TIRAS DE HUMOR NA NET: CRIATIVIDADE E LIBERDADE

TBK ALIENS: Truck Bearing Kibble abusa de referências pop para criar cenas de nonsense e humor negro

Em tempos de graphic-novels, HQs de super-heróis, mangás e seus primos sul-coreanos, os manhwas; a tirinha, uma história em quadrinhos diária originalmente criada para ser publicada em jornais, foi perdendo espaço. Juntamente com a diminuição do poder, das tiragens e dos leitores dos grandes diários, o tamanho e o número de tiras também diminuiu.

Mas a Internet vem preenchendo este espaço de uma maneira mais democrática. É verdade que agora você precisa ter acesso a um computador conectado à rede, quando antes só era necessário algumas moedas para comprar um exemplar do jornal do dia. Mas, para compensar isto, os criadores têm uma liberdade de criação e possibilidade de experimentação que antigamente era impensável, podendo ser lidos por um público infinitamente maior. No jornal, a tirinha está sujeita à censura dos editores e à crítica dos leitores, que muitas vezes escrevem irritados para a redação pedindo o banimento desta ou daquela HQ. Enfim, está sujeita às leis de mercado, onde o que não faz sucesso ou não agrada, perde o direito de ser publicado.

Um exemplo é o clássico Krazy Kat, de George Herriman, que só continuou a ser publicado, contra a vontade de editores e leitores, por causa da admiração que William Randolph Hearst, o proprietário dos jornais onde a HQ era impressa, tinha pela obra.

No Brasil, Angeli e Laerte fazem parte dos poucos autores contemporâneos que têm o privilégio, conquistado com muito talento e trabalho, de poder fazer experimentações gráficas e de linguagem em suas tirinhas, sem a obrigação de fazer uma piadinha no último quadrinho.

Pois pela Internet é a mesma coisa, só que com ilustres desconhecidos. Qualquer um pode mostrar seu trabalho, sem censura, para quem quiser ver.

Muito nonsense, humor negro e politicamente incorreto corre pelos computadores. Apresentamos aqui, para quem ainda desconhece, três tiras que seguem este caminho: Anomaly, de Kennedy Rose, Truck Bearing Kibble, de Jeremy Kramer e Eric Vaughn e The Perry Bible Fellowship, de Nicholas Gurewitch.

The Perry Bible Fellowship, começou como uma tirinha digital e acabou de virar um livro da Fantagraphics () que foi indicado este ano ao Prêmio Eisner de melhor publicação de humor. PBF, como é conhecido, traz geralmente os bonequinhos brancos de Gurewitch em histórias com muito humor negro. Mas ele alterna seu estilo habitual com muitos outros, de acordo com o tema da HQ: terror, ficção-científica, infantil. É interessante acompanhar a evolução do desenho de Gurewitch, dos traços inseguros das primeiras tiras ao domínio das mais diversas técnicas de desenho.

Anomaly é uma tira politicamente incorreta, abordando religião, sexo e violência. Geralmente em preto e branco, utiliza desenhos de propaganda dos anos 1950 para formar seu cast de personagens: Jesus, o barbeiro e sua vítima, o ventríloquo e seu boneco, o milionário e seu mordomo.

Finalmente, a HQ Truck Bearing Kibble, de Jeremy Kramer e Eric Vaughn, é a que tem o desenho mais elaborado e a com menos tempo de vida. A dupla abusa das referências da literatura, cinema e cultura pop para criar cenas de nonsense e humor negro.

Essas tiras não são para qualquer público, mas esta é a vantagem da Internet, que possibilita que os mais diversos tipos de HQs cheguem ao leitor que pode se interessar e gostar daquele trabalho, sem intermediários nem restrições.

Melhor do que descrever, é visitar os sites das três HQs e conhecer um pouco do trabalho desses artistas. Essas tirinhas provam que este formato, que é tradicionalmente um veículo para críticas sociais e humor delirante, continua vivo e presente. Só passou do papel jornal para a tela do nosso computador.
>> TERRA MAGAZINE – por Cláudio Martini

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