AREIA NOS DENTES LITERÁRIOS

Areia nos Dentes_Xerxe
Não à toa, Julio Cortázar, um frasista por excelência, disse: “Todo mundo tem uma história para contar, duro é saber contá-las.”. Na literatura brasileira contemporânea, em especial aquela surgida dos primórdios da Internet, nada poderia ser mais verdade. Uma profusão de livros personalistas e referenciais tomou a linha de frente da então nova produção.

Histórias pessoais simplórias nunca foram, nem nunca serão literatura razoável. A excelência está na transformação, vide os grandes autores que se aventuraram no tema – Kafka, por exemplo. De sempre pessoal, criou fábulas e textos marcantes, todos de cunho pessoal. Nesta já “consagrada” geração dos anos 00, rock’n’roll, devassidão e Bukowski formam o pano de fundo de uma história qualquer, uma história adolescente, geralmente sofrendo das agruras de uma classe média supostamente desencantada, que basta uma visita a qualquer colégio da cidade e uma rápida entrevista com qualquer aluno para sair com um caderno cheio de anotações e “inspirações”. A banalidade das histórias chega a causar um desalento, de aventurinhas sexuais constrangedoras à idolatria de páginas e páginas de autores com muito mais substância. Se isto basta, a Wikipedia tem muito mais a dizer. Mas não existem culpados nesta história. O crescimento desta geração se deu de forma espontânea ou “viral”, no linguajar de Internet. Outra explicação é que, em terreno fértil, ervas daninhas sempre crescem. Ainda mais quando este terreno não tem plantação alguma. E como diz o ditado, “na falta de tu, vai tu mesmo”.

Passada uma década deste “fenômeno”, as coisas começam a clarear e novas opções começam a surgir aqui e ali. Uma nova geração que também está conectada, mas parece estar interessada em falar um pouco mais e, importante, de maneira diferente. Ainda que a crise de referências ainda seja uma questão em aberto, as coisas parecem caminhar para uma mudança. Um exemplo interessante é a prosa do gaúcho Antônio Xerxenesky, que em Areia nos dentes (144 páginas, Não Editora, R$ 25, em média), parece bem disposto a contar mais, escrever mais do que meramente fazer a típica redação “minhas férias”.

No livro, a improvável história do Velho Oeste e zumbis, onde na pequena cidade de Mavrak, os Ramírez e os Marlowes se digladiam num típico conflito de famílias até que o inesperado acontece. Paralelamente, um escritor mexicano narra a história acima. Confuso? Nem um pouco. Exagerado? Em alguns momentos, sim. Mas Areia nos dentes é um refresco para quem está ansioso para mudanças de paradigmas na literatura nacional.

Numa entrevista concedida por e-mail, o autor comenta a inspiração de sua história. “Veio de dois lugares: cinema de faroeste/horror, porque sou apaixonado por ambos os gêneros, e de um jogo de computador antigo, chamado Alone in the dark 3, que, pasme, era uma história de caubóis e zumbis.”. Com uma temática pop como esta é fácil tentar reduzir o livro a mais um clichê do gênero. Isto seria um erro, afinal nem sempre o pop é raso e estamos falando aqui de um olhar brasileiro, gaúcho, sobre o tema. Xerxenesky está longe da referência pulp que o gênero permitiria: “Minha resposta parecerá arrogante: não gosto de literatura ‘pop’, salvo raras exceções. Fiz um legítimo esforço de fugir do ‘pop’, que geralmente é preocupado demais em parecer ‘cool’ e ‘tendência’ e preocupado de menos em trabalhar uma estética poderosa e incisiva. O ‘pop’ muitas vezes se aproxima do ‘cool’, que é distanciado e que olha tudo de longe com ironia. O ‘pop’ é o que é consumido em massa pela agora emergente ‘cultura hipster’, da qual tenho verdadeira repulsa. Não queria que Areia nos dentes fosse assim. É um livro político e é um livro muito pessoal.”.

Questionado sobre a motivação política de seu livro, Xerxenesky diz: “Quanto à questão política, é ingênuo pensar que qualquer livro é neutro. Meu livro não é político pelas afirmações que faz, não é panfleto para nenhum partido, nem para o posicionamento de esquerda ou de direita. Ele é político, principalmente, acho, por duas coisas: porque propõe uma mescla entre alta e baixa cultura, ao colocar um conflito freudiano no Velho Oeste. Não se trata de banalizar Freud ou de supervalorizar o estereótipo western, mas sim de mostrar que hoje em dia tal separação não é mais possível, de que tudo passa pelo filtro da ética e da estética. O segundo ponto onde ele é político: escrever o que se convencionou chamar de “metaliteratura”, termo que aplicam o tempo todo ao Bolaño e ao Coetzee, é adotar uma postura política de fazer a pergunta sobre o lugar do intelectual na sociedade. Pelo menos é o que penso.”.

Seria então Xerxenesky um braveteiro pop como Chuck Palahniuk? Ainda que a comparação seja altamente descabida, serve de exemplo para dizer que o autor ruma para um caminho pouco explorado na literatura brasileira criando algo que flerta com as referências pop, mas ainda assim vai além. E quando surge algo assim, em geral, a Academia torce o nariz, afinal para a grande massa acrítica da crítica nacional, o que vale é “alta literatura”. Sobre isso, ele afirma: “Palahniuk é um sujeito interessante. Li muitos livros dele aos 18 anos, precisaria reler para formular uma opinião sobre ele. Quanto à cobrança desmedida que a literatura seja foda, experimental, intelectual? Embora eu não cobre experimentalismos ou demonstração de conhecimento, poxa vida, eu pessoalmente QUERO LER uma literatura assim! É o que busco nos autores que gosto, em Roberto Bolaño, em Enrique Vila-Matas, em David Foster Wallace… Mas isso não quer dizer que não deva existir uma literatura pop sem esses atributos, claro que deve. A graça do século XXI é que tem espaço para todo mundo. Se alguém quiser uma leitura mais tranquila, um pop engraçado e espertinho, fico feliz que tenha gente escrevendo para esse público leitor, como o Nick Hornby, por exemplo.”.

Xerxenesky parece ser também um atento consumidor da teoria literária, já que seu livro tem uma tradicional forma narrativa de divisão de narradores. Enquanto a história principal, digamos assim, se desenrola no Velho Oeste, na Cidade do México, o escritor mexicano serve como válvula de escape para um Xerxenesky filosófico. “Só através da metalinguagem foi possível trabalhar alguns conceitos que queria, o mais óbvio dele a questão de “matar o pai”, muito trabalhada por Freud e por Jacques Derrida, dois pensadores pelos quais tenho grande respeito. Porém não quis fazer uma metalinguagem gratuita e estabanada, tentei traçar ligações o tempo todo entre os dois eixos narrativos. Se fui bem sucedido, o leitor que decida.”, responde.

Ainda sobre o tema do livro, areia nos dentes é uma belíssima metáfora sobre o incômodo insuportável. E este incômodo parece ser um tema de Xerxenesky, já que também aparece em seu livro anterior, Entre. “Areia nos dentes é o que mais detesto quando vou à praia.”, brinca. “Não sei ao certo quais são os temas principais da minha obra. Tem gente que fala que é “morte”, tem gente que fala que é “a própria literatura”. Realmente não sei dizer, não tenho o distanciamento necessário.”, responde sobre a questão do incômodo como tema.

Então, é hora de questionar o autor sobre o que citei acima, na abertura desta entrevista. Então se a “nova” literatura brasileira, em especial da safra do final da década de 90 e início dos anos 00, o Eu em tom biográfico, repleto de referências, é uma constante, Areia nos dentes parece fugir bastante deste legado ou maldição, por assim dizer. A literatura de Xerxenesky não tem espaço para confissões? “Publiquei quando jovem demais, um livro de contos chamado Entre que é totalmente confessional. Hoje em dia acho ele um desastre. Mas se engana quem pensa que Areia nos dentes não é um livro pessoal. Ele é, só de uma maneira bastante indireta e disfarçada. Não sou, por exemplo, a figura do narrador ou do protagonista. O que tem de pessoal está na maneira de trabalhar certos conceitos. De resto, não acho que o ‘confessional’ seja necessariamente ruim, desde que feito com inteligência, que é mais ou menos o que J.M. Coetzee e Enrique Vila-Matas fazem: uma auto-ficção de recordações inventadas que chega a lugares que, até agora, só a literatura consegue chegar. Acho esse esforço muito válido.”.

E o excesso de referências não mata a obra? “Eu fujo de obras que são montadas exclusivamente em cima de referências. Como aquele horrendo filme feito para indies chamado Juno. Quantos diálogos irritantes! Eu queria entrar dentro do filme e estrangular a personagem principal, para ver se ela fazia algum comentário que não fosse uma frase espertinha com referência à cultura pop! Claro, Areia nos dentes também tem um monte de referências e sei que muitos me odeiam por isso. Acho que não caio no extremo que descrevi acima. Se falhei, bom, tarde demais. E se um leitor não vai ler o Areia porque tem muitas referências à ‘baixa cultura’ (uhhh, zumbis), bom, que este leitor fique sentado em sua poltrona ouvindo Mozart.”.

Sem tréguas, afinal todos sabemos que há livros adoidados por aí que citam os ‘clássicos’. Clarah Averbuck é uma que fez sua fama em cima disso, ou seja, a relação é a mesma. Teria, então, Xerxenesky uma implicância com o “pop referencial” (o grande Godzilla da literatura brasileira – sim, eu tinha de fazer uma referência). “Acabo de notar que estou quase caindo em contradição, então tentarei ser claro. Tenho uma implicância maior com o gênero ‘pop referencial’ sim, um incômodo que pode derivar do excesso que não ocorre com referências clássicas. Eu costumava me irritar quando os críticos do chamado ‘pós-modernismo’ acusavam as obras de superficiais. Hoje em dia acho que eles tem um pouco de razão quando vejo um filme que se calca exclusivamente nas referências. Porém a questão é muito mais complexa do que isso: depende do uso que é feito das citações, se estão ali para impressionar o leitor/espectador, para que ele se sinta inteligente e culto por ter captado as referências (basta lembrar o frisson que Os sonhadores causou no meio intelectual), ou se o autor dialoga com elas, como Vila-Matas faz, reconstruindo, alterando, mentindo, analisando todas aquelas menções a escritores… Acho que o Areia nos dentes não exige que o leitor conheça as referências. Gosto de pensar que não. Talvez me arrependa de algumas coisas nele daqui a alguns anos. Se um dia sair uma segunda edição, mudaria certas coisas. Quanto à Clarah, nunca li nenhum livro dela, nem sei direito como é a prosa da moça. Acho que não é meu tipo de coisa.”.

O que o seria mudado então em Areia nos dentes? “A maior dificuldade é balancear o explícito e o implícito na literatura. Deixaria algumas coisas mais “na sombra” e explicaria melhor outras, como o fato de que no fim da parte um o narrador erra as letras por estar bêbado.”, diz.

Areia nos Dentes_capaXerxenesky é um entusiasta de Enrique Vila-Matas, um criador de citações de outra natureza, mais intelectuais, mais envolventes, mesmo que em alguns momentos sua obra seja enfadonha. Assim sendo, isto esbarra numa arrogância intelectual forte, que também parece ser uma estrada pavimentada dos novos autores nacionais. Teria a literatura brasileira uma inclinação Vila-Matas ao invés de um Nick Hornby? Xerxenesky responde: “Outra vez: não vou tentar traçar nenhuma generalização acerca da produção brasileira contemporânea. Mas pelo que vejo na Não Editora, pelos originais que recebemos, e, em certo sentido, pelos livros que publicamos, há leveza e arrogância em partes mais ou menos iguais. Sobre a prosa do Vila-Matas, não sinto esse enfado, e pretensão, para mim, sempre foi uma característica positiva. Prefiro um livro que tenta ser uma obra-prima e mudar o mundo do que um livro que só busca ser agradável. Um bom livro estraga a vida do leitor, puxa o tapete dele. E se a erudição leva à arrogância? Talvez leve, sei lá. Eu prefiro ler um monstro arrogante do que um bobo sorridente.”.

E todo este papo sobre referências, sobre eus confessionais também tem um origem, que vem lá do Rio Grande do Sul, estado que deu ao Brasil o maior número de escritores desta nova geração e que já está preparado para revelar mais alguns que agora parecem falar uma língua diferente em termos literários. Xerxenesky está ai para provar. Seriam então os gaúchos mais leitores e mais escritores do que a média? Já apareceu até o rótulo Geração 80 para defini-los. “Não estou familiarizado com as historiografias mais recentes. O Zero Hora usou esse termo para falar de autores gaúchos, mas foi uma retrospectiva feita por um jornal gaúcho sobre escritores gaúchos. Era algo diferente. Não acho que gaúchos leiam ou escrevam mais. Para ser sincero, não acho que nosso estado tenha nada de muito especial, a não ser uma valorização extrema por uma cerveja horrível. Somos muito bairristas.”, diz.

Mas se por um lado há a celebração, há o outro da infâmia. Há quem desdenhe desta geração justamente por verem uma emulação cínica e forçada de um Bukowski, fruto de uma incapacidade de tentar algo mais ambicioso ou mais popular. Então… “Realmente tem escritores que sugam Bukowski e Fante o tempo todo, mas cedo ou tarde vão cansar deles. Caramba, acho que até eles já cansaram de puxar sempre as mesmas pessoas. O que eu penso sobre isso? Cada um com suas influências. Mas também penso que a crítica é injustamente veloz em rotular novos escritores como derivados de Bukowski e Fante. Daniel Galera sofria o estereótipo o tempo todo, e se alguém se prestar a ler os livros dele nota que é preconceito sem fundamentos da mídia. O que é compreensível, porque a mídia precisa vender o peixe de alguma forma. Imagino que cedo ou tarde vão tentar me vender como “o escritor nerd” ou alguma asneira assim.”.

Deixando rótulos de lado, Xerxenesky também fala sobre alguns autores nacionais que devem ser lidos. “Esse tipo de pergunta é cruel, sabia? Muita gente de ego muito alto vai ficar puto de “ah, não acredito que você não me citou, seu desgraçado”. Farei uma lista, mesmo assim. Daniel Galera, em especial o seu Mãos de cavalo, mas me acusarão de puxa-saco porque ele é meu amigo. Samir Machado de Machado, mas vão me xingar porque ele é da mesma editora que eu. Carol Bensimon, nossa, que garota fabulosa. Também serei criticado pelo fator amigo-editora. Por fim, gosto muito do Amílcar Bettega e do Michel Laub, mas esses não são meus amigos pessoalmente, estou livre dos ataques.

E de leitura atual? “Como sou bolsista na graduação Letras, estou terminando uma releitura do Gravity’s rainbow do Thomas Pynchon para um trabalho que tenho que apresentar. Paralelamente, estou apanhando para a Carta sobre o humanismo do Heidegger. Nossa, que sujeito complicado.”.

Claro que não tem nada a ver, mas entrevistando um gaúcho, a pergunta não poderia ficar de fora. Inter ou Grêmio? “Tecnicamente Inter, mas não acompanho futebol. Não porque seja um daqueles intelectuais de boina que fazem cara feia quando escutam a palavra, só porque sei lá, nunca vi muita graça mesmo. Mas quando jogo Winning eleven ou Fifa 2008 escolho o Inter.”, responde. Isso dá uma amostra simples de como uma pergunta capciosa é respondida por um autor completamente honesto.

É aí, a honestidade, que mora a grande virtude de Areia nos dentes. Um livro que tem suas falhas sim – e, em minha opinião a brincadeira da metalinguagem não funciona tão bem, além de pequenos equívocos que seriam resolvidos com uma pesquisa mais aprofundada (como usar aztecas ou invés de mexicas, como os mexicanos se referem). Mas são coisas tão pequenas que não estragam a honestidade do livro e o talento de Xerxenesky. Oxalá o que venha daqui para frente, tanto do autor como da literatura nacional, tenha esta vontade honesta de ter uma história e saber contá-las, da maneira que for, erudito ou não. Porque de resto, a Internet já dá conta.
>> SPECULUM – por Danilo Corci

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