A INVENÇÃO DO MUNDO FANTÁSTICO…

Um dia gostaria de trabalhar num jornal diário e viver o dia-a-dia repleto de pressão de um jornalista para que possa assim encontrar uma justificação para os erros lamentáveis que vão recheando as páginas de jornais, revistas e suplementos nacionais e onde se nota por vezes uma gritante falta de profissionalismo, seja ela ditada por completa ignorância do jornalista que não sabe fazer o seu trabalho de casa, seja ela ditada por uma direcção de jornal que certamente tem os seus próprios interesses a defender.

Serve isto para expor o texto que saiu no NOTÍCIAS MAGAZINE de 15 de Agosto, suplemento do Diário de Notícias, intitulado A Invasão do Mundo Fantástico sobre a literatura fantástica em Portugal.

Comecemos pelo óbvio. O texto começa por falar sobre um género em clara ascensão e parece que a onda dos autores estrangeiros de maior sucesso trouxe com ela uma nova vaga de portugueses dedicados a este tipo de literatura. Espera-nos então um texto com uma abordagem completa sobre o panorama editorial do fantástico escrito por portugueses? É de esperar um texto conciso que refira quais as editoras que têm desenvolvido um trabalho de destaque na área? É melhor não terem as expectativas muito elevadas…

Antes de mais, o texto começa por sublinhar como o género que conta histórias de castelos, dragões ou vampiros provou ser apreciado por um público de todas as idades. Logo, as editoras, sabendo a aposta ganha que têm entre mãos, andam a publicar dezenas de livros de fantástico nos últimos tempos. É curioso que refira este número de “dezenas” quando o próprio texto da jornalista Mariana Correia de Barros só aborda livros que se contam pelos dedos de uma mão mutilada (esta tem direitos de autor…).

Diz ela “A moda talvez tenha sido lançada por Tolkien e seguida por muitos autores como o recente fenómeno da norte americana Stephenie Meyer.” Talvez? Então não tem a certeza? Então não sabe dizer porque começou o boom do fantástico? Essa afirmação pouco rigorosa ainda comete a proeza de destacar Tolkien saltando logo para Stephanie Meyer, um fenómeno em nada relacionado com a fantasia épica que Tolkien inspirou, omitindo toda uma série de autores, colecções, projectos, subgéneros que viveram e morreram neste país antes de chegarmos à Meyer. Tudo ignorado pela jornalista porque o que interessa realmente neste texto é destacar Meyer nem que se tenham que fazer ligações forçadas de parentesco entre a vaca e a baleia, ora pois.

Segue-se uma citação do editor da Gailivro, Pedro Reisinho, sobre a popularidade do género fantástico no estrangeiro ao que se parte logo para a definição do fantástico e a sua natureza abrangente.

Nele podem ser incluídos os livros de ambiente medieval, com dragões e grandes batalhas de capa e espada, como vampiros que vivem no presente e se fundem na sociedade, ou até zombies que habitam num planeta mais futurista. Alguém tem alguma dúvida sobre a que obra se refere “vampiros que se fundem na sociedade”? Só quem tiver andado a dormir nos últimos meses e não tiver visto a campanha de marketing agressiva em torno dos livros de Charlaine Harris a ser presentemente publicados com sucesso em Portugal pela editora Saída de Emergência. Engraçado como o trabalho dessa editora nem existe para esta jornalista. Mas continuemos a dissecar o texto.

A própria fantasia urbana é um estilo em franca expansão que caminha lado a lado com o género da ficção científica. Se quer fazer uma afirmação destas, então complemente-a com exemplos de obras que mostrem a validade desse argumento. Não digo que não seja verdade, mas afinal do que se trata a fantasia urbana? Não foi explicado, simplesmente acabamos de descobrir que anda lado a lado com a ficção científica. Como e porquê, não sei, mas parece que não interessa muito.

Depois das citações de Pedro Reisinho, passamos para as de Inês Mourão, responsável de comunicação da editora Presença, que partilha connosco a ideia da vertente escapista presente na literatura fantástica, sendo essa na sua opinião a chave de sucesso do género.

Aliás, a designação de trilogias ou tetralogias foi abandonada e hoje apenas se fala em sagas e ciclos. Pedro Reisinho diz que isso tem a ver com o facto de essas séries acabarem sempre por publicar um ou mais livros. Mas a melhor parte vem a seguir:

Mais raros, mas que começam agora a surgir, são os chamados stand-alone, títulos de fantasia ou ficção científica lançados isoladamente.

Hmm? Estou perdida. Mas afinal falamos ainda do panorama nacional ou essa é uma referência ao que se tem feito agora no estrangeiro? Se falamos do estrangeiro, stand-alones já existem há anos incontáveis ainda antes de eu sair da barriga da minha mãe há vinte e seis anos. Se estamos a falar do que se passa em Portugal, essa é uma frase que se refere apenas a um livro e um livro apenas que saiu nos últimos meses no mercado português publicado pela… Gailivro. Ai que os leitores já devem estar fartos de ver mencionados os autores da Gailivro neste texto e ainda nem chegámos à segunda página. Vai piorar, acreditem. Falo da obra do Octávio dos Santos Espíritos das Luzes. Claro que é o autor que é referido logo de seguida no texto e também entrevistado.

A seguir ao Octávio, é a vez de a Madalena Santos ser entrevistada, autora da saga Terras de Corza. Para que não restem dúvidas, conheço o Octávio e a Madalena, estive presente nos lançamentos dos seus últimos livros (embora o Octávio só tenha conseguido chegar no fim) e são duas pessoas que estimo bastante, e não coloco em questão as suas obras, mas este texto jornalístico por esta altura já começa a parecer um apanágio à Gailivro e de como o seu trabalho tem sido ÚNICO e FUNDAMENTAL neste país. O que é FALSO, porque estão longe de ser a única editora a apostar no campo da literatura fantástica. Mas quero continuar a dissecar o texto.

E saltemos para o último autor entrevistado e citado, que não poderia deixar de ser referido, claro. Referido até à exaustão em todos os textos jornalísticos sobre fantasia em Portugal, ele é considerado o pioneiro da fantasia épica portuguesa. Verdade seja dita, é o pioneiro da primeira fantasia épica portuguesa que VENDEU em Portugal. Falo do Filipe Faria, claro, com direito a foto e tudo (a barba fica-te melhor, Filipe, e ainda bem que já te desligaste do ar neuro-gótico).

E este malfadado texto termina com um parágrafo:

Estes três autores são apenas alguns dos autores que têm aproveitado agora a vaga do fantástico para tentar a sua sorte. Também na Internet se multiplicam os contos do género e há editoras que apostam na criação exclusiva de colecções exclusivas do fantástico.

Q-U-A-I-S? Um texto sobre “a invasão do mundo fantástico” em Portugal não pode lançar essa afirmação e ficar-se por aí impune. Quais colecções exclusivas de fantástico? Eu posso ajudar. Será a colecção Bang? Ou a colecção Teen? Ou a colecção Argonauta que vai ser revitalizada em breve? Provavelmente nem sabia dessa a jornalista.

Vergonhoso e deplorável, é o que chamo a este texto. E como se não fosse mau o suficiente o conteúdo completamente parcial e propagandista dos produtos com a marca Gailivro, ainda é inserida uma coluna lateral, cúmulo dos cúmulos, com o título OS GRANDES DA FANTASIA INTERNACIONAL. Esta é fulminante.

Começa por referir JRR Tolkien, inspiração de centenas de autores, para depois referir Marion Zimmer Bradley e o marco especial que constituiu para o público feminino com o seu quarteto As Brumas de Avalon, sendo os grandes nomes da fantasia internacional a seguir mencionados… Christopher Paolini e Stephenie Meyer… Como diria Sookie Stackhouse (personagem de Charlaine Harris) em verdadeiro calão white trash sulista, SHUT THE FUCK UP. Eu digo-vos um gigante da fantasia internacional que não mencionaram mas que deviam: George R. R. Martin, mas se calhar não era conveniente porque, por acaso, é um autor da Saída de Emergência que está a vender que nem pãezinhos quentes e não precisa de mais ajudinhas para vender.

É um insulto este texto. Insulto às editoras que são tão boas ou melhores que a Gailivro na promoção do fantástico em Portugal, insulto aos autores portugueses dessas editoras que mereciam também destaque, insulto à inteligência dos leitores por pensarem que se não referirem os outros elefantes no centro da sala ninguém vai reparar neles, e insulto ao próprio género da literatura fantástica por ter que sofrer com jornalistas que ou são forçados a escrever com limitações impostas pela direcção ou porque simplesmente o trabalho foi encomendado.

São as regras do mercado mas eu não tenho que aturar isto e engolir bullshit.
>> STRANGER IN A STRANGE LAND – por Saaf Dib

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