‘STEAMPUNK – HISTÓRIAS DE UM PASSADO EXTRAORDINÁRIO’: DUAS VISÕES DE UM MESMO LIVRO

Steampunk_historias de um passadoA
Já ouviu falar de steampunk? Se não, a explicação curta: ficção ambientada na era vitoriana, com o uso da tecnologia das máquinas a vapor alçada ao seu maior desenvolvimento possível – isto é: o que poderia acontecer se tivéssemos ido além dos navios e trens a vapor e se as máquinas mecânicas de Babbage tivessem vingado?
Uma explicação mais longa e bem mais detalhada foi feita pela Ana Cristina aqui. Um excelente post para situar os desavisados =)

Esses dias uma coletânea steampunk me surpreendeu. Melhor ainda, uma coletânea brasileira! Algumas histórias são situadas na época do Brasil Império, quando os trens a vapor eram bem comuns por aqui. Mas há também histórias bacanas de outras partes do mundo.
Comentarei rapidinho sobre cada um dos contos:

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Apesar de ter achado um pouco confusa algumas descrições de cenas, a história é bem legal e dá uma causa diferente e interessante à Guerra Franco-Prussiana.

Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes – Fantástico conto steam adaptado de “The Boulton-Watt-Frankenstein Company” (também escrito pelo Fábio), onde ele expande a história de Victor Frankenstein, que não para no primeiro experimento apenas, também se volta às máquinas e não imagina suas consequências futuras.

A Flor do Estrume, de Antônio Luiz M. C. Costa – A história é legal, se passa numa linha alternativa onde o Brasil já é uma potência respeitável, comparável à Inglaterra. A trama se trata basicamente da medicina andando de mãos dadas com o avanço tecnológico a vapor. Eu só achei a linguagem um tanto rebuscada demais e tem vez que a leitura não flui legal. O autor podia ter pegado mais leve na linguagem. Fora essa parte, o conto é bem bacana de se ler.

A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster
– Conto leve e bem divertido de se ler. Até se parece com uma HQ bacana ambientada na era do Brasil Imperial. Narra sobre as aventuras e problemas que um adolescente inventor tem que resolver. Soube há um tempinho que está em projeto (ou foi lançado já?) uma HQ justamente sobre o herói e personagem principal do conto.

O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo
– Conto com várias referências a personagens reais e ficcionais, muito bacana de se ler. Eu achei legal ver Landell de Moura e Santos Dumont em ação, coisa raríssima de se ver na ficção. A trama flui bem, com engenhos a là Verne e aprimorados com o máximo que a tecnologia a vapor pudesse oferecer, eu só esperava um pouco mais do final.

O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa
– Conto com leves pitadas de suspense/terror. Apesar de eu não ter lido Lovecraft (ainda!), dá para perceber sua influência na trama. Tudo isso em um ambiente steampunk, claro, onde o personagem conta com o auxílio da tecnologia de exploração do mar, já um pouco mais avançada graças ao vapor.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia
– Não sei porque, mas quando li esse conto, me lembrei de Perdido Street Station. Apesar de ter me estranhado bem no começo, a coisa melhorou no decorrer da leitura, com personagens máquinas-quase-humanas e seres esquisitos metidos em uma revolução. Só achei alguns pontos do conto meio obscuros e podiam ser melhor desenvolvidos e descritos. Mas o final compensa, meio que leva a um clímax.

Cidade Phantástica, de Romeu Martins
– Conto ambientado na época de D. Pedro II (bem mais liberal) e onde não houve a Guerra do Paraguai. É um faroeste brazuca pulp permeado de referências a vários personagens ficcionais e reais, mas sem descambar em clichês típicos. O autor reinventou várias ideias e personagens.

Por um Fio, de Flávio Medeiros
– História de dois grandes homens em tempos de guerra e em lados opostos, na era vitoriana e onde é comum o uso de balões e de submergíveis. A trama é muito bem contada e o autor ainda soube manter um certo suspense no calor da batalha.

Gostei de praticamente todos os contos, apesar dos percalços de alguns. A ilustração da capa ficou ótima e reflete bem o espírito vaporoso. Eu só acho que a revisão de alguns contos meio que deixou a desejar… mas acontece.

Recomendável sua leitura! =D Pode ser adquirida aqui no site da Tarja
>> PENSAMENTOS RANDÔMICOS – por Giseli

Caleidoscópio retro-futurista

Uma coletânea como há muito não se via em termos de coesão e variedade com qualidade. Obviamente facilitou a consecução destas virtudes o fato de existir um fio condutor na forma do tema-estilo do título, que com todo o charme das histórias em futuro do pretérito mostra várias as possibilidades do que poderia ter sido com um estilo que dificilmente se adota hoje em dia.

Todos os autores manifestaram ao jeito de cada um seu caleidoscópio interessante de imagens retro-futuristas. O espanto pessoal quanto ao grau de pesquisa necessária para as escrituras acompanhou cada página lida neste opúsculo, que é também adicionalmente uma mostra que se pode se manter as referências de nossas raízes culturais em quase qualquer estilo ficcional de forma bem feita. Minhas impressões de cada conto vão descritas individualmente como segue:

O Assalto ao Trem Pagador – Gianpaolo Celli
Abrindo a coletânea um conto que é uma verdadeira “traulitada” em termos de construção de cenário. Pesquisa intensiva descendo aos mínimos detalhes de consistência entremeados organicamente num ritmo de aventura e ação fazem deste conto steampunk uma experiência de fruição única para quem também aprecia uma boa pitada de teoria da conspiração. Fica aquele gosto de querer mais histórias com o desdobrar deste pano de fundo sócio-histórico.

Uma Breve Historia da Maquinidade – Fábio Fernandes
Um sintético conto que, mesmo num espaço bem “mignon”, consegue através de uma visão dos “rabota” em largas pinceladas aludir contextualmente aos grandes conflitos sócio-industriais do sec. XIX, ao mesmo tempo em que resgata personagens já bem conhecidos do imaginário coletivo, mas sempre sob um viés originalíssimo, e com o mesmo tom criativo no desembocar do seu final. Um “FF” da melhor qualidade.

A Flor do Estrume – Antônio Luiz M. C. Costa
Esta deliciosa história, recheada de bem urdidas referências de cunho estilístico e literário da nossa cultura para quem já teve oportunidade em algum momento de estabelecer um “primeiro contacto” com esta, é também quase um “must” como potencial ferramenta para alavancar interesses se for usada como atrativo para que nossos jovens se interessem pela produção dos autores nacionais clássicos. E além de apresentar o perfil de uma História Alternativa com nossas cores ainda põe uma criativa abordagem da possibilidade quanto às tecnologias biológicas dentro do estilo steampunk.

A Música das Esferas – Alexandre Lancaster
Os personagens deste conto contém grande eficácia de identificação, sendo tanto convincentes e bem construídas como adequadamente inseridas dentro de uma ação de ritmo jovem e ágil, dada a curta extensão de uma história ainda muito bem situada segundo o tema do livro. Uma também convincente aplicação do conceito operacional de um “mecha a vapor” e um estilo que por vezes perpassa ao “gore”, agregados a um sólido bom humor que coube muito bem no cenário e nos diálogos, faz com que fiquemos expectantes quanto às futuras incursões do autor.

O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire – Roberto de Sousa Causo
Fantástica exposição de história de aventura num “blend” de tons míticos com tecnológicos, aborda um tema que sempre me foi de interesse, e cuja consecução resultou altamente satisfatória. Condensando o melhor do estilo e tradição dos pulps com um locus histórico mais do que adequado à coletânea, tem aquele tom estimulante que faz falta em muitas histórias mais “reflexivas” da atualidade. Espero ansiosamente a provável continuação deste conto que fecha bem, mas que claramente apresenta um gancho certo para a extensão deste fragoroso embate entre um vilão mais ambicioso que o sherlockiano Moriarty e as forças atlantes, sob a quase impotente e ainda ingênua sociedade da época.
Obs: Foi ótimo ver o Padre Landell de Moura representado de forma tão adequada e respeitosa.

O Dobrão de Prata – Claudio Villa
Esta angustiante história de terror narrada em primeira pessoa não fica nada a dever às dos grandes representantes do gênero. A montagem de um cenário (sub-)aquático entre duas épocas seculares, bem como a sensação de como nem a ingênua confiança advinda dos albores da tecnologia pode ajudar quando confrontada com o incognoscível foram judiciosamente usadas para criar o clima macabro deste conto.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas – Jacques Barcia
A fusão estilística steam-punk-chaotic-weird-science (des-)enquadrada num hipotético cenário de conflagração política semelhante aos gerados pelas grandes confusões ideológicas dos séc. XIX e XX, na forma como obtida pelo autor, conseguiu atingir a dosagem certa dos elementos para a inclusão de uma vida aparentemente impossível mas não obstante invencível. Uma ode à liberdade e tolerância do diferente embutida nestes rasgados e plásticos (ou seriam organo-metálicos?) võos imaginativos.

Cidade Phantástica – Romeu Martins
Esta deliciosa fusão de elementos reais e literários (nacionais e internacionais) absolutamente bem pesquisados e embasados no contexto temático da coletânea teve na sua construção o toque de um estilo de ação policial tipicamente pulp, porém mesclado com sutis e às vezes grandiloquentes toques descricionais que fizeram paradoxalmente acelerar e dar colorido vivo a uma história cuja plausibilidade se estabelece como uma das mais fortemente impactantes desta coletânea.

Por Um Fio – Flávio Medeiros
Um grande otimismo subjacente pela humanidade, mesmo sob as condições mais limítrofes e desesperançosas, perpassa por este claustrofóbico conto que, ao mesmo tempo que resgata o estilo clássico de histórias de confronto entre oponentes valorosos de semelhante brilho, tem um “timing” que prende e nos faz “navegar” sem escalas até o fecho final.

Nota complementar:
Alguns poderiam retrucar que só fui “elogios” no que se refere à resenha dos contos desta surpreendente coletânea. Devo dizer em defesa que uma das principais preocupações foi tentar não levantar informação por demais “spoilerística”, me restringindo mais a uma descrição do clima que expondo os detalhes sobrenadantes que mais me afetaram (mesmo que por vezes falhando neste intento), até pelo fato de não ser propriamente um especialista em teoria literária no geral e no estilo steampunk em particular.

Obviamente que alguns contos me agradaram mais que outros e alguns pouquíssimos deslizes na revisão (atípicamente poucos) ou de referência histórica (mas, ora bolas, se trata ou não de HA?), que no meu entender não comprometeram o prazer das leituras, poderiam ser indicados, mas achei por bem que seria mais construtivo apontar as grandes forças desta seleção de contos (que certamente fica como um marco tanto no estilo de produção como na qualidade gráfica) que pode e deve se consolidar como uma referência até mesmo acadêmica dentro do quadro da FC/HA nacional. Minhas esperanças estão em que seja esta a primeira de muitas outras iniciativas semelhantes.
>> CIDADE PHANTASTICA – por Ricardo França

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