‘A IRA DOS DRAGÕES’: DE UM OUTRO MUNDO

Marcelo Elias/ Gazeta do Povo / Encantado pela capa de O Hobbit, livro de J. R. R. Tolkien, Tizzot começou sua vida de leitor aos 15 anos. Hoje são 24 horas em meio aos livros, duas obras lançadas e parceria consolidada com John Howe

Referência na literatura fantástica no Paraná, o escritor curitibano Thiago Tizzot lança livro em parceria com John Howe, ilustrador de O Senhor dos Anéis

Aquela mal-afamada história de comprar o livro pela capa aconteceu com Thiago Tizzot. O garoto curitibano que estava saindo de fé­­rias com o irmão foi a uma livraria no aeroporto Afonso Pena. Até en­­tão era só gibi. Pato Donald lhe fazia a cabeça, mesmo que a mãe, professora de português e literatura, insistisse em algo que combinasse mais com aqueles seus 15 anos.

Foi quando um livro de bolso lhe saltou aos olhos. Na capa cheia de cor, um dragão gigantesco adormecia sobre uma montanha de tesouros. O livro que, sem exageros, mudaria sua vida, era O Hobbit, do sul-africano John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973). E a ilustração na capa tinha a assinatura de John Howe, futuro parceiro de trabalho do menino.

A obra em inglês serviu menos para que Thiago testasse seus con­hecimentos na língua que aprendia e mais para que lhe abrisse por­­tas. Pois a história continua com o garoto, tempos depois, passando em frente a uma livraria, em Curi­­tiba. Deparou-se com outro livro. J. R. R. Tolkien, aquela sigla já conhecida, brilhou de novo. O título era O Senhor dos Anéis, obra-prima do escritor e linguista.

Desde então, Tizzot, hoje com 29 anos, imerge na literatura fantástica. Lê e produz. Até seus cabelos lisos e castanhos que roçam no pescoço poderiam ser de algum elfo da Terra Média – mundo criado por Tolkien – ou de Braesel, universo cunhado pelo próprio curitibano, que está nos livros O Segredo da Guerra e no recém-lançado A Ira dos Dragões.

E ele começou sem querer. Publicitário por formação, escrevia “por brincadeira” e romanceava as aventuras que vivia com seu grupo de RPG – sigla de role-playing game, jogo de interpretação de personagens. Um passo decisivo foi o lançamento de Curso de Quenya, em 2004. O livro ensina uma das línguas criadas por Tolkien e foi colocado à venda quando a editora Arte & Letra, da família de Tizzot, saiu do papel. Era hora de escolher.

“Ou agora continuo na publicidade e escrever vira um hobby ou eu vou com tudo e vejo o que acontece. Escolhi ir com tudo”, diz Tizzot, pernas cruzadas a dez passos de seu cantinho de livros, a livraria que mantém no café Lucca. Um ano depois, O Segredo da Guerra, romance narrado por sete personagens diferentes, surgia. Mas foi com seu segundo livro que Tizzot voltou aos seus 15 anos e conseguiu um feito digno de literatura mágica.

John Howe

A Ira dos Dragões é um volume de nove contos baseados em nove ilustrações. Os desenhos são de John Howe, canadense de 52 anos responsável pelo dragão e pela montanha de tesouros que atraíram a atenção de Tizzot naquela vez, no aeroporto. Foi Howe quem mais trabalhou com Tolkien – também nos livros O Senhor dos Anéis e Silmarillion.

O primeiro contato, via e-mail, foi desanimador. Tizzot sugeriu criar uma coletânea com imagens do ilustrador, já que “todo mundo comenta o trabalho dele, mas no Brasil não há nada publicado”. Howe respondeu “puxa, obrigado, mas, olha, já há muitos trabalhos desse tipo. E eu também não tenho como selecionar minhas ilustrações agora”.

Insistente, Tizzot enviou outro e-mail. “Então o que você acha de fazermos o seguinte. Você me manda uma imagem e eu escrevo um conto baseado nela”. Dias depois, nova mensagem chegava para o curitibano. “Achei superlegal e diferente. Vamos fazer isso, sim.”

Um cavaleiro de cabelos longos e loiros, espada sobre os ombros, vestindo pesada armadura fazia o primeiro plano; a cabeça de um ser grandioso, cheio de escamas e dentes, uma asa de dragão ao fundo e um castelo mais atrás – em tons azulados – foi o que o escritor viu quando o tão esperado e-mail chegou.

Em uma semana estava pronto “Ereduin”, conto que abre o livro. Foi aprovado pelo ilustrador, que perguntou “e agora, como continuamos?”.

Foram mais oito imagens enviadas – que já estavam prontas – e o livro também chegava a seu fim, depois de dois anos. O acordo feito entre os dois dá uma participação a Howe nas vendas da obra.

“A ideia era criar um universo próprio, como o Tolkien fez. Às vezes batia o olho na imagem e já conseguia identificar alguma coisa do meu universo. Outras, ficava quase um mês olhando aquilo e era difícil sair alguma coisa”, comenta Tizzot. Ou melhor, Estus Daheri – nome do mago presente em seu primeiro livro e também pseudônimo do autor.

Escrever literatura fantástica em forma de conto foi um desafio a mais para Tizzot. Em O Senhor dos Anéis, Tolkien gastou mais de mil páginas para criar um mundo, novos seres, e várias línguas. Para se fazer verossímil, enfim. Com textos condensados em poucas páginas, é preciso que o leitor já esteja habituado ao tipo de literatura presente em A Ira dos Dragões. A linguagem de Tizzot, rápida, descritiva e simples, facilita a imersão na obra.

“É preciso convencer o leitor do que ele está lendo. Se eu escrevo que um personagem X pegou um táxi na esquina e foi comprar bananas, 99% das pessoas já vão entrar naquele mundo. Se eu falo que um personagem x estava em uma cidade desconhecida, pegou uma galadrin e voou até uma ilha, 99% das pessoas vão precisar de mais para poder acreditar e em­­barcar na história”, explica o es­­critor, que comemora o fato de a literatura fantástica ganhar mais público e autores.

“A gran­­de sacada do Tolkien é que ele fez a transição da fantasia do mundo infantil para o mundo adulto. É algo mais denso, mais es­­curo, que os adultos também podem apreciar”, diz.

Hoje, Thiago Tizzot está imerso em cinco livros diferentes. O seu “passatempo” do momento é Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski.
>> CADERNO G – por Cristiano Castilho

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