Editorial
De quantas formas diferentes se pode atravessar uma rua?
De quantas maneiras se consegue viajar para outro planeta?
São perguntas fáceis e a o mesmo tempo difíceis de responder.
Fáceis, porque dada a objetividade dos fatos — atravessar a rua ou ir para outro planeta — o número de possibilidades de respostas que se tem para elas é pequeno.
Difíceis, sim, porque a aparente facilidade em respondê-las suscita rapidamente outra questão. E o homem, parado no meio fio, olhando para o outro lado da rua, deveria se perguntar: “mas será que não existem outras formas de atravessar essa rua?“
Só que uma rua, uma calçada, objetos dessacralizados pelo massacrante uso cotidiano, não se prestam a este tipo de reflexão. Não constituem nenhum desafio, não existem [aparentemente] descobertas a se fazer no outro lado da rua.
Mas no céu, sim. E parado sob uma noite estrelada, olhando para cima, o homem sonha.
O homem imagina.
O poder da imaginação, que alça o homem às estrelas, atrai no seu vácuo primeiro a especulação, depois a ciência e, por fim, o conhecimento. E o conhecimento traz o homem de volta das estrelas, para dentro dele mesmo, num perpétuo movimento de expansão e contração que a tudo anima e ao qual chamamos vida.
Portanto, é necessário que tentemos ir audaciosamente aonde nenhum homem jamais esteve, pois dessa forma encontraremos a vida — fora — em outros planetas, e a vida — dentro — o movimento interno, o que nos permitirá até tornar o ato banal de atravessar uma rua numa ação transcendente.
E descobrir, finalmente, que existem infinitas maneiras de se atravessá-la.
Silvio Alexandre