‘ALINE’ GANHA VERSÃO PARA A TV: CASAL DE TRÊS DOS QUADRINHOS

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008

Maria Flor interpreta Aline, a garota que vive com seus dois namorados.
Roteirista diz que cidade de São Paulo é ‘quarto personagem’.

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Quem diria? Aline, a garota mais moderninha dos quadrinhos brasileiros, será a estrela do horário nobre desta terça-feira (30). Criação do cartunista Adão Iturrusgarai, a ruivinha nariguda e seus dois namorados são tema do especial “Aline”, que vai ao ar logo após a novela “A favorita”.

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A atriz Maria Flor, protagonista de Aline.

“Aline é uma pessoa livre, que acredita no amor e não se importa com que os outros estão pensando”, define a protagonista Maria Flor, que usará a indefectível minissaia de caveirinha no especial. Os dois namorados, Otto e Pedro, são vividos pelos atores Bernardo Marinho e Pedro Neschling.

A idéia de levar a personagem para a televisão partiu do roteirista Mauro Wilson. “O que sempre me atraiu nas tirinhas foi o fato de dois homens dividirem o amor pela mesma mulher e ainda serem amigos”, explica. “O namoro dos três é harmonioso e bem-resolvido. Eles não são de ficar discutindo a relação”.

No entanto, a versão televisiva é uma espécie de “Aline para hipertensos”. Esqueça as estripulias que a mocinha já aprontou nos quadrinhos, como a temporada em que viveu como garota de programa por puro fetiche, ou passou a semana viajando de ácido.

“Será uma história mais romântica que sexual. Claro que vamos mostrar os três na cama, que é uma constante nos quadrinhos, mas não haverá cena de sexo”, adianta Wilson, que escreveu o roteiro inspirado em “Bande à part”, de Godard, “Jules e Jim”, de Truffaut, e “Os sonhadores”, de Bertolucci – todos clássicos cinematográficos sobre “casais de três”. 

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Pedro Neschling (Pedro), Bernardo Marinho (Otto) e Maria Flor, em cena de 'Aline'.

 Comédia romântica
O “pai” de Aline, Adão Iturrusgarai, faz ressalvas em relação ao bom-comportamento de sua “filha” na TV. “Sei que será uma história para um público maior e até mais careta que o dos quadrinhos. Mas espero que não transformem numa comédia romântica babaca”, alfineta o cartunista.

 Adão não participou do processo de adaptação de “Aline” para a telinha. E diz que nem terá como assistir ao especial nesta terça. “Não entendo nada de televisão e estou aqui na Patagônia. Que horas vai passar aí no Brasil?”, debocha.

Além de Aline, Pedro e Otto há um quarto protagonista no episódio: a cidade de São Paulo. Segundo Wilson, a escolha das locações onde foram gravadas as cenas foi pensada de acordo com o jeitão urbano da personagem. “Aline é uma menina moderna, baladeira, que gosta do cotidiano da capital. É uma história que não caberia ter o Rio de Janeiro como cenário”, opina o roteirista.

 Assim, a São Paulo de “Aline” vai muito além do “buraco da Paulista” – complexo viário que liga as avenidas Paulista, Doutor Arnaldo e Rebouças, transformado em clichê de novelas que se passam na paulicéia. A personagem vive com seus dois amores desvairados em um apartamento em frente a Praça da Sé, compra CDs da Galeria do Rock, passeia de bicicleta no Minhocão, e, festeira que só ela, é fã das noitadas de música eletrônica no club D-Edge.
>> G1 – por Dolores Orosco

Veja o blog do especial ‘Aline'</a>


“CORAÇÃO DE TINTA” RETRATA PERSONAGENS FANTÁSTICOS

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008
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Cena do filme 'Coração de Tinta', com Brendan Fraser

Aventura infanto-juvenil de férias com potencial para engajar também adultos em busca de diversão, “Coração de Tinta” baseia-se no livro homônimo da autora alemã Cornelia Funke, em torno da fantasia de que algumas pessoas teriam o dom de trazer para este mundo personagens dos livros apenas lendo suas histórias em voz alta.

Um desses “línguas encantadas” é o encadernador de livros raros Mortimer Folchart (Brendan Fraser, de “Viagem ao Centro da Terra”), pai de Meggie (Eliza Hope Bennett). Desde o misterioso desaparecimento de sua mulher, Resa (Sienna Guillory), ele deixou de lado a leitura em voz alta e procura desesperadamente o livro em que ela entrou, também chamado “Coração de Tinta”.

Visitando o sebo de uma cidadezinha atrás do livro, Mortimer encontra Dedo Empoeirado (Paul Bettany, de “O Código Da Vinci”) – um homem que tem poderes mágicos para controlar o fogo e que foi trazido a este mundo por conta de uma leitura doméstica de Mortimer. Dedo está desesperado para voltar para sua mulher, no reino do livro, mas Mortimer não quer saber de atendê-lo. Refugia-se na casa de sua excêntrica tia-avó, Elinor (Helen Mirren, de “A Rainha”), dona de uma esplêndida biblioteca.

Mortimer é localizado em seu esconderijo não só por Dedo Empoeirado como por outros seres malignos vindos das páginas do livro. Liderados por Capricórnio (Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”), os vilões planejam trazer para a terra o mais poderoso ser do mal de sua história, o gigantesco Sombra.

As aventuras seguintes envolvem a captura e fuga de Mortimer, ajudado por Dedo Empoeirado e Farid (Rafi Gavron), um rapazinho de “As Mil e Uma Noites”. Complicando a situação, Capricórnio descobre que a menina Meggie é também uma “língua encantada”, chantageando-a para usar seu poder ao informá-la de que a mãe dela está em seu poder no seu castelo – onde são prisioneiros os personagens de diversas histórias e lendas, como os macacos voadores de “O Mágico de Oz”, o crocodilo de “Peter Pan” e o Minotauro.

Enquanto isso, Mortimer, Dedo Empoeirado e Farid localizam na Itália o autor de “Coração de Tinta”, Fenoglio (Jim Broadbent), pedindo sua ajuda para restaurar a ordem das coisas.

Este intenso tráfego entre o mundo da realidade e da imaginação requer, como se pode prever, um uso intensivo de efeitos especiais, que são eficientes. O que falta é um ritmo adequado para um maior envolvimento com os personagens, que parecem estar o tempo todo apenas correndo uns dos outros.

O diretor inglês Iain Softley, que foi bem na condução do drama de época “Asas do Amor”, baseado em livro de Henry James, aqui teve um resultado inferior.
>> REUTERS – por Neusa Barbosa, do Cineweb


NEIL GAIMAN E OS DEUSES AMERICANOS

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008

deuses-americanosRecomendo a quem gosta de literatura fantástica o romance de Neil Gaiman Deuses Americanos, lançado pela Conrad Editora. Gaiman é mais conhecido como roteirista da série de quadrinhos Sandman, mas de dez anos para cá tem publicados vários romances. Coraline, uma história de terror para crianças, é muito bom. Este American Gods também. A premissa do livro é que os antigos deuses e criaturas mitológicas européias se transportaram para a América do Norte durante a colonização, mas estão decadentes e sem poder. Eles andam pelas ruas, transformados em pessoas de carne e osso; têm uma enorme longevidade, mas podem morrer, tanto de morte-morrida quanto de morte-matada. E estão travando uma batalha feroz contra os Novos Deuses: os deuses da Mídia Ambiente, ou seja, da publicidade, do cinema, da TV, etc.

Gaiman é um escritor fluente e ótimo contador de histórias. Uma espécie de Stephen King sem a morbidez doentia que King muitas vezes tem, uma vontade de espremer até o fim o suco de terror e repulsa que uma cena pode fornecer. Gaiman oferece uma boa quantidade de imagens arrepiantes, mas concede apenas uma dúzia de linhas a elas, não mais, e segue em frente – o que me parece literariamente mais eficaz. O livro conta a história de Shadow, um sujeito que ao sair da prisão depois de uma pena leve por assalto vê sua vida familiar destruída e logo depois é contratado como guarda-costas de um sujeito que parece ter poderes sobrenaturais e está sendo perseguido por mafiosos igualmente estranhos.

A humanização dos deuses nórdicos, eslavos, africanos, etc. é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque o autor consegue nos dar a idéia de que esses personagens têm poderes imensos e ao mesmo tempo são tão frágeis, complicados e indefesos quanto nós. Eles podem muita coisas que não podemos; mas não podem tudo. Eles também têm que “ir à luta”, têm que “batalhar pelo seu espaço”, etc. O mundo sobrenatural é tão competitivo quanto um escritório ou um mercado financeiro. Gaiman (que é inglês) tem um olho crítico muito arguto para certos aspectos da vida americana: os museus e atrações surrealistas de beira-de-estrada, a cidadezinha pacífica mas cheia de terrores sob a superfície ao estilo Twin Peaks, os golpes e falcatruas dos vigaristas profissionais. Tudo isto é misturado à narrativa sobrenatural com a mesma eficiência de um Tim Powers.

Cultura pop e mitologia milenar são duas galáxias em lenta colisão nos últimos cem anos da Literatura. São dois universos que à primeira vista não têm nada a ver um com o outro, mas que são gerados pelo mesmo impulso humano: o de fantasiar, criar um panteão imaginário de seres excepcionais, que nos servem de espelho, modelo, farol, alerta ou ameaça. O livro de Gaiman deveria interessar a quem gosta de ler sobre mitos. É o mesmo universo de Câmara Cascudo, Joseph Campbell, Miracea Eliade, J. G. Frazer, Umberto Eco (cultural medieval + cultura de massas).
>> MUNDO FANTASMO – por Bráulio Tavares


BANCO IMOBILIÁRIO DA TRILOGIA SENHOR DOS ANÉIS

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008

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O clássico jogo de tabuleiro Banco Imobiliário, que agora se chama Monopoly também aqui no Brasil, tem inúmeras edições diferentes.

No meio de tantas edições não podia faltar o Monopoly em homenagem a trilogia O Senhor dos Anéis.

O “Monopoly – The Lord of the Rings Trilogy Edition” foi lançado pela Hasbro em 2006 e pode ser jogado da maneira tradicional ou no modo “One Ring” mais rápido e criado especialmente para esta edição. No jogo você faz uma viagem pela Terra Média construindo fortalezas e castelos para defender seus novos territórios.

O Monopoly vem com 6 peças especiais: Aragorn, Frodo, Gimli, Galadriel, Gandalf e Legolas. Tabuleiro colorido, sete “Denominations of Power” que substituem o dinheiro, um dado especial Eye of Sauron, um dado normal e o Anel de “ouro”.
>> BLOG DE BRINQUEDO – por Dado Ellis


BATTLESTAR GALACTICA: WEBISODES 4, 5 e 6

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008

A ação não para com mais três partes dos dez webisódios da nova temporada de “Battlestar Galactica – The Face of the Enemy” (”O Rosto do Inimigo”)
 
Battlestar Galactica – The Face Of The Enemy – Webisode 04

Battlestar Galactica – The Face Of The Enemy – Webisode 05

Battlestar Galactica – The Face Of The Enemy – Webisode 06


O GRANDE SONO DA FICÇÃO CIENTÍFICA

quarta-feira | 31 | dezembro | 2008

Há muito que o género perdeu a sua estante exclusiva nas livrarias. Por quê?
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Viajar no tempo, usar um manto de invisibilidade ou dar um passeio pelo centro da Terra são impossibilidades que um dia a Ciência poderá concretizar. Por enquanto, resta sonhar. Ou ler Ficção Científica. Mas será fácil? Basta entrar numa qualquer livraria e perguntar pela secção de livros de Ficção Científica (FC). A resposta mais comum é a de que isso não existe. Há muito que o género perdeu a sua estante exclusiva. Os livros ou estão dispersos, sem pouso fixo, ou sobrevivem no meio da literatura de género Fantástico e de divulgação científica. Longe vai a “Idade de Ouro da FC”. Entre os anos 30 e 50, o género recebeu a ampla atenção do público e surgiram autores como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke, hoje clássicos. Meio século depois, o retrato que os livreiros traçam é unânime: a FC já não está na moda.

A constatação vem de quem vende e de quem publica. Nos anos 80, a Caminho apostou numa colecção dedicada à FC e criou o prémio Editorial Caminho Ficção Científica. O último romance saiu em 2001. A colecção de capa azul morreu.

Na série de FC mais antiga e prestigiada do país – Argonauta (Livros do Brasil) – já não se publica um livro desde 2006. Na década de 60, as tiragens dos livros da Argonauta rondavam os 20 mil exemplares. As últimas edições não ultrapassam as 5 mil unidades. O próximo volume está, no entanto, agendado para Fevereiro.

A colecção “Livros de Bolso – Série Ficção Científica”, da Europa-América, está sem novidades desde 1998. A outra chancela do grupo dedicada a este tipo de literatura, a Nébula, está com mais sorte apesar do ritmo de publicação ter diminuído.

O editor da Europa-América, Tito Lyon de Castro, reconhece que o mercado de FC já viveu melhores dias e está, neste momento, “fraco”.

“Viajantes no Tempo” é a série da Presença que surgiu em 2002. “Apesar do mercado internacional apostar no género como nova tendência, a colecção da Presença nunca obteve vendas significativas”, refere o director de marketing Francisco Pinto Espadinha. No início do ano, a colecção parou. Em 2005 a Saída de Emergência começou a publicar FC apesar do editor Luís Corte Real reconhecer que o género é “comercialmente desinteressante”.

“Editamos por carolice. Não existe um retorno financeiro expressivo com a publicação deste tipo de literatura”, assegura. Apesar do mercado não estar virado para a FC, existem sempre algumas editoras que decidem remar contra a maré. É o caso das Edições Chimpanzé Intelectual que abriram o catálogo, em 2006, com a antologia “Ficções Científicas e Fantásticas” de nove escritores portugueses. “Começamos pela colectânea ‘Ficções Científicas e Fantásticas’ por estes serem géneros que em Portugal têm pouca tradição e reduzido espaço de afirmação, apesar de continuarem a dar azo a grandes obras da literatura mundial, assumindo um papel de contracultura importante”, justifica o editor Miguel Neto. Este ano, a editora já lançou “A Bondade dos Estranhos”, de João Barreiros. É o primeiro volume da primeira trilogia portuguesa de FC. A Gailivro também arriscou e publicou o romance “Ar”, de Geoff Ryman.

O passado, não o futuro
Este panorama sombrio não impediu, contudo, que um núcleo português de criadores do género saísse da obscuridade graças à extinta colecção da Caminho. João Barreiros, um dos autores que publicou nessa colecção, acha que o público português não lê FC porque está mais interessado no passado -o sucesso dos romances históricos é disso exemplo -e não consegue visualizar o universo que o rodeia.

“O maior problema deste tipo de literatura deve-se ao desconhecimento do público em relação aos livros que são publicados”, opina também Luís Filipe Silva, vencedor do Prémio Ficção Científica Caminho 1991 com “O Futuro à Janela”. “Neste momento, as editoras publicam muitas obras de género Fantástico. Os escassos livros de FC que vão saindo acabam por desaparecer rapidamente da exposição nas livrarias.” O universo destes dois géneros de literatura não poderia estar mais distante: a Ficção Científica especula sobre situações que um dia a Ciência poderá vir a concretizar; a literatura Fantástica usa o sobrenatural, algo extraordinário que deriva da imaginação e se supõe não existir.

A “iliteracia” dos leitores é, para o ex-realizador e escritor de FC António de Macedo, a causa da fraca adesão a este género: “A FC de agora é mais exigente, ao contrário da que surgiu nos anos 50, e o público tem dificuldade em ler algo que o obrigue a participar activamente na leitura. Mas os leitores pensam que para lerem FC precisam de conhecimentos científicos, o que não é verdade”, acrescenta.

Rogério Ribeiro, presidente da Associação Portuguesa do Fantástico nas Artes -Épica, destaca a “má fama” de que a FC goza por estar ligada demasiadas vezes a obras de qualidade inferior. “Na verdade, a FC terá a mesma proporção de más obras do que qualquer temática literária”, ressalva. As “más traduções” e a “publicação das obras mais obscuras dos autores mais medíocres” são outras razões que, diz João Barreiros, levam os portugueses a não consumirem esta literatura.

Mais optimista está Luís Miguel Sequeira, presidente da Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico -Simetria: “Não creio nada que o público português não se interesse por FC. Está é a consumila sem se aperceber do género que está a ler”. O problema não parece estar, para Sequeira, do lado das editoras, porque tem visto boas edições que não recebem a recepção do público. Todos parecem estar de acordo num ponto: a comunicação social não dá atenção ao que se vai publicando dentro do género.

As vendas de FC editada em Portugal não reflectem, contudo, o entusiasmo dos leitores do género. Cristina Alves, bióloga, lê dois ou mais livros do género por mês. Apesar de ter começado por obras traduzidas em português, rapidamente saltou para as edições originais que compra na Net. “Os livros mais recentes nunca estão traduzidos. As compras online colocam os livros nas mãos três dias depois de serem publicados. Para quê esperar 10 anos pela tradução portuguesa?” pergunta João Barreiros.

FC à portuguesa?
A leitura de FC está em crise e o espaço reservado para os escritores portugueses não gozará de melhor saúde. Na colecção Argonauta não encontramos um único autor luso. A Nébula (Europa-América) precisou de editar primeiro 100 livros de autores estrangeiros para dar à estampa “Os Nogmas”, da portuguesa Cátia Palha.

Os autores nacionais só encontraram um espaço de acolhimento visível no mundo editorial no final dos anos 80 com a colecção Caminho Ficção Científica. Excluindo este período de vitalidade, a publicação deste tipo de narrativas escritas por portugueses sempre viveu na clandestinidade, nota a investigadora e docente Teresa Sousa de Almeida, na antologia Fronteiras, publicada pela Simetria em 1998: “Em Portugal a FC é completamente ignorada pela instituição literária nacional, pela escola e, salvo honrosas excepções, pela crítica. Tem sido relegada para edições de autor, colecções especializadas, fanzines de duração efémera e algumas antologias que fizeram história. Face a esse esquecimento, responde na mesma moeda”.

Mesmo não sendo muito visível, António Macedo acredita numa FC portuguesa. Mais céptico é Luís Filipe Silva que reconhece a existência de uma FC escrita por portugueses mas prefere não reivindicar o estatuto de Ficção Científica Portuguesa por serem poucos os escritores lusos e não se inspirarem em elementos de identidade nacional. “Os romances inspiram-se em tradições não portuguesas e por isso caem num vazio conceptual no nosso meio literário, o que não abona em favor deles”.

“Os autores portugueses de FC são herdeiros espirituais de Eça de Queirós ou de Júlio Dinis” acrescenta Luís Miguel Sequeira. A ironia, a paródia, a preocupação com a realidade portuguesa e uma ligeira tendência para ficções de natureza política são as características da FC escrita por autores portugueses que a investigadora Teresa Sousa de Almeida destaca.

Existem discussões e especulações sobre a morte da FC. Na Internet, os argumentos são muitos, desde o rápido avanço da ciência que a FC não acompanha, até à constatação de que já vivemos num cenário de FC, o que torna o género obsoleto ou redundante.

“Quando existe algo que se torna realidade, surge sempre outra coisa que é preciso inventar”, diz António de Macedo que não acredita no fim deste tipo de literatura. Menos certezas têm João Barreiros: “Não sei se a FC está a morrer devido ao desinteresse crescente pelo futuro, mas se assim é, estamos todos em perigo. Daqui a 200 anos quem é que se lembrará do ‘Memorial do Convento’, de José Saramago? Mas a ‘Máquina do Tempo’ do Wells, o ‘Frankenstein’ da Shelly, ‘O Deus das Moscas’ de Golding, o ‘Admirável Mundo Novo’ de Aldous Huxley ou a ‘Laranja Mecânica’ de Burgess continuarão a ser lidos”, vaticina. O que a FC precisa é, segundo Luís Filipe Silva, de se reinventar, “Mais tarde ou mais cedo, a FC acabará por conquistar um público mais expressivo em Portugal”, prevê Francisco Espadinha. Um núcleo de escritores e entusiastas no nosso país está pronto para jogar. Mas, para isso, precisam que a literatura de FC acorde do longo sono em que mergulhou para viajar à velocidade da luz pela mente dos leitores. Em direcção a mundos desconhecidos.

A jornada pode já começar com algumas das próximas publicações do género em Portugal: “Brasil” de Ian McDonald chegou às livrarias, com o selo da Gailivro; “A Máquina do Tempo Acidental”, de Joe Haldeman, será publicado em Dezembro na Nébula; “The Memory Cathedral” de Jack Dann está agendado para Fevereiro de 2009, pela Saída de Emergência.
>> ÍPISILON – por Eduarda Sousa


TERRA INCOGNITA: CHEGOU O NÚMERO 4

terça-feira | 30 | dezembro | 2008

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BAIXE AQUI!

Tardamos mas não falhamos: no apagar das luzes de 2008, atingimos velocidade de escape, como diria Mark Dery, e conseguimos nosso objetivo: chegar ao número 4 da TERRA INCOGNITA

Foram quatro edições mensais. Não de forma totalmente literal, mas foram 4 em 120 dias. Do the math: até que a conta, no fim das contas, deu certo.

O primeiro conto desta última edição do ano é o natalino (aproveitando o ensejo da data, natürlich) Ritual de Imortalidade, de Rafael “Lupo” Monteiro. Não chega a ser flash fiction, mas falar sobre ele estraga. Só é possível dizer que o Bom (?) Velhinho faz uma participação fundamental.

O segundo é Z, de Rynaldo Papoy. Não, não é uma homenagem ao filme homônimo de Costa-Gavras: é, antes talvez, um tributo ao bom e velho Philip K. Dick, que, se vivo fosse estaria completando 80 anos (o tributo é proposital ou não? Leiam e julguem). De todo modo, o conto de Papoy é incisivo, cortante e satírico, pero sin perder na ternura jamás, principalmente para com nossos hermanos argentinos.

E, para fechar com chave de plutônio nosso ano, temos o prazer de apresentar uma entrevista inédita com o mentor dos cyberpunks, Bruce Sterling, concedida a Fábio Fernandes. Além disso, uma resenha de seu clássico Schismatrix Plus (infelizmente jamais publicado no Brasil) e pela primeira vez em língua portuguesa, o conto Vinte Evocações (Twenty Evocations), uma das mais belas e violentas histórias de Sterling.
Para 2009, Grandes Expectativas, Grandes Mudanças. Vem aí uma edição inteiramente em inglês, com contos de autores brasileiros e estrangeiros inéditos.
Hasta la vista, babies.
>> TERRA INCOGNITA – por Fábio Fernandes
 

Editorial – Em fim, o Annus Mirabilis

Alguém ainda tem dúvida que 2008 foi o ano mais importante da literatura de gênero brasileira dos últimos dez anos? Ou vinte? Não é exagero, nem desprezo por aqueles que batalharam (e batalham) na difícil missão de fazer a Ficção Científica, a Fantasia e o Horror brasileiros gêneros comercialmente ativos, parte da economia cultural do País. É um fato. A literatura especulativa “do B” fecha o ano com saldo muito positivo.

Vejamos: tivemos a consolidação da Fantasticon como a mais importante convenção para fãs de ficção especulativa. Tivemos a segunda edição do Invisibilidades, outra convenção de sucesso que vem para somar e ficar. Tanto em números absolutos quanto na maturidade dos assuntos debatidos, esses dois eventos mostram como os leitores e autores brasileiros evoluíram.

Tivemos ainda uma retomada editorial. A Aleph descarregou nos clássicos indispensáveis da FC, como Nevasca, a trilogia do Sprawl e Nevasca. Por outro lado, a Tarja Editorial e a Não Editora mostraram que é possível apostar no autor nacional, que, aliás, deu mais uma demonstração do amadurecimento do mercado. Mas não só os publicados em papel deram evidências de um futuro próspero. A internet também se consolidou como meio e fim complementar ao mercado editorial tradicional. Além disso, quem permeia os bastidores da produção literária sabe que há tigres prontos para tomar o leitor de assalto.

Em 2008 tivemos até o surgimento de uma subcultura inteira. O gênero steampunk chegou em definitivo aos trópicos, com grupos organizados, revistas e eventos próprios.

E tivemos quatro edições de Terra Incognita, uma revista que é fruto e, ao mesmo tempo, catalisador dessa ebulição. Publicamos autores estrangeiros que a maioria dos brasileiros sequer tinha ouvido falar. Publicamos outros que, mesmo conhecidos de nome, nunca haviam sido lidos em português. Resgatamos autores brasileiros que haviam se desgarrado do rebanho e revelamos novos autores que, temos certeza, serão presença constante nas leituras de todo fã de FC, F, H e quetais. Publicamos histórias de qualidade, criamos a ponte, cumprimos nossa missão até agora.

No entanto, há muito o que fazer em todas as frentes. Mais novos autores estrangeiros precisam ser publicados no Brasil. As editoras precisam acreditar mais nos autores brasileiros e profissionalizarem o mercado. Por sua vez, os autores têm que aumentar consideravelmente a qualidade da literatura que produzem, pesquisando, criando e ousando mais. Retomando o maravilhamento e não somente reproduzindo os últimos cinqüenta anos de literatura especulativa.

Mas estamos confiantes. Muito. Tanto que acreditamos que 2009 será “O ano em que faremos contato”. Com as editoras, com o público, com a mídia, com a produção global. Com nós mesmos, enquanto leitores, editores e autores de gênero. Que venha o presente, então. Porque o futuro chegou mais cedo.
Feliz 2009.
Fábio Fernandes e Jacques Barcia