STEAMPUNK: HISTÓRIAS DE UM PASSADO EXTRAORDINÁRIO

 Steampunk_historias de um passadoA

Primeiro livro reunindo contos apenas
de autores nacionais do gênero é lançado.

Steampunk é um termo tão amplo que torna-se injusto dizer que se trata apenas de um sub-gênero literário vindo da ficção científica. Sua influência está não apenas nos livros, mas também no cinema, nas artes visuais, até mesmo na moda.

Se por um lado o cyberpunk criado por William Gibson e seu Neuromancer previa o futuro olhando muito a frente de seu tempo, o steampunk dá uma volta para trás e fala de um futuro que nunca aconteceu, imaginando como a tecnologia moderna e a sociedade funcionariam caso já estivessem disponíveis numa época em que até mesmo a eletricidade era considerada como algo mágico. Você já imaginou como seria a rede global de computadores caso estes fossem feitos de madeira e bronze e praticamente movidos à vapor?

Steampunk_computador

O termo steampunk é creditado ao escritor KW Jeter que, no começo dos anos 80, junto com Tim Power e James Blaylock inventaram histórias baseadas num olhar mais obscuro e sinistro da Era Vitoriana, onde a tecnologia ocupava um lugar de destaque se apropriando dos materiais existentes na época. Mas é só em 1991 que W. Gibson e Bruce Sterling introduzem o termo ao grande público através do livro The Difference Engine. Outra obra que também merece destaque é Steampunk Trilogy (1995) de Paul Di Filippo, coleção de textos que trazem uma espécie de retro-ciência envolta num clima de aventura.

Steampunk – Histórias de Um Passado Extraordinário é o primeiro livro a ser publicado no Brasil contendo apenas histórias escritas por autores nacionais. Lançado pela Tarja Editorial, o livro reúne nove autores que apresentam contos que representam perfeitamente o universo steampunk. Participam do livro Alexandre Lancaster, Antonio Luiz M. C. Costa, Claudio Villa, Flávio Medeiros, Fábio Fernandes, Gianpaolo Celli, Jacques Barcia, Roberto de Sousa Causo e Romeu Martins.

“Pouco foi lançado no Brasil dentro desse gênero. Praticamente tudo o que se vê nas prateleiras das livrarias é material de autores estrangeiros. Essa obra é a primeira com conteúdo nacional a ser lançada implicitamente dentro do gênero”, afirma Gianpaolo Celli, autor e organizador do livro. Palmas para a Tarja Editorial, maior editora de ficção brasileira e que ainda este ano lançará outros seis títulos inéditos apostando nos novíssimos autores da literatura fantástica brasileira.

No livro, Gianpaolo usa como pano de fundo para seu conto sociedades secretas e a guerra Franco-Prussiana. Já Fábio Fernandes apresenta uma releitura do complexo de Frankenstein, num futuro onde sociedade e maquinidade dividem igualmente seu espaço. O pai da aviação Santos Dumont aparece sob um ângulo bastante peculiar na visão de Roberto Causo, enquanto Claudio Villar leva o leitor à alto mar em busca de um tesouro num conto bem ao estilo do terror de HP Lovecraft.
Steampunk_imagem

Segundo Fabio Fernandes, o interesse pelo steampunk só tem aumentado nos últimos anos: “Existe sim, e está dominando o Brasil de uma maneira que eu não desconfiava. Eu sempre militei no underground da FC brasileira, na cena dos zines do eixo Rio-São Paulo, mas do ano passado pra cá descobri que existe um grupo totalmente diverso deste, que é inteiramente dedicado à cultura steamer, não só à estética, como também à literatura, ao cinema, à arte, enfim, à discussão e à vivência da cena steampunk. E eles são super organizados e têm aberto “lojas” (à semelhança das antigas lojas maçônicas) para reunir interessados. Já existem lojas no Rio, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, e acabo de saber que há uma loja se formando em Minas Gerais, e um pessoal em Santa Catarina já começando a pensar na possibilidade de montar uma.”

Outro aspecto interessante do steampunk é a produção real de indumentária, vestiário e até mesmo máquinas pelos seus entusiastas. Vários artistas ao redor do globo já se dedicam à produção de artefatos steampunk, alguns destes verdadeiras obras de arte retro-futurista. No Brasil, esse arte já vem sendo bem difundida.

“Ainda é uma coisa amadora, mas de ótima qualidade. E está crescendo a uma velocidade tão rápida que acredito que vai se espalhar e se profissionalizar em pouquíssimo tempo.”, confirma Fabio. Quem quiser conferir os trabalhos dos steampunkers nacionais é só dar uma conferida nas pequenas convenções que as lojas nacionais volta e meia promovem em locais bastante diferentes das cidades, como por exemplo antigas estações de trem.

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Star Wars versão Steampunk

Pra quem se interessou pelo assunto, vale a pena começar dando um pulo nas bibliotecas (quer lugar mais steampunk que uma biblioteca?) e caçar uns livros de Júlio Verne, H.G. Wells, Mark Twain e Mary Shelley. Depois ir para autores mais atuais como K.W. Jeter, James P. Blaylock e Tim Powers. Pra quem prefere ver um filme, além dos óbvios da ficção científica “Viagem à Lua” (1902), “Frankenstein (1931)”, “20,000 Léguas Submarinas” (1954) e “Viagem ao Centro da Terra (1959)”, Fabio dá algumas indicações mais profundas:

“Eu indicaria mais de um, porque às vezes você vê um filme ambientado na época vitoriana mas que tem tão poucos elementos vitorianos que pode confundir o espectador, e o contrário também acontece: um filme cheio de máquinas retrô mas que não tem nenhum ponto de contato com uma ambientação mais antiga. Pensando bem mesmo, eu indicaria um filme que tem uma estética linda e que remete a Julio Verne, que é um dos santos padroeiros do steampunk: Ladrão de Sonhos (“La Cité des enfants perdus”) de Jeunet e Caro, um filme de 1995 que fez um grande sucesso aqui no Brasil. Para quem não lembra, um dos diretores, Jean-Pierre Jeunet, é o diretor do belíssimo Amélie Poulain, outro filme que prima pela estética sem descuidar da história. Taí, Ladrão de Sonhos é um filme steampunk muito bom.”
>> RRAURL – por Alisson Gøthz

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