O MÁGICO HUMANO NA OBRA MURILO RUBIÃO

Considerada como a grande precursora da chamada literatura fantástica (ou de fantasia) no Brasil, a obra de Murilo Rubião caracteriza-se por dois aspectos bastante significativos: o primeiro, o próprio surgimento insólito de sua escrita, carregada de elementos fantásticos e desengajada de qualquer movimento literário existente no Brasil até então, e, segundo, por sua maneira muito particular de explorar o chamado “realismo mágico”, já magistralmente trabalhado em outras esferas literárias por autores como Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Juan José Arreola e Gabriel Garcia Márquez.

Na literatura muriliana, especialmente em contos como “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, “Teleco, o coelhinho” e “O Edifício”, o extraordinário está no cotidiano, nas pequenas coisas que tornam a vida cheia de significados, significados estes que, para o autor, tem um equilíbrio exato de matéria e textura entre o real e o mágico e que surgem como ponto de partida para a busca de outras significações. Há, aqui, a ausência brusca de rupturas na sequência narrativa ou de efeito de suspense a que o leitor comum está acostumado. Acontecimentos geralmente contrários e inconciliáveis se reconciliam tranquilamente durante o desenvolvimento do texto. É como se, pela despreocupação do autor em dar explicações plausíveis sobre este ou aquele “ato/causo fantástico”, se criasse um vínculo de aceitação com o leitor, tornando a história aceitável pelo que relata e não pelas “verdades corriqueiras da literatura comum” que deveria, a priori, apresentar.

O leitor, assim, vai, ao longo da leitura, percebendo certo descompromisso com a causalidade, com a questão espaço/temporal da tradição romântica, com o idealismo do herói imaginado. É óbvio que acontecem prodígios durante a efabulação dos episódios que causariam alguma estranheza aos mais desavisados. Mas, diante de tal ficção, estabelece-se um pacto entre o escritor e o leitor, pois este, depois de dado momento, sempre irá depositar certa dose de credibilidade ao que aquele narra. É como se, na narrativa muriliana, houvesse uma extrapolação do condicionamento a que somos comumente expostos pela literatura, tal que até o mais extraordinário dos fatos narrados estivesse ao alcance pleno de nossas percepções comuns. É como se o leitor, ao adentrar este universo, tomasse para si, como parte inerente de si, estes questionamentos. Isto posto, o texto deixa a esfera do autor para enveredar pela esfera do leitor, criado novos parâmetros de interpretações de acordo com as expectativas de cada um, de indivíduos com histórias e trajetórias distintas, que irão desvendá-lo.

Os fatos tornam-se, pois, uma espécie de sublevação de sentimentos corriqueiros, transpostos para o viés fantástico pela simples impossibilidade da representação direta. Entretanto, mesmo em face de tal artimanha, mesmo visto pelo viés do fantástico, a sensação de impotência, de fraqueza ante “forças contrárias” está presente ao longo da narrativa, como uma alavanca prendendo-o ao realismo pretensamente manobrável.

No conto “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, um dos aspectos temáticos centrais é exatamente esse, o do sentimento de impotência que experimenta um mágico desencantado por “não ter realizado todo um mundo mágico”, antes de ter seus poderes “drenados” pela burocracia. O sentimento de não-alcance do autor está contido na frustração do mágico, no corpo do próprio texto; é, em suma, o tema da narrativa. Este pode ser interpretado, então, como um discurso voltado também para o problema da sua própria condição, fazendo supor uma consciência lúcida quanto às dificuldades e, no limite, quanto à sua própria impotência para se realizar de forma completa.

Porém, o transformador por excelência é o feiticeiro, ou ainda, na sua versão circense, o mágico, cujo dom o torna senhor do poder de metamorfosear o mundo. O mágico não se move, como o mago característico, por uma ânsia de posse e domínio da realidade; ele é, antes de tudo, um hábil manobrador da ilusão, o mago relegado ao palco de espetáculos, poderoso o bastante para se esquivar dos olhares atentos e encantar os homens. E, assim, sua arte se rodeia de ressonâncias fantásticas e fascinantes, fugindo do aspecto do real. Ele ilude os olhos e quebra a banalidade repetitiva da existência: do fundo da cartola, num passe de mágica, saltam coelhos e, como resultado, gera-se o espanto.

Aqui, através da metáfora, se nota uma transformação da forma narrativa às maquinações do fantástico, como se o texto fosse uma imagem refletida da própria condição humana (ou, antes, de sua impotência enquanto metamorfoseadora da realidade).

E, o que se vê em “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, é que mesmo este universo é falho; se a mágica é compulsiva, o insólito se transforma no banal. O fantástico, se vira regra, também cansa. Para o mágico, a contragosto, tirar coelhos do bolso sem parar é o tédio. Quem aparentemente tem poderes para modificar o mundo (seja o mágico ou, em última instância, o próprio autor, enquanto representante da condição do ser), só não tem o poder de sair dele, já que como não tem origem como os outros, tampouco tem um fim. Então, a vida resume-se num vaivém. A sua rotina mágica de antes é tão absurda quanto o “sentido de vida” da outra, simbolizada na petrificação da burocracia e na perda de sua própria condição. Movendo-se sempre no círculo fechado do extraordinário, sem conseguir criar de fato todo um mundo mágico, esse mágico desencantado perdeu exatamente a capacidade para sentir o que deveria criar: o espanto. E, no fim, perde o próprio sentido do mágico, ou seja, a desilusão com o mundo gerou a impotência que culminou com seu destino final, o esquecimento entre os gabinetes da secretaria do governo.

Outros contos do autor também demonstram que é frequente essa visão nítida das margens finais de criação e da própria existência, por isso mesmo, quando ele arrisca este salto, toca, com suas palavras, também certos aspectos limitativos daqueles que o leem.

E, novamente, pode ser observada a questão da modificação, ou seja, a metamorfose. Na verdade, ela é, aqui, uma espécie de matriz temática onde se desenvolvem as diferentes transgressões características da literatura fantástica: as rupturas do princípio de causalidade, do tempo, do espaço, da dualidade entre sujeito e objeto, do próprio ser.

[coelho.gif]No conto “Teleco, o coelhinho” temos a questão posta da inconstância eterna entre o querer (mágico) e o ser (real). Teleco, um metamorfoseador nato, passa os dias a mudar constantemente de forma sem, no entanto, dar-se por satisfeito com nenhuma delas. De coelho a leão, de canguru a cachorro, todas as novas roupagens se apresentam falhas e passíveis de evolução, até que, num dado momento (numa espécie de epifania às avessas) ele encontra num amor corriqueiro a projeção da forma perfeita, da matriz final que tanto buscava: a forma humana. Em Teresa, ele finalmente descobre sua razão derradeira, passando a denominar-se homem a partir de então. O interessante aqui é notar como o próprio nome da amada, Teresa, (cuja etimologia significa ceifeira e/ou caçadora) evoca a questão da finitude da mudança, da estagnação, pois é através dela, ou de seu pretenso amor, que Teleco finalmente deixará de metamorfosear-se, passando do múltiplo ao uno. Entretanto, este amor se apresenta, como ele descobrirá no final, como sintoma de negação e a mudança, aqui representada pela descontinuidade, como o mais falho de todos os atos. Ao final do conto, e depois de abdicar de toda a sua vida anterior, Teleco, finalmente, percebe a inversão de sentido de suas ações: a forma (perfeita) com a qual tanto sonhara (cuja maior característica é a imperfeição) findou por ser a ceifeira de todas as suas outras formas (perfeitas), rejeitadas por ele exatamente por sua — pretensa — imperfeição.

E, por este aspecto, podemos evocar também a própria condição humana. Buscamos constantemente a evolução, a mudança, mas quando ela se apresenta diante de nós, tendemos a negá-la apaixonadamente, como se temêssemos nossa própria metamorfose. E, quando a última mudança pela qual passamos apresenta resultados inesperados ou pouco benquistos, ou quiçá não planejados, nos sentimos compelidos a encontrar uma explicação plausível que nos remeta imediatamente de volta ao campo do possível.

Já no conto “O Edifício”, é bem perceptível a identificação metafórica entre o processo de estruturação da narrativa e a metamorfose. A construção infindável de um “absurdo arranha-céu”, a que sempre é possível acrescentar novos blocos e novos andares, pode ser entendida também como uma alegoria da própria construção ficcional do que se está lendo. O desenvolvimento do prédio (e, de certo modo, do conto e da percepção daquele que o está lendo) é, até certa altura, ameaçado pelos riscos de paralisação das obras, o que, implicitamente, representa ainda uma ameaça de detenção do que está sendo narrado, que acompanha a transformação do seu objeto ao mesmo tempo em que transforma o texto. Passado o momento do perigo para o prosseguimento indefinido da construção (ou seja, passado do 800º andar, o “limite aceitável e imposto”), ocorre uma fantástica e irônica rebelião dos meios contra os fins: o próprio engenheiro-construtor, vencido pelo tédio e pela ciência de sua impotência diante de tal obra, já não consegue deter o processo; os operários se recusam a interromper o trabalho e chegam mesmo a acelerá-lo, ao ouvir as belas imagens dos discursos feitos para desanimá-los. Há, portanto, a mudança de sentido, a metamorfose da dialética: do dito para o não feito.

Se n’O Ex-mágico… há a mudança da condição do fazer e em Teleco a mudança do ser, aqui, a transformação se dá no campo semântico, das palavras que reverberam em ações contrárias as postuladas.

Assim, a própria construção da narrativa e da percepção do leitor se junta com o princípio de construção do edifício: o conto, onde também parece ecoar o mito do “aprendiz de feiticeiro”, permanece ironicamente aberto para um contar inacabável, enquanto o edifício ganhar altura. A invenção fantástica cria, assim, um movimento ininterrupto; em compensação, esse movimento é condição necessária do conto: se parassem as obras, se o edifício não se modificasse, o conto não teria razão de ser.

Ao entrar no universo destes contos, o primeiro impulso do leitor será se voltar para uma leitura alegórica, um desdobramento do texto num conteúdo subjacente, que o transformará em mensagem de significado diverso daquele dito no texto. Mas, este não deve ser o único dos caminhos a ser trilhado, ou não levará o leitor senão ao tédio, como o do mágico para quem o insólito virou rotina. A insistência nele eliminará precisamente o estímulo da viagem, a presença desafiadora do fantástico, um imaginário que não se deixa traduzir, exigindo, pela sua ambiguidade, a deslocação inquisitiva e renovada do olhar.

É preciso, na prosa muriliana, ler literalmente, acatar as regras do jogo, fixando a atenção na própria construção do enredo. O fantástico, como tudo, se rotiniza. Mas, sem ele, não há como se reinventar. A arte do mágico, assim como a do coelho ou do engenheiro, parece ser a de esconjurar a esterilidade sem sentido do mundo real e, através de sua extrapolação, propiciar a germinação do fantástico. O discurso, em que o desejo parece ter livre passagem, vencidos os obstáculos pelas modificações fantásticas, realiza uma trajetória abstrata e desligada das obrigações da verossimilhança realista. Próximo do mito, a sua transformação constante instaura o reino insólito, da não-impotência, onde tudo pode acontecer, mesmo as coisas mais absurdas.
>> THARGOR – por Rober A. Pinheiro

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