‘FICÇÃO DE POLPA’ & ‘BREGANEJO BLUES’: UM MANJAR DE SOBRAS

Novos autores recuperam temas da “literatura de bancas de jornal” e atualizam sua estética, sem a pretensão de convertê-la em produto da “alta cultura”

Ficao de Polpa_os tres

Livros se concentram em histórias curtas de terror, fantasia e ficção científica, recuperando temas da literatura pulp e estética de suas revistas foto: cid barbosa

É preciso manter a linha. Ou é pelo menos isso que diz o “bom gosto”, entidade abstrata que guarda muito de preconceito e tem o humor bem enjoado. Vez por outra, acontece de ser permitido gostar de produções culturais que apelam pelo exagero, como os quadrinhos estrangeiros de super-heróis, cinema B de ação, novela e artistas de FM ou até de AM.

Foi assim com a pop arte, surgida no final dos anos 1950, em que o norte-americano Andy Warhol transformou as celebridades de Hollywood em novas Monalisas. “Pulp Fiction: tempo de violência” (EUA, 1994), de Quentin Tarantino, fez ainda mais que transformar essas produções, chamadas pejorativamente de baixa cultura, em arte. O efeito de “Pulp Fiction” não foi apenas o de tornar “artísticas” canções cafonas e filmes precários e vazios. Ele também os transformou num produto cool.

E a onda não passou. Pode-se mesmo dizer que ela se intensificou. Vide que Roberto Carlos toca em festinhas descoladas (mesmo sua breguíssima fase do começo dos anos 90, com homenagens à gordinhas, quarentonas e aos taxistas), que Arnaldo Antunes deixou de frescuras neoconcretas e, sob produção do cearense Fernando Catatau, gravou o excelente e brega “Iê iê iê”, emulando cafonices dos primeiros tempos de Titãs. Na literatura, expressão artística ainda bastante presa a uma ideal aristocrático, essa tendência ainda se manifesta de maneira tímida.

Ficção de Polpa“, coleção publicada pela Não Editora (RS), e “Breganejo Blues“, do escritor e quadrinhista maranhense Bruno Azevêdo, são produções de autores que não se preocupam em manter a linha. A matéria prima de que se valem é daquela literatura de banca de jornal, impressa em papel ruim e em traduções ricas em chavões. Nos dois casos, chega-se a uma atualização desses gêneros, mas os resultados, no entanto, são bem diversos.

Encanto para os olhos
Já pelas capas (trabalhadas como se pertencessem a uma velha revista, castigada pelo tempo), “Ficção de Polpa” remete um tipo de literatura que desapareceu. As antigas publicações de terror e ficção científica, impressas no Brasil num formato diminuto, que era o correspondente masculino de títulos como “Jéssica”, “Sabrina”, “Paixão” e “Desejo”.

O nome da coleção, editada pelo escritor Samir Machado de Machado, veio do nomes que essas publicações ganharam nos EUA, “pulp fiction”, em referência ao material ordinário no qual eram impressos. A publicação da editora gaúcha não é uma legítima “pulp fiction”. Não é tão massiva quanto aquele tipo de literatura e seu acabamento gráfico passa longe de ser tosco. O visual, aliás, é um dos atrativos da coleção. As capas carregadas, com ícones pulp (robôs gigantes, criaturas mágicas, femme fatales em apuros etc), combinam-se a uma diagramação em duas colunas.

“Participei de oficinas literárias, e conheci várias pessoas, gente que conseguia escrever bem. Eu tinha a consciência da dificuldade do autor novo para publicar algo e, ainda, chamar atenção. Pensei que uma saída era trabalhar temas populares. E o formato pulp veio na hora, até porque, como sou profissional de designer, já gostava dessa estética retrô, exagerada. Acreditava que, com um bom projeto gráfico, os novos autores teriam melhor chance de chamar atenção do público”, explica Samir Machado. Para enriquecer o “cartão de visitas”, o editor incluiu em cada volume um conto clássico da área.

O resultado chegou a surpreender o organizador. Primeiro que o projeto da coletânea contribuiu para que Samir e um grupo de amigos, também escritores, fundasse a Não Editora, que tem se notabilizado por lançar novos autores, sobretudo, gaúchos. O retorno de público garantiu que a coleção tivesse uma continuidade e passasse a ser publicada anualmente. E a própria comunidade de escritores de fantasia, terror e ficção científica recebeu entusiasmada a novidade.

“Eu não acompanhava as publicações de ficção científica no Brasil. Achava que estava inventando a roda, até que pessoas do cenário de São Paulo, do Rio, entraram em contato. A partir do volume dois, a ´Ficção de Polpa´ deixou de ser meio que um clube de amigos, de gente nova, e passou a incluir autores experientes, como o Fábio Fernandes, que já traduziu a ´Fundação´, do Asimov”, conta o editor.

Literatura pra quem é macho

Roteirista de quadrinhos e escritor de prosa, o maranhense Bruno Azevêdo toma um caminho bem diferente dos gaúchos, pois foge ao cool para mergulhar de cabeça no que é considerado brega e de mau gosto. E o resultado é uma novela (ou romance curto) eficiente, ágil e hilariante. Literatura publicada de forma independente, mas bem acima da média de muita coisa que as grandes editoras têm publicado na literatura brasileira.

O enredo retrata bem o conteúdo subversivo (de um humor absurdo e sacana que lembra o do inglês sensação Will Self). “Breganejo Blues” mostra a história de uma dupla sertaneja, Adailton e Adhaylton, que arma a morte de um de seus integrantes para fazer mais sucesso; acontece que o cantor que continua publicamente vivo tem um caso com a ex-mulher de seu colega, que troca de sexo e pensa em nova carreira, até que um assassinato põe fim ao engodo. A história é narrada do ponto de vista de um taxista que faz bico de detetive, é viciado no herói das HQs de bang-bang Tex (o livro, aliás, tem o formato de uma revista do Tex). Além da prosa, o livro conta com intervenções, como trechos das aventuras de Tex e velhas propagandas como o de curso por correspondência para investigadores.
>> DIARIO DO NORESTE – por Dellano Rios

NOVELA
“Breganejo Blues: novela treizoitão”,
Bruno Azevêdo
R$ 15,00 – 132 páginas – PITOMBA
A versão no formato E-book/PDF está disponível para download gratuito no site mojobooks.com.br

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