O TAMANHO DA ENCRENCA: ‘ATTACK OF THE 50ft. WOMAN’

 

Nos anos 1980, o cinema americano censurava a infidelidade masculina em filmes como o arrepiante Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), de Adrian Lyne. Neste thriller, uma inocente “escapadinha” de final de semana se transformava no pesadelo de Dan Gallagher, o chefe de família interpretado por Michael Douglas. Por mais excitante que fosse “pular a cerca”, ninguém ia querer uma encrenca na vida como Alex Forrest, a personagem de Glenn Close, verdadeiro terror dos marmanjos.

Mas nos anos 1950, o cinema americano de ficção científica já mandava um recado eloqüente aos maridos vidrados num “rabo-de-saia”: Attack of the 50ft. Woman (1958), de Nathan Juran (ou Nathan Hertz). Neste filme bizarro, Harry Archer (William Hudson) deu o golpe do baú casando-se com a milionária Nancy Fowler Archer (Allison Hayes). Boêmio, mulherengo e mau caráter, o Sr. Archer vive como gigolô e seu casamento vai muito mal. A Sra. Archer deu para ter crises nervosas e bebericar além da conta, afogando as mágoas por causa das sucessivas traições do marido. Harry está “pulando a cerca” regularmente para ir “ciscar na freguesia” de Honey Parker (Yvette Vickers), uma ruivinha ambiciosa que o instiga a dar cabo da esposa (Nancy, a esposa, parece bem mais interessante que a vulgar Honey, mas enfim…). Numa de suas brigas com o marido, Nancy Archer sobe no carro e parte rumo ao deserto, onde acaba encontrando uma esfera brilhante enorme, na verdade um veículo espacial tripulado por um gigante alienígena – mais uma vez o deserto americano é o palco ideal para contatos entre terráqueos e extraterrestres. Apavorada, Nancy retorna à cidade e informa sua descoberta ao xerife Dubbitt (George Douglas). O xerife e seu assistente Charlie (Frank Chase, no papel de “bufão” da estória) vão investigar – afinal, “a Sra. Archer é grande pagadora de impostos” -, mas não encontram nada e o caso acaba sendo encarado como mais uma crise de loucura da pobre milionária traída. Harry e sua amante vêem nisso uma boa oportunidade de se livrarem de Nancy. Num dado momento, ele é convencido por Nancy a acompanhá-la ao deserto, em busca do OVNI, e, após horas de procura infrutífera, os dois acabam encontrando a espaçonave. A Sra. Archer faz um escarcéu e o gigante aparece, tomando-a em suas mãos. Apavorado, Harry dá no pé.

Não se fica sabendo exatamente o que o gigante teria feito à pobre Sra. Archer. Pouco depois ela é encontrada sem sentidos e com algumas escoriações, sendo recolhida em seu quarto sob cuidados médicos. Num eco sintomático da Guerra Fria, a radiação, esse substantivo feminino e ameaça invisível, é mencionada. Com o incentivo da amante, Harry tenta matar a esposa injetando-lhe uma dose excessiva de medicamento, mas antes que ele o faça tem lugar um estranho fenômeno: Nancy se torna, ela mesma, um gigante. A essa altura, a história da nave espacial e seu tripulante ciclópico já não é mais sandice para os demais personagens. O xerife e o fiel mordomo de Nancy, Jess Stout (Ken Terrell), vão ao deserto e fazem a mesma descoberta que a Sra. Archer. Quando recupera os sentidos, Nancy quer tomar satisfações com o marido. O problema é que, agora, a Sra. Archer – que já era um mulherão – tem 50 pés de altura (cerca de 15 m), e não vai ser fácil “levá-la na conversa”. Ela então pega Harry “com a boca na botija” (ou seja, na farra com a amante, bebendo na espelunca de sempre), arranca o telhado do estabelecimento, mata a rival, atirando destroços contra ela, e agarra o marido. No fim, alvo das balas do xerife e próximo a uma torre de alta tensão, a Sra. Archer acaba vítima de um curto-circuito (ou coisa que o valha) e termina morta, segurando o corpo do marido em sua mão direita. “She finally got Harry all to herself”, suspira o Dr. Isaac Cushing (Roy Gordon), numa passagem que ainda redime o maridão na última hora. Aliás, o enfoque dos gêneros (masculino e feminino) no filme rende algumas observações curiosas, senão psicanalíticas. Os papéis parecem rearranjados momentaneamente, uma certa subversão se faz anunciar, mas no fim apressado persiste um certo “gosto” de status quo.

Hoje, Attack of the 50ft. Woman parece um filme trash, embora seja mais adequado o rótulo “cult camp classic” impresso na embalagem do DVD da Warner (o filme deu origem a pelo menos um remake, dirigido por Cristopher Guest para a TV em 1993, com Daryl Hannah no papel de Nancy Archer). Mesmo para a época de seu lançamento (1958), os efeitos especiais parecem não muito esmerados. O filme confia o tempo todo nas superposições e na decupagem campo-contracampo para criar o gigantismo, recorrendo a maquetes em algumas poucas cenas (talvez as melhores). Isso é arriscado e não dá bom resultado sempre. Uma das poucas cenas de superposição aparentemente bem-sucedidas está no final, quando a Nancy gigante jaz morta segurando o marido e as pessoas se aproximam do seu corpanzil. No mais, tudo exala uma certa precariedade, possivelmente advinda da escassez de recursos. Mas a própria mise-en-scène se revela irregular, numa narrativa por vezes confusa que opta por soluções urgentes para os problemas – o que pode vir a ser cômico ou curioso, mas também frustrante. O filme tem de tudo um pouco, característica provavelmente responsável tanto por sua virtude quanto por sua ruína. A ficção científica parece “cair de pára-quedas”, dividindo a dominância genérica ainda com o melodrama e o policial. Contudo, no fim das contas, o diretor revela não ter tido medo do ridículo, assinando uma fita bizarra com relances de inventividade – mas sobre um tema desses, poderia ser muito diferente?

Filmes como King Kong (Merian Cooper e Ernest Schoedsack, 1933), Attack of the 50ft. Woman, Them! (Gordon Douglas, 1954) e vários outros são objeto de interesse do professor Oscar de los Santos (Western Connecticut State University, EUA) em seu estudo “Extra Large: Exploring Giant Creature Cinema”, uma curiosa investigação sobre os filmes de monstros colossais, apresentada recentemente no 32º Encontro Anual da Science Fiction Research Association (SFRA) em Kansas City, EUA, de 5 a 8 de julho de 2007. Para Oscar de los Santos, a fascinação americana pelo grande (x-tra large) ganha destaque na telona de cinema. Sob um olhar brasileiro – e simplificando bem as coisas -, é como se os EUA fossem no íntimo uma grande Itú (SP), usina de idéias como a Big Science, o Big Foot, o Big Mac, etc., e o cinema a válvula de escape ideal para esses delírios de grandeza. A investigação de Santos ajuda a perceber que esse “gigantismo criativo” (embora nem sempre “criatividade gigantesca”) estimulou técnicas e tecnologias importantes no século do cinema, senão toda uma estética do enorme.

Dentre algumas curiosidades, o cartaz de Attack of the 50ft. Woman, realmente interessante, foi eleito o oitavo melhor na lista “The 25 Best Movie Posters Ever” da Première. Uma seqüência do filme, mais cara e para ser rodada em Cinemascope, chegou a ser cogitada. O roteiro foi elaborado, mas não entrou em fase de produção (Cf. http://www.imdb.com.br ). A mulher de 15 metros é da altura do moralismo do filme, e não poderia faltar numa galeria de mega-ameaças à estabilidade patriarcal, ao lado de répteis, aranhas, formigas gigantescas e similares. Já cantava Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é o sexo frágil. Mas que mentira absurda…” Attack of the 50ft. Woman mostra o tamanho da encrenca.
>> CRONÓPIOS – por Alfredo Suppia

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