SASQUATCH: ATAQUES NO PÉ-GRANDE

Sasquatch: A Lenda do Pé-Grande (Big Foot), Steve Niles, Rob Zombie & Richard Corben. São Paulo: Devir Livraria, agosto de 2009, 104 páginas. Capa de Richard Corben. Tradução de Marquito Maia.

Quando eu era moleque, no século passado, a galeria de monstros do terror era composta do vampiro, do lobisomem, da múmia, da criatura de Frankenstein, do mutante… Hoje, a múmia voltou para os museus e o vampiro e o lobisomem estão se tornando apenas membros de tribos urbanas, ou indivíduos socialmente incompreendidos à espera de um coração feminino que venha resgatar a sua humanidade.

Mas é sempre possível encontrar em nomes como Steve Niles e Rob Zombie gente disposta a trazer o velho monstro de volta. O que Niles – criador da série de romances gráficos 30 Dias de Noite, também levada ao cinema – e Zombie – astro do rock e diretor de filmes como Rejeitados pelo Diabo (2005) – fizeram foi convocar o Pé-Grande das lendas rurais americanas para assumir esse venerável papel.

Também conhecido como Sasquatch, a criatura é aqui um gigante antropófago de três metros de altura, forte e veloz, que ataca campistas no Parque Nacional da Montanha Blackwood.

A história abre com o ataque a uma família, no qual o pequeno Billy é confrontado com uma grotesca cena primordial (Freud explica): seus pais são atacados enquanto se preparam para fazer sexo, com ela imitando (com um strip-tease) o famoso “Feliz Aniversário” de Marilyn Monroe a John F. Kennedy. É a imaginação de Rob Zombie em ação, eu suponho.

O ataque ocorreu em 1973, e Billy cresceu com essa, eufemisticamente falando, “carga psicológica negativa”. Por conta disso, ele se torna um sujeito pouco ajustado – até que resolve passar em uma loja de armas e voltar ao Parque Nacional para um acerto de contas. É um caso literal de se “enfrentar os seus monstros pessoais”. Mas no caminho está o xerife Hicks, homem que já tem uma história própria de encontros e como testemunha dos ataques do Pé-Grande.

Os desenhos são de ninguém menos que Richard Corben, saudoso artista da revista Kripta e de um dos melhores períodos da famosa Heavy Metal. Corben é o criador de Den, que também foi levado ao cinema como um dos episódios de Heavy Metal: O Filme (1981). Seu desenho tem uma marca muito pessoal no uso da sombra e no movimento – e uma qualidade tridimensional que é sugerida aqui pela cor aplicada por Martin Breccia, Nestor Pereyra & Tom B. Long. Os personagens de Corben, às vezes desproporcionais, um pouco fora daquela exatidão anatômica idealizada que se espera dos quadrinhos da Marvel ou da DC, são por outro lado freqüentemente mais expressivos e inclinados à obsessão e à loucura.

O resultado dessa equipe é um ótimo livro de quadrinhos com um andamento perfeito de filme B de horror, expressivo, movimentado e violento. Retrata o Sasquatch como um monstro da velha estirpe, aqui tão viciado em carne humana que sacrifica um urso pardo de 500 quilos para matar um homem de 70. A arte da capa foi feita em cima de um fotograma do famoso filme amador de Patterson & Gimlin, obtido em 1967 e que ainda hoje é estudado com uma das evidências mais sólidas da existência de um antropóide gigante vivendo na América do Norte. E que provavelmente, se existir, deve ser uma criatura muito mais arisca e gentil do que aquela descrita pelo traço de Corben e pela imaginação de Niles e Zombie.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

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