JORGE LUIS BORGES: A POSTULAÇÃO DA REALIDADE

Escrever (criar qualquer obra de arte narrativa) é selecionar, reduzir, filtrar, escolher o pouco que precisa ser dito, o muito que basta ser sugerido, e o incalculável que deve ser deixado de fora. Em seu artigo de 1931 “A postulação da realidade” (em Discussão), Jorge Luís Borges examina e cita trechos de algumas narrativas clássicas, tentando descobrir como estes autores conseguem transmitir, com economia de meios, a impressão de um ambiente complexo ou de uma história mais ampla.

Borges define (e exemplifica) os três procedimentos que considera mais importantes (e que viria a aplicar em sua obra literária posterior). O primeiro consiste em “uma notificação geral dos fatos que importam”. Este é o que ele menos comenta, e eu o glosaria assim: sabemos mais da história que contamos do que o leitor, e precisamos fornecer a este um mínimo de informações para que a história possa ser fruída por ele, aproveitando cada parágrafo, cada frase nova que o autor lhe fornece. Seja um romance de ficção científica, de crise conjugal, de cangaço, de infância feliz, de aventuras marítimas, sempre há uma porção de coisas sobre as quais ele precisa ter certeza, para poder assimilar o resto. Saber o quanto dizer ao leitor é um desafio ao qual o autor não pode fugir.

O segundo procedimento é “imaginar uma realidade mais complexa do que a declarada ao leitor, e referir suas derivações e efeitos”. Este vem para suprir as lacunas inevitáveis do primeiro. Suponhamos uma história sertaneja, entre vaqueiros, nos confins do fim do mundo. Aquilo podia estar ocorrendo em 1920, mas na terceira página o personagem ergue os olhos e vê um avião cruzando o céu. Isto ambienta a história num nicho de tempo mais nítido, mais demarcado, e ao mesmo tempo sugere todo o restante de um mundo que fica fora daquela história. Pode ser algo mais indireto, como quando Borges num conto mostra um cara chegando numa casa e diz: “Uma mulher cansada abriu por fim a porta”. Entende-se, com este “por fim”, que o cara ficou algum tempo batendo e chamando.

O terceiro procedimento é parente próximo deste, e consiste em exercer “a invenção circunstancial”. Mostrar um pequeno detalhe não-essencial mas que pela surpresa de sua aparição, e pela vividez com que é apresentado, torna mais real o contexto que o recebe. Borges se refere a “uma casa rosada que em outros tempos havia sido carmesim”, indicando sua antiguidade. Ao descrever outra casa, situada num descampado, diz (em “O Morto” e também em “O Congresso”) que “o primeiro sol e o último a golpeiam”. Detalhes assim correm o risco de incorrer em clichês, o que é previsto por ele em “O encontro”, quando o narrador entra numa sala onde homens bebem e jogam baralho: “Era evidente que todos estavam bêbados. Não sei se havia no chão duas ou três garrafas para lá jogadas ou se o abuso do cinema me sugere essa falsa recordação”. Pequenos detalhes que tornam mais verossímil o irreal.
>> MUNDO FANTASMO – por Bráulio Tavares

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