‘TRUE BLOOD’: 1ª TEMPORADA

terça-feira | 30 | junho | 2009

Chegou este mês às lojas o box em DVD da primeira temporada de “True Blood”. A produção de Alan Ball, de “A Sete Palmos/Six Feet Under”, tem conquistado público e crítica nos EUA. Aqui no Brasil sua popularidade ainda é menor em comparação, mas crescente graças à Internet e agora com o DVD.

A série tem como base os livros de Charlene Harris, publicados entre 2001 e 2009. Conhecidos como The Southern Vampires Mysteries, a autora já publicou nove livros narrando as aventuras de Sookie e seus amigos: “Dead Until Dark”, “Living Dead in Dallas”, “Club Dead”, “Dead to the World”, “Dead as a Doormail”, “Definitely Dead”, “All Together Dead”, “From Dead to Worse” e “Dead and Gone”. Também existem alguns contos e histórias curtas estreladas por personagens da série de livros e que não contam com as participações de Sookie.

A trama é simples. Temos uma jovem sulista que se apaixona por um vampiro chamado Bill. Ambos enfrentam as oposições das sociedades que eles representam, as quais, cada uma à sua maneira, não aceitam esta miscigenação.

Quando a série estreou causou reações opostas, alguns críticos gostaram, outros acharam o piloto “esquisito” e outros simplesmente não gostaram. Mas o público, leitor da obra de Harris, demonstrou interesse e ansiedade para conhecer a visão de Alan Ball. O painel da série na Comic Con de 2008 foi o mais concorrido, sinal de que a produção não passaria desapercebida quando estreasse na TV.

A resposta foi rápida e a prova mais recente de que a série agradou está no fato de que a primeira temporada em DVD já alcançou a marca de 1 milhão de boxes vendidos somente nos EUA em um único mês.

Se é uma obra de arte? Não, mas tem consistência e apelo popular. O apelo está na trama principal, um “Romeu e Julieta” vampiresco. Mas se você procura por algo mais denso e profundo, dê uma olhada mais de perto na série e encontrará um ambiente riquíssimo e uma construção de personagens que vale a pena acompanhar.

Situada em uma cidade do sul dos EUA a série, em sua primeira temporada, traz uma boa seleção de personagens e situações que representam de forma abrangente os hábitos e costumes sulistas. Não apenas no sotaque, mas na linha de pensamento e comportamentos, retratados em pequenos comentários aparentemente desnecessários, passando por atitudes que para os desavisados podem parecer absurdas, chegando no desenrolar da própria trama em si.

Charlene Harris soube explorar uma cultura ainda atrasada abordando questões como o preconceito à relacionamentos entre duas raças distintas, a presença do pensamento e atitudes religiosas que estão enraigadas nas comunidades sulistas, as questões políticas, passando pelos vícios, chegando à essência do ser humano e seu medo à solidão, temperadas à uma linguagem de metáforas.

Trazendo para as telas da TV, os roteiristas souberam captar esta mensagem. Entre fantasias, folclores e mitos a série explora a imaginação humana questionando comportamentos, seduzindo com imagens de atos sexuais intensos (para a faixa etária a qual se destina) e instigando a curiosidade do público sobre o destino dos personagens.

A primeira temporada tem como base o livro “Dead Until Dark”. A série começa com a informação de que os vampiros “saíram do caixão”, alusão ao termo “saíram do armário” dado aos homossexuais. Eles convivem na sociedade junto com os humanos graças ao surgimento do sangue sintético desenvolvido por uma empresa japonesa (ótimol!) o qual é vendido em garrafas.

Assim, com o “True Blood”, o sangue sintético, a sociedade pode ficar tranqüila em saber que os vampiros estão à solta. Estes, por sua vez, buscam uma legitimação, criando fundações e associações para defenderem seus direitos junto à sociedade dos humanos. É claro que existem as gangues, que não aceitam limitações impostas ao seus estilos de vidas e portanto escolhem viver à margem de sua própria sociedade.

Sookie Stakhouse

No elenco principal da trama temos Sookie (Anna Paquin) uma jovem garçonete capaz de ler os pensamentos das pessoas. Este dom foi descoberto quando ela ainda era criança e, aparentemente, todos na cidade sabem sobre ele. Este dom será sua salvação e seu castigo posteriormente.

Criada pela avó que lhe dá total liberdade de tomar suas próprias decisões, algo raro no ambiente em que ela vive, Sookie demonstra ser uma jovem inteligente e corajosa. No entanto, aos poucos, o público vai percebendo que ela é apenas uma menina no corpo de uma mulher adulta.

Jason Stakhouse 

Inexperiente, ingênua, de pouca cultura, deslumbrada pelo novo Sookie vai aos poucos descobrindo o mundo em que ela vive. Protegida pela avó, Sookie não conhece de fato as pessoas e do que elas são capazes. Ao longo da primeira temporada ela vai caindo em si, o que a leva a decepcionar-se com alguns e a agarrar-se a outros. Sua vida sofre uma reviravolta e a pouca experiência de vida de Sookie a faz ficar sem base para tomar as decisões. Sua honestidade para consigo e seus sentimentos são as únicas armas que ela tem para enfrentar o mundo que se abre para ela.

Neste mundo está seu irmão, Jason (Ryan Kwanten), um jovem viciado em sexo que logo encontra outro vício ao qual dedicar-se: o sangue dos vampiros que dá aos seres humanos a capacidade de elevar seus sentidos, em uma alusão ao uso das drogas. Posteriormente Jason irá se dedicar à religião, a qual será explorada pela série como um vício da humanidade.

Tara Thorton

Tara Thorton (Rutina Wesley) é a melhor amiga de Sookie. Mas a jovem tem grandes problemas. Talvez a personagem que melhor represente uma a vida no sul dos EUA. Negra, filha de mãe alcóolatra, sem pai, cresceu praticamente sozinha tendo o apoio da avó de Sookie. Apaixona-se por um jovem que não percebe sua existência e não consegue manter um relacionamento ou um emprego. O rancor e a tristeza acumulados durante anos endureceram Tara que acredita não precisar de ninguém para viver. Mesmo sabendo não ser verdade, Tara afasta todos que a cercam com um diálogo rude e sincero em excesso.

Sua relação com a mãe é um dos pontos altos desta temporada. Através das duas temos a oportunidade de ver explorada as questões de fé, do vício, da dor de um relacionamento entre mãe e filha, bem como do abandono.

Por curiosidade, Rutina Wesley substituiu Brook Kerr, que chegou a filmar os dois primeiros episódios.

Sam Merlotte

Ainda no elenco central desta primeira temporada temos o jovem Sam Merlotte (Sam Trammell) o rapaz “boa gente”, apaixonado por Sookie, incompreendido e solitário que busca por alguém a quem amar. Logo descobrimos que existe uma longa história por trás do rapaz aparentemente apático. Ele irá representar uma das tramas que será posteriormente explorada.

Bill Compton

E, é claro, temos o vampiro Bill. Curiosamente, Alan Ball não escolheu um modelo de capa de revista para interpretar o romântico vampiro. Stephen Moyer mais parece um ator de filmes pornôs dos anos 70 que propriamente um herói romântico do século XXI. Mas ele dá conta do recado em sua segunda incursão como vampiro. A primeira foi na minissérie britânica “Ultraviolet”, de 1998.

Bill surge do nada na vida de Sookie (e da atriz Anna Paquin, já que os dois começaram a namorar depois que se conheceram no episódio piloto). Solitário, Bill não se envolve nem mesmo com sua própria gente, os vampiros. Ele servirá de elo de ligação entre os dois mundos promovendo situações de risco para Sookie e seus amigos, ao mesmo tempo em que luta para conseguir demonstrar seus sentimentos à muito adormecidos.

Sua história será narrada ao longo da primeira temporada, fazendo com que o público o aceite e dê suporte para sua história de amor, a qual ao longo de toda a série sofrerá com os interesses e atitudes de terceiros.

Em sua primeira temporada “True Blood” conseguiu apresentar sua proposta e provar sua força junto ao público. No entanto, a série dependerá do pulso firme de Alan Ball para não correr o risco de se perder ao longo de sua jornada. Visto que ela se apóia em dois elementos significativos: a trama de aventuras fantásticas e a construção sócio cultural de personagens/ambiente presentes nos livros.

Desta forma, com a fama, Ball precisa controlar os interesses econômicos e populares para não permitir que a aventura se sobreponha ao embasamento cultural no qual a série foi contruída e o qual lhe dá a legitimidade junto à uma crítica especializada.

Com uma bela fotografia que trabalha os tons fortes ao longo do dia e a cor acizentada com o jogo de luz e sombra durante a noite, a série mantém a presença do ambiente sulista em seus cenários e figurinos mesmo sendo filmada em Los Angeles; apesar de pequenos escorregões, como a presença de uma palmeira no episódio 10.

A trilha sonora é assinada por Nathan Barr em seu primeiro trabalho significativo na TV. No cinema ele foi assistente para as trilhas de “Melhor Impossível” e “O Príncipe do Egito” e assinou a trilha de “Os Gatões”, entre outros.

“True Blood” – Primeira Temporada

Título Original: True Blood: The Complete First Season
Estúdio: Warner Home Video
Tempo: 641
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 2009
Recomendação: 14 anos
Região do DVD: Região 4
Legendas: Português, Francês, Inglês
Idiomas / Sistema de som: Dolby Digital 2.0
Formato de tela: Widescreen
Nº de Discos: 5
Preço de Lançamento: R$119,90


POE: ESCRITOR FALA SOBRE A MINISSÉRIE

terça-feira | 30 | junho | 2009

Poe é o nome de uma nova minissérie da Boom! Studios que mistura fantasia e realidade ao mostrar o escritor Edgar Alan Poe como um detetive do sobrenatural em meados do séc. XIX.

Escrita por J. Baton Mitchell, um estreante em quadrinhos, mas um veterano do cinema e da TV, a narrativa de Poe começa logo após a morte de sua mulher, cuja dor despertou nele algumas habilidades macabras, como a capacidade de ver como as pessoas morrem.

“Acho que a maior força dessa trama está nos elementos das histórias de Edgar Alan Poe que fazem parte da narrativa. A ideia é que o mundo onde Poe vive é esse do sobrenatural e suas experiências nesse mundo são a matéria-prima para as histórias que ele ira escrever”, disse Mitchell.

Para o escritor, mostrar Poe como um personagem é uma atração à parte, já que o protagonista da história não é um típico herói. “Ele é baixo, franzino, inseguro. O que o força a pensar como ele pode sair das situações de perigo ao invés de lutar, ao contrário do seu irmão, William, que é seguro, confiante e esperto. A relação entre os dois cria uma dinâmica chave para a história”.

Mitchell também disse que existe até uma história de amor incrustada nessa mini, de forma que nem tudo será voltado apenas para fãs das histórias de Poe.

Os desenhos da minissérie são de Dean Kotz e o lançamento do #1 acontecerá em julho.

O Boom! Studios foi inaugurado em 2005, com a proposta de viabilizar projetos autorais de grandes nomes dos quadrinhos. A editora possui uma série de títulos em vários gêneros diferentes, entre os quais se destacam Hero Squared, Zombie Tales, Cthulhu Tales e títulos com personagens da Pixar e Disney. Mark Waid é seu atual editor.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


‘LITTLE HEROES’: PEQUENOS E GRANDES PERSONAGENS

terça-feira | 30 | junho | 2009

Previsto para ser lançado em agosto, o projeto “Little Heroes”, criado e roteirizado pelo capixaba Estevão Ribeiro (“Contos Tristes”), reúne oito histórias em quadrinhos estreladas por crianças e adolescentes onde acontecem atos heróicos que remetem a grandes personagens da DC Comics.

– A ideia era mostrar o “Little Heroes” para as editoras gringas, por isso o nome das histórias e do projeto ser em inglês – explica Ribeiro, por email, ao Gibizada. – Aqui, o álbum será chamado de “Pequenos Heróis” e será bilingue. Eu criei o projeto e assino os roteiros, que não tem falas, até para podermos imprimir no Brasil e enviar para editoras dos EUA e da Europa para apreciação.

Como co-editor do projeto, cuidando dos convites a diversos ilustradores, está o ilustrador Mário César, que também é responsável por uma das HQs: “Superbro”, homenagem ao Super-Homem. A imagem que abre este post, da HQ “Little Wonders”, de Fernanda Chiella, presta homenagem a Mulher-Maravilha. As outras seis histórias são: “The dark boy” (Batman), de Emerson Lopes; “The Deep Sea’s Little King” (Aquaman), de Jaum; “The Boy From Mars” (Ajax), de Ric Milk; “My Sweet Little Bird” (Canário Negro), de Leo Finocchi; “The Quickest” (Flash), de Vitor Cafaggi; e “The Lantern” (Lanterna Verde), de Raphael Salimena.

Segundo Ribeiro, serão 80 páginas de quadrinhos mais ilustrações avulsas de artistas convidados, biografia de cada autor e bastidores da produção, tudo bilíngue. O álbum terá cerca de 110 páginas em formato americano.

– A maior parte dos envolvidos já confirmou a participação no segundo número de “Little Heroes”, que será uma trilogia: Heróis da DC, Heróis da Marvel e Heróis Clássicos, como Mandrake, Fantasma, Flash Gordon, Tarzan, Príncipe Valente e outros.
>> GIBIZADA – por Télio Navega – 3/04/2008


MAURÍCIO DE SOUSA: PERSONAGEM MÔNICA É NOMEADA EMBAIXADORA DA CULTURA DO BRASIL

terça-feira | 30 | junho | 2009

Depois de conquistar gerações e gerações de fãs, a personagem Mônica, do desenhista Maurício de Sousa, foi nomeada embaixadora da cultura do Brasil, nesta sexta-feira (26), durante evento do Ministério da Cultura, no Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo.

Monica_evolucao A evolução da personagem Mônica ao longo das décadas 

A homenagem marca o início das comemorações dos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa, que vão contar com lançamentos de exposições, livros e um documentário sobre a Turma da Mônica.

Publicada em quadrinhos desde 1970, a personagem tem hoje mais de 1 bilhão de revistas publicadas e mantém a liderança nas vendas de HQs no Brasil. As histórias da Turma da Mônica também foram editadas em 50 idiomas, em 126 países.
>> G1, DO RIO


LANÇAMENTO: ‘O VAMPIRO DA MATA ATLÂNTICA”, DE MARTHA ARGEL

segunda-feira | 29 | junho | 2009

Lancamento_conviteA


WILLIAM SHATNER ENTREVISTA LEONARD NIMOY

segunda-feira | 29 | junho | 2009

Entrevista para o programa “Raw Nerve“, talk show de William Shatner
para o canal Biography,realizada em janeiro de 2009


MAGOS, BRUXAS E FEITICEIROS: O BEM E O MAL NA LITERATURA DE FANTASIA

domingo | 28 | junho | 2009

Personagens praticantes de magia aparecem em histórias da tradição oral desde que o mundo é mundo. Muito antes que Harry Potter voasse em sua vassoura nas aulas de vôo de Madame Hooch em Hogwarts, feiticeiros e feiticeiras já andavam às voltas com palavras de poder, encantamentos, vassouras e caldeirões nos mitos e contos de fadas, as narrativas ancestrais que deram origem ao que hoje chamamos de Literatura.

E, embora nessas histórias antigas os bruxos e bruxas tenham sido retratados com frequência como personagens malignos, nem sempre isso aconteceu. Bem antes de a ideia de “Mago do Mal / Mago do Bem” ser personificada em Voldemort / Dumbledore, temos feiticeiras odiadas como Medéia e Circe (mitologia grega), magos nefastos como o tio de Aladim (1001 Noites), e bruxas terríveis como a madrasta de Branca de Neve (Irmãos Grimm); mas encontramos também magos benignos como Merlin nos mitos do Ciclo Arthuriano ou Gandalf  na obra de J. R. R.Tolkien, e bruxas ambíguas como a da tradição oral russa, Baba-Yagá, que se apresenta ora com um aspecto maligno, ora com um aspecto maternal.

O arquétipo da bruxa, aliás, é caracterizado por essa ambiguidade: sua origem pode estar em antigas religiões matriarcais, em que se venera a Deusa, a Grande Mãe, que tanto pode doar vida como tirá-la. Há inúmeros exemplos em variadas mitologias (Inanna, Ishtar, Astarté, Ceridwen), mas uma das figuras mais arquetípicas nesse sentido é a deusa Kali, do Hinduísmo – deusa da morte mas também da vida, terrível porém necessária à manutenção da existência. Essa dualidade vai permear as figuras literárias que são sucedâneos do arquétipo da Mãe-Bruxa-Deusa através dos séculos (seja em figuras femininas ou masculinas, devemos notar) e que são descritas como praticantes de magia, feitiçaria, bruxaria – machos ou fêmeas.

Podemos começar a analisar como esses praticantes de magia são vistos nas histórias da literatura (e como com o passar do tempo essa visão muda, transforma-se, enriquecendo nossa percepção da ideia de Bem versus Mal) escolhendo dois casos interessantes.

O primeiro caso une a obra O Mágico de Oz, de L. Frank Baum (1900), a seu sucedâneo, o livro Wicked, de Gregory Maguire (1995).

O Mágico é Oz é considerado o primeiro e mais bem-sucedido livro de Fantasia infanto-juvenil dos Estados Unidos. Foi publicado em 1900, quando seu autor, o eclético Lyman Frank Baum, tinha 44 anos. Baum foi avicultor, produtor teatral e caixeiro-viajante, entre outras coisas; e, como ocorre a muitos escritores (inclusive eu mesma), começou a inventar histórias apenas para contá-las aos filhos. Após o lançamento do livro A Cidade Esmeralda de Oz, cujo título foi alterado para O Maravilhoso Mágico de Oz, ele se firmou como escritor e adaptou a história para uma versão musical, apresentada em Chicago em 1902. Daí o musical foi para a Broadway, e o grande sucesso do livro e da peça o levaram a escrever outras histórias baseadas na Terra de Oz.

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Em 1939 seu primeiro livro foi transformado em uma superprodução da Metro sob a direção de Victor Fleming, estrelando Judy Garland e, embora houvesse uma versão anterior, nos primórdios do cinema, esta foi considerada a definitiva. A grande popularidade da produção fez com que a obra se transformasse em uma das histórias mais conhecidas e parodiadas na história das telinhas e telonas. Os personagens se tornaram parte da cultura oral, virtual, televisiva e cinematográfica: quem nunca ouviu falar no Mágico de Oz, na Cidade Esmeralda, nos Munchkins, na Estrada de Tijolos Amarelos, nos sapatos encantados, nos Macacos Voadores e na Boa Feiticeira Glinda, além dos inefáveis Espantalho sem cérebro, Homem de Lata sem coração e Leão covarde? Quem nunca cantarolou a canção “Over the Rainbow”?

A Terra de Oz é um mundo colorido – em oposição ao mundo cinzento original da protagonista, Dorothy (o Kansas). Sob esse ponto de vista, trata-se de uma Utopia: uma terra cheia de magia, animais falantes e bons sentimentos – veja-se como Dorothy encontra acolhida e bondade pelo caminho – exceção feita, é claro, aos antagonistas como a pérfida Bruxa Malvada do Oeste e monstros ocasionais, como os Kalidahs e os Cabeças-de-Martelo. O Mágico (uma tradução para Wizard, que hoje seria traduzida de preferência como Mago, ou Feiticeiro; veja nota de rodapé. 1 ) é um governante na Cidade Esmeralda, temido e poderoso. Mais tarde descobrimos que na verdade Oz é humano, e não possui capacidade mágica alguma; usa de tecnologia, truques, para impressionar os Ozianos e se manter no poder (é peculiar como, ao optar pela tecnologia como forma de dominação de um povo, ele se assemelha a Saruman, embora o Istar [mago] de O Senhor dos Anéis possuísse, sim, poderes de magia, apesar de que não pudessem superar os de Gandalf, que o combateu antes e depois de se tornar Gandalf o Branco) 2.

No entanto, Oz não é perverso, é apenas uma fraude, um usurpador; e tem medo dos reais poderes existentes na Terra de Oz – as quatro Bruxas, do Norte, Sul, Leste e Oeste. Nesse cenário, tais personagens (suas designações às vezes são traduzidas como Bruxas, às vezes como Feiticeiras, uma palavra menos carregada de carga semântica negativa) dominam os quatro países, ou regiões, Ozianas: Gillikin ao Norte, Quadling ao Sul, Winkie / Winkus a Oeste e Munchkin a Leste. As Bruxas do Leste e do Oeste são malignas, enquanto as do Norte e do Sul são benignas. A única a ser designada pelo nome, por Baum, é Glinda (segundo ele, a Bruxa Boa do Sul).

O clássico de Baum está novamente em efervescência hoje em dia por obra e graça do autor Gregory Maguire, que em 1995 publicou o best-seller Wicked (Maligna,), uma versão da história de acordo com o ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste – ou, talvez, fosse mais correto chamar o livro de uma versão ampliada das motivações dos personagens, centrada no relacionamento entre Glinda e Elphaba (a Maligna, ou Wicked Witch of the West do título) e levando em conta uma história anterior da Terra de Oz e um detalhamento das relações entre os diversos povos Ozianos.

Em Maligna, Oz não é mais uma Utopia, um mundo colorido e bonitinho, mas um mundo enroscado em diversidades, que fazem com que as diferentes terras / diferentes raças convivam num delicado equilíbrio político – e onde existem dúvidas, preconceitos, divergências religiosas, problemas com a posse dos meios de produção, luta pelo poder, assassinatos, corrupção, erotismo, censura e terrorismo. Ah, sim, e magia.

Essa intrigante e perturbadora fantasia é uma versão do que teria ocorrido na Terra de Oz antes e durante a visita da menina  Dorothy àquele mundo, porém contada do ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste, o que faz com que, como é dito na contracapa do livro, após essa leitura nunca mais olhemos para Oz da mesma forma…

O foco na vida das bruxas é mostrado com detalhes que não existem no livro que deu origem a tudo. Glinda, aqui, será a Bruxa Boa do Norte; Nessarose, a Bruxa Má do Leste; e sua irmã Elphaba, a Bruxa Malvada do Oeste. Tais personagens são desenvolvidas desde a infância/adolescência até o momento em que entram em confronto com o personagem ambíguo do Mágico de Oz (grandes surpresas quando percebemos sua verdadeira natureza…) e da tremenda Madame Morrible – esta sim, a verdadeira malignidade da história, e que não está presente no clássico. A pergunta inicial que Maguire coloca é: por que Glinda é tão amada e Elphaba tão odiada? O que fez as Bruxas serem o que são?Maldade? Bondade? Ou a força onipresente da Propaganda?

Os Munchkins, Winkies e Quadlings são mostrados de uma forma bem diferente do que nas obras originais; e quanto a Dorothy, a garota não é mais apenas a protagonista boazinha que (literalmente) caiu em Oz por obra do acaso – ela aparece como uma inocente útil que se envolve com a luta por poder e liberdade em Oz. Mas, de certa forma, essa noção já estava presente em Baum. No livro original, quando a garota finalmente chega à Cidade Esmeralda (após percorrer a Yellow Brick Road, estrada de tijolos amarelos) e encontra o Mágico, as palavras dele são as seguintes:

– Você não tem o direito de esperar que eu a mande de volta ao Kansas, a menos que você em troca faça algo por mim. Nesta terra todo mundo deve pagar por tudo que obtém. Se você quer que eu use meus poderes mágicos para mandá-la de volta a sua casa, precisa fazer alguma coisa por mim antes. Ajude-me que eu ajudo você.
– Que devo fazer? – perguntou a menina.
– Mate a Bruxa Malvada do Oeste – respondeu Oz.

Maguire leva às últimas consequências esse diálogo. Manipulada por Oz, a criança deve se tornar uma assassina. O resultado é que o Bem e o Mal se confundem, e de repente não podemos distingui-los claramente, pois também nós, leitores, somos ofuscados pelas verdes e hipnotizantes luzes da Cidade Esmeralda. No torvelinho que se segue a personagem mais fascinante é Elphaba, a menina que nasce verde e que, sem perceber, vai sendo transformada pelas circunstâncias na figura que hoje temos como estereótipo da malignidade. Seria ela realmente maligna, ou apenas teria optado por manter seu livre arbítrio diante de um déspota? De repente, o Mágico de Oz não é mais apenas um atrapalhado usurpador, tornou-se uma figura assemelhada a um Sauron (de O Senhor dos Anéis), um Galbatorix (de Eragon), um Tirano (de Crônicas do Mundo Emerso) e tantos outros arquétipos do detentor de poder militar, esteja ele à direita ou à esquerda de uma classe média que preferiria permanecer neutra quanto à política. Perdidos ma história, em meio à eterna dualidade do Bem contra o Mal, enxergamos nuances inesperadas nas entrelinhas do discurso que envolve esses dois conceitos – em Wicked não tão rígidos quanto na obra clássica, embora, como vimos, até ali já se abrisse certo espaço para uma discussão não-maniqueísta.

A versão da Broadway para Wicked, um musical magnífico, em cartaz desde 2003, é mais leve e menos complexa que a história do livro, mas transborda de ironia e sarcasmo quanto à hipocrisia de uma sociedade ávida por bodes expiatórios (e um dos bodes expiatórios aqui é mesmo um Bode…). Mas são ricas e interessantíssimas as discussões resultantes desse embate entre O Mágico de Oz livro, musical e filme e Wicked (livro e musical, sem esquecermos que diz-se haver em Hollywood a pré-produção uma versão para cinema, prometida para 2010).

Magico de Oz_WickedA

Na saída do teatro, na Broadway, em letras garrafais (verdes, é claro), há os dizeres:

YOU ARE NOW LEAVING OZ. REALITY RIGHT AHEAD.
DRIVE (OR FLY) CAREFULLY.

Ao deixar a Terra de Oz, então, e encontrar a Realidade à nossa frente, restam-nos as dúvidas e a necessidade premente de analisar sempre, duvidar sempre, das noções de Bem e Mal que nos são apresentadas, na ficção ou na realidade.

O segundo caso que gostaríamos de comentar, ao confrontar algumas versões de obras de Fantasia que abordam Magos, Bruxas e Feiticeiros, é a história de Branca de Neve. Certa ocasião, para compor uma peça teatral encomendada, li pelo menos dez versões desse conto folclórico, recontado pelos irmãos Grimm em sua forma mais conhecida. Em todas elas encontrei a garota, Snow White (Branca de Neve) retratada como a proverbial princesinha dos contos de fada, bondosa, amorosa e merecedora de toda a felicidade, enquanto sua Madrasta é maligna, dada a práticas de magia negra e traições sem fim. Os mesmos estereótipos que cercam Dorothy e Elphaba.

Originalmente, como ocorre com os contos de fada, esta não era uma história para crianças; com o tempo, porém, passou a ser; e reconhecemos sua origem não-infantil claramente, ao analisar os castigos a que a Madrasta-Bruxa é submetida no final do conto. Eles dariam inveja a um torturador da Inquisição: vão desde a versão açucarada da Disney, em que a tempestade a faz cair de um precipício, até a condenação à morte, que a faz ser levada a uma praça pública e ter de calçar um par de sapatos de ferro incandescentes, para dançar até cair morta.

FUMACA_E_ESPELHOS

Podemos encontrar, porém, uma versão dessa história que faz o que Wicked fez a Oz: mostra a versão do antagonista – não mais a Bruxa Malvada do Oeste, mas a Madrasta de Branca de Neve. Em Smoke and Mirrors, uma coletânea de contos do autor britânico Neil Gaiman, o conto Snow, Glass, Apples retrata Branca de Neve como uma vampira – faz sentido, afinal a garota é branca como a neve, tem a boca vermelha como sangue, e ostenta um aspecto frio, gelado, presente até em seu nome.

Então a inversão acontece novamente: o Bem e o Mal se confundem, e a Rainha, a feiticeira maligna que enfeitiça a enteada com uma maçã envenenada e manda arrancar-lhe o coração estaria apenas tentando livrar o mundo de uma gélida sugadora de sangue. O que a condena (a Rainha) a uma morte terrível. Perturbador, não?

Não há dúvidas de que, se O Mágico de Oz e Branca de Neve são hoje consideradas histórias exemplares para crianças, reflexões sobre elas a que obras como as de Maguire e Gaiman nos levam são bem-vindas e salutares. Num mundo em que pessoas e instituições, devidamente respaldadas por leis setoriais ou escrituras ditas sagradas, ainda queimam livros (literalmente), e seus autores são execrados por parcelas da população que abençoam a censura, consideram a tortura a terroristas aceitável e certamente aplaudiriam a execução pública de praticantes de magia / bruxaria / feitiçaria ou quaisquer práticas que eles julguem como tais – é mais do que importante discutir os arquétipos e as noções de Bem e Mal presentes nos livros, suas implicações e motivações.
    E está aí uma das funções mais importantes da Literatura Fantástica.

Leituras sugeridas:
O Mágico de Oz – L. Frank Baum. Editoras: Ática, Martin Claret, Ediouro, L&PM.
Maligna – Gregory Maguire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
Branca de Neve – Irmãos Grimm. Inúmeras editoras.
Smoke and Mirrors – Neil Gaiman. New York: Harper Collins, 1998.


Notas:
 
1. Vejamos as traduções mais correntes para palavras da língua inglesa ligadas aos praticantes de magia: Witch – bruxa, feiticeira. Wizard – mágico, feiticeiro, bruxo, encantador, adivinho.  Sorcerer – mágico, feiticeiro. Sorceress – feiticeira, bruxa. Magician – mágico, prestidigitador. Magi – (plural magus) mágicos, feiticeiros ou astrólogos – esta provavelmente a origem da variação Mage, muito usada em Role Playing Games.
 
2.  Tolkien, J.R.R., O Retorno do Rei, SP: Martins Fontes/Lisboa: Europa-América.

>> VALINOR – por Rosana RiosMagico de Oz_colagemA