O FUTURO É NOSSO

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Pode-se contar nos dedos os temas explorados pela atual literatura brasileira. Dramas da classe média, dilemas juvenis, conflitos sociais e, mais recentemente, a realidade violenta da periferia – são alguns dos que logo vêm à mente. Mas que tal descrever os confrontos de uma guerra interestelar? Ou prisões humanas controladas por robôs carcerários? Ou, ainda, imaginar os conflitos de um adultério virtual, e as misérias da São Paulo pós-catástrofes climáticas, num longínquo 2058? As especulações intertemporais e interplanetárias da ficção científica não costumam derramar muita tinta entre os autores nacionais. Com códigos e regras delimitados, o gênero ainda sofre certo preconceito nas altas rodas literárias, ficando relegado a um grupo restrito de aficcionados.

Recém-ingressado neste clube, o escritor e pesquisador Nelson de Oliveira acredita, porém, que o cenário está prestes a mudar.

Aproveitando um crescimento do interesse pelo gênero no país, ele acaba de organizar a antologia de ficção científica Futuro Presente, que traz 18 contos inéditos de autores nacionais, jogando luz sobre um território praticamente ignorado pela prosa brasileira “oficial”.

– A literatura brasileira contemporânea precisa despertar para o mundo atual – justifica Oliveira, autor do romance fantástico Subsolo infinito. – É um desperdício que a nova física, a nova psicologia, a nova astronomia, a nova biologia e a nova informática fiquem de fora da nossa ficção. Não dá para investir eternamente nessa prosa sociológica, centrada nas epifanias do sertanejo, do traficante, ou do adolescente perturbado.

Se você olhar o mapa geopolítico da literatura brasileira, verá que a ficção científica está na periferia da periferia. Não é resenhada nos grandes jornais e seus autores não são levados a sério pelo Jabuti.

Preconceito histórico Futuro presente faz uma aproximação de duas esferas da literatura: a do “mainstream”, ao qual pertencem os autores do “circuito cultural”, e a do fandom (abreviação de fanatic kingdom), que se refere ao conjunto de fãs do gênero. Na lista, constam decanos da ficção científica no Brasil, como Roberto de Sousa Causo e André Carneiro, mas também escritores que nunca haviam sonhado em se aventurar pelo gênero.

Daí a surpresa de encontrar a veterana underground Andréa del Fuego discorrendo sobre seres híbridos, “mistura de carne animal e bits de água”, ou o autor do épico amazonense Mad Maria, Márcio Souza, imaginando um vírus mortal criado por uma ONG para exterminar os judeus. Também participam da antologia Ataíde Tartari, Paulo Sandrini, Edla Van Steen Luiz Bras, Maria Alzira Brum Lemos, Rinaldo de Fernandes, Luiz Roberto Guedes, Deonísio da Silva, além de novos valores, como Ivan Hegenberg e Carlos Mores.

A investida de nomes consagrados da “literatura oficial” (há até vencedores de Jabuti) pode retirar do gênero o rótulo de subliteratura.

– Quero que essa seja a primeira coletânea de uma série que provoque os autores “mainstream” a desafiar o gênero – diz Oliveira.

– Acredito que o preconceito venha do fato de a ficção científica ter surgido nas revistas pulps e ficado associada à literatura trash. Mas, diferentemente do cinema, os livros de FC empregam pouca ação e mais inteligência. Tem muito mais a ver com as ideias de pensadores como Michel Foucault do que com elementos estereotipados, como invasões marcianas.

Historicamente, a ficção científica apresenta as angústias e neuroses das sociedades diante de seu futuro (como as parábolas sobre radiação no auge da Guerra Fria, por exemplo). Nos contos do livro, os cenários apocalípticos ganham força, dando espaço aos temores das transformações climáticas e da disseminação da cultura digital.

– A FC projeta nossos medos em narrativas que podem se passar daqui a 200 anos, mas que revelam medos de hoje – explica o organizador, justificando o título da antologia.
>> JORNAL DO BRASIL – por Bolívar Torres

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