A INVENÇÃO DE MOREL = MORUS + WELLS (+ GOETHE)?

domingo | 30 | agosto | 2009

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Todos conhecem a relação entre Morel e Moreau (personagem de H.G.Wells), está no próprio prólogo de Jorge Luís Borges, utilizado no livro publicado pela Cosac Naify (tradução de Samuel Titan Jr.) este ano. A UnB publicou no ano passado um livro de Ana Claudia Aymoré Martins, chamado Morus, Moreau, Morel: A ilha como espaço da utopia, que acrescenta um terceiro ingrediente interessante ao duo. Minha intenção aqui é somar outro tempero ao caldo: Goethe. Mas antes faço um exame rápido do modo como o romance se estrutura.

Num espaço em que convivem dois planos (um projetado e outro dado como real pelo senso comum), num espaço dividido, o narrador não sabe em qual dos dois vive, ou melhor, na maior parte do tempo acha que vive nos dois; melhor ainda: acha que só há um. O que entra pelos sentidos do narrador-personagem é estranho e apresentado ao leitor sem nenhuma decodificação. Portanto, este fica à mercê das informações colhidas por aquele, participa de seu esforço para interpretar uma realidade hermética. Durante boa parte da narrativa, o leitor não sabe se essa realidade se insere naquilo que se conhece por literatura fantástica ou se há só impressão de fantástico. Se o narrador estiver sendo vítima de uma ilusão, não haverá fantástico, mas impressão de fantástico, e a ilusão deverá ser desfeita em algum momento por uma interferência racional. Isso não acontece. Há, de fato, uma realidade ficcional fantástica que se revela em certa altura da narrativa, e o racional não se apresenta para desfazer ilusões, mas para explicar mecanismos.

O tempo, como o espaço, divide-se em dois, mais precisamente em dois tipos de presente: uma série de agoras do narrador (ele escreve um diário) e uma série de agoraoutroras repetitivos, para-sempre-presentes, presentes do passado, congelados em imagens que se projetam a intervalos. Desses dois presentes, um vai se desenrolando (o presente do diário), e o outro não se desenrola: espouca repetitivo, irrompe de um outro presente que já se foi. O agoraoutrora é feito de retalhos, momentos que, gravados no passado, são periodicamente projetados por um mecanismo que só aos poucos vai sendo desvendado. O entrecho criado em torno desse processo de desvendamento desemboca na descoberta da realidade ficcional fantástica de que falei acima. A partir daí tem início aquilo que ouso chamar de segunda parte do romance: o da reação do narrador à sua descoberta. Parece-me que essas duas partes constituiriam uma divisão estrutural mais grosseira: o antes e o depois da descoberta. Há mesmo uma mudança no andamento da narrativa depois dessa cesura, mas não é possível tratar disso agora.

Na escolha de um tipo de enfoque por qualquer autor, entra em jogo o casamento do que há para ser narrado com os efeitos que a narrativa deve produzir. Casares escolheu a forma diário. Uma das vantagens desse enfoque é a possibilidade de escapar à narração retrospectiva e ir marcando o registro das experiências à medida que elas vão sendo vivenciadas, para que os passos do narrador ou personagem coincidam com os do leitor no caminhar do desvendamento, sem dicas, deixas ou pistas; a outra é dar ser a um narrador que já não existe, o que é feito por meio de um registro textual de autoria dele enquanto existia: dessa forma, o diário é um tipo de testamento que lega à posteridade uma história que de outro modo não lhe chegaria. O livro que o leitor tem em mãos é esse diário. Mas, no caso da Invenção de Morel, para que o diário se transforme em livro, entra em cena outro ator: um editor ficcional que não é transparente, que não se quer invisível, uma quase-personagem que de vez em quando se imiscui em rodapés, expressando suas dúvidas acerca de algumas afirmações do narrador, frequentemente as que dizem respeito ao mundo objetivo, a coisas compulsáveis em mapas e enciclopédias. Essa interferência traduz um modus operandi verificável, afiançável, dissonância afi(n)ada ao tom do que se lê no suposto diário. Um contratempo irônico, um sorriso maroto.

Com isso acredito ter traçado em linhas gerais a estrutura do romance, dando uma pálida ideia da boa tecedura de Casares. Desse modo fica mais fácil perceber como se criam “mundos irreais mas possíveis porque sem contradições internas”, como comenta Carpeaux no posfácio da mesma edição.

Conforme eu disse acima, há de fato fantástico. Mas trata-se de um fantástico surpreendente, com feição de ficção científica. Por que ficção científica? Porque a narrativa tem como base concreta indispensável para a sua montagem um artefato que não existe no plano da realidade extraficcional (na época da escrita e ainda hoje): uma máquina capaz de produzir e projetar imagens dotadas de todas as propriedades das imagens da vida “real”. As imagens são tridimensionais, móveis e atuantes, não precisam de nenhum suporte, nenhuma tela, por exemplo, de tal modo que qualquer observador acredita estar diante de seres vivos. Enfim, algo muito parecido com o que hoje se conhece por holograma, mas um holograma sem suporte, o que ainda não se inventou. Quando Casares escreveu seu livro, essa palavra não existia. Consta que foi criada por Denis Gabor em 1947; depois, portanto, da publicação da Invenção de Morel (1940). Mas é possível que as notícias das primeiras teorizações no assunto tenham chegado ao conhecimento de Casares. Ou teria ele feito uma antecipação genial? Nenhuma das duas hipóteses me soa descartável e talvez as duas se harmonizem.

Parece (ou deveria ser) consenso que, na maioria dos casos, o importante não é esmiuçar o que há da experiência prática na obra de ficção, e sim o modo como esta é manipulada pelo ficcionista e quais são os resultados dessa manipulação. Fazendo uma analogia banal, direi que, se num sonho uma torneira aberta se transforma em cascata, rio, torrente…etc., a pergunta é por que se transformou em uma dessas coisas em vez de outra qualquer, pouco importando as características mecânicas da torneira.

Em Casares, como teria ocorrido a metamorfose, se é que ocorreu? Ou no que sua antecipação genial transcende qualquer teorização científica? A serviço de que finalidade?

Em primeiro lugar, a precisão das imagens carreia um lance afetivo. Nada mais lógico: se essas imagens se dão ao espaço como se lhe dão os nossos corpos, produzindo no espectador as mesmas sensações que estes, é coerente a hipótese de o narrador ter reações afetivas em relação a elas. No caso, ele se apaixona por uma das imagens, por uma mulher, antes de conhecer sua oximórica verdade de simulacro. Este fato sem dúvida determina em parte a reação que ele tem após a descoberta do modo de funcionamento do artefato, e digo “em parte” porque o próprio texto mostra que o passado político do narrador também a determina. Mas não vou analisar aqui tudo o que está implicado na tal reação, pois sei que outros já o fizeram e também porque não quero que este texto se torne tão grande que canse os olhos de quem se esforça por percorrer um artigo árduo numa tela de computador. O que importa é que, sem esse dado (o da paixão), o leque de possíveis desfechos se abriria; com ele, o leque tende ao fechamento.

Mas a manipulação ficcional de Casares não se limita a isso. Expande-se do seguinte modo: o processo de gravação das imagens implica a morte do sujeito gravado, do holografado, direi consciente de cometer o pecado do anacronismo. Implica a absorção paulatina de sua alma, portanto a morte do corpo. Em outras palavras: a imagem ganha vida, o corpo morre. Que tipo de vida tem a imagem enquanto tal não ficamos sabendo, afinal somos leitores de um diário deixado por alguém que passou para o lado da imagem e assim perdeu o poder da escrita, o corpo de atuar do lado de cá. Ele nos deixa sós, com uma pergunta na ponta da língua.

Há, portanto, uma grande metáfora (uma alegoria?), razão de ser da obra. Carpeaux finaliza seu artigo dizendo: “A invenção de Morel é uma sátira. Mas o objeto da sátira não é a técnica e, sim, a condição humana. Pois assim como o fugitivo de Bioy Casares temos todos nós a escolha, apenas, entre a morte pela peste e a prisão na vida – até a morte”. Ora, em Casares, quem ingressa na imagem troca a precariedade da existência real pela perenidade da existência virtual. Perenidade precária (outro oxímoro), pois a imagem durará enquanto durar a máquina projetora, que por sua vez depende dos caprichos das marés, e aí está mais um dado satírico: a perenidade que nosso tempo pode oferecer é essa, é a perenidade laica, tecnológica, é um simulacro de perenidade. No que se inclui a perenidade da arte. Arte como criadora de simulacros: será casual a semelhança entre a projeção de Morel e o cinema? Como não pensar na literatura como arte criadora de imagens intelectuais perenes, como um meio de expressão em que o autor se despe de si e se engolfa nas imagens criadas, confundindo-se com as criaturas pelas quais se apaixona? Uma via de fuga (no sentido da perspectiva ou não), de pro-jeção (no sentido Heideggeriano ou não), de transformação ontológica afinal?

No fundo, algo que só contingencialmente se distingue daquela outra perenidade, plena e utópica, que se chama eternidade, aquela pela qual Fausto negociou a própria alma, dizendo a Mefistófeles:

Se me chegar momento
a que eu diga: ‘Demora-te! És formoso’
então aos teus grilhões entrego os pulsos.

depois de ter declarado:

O que preciso e quero, é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro est’alma.

Para fugir a uma vida que já não lhe parece tragável, Fausto opta pela dor. Fausto pactua. Faustos pactuam. Ali, o desencanto com a ciência; aqui, o encanto com ela. O tormento da perseguição aqui troca de sinal e se iguala à ânsia de atordoar-se ali. Nos dois casos, a paixão por uma miragem. Motivo mais que suficiente. Todos farão o mesmo: cada um a seu modo, ao modo de seu tempo, sempre com a ajuda daquela “parte da força, que, empenhada no mal, o bem promove”.

Não por acaso, a imagem irresistível da Invenção de Morel se chama Faustine.
>> CRONÓPIOS – por Ivone C. Benedetti


‘CIRQUE DU FREAK’: VEJA TRECHO DO FILME

domingo | 30 | agosto | 2009

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Um trecho do mais novo filme sobre sugadores de sangue, Cirque du Freak: O Assistente de Vampiro, foi liberado.

Nele, podemos ver os (ex) melhores amigos Darren (Chris Massoglia) e Steve (Josh Hutcherson) brigando dentro de um circo. Uma luta um tanto frenética e que tem um final inesperado. Clique aqui para conferir.

O filme é centrado em Darren, que é mordido pelo vampiro Larten Crepsley (John C. Reilly), se tornando também um vampiro, assim ingressando no Cirque du Freak, um circo de aberrações que incluem um garoto-serpente, um lobisomem e uma mulher barbada interpretada por Salma Hayek.

Se adaptando a seus novos poderes e ao novo mundo sombrio que o rodeia, Darren se torna assistente do vampiro que o mordeu e peão na luta entre vampiros e seus rivais Vampaneses.

O filme adapta a série de livros Circo dos Horrores, criada por Darren Shan. No elenco estão também Willem Dafoe, Ken Watanabe, Ray Stevenson, Orlando Jones e outros. A direção é de Paul Weitz.

Nos EUA o filme estreia em 23 de outubro de 2009, mas aqui no Brasil ficou para 12 de fevereiro de 2010.
>> HQ MANIACS – por Fernando Tecchio


‘LUA NOVA’: VEJA NOVAS IMAGENS DA CONTINUAÇÃO DE CREPÚSCULO

domingo | 30 | agosto | 2009

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Depois das fotos posadas, agora os Volturi aparecem em cenas de Lua Nova

Lua Nova, a continuação de Crepúsculo, ganhou novas imagens, depois dos cartazes com o clã Volturi.

Chris Weitz (A Bússola de Ouro) assina o segundo filme, que sai no Brasil pela Paris Filmes simultaneamente ao lançamento nos EUA, em 20 de novembro deste ano.

Assista ao Teaser e Trailer.
>> OMELETE – por Marcelo Hessel

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ANCESTRAIS DO BIG BROTHER

sábado | 29 | agosto | 2009

Cerca de vinte anos atrás, li um livro de ficção científica de John Brunner cujo título em português agora me escapa, mas que em inglês se chama The Productions of Time. Um sujeito recebe um convite, para passar algumas semanas numa casa de campo. Lá, ele se depara com um grupo de dez ou quinze outros convidados, pessoas que não se conhecem entre si. A permanência na casa está condicionada a certas regras meio restritivas, que eles não obstante aceitam, porque o ambiente é confortável. O que ocorre a seguir eu não me lembro, porque é totalmente irrelevante; sei apenas que os hóspedes se envolvem em longas discussões, brigas e paqueras. Nos últimos capítulos, o protagonista começa a desconfiar de alguns equipamentos estranhos que vê em lugares estratégicos da casa, embaixo da cama, etc. E vem a revelação final: tudo aquilo era um imenso cenário, com câmaras e equipamento de gravação. A vida dos hóspedes estava sendo gravada e retransmitida por indivíduos que (ao que parece) vinham do futuro e queriam estudar a espécie humana em seu habitat natural, no século 20.

O livro é de 1966, e para mim é mais uma das numerosas antevisões feitas pela FC deste curioso espetáculo que no Brasil ganhou o nome de “Big Brother”. A noção básica é que um dos passatempos principais, num mundo dominado pela TV, é espionar a vida alheia. Brunner foi um dos grandes da FC britânica, um escritor culto e versátil cujas obras misturavam FC com xadrez (The Squares of the City, 1965), com telepatia curativa (The Whole Man, 1964), com teatro (The Dramaturges of Yan, 1972). Espero não morrer um dia sem ter perlustrado as 573 páginas de Stand on Zanzibar, um épico em larga escala sobre o mundo de hoje, mas publicado em 1968.

A FC sempre explorou esse lado mórbido dos seres humanos. “Vintage Season” (1946), escrito por C. L. Moore e Henry Kuttner sob o pseudônimo Laurence O’Donnell, mostra viajantes endinheirados do Futuro desembarcando na Terra a tempo de contemplar grandes catástrofes ou belos crepúsculos mencionados em obras históricas ou literárias. The Heaven Makers (1968), de Frank Herbert, mostra a vida de pessoas de carne e osso servindo de videogame para criaturas super-poderosas.

Brunner tinha um interesse imaginativo pela interferência dos meios de comunicação em nossa vida diária. Outro livro seu, que não conheço (Players at the Game of People, de 1980) foi comparado ao filme O Show de Truman, por descrever um sujeito cuja vida é acompanhada por pessoas ricas como se se tratasse de uma telenovela ou um jogo. Brunner conhecia bem o impulso “voyeurístico” que viria a alimentar os “reality shows” de nossa era. Se alguém descreveu com ironia, desencanto e visão profética alguns dos excessos do mundo de hoje, em que as telecomunicações criam jogos para explorar o sado-masoquismo manipulatório das massas, foi gente como Brunner, Kurt Vonnegut e Robert Sheckley.
>> MUNDO FANTASMO – por Baulio Tavares


QUANDO HARRY POTTER ENCONTRA DEUS

sexta-feira | 28 | agosto | 2009

A princípio, o mundo da religião não ficou particularmente entusiasmado com a chegada do menino Potter. Por vários anos, a série Harry Potter, de J. K. Rowling, esteve no topo das listas da Associação Americana de Bibliotecas de livros mais desafiadores (razões citadas em 2001: “antifamília, ocultismo/satanismo, ponto de vista religioso e violência”). Protestantes evangélicos questionavam: a representação positiva da bruxaria desencaminharia crianças? E alguns católicos também estavam preocupados. Do cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), que alertou que “seduções sutis” no texto poderiam “corromper a fé cristã”, ao reverendo Ronald A. Barker, sacerdote de Wakefield que arrancou os livros da biblioteca escolar de sua paróquia.Mas, nos últimos anos, escritores e pensadores religiosos passaram a se entusiasmar por Harry – tanto a Christianity Today, uma revista evangélica, quanto L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, elogiaram o último filme. O Christian Broadcasting Network, canal de Pat Robertson, apresenta em seu website uma seção especial sobre A Controvérsia de Harry Potter, que reconhece que “importantes pensadores cristãos têm opiniões muito diferentes sobre os produtos Harry Potter e como os cristãos devem responder a eles”.

Ético, positivo e tolerante
Ao mesmo tempo, estudiosos da religião começaram a desenvolver uma abordagem com maiores nuances sobre o fenômeno Potter, com alguns argumentando que a extremamente popular série de livros e filmes contém mensagens éticas positivas e um arco narrativo que vale a pena ser examinado academicamente e até teologicamente.

Os acadêmicos estão interessados sobretudo no que os livros têm a dizer sobre os dois grandes temas de preocupação das pessoas de fé – moralidade e mortalidade -, mas alguns também investigam o que a série diz sobre tolerância (Harry e seus amigos são notavelmente abertos a pessoas e criaturas diferentes), intimidação, a natureza e presença do mal na sociedade e a existência do sobrenatural.

O interesse acadêmico nos livros de Harry Potter começou bem antes do fim da série e não dá sinais de diminuir. Pipocaram livros acadêmicos com títulos tão diversos quanto The Ivory Tower and Harry Potter: Perspectives on a Literary Phenomenon (A Torre de Marfim e Harry Potter: Perspectivas Sobre um Fenômeno Literário) e Harry Potter’s World: Multidisciplinary Critical Perspectives (O Mundo de Harry Potter: Perspectivas Críticas Multidisciplinares).

No último outono, a Academia Americana de Religião teve em sua convenção anual uma mesa chamada A Forma Potteriana de Morte: A Concepção de Mortalidade de J. K. Rowling. E há uma grande quantidade de artigos em periódicos religiosos com títulos como Procurando Deus em Harry Potter e Envolvendo-se na Espiritualidade de Harry Potter ou mesmo mais complexos como Harry Potter e o Batismo da Imaginação, Harry Potter e o Problema do Mal e Harry Potter e Bibliotecas Teológicas.

Religião & Cultura Pop
“Existe todo um campo explosivo de religião e cultura popular buscando não apenas paralelos exatos, seja concordando ou contestando crenças religiosas, mas também considerando essas histórias um reflexo das sensibilidades espirituais ou religiosas da cultura”, afirma Russell W. Dalton, professor-assistente de educação cristã na Escola Brite Divinity, no Texas e autor de Faith Journey through Fantasy Lands: A Christian Dialogue with Harry Potter, Star Wars, and The Lord of the Rings (Jornada da Fé Através de Terras da Fantasia: um Diálogo Cristão com Harry Potter, Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis).

“Quando histórias se tornam tão populares quanto as de Harry Potter, elas deixam de refletir apenas as opiniões religiosas do autor, mas se tornam artefatos da cultura, dizendo algo sobre a cultura que as abraçou”, diz Dalton. “E esse é certamente o caso de Harry Potter.”

O interesse acadêmico no menino que sobreviveu ao mal faz parte de uma busca maior de escritores e estudiosos da religião por sinais da fé, e em particular por repercussões da narrativa cristã, na cultura. A busca não é nova, embora esteja historicamente concentrada na grande arte – como pintura e literatura. Mais recentemente, jornalistas de religião se voltaram para a cultura popular, escrevendo livros como O Evangelho Segundo os Simpsons, de Mark Pinsky, e The Gospel According to the Coen Brothers (O Evangelho segundo os irmãos Coen), de Cathleen Falsani, enquanto pesquisadores examinam o papel da religião em clipes da Madonna e em séries de TV como Jornada nas Estrelas e Lost.

“Precisamos nos envolver no diálogo que ocorre entre as pessoas”, defende Jeffrey H. Mahan, professor de ministério, mídia e cultura da Escola Iliff de Teologia, no Colorado, e um pioneiro no estudo da relação entre religião e cultura popular.

Também existe um longo histórico do uso da literatura infantil como forma de pedagogia religiosa. Amy Boesky, professora-associada de inglês do Boston College, afirma que o uso da literatura infantil para o ensino de valores morais remete a, pelo menos, Erasmo, que escreveu durante a Renascença, e inclui clássicos que vão de O Peregrino, de 1678, a Uma Dobra no Tempo, de 1962. O exemplo mais conhecido são os sete volumes de As Crônicas de Nárnia, escritos no início da década de 1950 pelo apologista cristão C. S. Lewis, que, além de servirem como divertida literatura fantástica, são frequentemente lidos como uma alegoria cristã, sendo o heróico leão Aslan obviamente uma metáfora de Cristo.

Embora alguns acadêmicos agora enxerguem Cristo em Harry Potter, os paralelos são mais sutis e, sem dúvida, amplamente ofuscados por uma torrente estonteante de feitiços mágicos, criaturas estranhas e jogos de quadribol. Harry em si é um complexo herói adolescente, assombrado pelo assassinato de seus pais, por vezes em conflito com seu papel no mundo e confuso, como qualquer um estaria, por sua estranha conexão mental com seu antagonista Voldemort.

“Os livros de Potter não são explicitamente religiosos como as narrativas de Nárnia, mas há a forte presença do mal, e temas do bem e do mal não são apenas filosóficos, mas também questões teológicas¿, observa Gareth B. Matthews, professor de filosofia na UMass Amherst.

Versões de Cristo e Deus
Alguns pesquisadores levam a busca por temas do Evangelho na série Harry Potter bem longe. Oona Eisenstadt, professora-assistente de estudos religiosos do Pomona College, faz uma análise extremamente elaborada, sustentando que Rowling explora a natureza complexa de personagens bíblicos apresentando duas versões de cada nos livros de Potter. os bruxos Severo Snape e Draco Malfoy, argumenta, representam interpretações concorrentes de Judas – ambos buscando a morte de Dumbledore, mas um porque está servindo o mal e o outro porque essa é uma exigência do destino. Eisenstadt enxerga Dumbledore e Harry, cada um à sua maneira, como figuras de Cristo – talvez Harry representando Jesus humano e Dumbledore o divino. E ela acredita que a descrição de elementos da comunidade judaica segundo o Novo Testamento ocorre através dos duendes (banqueiros repulsivos) e do Ministério da Magia (legalista e bitolado).

“Ao invés de oferecer uma alegoria direta, que obriga leitores juvenis a engolir a teologia, Rowling oferece representações dúbias, que são um convite à reflexão para jovens e todos nós”, escreve Eisenstadt.

Crítica ao fundamentalismo
Alguns estudiosos de religião parecem mais interessados na série Potter como um comentário social – em particular, eles focam na recusa de Harry em participar da discriminação aos trouxas demonstrada por alguns bruxos e feiticeiros de sangue puro, assim como na hostilidade a gigantes e fantasmas, entre outras criaturas mágicas ameaçadoras, que alguns personagens manifestam. “Um dos temas gerais da série Harry Potter tem a ver com perseguição com base na raça”, afirma Lana A. Whited, professora de inglês do Ferrum College, na Virgínia, e autora de The Ivory Tower And Harry Potter. Já Dalton, da Escola Brite Divinity, leva o argumento mais além, sugerindo que a associação de tolerância a personagens heróicos é uma crítica ao fundamentalismo.

“Para Dumbledore e Harry e seus amigos não importa se você nasceu trouxa ou gigante”, diz Dalton, “enquanto está claro que os Comensais da Morte, os malvados, são intolerantes às pessoas diferentes deles”.

Vozes divergentes
Nem todos os acadêmicos são tão entusiásticos. Elizabeth Heilmant, professora-associada de pedagogia da Universidade Estadual de Michigan e editora do livro Critical Perspectives on Harry Potter aponta que, diferente de Hermione, que abraça a causa dos elfos domésticos, “você nunca vê Harry Potter dedicando-se a uma causa em favor dos oprimidos. Ele é na verdade um herói relutante e não estou convencida de que a narrativa o faz efetivamente ir além de seus motivos pessoais”.

O interesse dos estudiosos de religião na série Potter se intensificou com o muito esperado lançamento do sétimo e último livro, Harry Potter e As Relíquias da Morte, publicado em 2007. A questão sobre a possível morte de Harry foi muito debatida antes do lançamento do livro, e não é preciso ter um diploma em divindade para ver temas de sacrifício e ressurreição na resolução dessa questão.

“Lembro-me da espera pelo livro sete e das conversas com meus filhos sobre se Harry Potter iria morrer e muitas dessas conversas envolviam até que ponto Rowling faria dele um livro cristão: será que Harry vai morrer e salvar o mundo?”, diz Stephen Prothero, professor de religião da Universidade de Boston.

O desfecho da história (alerta de spoiler!) é o ponto de partida para muitos estudiosos de religião, porque nas cenas finais, Harry compreende “que sua função era caminhar calmamente em direção aos braços acolhedores da Morte”, escreve Rowling. Harry permite que ele seja morto – ou pelo menos atingido por uma maldição fatal – para salvar o mundo da feitiçaria, mas depois retorna à vida, encorajado por uma visão de Dumbledore que lhe diz: “retornando, você pode garantir que menos almas sejam mutiladas, menos famílias sejam destruídas”. Harry então vence Voldemort e, segundo a descrição do livro, é visto pela multidão que testemunha a batalha final como “seu líder e símbolo, seu salvador e seu guia”.

“No final do último livro, temos um Potter agonizante que ressurge – ele precisa ser morto para livrar o mundo do mal personificado por Voldermort”, diz Paul V. M. Flesher, diretor do programa de estudos religiosos da Universidade de Wyoming e autor do artigo sobre Harry Potter para o Journal of Religion and Film. “Existe um padrão cristão nesta história. Não é apenas o bem contra o mal. Rowling não está sendo evangélica – isso não é C. S. Lewis -, mas ela conhece tais histórias e está claro que ela junta as peças de uma maneira que faz sentido e que ela sabe que os leitores vão acompanhar.”

Escritora confirma analogia religiosa
A própria Rowling, após a publicação do livro final, disse acreditar que os temas religiosos haviam “sempre estado óbvios”, e os acadêmicos observam pelo menos duas citações não nomeadas do Novo Testamento na série, uma no túmulo da mãe e irmã de Dumbledore (“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”, Mateus), e uma no túmulo dos pais de Harry (“Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte”, 1 Coríntios).

A última batalha de Harry com a morte consolidou o romance entre acadêmicos de religião e a série de Potter, com as controvérsias iniciais a respeito de varinhas e bruxaria sendo ofuscadas pela discussão do caráter de Harry e suas escolhas de vida.

“Ao invés de condenar certos elementos da série como malignos – algo que muitos cristãos fizeram -, devemos convidar nossas comunidades a apreciar mais profundamente tanto as similaridades quanto os contrastes entre as histórias e nossa fé cristã”, Mary Hess, do Luther Seminary de Minnesota, escreve no periódico Word & World.

De fato, Leonie Caldecott, escrevendo no Christian Century alguns meses após a publicação do sétimo livro, opina: “Como é revelado em Relíquias da Morte, longe de enganar a morte, Harry deliberadamente abraça a morte quando finalmente entende que isso é necessário para salvar os outros, e não apenas aqueles que ele particularmente ama.”

Dumbledore, no início da série, deixa claro suas próprias visões sobre o tema, dizendo: “Para uma mente bem organizada, a morte é apenas a próxima aventura.”

Na conferência da Academia Americana de Religião, os participantes exploraram a cena final, bem como outras ilustrações da morte na série de Potter, buscando por significados. Paul Corey, professor de estudos religiosos da Universidade McMaster, do Canadá, retoricamente perguntou: “Qual é a diferença entre um cristão e um Comensal da Morte?”. Este foi o ponto de partida para refletir sobre como a busca de Voldemort para vencer a morte poderia diferir de, ou se assemelhar, ao desejo cristão pela vida eterna no paraíso. E Lois Shepherd, especialista em bioética da Universidade da Vírginia, disse que encontrou na série um argumento contra o prolongamento da vida física a todo custo – uma rejeição ao que ela chamou de “busca para evitar a morte” que, segundo ela, foi representada pelo debate sobre Terri Schiavo no mundo real.

“A morte, na filosofia da série, não deve ser temida”, Shepherd diz. “Na verdade, são aqueles que mais temem a morte – Voldemort sendo o exemplo supremo disso – que se envolvem em atos inomináveis de maldade.”
>> TERRA – THE NEW YORK TIMES – por Michael Paulson/2008


NOVOS TEMPOS PARA A RAGU

sexta-feira | 28 | agosto | 2009

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As 240 páginas da edição 7 da Ragu são vistosas, pesadas. É um contraste gritante com o gibizinho fino e preto e branco de sua primeira edição, quase dez anos atrás. Se antes, a antologia de autores alternativos era bastante representativa para seu tempo, este retorno da obra às livrarias assume nova importância: introduz seus autores e editores num panorama mundial de quadrinhistas, apresentando novos e velhos nomes do Brasil e da América Latina.

A Ragu surgiu numa época em que a palavra “quadrinhos alternativos brasileiros” não fazia sentido. Excetuando bem-sucedidas séries infantis, todo quadrinhista nacional tinha seu nível de marginalidade. As primeiras edições da Ragu também eram muito próximas das referências da cidade do Recife, onde foi fundada. Ainda estavam vivos os resquícios do mangue-beat, quando a cidade viveu um surto de auto-estima em diversas formas de arte. O fôlego foi diminuindo – sobretudo pela falta de incentivo financeiro – e quase uma década depois a Ragu surge num contexto mais favorável. Hoje, quase todas as editoras dedicam atenção especial às HQ’s. E quadrinhos como a Ragu, vendida como artigo de luxo e bom acabamento geralmente atrai olhares além daqueles acostumados à arte sequencial.

Esta edição 7 tem capa de Guazzelli. Já começa por aí os acertos da curadoria e edição da obra. Mostrando-se antenados, João Lin e Mascaro foram felizes em chamar um dos mais promissores autores dos quadrinhos nacionais hoje. Eloar Guazzelli, autor da adaptação de O Pagador de Promessas (Desiderata) consegue mesclar experimentalismos com uma narrativa que prende a atenção do leitor.

Outros destaques entre os convidados desta edição são Allan Sieber e Chiquinha. Sieber vem produzindo ótimos pequenos contos baseados em uma suposta autobiografia. Ele fez parecido com uma pequena história publicada na revista piauí meses atrás. Aqui, ele se transforma em gato para falar de sua relação conturbada com uma mulher e suas diversas divergências sócio-culturais. Chiquinha, colaboradora da Folha de S. Paulo, não fez nada de muito diferente de seus últimos trabalhos, falando das peculiaridades do jovem contemporâneo, usando linguagem nerd e referência pop.

Marcelo D’Salete, que lançou recentemente NoiteLuz (Via Lettera) e se destacou colaborando para a coletânea Front também traz uma boa história com seu estilo bem característico de desenhar. Fábio Zimbres, que retorna às livrarias este mês com a antologia Vida Boa (Zarabatana) completa a nata de autores nacionais presentes na Ragu.

Os convidados estrangeiros não fazem feio, ainda que não tenha nenhum nome de peso. O cubano Frank Arbello, atualmente vivendo na Bolívia talvez o que mais vale a pena destacar. Ele é autor da importante revista Crash!, mas ainda não tem muita força fora do continente. Avril Filomeno, do Peru é uma das vozes femininas dos quadrinhos na América Latina e tem tido repercussão lá fora pelas articulações que tem feito com outras mulheres autoras de HQ’s. A escolha de colocar a tradução dos balões em formato de rodapé foi arriscado, mas deu certo por mostrar a preocupação em manter a versão original das histórias.

Completam a obra, uma série de ilustrações e a obra do designer e ilustrador Daniel Bueno sobre o artista plástico Saul Steinberg no Brasil. Chama atenção pela raridade do registro que só agora vem à tona. Bueno encontrou os trabalhos durante seu mestrado e foi devidamente autorizado para publicação pela fundação Steinberg.

Numa edição tão bem cuidada, o leitor sente falta de uma melhor apresentação dos autores. Já que, uma das razões de existir de uma coletânea é revelar novos nomes e lançar luz sobre seus outros trabalhos. Realizada com recursos do Funcultura, resta torçer para que a Ragu 8 não demore tanto a aparecer e que outras formas de viabilizar uma edição tão importante apareçam até lá.
>> O GRITO – por Paulo Floro


MAFALDA ETERNA

sexta-feira | 28 | agosto | 2009

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Será inaugurada neste domingo em Buenos Aires uma estátua da menina Mafalda, provavelmente a mais famosa personagem de quadrinhos da Argentina. Medindo 80 centímetros, em fibra de vidro e resina, a escultura saiu das mãos do artista Pablo Irrgang.

Criada pelo cartunista Quino, hoje com 77 anos e morando em Milão desde 1976, a personagem será imortalizada bem perto de onde morou o seu criador, na rua Chile, no bairro de San Telmo.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

estatua da mafalda