PROMOÇÃO: VOCÊ GOSTARIA DE BATIZAR UM PERSONAGEM?

terça-feira | 21 | julho | 2009
Rosana RiosHelena_GomesA

 

As escritoras Rosana Rios e Helena Gomes estão escrevendo, juntas, seu segundo livro de aventura (elas já terminaram um, Sangue de Lobo, ainda inédito). Porém elas criaram um vilão para a nova história e ainda não escolheram um nome para ele. Que tal enviar uma sugestão de nome e sobrenome para este personagem?

O vilão é brasileiro, tem por volta de 40 anos, é um homem alto, misterioso e sinistro. Seria até bonito se não tivesse o olhar sombrio e sua presença não inspirasse um certo pavor.

O autor da sugestão que mais combinar com o personagem ganha um exemplar do livro O Último Portal (editora Companhia das Letras), de Rosana Rios, e um exemplar da nova edição de O Arqueiro e a Feiticeira, de Helena Gomes, relançado agora pela Idea Editora. Autografados! E, claro, vai batizar este mais novo e terrível vilão da literatura.

Você pode mandar sua sugestão para o e-mail conexaomagia@yahoo.com.br até o dia 31/12/2009.
Não se esqueça de enviar seus dados (nome completo, e-mail, telefone e endereço).

Links:
http://rosana-rios.blogspot.com
http://rosanariosliterature.blogspot.com
http://mundonergal.blogspot.com
www.segredodaspedras.com
www.acavernadecristais.com.br
www.ciadasletras.com.br
www.ideaeditora.com.br


‘JOHN CARTER OF MARS’: WILLEN DAFOE CONFIRMADO COMO LÍDER MARCIANO

segunda-feira | 20 | julho | 2009

Willem da Foe
O veterano ator Willem Dafoe viverá o marciano Tars Tarkas na adaptação da Disney/Pixar para a obra John Carter of Mars de Edgar Rice Burroughs. Na trama, o personagem de Dafoe é um líder marciano que sabe que o único caminho para seu povo sobreviver é se afastando da guerra, uma posição que pode lhe custar caro.

O filme tem Taylor Kitsch como John Carter e Lynn Collins como Dejah Thoris, a herdeira do trono de Marte.

A direção de John Carter of Mars é de Andrew Stanton (Wall-E, Procurando Nemo), que também assina o roteiro, em parceria com Mark Andrews (Ratatouille).

A história começa durante a Guerra Civil americana, quando o soldado John Carter se esconde em uma caverna para evitar ser capturado por índios. No entanto, ele acaba sendo transportado por um portal para o planeta Barsoom, onde é feito prisioneiro por homens verdes gigantes. Carter e Dejah Thoris fizeram sua primeira aparição no romance A Princess of Mars, de Burroughs, o primeiro de uma série de 11 livros.

Edgar Rice Burroughs foi um romancista norte-americano, famoso por ser o criador de Tarzan. Além do rei dos macacos, Burroughs é autor de uma vasta obra, notadamente séries de ficção científica como as baseadas nos planetas Barsoom e Amtor, nomes fictícios para Marte e Vênus, e em Pellucidar, um lugar no interior do planeta Terra.
>> HQ MANIACS – por Émerson Vasconcelos


SURROGATES

segunda-feira | 20 | julho | 2009

Surrogates_posterA
Baseado na HQ escrita por Robert Venditti, o novo filme de Bruce Willis decorre em 2054, com os humanos a interagirem com o exterior através de corpos robóticos. O filme é realizado por Jonatham Mostow (“O Exterminador do Futuro 3″).

Num futuro próximo, os humanos vivem isolados nas suas casas e só interagem com os elementos exteriores através de entidades robóticas que lhes servem de extensão do próprio corpo.

Quando várias dessas criaturas são assassinadas, caberá a um polícia investigar o sucedido através do seu próprio sósia mecanizado. Só que os eventos acabam por forçá-lo a abandonar o isolamento e sair para o exterior, para desvendar toda a teia conspirativa por trás dos crimes.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Rapadura Team

Assista ao trailer:

ESTRÉIA NOS EUA: 25 DE SETEMBRO DE 2009
ESTRÉIA NO BRASIL: 16 DE OUTUBRO DE 2009


GAROTAS EM QUADRO

segunda-feira | 20 | julho | 2009

Garotas_hq SUL
Uma turma dedicada às histórias em quadrinhos desponta em Porto Alegre. Os traços comuns das garotas são a pouca idade, entre 20 e 30 e poucos anos, e a formação em Jornalismo e Arquitetura. Elas são gaúchas e o mais determinante: apesar do mercado editorial tímido, não param de desenhar à mão, usando o computador, no máximo, para colorir. As quatro garotas enquadradas na foto desta página são parte representativa desta turma feminina.

– Sinto que, no Brasil, muitas vezes, quadrinho é identificado com criança. Há ainda dificuldade em alcançar um público maior. O preço das publicações, com os impostos, torna tudo muito caro – diz Ana Luiza Koehler.

Pode até ser, mas a tecnologia está atirando essas artistas em outro mercado – de infinitas possibilidades – por meio da rede mundial de computadores. Todas têm blogs, ou postam suas tirinhas, HQs, histórias em quadrinhos (nomes mais conhecidos) em sites coletivos. Foi assim que Ana viu seus desenhos zarparem da mesa na qual desenha em sua casa, em Porto Alegre, direto para uma editora na França.

– Recebi um e-mail de dois roteiristas belgas que viram meu trabalho em um site francês. Eles mandaram o projeto de uma primeira história e acertamos – conta.

Simples assim, sem nem mesmo conhecer os roteiristas, Ana dedicou-se a traçar e colorir Awrah, La Rose des Sables. Foi um trabalho detalhado até concluir o livro de 54 páginas já à venda na França e no site Amazon.com. O contrato dela prevê um segundo volume. Ser publicada em solo francês é feito grande, aquele é um dos mercados mais respeitados do gênero.

Quem também já deslanchou editorialmente é Chiquinha, nome artístico de Fabiane Bento. Ela conquistou seu lugar publicando em revistas e jornais, como Folha de S.Paulo, Bravo e Gloss.

– Cresci lendo Angeli por influência dos meus irmãos. Essa era a minha linguagem. No colégio, tudo o que eu desenhava eu colocava um balãozinho – diverte-se Chiquinha.

Valeu a pena a influência dos irmãos. Chiquinha é tida até pelos colegas mais experientes como um dos exemplos bem-sucedidos da nova geração no país.

– Ela é nosso Angeli de saias – brinca Leandro Bierhals, presidente da Grafar (Grafistas Associados do Rio Grande do Sul), a associação que reúne cartunistas, chargistas, quadrinistas, ilustradores.

– Desenho toda a minha vida, nunca parei – diz Chiquinha. – Aqui no Sul, tem uma turma grande. Um exemplo mesmo é a Grafar. Nas reuniões, o pessoal mais experiente dá uns toques, dicas de quem já enfrentou o mesmo problema que a gente.

As reuniões às quais Chiquinha se refere são encontros semanais, terças-feiras à noite, no bar Tutti Giorni (escadaria do Viaduto da Borges de Medeiros, em Porto Alegre) – tradição desde os anos 90. Chiquinha, dona de um humor mais picante em suas histórias, é frequentadora do bar em que os trabalhos de artistas plásticos e gráficos formam a decoração.

Samanta Floor, 29 anos, também participa da Grafar. Ela acaba de publicar de forma independente o gibi Toscomics, cuja personagem principal é ela mesmo.

– Minha personagem vive rindo da própria cara – diverte-se.

Samanta, que é formada em arquitetura, conta que quando está com a mãe ela a apresenta aos amigos como arquiteta e não como quadrinista.

– Se diz qua-dri-nis-ta, as pessoas sempre perguntam: “Quadri… o quê?”.

A maneira com que brinca sobre a mãe é como a personagem Samanta aparece, rindo dela mesma na sua revistinha. O desenho é singelo, lembrando traços de criança, e pode ser comprado pelo seu blog. Outro trabalho da garota são as ilustrações da revista Atrevidinha.

Vender pela internet também foi um empurrãozinho para Mauren Veras. Ela começou a desenhar tirinhas (prefere às HQs) inspirada pela Tiras do Bruno, trabalho de um amigo.

– Fiquei encantada que, numa tirinha, pode-se ter a capacidade de ser simples, engraçado, mesmo com um desenho tosco – explica Mauren.

Como Bruno, o das tirinhas, vivia em uma ilha, Mauren criou a personagem Nina, que vivia em um barco à procura dele. Mauren também partiu para um humor mais direto e criou nova tirinha, batizada de Reginaldo, o Pinto. De brincadeira, rabiscou Reginaldo, o personagem, em um chinelo de borracha, fotografou e postou no seu blog. A peça customizada agradou um inglês e por e-mail oficializaram a compra.

– Quadrinhos era algo um pouco limitado a um Clube do Bolinha, só homens. Mas agora, assim como aconteceu com a argentina Maitena e a iraniana Marjane Satrapi, as mulheres estão despontando no Brasil também – diz o presidente da Grafar.

Outro que faz coro ao bom momento das quadrinistas gaúchas é Marko Ajdaric, editor da newsletter Neorama, dedicada a esta cena.

– Nossas gurias têm se destacado muito. Não vejo em outra cidade uma turma com tanto potencial.

Para não dizer que a coluna não deu uma colher de chá para os homens, a boa notícia é que volta ao mercado, depois de 17 anos, a revista Picabu. Com 12 histórias, a independente Picabu ganhou lançamentos em São Paulo e Buenos Aires. Adeus, Tia Chica!, outra novidade das independentes gaúchas, está à venda desde junho com criação de oito artistas.
>> ZERO HORA – por Fernanda Zaffari


H. P. LOVECRAFT: HEDRA PRESTA SEU TRIBUTO

domingo | 19 | julho | 2009

Lovecraft_Cthulhu
O Chamado de Cthulhu e Outros Contos é um dos lançamentos recentes da Editora Hedra em sua linha de livros de bolso. O volume dedicado ao mestre do horror, do sobrenatural e da ficção cientifica H. P. Lovecraft traz um apanhado breve de sua produção, mas o livro vale não apenas pelos contos que cobrem momentos distintos de sua produção, mas também pelo que reserva ao leitor em suas últimas páginas.

A edição da Hedra traz contos conhecidos, mas não menos horripilantes, como Dagon e A Música de Erich Zann, além de O Chamado de Cthulhu um dos seus principais escritos. Para muitos, Lovecraft é o herdeiro direto de Edgar Alan Poe e um dos expoentes da literatura fantástica do século passado. Dono de uma narrativa calculada, a escrita de H. P. Lovecraft diz muito de sua própria vida: escritor recluso, com uma biografia atribulada e por muito esquecido, sua produção reflete seus conflitos e medos.

Todavia, redescoberto por gerações e gerações de escritores, Lovecraft figura como um dos principais alicerces da literatura fantástica contemporânea e suas criações reverberam em produções nos mais diversos meios. Seja na cinematografia de nomes como Guillermo Del Toro (filmes como Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno, não deixam dúvida), nos quadrinhos de autores como Mike Mignola, Neil Gaiman e Warren Ellis ou ainda nos videogames (quem já jogou Silent Hill sabe do que escrevo), todos pagam algum tributo a H. P. Lovecraft e suas criações.

A edição da Hedra reflete esta importância pois inclui o autor em uma coleção que vem se notabilizando por recuperar algumas das criações mais importantes da literatura – afinal, nenhuma outra editora teve culhões para relançar no esquisito mercado brasileiro livros como A Vênus em Peles, de Sacher-Masoch, No Coração da Trevas, de Joseph Conrad, ou O Casamento do Céu e do Inferno de William Blake. Mesmo não chegando sequer perto de reproduzir a edição The Call of Cthulhu and Other Weird Stories da Penguin Books, ainda assim vale atribuir mais um ponto para a Hedra por apostar na literatura fantástica.

Vale ainda mais quando o leitor nas últimas páginas da publicação dá de cara com dois itens que, mesmo não sendo nenhuma novidade para os fãs de Lovecraft, são significativos para compreender a literatura do criador dos “Mitos de Cthulhu”: o primeiro deles é a carta escrita pelo autor para o amigo e também escritor de ficção fantástica, Clark Ashton Smith, na qual Lovecraft faz um relato/resumo auto-biográfico; o segundo item é um ensaio com o qual o autor procura sintetizar sua técnica e fazer literário.

Como disse, O Chamado de Cthulhu e Outros Contos não será nenhuma novidade para os fãs de H. P. Lovecraft, mas diante da edição de bolso bem cuidada lançada pela Hedra vale gastar os pouco mais de quinze reais para conferir – ou rever – alguns dos contos mais aterrorizantes que a literatura fantástica já produziu. Duvido que alguém fique impassível diante de um conto de horror como A Música de Erich Zann ou Ar Frio. Se ficar, o sujeito é no mínimo doente…
>> DISRUPTORES – por Alexandre Honório


EM DEFESA DA AVENTURA: DE HOMERO A CONRAD

domingo | 19 | julho | 2009

CS Lewis_experiment in criticismEm 1961, dois anos antes de morrer, o escritor irlandês C.S. Lewis publicou o pequeno ensaio An Experiment in Criticism, propondo uma experiência simples – mas muito interessante – de crítica literária: julgar os livros não apenas por si mesmos, mas especialmente pelo tipo de leitura que poderiam proporcionar. A idéia era transferir a atenção isolada da obra e examinar as qualidades e defeitos que fazem um bom ou mau leitor. Naturalmente, as investigações não pretendiam ter o caráter de um método científico rigoroso ou qualquer coisa aborrecida do gênero, mas apenas mostrar que, se a apreciação estética é uma experiência individual, os livros podem e devem ser julgados pela leitura que deles fazem os melhores leitores. Bem, no final das contas, é exatamente por essa razão que você lê com interesse os comentários de Nabokov sobre Jane Austen, mas não perderia um minuto com o que a sua tia – fã incondicional de Danielle Steel e de livros de auto-ajuda – teria a dizer sobre Mansfield Park.

C.S. Lewis identifica nos iliterários algumas características em comum, como a sua completa incapacidade de distinguir um ritmo bem construído da cacofonia mais irritante, e a exigência de que algo esteja sempre acontecendo na história. E mostra por que muitos intelectuais também se incluem nessa categoria dos maus-leitores, ao enxergarem a literatura sob todos os pontos de vista possíveis – sociológico, filosófico, religioso, político, etc. -, menos o artístico propriamente dito. Afinal, livros são essencialmente obras-de-arte e é assim que deveriam ser lidos e amados, em primeiro lugar.

Mas, para Lewis, o pior dos leitores é o que perdeu – ou simplesmente abandonou – a experiência essencial da imaginação e da suspension of disbelief: aquele completamente incapaz de ler uma obra de ficção que não seja estritamente realista. E aqui é interessante notar que a esmagadora maioria dos leitores que se pretendem sérios (na falta de palavra melhor) fazem atualmente parte desse grupo de maus-leitores. A conseqüência disso – ou causa, dependendo do círculo vicioso ontológico da questão – é que a literatura moderna séria & respeitável também está em grande parte composta por obras realistas, feitas de histórias verossímeis e identificáveis com a experiência ordinária do mais ordinário dos homens.

O que é no mínimo estranho, convenhamos. A própria razão de ser da literatura é ocupar-se do excepcional e, até o século dezenove, as histórias sempre foram contadas justamente porque havia nelas algo de interessante e extraordinário: “As atribulações de Aquiles ou Rolando foram contadas porque eram excepcionalmente heróicas; o fardo matricida de Orestes, porque era um fardo excepcional e improvável; a vida de um santo, porque era excepcionalmente sagrada; a má-sorte de Édipo, Ballin, ou Kullervo, porque também era algo além de qualquer precedente. (…) Se somos tão radicalmente realistas a ponto de afirmar que a boa ficção deve ser ‘como a vida’, teremos contra nós a prática literária e a experiência de quase toda a raça humana”.

O insight de C.S. Lewis é realmente interessante e ressalta a enorme importância do enredo nas obras de ficção. “Sobre o quê é este livro?” não é uma pergunta irrelevante, como faz parecer a literatura na modernidade. Ao contrário, a estrutura identificada por Aristóteles na Poética – ação através de enredo – é mesmo essencial. Naturalmente, não se pretende aqui relegar a linguagem a uma posição menor e secundária, mas é o enredo que aprofunda as situações e imagens que causam no leitor maravilhamento, terror, piedade e as outras inúmeras pequenas transcendências de uma grande obra de ficção.

E restringi-lo ao estritamente ordinário é limitar sem qualquer justificativa plausível a experiência literária ao seu aspecto mais raso. Em um texto muito interessante sobre o assunto, o escritor Alexandre Soares Silva defende justamente que essa restrição moderna vai contra a suposição mais básica da literatura, aquela “dos épicos, do romantismo, dos escritores policiais, da ficção científica e fantasia: que existem coisas interessantes no Universo e que é preciso escrever e ler sobre isso”.

* * *
Se a experiência literária inteira da humanidade até o século dezenove baseava-se na premissa de que apenas o que era interessante e excepcional deveria ser contado, esse caráter extraordinário dos enredos sempre esteve intimamente ligado a histórias que atualmente chamaríamos “de aventura”: envolviam viagens a lugares desconhecidos, batalhas sangrentas, naufrágios, duelos pelo amor de uma mulher, tesouros enterrados e embates com monstros marinhos. Bem, se hoje os leitores sérios torceriam o nariz e arrepiariam todos os pelinhos de suas nucas sensíveis diante da menor menção a qualquer um desses temas, parece ser quase desnecessário lembrar que estamos falando apenas de Homero, das Sagas Germânicas, de Boccaccio, Cervantes, Shakespeare, Defoe, Swift, Stevenson e Melville, entre muitos outros.

Evidentemente, esses autores não são os pilares da literatura ocidental somente porque escreviam histórias de aventura – e seria até mesmo um pouco ridículo afirmar o contrário. A questão aqui é bem outra: o ponto de partida dos grandes escritores sempre foi – e deveria continuar a ser – escrever sobre coisas extraordinárias que pudessem verdadeiramente interessar o leitor. E o bom-senso mais natural aponta para o fato de que, em geral, qualquer leitor suficientemente honesto e indiferente aos modismos intelectuais estará dez vezes mais atraído a um livro sobre a expedição em busca do tesouro lendário do Rei Salomão, no coração da África (melhor ainda, na versão do Eça), do que à história da família de retirantes que nos conta – em grande prosa – Graciliano Ramos.

E isso nos leva à constatação seguinte, que parece também andar um pouco esquecida atualmente: os grandes escritores sempre escreveram sobre coisas extraordinárias pelo fato de que a literatura deve também causar prazer no leitor. Borges insistia muito nesse ponto, contrariado com a idéia de uma leitura obrigatória. “Será que podemos falar de prazer obrigatório?”, perguntava ele. E, de fato, o prazer deve sim ser um atributo essencial da experiência literária. Afinal, é o que faz o leitor querer virar a página e mergulhar fundo em determinada obra.

Parece até estranho ter de falar nisso, mas se você está lendo a Eneida e achando a experiência insuportavelmente tediosa, não há sentido algum em continuar, por mais louvável que seja o desejo de se educar. Se por alguma razão você sabe que Virgilio é bom – talvez porque assim vêm considerando todos os grandes leitores ao longo dos séculos -, o primeiro passo de formação seria fazer um verdadeiro esforço – com tudo o que isso implica – para tentar perceber o prazer que a saga de Enéias lhe pode potencialmente trazer. Assim, o papel do enredo excepcional, da aventura, é não apenas alargar o horizonte ordinário e conhecido do leitor, mas também despertar-lhe essa curiosidade prazerosa, dar-lhe a motivação intelectual anterior, essencial a todo conhecimento.

Ao privilegiar apenas a linguagem e a semântica, em detrimento do enredo e do prazer da experiência artística, a intelligentsia moderna parece ter concluído que um romance de aventura não pode, de forma alguma, ser boa literatura. C.S. Lewis aponta o ridículo dessa constatação, lembrando que a situação é exatamente a mesma de alguém que tivesse descoberto outras coisas importantes em um lugar para morar, além do conforto, e concluísse que nenhuma casa confortável pode ter boa arquitetura. Guardadas as devidas proporções, é exatamente essa a posição de grande parte da crítica literária hoje em dia.

* * *
De outro lado, seria difícil não conceder que os atributos literários, enfim, devem se completar. O extraordinário do tema é essencial, mas sozinho não torna um livro bom: é a diferença gritante entre um thriller vagabundo e a obra do grande escritor, que consegue aliar o enredo à linguagem, à habilidade de construção dos personagens e de universos próprios – com seus detalhes e paisagens -, além de inserir na trama os problemas morais complexos da existência humana. Edgar Allan Poe dizia justamente que o enredo e as questões morais são os pontos mais importantes da obra de ficção, e a sua constatação traz a possibilidade de uma relação interessante entre as histórias de aventura e esses mesmos aspectos morais. Vejamos.

A grande escritora americana Flannery O’Connor costumava citar o seguinte trecho de São Cirilo de Jerusalém, para resumir sua visão da literatura: “O dragão senta-se ao largo da estrada, olhando aqueles que passam. Tenha cuidado para que ele não o devore. Nós caminhamos ao Pai, mas é antes preciso passar pelo dragão”. Dizia ela que, não importa qual forma o dragão tome, é da passagem misteriosa por ele – ou dentro de suas mandíbulas – que as histórias sempre se ocuparão. Com essa definição, Flannery O’Connor leva a outro nível a idéia de Edgar Allan Poe e conclui que, no final das contas, as grandes obras de ficção não devem apenas cuidar de problemas morais em geral, mas trazer sempre a relação de seus personagens com uma questão moral específica: o Mal.

Há uma verdade incontestável nessa intuição, se considerarmos que, de fato, o confronto do homem com as variações do Mal no mundo ocupa rigorosamente todas as grandes obras na história da literatura, de maneira direta ou indireta – como até mesmo nas Comédias. E aqui parece estar o ponto-chave, porque não é crível que esse problema moral e o enredo de aventura sejam desde a Antigüidade atributos igualmente recorrentes nas grandes obras de ficção, sem qualquer relação entre si.

A hipótese que parece a mais plausível é a de que talvez não exista um conjunto de situações mais apropriado para o confronto com o dragão – ainda abusando da imagem de Flannery O’Connor – do que aquele criado em uma história de aventura. E por quê? Entre outras coisas, pelo simples fato de que há heróis nos romances de aventura. E a verdade é que o heroísmo talvez seja a forma mais sublime de representação estética do embate entre o homem e o Mal.

Em As Suplicantes, Ésquilo já dizia que os atos heróicos são os únicos que valem a pena ser contados. Porque há mesmo uma enorme qualidade estética na ação dos heróis, e a beleza ressoa no reconhecimento pelo leitor dos valores e virtudes universais encarnados nessa ação: a coragem, a glória, a honra e a lealdade. E, assim, a imagem sublime do herói permite a transcendência artística a uma visão limitada – mas grandiosa – do Bem. Nos autores que atingiram a perfeição, a leitura torna-se então a experiência misteriosa em que se dá nitidamente a identificação clássica entre o pulchrum (o Belo) e o bonum (o Bem). E essa experiência tem também algo de bastante intuitivo, porque é mesmo impossível apreender a totalidade do que se passa em nós quando, por exemplo, lemos no drama de Shakespeare a exortação de Henrique V a seus soldados, antes da Batalha de Agincourt; ou o discurso de Ulisses aos pretendentes de Penélope:

“Dogs, ye have had your day! ye fear’d no more
Ulysses vengeful from the Trojan shore;
While, to your lust and spoil a guardless prey,
Our house, our wealth, our helpless handmaids lay:
Not so content, with bolder frenzy fired,
E’en to our bed presumptuous you aspired:
Laws or divine or human fail’d to move,
Or shame of men, or dread of gods above;
Heedless alike of infamy or praise,
Or Fame’s eternal voice in future days;
The hour of vengeance, wretches, now is come;
Impending fate is yours, and instant doom”

(Livro XXII da Odisséia, na versão em dísticos de Alexander Pope).

E, embora a linguagem seja essencial nos dois exemplos acima – propositadamente selecionados entre os maiores poetas que já viveram -, a força transcendente encontrada naquelas passagens somente seria possível em histórias de aventura. A simbolização da honra e da coragem dificilmente teria o mesmo alcance estético – tão grandioso e perfeitamente acabado – fora de enredos extraordinários, como aquele que recria a expectativa de soldados ingleses em desvantagem numérica, às vésperas de uma batalha crucial – para ficar apenas no caso de Shakespeare. E quer isso dizer que não se pode também retratar artisticamente a honra em outra situação ordinária qualquer, i.e., na história de um gerente financeiro que não se deixa corromper? É evidente que se pode, mas certamente não com a mesma força e o mesmo sucesso estético.

Na Paidéia, Werner Jaeger diz que “os valores mais elevados ganham, em geral, por meio da expressão artística, significado permanente e força emocional capaz de mover os homens. A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os gregos chamavam psicagogia”. Aqui, o grande classicista alemão ressalta exatamente a possibilidade de que o Belo e o Sublime mostrem – com todas as limitações inerentes à expressão do artista – os vislumbres do Bem de que falávamos anteriormente. E com a constatação de Jaeger, ganha força a hipótese proposta de que as histórias de aventura são realmente o ambiente ideal para a representação estética de alguns desses valores morais mais altos, especialmente ao percebermos que, não mesmo por acaso, a poesia heróica e as epopéias foram sempre consideradas, além de grande arte, o mito fundador de inúmeras civilizações.

* * *
Na história da literatura, é interessante notar que os gêneros literários foram se desenvolvendo e ganhando novas formas, mas de maneira sempre a manter aquelas raízes do enredo extraordinário e suas implicações morais de valores permanentes. Nesse sentido, já o próprio espírito ético das tragédias tem origem na poesia épica e heróica. A partir de então até a modernidade, das sagas medievais aos romances de cavalaria, das obras de Shakespeare – grandes tragédias de aventura – ao romantismo, sucederam-se formatos artísticos diversos que, com algumas poucas exceções, mantiveram-se realmente fiéis àqueles atributos das epopéias.

E se, de fato, foi o realismo ordinário do romance moderno que rompeu com essa tradição antiga, ao aburguesar o enredo e trazê-lo para a vida das cidades, talvez o último grande autor a não descartar a aventura da trama – e ser ainda reconhecido como representante da literatura séria & respeitável – tenha sido Joseph Conrad (1857-1924), o polonês que viveu como inglês e, em relatos do mar, levou à perfeição a totalidade artística de enredo, linguagem, personagens e problemas morais. Fazendo do oceano insondável e seus navios um palco para grandes aventuras e toda a tragédia da condição humana, Conrad mergulhou nos abismos da alma com histórias de capitães e suas embarcações rangendo aos ventos do Pacífico ou fundeadas em remotos portos malaios, lugares onde ainda fazem sentido os valores homéricos da glória, da honra e da lealdade.

Em Lorde Jim, por exemplo, Conrad conta a descida ao inferno de Jim, depois de abandonar o Patna no impulso de salvar-se de um naufrágio que acabaria nem mesmo acontecendo. Imediato do navio, ele deixa os passageiros – muçulmanos peregrinos – à deriva da própria sorte, e passará a vida perseguindo a redenção. Nessa história contada em grande prosa, os deveres de homens no comando e a expiação da covardia passam por lugares exóticos, batalhas entre nativos, atos de sacrifício e heroísmo, de maneira que o resultado artístico da obra se deve em grande parte também ao ambiente de aventura ali criado por Conrad.

E a verdade é que a própria idéia de literatura, para ele, passava obrigatoriamente por sua percepção de que apenas as coisas interessantes deveriam ser o tema das obras de ficção. No prefácio de A Linha de Sombra, embora para justificar a desnecessidade de enredos sobrenaturais, Conrad dizia que o “mundo dos vivos já contém suficientes maravilhas e mistérios sendo como é; maravilhas e mistérios agindo sobre nossas emoções e inteligência de modos tão inexplicáveis que quase justificariam a concepção da vida como um estado de encantamento”. E foram justamente essas maravilhas e mistérios excepcionais que Joseph Conrad escolheu como material para suas histórias, no começo de um século que tentava de qualquer forma excluir da literatura tudo o que era estado de encantamento, tudo o que era extraordinário.

* * *
Depois de Conrad, possivelmente nenhum outro autor que tenha incluído temas clássicos de aventura em suas histórias acabou integralmente reconhecido como grande. O exemplo mais claro é o de Tolkien, que muito embora tenha sido scholar respeitadíssimo e o criador de uma das obras literárias mais impressionantes e extraordinárias do século XX, não deixou de ser encarado com certa desconfiança e descaso pela crítica e os leitores sérios de hoje em dia, incapazes de enxergar além do seu próprio umbigo realista. Para os que põem em dúvida esse muro existente ainda em relação aos livros de Tolkien, basta pensar que muitos intelectuais certamente ficariam – em diferentes graus – constrangidos de ler em público O Senhor dos Anéis, ou mesmo de admitir as suas inegáveis qualidades literárias.

Não é muito fácil diagnosticar as razões que levaram a essa quebra, iniciada basicamente no século dezenove, mas as hipóteses mais auto-evidentes dizem respeito a uma mudança do próprio zeitgeist: as transformações de um mundo que hoje parece não mais admitir heróis clássicos – subvertendo as virtudes em nome do politicamente correto -, um mundo que esqueceu a verdadeira função da arte, um mundo em que o cientificismo pretende eliminar o espaço do mistério e da possibilidade de encantamento com o extraordinário, um mundo, enfim, que acabou formando o que C.S. Lewis chamava de puritanos literários: leitores graves, arrogantes e sem imaginação, que não conseguem enxergar a importância do prazer na experiência literária. São pessoas aborrecidas, interessadas apenas na “grande aventura” da física quântica, da luta de classes e do cérebro humano, mas incapazes de perceber que a arte e a literatura podem e devem ser muito mais do que as pequenas gavetinhas míopes e reducionistas com que encaram a realidade.

De toda forma, a grande verdade é que a nossa natureza humana não nos trai: nem todos os modismos intelectuais do mundo poderiam esconder o fato de que continuamos atraídos pela aventura, pelos épicos e suas mitologias carregadas de heroísmo. E a prova disso é o tremendo sucesso que fazem – mesmo entre os leitores sérios e adultos – as obras de aventura de não-ficção. Não fica difícil perceber que estão sempre em alta conta os livros sobre expedições de navegadores reais – os diários de Scott, Shackleton e Amundsen, as viagens de Amyr Klink -, entre outras narrativas do gênero.

Por trás do conforto realista que essas publicações dão ao leitor moderno, está a verdade subliminar de que – como bem explicita Werner Jaeger – “há algo de imperecível na fase heróica da existência humana: o seu sentido universal do destino e verdade permanente da vida”. Ou seja, existe algo de universal e atemporal nas virtudes heróicas transmitidas em uma história de aventura, por mais que esses valores tenham adquirido contornos diferentes ao longo dos séculos (após o advento do cristianismo, por exemplo, somam-se a humildade e a caridade às qualidades da coragem, da honra, da glória e da lealdade).

E exatamente porque podemos dizer que a identificação dos leitores com as obras de aventura faz parte da própria natureza humana é que também não faria o menor sentido associá-las a um gosto infantil do leitor, como se costuma muitas vezes afirmar. Em seu ensaio “Sobre Contos-de-Fadas”, Tolkien demonstra que essa idéia é uma platitude inaugurada na modernidade e, da mesma forma, C.S. Lewis também relembra que, se as crianças lêem e gostam de histórias de aventura e fantasia, é apenas porque “são indiferentes a modismos literários. O que vemos nelas não é um gosto especificamente infantil, mas apenas o gosto humano normal e perene, temporariamente atrofiado em seus pais por uma moda”.

* * *
As obras de ficção existem para expandir a nossa existência, e lemos justamente porque queremos estender para muito além as possibilidades do mundo que nos circunda, transcendê-lo. Se a literatura passa a tratar apenas do corriqueiro, do ordinário, diminuem-se tragicamente essas possibilidades de expansão. E por que razão? Por modismo? Em defesa de um realismo cego e reducionista que só enxerga os fenômenos mais imediatamente desinteressantes?

Há um logos na arte e a literatura de aventura permite ao leitor que experimente o sentido desses vôos mais distantes, que alcance os dilemas morais de uma batalha, as paisagens inóspitas de algum deserto africano, a sublime força da natureza em uma borrasca de inverno no alto-mar, o terror e a grandeza do martírio, a coragem diante da morte. E, bem por isso, a exclusão completa do enredo excepcional é apenas uma limitação pequena e injustificável à experiência estética. A literatura permite levantar vôos e contentamo-nos com ficar no chão, olhando para baixo? Se abandonamos a imaginação e o extraordinário que a alimenta, o que nos resta? Para quê a arte, então?

Na famosa biografia escrita por Boswell, Samuel Johnson afirma que a profissão dos soldados e dos marinheiros tem a dignidade do perigo e que todo homem se envergonha por não ter estado no mar ou em uma batalha. Mas se nem todos podem – ou desejam – de fato vivenciar essas experiências na carne, uma grande obra de literatura terá sempre a capacidade de transmiti-las e transformar em memórias pessoais dos leitores as imagens, personagens, diálogos e paisagens que ultrapassam aquele cercado limitado das suas pequenas misérias. Enfim, talvez o que melhor diferencie o bom leitor seja justamente a habilidade de conseguir incorporar um livro à própria vida, nesse ato de imaginação, esforço, e amor que busca no Belo vislumbres do Bem.
>> DICTA&CONTRADICTA – por Rodrigo Duarte Garcia


QUEM DISSE QUE OS QUADRINHOS SÃO INIMIGOS DOS LIVROS

sábado | 18 | julho | 2009

ASTERIX

Tese investiga importância de gibis na formação de leitores na infância

Em 1944, a Revista do Inep (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), do Ministério da Cultura, publicou ao longo de três edições um estudo bombástico a partir de uma pesquisa feita com professores e estudantes sobre as histórias em quadrinhos, um produto de massa surgido no país na década anterior. A conclusão era das mais alarmistas: os comics constituíam um nocivo instrumento que estava prejudicando o aprendizado escolar de diversas formas: desestímulo ao estudo das disciplinas, abandono dos livros infantis e, pior, causavam preguiça mental, ao viciar os estudantes com imagens e poucos textos. Seguiu-se, então, uma guerra em escolas de todo país, quando fogueiras foram organizadas para queimar gibis. Mais lenha foi jogada no incêndio quando o professor Antonio D’Ávila publicou, em 1958, A literatura infanto-juvenil, um tratado em defesa dos livros para crianças e contra as revistinhas.

Foi preciso duas décadas para que editoras como Ibep e Ática adotassem a linguagem dos quadrinhos em seus livros de português, geografia, história e matemática. Desde então, a aceitação das revistinhas pelos professores como reforço paradidático parecia pacífica. Na verdade, os quadrinhos se tornaram quase sempre o primeiro contato de várias gerações de crianças com o aprendizado da leitura e da escrita e de entretenimento, além de um objeto de grande valor afetivo, sempre ligado à infância. É o que está exposto na tese de Valéria Aparecida Bari, O potencial das histórias em quadrinhos na formação de leitores: busca de um contraponto entre os panoramas culturais brasileiro e europeu, com orientação do professor Waldomiro de Castro Santos Vergueiro, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP.

Na pesquisa, ela se propôs a discutir a importância das histórias em quadrinhos na formação do gosto pela leitura das crianças, a partir das experiências de dois países: Brasil e Espanha. Ao mesmo tempo, debruçou-se sobre a compreensão das mensagens transmitidas tanto pelo texto das histórias quanto pelos desenhos – que são indissociáveis e se completam nesse tipo de arte. Segundo a pesquisadora, os elementos que constituem os quadrinhos, como o letramento, abrem possibilidades de inserção dos produtos da linguagem gráfica sequencial nas práticas biblioteconômicas e pedagógicas atuais. “A leitura de histórias em quadrinhos forma leitoras que gostam de todo o tipo de leituras, com a vantagem de criar também uma cultura de leitura infantil e comunidades leitoras de grande abrangência”, observa. “Afinal, é preciso lembrar que a formação do leitor só chega ao amadurecimento se a pessoa gostar de ler. O vínculo emocional é um elemento fundamental. Nesse sentido, as histórias em quadrinhos, além da facilidade de mostrar conteúdos complexos para leitores iniciantes, também amadurecem a relação emocional entre o leitor e sua leitura.”

A pesquisadora destaca que, em um país que muito recentemente deixou de ser predominantemente analfabeto, o primeiro contato de grande parte da população com a leitura se deu nos bancos escolares e nas bibliotecas públicas. “Temos uma geração que, no início do século XXI, foi impulsionada a ingressar num mundo letrado e virtualizado, sem que as vivências leitoras tenham um significado em sua vida real. Somente o prazer e o gosto podem justificar esse esforço para subir os enormes degraus da alfabetização e letramento.” Segundo ela, a linguagem híbrida das histórias em quadrinhos, que conjuga texto e imagem na formação dos significados complexos, forma um leitor atento, eclético e proficiente, para a leitura competente de diversas mídias e linguagens, assim como na qualidade da organização das ideias e a formulação de textos escritos, com muita diversão e articulação.

O letramento, prossegue ela, compreende fases evolutivas como pré-requisitos para a formação das habilidades e competências leitoras. Primeiro, a decodificação, que requer a memorização do registro da linguagem escrita e sua reprodução gráfica. Segundo, a de reprodução, repetição e produção própria, que requer a memorização de estruturas mais complexas da linguagem escrita, ao mesmo tempo que o desenvolvimento de habilidades motoras para a reprodução de letras e sinais gráficos, competências linguísticas e articulação de ideias e raciocínios. “A prática da leitura e da escrita como exercícios de reprodução, repetição e produção, quando bem conduzida, leva à formação de hábitos leitores. Os hábitos, por sua vez, levam ao gosto pela leitura, a parte mais requintada e pessoal do processo de letrar alguém.”

Nesse contexto, as histórias em quadrinhos contribuem de forma relevante com todas essas fases: auxiliam muito na memorização, estimulam naturalmente a reprodução e produção própria do seu leitor, habituam as crianças à leitura e, de forma muito clara, formam o gosto leitor. “Todas essas fases têm em comum o grande esforço mental, sofrimento e comprometimento necessário por parte do indivíduo, para o êxito do letramento. Como uma vantagem adicional, preparam o cérebro para trabalhar integradamente as amídalas direita e esquerda, já que se utilizam de linguagem híbrida, facilitando a subjetividade e preparando o cérebro para o pensamento complexo.” Em sua opinião, não seria possível compreender o fenômeno da formação do leitor, ou seja, do letramento, sem as vivências sociais nos ambientes nos quais se dá a apropriação social da leitura. Nem seria procedente que tivesse obtido o grau de especialista, sem viver e reviver o fenômeno da leitura em sua plenitude. “As histórias em quadrinhos chamam a atenção para os aspectos mais positivos da leitura, tornando o ensino da leitura mais afetivo e voltado para a formação de gosto e personalidade do leitor, conforme pude constatar nas minhas entrevistas para a pesquisa, indo muito além das leituras que não poderiam deixar de embasar uma pesquisa científica.”

O trabalho da Valéria parecia ter colocado uma pedra sobre o preconceito de décadas contra os gibis no Brasil. “A inegável popularidade dos quadrinhos foi, talvez, responsável por uma espécie de desconfiança sobre os efeitos que eles poderiam provocar nos leitores. Já que são um meio de comunicação de vasto consumo e com seu conteúdo voltado para os jovens, as HQs se tornaram, logo cedo, objeto de restrição por parte de pais e professores”, observa Waldomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos da ECA-USP e organizador do livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula (Contexto, 160 pág, R$ 25,00), ao lado de Angela Rama, Alexandre Barbosa, Paulo Ramos e Túlio Vilela. Foi só depois de os quadrinhos ganharem um novo status, em especial na Europa, como forma de arte que o preconceito foi diminuindo e se começou, timidamente, a incluir quadrinhos em materiais didáticos, de início para ilustrar partes das matérias que, antes, eram explicadas por um texto escrito. “Houve erros e exageros pela inexperiência do uso em ambiente escolar, mas as iniciativas contribuíram para refinar esse processo”, afirma Vergueiro. Hoje é muito comum usar quadrinhos para transmitir conteúdo, em especial após a avaliação realizada pelo Ministério da Cultura, a partir de meados de 1990. Mais recentemente, o emprego de histórias em quadrinhos na educação é reconhecido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). “Há várias décadas, os quadrinhos fazem parte do cotidiano dos jovens e, assim, a inclusão desse material na sala de aula não é objeto de qualquer tipo de rejeição por parte dos estudantes que, em geral, o recebem de forma entusiasmada.”

Vergueiro lamenta que haja no Brasil e até mesmo no mundo um subaproveitamento dos quadrinhos nas salas de aula das mais diversas formas – reforço paradidático, estímulo à alfabetização (uma vez que é uma forma de entretenimento) etc. “A interligação do texto com a imagem, que existe nos quadrinhos, amplia a compreensão de uma forma que qualquer um dos dois códigos, sozinho, não conseguiria atingir.” Segundo o pesquisador, há ainda um desconhecimento do meio por parte dos professores, que não lhes possibilita saber o que escolher e como utilizar em aula. “Soma-se a isso o pouco incentivo governamental existente para utilização das histórias em quadrinhos, deixando praticamente toda a iniciativa por conta dos professores.”

Como argumentos para defender a adoção dos quadrinhos no ensino, ele destaca a familiaridade dos alunos com as histórias em quadrinhos e com os elementos de sua linguagem desde os primeiros anos de vida, o fácil acesso aos produtos quadrinhísticos, o baixo custo do material (na banca de jornal) quando comparado a outros meios, a possibilidade de aplicação em virtualmente todas as áreas e disciplinas e a possibilidade de desenvolver estudos ou projetos multidisciplinares com histórias em quadrinhos. “Acho que devemos ter uma atitude permanente de esclarecimento dos professores quanto às vantagens e possibilidades de utilização dos gibis em sala de aula.”

Para Vergueiro, isso poderia começar na formação dos professores que, quando ainda alunos de graduação, podem e devem ter contato com as histórias em quadrinhos como instrumento de trabalho de sua futura profissão, familiarizando-se com produções importantes da área e recebendo orientações de como utilizá-las em ambiente didático. “A ideia preconcebida de que os quadrinhos colaboram para afastar as crianças e jovens da leitura de livros e outros materiais já foi refutada por vários estudos. Hoje sabemos que os leitores de quadrinhos são também leitores de outros tipos de jornais, revistas etc. A ampliação da familiaridade da leitura de quadrinhos, na sala de aula, permite que muitos estudantes se abram para a leitura, encontrando menos dificuldades para concentrar-se nas leituras que são destinadas ao estudo.” Há quem defenda a importância dos quadrinhos como forma de facilitar o acesso à literatura. “Já cresceu o reconhecimento da HQ como recurso pedagógico, porém, na escola, instituição que homologa o uso dos quadrinhos como ferramenta de ensino e aprendizagem, a concepção que prevalece é aquela que vê nos quadrinhos apenas um recurso auxiliar para aprender, não reconhecendo neles o seu diálogo com o literário. Há uma carência sobre o quadrinho e as possibilidades comunicativas que ele oferece”, explica Maria Cristina Xavier de Oliveira, autora da tese de doutorado A arte dos quadrinhos e o literário, defendida há poucos meses na USP sob orientação de Nelly Novaes Coelho.

“O quadrinho apresenta novas formas de criar textos e de leitura. É uma arte que, ao contrário do que se pensa, precisa ser apreendida e compreendida. O quadrinho é um meio que pode servir a muitos fins, como despertar um olhar criativo, o raciocínio rápido, a concatenação de ideias, o domínio de técnicas de composição e da exploração visual. Os quadrinhos podem ser um meio de formação de leitores, não passivos, meros receptores, mas ativos, colaboradores importantes na leitura e na construção de novos textos”, acredita. Quem disse que aquilo que você adora ler é “apenas um gibi”? Com certeza foi alguém que não participou da Campanha de Desarmamento Infantil, em Recife, onde, em poucas semanas, mais de 500 mil armas de brinquedos foram trocadas por gibis. A pena do quadrinho, com certeza, é mais forte do que a espada ou o revólver. E bem mais gostosa de se ver.
>> PESQUISA FAPESP – por Gonçalo Júnior