A INVASÃO DO MUNDO FANTÁSTICO

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É um género em clara ascensão e parece que a onda dos autores estrangeiros de maior sucesso trouxe com ela uma nova vaga de portugueses dedicados a este tipo de literatura. Aquilo que não tem explicação na realidade parece exercer grande fascínio em públicos de todas as idades.

Castelos, dragões ou vampiros soam às histórias que ouvíamos enquanto crianças. Mas hoje esse não é o caso. Pelo menos na literatura. O público de todas as idades já provou gostar e as editoras sabem que este género é uma aposta ganha. Prova disso são as dezenas de livros do fantástico publicados nos últimos tempos.

A moda talvez tenha sido lançada por Tolkein e seguida por muitos outros autores como o recente fenómeno da norte-americana Stephenie Meyer. Em Portugal, os artistas não se fizeram esperar e as editoras puseram mãos à obra para lançar alguns livros do fantástico. É o caso da Gailivro, especializada na publicação de literatura infanto-juvenil.

«Este boom não é de agora; em Portugal não é tão visível, mas no estrangeiro o fenómeno já dura há alguns anos e continua a ser um mercado em força», explica Pedro Reisinho, editor da Gailivro. É um tipo de livro transversal que pode abordar qualquer tipo de temática e englobar um leque de géneros. «O fantástico no fantástico é que dá para tudo.»

Nele podem ser incluídos os livros de ambiente medieval, com dragões e grandes batalhas de capa e espada, como vampiros que vivem no presente e se fundem na sociedade, ou até zombies que habitam num planeta mais futurista. A própria fantasia urbana é um estilo em franca expansão que caminha lado a lado com o género da ficção científica. «Isto permite-nos ter diversidades que agradam a várias faixas etárias e criam públicos mais alargados», salienta o editor. Até porque um dos objectivos das editoras é também a fidelização dos leitores. «Para além de aproveitar a vaga, queremos formar leitores e mantê-los connosco. Ter fãs a sério, criar um culto deste tipo de literatura em Portugal tal como ele existe nos países anglo-saxónicos.»

A mesma opinião é partilhada por Inês Mourão, responsável da comunicação da Editorial Presença. «Os livros do fantástico têm aumentado de forma considerável. Acho que talvez as pessoas queiram alhear-se da realidade e procurem alternativas em universos paralelos.» Viagem no tempo ou não, estes livros têm a capacidade de prender na leitura. «Há normalmente muitas ramificações familiares que continuam ao longo das sagas, com as mesmas personagens, o que também agarra o leitor», acrescenta.

Aliás, a designação de trilogias ou tetralogias foi abandonada e hoje apenas se fala em sagas e ciclos. A razão, diz Pedro Reisinho, «tem que ver com a venda de séries como trilogias que depois acabam por publicar mais um ou dois livros». Mais raros, mas que começam agora a surgir, são os chamados stand-alone, títulos de fantasia ou ficção científica lançados isoladamente.

É o caso do jornalista português Octávio dos Santos, que aos 44 anos publicou Espíritos das Luzes (Editora Gailivro). Uma história sobre diversas personalidades do século XVIII, em situações e relações imaginárias, «com uma dimensão espaço-temporal alternativa, onde Portugal é um planeta no qual posso fazer praticamente aquilo que quero», conta o autor da obra lançada em 2009, mas cuja linha narrativa o acompanhava há vinte anos.

Estreou-se na escrita do fantástico em 2003 com o livro Visões, uma compilação de contos que englobava fantasia e terror. Muitos remontavam à dácada de 1980, altura em que começou a interessar-se mais pelo género, não só na literatura, como no cinema e na música. «Sempre gostei mais da realidade alternativa e sombria, até porque muitas vezes o fantástico é uma excelente forma, embora sub-reptícia, de denunciar, alertar e prever determinadas situações que acontecem no mundo real.»

Não tem dúvidas de que seja um dos géneros dominantes da actualidade. «Falando em termos internacionais, os filmes e muitos livros de maior sucesso são claramente os de super-heróis, ficção científica, terror, e não só para um público infanto-juvenil, como cada vez mais para adultos.» Tal como os seus leitores, pois escreve para várias idades. Se o Espírito das Luzes é um livro virado para os mais velhos, tem também outras histórias na calha mais dirigidas aos mais jovens. «Tudo depende, cada livro tem o seu próprio universo e mecanismo.»

Da mesma editora, um jovem talento de 22 anos, Madalena Santos, uma estudante de Direiro que já tem publicados três livros da saga Terras de Corza (o último, As Tribos do Sul, de Maio deste ano). «São quatro histórias completamente diferentes e que apenas partilham o mesmo cenário», diz. Começou a escrever aos 12 anos, altura em que vivia embrenhada na leitura fantástica e decidiu fazer as próprias histórias. «Continua a ser um dos meus géneros favoritos porque permite uma maior evasão do dia-a-dia. Optei também por condimentar as minhas histórias com romance histórico.»

A caminho do quarto livro, que vai fechar esta saga, diz que a sua grande inspiração é a História mundial. A vertente fantástica, em que cria um mundo completo de regras e personagens, que foi buscar à leitura de Tolkein, e o lado mais real e romanceado a autores como Gabriel García Márquez e Umberto Eco. Não esqueçe também as leituras de infância «sobre civilizações celtas e vikings, e outros autores como Marion Zimmer Bradley ou Juliet Marillier».

Filipe Faria é outro dos autores portugueses do fantástico com grande sucesso em Portugal. Com 27 anos, acaba de publicar o sexto livro da saga Crónicas de Allaryia e soma dois prémios na área da literatura infanto-juvenil. É considerado um dos pioneiros da high fantasy em Portugal e um apaixonado pelo fantástico. «A minha imaginação foi espicaçada por uma enciclopédia que falava do mundo do Senhor dos Anéis e foi assim que comecei a gostar de ler.»

O esboço daquele que foi o primeiro livro (A Manopla de Karashtan, publicado em 2002) teve um início ortodoxo. «Era quase como um diário de viagem que eu fazia para mim aos poucos e povoava de personagens criadas na minha cabeça. Só quando me foi prometido que podia publicar é que dei início à saga em si.»

Hoje tem seis livros publicados (O Fado da Sombra foi lançado em Maio de 2009) e falta-lhe apenas um para concluir esta colecção.

O que mais gosta no fantástico é a total ausência de barreiras. «O céu é o limite, e mesmo assim pode ir-se mais além. Há uma liberdade em poder virar a realidade do avesso. Apesar de gostar de ter as coisas bem fundamentadas e para isso tenho sempre o mínimo de base de verdade.»

Estes três autores são apenas alguns dos portugueses que têm aproveitado a vaga do fantástico para tentar a sua sorte. Também na internet se multiplicam os contos do género e há editoras que apostam na criação de colecções exclusivas do fantástico. Para um público cada vez mais adulto, mas que ainda assim varia entre os 12 e os 80 anos.

OS GRANDES DA FANTASIA INTERNACIONAL
A influência de autores estrangeiros foi determinante para a explosão literária do fantástico em Portugal. Autores mais antigos como J.R.R. Tolkien, com o seu livro Hobbit escrito em 1937 e a famosa trilogia O Senhor dos Anéis, foram o ponto de inspiração de centenas de escritores que se aventuraram neste género surreal. Escritores como Marion Zimmer Bradley, com a tetralogia As Brumas de Avalon, e outros livros ligados a um universo místico, são também um marco no fantástico, em especial para o público feminino. Em 2002, Christopher Paolini tornou-se um sucesso de vendas com o primeiro livro do Ciclo da Herança, Eragon, uma história de magia entre um menino e um dragão.

Hoje tem mais de 15 milhões de livros vendidos do mundo e mais dois livros publicados, Eldest e Brisingr. Recentemente, a escritora Stephenie Meyer encheu os tops das livrarias, primeiro com o seu romance de estreia, Crepúsculo, sobre a paixão entre uma humana e um vampiro, seguindo-se os livros Lua Nova, Eclipse e a conclusão da saga com Amanhecer. Muitos destes títulos têm também vindo a ganhar destaque com as adaptações cinematográficas, que os levam mais perto de um público mais alargado.
>> DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Lisboa, Portugal – por Mariana Correia de Barros

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