O GÊNIO DESCONHECIDO DE ALAN TURING

Talvez nenhuma ciência recente ilustre tão bem aquela frase famosa de Isaac Newton – quando ele disse ter feito o que fez porque estava apoiado nos ombros de gigantes – quanto a informática. Quem não estudou as entranhas técnicas da TI nem faz ideia de quantos pequenos avanços, incorporações de teorias de outras áreas, repentinas evoluções e personagens fascinantes ela é feita. Um dia vou reunir toda esta informação (que está disponível por aí) e compilar em um livro – digital, claro.

Por enquanto falemos de Alan Turing (1912-54), cuja genialidade só se equipara a tragédia do fim de sua vida. Condenado por ser homossexual na Inglaterra pós-Segunda Guerra e submetido a um brutal tratamento com hormônios femininos (que, dentre outros efeitos colaterais, gerou o crescimento anormal de suas glândulas mamárias), decidiu pelo suicídio comendo uma maçã embebida em cianureto aos 41 anos de idade – alguns consideram sua morte acidental. Recentemente, uma petição online que buscava o perdão oficial do governo britânico a Turing e sua família conseguiu que o primeiro-ministro Gordon Brown reconhecesse o absurdo tratamento dispensado a uma das mentes mais importantes do século XX.

Alan Turing foi aluno de Wittgenstein (embora dizer que Wittgenstein tenha sido professor é quase uma licença poética) e, posso estar enganado, mas um dos poucos pupilos que o desafiaram. Matemático, interessou-se por computação quando ela mal havia nascido; ele formalizou a ideia do algoritmo computacional (ou seja, como instruir um computador a fazer o que deve ser feito) e ainda investigou a possibilidade da inteligência artificial ao criar o teste que levaria seu nome. Nosso mundo altamente tecnológico e baseado em computadores simplesmente não existiria sem Turing e VonNeumman. Explicar a contribuição de VonNeumann é mais complicado: digamos que ele criou a estrutura que permitiu que a ideia do algoritmo possa ser implementada. E mais: a partir deles, a ideia de uma máquina programável, maleável, capaz de realizar qualquer função desde que instruída formalmente para isso, saía das pranchetas de Charles Babbage (1791-1871) para o mundo real.

Turing demonstraria o poder dos computadores de forma dramática e decisiva: durante o ano de 1944, em um projeto secreto do governo britânico, ele participou (embora, ao contrário da crença geral, não a tenha liderado) da equipe que criou o Colossus, o primeiro computador digital programável. A missão da máquina era decrifrar os códigos gerados pelo Enigma, o criptografador de mensagens nazista. A empreitada foi um sucesso; entretanto, nenhum dos membros do time recebeu o merecido tratamento de um herói de guerra – graças a natureza confidencial do projeto. Turing acabou hostilizado por ser homossexual, humilhado publicamente e impedido de voltar a lecionar. Condenado pela mesma lei que já havia enquadrado o dândi Oscar Wilde, optou pela castração química no lugar da prisão.

Talvez ele jamais tenha imaginado que a máquina que ele ajudou a inventar seria o veículo usado para conseguir um tardio perdão por um ato que jamais deveria ter havido.
>> UNIVERSO TANGENTE – por Marcelo Lopes

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: