Biblioteca de Babel: “O Olho de Apolo”, de G. K. Chesterton

quarta-feira | 30 | abril | 2008

A influência de Gilbert Keith Chesterton em Jorge Luis Borges é evidente. Podemos encontrá-la na sua escrita, na estrutura lúdica e algo artificiosa das suas narrativas e, especialmente, na obsessão do escritor argentino pelo tema do duplo. Inúmeros são os contos em que esta temática é explorada. Neles sente-se a presença de Stevenson, sem dúvida, talvez um pouco a de Poe, mas é a figura de Chesterton que nos vem mais à memória quando lemos sobre labirintos e espelhos. Por isso nada mais natural que o aparecimento de um número dedicado a este escritor na colecção de literatura fantástica A Biblioteca de Babel”, dirigida por Borges e editada por Franco Maria Ricci.

É esta colecção que a Editorial Presença tem vindo a publicar, mantendo as capas originais, e da qual já saíram sete números. Sendo o último, com o título de O Olho de Apolo, precisamente aquele que homenageia Chesterton.

O livro é composto por cincos contos: “O Olho de Apolo”; “A Honra de Israel Gow”; “O Duelo do Dr. Hirsch”; “Os Pés Estranhos” e “Os Três Cavaleiros do Apocalipse”. Os quatro primeiros têm como protagonista o célebre detective Padre Brown, quase um alter-ego do escritor. Todos se estruturam em redor da resolução de um enigma.

Antes dos contos temos uma pequena introdução do próprio Borges onde está patente o fascínio que sente por Chesterton. Diz ele: “Podemos antever uma época em que o género policial, invenção de Poe, tenha desaparecido, sendo de todos os géneros literários o mais artificial e aquele que mais se assemelha a um jogo. O próprio Chesterton escreveu que o romance é um jogo de rostos e a narração policial um jogo de máscaras… Não obstante esta observação e a possível decadência do género, estou certo de que os contos de G. K. Chesterton serão sempre lidos, uma vez que o mistério sugerido por um feito impossível e sobrenatural é tão interessante quanto a solução de ordem lógica que nos revelam as últimas linhas.” Esta frase resume a peculiaridade das histórias policiais de Chesterton. Antes de a razão vir iluminar os acontecimentos, o mundo, por momentos, parece mergulhado no absurdo, na irracionalidade e no fantástico. Uma atmosfera, umas vezes onírica, outras ominosa, perpassa toda a narrativa. Imagens de assombro invadem a nossa imaginação durante a leitura, e lá permanecem muito depois de esta ter terminado.

Essa persistência é uma das facetas do génio de Chesterton. A sua escrita é altamente poética e visual, mesmo pictural (Chesterton chegou a trabalhar como ilustrador nos inícios da carreira). Ninguém que leu Chesterton esquece os seus fulgurantes pores-do-sol, cheios de laranjas, violetas, azuis; nem os seus luares cintilantes.

O livro abre com o conto “O Olho de Apolo” (“The Eye of Apollo”). É um conto estranho, de certa maneira um paradoxo. Tudo de se passa num moderno prédio londrino, onde trabalham duas irmãs dactilógrafas, um detective privado e um adorador do Sol. Chesterton consegue aqui um cocktail bizarro que mistura elementos pagãos – o deus Apolo, sacerdotes, esoterismo – com símbolos da modernidade – máquinas de escrever, elevadores. No meio desta amálgama de sinais contrários ocorre um crime de uma simplicidade assustadora, quase monstruosa. É um conto muitíssimo inteligente. Um dos melhores de Chesterton.

De Londres passamos para as florestas misteriosas e agourentas da Escócia. É lá que se passa a acção de “A Honra de Israel Gow” (“The Honour of Israel Gow”). Num castelo misterioso, durante uma noite tempestuosa, o Padre Brown e os seus amigos reúnem-se para desvendar um enigma que envolve o desaparecimento inexplicável de um homem e o aparecimento, ainda mais inexplicável, de vários objectos bizarros. Notável é a criação de toda uma atmosfera feérica que envolve e sufoca as personagens – e o leitor. Um mal irracional e primevo parece emanar das árvores da floresta e o uivo do vento desperta memórias de espíritos malignos. No final, a luz vence as trevas e o mistério é desvendado, mas não sem antes a imaginação do Padre Brown lhe ter pregado alguns sustos.

O conto seguinte, “O Duelo do Dr. Hirsch”, passa-se em França. A narrativa gira à volta de um documento roubado, mas isso é só um pretexto para Chesterton explorar um dos seus temas favoritos, o tema do duplo. É engenhoso mas não tem o mesmo poder evocativo dos outros contos.

Em “Os Pés Estranhos” regressamos a Londres e a mais um conto clássico Chestertoniano. O Padre Brown encontra-se num hotel – um hotel muito especial e muito britânico na sua excentricidade – a tratar da sua vida quando esbarra inesperadamente num crime, ou talvez seja melhor dizer que é o crime que esbarra no Padre Brown. Este conto é extraordinário por ser ao mesmo tempo simples, original e complexo.

Por último temos aquele que Borges designa na introdução como o melhor conto de Chesterton. A história que contém o mistério é narrada por um tal de Mr Pond a um grupo de amigos. A acção passa-se numa zona desolada da Polónia e tem como protagonistas três cavaleiros hussardos. O que é realmente impressionante neste conto é a qualidade dantesca da paisagem que serve de cenário à narrativa. Estamos perante um tipo de paisagem que Dante não desdenharia em incluir num dos círculos do inferno. Vastas planícies pejadas de pântanos e brejos surgem perante o leitor. Só um estreito caminho, ladeado de encostas, quebra a imensidão plana. É por este caminho que os cavaleiros, meros pontos na paisagem, se movimentam. É no contraste entre a dimensão humana – pequena e volátil – e a dimensão da natureza – grande e eterna – que reside o brilhantismo deste conto.

É tão raro haver edições de Chesterton em português que é de saudar cada nova que aparece. No entanto é necessário apontar um aspecto negativo nesta edição que afecta a fluidez de leitura. É o facto de não haver nenhuma pista gráfica a indicar a separação dos parágrafos. Esta opção torna certas passagens do texto confusas sem necessidade. É incompreensível e mais uma prova da importância que o design gráfico tem na fruição de um livro. Um aspecto muitas vezes negligenciado pelas editoras portuguesas.

Uma palavra final para a tradução. Chesterton não é um autor fácil de traduzir devido à qualidade poética da sua escrita mas o tradutor conseguiu sair-se bem e fez um trabalho competente, apesar de, para uma pessoa habituada a ler Chesterton no original, ter ficado a sensação de faltar qualquer coisa.

Os contos foram publicados originalmente nas seguintes colectâneas: The Innocence of Father Brown (1911): “O olho de Apolo”, “A Honra de Israel Gow” e “Os Pés Estranhos”; The Wisdow of Father Brown (1914): “O Duelo do Doutor Hirsch”; The Paradoxes of Mr Pond (1937): “Os Três Cavaleiros do Apocalipse”.
>> ORGIA LITERÁRIA – por Ana Q


Entrevista com Octávio Aragão

segunda-feira | 28 | abril | 2008

O blog UARÉVAA fez uma entrevista com o escritor, educador, designer e ilustrator Octavio Aragão sobre literatura, história em quadrinhos e ficção científica.
Para começar, quais autores de FC mais lhe inspiraram?

Essa é fácil. Ray Bradbury foi meu “pai espiritual” na ficção científica, mas houve outros. Passei anos escrevendo redações de colégio baseadas em contos de Poe, como Ligéia, Os Dentes de Berenice e Descendo no Maëlstrom. Tudo lixo, claro. Antes ainda, havia Monteiro Lobato e A Chave do Tamanho. Sim, li toda a obra infanto-juvenil do mestre, mas meu preferido sempre foi aquele romance onde Emília reformata a humanidade.

Foi a partir deles que lhe veio à vontade de escrever esse gênero de literatura?
Poe e Lobato não são considerados *FC*, mas foram minhas primeiras grandes influências estritamente literárias e, se escrevo dentro do gênero, devo isso a eles. Hoje as coisas mudaram bastante e tenho apreciado escritores como Dan Simmons, China Miéville e Harry Turtledove.

Em sua opinião como está o mercado editorial de ficção cientifica no Brasil atualmente?
Creio que está melhorando. Mal posso esperar pelo surgimento do TaikoDom, jogo multimídia construído sobre os textos de Gérson Lodi-Ribeiro. Mas, além disso, ocorre um fenômeno que eu e Fábio Fernandes esperávamos desde 1998: aqueles que estão chegando aos cargos de comando das editoras brasileiras são, finalmente, de nossa geração ou mais novos. Foram garotos criados com os conceitos de FC na cabeça.

Para você quais os autores que mais se destacam nacionalmente no gênero?
Há um grupo de qualidade incontestável dentro da FC nacional – destaco Bráulio Tavares, André Carneiro, Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi, Max Mallmann e Fábio Fernandes – que vem trabalhando há décadas (no caso de André Caneiro, quase meio século) e maturando o estilo a um ponto de altíssima qualidade. Mas há uma nova geração despontando com trabalhos dignos de nota. Autores como Flávio Medeiros, Jorge Moreira Nunes, Osíris Reis, Gabriel Boz, Ana Cristina Rodrigues e Osmarco Valladão darão muito o que falar.

Essa geração – que nem é tão nova assim – tem um saudável descompromisso com os que vieram antes, não se sentem na obrigação de provar nada a ninguém. Eles apenas produzem e pronto. Com força, peso e distorção.

Uma das suas últimas obras, o livro A Mão que Cria, tem muita inspiração nos quadrinhos. Como você vê esse diálogo entre quadrinhos, literatura e até o cinema? Até onde o público de uma mídia pode ir para a outra por influência dessas junções?
Na verdade, sou um quadrinista que publica textos sem imagem, apesar de desenhar profissionalmente desde 1984. Não consigo separar as mídias, acredita? Para mim, cinema é um tipo de literatura, assim como as HQs e até certos games.
Estou apostando todas as minhas fichas no futuro de uma sociedade de consumo multimidiática, onde livros, álbuns, sites, games, filmes e remixes de todas essas formas de comunicação interajam. Espero que até a gramática se adapte a isso, criando verbos novos como “vler” ou “ouvler”. E a internet é a ferramenta indispensável para essa transformação.

Em 2007, você criou o Intemblog para escrever histórias novas no mundo virtual sobre o Universo Intempol, pretende continuar esse ano postando novas aventuras?
Rapaz, tenho tantas coisas penduradas para terminar até 2009, que acredito numas férias para a Intempol. Ou não… Talvez apareçam novidades mais cedo do que os críticos esperam. Na verdade, essa é a alma da Intempol: todas as vezes em que parecia que já tinha se esgotado, pumba!, algo novo despontava no cronômetro.
Neste momento já disse tudo que queria a respeito da série. Escrevi quatro histórias, duas publicadas em 1998 e as outras em 2007/08. Dez anos para fechar um ciclo. É hora de tentar outras paragens, mas sabe como é, velhos hábitos…

Em quais projetos você está envolvido atualmente?
Escrevo a continuação de A Mão Que Cria, que, como todo mundo que leu o primeiro livro sabe, chama-se A Mão Que Pune. Pesquiso para o próximo romance, cujo título provisório é O Piscar. Envolve física quântica e muito material que entorta mentes. Tem uns continhos voando por aí, prestes a ganhar publicação em antologias no Brasil ou em Portugal.
Mas a grande surpresa deve aparecer em 2009, e creio que o povo vai gostar quando botar os olhos no produto final. É um projeto no qual venho trabalhando há um ano em total segredo – nem os amigos mais chegados sabem – e que vai revelar um mega-talento ao mercado.

Pode deixar algum recado pros nossos leitores?
Olha, o que posso dizer é: não gaste munição a toa. Mire antes de atirar. Tenho certeza que a maioria dos grandes talentos do Brasil desistem antes da maturidade por pura impaciência de amadurecer. Quando sentir que está pronto, não perca tempo reclamando. Vá em frente e mate o monstro. Se você der azar e morrer no processo, ressuscite e ataque outra vez. Abçs.

PS: Um livro que não foi comentado na entrevista, mas que indico do Octavio é uma publicação virtual da Mojo Books: Quadrophenia
>> UARÉVAA – por Jack Starman – 3/04/2008

Uarévaa é um abrasileiramento da expressão em inglês Whatever, que pode significar uma porrada de coisas, ou porra nenhuma, depende da forma que se fala.


Tese de Ficção Científica na Academia

segunda-feira | 28 | abril | 2008

O Edgar Indalecio Smaniotto foi aprovado no Doutorado em Ciências Sociais na UNESP de Marília, com projeto de pesquisa relacionado a ficção científica brasileira.

Título: *EUGENIA E LITERATURA NO BRASIL: apropriação da ciência e do pensamento social dos eugenistas pelos escritores brasileiros de ficção científica (1922 a 1949)*

Ele comentou:

“Espero fazer uma pesquisa de fôlego, recorrendo a arquivos e etc, a fim de responder algumas questões: O que levou esses literatos a apoiar e divulgar práticas científicas e sociais que mais tarde pareceriam não apenas cientificamente insustentáveis, mas também imorais? Como essa apropriação ocorreu? Qual foi o nível de difusão social que essas obras tiveram em seu tempo? E em nossos dias? E, principalmente, como entender esse momento histórico preciso? Suas práticas sociais e científicas podem ser úteis para entendermos a realidade atual (início do século XXI)? Pode a genética, que se tornou um movimento científico e social tão importante quanto a eugenia foi no começo do século XX, acabar por tomar rumos parecidos? E etc.”

“Na pré-pesquisa verifiquei que o “Papa” da Eugenia Brasileira, Renato Kehl, mantinha correspondência com Monteiro Lobato antes, durante e depois da confecção do livro “O Presidente Negro ou O Choque das Raças” (1922), e a futura análise destas com certeza vai esclarecer em muito as relações de Lobato com o movimento eugênico.”

Bom espero daqui a três anos conseguir terminar esta pesquisa oferecendo uma contribuição importante para a FC Brasileira. Minha orientação será feita pela antropóloga *Dr.ª Christina de Rezende Rubim.”  
   

Edgar Indalecio Smaniotto é Mestre em Ciências Sociais, pela UNESP e autor do livro: A Fantástica Viagem Imaginária de Augusto Emílio Zaluar” (Editora Corifeu), um ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira.

Natércia Campos, arquiteta de seres

quarta-feira | 23 | abril | 2008

Em A Casa, de Natércia Campos, a história da colonização do Ceará, é contada na perspectiva de uma casa sertaneja, erguida com esmero e arte, que viu nascerem e morrerem gerações, secas e invernos, cavaleiros encourados e automóveis.

 

Nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis se vale de um artifício literário para iludir o leitor: como pode um morto escrever? À primeira vista, seria uma narrativa fantástica. Recurso semelhante se vê no romance A Casa, de Natércia Campos. Pode ser catalogado como literatura fantástica, eis que desde as primeiras linhas a narração cabe a uma casa:

 

O personagem Eugênia, no romance, é o alter-ego de Natércia Campos: um grupo de jovens engenheiros chega à casa, muito tempo depois daqueles acontecimentos narrados ao longo do livro. “Do grupo destacou-se uma moça alta a me lembrar as que aqui viveram, por seus gestos alados”. No breve diálogo transcrito, sabe-se que essa moça é Eugênia, chamada de historiadora por um dos rapazes, escreverá uma história, pois “anda enveredando por um ensaio sobre nossas superstições”, e “terminará contando a história desta casa e será este o seu terceiro trabalho.” Natércia estreou com o volume de contos Iluminuras, seguido de Por terra de Camões e Cervantes (Viagem). Provavelmente, A Casa é anterior ao terceiro livro publicado: A Noite das Fogueiras (História).

 

O construtor e primeiro dono da casa veio do Entre-Douro e Minho, de nome Francisco José Gonçalves Campos, no início da colonização do Nordeste brasileiro. A casa se situa “entre serrotes, perdida na imensidão da caatinga”, abaixo da Serra dos Ventos, num lugar onde habitaram os índios cariris. Não há nenhuma outra alusão a topônimos conhecidos que possa conduzir o leitor a saber onde a edificação se ergueu.

 

A Casa, como narrativa, tem construção inusitada: à medida que os personagens vão aparecendo, outras histórias – ocorridas longe da casa – vão sendo contadas, como a do “encoletado em couro”, narrada pelo “passador de gado”, verdadeiro conto de horror. A do “menino de rasto de pluma”, contada por uma mulher. Ou seja, sendo a casa a narradora, as ações se passam entre suas paredes. Mas, como paredes têm ouvidos, ela também ouve histórias. E assim explica seu método de narrar: “O que vivi no longo tempo que me foi dado tornou-se um infindo círculo de viventes, gestos, vozes, imagens, atos que surgem imprecisos de suas épocas e gerações. Emaranham-se as histórias. Voltam sem o ímpeto, a chama que lhes deu vida, e de todas elas sei o final, o desfecho. (…) Diferem das histórias contadas pelos homens até porque o tempo deles é por demais curto.”

 

A história apenas narra, sem nunca se valer da transcrição de diálogos. As falas dos personagens não aparecem antecedidas de travessões, como nas narrativas tradicionais, a não ser na parte final, quando surge o grupo de engenheiros, ou quando contadores de histórias se põem a falar. A Casa é onisciente: tudo vê, tudo ouve, tudo entende, tudo guarda na “memória”. E isso dá a entender a todo o momento: “Lembro-me da primeira vez”; “Escuto a voz do meu primeiro dono”; “Longo foi o tempo sem chuva”.

 

A Casa narra como se fosse pessoa humana. Mais: como se fosse pessoa letrada. Embora seja história da caatinga, de gente rude, sertaneja, cheia de superstições e crendices, mesmo endinheirada. A construção das frases é limpa ou límpida, muitas vezes próxima do português castiço ou clássico. Apesar disso, Natércia – cidadã urbana – demonstra amplo conhecimento da vida rural, dos costumes, da linguagem, do vocabulário próprio do sertão. Porém não se deixou atrair pelas arapucas da fala regional, que muitas vezes dificulta a leitura. Permaneceu fiel às suas origens portuguesas e cearenses. Pois é sabido que a língua portuguesa se firmou muito mais no Nordeste (Pernambuco até o Piauí) do que no resto do país, sem fortes influências africanas (Bahia, Maranhão, Minas) ou de outras línguas européias (São Paulo e Sul).

 

São muitos no livro os vocábulos de um português (de origem árabe e latina) em desuso: almenara, camândula, ensalmo, ensamblar, estipe, jaculatória, poalha, responso, ripostar, terciopelo, tisana, etc. Nada, porém, de construções frasais obscuras, de arquitetura palaciana. Pelo contrário, tudo muito simples, embora rico em imagens, descrições ornamentais, porém nada enfadonhas ou inúteis, narrações elípticas. Como se vê em toda grande obra literária.

<a href=”http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=2811” target=”_blank”><strong><span style=”font-size:xx-small;font-family:arial;”>>> </span><span style=”font-size:xx-small;font-family:Verdana;”>Cronópio – por Nilto Maciel</span></strong></a>

 

Nilto Maciel (Baturité, 1945) é um dos fundadores de O Saco. Publicou as seguintes coleções: Itinerário, 1.ª ed. 1974, 2.ª ed. 1990, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Tempos de Mula Preta, 1.ª ed. 1981, Secretaria da Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro, RJ; Punhalzinho Cravado de Ódio, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará.; As Insolentes Patas do Cão, 1991, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Babel, 1997, Editora Códice, Brasília; e Pescoço de Girafa na Poeira, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília. Tem novelas, romances e poemas em livros.  Pertenceu ao Grupo Siriará. Editor, desde 1991, em Brasília, da revista Literatura. Em 2003 a transferiu para Fortaleza. Tem contos traduzidos para o espanhol, o italiano e o esperanto. Ganhou alguns prêmios também no gênero conto.


Pepetela – “O quase fim do mundo”

quarta-feira | 23 | abril | 2008

Em seu último romance O Quase Fim do Mundo (Edições D. Quixote)o escritor angolano Pepetela, apresenta uma Terra desprovida subitamente de vida animal, com excepção de um pequeno recanto do mundo numa zona desgraçada de África que vai precipitar o desequilíbrio das relações internacionais e empurrar sem dúvida (a leitura o confirmará) o romance para o território da fantasia política.

 E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata O Quase Fim do Mundo. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.

 

 

«Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso… Ao mesmo tempo, que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.»

 

A seguir, uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.

 

E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?
Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: “Isto até dava mais umas 800 páginas.” Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

 

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?
O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.

 

Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. “Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo”
Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.

 

Como dá importância aos nomes…
Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.

 

 A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento…
Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.

 

 Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.
Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso… Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?

 

 E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?
Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.

 

 A ironia ajuda na desgraça?
Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.

 

 Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?
Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.

 

 Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse…
Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira… Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.

 

 Essa angústia do resultado termina quando?
Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.

 

 Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?
Agora sim.

 

 Então há uma altura em que passa?
Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer “acertei ou não acertei tão bem…”

 

 O leitor não lhe é indiferente?
De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.

 

 Por exemplo?
Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.

 

 Porque publicou?
Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.

 

 Ainda não se tranquilizou com ele?
Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer…

 

 O que é isso de ter todo o tempo do mundo?
(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.

 

 Antes dos ‘Predadores’?
Sim. Há uns 15 anos.

 

 Porque adiou tanto?
Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.

 Diário de Notícias11 março de 2008

 

 

 Nasceu em Angola, licenciou-se em Sociologia, foi guerrilheiro, político, ganhou o Prémio Camões em 1997, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

Falamos naturalmente de Pepetela a quem tivemos o prazer de entrevistar.

 

 «E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas? Nunca um fenómeno assim acontecera, bairros inteiros desertos, sem sequer um bebé, com viaturas pelos cantos, algumas de portas abertas. Devia ser outra coisa. E nada boa, disse o meu coração apertado.»

 

A ideia de sobrevivência a um holocausto, tema do livro, pode ser vista como uma simples ficção ou como um sério aviso para os actuais caminhos da humanidade?

Digamos que é uma ficção, e era isso que queria fazer, uma ficção onde me sentisse livre de inventar o que me desse na gana. Mas como sou um cidadão preocupado com os rumos do Mundo, é evidente que essas preocupações aparecem. Pode ser tomado também como um aviso para as consequências das brincadeiras que nos permitimos fazer com o ambiente.

 

«Estava mais que provado não ser possível construir uma população a partir de um par original, sem contributos de genes externos, a ciência contrariando as crenças bíblicas de um Adão e Eva serem antepassados únicos de toda a humanidade.»

 

Ao lermos o livro ficámos sempre com a sensação de uma clara intolerância às crenças religiosas, que de resto justifica. Porém, um dos personagens é um quimbanda (feiticeiro) por quem o narrador tem sempre uma visível tolerância, atribuindo-lhe até conhecimentos ancestrais capazes de o fazerem adivinhar uma gravidez. Não haverá alguma condescendência da sua parte em relação a estes feiticeiros?

Não acho haver intolerância em relação a crenças religiosas, que respeito. Sou intolerante em relação às intolerâncias, o que é diferente. E por que não ter alguma simpatia por práticas ancestrais em que tantos do meu povo acreditam? Não é por aí que vem grande mal ao Mundo…

 

«Uma civilização desenvolve-se até poder fabricar as armas capazes de a destruir, tal é o seu destino.»

 

Estará o ser humano irremediavelmente perdido? O que podemos fazer para contrariar este vaticínio?

Perdido não estará irremediavelmente. Mas tem de aprender a usar o enorme poder que tem entre mãos e, sobretudo, a dominar os seus apetites e arrogâncias. Alguma humildade só lhe faria bem.

O leitor vai certamente surpreender-se com a explicação para o quase fim do mundo. A sensação que se tem, quando se acaba de ler o livro, é que o escritor se vai preparar para continuar a história. Como é que a nova humanidade se vai desenvolver, de quem serão as crianças que vão nascer, como é que se compatibilizarão mentalidades tão diferentes como o da Dona Geny, o de Riek ou o de Ísis, ou o do estranho Jan Dippenaar. O Pepetela já terá certamente imaginado, ainda que superficialmente, no que poderia vir a acontecer. Há a possibilidade de retomar o tema?

De facto, já disse que esse livro podia ter outras tantas páginas. A estória pediu-me para terminar ali e eu fiz-lhe a vontade. Mas é evidente que dava para continuar. Até chegarmos a uma nova civilização que se destruísse. Mas não tenho a intenção de retomar o tema, embora nunca diga de uma forma definitiva. Quem sabe?

Que diferença há entre o Pepetela que escreve Predadores e o Pepetela que escreve O Quase Fim do Mundo?
Os livros são diferentes, como devem ser todos os livros de todos os autores. O tema é outro, até mesmo o cenário. Mas, provavelmente, haverá uma mesma preocupação de fundo, o destino das pessoas.

Quais têm sido as suas principais referências literárias? Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado?
Há muito variadas. Na minha juventude foi a literatura brasileira e a norte-americana, com excursões sérias pela francesa, italiana e russa. Mais tarde fui encontrando outros. Ultimamente, um autor que me impressionou muito e de quem já li praticamente toda a obra foi Phillip Roth.

Sabemos que faz parte da União dos Escritores Angolanos. Gostaríamos que resumisse para o Portal a situação actual da literatura angolana, os valores que vão despontando e, finalmente, o que pensa do acordo linguístico recentemente assinado.
A literatura angolana ainda não se afirmou como poderia. Houve períodos em que até era difícil publicar no país e os jovens tinham poucos hábitos de leitura. Isso reflecte-se na actualidade, em que têm aparecido poucos escritores jovens que se afirmam. Um problema sério é o fraco domínio que têm da língua portuguesa, pela fraca qualidade de ensino que enfrentamos. Há talentos, há estórias, muita criatividade, mas por vezes falta a ferramenta linguística ou os apoios necessários ao começo. Mas penso que a literatura se vai desenvolvendo progressivamente.
Quanto ao acordo ortográfico, acho que se está a discutir muito sobre pouco. Ou era um acordo radical, que unificaria de facto a grafia (e só isso) ou então não valeria a pena mexer. Nunca ouvi de alguém não ter conseguido ler um livro brasileiro porque tem tremas ou certas consoantes que caíram no meio das palavras. O importante seria os governos porem-se de acordo para, de uma vez por todas, acertarem uma política comum de desenvolvimento e promoção da língua portuguesa. Isso sim, seria importante.

Portal da Literatura


Por que a Ficção Científica Brasileira é Invisível e Marginalizada?

terça-feira | 22 | abril | 2008

Um panorama sobre a atual literatura de ficção científica brasileira.

O texto foi preparado para o painel “O silêncio da crítica e a marginalização da ficção científica brasileira: Ficção e Realidade”, dentro do espaço que o gênero ocupa na literatura brasileira no simpósio “Invisibilidade – Encontro de Ficção Científica”, realizado no Itaú Cultural.

No dia 2 de setembro de 2006 foi realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, o simpósio “Invisibilidade – Encontro de Ficção Científica”. Organizado pelo escritor Roberto de Sousa Causo, constituiu-se num evento como há muito não se via na comunidade brasileira dedicada ao gênero. O nível dos debates e seus participantes revelou-se além das melhores expectativas, assim como a boa participação do público, que permaneceu das dez da manhã às oito da noite acompanhando os painéis sobre vários aspectos relacionados à dificuldade de inserção da ficção científica literária e também cinematográfica junto ao mercado e o público em geral.

O texto que apresentamos foi preparado para o painel “O silêncio da crítica e a marginalização da ficção científica brasileira: Ficção e realidade dentro do espaço que o gênero ocupa na literatura brasileira”. Ao meu lado esteve a Professora Doutora em Letras da Universidade de São Paulo, Maria Elisa Cevasco e o editor do suplemento de cultura do Diário Catarinense, Dorva Rezende. Sua publicação se justifica por dois motivos. Primeiro, como uma amostra de alguns dos temas que foram debatidos. E em segundo, por servir de exemplo sobre algumas das principais idéias e argumentos que defendi – ao lado de Cesar Silva – nas duas primeiras edições do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, referentes aos anos de 2004 e 2005. Antes de aparecer na Scarium, foi publicado no Anuário 2006.

* * *

Creio ser interessante iniciar esta conversa procurando responder ao título provocativo de um artigo do crítico e escritor Fausto Cunha, intitulado: “A Ficção Científica no Brasil – Um Planeta Quase Desabitado”.

O texto, publicado no livro No Mundo da Ficção Científica, do professor universitário americano L. David Allen, em 1975, faz uma recapitulação das origens do gênero no Brasil, situando-o como de importância marginal na literatura brasileira e intermitente quanto ao volume de sua publicação, baseada em sua maioria em autores estrangeiros.

Veja que o texto é de 33 anos atrás. Na época ainda havia algumas editoras publicando o gênero, até com séries específicas, como a Hemus, a Expressão e Cultura, a José Olympio e a Francisco Alves, fora outras editoras importantes que o publicavam também como a Nova Fronteira, a Brasiliense e a Record.

E anda assim, Cunha dizia que a ficção científica no país era um planeta quase desabitado, se referindo principalmente aos autores brasileiros, que ele situa como tendo o melhor momento nos anos 60, por meio das coleções de livros editadas por Gumercindo Rocha Dorea, na GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart.

Nesse sentido, agora no início do século 21, a ficção científica brasileira ainda seria um planeta quase desabitado?

Creio que com o movimento de fãs e escritores do início dos anos 80, naquilo que já foi identificado como a Segunda Onda da FCB, o gênero no Brasil começou a ser mais habitado, para usar o termo de Cunha, mas mesmo com mais de 20 anos de vida, ainda seria de uma espécie difícil de ser encontrada. Como se vivesse no subterrâneo, no fundo de um oceano ou uma região de difícil acesso.

E quais as razões desta ‘marginalização’ e desta ‘invisibilidade’? Certamente há várias, creio que relacionadas com aspectos internos à ficção científica e externos a ela.

Para aqueles que a cultuam e praticam o discurso de preconceito e marginalização é recorrente, procurando situar o problema fora de seus muros. Desta perspectiva, o gênero seria discriminado porque 1) as pessoas não gostam de ciência e a tomam como uma leitura difícil; 2) as pessoas acham que é uma literatura escapista ou alienada, que reproduz valores estranhos à sociedade brasileira, sendo não mais do que um sub-produto da indústria cultural capitalista e 3) seria difícil levar a sério uma ficção científica escrita por brasileiros, já que o país tem problemas de educação e falta de investimento em ciência e tecnologia muito graves.

É possível defender que ao menos parte destas três razões apontadas principalmente pelo fã do gênero, tenha perdido um pouco de seu vigor. Primeiro, porque os assuntos científicos estão inseridos no cotidiano das pessoas, num país quase totalmente urbanizado e integrado internacionalmente como o Brasil. Segundo, porque a ficção científica não é apenas entretenimento, podendo discutir e refletir sobre grandes questões do nosso tempo e a partir de uma perspectiva ora distanciada, ora metafórica. Terceiro, porque embora o país ainda tenha um longo caminho a percorrer em direção a uma educação básica de qualidade, o parque industrial brasileiro é o maior do Hemisfério Sul, as universidades brasileiras possuem algumas conquistas científicas importantes e, mais do que um símbolo, o Brasil é um dos poucos países do mundo que já enviou um homem ao espaço.

Estes são os chamados problemas externos ao gênero no Brasil, principalmente do ponto de vista dos fãs, mas haveria também alguns que estão situados em seu interior. Estes mais controversos e difíceis de serem comparados com os externos, pois se referem a uma realidade particular de uma pequena, mas combativa comunidade de fãs e escritores forjados em seu meio. Em todo caso, os tais problemas externos de certa forma justificariam uma postura mais defensiva e auto-centrada por parte daqueles que cultuam e praticam o gênero no Brasil. Desta forma, criam sua própria sub-cultura, não por acaso utilizando o nome estrangeiro de fandom (domínio do fã) para se auto-intitular. É uma marca desta geração em sua criação e desenvolvimento ser muito semelhante às suas congêneres estrangeiras, especialmente no que diz respeito às suas instituições, como clubes, fanzines, prêmios e convenções. Por pelo menos uma década todas funcionaram relativamente bem, algumas com muito boa qualidade. É possível dizer que a comunidade brasileira de ficção científica tem procurado se integrar e participar de uma comunidade internacional dedicada ao gênero.

O vigor do fandom já foi bem maior, especialmente entre os anos de 1986 e 1997, mais ou menos, isto é, a partir do surgimento do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) até o início da internet. Mas em parte esta estrutura, antes de mais nada social, ainda sobrevive. E construiu mecanismos importantes para organizar suas atividades, fomentar a criação literária e intelectual, descobrir novos talentos e forjar uma identidade própria à si mesma e, por extensão, à ficção científica brasileira. O problema é que esta comunidade, a título de se defender do mundo externo, digamos assim, meio que se enquadrou numa espécie de guetto, por vezes com atitudes pouco profissionais, nos quais a atividade da crítica, por exemplo, tem sido severamente desestimulada, quase como se fosse um ambiente de patota, dos amigos que escrevem e não podem ser francos uns com os outros para não ferir suscetibilidades. Outro problema, decorrente em parte deste é a falta de pressão para se escrever melhor, porque não existe um cenário profissional que estimule a competição entre os autores por textos e histórias de melhor qualidade. Ou seja, é uma comunidade que passou a gradativamente desestimular um desenvolvimento artístico mais maduro e profissional.

Apesar disso, pode-se afirmar que é nesta geração que está o melhor grupo de autores brasileiros já surgidos para a ficção científica, devido ao seu contato íntimo com as tradições e convenções do gênero, de sua inserção cotidiana em um mundo high-tech e globalizado e pela procura de uma voz mais brasileira para o gênero. Alguns destes autores estão, inclusive, presentes ao evento de hoje. Mesmo assim o fato é que eles continuam, em larga medida, imersos em um injusto ostracismo.

Alguns pensaram que com a entrada da internet a comunidade se abriria e poderia se tornar mais visível. Contudo, o que se tem visto até agora é que o principal efeito da internet na comunidade brasileira de ficção científica é a pulverização. De um lado, houve uma segmentação, com a criação de grupos e sites específicos que terminam por não se comunicar com outros. De outro, e isto é em tese positivo, é que a internet, assim como o advento de novas tecnologias de impressão, tem barateado os custos de publicação a níveis mais baixos do que no passado. Mesmo assim, tanto os livros virtuais, como aqueles impressos por métodos econômicos continuam restritos aos seus públicos de sempre, ou seja, o ambiente intra-muros, invisível do fandom.

Há um outro fator importante e atualmente mais dramático para a invisibilidade e marginalização da ficção científica brasileira: não se publicam mais tantos títulos de ficção científica, não ao menos identificados como tais. A crítica mais comum por parte dos fãs é que não se publica mais o gênero no Brasil. De fato a quantidade diminuiu já sobre uma base de edições historicamente modesta.

Mas o que eu e o editor Cesar Silva temos constatado à frente do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica nestes últimos três anos é que se por um lado a quantidade diminuiu, o que mais chama a atenção é que a ficção científica continua sendo publicada. Mas de uma outra forma. Ou seja, várias editoras publicam alguns poucos títulos por ano, mas não os identificam na capa ou na folha de rosto com o rótulo ‘ficção científica’ tão ao gosto dos fãs. Não é só. Os livros que têm sido publicados têm duas características básicas. Primeiro, são aqueles derivados de outras mídias, como o cinema e a TV. Segundo, são livros de ficção científica escritos por autores não identificados com o gênero. Geralmente nomes ilustres e prestigiados do chamado mainstream que se aventuram em escrever uma obra com tema de ficção científica.

Ao que parece uma nova tendência do mercado editorial é que o gênero tenha de ser como que ‘autorizado’ por uma figura do mainstream para que as editoras brasileiras se interessem em publicar o livro. Mas jamais sendo vendida como “FC” e sim como a literatura de ‘prestígio’ de sempre de determinado autor.

Só para ilustrar em 2005 – de acordo com o nosso levantamento – foram publicados 178 livros dos gêneros fantásticos no Brasil. Destes, 62 foram de ficção científica, 34,83% do mercado. 23 livros foram escritos por brasileiros e 39 por estrangeiros. E dos 23 de autores nacionais, tivemos 8 novos romances. Já entre os romances inéditos de autores estrangeiros tivemos 9 novos publicados no Brasil.

Como se percebe são números modestos, mas não indicam, em tese, uma total marginalidade do gênero. O que ocorre é que, como acabei de dizer, não se publica mais ficção científica nos moldes tradicionais de coleções – uma tradição forte na história da ficção científica brasileira. E se tem publicado pouquíssimos autores identificados diretamente com o gênero. Para ser ter uma noção da situação, até autores best-sellers, verdadeiros clássicos do gênero, como Isaac Asimov e Arthur Clarke, extremamente publicados nos anos 70 e 80 do século passado, estão praticamente fora do catálogo das editoras.

Já as duas dezenas publicadas pelos autores brasileiros, seguem o padrão da ‘marginalização’ das grandes editoras e da imprensa cultural, que os tornam ‘invisíveis’. Saem por editoras pequenas, ou regionais ou por edição do próprio autor ou ainda só na internet. Ou seja, continuam sendo consumidos pelo mesmo público restrito de sempre.

Alguém pode questionar que em termos de quantidade sempre se publicou pouca ficção científica no Brasil. Mas nos anos 60, 70 e 80, como já disse, existiam coleções de livros do gênero no Brasil. A publicação era pequena, mas regular e com os autores tradicionais do gênero. Já com relação aos autores brasileiros, só foram publicados com alguma regularidade nos anos 60. Sem dúvida, tanto que a Primeira Onda da FCB foi justamente nomeada por Fausto Cunha em seu já citado artigo, como a ‘Geração GRD’, uma homenagem ao editor Gumercindo Rocha Dorea, que publicou vários autores brasileiros não do gênero, mas para o gênero, isto é, os trazendo de fora, do mainstream, para escreverem ficção científica, como o caso do próprio Cunha, de Dinah Silveira de Queiroz, André Carneiro, Antonio Olinto, Rubens Teixeira Scavone e outros.

Mas voltando ao ponto. Nos dias que correm a publicação de ficção científica deixou de ser um dos segmentos editoriais das editoras brasileiras, como o eram até o fim dos anos 80. Se olharmos para os chamados gêneros fantásticos, o único que tem sido amplamente contemplado nos últimos anos é a fantasia. Mas é uma tendência sólida? Talvez não, porque ela tem uma espécie de ‘vício de origem’. O mesmo que tem dificultado a publicação de ficção científica no Brasil. Estou me referindo ao que poderíamos chamar de uma ‘midiatização’. Isto é, a publicação de livros dos gêneros fantásticos por causa do sucesso comercial de uma obra produzida e veiculada por outra forma de arte. Para ser claro, estou me referindo ao cinema e suas superproduções de Hollywood. Se um filme de ficção científica ou de fantasia faz sucesso, a história que deu origem ao filme, ou a novelização do roteiro ganha o interesse das editoras. Até com séries de TV de sucesso o fenômeno se repete, com a publicação mais que discutível de tais novelizações, nos quais a originalidade e a qualidade literária não existem.

Nesse sentido, o atual boom da fantasia teria este ‘vício de origem’, que seria os megasucessos dos vários filmes baseados em O senhor dos anéis e Harry Potter. E como tal, a sustentação literária, per si, seria de difícil manutenção. Curiosamente, Fausto Cunha no mesmo artigo, escrevendo em meados dos anos 70, alertava que a quantidade razoável de ficção científica que era então publicada se devia aos sucessos de filmes no cinema, como 2001, uma odisséia no espaço, aos efeitos ainda presentes da corrida espacial e a figuras mundialmente conhecidas, como Arthur Clarke e Isaac Asimov.

Hoje em dia, curiosamente no século XXI!, não temos mais homens desbravando o universo e escritores de ficção científica que sejam celebridades globais. Pense rápido e responda. Qual é o autor de ficção científica surgido nos últimos 30 anos conhecido em todo o mundo?

De qualquer forma este é um aspecto menor, pois poderíamos identificar razões, digamos, mais profundas para a marginalização da publicação de ficção científica no Brasil. Uma destas razões seria a falta de editores, jornalistas e acadêmicos no meio editorial. Quer dizer, lideranças intelectuais engajadas em torno de um projeto idealista, ligado à ficção científica. Pode parecer utopia esperar que isso exista, mas é só olharmos para as décadas de 60 e 70 e ver quem estava à frente das melhores coleções de ficção científica publicadas no Brasil. Ora, o crítico Fausto Cunha, o editor Gumercindo Rocha Dorea, o produtor cultural José Sanz e o escritor e jornalista Jerônymo Monteiro. Ou seja: por incrível que nos pareça hoje, tal situação já existiu no cenário cultural brasileiro. Buscar as razões para a ausência de tais figuras atualmente é tarefa para um trabalho próprio de pesquisa, mas talvez possamos especular que os 20 anos de ditadura militar tenha alguma coisa a ver com o problema.

A partir do início dos anos 80 surgiu uma nova geração, a maioria de jovens na faixa dos 20 e poucos anos e com uma carreira ainda por construir, seja no campo literário em si, seja em paralelo com outros ramos profissionais. Ou seja, perdeu-se o elo e uma tradição que já existia no meio editorial brasileiro. Nos dias de hoje há pouquíssimas pessoas vinculadas em algum momento ao fandom que tenha um papel de liderança na área editorial e possa, por meio dessa influência, publicar ficção científica.

Mas ainda não falei da publicação dos autores brasileiros do gênero. Me referi até agora ao problema geral, que é grave e em parte é um dos motivos da invisibilidade dos autores brasileiros que se exercitam no gênero. Como já disse, talvez só nos anos 60, por causa das figuras idealistas de dois editores é que os autores brasileiros foram publicados quase em pé de igualdade com os estrangeiros. Mas uma peculiaridade destes autores é que, em sua maioria, eles já tinham uma carreira literária própria, sancionada pelo mainstream e finada as experiências editoriais da GRD e da Edart voltaram a escrever literatura em geral, e não mais ficção científica. Aqui também talvez a ditadura militar tenha tido uma influência maléfica, pois nos anos 70 a FCB que se publicou no país nem era identificada como tal, mas sim como alegorias críticas futuristas ao regime fechado então vigente e por autores totalmente desvinculados com as tradições do gênero.

Já a geração atual tem enfrentado ao longo dos anos as várias dificuldades apontadas. Desde a má qualidade de alguns escritores, o que não pode deixar de ser enfatizado, até uma marginalização ocasionada, primeiro pelas tendências ‘midiáticas’ do mercado editorial, segundo pela falta de figuras importantes que tivessem como apostar no gênero.

A situação chegou a tal ponto que no fim dos anos 90 foram feitas tentativas por parte de fãs e escritores para levar adiante projetos profissionais. Exemplos são a criação da editora Ano-Luz em fins de 1997 e as revistas Quark e Sci-Fi News Contos, em 2001. Pela editora foram publicados cinco livros, quatro deles antologias temáticas com autores quase todos nacionais. Deixou uma marca importante em termos de proposta, mas não conseguiu distribuir seus livros e nem visibilidade na imprensa, resultando, alguns anos depois no fim da iniciativa. Já as revistas foram ainda mais efêmeras, durando pouco mais de um ano e enfrentando problemas semelhantes aos da editora.

Certamente que a responsabilidade pelo fim das atividades de ambos os projetos é fruto, em boa medida, da falta de experiência e tino comercial dos seus integrantes. Mas cabe também a um mercado refratário e a uma imprensa desinteressada, uma responsabilidade pelo fim dos projetos. Talvez seja possível dizer que a imprensa cultural é mais desinformada do que o ambiente acadêmico. Ou que neste último as razões para o estranhamento com relação à ficção científica sejam mais bem elaborados e conceitualmente justificados.

No conjunto, a imprensa dos cadernos culturais vive numa espécie de frágil equilíbrio entre pautar ou ser pautada em suas páginas. Procura seguir o que o mercado apresenta, seja aqui do Brasil, seja do exterior. De novo falando em termos genéricos, tem pouca capacidade de análise crítica, mais fazendo resumos pouco melhores do que ‘relises’, do que interpretando de fato uma determinada obra. Razões de ordem comercial e de insuficiência intelectual seriam as de maior relevância, para explicar a maneira superficial e quando não preconceituosa como o gênero é retratado.

Para um autor de ficção científica ter um certo prestígio na imprensa cultural ele tem de ser chancelado pelo cânone ou por uma eficiente estratégia de marketing da editora que lança a obra do autor. Existe uma falta visível de figuras com grande cultura geral, articulistas ou ensaístas, gente como o próprio Fausto Cunha, o crítico José Paulo Paes, ou um jornalista culto e simpático ao gênero como Geraldo Galvão Ferraz, entre outros poucos também marginalizados dos cadernos culturais. Na média o que viceja são textos breves, superficiais, além do lugar-comum que vincula a ficção científica a estereótipos superados, como os do robô, do alienígena ou da nave espacial, como sendo o que o gênero teria de reconhecível.

Dentro deste contexto desfavorável, a publicação de ficção científica no Brasil, tanto de autores estrangeiros, como principalmente de brasileiros teria de ocorrer em várias frentes possíveis, seja pela presença de editores – e não gerentes de marketing nas editoras –, de intelectuais e jornalistas mais interessados em conhecer algo ao qual não foram formados ou não estão acostumados. Além de passar também, é claro, pela simples e eficiente melhora na qualidade da literatura de ficção científica escrita pelos brasileiros. Pois só com uma ficção científica preocupada com os valores e problemas de nossa gente, aliada com a busca permanente por aprimoramento também no estilo, é que ela pode almejar um reconhecimento e uma visibilidade mais segura nas Letras brasileiras, do que ficar na dependência das mudanças de humor do mercado editorial.

>> Scarium – por Marcello Simão Branco

Marcello Simão Branco é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, e no âmbito da ficção científica é autor de Os mundos abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e co-editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.


Série em HQ traz mitologia chinesa

segunda-feira | 21 | abril | 2008

Em ano de Jogos Olímpicos em Pequim, um lançamento em quadrinhos aproxima os leitores brasileiros da cultura chinesa: Jornada ao oeste – O nascimento do rei dos macacos (Conrad, 464 pp., R$ 42,90), de Ma Cheng e outros, série quadrimestral em três volumes cuja primeira edição já foi lançada no Brasil. Sua história começa no século 7, quando o monge Xuan Zang fez uma peregrinação da China à Índia em busca de sutras (textos com regras do rito, da moral e da vida cotidiana) importantes para o budismo. Essa viagem demorou 16 anos e ajudou a difundir o budismo na China. Esta HQ que sai no Brasil é uma adaptação de “Jornada ao Oeste” lançada nos anos 60 na China. Vários autores participaram da transformação do romance em quadrinhos. >> Folha de S. Paulo – 21/04/2008 – por Pedro Cirne