‘FLASHFORWARD’, DE ROBERT J. SAWYER E MAIS UNS PÓS DE PIRLIMPIMPIM

flashforward
A escrita e a imortalidade são uma fantástica parelha desde os primórdios da civilização.

O que é a busca da imortalidade? Em grande parte será aquilo que levou Gilgamesh a ir para lá do mundo conhecido – talvez a mera fama, talvez o colocar do seu nome em pedra, talvez o não suportar que a morte seja o derradeiro fim, talvez a recusa de que a morte possa levar irremediavelmente os que nos são mais próximos – será em boa parte também, um aceitável sucedâneo da questão, o encontrar de algo que confira apenas um efeito semelhante – no caso de Gilgamesh, uma planta que devolve a juventude (e que mesmo assim *ATENÇÃO: SPOILER ATTACK* o coitado deixa cair nas profundezas das águas ao adormecer na viagem de regresso a Uruk.

Seja como for, a busca da imortalidade é o gesto que coloca a humanidade perante o seu problema fundamental, que é o da continuidade, o do vencer da única coisa invencível (a morte), o gesto que revela e condiciona o homem ao seu centro, ou seja na sua história e na sua personalidade. O que as narrativas de GIlgamesh, sendo as mais antigas conhecidas, acabam por nos dizer e revelar, é que a imortalidade só é alcançável pela gesta e pela aposição do seu relato “em pedra” e para as gerações futuras; o carácter é a história (“character is story”, numa das suas possíveis e ricas acepções) e, dessa forma, a nossa única maneira de alcançar a imortalidade. Dai a suma importância da escrita e da literatura, visto que são as nossas únicas boas armas contra a vinda inexorável da morte.

Vem isto a propósito um pouco acerca do que serão “boas histórias”. A vida em si não as dá: os eventos podem ser excitantes, podem fazer sentido sequencialmente, mas só se tornam superlativas quando desenvolvem personagens coerentes com a sua própria humanidade e quando chegam ao fim da história transformadas e de alguma maneira mais completas. E isto só é conseguido se a história reflectir (e reflectir-se em) o caracter da personagem. E é também a razão pela qual certos livros, mesmo quando não são prodígios de efeitos especiais literários, conseguem ser boas histórias.

Ver o processo em acção é entusiasmante e intensamente satisfatório. De tal forma que, quando o conseguimos experienciar, passamos o resto da vida em busca desse efeito, sempre à sua procura no próximo livro. Por vezes demoramos anos a ler um livro, até que de repente o terminamos de uma assentada, porque descobrimos que algo ali está finalmente a funcionar como deve, e num ápice chegamos ao fim, com o couro cabeludo repuxado, um arrepio pelo corpo todo em desaceleração.

Grandes considerações e sensações para pouca coisa, confesso. Mas são estas pequenas coisas que nos alimentam por dentro. Tive-as após ler “Flashforward” de Robert J. Sawyer (1998), o livro que só indirectamente está na base da série televisiva em corrente progresso (ver link mais no fim deste texto).

O livro não está bem conseguido em todos os aspectos, mas obedece aos ditames principais atrás enunciados, o que faz com que ocasionalmente nos faça sentir agradados e maravilhados com a sua leitura, mas acima de tudo, satisfeitos não só com a sua conclusão como com o livro como um todo. Não é um grande livro, mas não só dá prazer como nos “enche” algumas das medidas.

A história só marginalmente se assemelha à da série, e quem estiver a pensar em lê-la por causa dela, encontrará algo de muito diferente. Para começar é uma história sobre cientistas e sobre ciência, e não um policial com elementos de suspense (embora também tenha um importante sub-enredo nesse género e com essas características).

Tal como irá em breve suceder (e já deveria ter acontecido), o evento central (o flashforward em que todas as pessoas no mundo vêem uma parcela de 2 minutos do futuro ou de um futuro) está relacionado com uma experiência científica real, com o ligar do LHC, ou Large Hadron Collider, o maior acelerador de partículas até hoje fabricado, e que se encontra no CERN na Suíça. Na série a explicação será relativamente diferente, não sabemos ainda em que sentido, mas para começar, há pessoas que não sucumbem ao “flashforward”, o que não sucede no livro). Mas é um evento que dá início à história e que afecta o mundo inteiro.

Sendo um livro sobre ciência, para além de recair sobre as questões fundamentais da Física de Partículas e dos mais básicos constituintes do universo (como a prova ou não da existência da Partícula de Higgs e outros teoremas e questões científicas como o Princípio da Exclusão de Pauli) debruça-se essencialmente sobre os cientistas que trabalham nessa experiência, e em como isso tem variados impactos nas suas vidas pessoais (e em que tudo se reflecte, num jogo de espelhos, com a própria história – lembrem-se o “carácter é a história”), bem como na vida e história dos seres humanos enquanto espécie.

Logo de início (tanto na série como no livro), assistimos aos preparativos, à perda de consciência de toda a humanidade, e aos efeitos globais e pessoais do que acontece. E, num movimento típico da literatura de ficção especulativa séria, de verdadeira ficção científica, leva-nos mais além, até ao questionar das consequências e ao explorar das conclusões, através da extrapolação mais do que plausível dos dados científicos actuais que dispomos, através desse fio condutor essencial que é o carácter das personagens principais. E entre as questões levantadas encontraremos as do nosso lugar no universo, da imortalidade e da sua busca, e mais importante, de como nos posicionamos perante essas questões. Coisas literárias, entregues com pinceladas de um estilo simples, suave e interessante, numa dose equilibrada de entretenimento, acção bem delineada e personagens interessantes.

Onde para mim o livro falha um pouco é, para além de algumas soluções narrativas simplistas (como a resposta à questão, se alguém com dinheiro descobrir a imortalidade, a quem deverá ela ser conferida? embora eu conceda que a resposta é coerente com o caracter da personagem que a coloca), nalguma sobredosagem de vida pessoal, ou “efeito telenovela” que acaba por ocupar a primeira metade do livro e a razão pela qual demorei 10 anos (ver nota no fim do texto) a ler os capítulos a seguir aos iniciais que descrevem os primeiros dias a seguir à “experiência/flashforward”, embora hoje tenha de conceder que até isso está bem executado, como óbvia preparação para tudo aquilo que depois o livro consegue. Algo em mim deveria ter persistido quando desanimei na leitura, mas por outro lado, não estou arrependido: a recompensa foi muito boa, e se calhar maior precisamente por temperada com este tempo de pousio. O certo é que li a última metade do volume em uma hora e meia, de olhos pregados nas páginas amarelecidas, como um adolescente esgrouviado, de olhos fixos e coração a ressoar pela caixa torácica.

Aquilo que os últimos capítulos nos dão é precioso: ciência inteligível, extrapolação, ficção, aventura, maravilhamento, ideias, jogar de conceitos estruturais, o fazer questões centrais ao que faz de nós indivíduos (e a alguns de nós, cientistas), e dar respostas através das personagens e da história, de acordo com os diversos caracteres desenvolvidos para as personagens (e que acabam por ser posições arquetipicas humanas/universais). Só digo que, no clímax da história, o meu cérebro só dizia “uááááá” como se de boca aberta e “weeeeeee” como se estivesse a viajar num desportivo de cabelo ao vento a 200 km/h. Adrenalina-lit do melhor. E os capítulos finais seguintes, assentam como uma luva, resolvendo o sub-enredo policial, as vidas das personagens, as questões científicas, etc., com calma e inteligência. Fechei pois o livro sabendo que o café onde estava seria o mesmo mas com outras cores no ar, um pouco mais brilhante, um pouco mais difuso, o mesmo mas diferente. Mais…bonito.

E se não é para isto que se lê, não sei para que será. É que, pelo menos para mim, as outras razões não são tão boas ou importantes como esta. Mas cada um saberá de si.
>> INNER SPACE – por Nuno

_________________________________________________________________

Mais sobre Flashforward:

Uma das “previsões” engraçadas do livro, para além do “ligar” do LHC, é que, passando-se a acção em 2009, o papa é Bento XVI! (mas isto é só um factóide inodoro, que surge só de passagem – e sim, algumas questões religiosas são afloradas, embora sucinta e exemplarmente).

O livro ganhou o prémio Aurora, atribuído à melhor obra de ficção especulativa Canadiana e (um excerto) ganhou o UPC espanhol, esse leviatã pecuniário que hoje oferece uns apetecíveis 7500 euritos no seu todo…

Link da secção do site do autor onde podem encontrar várias informações e extracto da obra, entrevistas, vídeos, etc.

Link para o site oficial da série

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: