A ESCURIDÃO EM MOVIMENTO


Narrativa de McGuire em uma casa isolada pela neve

No meio da enxurrada de filmes e animações ligados ao universo dos quadrinhos que invadiram os cinemas e DVDs nos últimos anos, é raro encontrarmos uma obra que realmente valha a pena ser assistida e que consiga ocupar um pequeno espaço em nossa memória, tão disputada nestes tempos de overdose de informações.

Muitas vezes, obras melhores e com uma proposta mais verdadeira ficam submersas por dezenas de outras que conseguem mais espaço na mídia.


O chiaroscuro de Mattotti


O chiaroscuro de Mattotti 2

O filme de animação Peur(s) du Noir (Fear(s) of the Dark – Medo(s) da Escuridão, 2007), que foi exibido no mês de julho no Anima Mundi 2009, é um deles. Um projeto original e excepcional do francês Etienne Robial, responsável pela direção artística da obra.

Robial é graphic designer e foi o idealizador da editora francesa Futuropolis, especializada em HQs, que durante 22 anos publicou centenas de autores em edições primorosas, e foi também responsável pelo resgate de autores clássicos de quadrinhos, franceses e norte-americanos, em coleções memoráveis. Foi o criador dos logotipos das revistas Metal Hurlant e À Suivre, da emissora Canal+ e do time Paris Saint-Germain; e também da identidade visual da recém inaugurada Cité Internationale de la Bande Dessinée et de l’Image, em Angoulême.


O desenho de Blutch

Neste filme, ele reuniu alguns dos melhores autores de quadrinhos e ilustradores do mundo para que pudessem desenvolver inquietantes histórias de terror: os franceses Blutch, Pierre di Sciullo e Marie Caillou, os norte-americanos Charles Burns e Richard McGuire, o italiano Lorenzo Mattotti. O filme ainda conta com os roteiristas Jerry Kramsky, Romain Slocombe e Michel Pirus, todos com experiência em quadrinhos.


O traço de Charles Burns


O traço de Charles Burns 2

Peur(s) du Noir intercala e mescla pequenos contos, onde fantasmas, seres exóticos, animais demoníacos criam um clima de terror que envolve os personagens das histórias e os espectadores. Indo além dos filmes convencionais com atores, o estilo gráfico de cada autor imprime uma visão única e marcante:

– O traço preciso de Charles Burns e sua kafkafiana história de amor de um jovem inexperiente no meio-oeste norte-americano.

– O desenho de Blutch na França do século XVIII, que lembra as litografias de Goya, e mostra um nobre sádico em seu passeio com seus violentos mastins.

– A narrativa em uma casa isolada pela neve habitada por lembranças aterrorizantes, com as imagens contrastadas de McGuire.

– O perverso conto japonês que envolve a estudante Sumako em um pesadelo com fantasmas vingativos, no traço limpo de Caillou.

– E o chiaroscuro de Mattotti em uma pequena vila italiana atormentada por um animal misterioso. Tudo entremeado por pensamentos e desenhos abstratos de Sciullo.


Traço de Caillou


Traço de Caillou 2

Opressão, terror e pesadelo embalado por desenhos excepcionais e que renovam a tradição dos contos do gênero. Um filme de animação surpreendente e que certamente não será esquecido por aqueles que tiverem a sorte de o assistirem.

Site do filme: www.primalinea.com/pdn
>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini

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