SÉRIE HARRY POTTER, DE J.K. ROWLING

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Na minha mais sincera opinião, foi uma façanha. J.K. Rowling é bruxa, só pode ser!

Uma escritora competentíssima, dona de uma fertilidade criativa invejável, arquiteta de tramas macarrônicas saturadas de reviravoltas rocambolescas e – o mais incrível – que não confunde o leitor! Ela consegue sustentar através de sete livros uma narrativa leve e cativante, dosando um nível de maturidade crescente. Sabe construir personagens carismáticos; aliás, gera um exército deles! Lança todos no tabuleiro e não perde o comando do jogo, constrói uma teia supercomplexa de relações e brinca de fazer e desfazer os nós… Isso que é uma tremenda contadora de histórias!

O que mais me admira não é o amplo impacto da série Harry Potter e o fato dela tem ter conquistado leitores de todas as idades, em todos os países. Tenho certeza que ela criou um conto de fadas para as crianças dos próximos séculos. É um clássico absoluto. Rowling não escreveu simplesmente uma história de bruxos, ela criou uma mitologia completa e a situou no mundo contemporâneo, na realidade das crianças de hoje, falando a língua delas, conhecendo as suas necessidades e gostos. E a despeito da complexidade, que é bem alta (inclusive nos primeiros livros), consegue prender a atenção infantil – por isso eu repito: é uma façanha!

Muitas pessoas – eu, inclusive – vivem lembrando as influências onde Rowling bebeu para criar Harry Potter. A começar que o menino é a cara de Tim Hunter, o menino bruxo dos Livros da Magia, do Neil Gaiman, que também é órfão, também está destinado a se tornar um grande bruxo e também tem uma coruja de estimação. Ou pode ainda ter se baseado numa tal escola de magia de Roke, do mundo de Terramar (Earthsea, concebido pela Ursula K. Le Guin), igualmente povoado de dragões e palavras mágicas, e com vilões cuja grande aspiração é a imortalidade. Eu não chamaria de plágio, mas tenho certeza que essas referências passaram por Rowling e a ajudaram, ainda que inconscientemente, a compor o universo de Harry Potter. No caso, o que interessa não é se ela usou as referências, mas COMO as usou.

Mas vamos aos livros…

Falando dos personagens que mais gostei (e os mais criativos, na minha opinião) destaco: a família trouxa Dursley, o gigante Hagrid (e seus bichinhos: Norberto, Bicuço, os explosivins…), Alvo Dumbledore, o narcisista Gilderoy Lockhart, os gêmeos tagarelas Fred e Jorge Weasley, o lobisomem Lupin, os dementadores, a professora Trelawney, a veela Fleur Delacour, Olho-Tonto Moody, Ninfadora Tonks, a megera Umbridge e – minha clone fictícia: – Luna Lovegood. No entanto, como tenho uma verdadeira fascinação por personagens ambíguos – que transitam entre a vilania e o heroísmo – o meu favorito é o Severo Snape, com quem simpatizei logo de início e no final virei fã completa (soube que é um dos personagens favoritos de Rowling também). É raro encontrar personagens tão bem trabalhados.

Das metáforas inteligentes: medalha de bronze para o F.A.L.E., da Hermione Granger, uma instituição devotada a querer libertar os elfos domésticos, que não fazem a menor questão de serem libertados. Medalha de prata para a Inquisidora de Hogwarts, Dolores Umbridge, e seus decretos-lei que não deixam nada a dever para o AI-5. Medalha de ouro para a supremacia da raça bruxa e a perseguição aos sangue-ruins; só faltava os Comensais da Morte usarem a suástica no lugar da marca negra.

Críticas. Acho que eu recomendaria um pouco menos de Agatha Christie no tempero. Às vezes a trama fica rocambolesca demais, e então a situação se esclarece magicamente numa conversa com algum personagem chave. Estranho também Harry Potter e cia terem um chutômetro excepcionalmente bom e um talento inexplicável para juntar pistas e chegar a conclusões improváveis e magicamente certeiras. Senti uma certa falta de arrependimento em Harry nos momentos em que ele percebeu que estava errado. E bem que fiquei me perguntando se um dos pré-requisitos para ser professor em Hogwarts é ser solteiro e celibatário. E sobre a temática dos últimos livros – a morte -, a questão do medo da morte perdeu o impacto num universo que é habitado por fantasmas e onde os mortos voltam por magia para dar conselhos. Conheço muita gente que não gostou do final; realmente, o livro 7 parece ter algumas fraquezas – personagens esquecidos que ficam sem desfecho, muitas idas e vindas em meio às batalhas finais, uma certa tendência a sucumbir a clichês e um epílogo que me pareceu totalmente redundante. Mas de resto, perfect!

Os dois primeiros livros pouco me prenderam. A trama começou a ficar muito mais empolgante a partir do 3º (o prisioneiro de Azkaban); a mudança radical de atitude do 5º livro (a Ordem da Fênix) é o ponto alto da série, e também curti o roteiro imprevisível e diferentoso do sétimo livro (as Relíquias da Morte).

É isso aí. Elogios feitos, chapéu tirado. Agora, se me permite, vou desaparatar…
>> Cristina Lasaitis

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