STEAMPUNK: UTOPIA, DISTOPIA E REALIDADE

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“Considerado um sub-gênero da Ficção Científica, o SteamPunk invoca a estética Vitoriana do Século XIX, que mistura o vestuário e a tecnologia da época – envolvendo o vapor e os primeiros passos no campo da eletricidade – com elementos fantásticos, como é possível encontrar em clássicos de Júlio Verne e H.G.Wells.

Se não é fácil definir os limites do que é Ficção Científica, é igualmente complexo ditar as fronteiras do seu sub-gênero: o SteamPunk. Rod Serling – que concebeu a série televisiva “Além da Imaginação” – mencionou, certa vez, que “A Fantasia é o impossível tornado provável. A Ficção Científica é o improvável tornado possível”, e é esta citação que tem maior chance de descrever o que está por trás do espírito sob o qual é produzida a cultura SteamPunk.

O papel da história, da cultura e da arte passa pela denúncia, conscientização e solução das questões humanas negligenciadas, mal resolvidas ou sequer identificadas.

Para além do fato de que o SteamPunk aglutina engrenagens, molas, pinos, correias, caldeiras, pilhas, bobinas, computadores mecânicos, engenhos anacrônicos sem paralelo no século XIX e personagens históricos brasileiros e estrangeiros, há diferentes formas de produzir ficção SteamPunk. As mais genéricas são classificadas como o SteamPunk Nostálgico e o SteamPunk Melancólico que, embora abordem uma mesma realidade de maneiras diametralmente opostas, sustentam um argumento importante para o nosso tempo.

O SteamPunk Nostálgico considera o universo Vitoriano como uma Utopia, um mundo ideal onde a tecnologia menos massificada, menos resolvida e menos padronizada, não se colocariam a frente das questões morais, das questões sociais e das questões humanas. Nesta narrativa, o SteamPunk refletiria a suposta inocência de uma Era e a boa intenção do Homem para com o próximo, para com o seu meio e para com a própria tecnologia. Um desdobramento da nossa realidade, através de uma releitura otimista e saudosista de um passado que nunca aconteceu, como que reescrevendo a história para que esta fosse mais agradável, razoável e justa.

O SteamPunk Melancólico, por outro lado, se concentra em uma Era Vitoriana mais realista, uma Distopia, um mundo no qual o Homem explora os recursos de seu meio indiscriminadamente para empreender projetos tecnológicos colossais sem medir consequências. A melancolia desta narrativa vem da pobreza, da desigualdade social, do imperialismo, da poluição e do consumismo. Uma evidente crítica a forma pela qual o homem vive nos dias de hoje, através da caricatura relativamente pessimista de uma época que não houve e que explora nossos defeitos através do exagero das questões para as quais não temos resposta.

Tanto numa quanto em outra narrativa, o SteamPunk remete a questão ambiental, seja através de indicar o caminho correto ou denunciar o trajeto indesejado na direção em que parecemos estar inevitavelmente nos encaminhando.

A produção de cultura SteamPunk, seja na forma de literatura, quadrinhos, animações, filmes, pinturas, esculturas, música, moda ou jóias é, em si um mecanismo de divulgação não só deste gênero, mas de sua mensagem tão atual e alinhada com os interesses do Cidadão, do Estado e – não há como negar – de toda a nossa Espécie.

Não tendo qualquer vínculo com franquias televisivas ou cinematográficas específicas ou com autores que tenham propriedade sobre a proposta estética do gênero, não há royalties a serem transferidos para qualquer corporação ou indivíduo, dando assim liberdade para o artífice promover o reaproveitamento de materiais beneficiados como matéria prima através do simples ato de exercer seu ofício e de produzir sua Arte.

O Artífice SteamPunk é, essencialmente, um ativista, um criador/criatura que não existe senão através de seu potencial de preservação, divulgação e reciclagem da cultura em suas diversas formas, um representante de uma contra-cultura que não aceita viver em um mundo sem memória e que torna interessante o passado através de uma releitura crítica presente de um futuro que desejamos e mesmo que sentimos a necessidade de evitar.

Lúdico o suficiente para atrair o grande público, sugestivo o suficiente para que o espectador com ele se identifique e engajado o suficiente para ter uma função social séria, pragmática e responsável, o SteamPunk cada vez mais conta com uma infra-estrutura de divulgação e produção cultural democrática e abrangente no país, fornecendo ao artífice, ao interessado e as instituições culturais, uma plataforma de pesquisa e aprofundamento no gênero enquanto confere aos envolvidos a capacidade de fazer mais pelo planeta em que todos habitamos.”
>> CONSELHO STEAMPUNK – por Bruno Accioly

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