INVENÇÃO NA LITERATURA – A IMAGINAÇÃO É O REINO DO LEITOR

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Este é um tema crucial na Arte em geral. O da invenção artística. Fala-se da capacidade de surpreender e de acrescentar algo às nossas vidas, como escritores e como leitores. Falo da Arte e isso engloba as várias manifestações criativas, as da literatura e das artes plásticas, a da música, cinema, teatro ou de outras expressões nas quais um indivíduo ou indivíduos criam e executam algo proposto como criativo, inventado como expressão artística, com maior ou menor talento. Isso diz respeito à autoria, mas creio que diga respeito fundamentalmente ao observador da obra de arte, ao leitor da obra escrita, ou seja – o público será a parcela, provavelmente, mais importante do fenômeno cultural.

Essa minha convicção espelha os meus sentimentos como escritor e como artista plástico, na forma como vejo a obra criada e o seu reflexo, infinitamente maior e mais consistente, na recepção e na interpretação pelo público.

Vamos falar da Literatura. O grande Jorge Luis Borges afirmava que “ler é a outra espécie da felicidade”. E Gaston Bachelard, instado sobre a existência ou não do Paraíso, aquiesceu dizendo que o imaginava como uma formidável e estupenda biblioteca. A promessa da epifania e do prazer da descoberta, recorrente e eterno, na leitura dos livros.

Em ambas as afirmações, significativamente está a expectativa dos dois, no papel de leitores, pelas surpresas das invenções escritas por outros.

Em Literatura pode-se inventar formalmente ou em conteúdo. Existe constantemente a busca de maneiras diversas de se expressar, de maneira coloquial, com estilos lapidados e modificados, com transgressões de pontuação, com a criação de novas palavras, com coletas de documentos, anexação de imagens, fac-simíles, estruturas gráficas ousadas, propostas de reestruturação estética ou com a revelação de uma narrativa de conteúdo original.

Recentemente Ferreira Gullar, em um artigo sobre os poetas neo-concretistas da década sessenta no Brasil, escreveu acerca de suas dúvidas frente a um manifesto da época, que impunha que a poesia nova e contemporânea deveria ser feita segundo umas determinadas equações matemáticas. Ferreira Gullar refutou o preceito e pediu aos poetas que lhe enviassem esses novos poemas matemáticos. O que nunca aconteceu.

Esse fato, de uma invenção proposta teoricamente, que não se concretizou, chama a atenção para duas situações almagamadas: não basta uma proposta inusitada e pretensamente original, é necessário antes concretizá-la (e vai aí muito trabalho, muita atividade árdua para a realização da idéia inicial) e a felicidade de realizá-la com talento.

Poder-se-ia imaginar, por exemplo – formalmente – um romance de umas trezentas e poucas páginas, que começasse com uma maiúscula e seguisse numa linha só, descritivo e com diálogos, ao longo de todo entrecho, pontuado com virgulas e parênteses, terminando centenas de milhares de palavras depois, com apenas um ponto final.Talvez até já se tenha escrito algo assim, mas não se tornou algo conhecido e admirado por muitos. A pergunta que alguém faria… e o conteúdo?

Talvez seja essa a surpresa de imaginação, a originalidade da invenção estruturada no ato de escrever, a que nos seja a mais importante, a experiência mais funda e radical – a do conteúdo literário. O romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa é o farol bem sucedido dessa experiência profunda. É evidente que ela pode vir revestida de outras inovações formais, é bom e é saudável que seja também assim. Júlio Cortázar e Ignácio de Loyola Brandão transitaram com desenvoltura nessas lindas experimentações, mas a originalidade das suas invenções esteve sempre estruturada na originalidade da idéia literária, no seu conteúdo literário e na qualidade da sua escrita.

Nesse caminho da invenção, há um outro requisito importante. O do conhecimento. Para se ser verdadeiramente original e inventivo, talvez seja necessário antes de tudo ser curioso, ler muito e bem, investigar e pesquisar, a partir de suas próprias vivências e das vivências escritas de outros. É bastante importante que se saiba o que já se fez, o que se faz, como se fez e o que se está fazendo. Para não se inventar o que já se inventou, por exemplo.

O ler muito será, sem dúvida, uma exigência, agradável, ao bom e criativo escritor. O que nos remete àquela afirmação de Borges, a da leitura como a outra espécie de felicidade, o que já traz em si uma promessa cativante. Ler muito nunca será uma demasia.

Aqui gostaria de traçar dois paralelos com as artes plásticas. O do paradigma e o da consonância ao seu próprio tempo.

É difícil ser verdadeiramente inventivo sem deixar de ser paradigmático. O artista é paradigmático quando os outros se fazem parecidos a ele e não ao revés. É impossível ser inventivo quando a obra de algum artista se parece a de algum outro.

Certa ocasião, frente à pintura de um importante artista, testemunhei uma pergunta de Bertrand Lorquin, filósofo, escritor e conservador-chefe do Musée Maillol, de Paris, ao interloculor que lhe apresentava a obra. “Esse artista gostava muito da obra de De Köoning, não é mesmo”? A pergunta continha duas armadilhas. A resposta positiva denunciaria a influência, talvez excessiva, do artista europeu sobre o seu seguidor, o que retirava parte da originalidade da obra apresentada.

Negativa, demonstraria uma ignorância do pintor sobre um dos artistas modernos mais importantes no circuito internacional. Obviamente que o artista, bem informado conhecia bastante bem aquela obra-fonte que o influenciava, o que automaticamente o colocava numa posição de não-paradigmático. O que resultou num interesse menor por parte dos europeus que consideraram não existir naquela obra apresentada uma originalidade singular e sim algo que trazia elementos reconhecíveis e identificados com outro artista, este sim a semente daquela linguagem.

A invenção está algo ligada ao paradigma.

Foi áspero (e impactante) para Picasso ser cubista em 1907, com “Demoiselles d’Avignon” (“As Senhoritas do Carrer Avignó – Barcelona), então de difícil e de demorado reconhecimento… mas realizar pintura cubista hoje, convenhamos, um século depois, é bastante fora de sintonia com o seu próprio tempo e algo sem interesse para qualquer um aficcionado em arte. É também algo estéril fazer hoje uma obra de arte à maneira de Marcel Duchamp, artista este sim, inventivo, único e paradigmático, de quem se diz, com propriedade, que a obra, seminal e revolucionária, começa com ele e termina com ele próprio, porque qualquer trabalho outro realizado hoje em dia da mesma maneira, quase um século depois de sua fatura, sempre resultará apenas num duchamp inautêntico e apócrifo. Um pastiche, algo falsificado, extemporâneo, daquele artista notável.

Quem pode ser Miró, que não seja o próprio Miró?

Assim vale para a literatura, especialmente quando se fala de invenção literária.

Eu ressaltaria ainda dois aspectos que considero importantes: a vivência da fantasia individual do escritor e a técnica pessoal de sua expressão, (aquilo que poderíamos chamar de talento).

Com estes dois elementos o escritor poderá construir uma realidade ficcional que será sutilmente modificada ou recriada pelo leitor, a partir das sua próprias experiências individuais e de sua coleção cultural; e deste processo de conhecimento pela leitura uma nova realidade ficcional resultará numa nova percepção, esta agora, do leitor.

O escritor poderá criar o seu texto, bem ou mal. Teremos como resultado uma literatura boa ou ruim. O texto poderá ser de grande relevância, de surpresa e de invenção (ou o escritor poderá não ser bem sucedido na sua aventura). Será, normalmente, uma aventura individual, árdua, com todos os seus procedimentos técnicos, a escrita, as correções, o “limar” interminável e exigente do próprio texto, as revisões finais até a edição do livro.

Agora chegamos ao ponto em que entra em cena o grande protagonista, o que parametriza e determina efetivamente, com precisão, o grau de acerto da invenção, aquele que é o mais importante: o leitor.

Essa minha convicção não é uma informação simplória, tampouco uma demagogia.

Nas artes plásticas, na pintura, quando Leonardo Da Vinci pintou a Mona Lisa, ele não decidiu, nem terá sequer desejado, que aquela obra fosse se tornar o ícone em pintura mais reconhecido e celebrado na história da arte ocidental, talvez do mundo.

Ele não poderia imaginar esse futuro, ele apenas pintou o esplêndido quadro com o talento e a técnica apurada que desenvolvera. Foi o público que elegeu a obra e deu-lhe a dimensão incomum.

Eu busco aqui um exemplo muito específico no qual a presença do leitor será a chave para a dimensão abrangente e mutante do texto, estabelecendo níveis de compreensão transitórios e cumulativos desde as experiências individuais e às releituras do texto pelo leitor. Essa é uma curiosidade e uma interrogação que nos assinala.

Ou seja, o texto é continua sendo exatamente o mesmo, mas a leitura especializa-se nas transformações ocorridas em quem o lê e posteriormente o relê – ele se modifica e se enriquece à partir das mudanças ocorridas no universo de cada leitor, no aprendizado, no sofrimento, nas experiências, no conhecimento adquirido, nas novas leituras incorporadas. O leitor transforma-se com o passar do tempo, com a absorção de novas experiências, o texto já não é percebido da mesma forma, há uma nova avaliação, uma nova exigência, às vezes para melhor, muitas vezes para uma redução na qualidade da avaliação.

Explico melhor citando o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrel, esse belíssimo conjunto de quatro romances que tanto encantou a Erico Verissimo. Os quatro livros (Justine, Baltasar, Mountlive e Cléa) contam, em quatro versões diferentes, narradas por quatro personagens com suas respectivas óticas e conhecimentos específicos e testemunhados, a mesma história, que vai se modificando para o único que detém o conhecimento privilegiado das nuances subjetivas que cercam toda a trama. Este é, evidentemente, o leitor, que forma a sua quinta versão, somatório interpretado das quatro versões de óticas diversas colando-se às suas próprias experiências existenciais. Ora, essa versão “definitiva” (que não será também, como veremos a seguir) não está escrita, ela existe apenas na imaginação do leitor. A história inventada pelo leitor.

Digo que ela não é ainda a versão definitiva, uma vez que cada leitor terá a sua em seus próprios tempos. Eu li os quatro volumes em quatro momentos diferentes de minha vida de leitor, e os compreendi que maneiras diferentes, interpretei trechos e reflexões do autor à luz de novas experiências e do amadurecimento pessoal.

E os livros sempre me pareceram renovados, mais empolgantes e mais assombrosos na capacidade imaginativa daquele autor. E a minha versão final sempre resultou sutilmente modificada, tendo sido construída página a página em cumplicidade silenciosa com aquele escritor. Ora, como isso pôde ocorrer? O texto original estava ali desde o início… No entanto tudo mudou.

E isso certamente ocorreu e ocorre com todos os leitores que lêem os quatro livros. Terá o escritor previsto essa infinidade de novas versões imaginadas? Talvez, mas a riqueza literária que ele detonou, no conjunto reconstruído por seus leitores é imensa, e esse “volume” de imaginação, se é que podemos chamar assim, é da responsabilidade dos seus leitores.

E me parece que é isso que eterniza os bons livros (como naquele caso do quadro da Mona Lisa), – o livro permanece vivo não porque o autor (em muitos casos, já falecido e ausente) assim o desejou, ele não tem esse poder de antecipação, o texto permanece, cresce e se renova, constantemente, no ato da leitura, pela presença e pela existência de seus leitores.

Dessa forma, eu concluo que o livro só existe porque o leitor existe.
>> CRONÓPIOS – por Alfredo Aquino

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