Por Universos Nunca Dantes Navegados

quinta-feira | 17 | abril | 2008

Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa

Autores portugueses e brasileiros apresentam um conjunto de narrativas inéditas de ficção científica e fantasia, demonstrando que o género fantástico em língua portuguesa continua intenso e criativo.

Por Universos Nunca Dantes Navegados é uma antologia de contos e novelas de literatura fantástica da mão de autores portugueses e brasileiros. Organização e seleção de Jorge Candeias e Luís Filipe Silva, Edição final de Luís Filipe Silva.

São narrativas originais que responderam a um apelo dos organizadores da antologia, durante o Verão de 2005, no qual se anunciava a abertura de um novo espaço de publicação para todos os autores de língua portuguesa que manifestassem interesse pelo género.

O projeto teve, desde o início, como objetivos responder a um conjunto de lacunas consideradas primordiais pela comunidade de entusiastas do género, sempre que se tentava publicar ficção científica e fantasia em português:

·      aceitar obras provenientes de qualquer parte do mundo, desde que escritas na língua portuguesa;

·      aceitar toda a multiplicidade de temas atualmente abarcadas pelo que se designa de literatura fantástica, desde a ficção científica de especulação séria à fantasia urbana, do terror gótico ao gore, da história de passados alternativos à história do futuro porvir;

·      aceitar contos de extensão superior às 8000 palavras, criando assim condições para obras de maior dimensão e complexidade que as normalmente utilizadas por outras iniciativas semelhantes, ou nas revistas da especialidade.

Do volume de narrativas submetidas, que ultrapassou largamente a meia centena, entre colaborações portuguesas e brasileiras, foram selecionadas 14, que compõem a presente edição.

Conteúdo

Luís Filipe Silva, Introdução: O Estranho Caso da Prospectória Amnésica

Um breve percurso pela história da ficção científica portuguesa e uma tentativa de entender o fenómeno peculiar de ser uma literatura que em todas as gerações consegue feitos imediatamente ignorados ou esquecidos pelas gerações posteriores, numa constante quebra de continuidade.

 João Ventura, Resíduos Sólidos Urbanos

Tudo o que uma civilização moderna produz acaba eventualmente tornando-se num resíduo: os objectos que utiliza, a tecnologia, os meios de fabrico, a comida, o vestuário, os medicamentos… tudo o que tem uso acaba por eventualmente encontrar caminho para o grande caudal de matérias para reciclagem e despejo em distantes aterros sanitários… será que aqui estamos incluidos nós próprios?…

 Wolmyr Alcantara, Oberon

Que fome sentem os demónios? Que aspecto assumem no nosso mundo? E porque é tão sedutora a promessa que oferecem de um paraíso eterno, ainda que ilusório e falso?

 Yves Robert, Fome de Pássaro

Quando se perde o amor, onde se recolhe a memória, quem guarda a saudade, porque assume o mundo um manto de tristeza que comanda os actos e convocta os espectros e finalmente faz convergir o outro plano da existência no nosso?

 Octavio Aragão, Para Tudo se Acabar na Quarta Feira

Um regresso ao ambiente das favelas do Rio de Janeiro que nos faz recordar o filme «Cidade de Deus», onde uma luta pelo poder entre grupos rivais terá uma consequência devastadora. Uma história emocionalmente forte.

 Jorge Candeias, Littleton

O que prometia ser uma descontracção num ambiente artificial feito à medida do utilizador transforma-se numa história de acção e perigo…mas fará mesmo parte da história? Ou por detrás do cenário existirá de facto quem procure matar John Walker?

 Gabriel Boz, Digital Éden

Uma visita a um mundo virtual e a uma eterna saudade.

 Telmo Marçal, O Pico de Hubert

Quando se acabar a utopia da nossa civilização, de recursos inesgotáveis e fontes de energia permanentes, que mundo de intensa brutalidade resultará? Como será possível sobreviver?

 Carlos Orsi, Disse a Profetisa

Nem sempre quem cai dos céus é um deus ou um anjo…

 João Ventura, Assassinos de Sobreiros

Quando a posse mais procurada são árvores, os parques florestais são equipados com os mais modernos sistemas de defesa de ataques de guerrilha…

 Carlos Patati, A Irmandade

Dentro de nós somos um ou uma multidão? Devemos ouvir a multidão, escutar as suas ordens? E se essa multidão for real, e existir mesmo?

 Sofia Vilarigues, O Nevoeiro que Desvendou Realidades

Um neto regressa a casa e às raízes da sua infância, num momento de transformação e esquecimento, e encontra o rumo da vida que nunca pensou existir.

 Maria Helena Bandeira, Ponte Frágil Sobre o Nada

Uma mãe luta desesperadamente por manter a sanidade e a vida do filho, quando percebe que o mundo em que existiu até então era artificial. 

 António & Jorge Candeias, Deus das Gaivotas

Um homem numa praia deserta sonha com histórias, e as histórias sonham-no a ele, visitam-no pela noite, e no final o homem descobre que este é apenas um de muitos mundos. 

 Carla Cristina Pereira, Xochiquetzal em Cuzco – Uma Princesa Asteca no Reino dos Incas

E se Vasco da Gama tivesse procurado dominar a feitoria da América Latina, antecipando os espanhóis e nunca permitindo que o Tratado de Tordesilhas se concretizasse? Toda a América Latina falaria português, estaria controlada pelos portugueses do século XVI… que ameaças existiriam então ao Novo Mundo, que povos seriam nossos aliados… e inimigos?

>> Tecnofantasia

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O Duplo na Literatura

segunda-feira | 14 | abril | 2008

No tema do duplo Freud faz reparo, consagra atenção para dois fenômenos: o do Mesmo e o do Duplo. O Mesmo respeitante a uma impossibilidade instantânea de reconhecer a si mesmo, para ato contínuo o Eu arrepanhar apoderar-se daquela imagem que é sua. Tal como aconteceu com o próprio Freud, quando de súbito, dentro da cabine espelhada de um trem, não reconheceu a própria imagem refletida, provocando reparos do “mal-entendido” ou do “mal-reconhecido”. Mas consoante ao duplo sua constituição e funcionamento mostram-se meadas de difícil enredo: são mais complexas. Ele duplo é um outro de si mesmo – incógnito como tal e reconhecido pela sensação de estranhamento que ele é capaz de causar.

Diremos ainda de forma mais esmiuçadora que o sentimento de sinistro parece sobremaneira forte, em todas as condições sobre as quais o mecanismo de duplicação imaginária parece prevalente – tema literário do duplo.

A literatura explora tempo todo a forma do duplo. A comédia dos erros existe desde toda a eternidade. Gêmeos já usurpavam identidades nos palcos da Grécia antiga. Aristófanes, Plauto, Shakespeare, Tirso de Molina, Lope de Veja, Corneille, Calderón, Molière e tantos outros criadores lançaram mão desta apropriação voluntária-involuntária de heterogeneidade. Todos sabiam que o destino – conforme afirma o adágio estóico – guia aquele que consente e arrasta aquele que recusa. Essa motivação do enredo condicionada pela semelhança já existia inclusive nas lendas heróicas. Os apoderamentos do análogo remontam aos ciclos das mitologias indianas e das lendas tebaicas: – Mercúrio – por exemplo – assume as formas do escravo Sósia. Molière retoma esse tema em 1668 criando a peça Amphitryon ­- transformando esse mito heróico numa cômica desventura conjugal. Um conflito psíquico cria o duplo – projeção da desordem íntima. São espelhos sombras fantasmas aparições retratos. No espelho somos duplicados, e poucos de nós têm a chance de descobrir – feito ela Alice – o que está do outro lado.

Em seu texto datado de 1919, Das Unheimliche, Freud afirma que o duplo – apesar de nos parecer algo de estrangeiro, estranho a nós-mesmos – sempre nos acompanhou desde tempos primordiais do funcionamento psíquico, estando sempre pronto a ressurgir e provocando-nos uma sensação de inquietante estranheza (uncanniness).

A peça mais expressiva de todos os tempos talvez seja shakespeariana: a Comedy of Errors. Aqui Shakespeare duplica o número de irmãos idênticos, acrescendo ao par de gêmeos patrões, um par de gêmeos criados – multiplicando sobremaneira o imbróglio equivocativo por assim dizer. O duplo – disse Clémant Rosset – representa a dualidade em seu aspecto mais perplexo e sinistro.

O sinistro freudiano instaura, lança os alicerces de um outro olhar sobre os pilares da subjetividade atinentes ao seu, por assim dizer, temperamento desconhecido – natureza que aloja em si um paradoxo subjetivo que o próprio sujeito às escuras ignora, mas que reside em sua intimidade, estranha idiossincrática intimidade.

Importante destacar que o sinistro é tracejado unido pelas articulações entre o desejar desconhecer ao conhecido que lhe é próprio ou, redescender submergir no trajeto de fazer-se senhor do saber, da verdade, do gozo e da morte e não mais conhecer. Tal foi o fim de Édipo e de tantos outros mitos da literatura universal.

Oscar Wilde criou o duplo de Dorian Gray e seu retrato – um recurso aparentemente vazio desprovido de sentido no mundo da literatura fantástica – mas que na realidade mostra-se bem mais complexo. Esta obra possui um criador e sua criação monstruosa, sujeitando-os a uma nova fragmentação. O pintor Basil Hallward cria o que no fim de tudo resultará numa aterradora obra de arte – digna das regiões do Tártaro -, na qual revela muito de sua própria vida, e, que por isso, deve permanecer em segredo. Mas a vida por ele pintada torna-se independente dele; o retrato afigura-se como original e duplo do próprio Dorian. Ele simplesmente pensa num desejo impossível: ficar sempre jovem enquanto o seu retrato envelhece. Dorian é um narcisista por assim dizer introvertido – e não conseguindo realizar suas pulsões, desloca-as para o objeto na tentativa de obter a satisfação narcísica. O criador diante da criatura: “Você se tornou para mim a encarnação visível daquele ideal invisível cuja memória nos obceca a nós artistas como um sonho perfeito”.

Esta obra de Oscar Wilde – é bom que se diga – transformou-se na época (1891) numa espécie de evangelho do decadentismo e do esteticismo. A morte de Dorian é simultânea com o golpe que ele desfere contra o retrato. Criados entram na sala olhando o magnífico retrato na parede do amo. Ele o retrato estava ali como eles os tinham conhecido: na esplendência de sua mocidade e beleza. Mas no chão jazia o cadáver de um homem em traje-rigor – com uma faca cravada no peito: lívido enrugado repugnante. Mas pelos anéis conseguiram identificá-lo. Era claro o próprio Dorian Gray – um outro de si mesmo, desconhecido como tal e reconhecido pela sensação de estranhamento que é capaz de causar.

O duplo é um Outro, que olha o sujeito sem lhe dizer nada, apenas faz com que ele se interrogue fazendo-se a seguinte questão: “que queres tu de mim?” – ou “Che voi”?

Só a morte faz o Eu coincidir consigo mesmo e afirmar de novo a sua unicidade enquanto algo irredutível. Otto Rank, – na sua obra intitulada Don Juan et le Doublé – atribui ao duplo esse poder específico: o de concorrer para o impedimento da morte de si-mesmo. Segundo este mesmo autor, a crença ancestral na morte está diretamente ligada à temática do duplo e ao desdobramento da personalidade – pois ele duplo age como mecanismo privilegiado cuja função é a de inibir a morte do sujeito por ele representado.

Dentro dessa linha do sobrenatural vamos descobrir, por exemplo, que Casanova – ao envelhecer – transporta-se para a identidade de um duplo mais jovem, para gozar de uma última noite de amor. Aqui especificamente nos deparamos com um ambiente ou contexto em que o sujeito e seu DUPLO coexistem em perfeita simbiose. Essa idéia surgiu do médico e escritor vienense Arthur Schnitzler – morto em 1931.

Já a usurpação voluntária foi explorada ad nauseam no teatro espanhol do Renascimento: semelhanças de reis ou dignitários com camponeses, utilizadas para fins políticos. No sentido oposto oportuno citar o Mahabharata (século IV-V a.C.), livro sagrado da Índia, que páginas tantas mostram quatro deuses tomando a aparência da heroína ajudando o herói a encontrar a heroína verdadeira. O duplo sobrenatural existe a mancheias nas páginas literárias: modo geral trata da metamorfose momentânea de um deus num mortal de quem ele usurpa os traços e a identidade. Mas o contrário também acontece: o sonho de eternidade por meio da reencarnação num duplo jovem serve de tema para The Story of the Late Mr. Elvesham (1897), de H. G. Wells. É o homem mais uma vez – através do mito do duplo – tentando abarcar privilégios divinos. Na mitologia grega um exemplo de significação ampla: Galatéia – esculpida por Pigmalião, que, apaixonado pela sua própria obra – impressiona sobremaneira a deusa Afrodite, pois esta, ao ver tão grande amor, transforma o mármore sólido em criatura de carne e osso.

A mais famosa das histórias de duplo foi escrita por Stevenson – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, ficando em acentuado destaque como O médico e o monstro. O primeiro sabe que está duplicado e tenta, na qualidade de cientista, desembaraçar-se da parte malformada de seu ser, que não combina com seus propósitos sociais. Mas o bom Dr. Jekyll – já agora um mero espectro de si mesmo – será parasitado pelo outro: o mal, Hyde, que é mais vigoroso do que o pobre Jekyll, pálida imagem da honorabilidade. Sua morte faz conhecer sobrenaturalmente o que ele era de fato: o corpo, encolhido, tem os traços hediondos do outro. Para Clémant Rosset “não se escapa ao destino” significa simplesmente que não se escapa ao real. O que é e não pode não ser. […] O que existe é sempre unívoco: na borda do real – seja o acontecimento favorável ou desfavorável – os duplos se dissipam por encantamento ou maldição.

A noção de duplo designa uma representação do Eu que pode tomar diversas formas encontradas no animismo primitivo como extensão narcísica e garantia de imortalidade. Otto Rank – com seu ensaio sobre o duplo (1914) – foi o primeiro a desenvolver essa noção no campo psicanalítico. Freud, aliás, cita-o ad nauseam em O Estranho (Lo Ominoso) . “Helos aqui: la presencia de “dobles” em todas sus gradaciones y plasmaciones, vale decir, la aparición de personas que por su idéntico aspecto deben considerarse idénticas; el acrescentamiento de esta circunstancia por el salto de processos anímicos de una de estas personas a la otra. De suerte que una es coposeedora del saber, el sentir y el vivenciar de la otra” – diz Freud a propósito do conto O Homem da Areia, de Hoffmann.

O motivo do duplo é retomado por ele Freud e integrado na noção de “inquietante estranheza”, essa “variedade particular do pavoroso que remonta para além que é desde há muito tempo conhecido, desde há muito tempo familiar”, mas que se tornou pavoroso porque corresponde a algo recalcado que retornou. O duplo – escreve Freud citando Heinrich Heine – converteu-se numa imagem de assombro da mesma maneira que os deuses viam demônios depois que sua religião desmoronou (1910). Não é mais o próprio duplo (sombra) que continua a viver, mas é o espírito de um ancestral que renasce no embrião – disse Otto Rank já em 1914.

Um conflito psíquico cria o duplo, projeção da desordem íntima; o preço a pagar pela libertação é o medo do encontro. Mas ele duplo está ligado também ao problema da morte e ao desejo de sobreviver-lhe – sendo o amor por si mesmo e a angústia da morte – indissociáveis. Para Keppler (1972), o duplo é ao mesmo tempo idêntico ao original, e diferente – até mesmo o oposto – dele. É sempre figura fascinante para aquele que ele duplica, em virtude do paradoxo que representa (ele é ao mesmo tempo interior e exterior, está aqui e lá, é oposto e complementar), e provoca – no original – reações emocionais extremas (atração/repulsa).

Para encerrar este artigo recordaremos que Freud e Lacan acreditam que o sujeito nada quer saber sobre a falta no Outro, porque remete à própria falta, e, por conseguinte, à dolorosa experiência da castração. Esse duplo ou o sinistro estão no lugar deste Outro que reflete o que nosso (des)conhecimento não se cansa de negar. Outro como sendo o objeto a. Que já se constitui perdido – causa do desejo, do gozo, da castração. Falta ao Outro este olhar, este objeto que dele se destacou e – ao mesmo tempo – feriu, marcou o outro sujeito em sua passagem mítica, meteórica e idílica. Como diz o poeta português Mário de Sá Carneiro – no poema O Outro: “Eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro”.

De forma que a relação do homem com o primeiro duplo – Outro materno – é o que assegura a promessa de uma futura subjetividade; encontra em sua unidade narcísica as primeiras fraturas, fissuras de um sujeito que nada sabe sobre si; rosto materno espelho que se desmaterializa; que inaugura o homem fazendo-o entrar no tempo de sua existência. Perder essa unidade põe seu ser diante da tarefa de conquistar a consciência de si para que possa se perceber como sujeito dividido e ao mesmo tempo integrar-se. O ato de nascimento da humanidade corresponde a uma ruptura com o horizonte imediato. Jamais o homem conheceu em toda sua existência uma vida sem total perturbação. Não foi por acaso que Freud não conseguindo subjugar o mundo superior, resolveu revolver o Aqueronte. Somos seres destinados a sustentar a liberdade; nascemos para enfrentar a cifra de destino na coragem de ser; somos um sujeito devenir. Tal cifra de destino de ser inacabado traz na própria alma sua desgraça e sua esperança. O homem possui a necessidade de construir uma imagem na qual reconheça a si mesmo; delinear sua essência representa deparar-se com sua natureza dissolvente seu caráter paradoxal. Representa também penetrar no lugar de origem dos baixos impulsos espontâneos e alheios à razão – cheios de ambigüidade traiçoeira. Mas o fascínio reside exatamente nisso: imergir na compreensão do mistério.
>> Cronópio – por Nájla Assy

Nájla Assy é psicanalista e professora, com doutorado em Psicologia pela Sorbonne (Paris-VII) e Universidad Autonoma de Madrid. É pesquisadora do IMS (Instituto de Medicina Social) do Programa de Estudos e Pesquisas da Ação e do Sujeito PEPAS –UERJ- coordenado pelo professor Jurandir Freire Costa


Ficção Científica Brasileira – Um Encontro Feliz

quinta-feira | 3 | abril | 2008

Eu estava devendo um relato da já famosa e quiçá clássica Mesa Redonda sobre FC brasileira em São Paulo, organizada pelo Horácio Corral, argentino radicado no Brasil que é o maior conhecedor de ficção científica da Livraria Cultura e organizou lindamente o evento, que aconteceu na loja do Shopping Market Place no último sábado, dia 29 de março.

A mesa tinha como tema Os novos rumos da Ficção Científica Brasileira. A mediação ficou por conta de Ana Cristina Rodrigues, atual presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica – CLFC, do qual já fui membro e que me proporcionou a possibilidade de abrir a mente para o que se fazia de ficção científica no mundo então (estou falando da década de 1980 – entrei para o clube em 1987 e saí em 2000). Os participantes eram os escritores Roberto Causo, Cristina Lasaitis, Carlos Orsi, Richard Diegues, Clinton Davisson, Gerson Lodi-Ribeiro e este que vos digita.

Antes, alguns de nós se encontraram para almoçar e conversar com mais calma antes do evento. Tive o prazer de rever o Gerson Lodi-Ribeiro depois de alguns anos, e pudemos conversar sobre família, cabelos brancos e livros, não necessariamente nessa ordem. Revi o Carlos Orsi, com quem havia me encontrado algumas semanas antes, e fui apresentado ao Clinton (autor de Hegemonia), ao Richard (escritor e editor da Tarja Editorial, que publicou Visões de São Paulo) e a Cristina (autora de alguns contos comoventes, como Hibakusha, e que em breve lançará sua primeira coletânea), além da nossa moderadora, Ana Cristina, escritora e mentora do grupo Fábrica dos Sonhos, que lançou a ótima revista online Black Rocket.

O papo foi animado, regado a um bom vinho escolhido pelo enólogo da mesa, Gerson (e do qual eu infelizmente não desfrutei, pois estou proibido de beber pelo médico), e se prolongou quase até a hora do evento. Numa caravana de táxis, partimos para o Market Place, onde chegamos ainda a tempo de tomar um café com tranqüilidade…

…e encontrar uma boa parte do público já nos aguardando do lado de fora do auditório. Nomes conhecidos da comunidade de ficção científica brasileira, como Sílvio Alexandre e Marcello Simão Branco, membros da Fábrica de Sonhos, como Aguinaldo Peres, e colegas da comunidade Ficção Científica do Orkut (fundada por mim em 2004 e atualmente moderada por Ana Cristina), como Vinícius e Huguinho, além da presença luxuosa e mais que bem-vinda de outros escritores, como Tibor Moricz (Síndrome de Cérbero) e André Vianco (Os Sete)

Dos cerca de 100 lugares do auditório da Cultura do Market Place, mais da metade estavam ocupados, um excelente resultado para um evento desse tipo e que há tanto tempo não acontecia. Quanto à mesa, Ana Cristina conduziu os trabalhos com graça e rigor: cada um dos membros teve cinco minutos para falar um pouco sobre seus trabalhos e sobre o tema em questão. Pareceu pouco no começo, mas não foi; após essa abertura, todos tiveram mais tempo para debater, conversar uns com os outros e responder a perguntas do público, que não foram poucas.

Discutiu-se de tudo um pouco: cyberpunk, New Weird, feminismo na FC brasileira atual, o papel do meio acadêmico na disseminação do gênero (é importante ressaltar que na mesa havia dois pesquisadores acadêmicos de ficção científica: Roberto Causo e este que vos digita, ambos com livros publicados na área), a validade de distribuir gratuitamente obras na Web, à maneira de Cory Doctorow, e os rumos de projetos multimídia como o do game Taikodom, cujo universo foi criado e está sendo capitaneado por Gerson Lodi-Ribeiro, que, além de seu emprego convencional, praticamente vive de escrever livros para o projeto atualmente.

Após a parte dita oficial, houve uma longa e agradabilíssima confraternização entre todos os presentes, da qual fez parte uma apresentação feita por convidados-surpresa: Adriano Piazzi e Delfin K., respectivamente publisher e coordenador editorial da Editora Aleph, que mostraram as capas de trilogia do Sprawl, de William Gibson (da qual a nova tradução de Neuromancer foi feita por este que vos digita) e Snow Crash, de Neal Stephenson. Bons augúrios para fãs, leitores e profissionais da área.

Resumo da space opera: foi um dos grandes momentos da ficção científica brasileira nos últimos anos. Pouca formalidade, muito papo, muita discussão relevante, muito interesse de se conhecer as pessoas que fazem a FC brasileira hoje. Não foi a toa que eu, num artigo no começo do ano no Webinsider, declarei 2008 como o Annus Mirabilis da FCB. Já está sendo. Parabéns para todos nós.

PS: Eu sou tão incompetente com o Movable Type que não sei legendar as fotos. Por enquanto, então, faço o trabalho analogicamente:
Cristina, Ana, eu com o microfone, Richard, Clinton e o pé de Causo

As fotos foram tiradas com a máquina da Cristina Lasaitis e tomei a liberdade de colocar algumas delas aqui para compartilhar com os leitores do blog. Meu obrigado à Cris.

>> pós-estranho – 03/04/2008 – por por Fábio Fernandes


Pesquisa lança olhar literário sobre os quadrinhos de Mutarelli

terça-feira | 1 | abril | 2008
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É possível dar aos quadrinhos o mesmo tratamento dedicado à análise de uma obra literária. Essa uma das novidades de um mestrado, que estudou toda a produção em quadrinhos de Lourenço Mutarelli.
A pesquisa, feita em Curitiba, no Paraná, investigou desde os primeiros trabalhos dele, produzidos no fim da década de 1980, até os último álbum dele, o autobiográfico “Caixa de Areia (ou Eu Era Dois em Meu Quintal”, lançado pela Devir em 2006.
Depois dessa data, Mutarelli deixou os quadrinhos de lado.
Ele passou a investir na literatura -já havia lançado alguns livros-, ao teatro e ao cinema.
É dele o livro que “O Cheiro do Ralo”, que inspirou o filme homônimo, exibido no ano passado.
O autor da pesquisa, o curitibano Liber Paz, de 33 anos, dividiu a produção quadrinística de Mutarelli em diferentes fases, como ocorre nas análises literárias:
  • início da carreira (de 1988 a 1990)
  • os quatro primeiros álbuns (de 1991 a 1996)
  • as histórias coloridas (de 1998 a 2000)
  • a triologia em quatro partes do detetive Diomedes: “O Dobro de Cinco”, “O Rei do Ponto”, “A Soma de Tudo” partes um e dois (de 1999 a 2000)
  • a “Caixa de Areia” (2006)
Algumas conclusões da pesquisa: a obra de Mutarelli reflete e refrata elementos sociais e tecnológicos, há uma tendência a abordar temas como solidão e melancolia, há uma fixação do autor por figuras deformadas.
O mestrado, de 260 páginas, foi defendido em fevereiro na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (é ético registrar ao leitor que fiz parte da banca).
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Clique aqui para ler a entrevista do professor e designer gráfico Liber Paz comentando sobre os bastidores e os resultados de seu estudo, que insere um olhar literário sobre a produção de quadrinhos. >> Blog dos Quadrinhos – 31/03/2008 – por Paulo Ramos