ROTEIROS ELABORADOS APROXIMAM QUADRINHOS DO CINEMA

Tintin e Milou - HergéÁlvaro de Moya indica em seu livro “História da História em Quadrinhos” (87) que Rudolph Töpffer publicou em 1827 uma das primeiras obras em um novo estilo que foi chamado de  “literatura em estampas”. Contava detalhes da vida de um tal M. Vieux-Bois e era tão densa que até mesmo Goethe lia aos poucos para “não ter uma indigestão de idéias”.

Esta data não passa de uma convenção já que contar histórias com imagens é uma das mais eficientes formas de comunicação e existe há muito tempo. Críticos da área afirmam que as primeiras Histórias em Quadrinhos (HQ), foram “publicadas” quando homens da antiguidade decidiram contar histórias pintando nas paredes das cavernas.

A fascinação do homem por relatos ilustrados está presente em todas as grandes civilizações que desejaram representar a fúria da natureza, narrar as façanhas de seus heróis, esclarecer suas lendas, descrever o poder de seus deuses, a riqueza de seus países, a beleza de suas mulheres ou a proeminência de seus monarcas. É por isso que o ser humano vem usando monumentos, tetos, paredes, painéis, telas, livros e, por que não, as histórias em quadrinhos.

Disney só usa movimentos horizontais e verticais Disney só usa movimentos horizontais e verticais 

Sempre que se menciona a expressão HQ, a maioria das pessoas imediatamente pensa em Mickey, Pato Donald, Príncipe Valente, Batman, Super-Homem, Homem Aranha, Capitão América, Hulk, Capitão Marvel, Namor, Gavião Negro, Flash ou qualquer outro “super” de uma interminável sucessão de super-heróis do sexo masculino que pode deixar a Mulher Maravilha envergonhada ou uma feminista de plantão pronta para fazer um discurso. E quem lembra do belga Hergé, que produzia Tintim? E do francês Moebius? E brasileiros como Maurício de Souza (com suas criações como a Mônica e o Cebolinha), Lourenço Mutarelli, Mike Deodato, Roger Cruz, Fábio Laguna, Falex, Gian Danton e Flávio Colin?

E, como tudo, as HQ amadureceram. Evoluíram para um conceito diferenciado daquele ao qual muitos nós estão acostumados. Claro que a maioria das “revistinhas” ainda é produzida para crianças, com um Tio Patinhas ainda sovina, com o Donald tentando escapar do trabalho, Mickey corajoso e aventureiro, Cebolinha trocando o “r” pelo “l”  e um Hulk que a cada edição tem mais músculos e menos cérebro. Mas há já alguns anos surgiu um formato que ganhou um nome diferente: Graphic Novel (GN).

Mudou o conceito, o tipo e a profundidade dos temas, a concepção dos roteiros, a arte e o público, pois é produzida para adultos. A princípio meras adaptações de obras clássicas como Moby Dick, ou A Queda da Casa de Usher, cada vez mais foram sendo baseadas em roteiros especificamente concebidos para uma apresentação ilustrada e serializada em volumes que Will Eisner, um dos maiores expoentes da área, chama de Arte Seqüencial.

O uso do termo “Arte” para referir-se às HQ ou GN é sempre muito discutido. O mesmo acontece quando a discussão recai sobre outra dúvida: este tipo de manifestação pode ser considerado literatura? Independente dos debates, existe a idéia de que as GN atuais, estão cada vez mais próximas do cinema. Com uma concepção fundeada na linguagem visual dos filmes contemporâneos (ágil, entrecortada, rápida, às vezes confusa), a interação entre roteiro (literatura?) e desenhos (arte?) é cada vez mais profunda e intrincada.

Hergé (TinTim) raramente usa ação para o fundo do quadro Hergé (TinTim) raramente usa ação para o fundo do quadro 

Quando a linguagem ficou mais complexa e as páginas mais detalhadas, buscando um impacto emocional mais forte nos leitores, além dos movimentos básicos dos personagens e da ação dentro dos quadros e painéis de forma bidimensional (horizontal e vertical – eixos X e Y), foram introduzidos o movimento do ponto de vista do leitor, baseado, claro, nos movimentos das câmeras de cinema (traveling, panorâmica, zoom, plongé, contra-plongé), nas variações de planos (geral, médio, americano, detalhe, etc.), nos enquadramentos, nas transições de cenas para cenas, de painel para painel e de quadro para quadro.

Mais importante e revolucionário, foi a inclusão da movimentação de personagens e da ação de forma tridimensional, ou seja, ao longo de um novo eixo, Z, que faz com que, visualmente, um personagem possa tanto afastar-se do leitor “para o fundo” da página, em direção ao cenário, quanto vir no sentido do leitor, aproximando-se, muitas vezes extrapolando os próprios limites dos quadros e das páginas. Ocorre aqui, claro, um envolvimento muito maior do leitor na narrativa.

Nas grandes produtoras de HQ e GN dificilmente o escritor do roteiro e o artista que vai ilustrar a obra têm contato direto. Muitas vezes residem até em países diferentes. Para suprir esta falta de comunicação, e como os escritores estavam fartos de ver suas obras ilustradas de forma diferente da que haviam concebido, passaram a produzir histórias cada vez mais detalhadas. Foi o passo definitivo que uniu a Arte Seqüencial e o Cinema pela base: o roteiro.

Abriram-se então imensas possibilidades que enriqueceram muito o processo criativo e tornaram as histórias, visual e narrativamente, muito mais ágeis. E isto, claro, acaba tornando muito mais simples a adaptação de uma HQ para o cinema. O mais recente filho desta união que alguns puristas vêm como espúria, é o filme “Do Inferno” (From Hell), baseado na GN com roteiro de Alan Moore e arte de Eddie Campbell. Publicado em 16 edições mensais, pode ser encontrado em um calhamaço de quase 600 páginas.

Moore (From Hell) exercita a mudança do ponto de vista Moore (From Hell) exercita a mudança do ponto de vista 

A obra de Moore / Campbell dá uma nova versão para os assassinatos cometidos em Londres por Jack o Estripador. Envolve a família real, a polícia e várias sociedades secretas. É uma “saladona”, que propicia uma refeição um pouco indigesta, mas muito saborosa. Acabou se tornando um verdadeiro compêndio de simbolismo. A versão integral tem 108 páginas de apêndices que explicam em detalhes, às vezes quadro a quadro, as fontes das pesquisas, as evidências policiais e as criações de Moore. Por exemplo, lendo o relatório da autópsia de uma das vítimas de Jack e conversando com um médico legista, o escritor reproduziu com (terríveis) detalhes a cena da morte.

Três dos fortes exemplos de que os roteiristas estão cada vez mais sendo valorizados na produção das GN são a coleção “Spirit” e mais uma dezena de volumes que constitui a obra de Will Eisner, “Do Inferno” escrito por Moore e “Sandman” com dezenas de edições mensais e escrito ao longo de 9 anos por Neil Gaiman (reunido em coleção com 10 volumes). Conclusão: não adianta mais as páginas “só” serem atraentes. Elas precisam de conteúdo. Precisam divertir, instruir, entreter, assustar e maravilhar o leitor.

Escritores oriundos da televisão e do cinema contribuem de forma efetiva para a força desta tendência e, mesmo roteiristas renomados como Katsuhiro Otomo, J. Michael Straczynski, Frank Miller, Moebius e Quino, estão cada vez mais adotando esta técnica.

Ainda são poucos os roteiristas brasileiros que escrevem GN/HQ de forma profissional e nenhum tem projeção internacional, ao contrário dos ilustradores que, como Cruz, são recebidos como celebridades pelos aficionados em Nova Iorque, Boston ou Detroit. Mesmo assim, prêmios como o HQ MIX, já têm sido dados para roteiristas como Flávio Colin e Gian Danton.

Straczynski (Rising Stars) usa com freqüência o recurso Straczynski (Rising Stars) usa com freqüência o recurso 

Tamanha valorização do roteirista fica evidente pelo número de livros publicados no sentido de orientar a melhor forma de se conceber, planejar e escrever um roteiro para GN. Uma das bíblias é o livro, ainda sem título em português, “The DC Comics Guide to Writing Comics” de Dennis O’Neill. O autor trabalhou em todas as funções nas maiores editoras de GN e atingiu sucesso na sede da “DC Comics”, o templo americano dos quadrinhos.

Em uma linguagem simples, O’Neill explica o que esperam os leitores de Graphic Novels: “Eles querem que você os faça rir. Chorar. Aponte o lugar deles ao Sol. Faça com que possam experimentar outro corpo. Mostre lugares que nunca visitaram e leve-os para os confins do espaço e do tempo. Nomeie seus demônios e ajude-os a confrontá-los. Demonstre possibilidades que eles não imaginaram e apresente-os a heróis que vão lhes dar esperança e coragem. Alivie a tristeza e aumente sua alegria. Ensine a compaixão. Entretenha. Ilumine. Conte uma história.”

Impossível não concordar com O’Neil. Não é exatamente isto que todos procuramos quando abrimos a primeira página de um livro?
>> PARÁGRAFO – por Fabio Marchioro

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