur, Marabout, 1991., Rosé,P., La Criminalité Informatique., Paris, PUF, 1988., e Clough, B.; Mungo,P. Approaching Zero. Data Crime and the Computer Underworld., London, Faber and Faber, 1992.
7. Existe uma moda “cyberpunk” na Europa e nos Estados Unidos com lojas especialisadas. As revistas citadas acima mostram, a cada número, novas expressões.
8. “Sampling”, video-arte, holografia, “morphing”, realidades virtuais, imagens de síntese. Sobre a realidade virtual ver Rheingold, H. Virtual Reality., Londres, Secker & Warburg, 1991.
9. Os Otakus japoneses são uma espécie de “hacker” radical japonês. Eles vivem isolados do mundo dentro de seus “bunkers” tecnológicos e tem um comportamento violento. Ver Greenfeld, Karl Taro, “The Incredibly Strange Mutant Creatures who Rule the Univers of Alienated Japanese Zombi Computer Nerds”, in Wired, n°1, 1993.
10. Maffesoli, M., La Transfiguration du Politique. La Tribalisation du Monde., Paris, Grasset, 1992.
11. Breton, P. Une Histoire de l’Informatique., Paris, Seuil, 1990.
12. Sobre as criaturas artificiais como Frankstein, Golem e outras, ver Breton, P. La Tribu Informatique., Paris, Métaillé, 1991, principalmente o capítulo 8.
13. Clough, B.; Mungo,P., op.cit., p.32.
14. Breton, “Une histoire …”, op.cit., p.233.
15. Ver Illich, I., La Convivialité., Paris, Seuil, 1973.
16. “Peoples Computer Club – P.C.C.” (Menlo Park,1972), “Community Memory” (Berkeley,1973), “Electronic Frontier Foundation” (Washington,1990) e outros no Canadá e na França onde o objetivo é a criação de uma participação comunitária independente em relação às novas tecnologias de comunicação.
17. Sobre as ações dos “phreaks” ver Clough e Mungo, op.cit.
18. Ver Markoff, J., Cellular Phreaks e Code Dudes. in Wired, n°1, 1993.
19. Ammann, T., Après Nous le Futur. Les Débuts du Chaos Computer Club., in Chaos Computre Club., op.cit., p.11.
20. Sobre as ações dos hackers ver: Clough,B. e Mungo., op.cit.; Hafner e Markoff., Cyberpunk. Outlaws and Hackers on the Computer Frontier., New York, Touchstone, 1991.; Acco e Zucchelli, E., La Peste Informatique., Paris, Ed. Plume, 1989.; Chaos Computer Club., op.cit. e Levy, Steven., Hackers: Heroes of the Computers Revolution., New York, Anchor Press, 1984.
21. O hacking criminal é confirmado pela existência de Bulletins Boards de piratas e pelas perdas milionárias causadas em diversas instituições. Ver Rosé, Philippe., op.cit. e Clough e Mungo, op.cit.
22. Sobre o imaginário do “puer aeternus”, ver Durand, “Les Structures Anthropologique de l’Imaginaire”., Paris, Bordas, 1969.
23. Case, o herói de “Neuromancer”, é descrito como um “cowboy do cyberespaço”. Ver GIBSON, W., Neuromancien., Paris, Ed. La Découverte, 1985.
24. Realizou-se em agosto de 1989 em Amsterdam um congresso des “hackers” chamado ITACA 89. Ver Sparfel, J-Y., ICATA 89: de l’Utilité du Piratage Informatique., in Terminal, n°47, oct-nov 1989, p.12.
25. Ver Miguel, C., Mythologies Modernes et Micro Informatique., Paris, L’Harmattan, 1991.
26. A prática do “social engennering” é uma astúcia usada pelos “hackers” para conseguir códigos (logins e pseudos) se passando por outra pessoa.
27. Pesquisa em andamento como tese de doutoramento do autor. CEAQ-Paris V Sorbonne/CNPq.
28. Fawcett, Fausto., Santa Clara Poltergeist., Rio de Janeiro, Ed. Eco, sd.
29. Fawcett, op.cit.,p.25.
30. Idem, p.30.
31. Idem, p.32.
32. Idem, p.24.
33. Idem, p.48.
34. Colóquio sobre “L’Amérique Latine à L’Aube de L’An 2000″, Paris, Université Paris VII, 14 et 21/11/92.
35. LYOTARD, J-F., La Condition Postmoderne., Paris, Editions du Minuit, 1979.
36. Gibson, op.cit., p.5.
37. Sobre o lado “dionisíaco” e “orgiástico” da sociedade contemporânea ver Maffesoli, M., L’Ombre de Dionysos. Contribution à une Sociologie de l’Orgie., Paris, Méridiens, 1982.

>> FACOM – UNIVERSIDADE DA BAHIA – por André L.M. Lemos


ASIMOV: FICCIONISTA E VISIONÁRIO DO FUTURO

quarta-feira | 20 | janeiro | 2010

Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.

A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.

São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”

Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.

O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.

“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.

Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.

Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.

Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.

“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.

Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.

Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.

Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.

Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.

Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.

Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.

Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo.
>> OFICINA LITERÁRIA – por Paulo


XOCHIQUETZAL: UMA PRINCESA ASTECA ENTRE OS INCAS

terça-feira | 19 | janeiro | 2010

Antes de falar com os reis da Espanha, Colombo foi ao rei de Portugal propor seu plano de chegar às Índias pelo Ocidente. Que aconteceria se o convencesse? O romance Xochiquetzal: uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro (Editora Draco, 144 págs., R$ 28,90) responde com uma aventura narrada por uma princesa asteca levada a Lisboa para ser educada como cristã e casada com um nobre português – a saber, Vasco da Gama. 

Xochiquetzal da Gama delicia-se em misturar xocolatl com vinho da Madeira enquanto acompanha o marido em um ataque punitivo a Calicute. Teria sido o ponto culminante dos Lusíadas de Camões na nossa realidade, mas neste romance é apenas um incidente a caminho de uma aventura maior. 

Vale notar que, no romance, Vasco da Gama não chega a Calicute depois de dobrar o Cabo das Tormentas, como na história real – e sim antes. Chega à Índia vindo do México, ou melhor, do Anáhuac, depois de ter sido vice-rei da Cabrália do Norte (América do Norte, para nós). A expedição de Bartolomeu Dias havia fracassado e os portugueses iniciam a colonização do Novo Mundo antes de chegarem ao Oceano Índico. 

É depois de partirem da Índia que Vasco e Xochiquetzal dobram o Cabo das Tormentas pela primeira vez (no sentido contrário), dão a volta ao mundo e destroçam a armada espanhola que tenta arrebatar o Novo Mundo a Portugal. Em seguida são chamados a intervir em nome de Portugal na guerra civil que divide o império incaico após a morte de Huayna Cápac, apoiando Atahualpa contra o usurpador Huáscar. 

Perfeita esposa, mãe e cronista, a princesa descreve em saboroso português quinhentista suas aventuras ao lado de Vasco da Gama nesse mundo no qual um Dom Manuel bem mais Venturoso reduziu a vassalos os imperadores inca e asteca e as “Três Cabrálias”, mas sem esmagar suas culturas e sociedades. O encadeamento dos acontecimentos pseudo-históricos e convincente a ponto de nos perguntarmos se esse caminho não teria sido mais lógico que o da história real. No mínimo, seria mais interessante. 

Há quem considere a história alternativa um gênero totalmente à parte da ficção científica, pois muitos romances de história alternativa foram escritos por autores não relacionados a esse gênero – como Philip Roth em Complô Contra a América e Michael Chabon em Academia Judaica de Polícia – e até são publicados por editoras que têm preconceito explícito contra a ficção científica, como a brasileira Companhia das Letras. 

Mas também se pode defender o contrário: a história alternativa não deixa de ser um gênero baseado na especulação ficcional sobre uma ciência, a história. E as mudanças nos caminhos da história frequentemente implicam desenvolvimentos sociais, científicos e tecnológicos alternativos, o que significa especular sobre ciências sociais e exatas como sempre fez a ficção científica. É o caso, por exemplo, de The Difference Machine, de William Gibson e Bruce Sterling, que supõe que Charles Babbage tivesse conseguido inventar o computador (mecânico) na era vitoriana e foi comentado em nossa coluna de agosto de 2008: Steampunk, saudade ou rebeldia? 

Há escritores que trafegam muito bem entre outras formas de ficção científica e a história alternativa – o que não é de surpreender, já que em ambos os casos se trata de especulação racional, em oposição à pura fantasia ou terror, que se baseiam em outras lógicas. Além de Gibson e Sterling, que antes de se aventurar na história alternativa criaram o subgênero cyberpunk ao especular sobre o impacto da internet e da informática no futuro, um bom exemplo é Philip K. Dick, autor tanto dos contos que inspiraram sucessos de Hollywood como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report quando da história alternativa O Homem do Castelo Alto, no qual se especula sobre um mundo no qual o Eixo venceu a II Guerra Mundial. 

Outro bom exemplo é o próprio Lodi-Ribeiro, que introduziu a história alternativa no Brasil com o conto A Ética da Traição, de 1992 (no qual o Paraguai vence a Guerra da Tríplice Aliança e acaba por se tornar uma superpotência) e continuou a cultivar o gênero com outras hipóteses surpreendentes – por exemplo, a sobrevivência do Quilombo dos Palmares até sua transformação em nação moderna, em uma série de contos e noveletas que incluem Pátrias de Chuteiras, A Traição de Palmares e O Vampiro de Nova Holanda. Mas antes já escrevia contos de ficção científica convencional e continua a produzi-los, como a recente coletânea Taikodom: Crônicas, baseada no universo futurista que criou para o jogo online Taikodom, da Hoplon. 

Deve-se ressalvar que, se o autor já mostrou ser capaz de trafegar entre a ficção científica e a história alternativa com fluidez e competência, aparenta um pouco mais de dificuldade com transitar do conto para o romance. O romance recém-publicado é a continuação e desenvolvimento de um conto de 1999 intitulado Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança, originalmente publicado sob o pseudônimo de Carla Cristina Pereira para tornar possível ao autor publicar mais de um conto na mesma antologia, Phantastica Brasiliana. Com algumas modificações, o conto original foi incorporado a este volume como prólogo. 

Do conto de 1999 para o romance de 2009, a evolução é notável em termos de caracterização do mundo ficcional, dos acontecimentos pseudo-históricos e da linguagem, que procura reproduzir da maneira mais convincente possível (sem deixar de ser inteligível a um leitor do século XXI) o estilo dos cronistas do século XVI. Traz um mundo mais rico e complexo, no qual a cultura, história e costumes de astecas, incas e portugueses são mais e melhor exploradas. 

Entretanto, os principais personagens não tiveram um desenvolvimento proporcional e ficaram aquém do que se espera de personagens de um romance. Ao longo de suas aventuras no Caribe e nos Andes, permanecem os mesmos do episódio inicial, repetindo os mesmos gestos, manias e bordões: conta-se vezes demais que Xochiquetzal gosta de vinho e chocolate e se preocupa com os filhos, que Vasco da Gama cofia a barba e brada ordens heroicas, que os bravos portugueses enfrentam os inimigos usando rapieira e misericórdia. 

Não, não é que tivessem compaixão para com os vencidos: “misericórdia” era o apelido de uma grande adaga ou punhal que era usada na mão esquerda (junto com a espada na direita) e que servia tanto para aparar a arma do inimigo quanto para desferir-lhe o “golpe de misericórdia”. Vale notar, também que a “rapieira” é um dos raros anacronismos não intencionais da trama, de resto bem fundamentada nos usos da época: o nome e o modelo de espada surgiram gerações depois dos Descobrimentos, na França dos mosqueteiros. Para os portugueses do século XVI diziam apenas “espada”. 

Uma caracterização que era adequada e suficiente para um conto referente a um dia na vida dos protagonistas, torna-se repetitiva, monótona e até caricatural quando é mantida ao longo de uma narrativa extensa e que acompanha a vida dos personagens durante vários anos. Um conto se estrutura em torno de um conflito simples, que sustenta por si só a narrativa: personagens apenas esboçados podem dar conta do recado. Mas num romance, espera-se que os protagonistas mostrem outras facetas, evoluam e revelem mais de si e de sua subjetividade. Salvo raras exceções, são os fios condutores da trama e devem ser interessantes por si mesmos. 

Na ficção especulativa, é frequente que a profundidade do cenário e da especulação sejam mais importantes que a dos personagens, mas ainda assim pode-se e deve-se esperar, até para melhor expressar o espírito do mundo ficcional ao qual pertencem e do qual são a face mais visível, que eles se mostrem como seres vivos e complexos, não como ideais recortados de livros escolares. Nestes casos, o heroico navegador e a princesa indígena transformada em esposa dedicada (ainda que ligeiramente alcoólatra). 

É uma pena, pois a ideia de uma filha de Montezuma nascida em Tenochtítlan (Tenochilitão, como dizem os portugueses do romance) e educada em Lisboa por clérigos portugueses é fascinante. Poderia ser uma fonte de conflitos e reflexões tão insólitas e interessantes quanto o do próprio mundo ficcional que se estende à sua volta. Mas isso apenas é sugerido: resta ao leitor imaginar como seria viver na pele de uma mulher com essa história de vida, pois ela quase nada nos diz sobre si própria. 

Numa discussão sobre o filme Avatar na comunidade Ficção Científica no Orkut, o integrante Jorge Pereira definiu o filme com a seguinte frase: “Um filme em 3D, com personagens bidimensionais e uma história absolutamente linear”. Xochiquetzal, pode-se dizer, tem virtudes e defeitos semelhantes: um cenário complexo e interessante (com menos abuso de fantástico inexplicável e de efeitos especiais), mas os personagens são planos – e o fato de a trama ser mais longa e complexa e dispensar o maniqueísmo do filme de James Cameron torna isso ainda mais patente. No conjunto, é um bom livro, mas é de se desejar que, nos seus próximos romances, o autor considere mais a necessidade de fazer seus personagens crescerem proporcionalmente às suas narrativas e cenários.
>> CARTA CAPITAL – por Antonio Luiz M. C. Costa


AS MORADAS DA UTOPIA

terça-feira | 19 | janeiro | 2010

Já me disseram que toda a ficção científica é poesia, mas o formato em si é coisa rara na literatura fantástica. São poucos os autores que se arriscam nele e, quando o fazem, é de maneira rápida, a serviço de algum efeito dramático em sua prosa, ou então como uma prática à parte, sem envolvimento com a FC&F. Mas isso tem mudado.

Especialmente em 2009, foram publicados várias coletâneas poéticas de FC&F, tais como Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos, de Eucanaã Ferraz, Antropophagya, de Marius Arthorius, Sete sombras e uma vela, Alexandre de Souza e Momentos noturnos, de Adriano Siqueira. Mas estava sentido falta de um lançamento em 2009 do meu amigo José Ronaldo Viega Alves, poeta e contista de Sant’Ana do Livramento, que há tempos vem publicando, sem falta, pelo menos um título ao ano, sempre pela editora Opção2. São 18 títulos no total e já tenho uma pequena coleção deles, a maior parte com poesias do autor, eventualmente crônicas.

E José Ronaldo não me decepcionou: recebi há pouco As moradas da utopia, coletânea poética com 58 páginas publicada em 2009, na qual o autor explora, como nas edições anteriores, suas memórias, os espaços de sua cidade natal, referências da cultura pop etc. Nem todas são explicitamante fantásticas, mas sempre há alguma referência. Por exemplo:

Cidade-universo
 

por José Ronaldo Viega Alves
Toda cidade é um universo
onde a cidade do passado
vive se entrelaçando
com a cidade do presente.
Sobretudo aquela
que cada vez mais
se perde na distância,
a cidade encantada
da nossa infância.

 

As poesias são cândidas, positivistas e construtivas, sem experimentalismos gráficos, brutalismo e outras pós-modernidades. Poesias ingênuas e saudosistas que se lê com prazer, completadas com alguns haikais nas últimas páginas.

O autor não está na internet, mas pode ser encontrado na Rua Hugolino Andrade, 941, Centro, Sant’Ana do Livramento/RS, CEP 97574-010. A editora Opção2 pode ser contatada pelo e-mail arthur.goju@bol.com.br.
>> MENSAGENS DO HIPERESPAÇO – por Cesar Silva

“HUMAN TARGET”: DOS QUADRINHOS PARA A TV

domingo | 17 | janeiro | 2010

Neste domingo, dia 17 de janeiro, estréia pela Fox americana mais uma tentativa de transformar “Human Target” em uma série de TV. O segundo episódio será exibido na quarta-feira, dia e horário que a série ocupará na grade da TV americana.

Criada para os quadrinhos, a história já foi adaptada nos anos 90 para uma série de TV que teve curta duração estrelada por Ricky Spriengfield. Agora, com Mark Valley, de “Boston Legal/Justiça Sem Limites” e “Fringe”, no papel título, a Fox espera acertar o passo.

A princípio, “Human Target” é uma tentativa da Fox de encontrar um possível substituto para “24 Horas”, série que está chegando à sua contagem regressiva, podendo ter ou não uma 9ª temporada, a qual, por sua vez, poderá ser a última.

Essa versão para a TV foi adaptada por Jonathan E. Steinberg, de “Jericho”, e traz Christopher Chance (Valley) um agente particular que salva o mundo sempre que contratado. Aparentemente Chance não tem medo de nada visto que em várias ocasiões se coloca propositalmente em situações de risco, provocando a morte sempre que pode. Sua equipe é formada por Guerrero (Jackie Earle Haley), ex-empregado da máfia,  especialista em armas, que vive no limite da legalidade.

Tem ainda Winston, interpretado por Chi McBride, que parece repetir o mesmo tipo de personagem que fez em “Pushing Daisies”, ou seja, rabugento, mas sem o tom de humor da série anterior. Winston parece ser o secretário e conselheiro de Chance, que não vai muito com a lata de Guerrero.

Uma versão condensada do piloto foi exibida na sexta-feira, dia 15 de janeiro no Canadá e já caiu na rede. O piloto tem a participação especial de Tricia Helfer, a Número 6 de “Battlestar Galactica”, e pontas de Donnelly Rhodes (o Dr. Cottle, de “Battlestar Galactica) e Danny Glover.

O visual da série sugere que as histórias serão desenvolvidas com uma certa profundidade, mas logo ela denuncia seu verdadeiro perfil:  história e situações previsíveis, apresentando um estilo narrativo típico dos anos 80 (que na minha opinião já está, ou deveria estar, ultrapassado), muita ação e heroísmos; com pouca verossimilhança, mas muita superficialidade.

A série é destinada a quem procura ação e entretenimento sem compromisso. A princípio apenas o personagem de Guerrero traz algum conteúdo para ser desenvolvido de forma a transformar a série em um seriado, ou seja, uma história com arco contínuo; algo que daria à produção espaço para aprofundar a trama.

Confira abaixo a abertura da série criada pela Imaginary Forces (responsável pelas aberturas de “Mad Men” e “Chuck”). Tal como o desenho “Archer“, lembra as introduções das séries de ação dos anos 60, as quais, por sua vez, foram inspiradas nos filmes de James Bond. A trilha sonora é de Bear McCreary, de “Battlestar Galactica”. Veja os cartazes divulgados aqui e aqui e as fotos promocionais aqui. Confira ainda os primeiros 4 minutos do piloto aqui.

O Original dos Quadrinhos

Os fãs de “Human Target” versão quadrinhos vão, com certeza, se decepcionar com a série, visto que a produção traz muito pouco da história original publicada pela DC Comics. Na HQ Chance é uma espécie de guarda-costas, que assume a identidade da pessoa que está protegendo, caracterizando-se como ela, o que o leva, com o tempo a criar um conflito de personalidade.

Este tipo de proposta já foi vista na televisão em séries como “Missão: Impossível” nos anos 60, na qual o personagem de Martin Landau, e depois Leonard Nimoy, assumiam a identidade de pessoas existentes na trama de cada episódio, muitas vezes interpretando o original e a cópia; ou Artemus Gordon em “James West”. A maioria das séries exploram uma variação desta abordagem, como em “Contrato de Risco/Stingray”, nos anos 80 em que o personagem podia assumir uma identidade existente ou criar uma nova; e ainda, mais recentemente em “Dollhouse”, na qual a personagem acredita ser a identidade que assumiu.

Mas, a perfeita caracterização do personagem nos quadrinhos sempre que assumia a identidade de seus clientes, obrigaria os produtores da série a substituírem Mark Valley por diferentes atores convidados para cada episódio, o que elevaria o custo de produção. Assim, apenas o nome e a profissão foram adaptados para a TV. Para compensar, Chance se tornou expert em tudo, à lá “The Pretender”, série dos anos 90, sendo capaz de falar qualquer idioma, e realizar qualquer ação exigida por episódio, criando uma nova identidade para infiltrar-se nos locais.

“Human Target” surgiu nos quadrinhos em 1953 sob o nome de Fred Venable em uma história da “Detective Comics”; ele retornaria em 1958 com a mesma missão e atitude na revista “Gang Busters” também publicada pela DC Comics.

Sob o nome de Christopher Chance, ele reapareceu em 1972 dentro da linha “Action Comics”, com histórias assinadas por Len Wein e Carmine Infantino. “Human Target” ganhou sua própria publicação em 1991, incorporando os amigos de Chance criados para a primeira série de TV, que seria lançada em 1992. No original dos quadrinhos, Chance trabalha sozinho. Nas duas produções feitas para a TV, o personagem ganha a ajuda de diferentes parceiros, criados especialmente para cada série.

A Primeira Versão para a TV

Adaptado para TV por Danny Bilson e Paul DeMeo, “Human Target” teve 7 episódios produzidos em 1990 mas que só foram exibidos em 1992 pela rede ABC para preencher espaços vazios na programação durante as Olimpíadas. Estrelada por Ricky Springfield como Christopher Chance, a série ainda tinha em seu elenco principal os atores Kirk Baltz, Sami Chester e Signy Coleman.

Nesta adaptação Chance é um veterano do Vietnã que se transforma em investigador particular e guarda-costas; ele cobra 10% do salário anual de seus clientes para protegê-los. Em sua equipe temos Philo Marsden, um gênio dos computadores, que criava as máscaras com as quais Chance assumia a identidade de seus clientes; Jeff Carlyle, chofer, piloto e cozinheiro; e Lily Page, ex-agente da CIA que o auxilia em suas missões de campo.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim

Confira abaixo os 5 primeiros minutos da primeira versão de “Human Target” para a TV:


O COMBUSTÍVEL DA FANTASIA

quarta-feira | 13 | janeiro | 2010

Com versões para o cinema prestes a estrear, “Onde vivem os monstros” e “Alice no País das Maravilhas” ganham novas edições, com atenção especial ao visual das obras 

Só aqueles que são rabugentos além da conta, ou estúpidos nesta mesma medida, conseguem ignorar a força e as qualidades da literatura infantil. E não me refiro à importância dela para as crianças, com toda aquela lista de benefícios que os pedagogos estão mais aptos a enumerar. Falo do prazer do adulto de ler livros que não foram escritos para eles. Caso exemplar é “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944), livro de cabeceira de muita gente grande, que nele encontra outro nível de leitura, talvez mantido oculto dos pequenos leitores. 

Outros clássicos, “Alice no País das Maravilhas”, do inglês Lewis Carroll (1832 – 1898), e “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak, são mais arredios, ainda que tenham prorrogado seu prazo de validade. Em comum, as duas obras têm a relação indissociável entre o texto e a imagem. Ponto de convergência, aliás, que confere a estas criações um caráter de atualidade, graças à quase onipresença da imagem. 

Não à toa, os dois textos acabam de ganham versões para o cinema que têm causado grande expectativa entre cinéfilos e apaixonados pela literatura fantástica. Expectativa nascida da leitura das obras (ou do conhecimento de sua existência) e crescente sob o impacto das imagens de divulgação. 

Selvagem?
“Onde vivem os monstros” chega às telas na sexta-feira. O apelo do nome da obra (um clássico da literatura infantil norte-americana do século passado) foi multiplicado pela participação de Spike Jonze no projeto. O cineasta, cultuado diretor de “Quero ser John Malkovich”, estreia numa produção para o público infantil. Jonze teve que esticar um pouco a história, como se vê no “livro do filme”, narrativa abreviada, ilustrada com imagens do longa. 

No filme, bem ao gosto de Hollywood, é reforçado o valor da família, que persiste para além do desentendimento de seus membros. Na história original, escrita em 1963, tal ideia não é tão explícita. Sendak se concentra mesmo é no papel da imaginação para a criança, em sua relação com o mundo. 

A história acompanha o garoto Max, que, depois de pintar o sete, é mandado para o quarto de castigo. Com sua fantasia de lobo, ele brinca no quarto e de lá parte em um veleiro, em busca de um lugar melhor para si, bem longe das brigas com a mãe. Depois de dias em alto mar, ele chega a uma floresta habitada por gigantescas criaturas (detalhe: o título original, “Where the wild things are”, fala de “coisas selvagens”, não de monstros). Max acaba por conquistá-los e é coroado rei da ilha. Os dias de brincadeira do novo regente logo dão lugar à exigência de uma série de decisões e responsabilidades que ele não está tão seguro de assumir. 

“Onde vivem os monstros”, em ambos os livros, já vale pelas imagens – enriquecidas pelo choque do banal e do fantástico. Fora isto, traz uma fábula simples, sem floreios simbolistas ou coisa do tipo. 

Alice e o jogo dos espelhos mágicos
Publicado originalmente em 1865, “Alice no País das Maravilhas” desde muito cedo pegou os leitores adultos – além das crianças, naturalmente seduzidas pelo mundo fantasioso concebido por Lewis Carroll. As aventuras da menina Alice começam no dia quente no campo, quando ela segue um apressado coelho branco, estranhamente trajado com colete. A toca daquela criatura falante a leva até o País das Maravilhas, onde ela conhece personagens inusitados, como o Chapeleiro Louco e o sorridente Gato Cheshire. Os jogos de lógica, as brincadeiras com a linguagem (que se tornariam obsessão da filosofia umas poucas décadas depois) e o nonsense tornaram-se paradigmáticos para a literatura. 

Logo o livro entrou para o cânone dos modernistas, que nele encontraram uma série de anunciações das transformações que eles mesmos impunham ao fazer literário. Aspecto que passou um tanto despercebido de início foi a força das imagens no livro. Em parte porque, por muito tempo, as ilustrações foram vistas como um complemento mais ou menos dispensável ao texto, sendo justificadas mais por motivos comerciais e para prender a atenção dos pequenos leitores. Mas não se pode esquecer que o autor não era insensível ao visual, quer pelo fato de ser impossível ler o livro sem desenhar mentalmente o país maravilhoso e seus habitantes, quer por Carroll ter construído uma imagem usando um trecho do livro (numa antecipação reconhecida dos experimentos da Poesia Concreta brasileira). 

Tradição
As descrições dos habitantes do País das Maravilhas, com seus animais falantes, gigantes, anões e exércitos de homens-cartas, fascinaram ilustradores. Só pelo fascínio é possível compreender a força das imagens produzidas. Hoje, quando se pensa em Alice, vem à mente uma série de imagens que vão além da primeira adaptação do livro pelos estúdios Disney (no desenho de 1951). 

A nova versão da obra, traduzida pelo historiador Nicolau Sevcenko, traz ilustrações de Luiz Zerbini. Nelas, o artista paulistano se vale do repertório visual do livro que já foi incorporado ao senso comum. Usando colagem e montagens digitais, ele faz do baralho uma constante, como se trata da matéria da qual o País das Maravilhas é feito. Menos descritivo que seus antecessores, Zerbini casa com a ideia do tradutor. Sevcenko preferiu uma recriação da obra que preza pela invenção, tentando se aproximar do espírito da criação de Carroll, mais do que ser fiel ao “pé da letra”. 

A nova versão das aventuras da menina Alice, em 3-D, chega às telas brasileiras em abril, com direção de Tim Burton.
>> CADERNO 3 – por Dellano Rios


LOST: PRODUTORES PEDEM AJUDA AOS FÃS

quarta-feira | 13 | janeiro | 2010

Você é fã de “Lost”? Está ansioso pela sexta temporada? Tão ansioso que resolveu fazer uma festa para comemorar o retorno da série? Se a resposta for sim para todas as perguntas, poderá ter a chance de aparecer no box de DVD da 6ª temporada da série.

Corre pela Internet a informação de que a Herzog Company, produtora do box de DVD, pede aos fãs espalhados no mundo todo, e que estejam organizando festas em comemoração ao retorno de “Lost”, que gravem os eventos e enviem o material para eles, o qual poderá ser selecionado para entrar nos Extras.

Para participar é necessário enviar por e-mail (katiek@herzogcompany.com) as respostas para as perguntas abaixo.

Nome, cidade/país, descrição da festa (quantas pessoas terão e como será a celebração), e formato da câmera/tape que será utilizado para filmar a festa (HDV, MiniDV, etc).  

Boa sorte!!!
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim


“OS DIAS DA PESTE” E “ANJO DE DOR”: DOIS ROMANCES SOBRE A VIDA INCOMUM

segunda-feira | 11 | janeiro | 2010

Obras de Fábio Fernandes e Roberto de Sousa Causo
movimentam a cena literária underground

Na superfície do mercado editorial, a prosa de ficção brasileira segue sem grandes emoções, desdobrando-se na confortável velocidade de cruzeiro. Nas últimas semanas o que surgiu de mais ou menos interessante? Vamos ver… Uma nova coletânea de contos de Dalton Trevisan. Um novo romance de Rubem Fonseca. Um novo romance de Luis Fernando Verissimo. Um novo romance de João Ubaldo Ribeiro. Enfim, novos livros sobre a vida comum. 

Para nossa desgraça, o adjetivo novo é usado aqui em seu sentido menos arrebatador: “que apareceu recentemente”. Sinto muito. Bem que eu preferia o sentido mais empolgante: “que indica originalidade e substitui algo ultrapassado”. Mas, esperem, não vamos desanimar… Nesse mesmo período, no subterrâneo do mercado editorial, lá onde os holofotes da grande imprensa raramente chegam, a agitação foi proporcionalmente bem maior. 

Tivemos muitas coletâneas e antologias movimentando a cena literária underground. E agora temos um novo romance de Fábio Fernandes, pela Tarja Editorial. E um novo romance de Roberto de Sousa Causo, pela editora Devir. 

Inteligências construídas
A espinha dorsal de Os dias da peste, do carioca Fábio Fernandes, é a alta tecnologia. Seu protagonista pode até ser de carne e osso, mas é a informática que desempenha o principal papel na trama. A informática e suas infinitas conexões digitais, neurológicas e espirituais, potencializando nossa capacidade cognitiva, reformulando insistentes questões epistemológicas. 

De acordo com a introdução, estamos no ano 2109 e os principais fatos narrados pertencem ao passado. O romance está divido em três partes: um diário híbrido caderno-web mantido em 2010, um blogue mantido em 2013 e uma série de podcasts gravados em 2016. As três partes revelam os pormenores de uma transição inevitável, mas traumática, na história dos seres humanos, posteriormente chamada de Convergência Neurodigital. 

Novamente de acordo com a divertida introdução, o que o leitor tem nas mãos é um fac-símile de um artefato mais do que obsoleto – um livro de papel -, mimo oferecido pelo Museu Líquido de Copacabana, em atividade no Rio de Janeiro do século 22. Algumas dicas importantes vêm em seguida. Por exemplo: textos impressos em papel não contêm links nem janela para comentários, e para virar as páginas é necessário usar a ponta dos dedos. 

São livros dentro do livro, vazados em linguagem pop. Os três antigos diários foram mantidos por Artur Mattos, professor universitário e técnico de computadores mal-humorado e solitário, vivendo na Cidade Maravilhosa suja, quente e caótica de nossa época. Certa noite Artur é chamado para atender um caso urgente e inquietante: a birra de um computador que começou a apresentar um comportamento anômalo muito parecido com a autoconsciência. A partir daí multiplicam-se os bugs e os chamados de nível três – o nível mais sério -, configurando uma estranha e imprevista crise global. 

Os computadores de um McDonald’s passam a conversar uns com os outros, sem que haja alguém nos teclados. Os computadores da empresa para a qual Artur trabalha também ganham autonomia e se rebelam, enviando mensagens terroristas. O computador de um neurocirurgião apresenta a síndrome de Tourette. Já estamos nos casos de nível quatro, todos bastante graves, mas sempre com um toque de irreverência. Esses são os primeiros dias da pandemia tecnológica que mudará a face do planeta. 

“E se um dia fosse necessário nos afastarmos de todo o conforto tecnológico que nos cerca? Se precisássemos nos desconectar de toda a praticidade da evolução digital? Caso sua vida, como você a conhece hoje, dependesse do total afastamento da informação, o que você faria?” Essas são as questões colocadas pelo Despertar presenciado e assimilado por Artur. 

Além de ficcionista, Fábio Fernandes é professor universitário, jornalista e tradutor. É dele a versão brasileira de clássicos como Neuromancer, Laranja mecânica e Fundação. Faz tempo que Fábio vem pesquisando e escrevendo sobre cibercultura, mídia digital e redes sociais, e seu romance beneficiou-se dessa pesquisa. De duas maneiras: informando e divertindo. Informando: imbricada na trama há uma série de apontamentos e diálogos que trazem para o leitor os momentos e os conceitos mais significativos da história da informatização. Divertindo: as muitas notas de rodapé, inseridas por um etimologista do ano 2109, explicam – desajeitadamente, como na revista Mad – as gírias de nosso tempo. 

Atividade paranormal
Anjo de dor é o primeiro romance escrito pelo paulista Roberto de Sousa Causo. Inédito até há pouco tempo, sua primeira versão é de 1990, quando o autor contava vinte e cinco anos, a mesma idade do protagonista, Ricardo Conte. Outras coincidências planejadas aproximam a narrativa e a biografia do romancista, entre elas o espaço físico e emocional onde a trama se desenrola: Sumaré, cidade do interior paulista onde Causo morou. 

Quem passou a infância e a adolescência numa cidade pequena sabe que nesses lugares a melancolia e o tédio apresentam certos atributos muito mais perversos do que a melancolia e o tédio dos grandes centros urbanos. Acredite em mim. O sobrenatural manifesta-se com mais intensidade nas pequenas cidades, nas mentalidades mais provincianas. 

Também esse romance está dividido em três partes: Luzes vermelhas, Milionário tatuado e Asilo de fantasmas. Um prólogo e um epílogo completam o conjunto. No prólogo, Ricardo Conte conhece Sheila Fernandes. Ele, sujeito errante e inquieto, teve muitos outros empregos e agora trabalha como barman na Flick. Ela, vinda de São Paulo, é a nova cantora da boate. O primeiro contato entre os dois gera atrito e faíscas. Estranham-se. Mal percebem que está tendo início uma dolorosa forma de paixão. E uma inesperada forma de maldição, atraída talvez pelo que tentam esconder um do outro. 

A violência torna-se rapidamente o modo mais lascivo de comunicação entre Ricardo e Sheila. Ele, durante uma discussão com a cantora, perde a cabeça e a espanca. Os fatos se precipitam. A psique de ambos é o ringue em que dois impulsos básicos, mas opostos, tentam sufocar o oponente: o bem e o mal disputam. Em busca do saudável equilíbrio, Ricardo se afasta. Ele foge da aura selvagem e obscena que lhe causa tanta repulsa. E pinta um quadro (igual ao autor, seu protagonista também desenha e pinta). Ricardo executa o retrato minucioso de uma mulher muito parecida com Sheila. Na verdade, de uma Sheila melhorada, perfeita, pura. Só assim poderá aceitá-la. Porém a figura bidimensional ganha vida e o horror tem início. Logo outros espectros surgem, misturando-se com alguns canalhas do submundo da prostituição. Espectros enigmáticos, como o Anjo de Dor. 

Além de ficcionista, Roberto de Sousa Causo é jornalista e tradutor. É dele a versão brasileira do premiado romance de Orson Scott Card, Orador dos mortos. Causo é um dos poucos especialistas brasileiros em ficção científica, fantasia e horror, e esse é justamente o título de seu estudo sobre o assunto: Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: de 1875 a 1950. Braulio Tavares, sempre lúcido, na orelha de Anjo de dor, frisou o grande potencial do romance recém-lançado: “Roberto de Sousa Causo manipula as doses certas de terror e erotismo para empurrar seus personagens, de modo quase hipnótico, na direção de um desenlace fatal. A eficiência de seu controle narrativo demonstra que a literatura de terror, nos moldes daquela praticada por autores best-sellers como Stephen King e Peter Straub, tem amplas possibilidades de se desenvolver no Brasil, como uma ampliação legítima do leque temático de nossa literatura.” 

Bônus
Há pouco tempo foi lançada também pela editora Devir a antologia Rumo à fantasia, organizada e prefaciada por Causo para o selo Quymera. Trata-se de uma ótima compilação de narrativas nacionais e estrangeiras que exploram as muitas facetas desse gênero tão pouco apreciado pela nossa intelligentsia. Estão aí Eça de Queiroz e Ambrose Bierce, Orson Scott Card e Ursula Le Guin, Daniel Fresnot e Braulio Tavares, entre outros. São treze contos em que, nas palavras do organizador, “predomina a morte como tema central: a vida além da morte, a morte em vida e as repercussões da morte”. 

A fantasia, que outros chamam de maravilhoso – Todorov, por exemplo, em sua célebre Introdução à literatura fantástica -, é a prima do fantástico e do estranho. Segundo os especialistas, as raízes do gênero estão na tradição popular: nos mitos cosmológicos e nas lendas religiosas, na novela de cavalaria, no folclore, no conto maravilhoso, na fábula e no conto de fadas. A esse gênero pertencem as narrativas de espada e feitiçaria, subgênero também chamado de fantasia heróica, como O senhor do anéis, de Tolkien, e As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. 

A antologia da Devir reúne contos incomuns sobre o mundo incomum, sobre essa realidade quase sempre distante de nossa experiência cotidiana, com suas regras próprias, sua própria lógica, acessível apenas aos videntes e aos ficcionistas devotados à fantasia. Contos que me agradaram: Uma praga de borboletas, de Scott Card, e A negação, de Bruce Sterling. Mas de todos o meu predileto é o que fecha o conjunto: Os que se afastam de Omelas, de Ursula Le Guin. Nessa curta história de menos de oito páginas, premiada com o Hugo e incluída no Fantasy Hall of Fame, o narrador vai construindo no mesmo instante em que narra, e solicitando de vez em quando a ajuda dos leitores, uma cidade imaginária chamada Omelas e seus jubilosos habitantes. E seu segredo cruel e abominável. 
>> RASCUNHO – por Luiz Bras


SETE OSSOS E UMA MALDIÇÃO

segunda-feira | 11 | janeiro | 2010

São 11 contos que fazem qualquer um sentir um friozinho cortante percorrer a espinha. Mas o medo aqui não paralisa, pelo contrário, só faz crescer a vontade de chegar à página seguinte, o que exige fôlego. Um prato cheio para quem curte histórias de terror e mistério ? e qual é a criança ou o jovem que não curte? – e um bom começo para os iniciantes neste tipo de literatura.

Em Sete Ossos e uma Maldição, não há sangue espirrando nem miolos saltando, como informa de antemão a orelha do livro. Nada explícito ou de mau gosto. Nele, a imaginação do leitor se encarrega de formar as cenas macabras forjadas através de um texto elegante. E é exatamente esse terror sugerido, literatura fantástica da melhor qualidade, que o torna tão atraente.

O primeiro conto, “Crianças à venda. Tratar aqui”, pega o leitor de primeira e dá o tom do que virá a seguir. A dúvida é uma constante. Vai ficando cada vez mais difícil dizer exatamente o que é e o que não é, o real e o sobrenatural se misturam numa atmosfera fascinante. O conto que dá nome ao livro também surpreende o leitor ao explicar o que são afinal os sete ossos e a maldição do título, aliás, uma história sinistra, como diriam os jovens leitores.

Em seu novo livro, Rosa Amanda Strausz exercita o talento de escritora infanto-juvenil com maestria. E prova que pode percorrer os caminhos da literatura fantástica sem dificuldade. “Estou sempre procurando um novo jeito de olhar, e escrever para crianças e adolescentes é quase conseqüência natural de viver procurando pontos de vista diferentes”, diz a autora. Sete ossos e uma maldição é mais uma forma de saciar o seu “olhar glutão” sobre o mundo e a literatura.
>> APAIXONADA POR LIVROS 


“SMALLVILLE” COMEÇA O ANO CHEIO DE NOVIDADES

segunda-feira | 11 | janeiro | 2010

O canal norte-americano CW revelou neste final de semana uma série de novidades do seriado Smallville, que terá sua exibição retornada em 22 de janeiro.

A primeira grande novidade é a sinopse do segundo episódio do ano, que se chamará Warrior, terá a volta da heroína Zatanna ao seriado, e será exibido em 29 de janeiro lá fora.

Em Warrior, Clark e Zatanna precisam recuperar uma história em quadrinhos encantada em uma convenção de quadrinhos. Esta edição guarda alguns dos poderes da maga.

As outras duas novidades são relacionadas ao tele-filme Smallville: Absolute Justice, que será exibido em 5 de fevereiro, com participação da Sociedade da Justiça. O CW divulgou um pôster do especial, que você confere ao lado e também em nossa galeria de imagens (clicando aqui), além de um trailer, que você vê clicando aqui.

Smallville conta a adolescência de Clark Kent, suas descobertas sobre suas origens, seus primeiros encontros com seus futuros inimigos e aliados e o desenvolvimento de seus poderes, tudo parte do caminho que o transformará no herói Superman. A série é exibida no Brasil pelo Warner Channel e pelo SBT.
>> HQ MANIACS – por Artur Tavares


“TORCHWOOD” AGORA EM DVD

segunda-feira | 11 | janeiro | 2010


Jack, Ianto, Toshiko, Owen e Gwen 

A spinoff de “Doctor Who”, que já teve a primeira temporada exibida no Brasil, chega agora em DVD. Lançado pela Log On que tem contrato de exclusividade com a BBC, o box traz 13 episódios divididos em 5 DVDs com áudio original, legendas em português, aberto para todas as Zonas. O preço é inexplicavelmente salgado, R$139,90.

“Se é um alien, é nosso”, esta é a frase que o Capitão Jack Harckness costuma dizer ao se envolver em um novo caso, interferindo com as atividades do governo inglês. Criada por Russell T. Davies, a série traz o personagem surgido em “Doctor Who” em 2005, já interpretado por John Barrowman. 
Gwen, Susi, Ianto, Owen, Toshiko e Jack

Torchwood, anagrama de Doctor Who, é o nome de um Instituto que remonta ao Século XIX. Situada na atualidade, a história apresenta os membros de um dos grupos de Torchwood, que está sediado em Cardiff caçando alienígenas e coletando artefatos que poderão no futuro ajudar a humanidade na defesa do planeta. O grupo age de forma independente ao governo e está acima das atividades da polícia que invariavelmente precisa abrir mão de alguma investigação e passá-la para os membros da Torchwood.

Quando a primeira temporada tem início o grupo é formado por Susi (Indira Varma, da série “Roma”), especialista em artefatos e segunda em comando; Owen (Burn Gorman), médico; Toshiko (Naoko Mori), especialista em computadores e equipamentos eletrônicos; Ianto (Gareth David-Lloyd), o faz-tudo, e Jack, chefe do grupo, ex-trapaceiro e ex-viajante do tempo, vindo do futuro.

A continuação do texto contém spoilers!!!
James Masters e John Barrowman

Vindo do século 51 Jack já esteve em vários lugares e épocas. Sua condição de viajante o transformou em um imortal (situação apresentada em “Doctor Who”). Desde que se uniu ao Instituto Torchwood por volta de 1899, ele vem vivendo várias situações ao longo dos séculos. Sua história é um segredo que ele guarda para si, mas que aos poucos é revelada aos demais. Em função de sua longa vida, Jack não se relaciona bem com as pessoas, mantendo-se emocionalmente afastado. Invariavelmente seus atos do passado o forçam, no presente, a tomar decisões drásticas, muitas vezes impulsivas.

A primeira temporada é composta de episódios que trabalham a introdução e desenvolvimento das personalidades e história de cada personagem, dando ênfase à solidão de cada um. Logo no piloto surge Gwen Cooper (Eve Myles), policial que testemunha uma das atividades do grupo: ressucitar um cadáver por um minuto utilizando uma luva alienígena, pré-“Pushing Daisies”. A história do piloto se desenvolve de forma a mostrar ao público a forma como o trabalho afeta as vidas de cada um. Ao final do episódio, Gwen se une ao grupo.

Ela é a única que tem uma vida pessoal estável. Morando com Rhys (Kai Owen), seu namorado, os dois planejam, no futuro, constituir família. Mas, ao longo da primeira temporada Gwen se envolve com Owen, que por sua vez não planeja manter relacionamentos duradouros. Apaixonada por Owen, Toshiko é uma japonesa que foi resgatada por Jack. Suspeita de espionagem, ela trocou a cadeia por uma dedicação quase cega aos trabalhos na Torchwood.

Logo na primeira temporada a série introduz a temática homossexual. Pela primeira vez temos uma série de ficção científica estrelada por um personagem bissexual, no caso, Jack; mas este tipo de relação não se restringe a ele. Toshiko também encara com naturalidade uma relação gay, enquanto que Gwen, sob efeito de uma “droga” alienígena, protagoniza uma cena na qual troca beijos com outra mulher. De forma natural e sem malícias ou exageros, a série trabalha o tema sem se deixar dominar por ele.

É claro que o fato de John Barrowman ser gay colaborou muito com o desenvolvimento do personagem neste sentido. Mas seus relacionamentos com outros homens somente tomam forma na terceira temporada, quando seu namorado precisa reconhecer publicamente a situação do casal.

Com histórias que remontam situações já exploradas por séries como “Arquivo X”, “Quinta Dimensão” ou mesmo “Buffy” e “Angel”, “Torchwood” consegue, através de seus personagens estabelecer uma característica própria. O olhar britânico também faz toda a diferença. Diferentemente das características de abordagem e desenvolvimento dos americanos, os ingleses não temem explorar temas, matar personagens ou mesmo destruir a idéia de que há vida após a morte.

Em vários episódios os personagens deixam bem claro acreditarem que após a morte só existe a escuridão. Defendendo a ciência e não a fé, a série derruba uma visão que atualmente está sendo explorada por diversas séries americanas. Mesmo assim, na primeira temporada foi produzido o episódio “Random Shoes”, no qual a trama é narrada por um fantasma que mais tarde encontra a “luz no fim do túnel”. A temporada termina com a introdução de um crossover que a série teve com “Doctor Who” nesta época, fazendo com que Jack desapareça, forçando o grupo a se reorganizar sem saber o que aconteceu com ele.

Na segunda temporada os roteiros trazem alguns temas interessantes para o desenvolvimento de personagens. Inicia com “Kiss, Kiss, Bang, Bang”, que abre a temporada com um ótimo personagem o qual retornaria mais tarde: Capitão John Hart (James Masters), ex-companheiro de Jack em suas trapaças pelo tempo; passa por “Sleeper”, que explora a infiltração alienígena na Terra; por “Adam”, um personagem que só existe nas lembranças pré-fabricadas por ele; “Dead Man Walking”, em que um dos personagens volta à vida graças a um artefato alienígena, mas em conseqüência disso é forçado a olhar para o vazio de sua existência (remonta “Além da Imaginação”); “Something Borrowed”, em que Gwen se descobre grávida de um alienígena; “Adrift” no qual mais um segredo de Jack vem à tona; “Fragments”, no qual descobrimos como cada membro se uniu ao grupo; e “Exit Wounds”, que marca a despedida de dois membros.

Sem se deter em cenas e situações de ação e aventura, a temporada penetra mais a fundo na história dos personagens e suas relações com os amigos, família e trabalho. Aqui também aparecem alguns atores especialmente convidados, como o já mencionado James Masters, e ainda Freema Agyeman, que reprisa seu personagem de “Doctor Who”, Marta; Alan Dale, de “Ugly Betty”, entre outros mais conhecidos pelos ingleses. Ao final da 2ª temporada a série perde dois dos personagens fixos, chegando à 3ª com apenas três membros do grupo Torchwood em ação.

Exibida em 2009 a terceira temporada é a melhor de todas. Diferentemente das duas primeiras que apresentavam uma história para cada episódio, a terceira temporada introduz uma única trama que foi desenvolvida ao longo de cinco episódios. Com isso, a série mostrou todo seu potencial narrativo e de personagens, o que a levou a conquistar uma média de 6 milhões de telespectadores.

Marta Jones e o elenco de Torchwood na 2ª temporada

Quando estreou a série foi exibida pela BBC3, conquistando uma média de 2 milhões de telespectadores para a primeira temporada. A segunda foi exibida pela BBC2, que fechou uma média de 3 milhões. A terceira, composta de apenas cinco episódios, foi exibida pela BBC1 e a audiência que ela gerou fez com que fosse renovada para uma quarta temporada. Ao menos é o que Russell T. Davies, John Barrowman e a BBC America afirmam, já que a BBC inglesa ainda não oficializou esta informação.

Na terceira temporada temos o desenvolvimento de situações, trama e personagens na medida certa. Na história, crianças do mundo inteiro começam a agir como zumbis, falando em uníssono, anunciando a chegada de alguém. Enquanto o governo tenta lidar com a situação e controlar a opinião pública, ele ainda decide eliminar a existência do Torchwood e seus membros. Fugindo de um grupo de elite militar determinados a matá-los, eles  buscam uma forma de desmascarar o governo.

Dosando as cenas de ação e introduzindo a trama logo na primeira cena, a terceira temporada, que recebeu o título de “Children of Earth”, consegue desenvolver o mistério que cerca a situação o qual vai se revelando em um crescendo. O fato desta temporada lidar com uma única história ao longo de seus episódios, e ainda ter extendido o desenvolvimento da narrativa às questões políticas, desprendendo-se do egocentrismo dos personagens, permitiu que a temporada pudesse explorar todas as alternativas que a série possibilita.

Para completar, a história de aventura e ficção proposta pela trama é uma metáfora a uma dura realidade: a sociedade está perdendo as crianças para as drogas, enquanto o governo apóia indiretamente o tráfico e camufla a realidade diante do público.

Quem gosta de aventura e ficção, com uma mescla de drama “Torchwood” é uma ótima opção. Tá certo que o elenco em muitos momentos é meio canastra, mas a aventura e a simpatia dos personagens/atores compensa.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim

Estúdio: BBC
Distribuição: Log On Editora
Tempo: 650 min
Cor: cor
Ano de Lançamento: 2009
Região do DVD: Livre
Áudio: Inglês
Legendas: Português
Formato de tela: Widescreen
Nº de Discos: 5 (13 episódios)
Preço de Lançamento: R$139,90


STAN MOTT: MÁQUINAS FANTÁSTICAS A SERVIÇO DO HUMOR DELIRANTE

terça-feira | 5 | janeiro | 2010

StanMottCyclopsCartoon16

Você já viu locomotivas a vapor disputando uma corrida estilo Fórmula 1? Ou conhece a evolução dos tanques de guerra, desde os egípcios e vikings até os tanques urbanos? Pois esses são alguns dos temas dos inspirados desenhos do artista norte-americano Stan Mott. Mott é um apaixonado por veículos de todo tipo, e com seu traço elegante e dinâmico foi um importante colaborador da excelente revista de humor, National Lampoon (publicada de 1970 a 1998) e também da revista de automóveis, Road & Track.

Para essas e outras revistas criou verdadeiras obras-primas do humor e desenho, na forma de reportagens ilustradas fictícias que resgatam uma galeria de veículos extravagantes:

- A História dos Tanques de Guerra – iniciando sua viagem com os primeiros carros de guerra criados pelos egípcios, feitos de papiro e movidos por bois; passa pelos tanques vikings (drakars com rodas), invadindo uma aldeia européia estilo Asterix; até chegar aos minitanques kamikazes japoneses, tanques asa-delta e tanques-táxi, ideais para a hora do rush.

- Tributo ao Gênio de Igor Sokerov, Designer Soviético de Aviões – Um apanhado das realizações deste gênio desconhecido, com aviões monstruosos que fariam o Spruce Goose do milionário Howard Hughes parecer um teco-teco.

- As 24 Horas de Tchu-Tchu – Uma corrida de locomotivas a vapor, com direito a uma largada eletrizante (ou melhor, a vapor), pit-stop para troca de rodas e lubrificação, e até um looping gigantesco.

Uma de suas criações mais interessantes foi o automóvel Cyclops, para a revista Road & Track. Cyclops é um pequeno veículo, que mais parece uma maleta ou um Fusca simplificado onde mal cabe uma pessoa. É difícil determinar o que é verdade e o que é ficção na história desse carro, que serviu de inspiração para uma infinidade de cartuns publicados na revista, em um período de mais de 50 anos. Com apenas um enorme farol central e um improvável motor V1 (um cilindro, 5 velas e 151 válvulas!), o Cyclops chegou a ser construído e se tornou um objeto mítico, como a criatura de onde tirou seu nome.

É interessante também notar a evolução do desenho de Mott, com um desenho nos anos 1950 que lembra o de Carlos Estevão, o artista foi aprimorando e estilizando seu traço, atingindo uma leveza que se contrapõe aos enormes tanques de guerra e porta-aviões.

A própria vida de Stan Mott mistura-se um pouco com suas criações absurdas: já deu a volta ao mundo em um diminuto kart, viveu em um iate por anos, foi piloto de avião e guia nos Alpes, atravessou o Atlântico em um caiaque e atualmente vive na Alemanha.

Em respeito aos direitos de autor não podemos reproduzir aqui seus magníficos desenhos, mas o site sbiii.com/cyclops/stmott-1.html traz mais de uma centena de desenhos que percorrem toda sua obra e dão vida à imaginação do autor, assim como fotos que podem esclarecer um pouco o mistério do Cyclops. Apertem os cintos e boa viagem.
>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini


DOCTOR WHO – ICONE DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRITÂNICA

sábado | 19 | dezembro | 2009

Icone cultural britânico como Sherlock Holmes ou o rock inglês como Beatles ou o espião do cinema James Bond-007. A Série de ficção-científica britânica, produzida e exibida pela BBC, “Doctor Who”, mostra as aventuras de um viajante alienígena pelo tempo e o espaço, sempre acompanhado de uma companhia terrestre.

Foi criado pela equipe de teledramaturgia da BBC, para a princípio, ser uma série didatica, onde os jovens poderiam conhecer a história da Terra, na companhia do Doutor, o viajante. Mas, como as estórias com outras raças e seres, atraiam mais a atenção do público, a série passou a ser mais focada para a ficção-científica.

Exibida inicialmente e ininterruptamente entre 1963 a 1989,somando-se a um telefilme em 1996 e com o retorno da série apartir de 2005, com “canon” original sempre mantido, ela entrou para o Guinness Book, como a série de mais longa longevidade da TV mundial.

Gerou mais dois Spin-offs que ainda estão em produção, “Torchwood” e “Sarah Jane’s Adventure”. O seriado se tornou bastante popular no Reino Unido e alguns outros países como Japão e Coreia. Nos States, tem uma base de fãs pequena.

No Brasil, só foi exibido no canal a cabo: PEOPLE+ARTS, com as novas temporadas de 2005 para cá. O seriado clássico nunca passou aqui…infelizmente somos acostumados a enlatados americanos.

PERSONAGENS:
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DOUTOR:
O viajante temporal, Doutor (só é conhecido assim, seu nome real nunca foi revelado), veio do Planeta Galafrey, onde havia uma raça muito avançada de Senhores do Tempo. O Doutor, viaja em uma nave chamada de TARDIS, abreveatura de “Time and Relative Dimension(s) in Space” (Tempo e Espaço em Dimensões Relativas). Nos anos 60, onde a série começa, o Doutor estava vivendo com sua neta em Londres. Ele escolheu a Terra para morar, pois gostou da história do planeta e de seu povo. O TARDIS, é uma nave camuflada,que pode levar seus passageiros para qualquer lugar no tempo e espaço, embora seu exterior pareça com uma cabine de polícia de Londres devido a um defeito irreparável no sistema de camuflagem, seu interior é muito maior do que o exterior, contendo inúmeras salas.

COMPANHIAS:
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O Doutor sempre viaja em companhia de uma ou mais pessoas, geralmente jovens e em sua maioria do sexo feminino com raras exceções. Em cada temporada da série, varia muito estas companhias. Uma das mais famosas, foi a Sarah Jane, que foi companheira do Doutor por quase 5 anos. Recentemente, ela ganhou sua propria série, com a mesma atriz, que a representou nos anos 70. Do seríado Doctor Who de 2005, para cá, a personagem Rose Tyler, foi uma das mais populares. Mesmo fora do elenco, após a terceira temporada, a atriz, Billie Pipper, a Rose, sempre faz algumas pontas na série.

VILÕES:
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A série apresentou inúmeros vilões. Três são os mais populares:

MESTRE: Personagem da mesma raça do Doutor, originário de Galafrey. Nutre um ódio enorme contra outras raças. Tem desavenças com o Doutor por causa disto.

DALEKS: Seres criados geneticamente e vivendo em casulos robos que se voltaram contra seus criadores humanos e tentam “EXTERMINAR” todas as raças que não seja Daleks.

CYBERMAN: Seres cibernéticos, que tentam “ASSIMILAR” outras raças, para melhoria das espécies.

REGENERAÇÃO E ATORES :
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Sendo um “Senhor do Tempo”, o “Doctor” tem a capaciade de regenerar o seu corpo, como forma de evitar a morte. Este conceito foi introduzido em 1966, quando os argumentistas se confrontaram com a partida do ator principal William Hartnel, como forma de prolongar a série. Desde então tem sido uma característica definidora da série, sendo utilizada sempre que é necessário substituir o ator principal. Contudo, foi estabelecido num episódio que um Senhor do Tempo apenas pode regenerar 12 vezes, a um total de 13 incarnações (apesar de ser possível contornar a situação). Até à data, o “Doctor” passou por este processo nove vezes, tendo cada uma das suas incarnações o seu estilo e particularidades, mas partilhando as memórias, a experiência e o seu sentido de moral:

Doutor e os atores vividos:
Primeiro Doutor, interpretado por William Hartnell (1963–1966)
Segundo Doutor, interpretado por Patrick Troughton (1966–1969)
Terceiro Doutor, interpretado por Jon Pertwee (1970–1974)
Quarto Doutor, interpretado por Tom Baker (1974–1981)
Quinto Doutor, interpretado por Peter Davison (1981–1984)
Sexto Doutor, interpretado por Colin Baker (1984–1986)
Sétimo Doutor, interpretado por Sylvester McCoy (1987–1989)
Oitavo Doutor, interpretado por Paul McGann (1996)
Nono Doutor, interpretado por Christopher Eccleston (2005)
Décimo Doutor, interpretado por David Tennant (2005–presente)
O 11° Doutor, será apresentado em 2010, será o jovem ator Matt Smith.

Uma caracteristica interessante, é que os atores são cada vez mais jovens. Assim, a série começou com o William Hartnell com mais de 60 anos, e agora terá o Matt Smith, com 27 anos. Nos EUA, a série clássica, foi exibida em meados dos anos 70, o que fez o ator Tom Baker, ser o mais popular por lá. Os Simpson, já mostrou o Doutor em Springfield, o conhecido Tom Baker.
A popularidade da série foi tanta, que dois filmes para o cinema, foram produzidos na Inglaterra, com o ator Peter Cushing, representando estórias desgarradas do canon. “Dr. Who and the Daleks and Daleks”(65) e “Invasion Earth 2150 AD”(66). Muitos fãs colocam Cushing, como sendo representação do Primeiro Doutor.

CONTEÚDO
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A série começou a ser exibida na TV britânica no ano de 1963, com o formato Preto&Branco. Os Episódios de cada temporada, eram dividas em estórias que formavam um arco de 4, 5 e até 6 episódios. Uma temporada poderia ter mais de três arcos de estória. A atual produção apartir de 2005, mantem um padrão americano sem arco ou alguns episódios sendo duplos. Em geral, a atual produção mantem 13 episódios por temporada com até dois especiais de Natal. Em 2009, não houve temporada, mas apenas 4 especiais. Em 2010, voltarão as temporadas normais.

O TELEFILME DE 1996
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Sendo pouco popular nos States, durante os anos 80, a Disney, comprou os direitos americanos da série, da BBC, para tentar produzir algo parecido no canal de TV Disney. Eles chegaram a convidar o Steven Spielberg para produzir a nova série, só que após longo estudo, foi visto que não haveria a mesma audiência que nas terras inglesas. A Disney desistiu, mesmo por que o relacionamento entre Spielberg e Disney esfriou no final dos anos 90.

Durante os anos 90, Spielberg novamente,depois de ter achado a série interessante, tentou comprar os direitos para a Amblin, junto a BBC. Houve alguns problemas legais, e ele acabou desistindo. A BBC, acabou negociando com a Universal e com a FOX, que estava lançando uma nova tv a cabo. Em 1996, depois de muitas idas e vindas, o telefilme Doctor Who, foi lançado na FOX TV, que não teve a audiência esperada e por que eles já tinha seu ARQUIVO X. O telefilme seria o piloto de uma nova série que acabou novamente sendo não acontecendo.

Este Telefilme, apresenta o ultimo ator que fez o Doutor Who, Sylvester McCoy, se regenerando no ator Paul McGann, que segue a estória. Como produção americana, foi filmada nos States e o Doutor tem uma companheira americana. O vilão, é o Mestre, interpretado pelo ERIC ROBERTS, irmão da Julia Roberts. Apesar dos pesares, ainda é consierado parte do canon. O ator Paul McGann, apesar de nunca mais ter sido convidado para ser Doctor Who, até hoje grava as telenovelas do Doutor pela rádio BBC e para os Audio books da série.

NOVA SÉRIE – 2005
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A BBC, com o fim da série em 1989 e o fisco do telefilme co-produzido com a Fox em 1996, só retornou as produções de TV após o ano 2000. Desta vez, a BBC, encarregou sua unidade menor, que fica em CARDIF, no país de Gales, para produzir a nova série. Ela é toda filmada lá, por um custo menor. O novo seriado, produzido apartir de 2005, tem alcançado grandes audiências no Reino Unido, levando a série a ter nova popularidade na America também, através de uma co-produção com o Canadá. Está sendo exibido pelo canal Sifi nos States, onde a série não era muito popular e está ganhando novos fãs a cada dia.

O único revés ficou por conta do ator principal escalado para ser o Doutor, Christopher Eccleston(de Exterminio), que apesar da grande audiência, descidiu não permanecer ao fim desta primeira temporada. Eccleston, mudou-se para os States, onde participa do seriado HEROES, como Claude , o homem invisível. Recentemente está na mega-produção, G.I.JOES, como Destro, chefe dos Cobras.

O ator David Tennant (Harry Potter e o Cálice de Fogo), foi contratado para ser o Doutor com a saída de Eccleston, e a popularidade só aumentou. Infelizmente, após 5 anos, Tennant, já acha que é hora de ir embora, em 2010 entra o jovem Matt Smith.

A popularidade da nova série, que traz todos elementos originais e respeita o canon estabelecido em 1963, também trouxe prêmios e reconhecimentos a série. Por três anos seguidos, ela ganhou como melhor série de TV de ficção-cientítifica do ano, laureados pelo HUGO AWARD, batendo séries americanas como as consagradas Star Trek, Star Gate e a nova Galactica.

SPIN OFF
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TORCHWOOD :
O sucesso do retorno de Doctor Who, fez com que a BBC, expandisse o universo, aproveitando um personagem criado durante a nova temporada de Doctor Who, o Capitão Jack, foi criado o Spin-off, “Torchwood”, que é um instituto que investiga atividades paranormais e alienígenas no Reino Unido. Seria uma versão Arquivo X da BBC. A série tem um apelo mais sério e adulto e pode chocar algumas pessoas, com alguns relacionamentos sexuais que aparecem na série. Já está em sua terceira temporada.

SARAH JANE’S ADVENTURE:
Um novo spinoff, só que desta vez, mais infantil, foi criado pela BBC. “Sarah Jane’s Adventure”, apresentando a ex-companheira do Doutor, Sarah Jane, em seu retorno a ação, mais de 20 anos depois de ter aparecido em Doctor Who.
>> UNIDADE DE CARBONO NO PÁLIDO PONTO AZUL


‘STARGATE UNIVERSE’ E SANCTUARY’ GANHAM NOVAS TEMPORADAS

terça-feira | 15 | dezembro | 2009

O canal SyFy americano renovou duas de suas séries para novas temporadas. “Stargate Universe”, terceira produção da franquia, foi renovada para uma segunda temporada com 20 episódios.

A série estreou este ano conquistando uma média de 2.6 milhões de telespectadores, sendo que apenas os 10 primeiros episódios foram exibidos até o momento. A série está em recesso para o natal e midseason, devendo retornar ao ar em abril (sem dia definido ainda). Os episódios da segunda fase da primeira temporada deverá apresentar uma história mais serializada que os dez primeiros exibidos, introduzindo, inclusive, raças alienígenas.

Produzida na esteira do sucesso de “Battlestar Galactica”, a nova série de “Stargate” busca uma narrativa e um desenvolvimento mais próximo desta, que das produções anteriores de sua franquia, as quais exploravam mais a narrativa de aventura.

Agora, com um grande elenco, abordando um clima mais tenso e sombrio, que trazem personagens dúbios em suas intenções, a série tem o objetivo de renovar a franquia levando-a a um novo rumo, proporcionando um potencial diferenciado. A mudança não agradou aos fãs da franquia, acostumados ao clima anteriormente explorado.

Já “Sanctuary”, que está finalizando a primeira parte de sua segunda temporada no dia 18 de dezembro, retornando no dia 8 de janeiro com os 3 últimos episódios de um total de 13. A série foi renovada para uma terceira temporada, também com 20 episódios.

“Sanctuary” se tornou a primeira série de TV bem sucedida com base em uma websérie. A primeira temporada teve uma média de audiência de 2.3 milhões de telespectadores, sendo que os primeiros 8 episódios da segunda temporada já conquistaram uma média de 2.2 milhões (já calculada a audiência de DVR – pré-gravados).

A série é mais voltada à histórias com base em ciência, ficção e aventura, tendo pouco desenvolvimento de personagens, embora eles tenham uma história para contar. Cada episódio apresenta uma aventura nova, com diferentes raças de alienígenas, tendo uma situação contínua de fundo que alinhava os episódios.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim


‘WOLF CANYON': A NOVA SÉRIE DE KEVIN SORBO

terça-feira | 15 | dezembro | 2009

Fãs de Kevin Sorbo, que fez sucesso nos anos 90 interpretando Hércules na série de mesmo nome, estão torcendo pelo retorno do ator. Ele estrela a sitcom canadense “Wolf Canyon”, já mencionada aqui, que terá o episódio piloto exibido pelo canal APTN no dia 25 de dezembro para testar a audiência.

Criada por Michael Markus e Tim Stubinski, a história apresenta o dia-a-dia de uma louca equipe de produção de uma série de quinta categoria chamada “Wolf Canyon”. Isolados do contato urbano, eles passam a maior parte do tempo filmando em uma reserva nativa no interior do Canadá. Tendo apenas os trailers como residência, membros da equipe e de atores tentam evitar o estresse e a vontade de matar uns aos outros.

Produzida pela Really Real Films, responsável por séries como “The 4400″ e “Andromeda”, que foi estrelada por Sorbo, “Wolf Canyon” também traz no elenco os atores Lorne Cardinal, Nikki Payne, Barbara Tyson, Jessica Harmon, Ali Liebert, Matty Finochio, Casey Manderson, Evan Adams, Brendan Beiser e Jesse Wheeler, entre outros.

Criada em 2007, a série tem encontrado dificuldades para ser produzida e exibida. O problema é que os canais canadenses não acreditam que uma produção que fale sobre os bastidores de uma série de TV possa vingar, apesar de terem referências atuais como “Entourage”, “30 Rock” e “Extras” que abordam o mesmo tema.

Após dois anos tentando vender a série, Allan Harmon, diretor e um dos produtores, conseguiu convencer o canal APTN em investir na produção. Mas, ainda assim, a série não tem sinal verde.

Os roteiristas desenvolveram uma história para 22 episódios iniciais em um total de, pelo menos, 65 episódios; no entanto o canal só encomendou 6 roteiros, os quais somente serão produzidos e exibidos caso a audiência do episódio piloto seja boa.

Kevin Sorbo interpreta Rick Denham, um ator que já foi famoso e agora convive com o ostracismo. Apelou para a bebida e agora só consegue trabalhos em peças montadas no interior. Até que, um convite para estrelar uma série que está entrando em sua segunda temporada, substituindo o ator principal que trocou a produção por um filme independente.

Assim, ele parte para uma reserva indígena no interior do Canadá, onde a produtora tenta conseguir mais dinheiro para manter a série. Entre os novos colegas de Rick está o dublê Hoyt Talbot Jr. (Cardinal), que já caiu tantas vezes de cabeça, que agora tem dificuldades de compreender as situações, além de misturar suas falas e confundir suas cenas.

Na história da produção fictícia, Rick (Sorbo) interpreta o delegado de uma pequena cidade, que em noites de lua cheia se transforma em lobisomen.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim


‘O LOBISOMEM': NOVO PÔSTER E VÍDEO

terça-feira | 15 | dezembro | 2009

A Universal mostrou neste final de semana um novo pôster francês de O Lobisomem, que você confere ao lado. 

A produtora mostrou também um vídeo com cenas do filme. Este você confere abaixo.

O Lobisomem traz Benicio Del Toro no papel principal, interpretando Lawrence Talbot, um nobre que retorna à mansão de sua família após o desaparecimento de seu irmão. Lá, ele reencontra seu pai, vivido por Anthony Hopkins.

Talbot aceita o pedido da noiva de seu irmão, Gwen Conliffe (Emily Blunt), para que procure o noivo desaparecido. No processo, ele descobre que aldeões vêm sendo mortos por algo feroz e sanguinário. Um inspetor da Scotland Yard, chamado Aberline (Hugo Weaving), chega à cidade para investigar os crimes. Conforme as peças do quebra-cabeças vão se encaixando, Lawrence descobre uma antiga maldição que transforma suas vítimas em lobisomens, nas noites de lua cheia. E para proteger a mulher por quem se apaixonou, Talbot deve destruir a criatura que se oculta no bosque de Blackmoor.

A direção é de Joe Johnston e o filme tem estréia marcada para 10 de fevereiro de 2009 nos EUA e 12 de fevereiro no Brasil.
>> HQ MANIACS – por Artur Tavares


‘THE SUPERGIRLS': AS GAROTAS SUPERGLAMOUROSAS DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

segunda-feira | 14 | dezembro | 2009

Mike Madrid analisa o papel histórico das mulheres nas HQs
e vê mudanças sociais e comportamentais

Botas insinuantes, malhas justas, tops estupendos, braceletes vigorosos, bustiês apertados, coxas torneadas, cintos em cinturas muito finas com grandes fivelas dividindo corpos ao meio, seios fartos, discursos de emancipação feminina. Leitores ordinários de quadrinhos não terão prestado muita atenção nisso, mas os mais atentos sabem: as superpoderosas dos comics sempre deram um banho de estilo e sensualidade.

Agora, um livro publicado nos Estados Unidos, , de Mike Madrid, debruça-se sobre esse universo pouco explorado das histórias em quadrinhos. Mike Madrid é editor de cultura pop da Exterminating Angel Press, pequena editora de São Francisco, e produziu talvez o mais interessante ensaio até agora sobre o tema. E é um sucesso: em outubro, o livro era o número 1 em compras na Amazon, na categoria comics, e o número 2 no tema “feminismo”.

Mulher Maravilha, Supermoça, Batgirl, Mulher Gato, Mulher Invisível: partindo do início das HQs, o grande mérito de Madrid é mostrar como as heroínas dos quadrinhos se vestem e se deslocam pelo mundo conforme a moral e os costumes de suas épocas. E continuam mudando: a nova Spider-Woman (Mulher-Aranha) é uma agente secreta caçadora de alienígenas, membro dos Novos Vingadores, e a Batmoça é uma lésbica de ascendência judaica.

O mundo do herói macho, nos quadrinhos, é de fato mais conservador, no estudo de Madrid. Década após década, as roupas e os personagens femininos modificam-se conforme as mudanças sociais e morais, mas os personagens masculinos permanecem praticamente os mesmos.

No início, por conta do Comics Code Authority (CCA) do Senado americano, as supergarotas dos quadrinhos tinham de seguir uma imagem palatável de mãe e esposa. São daí a laboriosa Mulher Invisível (membro do Quarteto Fantástico) e a Marvel Girl. “Eu não respondo a ninguém”, dizia a vilã Madame Medusa, que o Quarteto Fantástico enfrentou em 1965. Era assim que a mulher liberada era vista, como uma malfeitora.

Mas a consciência social começava a mudar. Em 1966, a vilã encarnada pela atriz Julie Newmar no seriado Batman, a Mulher Gato, impulsionou a felina maldosa para um patamar inédito de popularidade. Nos anos 70, com a explosão dos movimentos pelos Direitos Civis, tudo virou de pernas para o ar – e de microssaia. Em 1969, chegava com tudo uma anti-heroína de biquíni vermelho que faria o sangue dos rapazes ferver: tratava-se de Vampirella, uma revisão dos gibis de terror criada pelo editor James Warren.

Foi nessa época, em 1975, que Tempestade entrou para os X-Men, e a revolução sexual começou a dar as caras por baixo das máscaras e das malhas. As novas integrantes dos X-Men mostravam apetite para algo mais do que papéis coadjuvantes. A jovem Kitty Pryde, de apenas 14 anos, durante uma missão, em 1986, revela que está de olho nos bíceps do gigante Colossus, de 19 anos.

“Nos anos 90, tivemos uma explosão de personagens femininos e todos tinham suas próprias revistas. Mas eram incrivelmente sexualizados. Personagens como Lady Death tinham seios descomunais e eram mostrados tomando banhos em piscinas de sangue”, analisa o autor. Apesar dessa explosão de heroínas com “implantes de seios” dos anos 90, Madrid também vê avanços no mundo do comic book feminino. O maior deles, em sua opinião, foi o lançamento de um gibi intitulado Birds of Prey, uma espécie de “Thelma e Louise do mundo dos quadrinhos”.

Birds of Prey é a união de duas heroínas, Oracle (que antigamente era conhecida como Batgirl, e hoje vive em cadeira de rodas) e Black Canary. Oracle é uma espécie de irmã mais velha e treinadora de Black Canary. Em 2003, elas adicionam ao time outras duas lutadoras, Huntress e Lady Blackhawk (uma esquecida heroína dos anos 1950). Elas põem o combate ao crime em segundo plano, e discussões de questões como amor, solidariedade e sexo em primeiro.

Outra heroína típica dos novos tempos é Jenny Sparks, líder de The Authority. Jenny bebe e fuma, é bissexual e “conserta” o mundo na porrada. Mulheres violentas e mulheres vítimas de violência. Em 2006, quando a primeira Robin mulher, Stephanie Brown, foi brutalmente assassinada nos quadrinhos, comunidades de fãs feministas começaram a discutir o tratamento dado aos personagens femininos. Eles acusavam os editores de preconceito, já que outros Robins que passaram pela Batcaverna tinham memoriais na saga de Batman, e Stephanie foi imediatamente esquecida. A pressão surtiu efeito. Este ano, a DC Comics lançou uma nova série em que Stephanie ressuscita e se torna a nova Batmoça.

“As pessoas me perguntam por que as mulheres não leem quadrinhos. Eu acho que elas leriam, mas os gibis de super-heróis são todos sobre brigas e as mulheres estão procurando por algo mais que isso”, diz Mike Madrid. De olho nesse universo e no crescimento do leitorado feminino, as editoras começaram a pensar com mais atenção no que pode ser atrativo para o mundo das supergarotas.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO


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