JORGE LUIS BORGES: O FAZEDOR DE LEMBRANÇAS

BORGES_ensaio autobiograficoJorge Luis Borges era um escritor que venerava livros. Não viveu para ver Wikipedia e o mundo enciclopédico da internet. Portanto, natural que tenha tratado pessoalmente de criar um verbete para si próprio no seu querido mundo táctil da literatura impressa.

Por outro lado, Borges nunca foi propriamente um memorialista. Muito ao contrário. Ele criava, na sua literatura, universos particulares de uma lógica interna algo fantástica e os cercava por uma miríade de referências filosóficas e poéticas, emprestadas de suas leituras várias ou devidamente inventadas para a ocasião.

Assim, é ao mesmo tempo surpreendente e inevitável que Jorge Luis Borges (1899-1986) tenha se saído com este Ensaio autobiográfico, texto agora lançado entre as obras completas do autor, que vêm sendo editadas pela Companhia das Letras. Este Ensaio foi pensado não para ser um volume individual, como aqui se apresenta, mas para servir de prefácio a uma edição norte-americana de O Aleph. O texto foi ditado, em inglês, por Borges para seu colaborador Norman Thomas di Giovanni, que traduzira suas obras para a língua inglesa. Borges, aos 71 anos, já estava cego. Empolgou-se com o tema e o texto saiu maior que o previsto. Acabou publicado na revista New Yorker ainda naquele ano de 1970. E recebeu, agora, sua primeira versão para o português.

A narrativa de Borges é cristalina. O texto, enxuto, elegantemente evita questões de ordens pessoais-e-amorosas, mas rememora a infância, os anos de formação. Borges é pouco afeito a autoelogios e dá uma esnobada em alguns de seus próprios livros, mas soa sincero, por exemplo, ao falar da amizade com Adolfo Bioy Casares (1914-1999), 15 anos mais novo, com quem escreveu livros sob o pseudônimo H. Bustos Domecq. “Nesses casos sempre se supõe que o homem mais velho é o mestre, e o mais jovem, seu discípulo. Isso pode ter correspondido à verdade no princípio, mas, alguns anos mais tarde, Bioy era o verdadeiro e secreto mestre.”

Borges, sujeito familiarizado com o discurso narrativo e com a linearidade dos verbetes enciclopédicos, segue reto ao contar sua própria formação. Nascido em uma família próspera de Buenos Aires, passou parte da infância na Suíça e na Espanha – Genebra, Lugano, Mallorca e Madri. Foi alfabetizado tanto em espanhol quanto em inglês. Ao voltar à capital argentina, em 1921, entrou em contato com o mundo acadêmico e com a imprensa local, lançou-se como poeta e ensaísta.

O pai, o advogado Jorge Guillermo Borges, era ele próprio escritor. O filho o apresenta como um “anarquista filosófico”. A avó paterna de Borges era inglesa, daí o inglês ser idioma corrente em casa. Mas Jorge Guillermo, conta seu filho, fazia troça da ascendência. “Afinal, o que são os ingleses? São uns roceiros alemães.” Leitor de poetas como Shelley e Keats, Jorge Guillermo foi um romancista que não prosperou. “Meu pai era um homem tão modesto que teria preferido ser invisível.” E a mãe de Borges, Leonor Acevedo de Borges, traduziu para o espanhol autores como Herman Melville, William Faulkner e Virginia Woolf. O infante Jorge Luis cresceu cercado pela biblioteca dos pais. Sentia que a eles devia sua paixão pelos livros, pela poesia. Sentia ter sido criado para tornar-se nunca outra coisa que não um escritor.

A redescoberta de uma metrópole europeizada
Borges voltou a Buenos Aires em março de 1921. Encontrou uma metrópole europeizada em meio aos pampas dum país ainda agrícola. “Aquilo foi mais que uma volta ao lar; foi uma redescoberta. Eu podia ver Buenos Aires de perto e com entusiasmo, porque estivera afastado dela por longo tempo. Se eu nunca tivesse ido ao estrangeiro, duvido que pudesse tê-la visto como essa peculiar mistura de surpresa e de afeto daquele momento.”

Seu primeiro livro publicado, Fervor de Buenos Aires (1923), é o registro dessa impressão. Saiu em edição miúda bancada pelo poeta iniciante e nunca foi republicado. Parecia-lhe um tanto infantil e precário, influenciado pelo ultraísmo, então vanguarda da poesia espanhola, assemelhado ao futurismo franco-italiano. “No entanto, olhando-o em perspectiva, penso que nunca me afastei dele. Tenho a sensação de que meus textos seguintes simplesmente desenvolveram temas apresentados em suas páginas. Sinto que durante toda a minha vida tenho estado a reescrever esse único livro.”

Quando o generalíssimo Juan Domingos Peron assumiu o poder, em 1946, Borges trabalhava na Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Logo foi detectado como persona non grata pelas autoridades, e devidamente remanejado para um cargo de inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais. Borges demitiu-se no dia seguinte. Décadas depois, quando Peron foi eleito para um segundo mandato, em 1973, Borges era diretor da Biblioteca Nacional e demitiu-se outra vez, mudando-se para o Texas, Estados Unidos, onde deu aulas.)

Peron estava por fora, mas o poeta Borges se tornara naquele tempo, anos 1940, o autor de contos como O Aleph (1949) e O jardim das veredas que se bifurcam, que faria parte do volume Ficções (1944). Outra dessas antologias, O fazedor (1960), periga ser a obra que Borges tinha com maior estima. O fazedor, ele conta, surgiu de forma não muito lúdica. Por insistência de Carlos Frías, editor da Emmecé, que queria uns inéditos para esquentarem uma edição das obras completas de Borges. “Todo escritor tem um livro. Só precisa procurá-lo”, provocou Frías. Borges tinha nas gavetas uma pequena coleção de “narrativas breves e parábolas” que se acumularam ao longo dos anos 1950. Assim…

Borges fala sobre juntar narrativas breves e parábolas para O fazedor. Ele foi um dos grandes criadores do conto moderno. Nunca escreveu um romance. Mais do que isso. Borges conta que nem sequer se interessava pelo grande gênero literário do século 19. “No transcurso de uma vida consagrada principalmente à literatura, li poucos romances e, na maioria dos casos, só cheguei à última página pelo senso do dever. A sensação de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são praticamente amorfos serviu para reforçar meu gosto pelo formato do conto.”

O veterano Jorge Luis Borges, em seu Ensaio autobiográfico, tinha mesmo essa nítida formulação. Sem digressões, sem descaminhos, sem filosofias. Isso ele guardava para suas antigas ficções. Seu Ensaio é breve e serena introdução à obra de um sujeito que, de tão venerado no cânone moderno, pode lançar uma sombra intimidadora sobre os leitores.

Ensaio autobiográfico, Jorge Luis Borges. Tradução de Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz. Companhia das Letras (São Paulo). 86 págs. R$ 32
>> CORREIO BRAZILIENSE/DC – por Bernardo Scartezini</

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