A ARTE DE ALAN LEE, ILUSTRADOR DE ‘O SENHOR DOS ANÉIS’

Poucas são as glórias reservadas aos artistas que se dedicam à ilustração editorial. Um Norman Rockwell (1894-1978), festejado ilustrador americano, é exemplo raro de alguém que entrou para a cultura iconográfica do seu país e se tornou uma referência obrigatória.

Um outro exemplo, embora noutro patamar, é o de Chesley Bonestell (1888-1986), artista de paisagens astronômicas que produziu pinturas de fundo para filmes clássicos como Destino Lua (1950), When Worlds Collide (1951) e A Guerra dos Mundos (1953), entre outros. Bonestell, que teve um painel exposto no Smithsonial Institution, também apareceu em publicações sobre astronáutica e na capa de livros e revistas de ficção científica – inclusive em alguns números da brasileira Magazine de Ficção Científica, entre 1970 e 71. Seu trabalho visionário inspirou incontáveis entusiastas da conquista espacial, no pós-guerra.

A maioria dos ilustradores, porém, é obrigada a se contentar com um ou outro livro contendo imagens colecionadas ou com dicas da técnica que usa, e ainda com as honrarias limitadas dos seus campos de atuação – e isso se forem áreas editoriais bem organizadas e de prestígio, como a literatura infanto-juvenil ou a de ficção científica e fantasia. Os prêmios Hugo, World Fantasy e Chesley Awards, por exemplo, contemplam as melhores ilustrações de ficção científica e fantasia.

Em fevereiro de 2004, o artista Alan Lee (ganhador de um World Fantasy Award em 1998) se tornou uma dessas figuras da ilustração que se projetam acima dos colegas e além dos campos em que atuam. Ele recebeu um Prêmio Oscar pela Direção de Arte do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (Newline Cinema), para o qual ele e o colega canadense John Howe produziram dezenas de imagens. Ao receber a estatueta, Lee declarou: “Gostaria de agradecer ao verdadeiro mago que nos levou por esta espantosa viagem e que nos inspirou com sua energia, sua visão e a sua coragem. E Peter Jackson, muito, muito obrigado por nos permitir isso”…


Livro de Alan Lee com Brian Froud, publicado no Brasil

Lee nasceu em Harrow, Inglaterra, em 1947, e cresceu em uma região ainda repleta de rios e bosques. Além dessa influência do ambiente, que aparece claramente em suas pinturas de paisagens, ele começou cedo a ler contos de fadas e as obras de escritores de fantasia como J. R. R. Tolkien, Mervyn Peake (autor da trilogia Gormenghast, um clássico da fantasia inglesa) e T. H. White. Sua vontade de seguir a carreira de ilustração também despertou cedo, aos 15 anos. Entre 1966 e 69, estudou design gráfico em Londres, na Ealing School of Art. Mesmo enquanto estudante, seu interesse centrava-se em trabalhos que retratassem mitos celtas e nórdicos. Sua primeira realização mais marcante foi para a Panther Books – seis capas para uma série cômica assinada por Colin Spencer. Esse conjunto de ilustrações lhe permitiu empregar-se em uma agência de artistas editoriais. Sobre esse período, Lee comenta: “Fiz muitas capas e ilustrações ruis para livros de bolso e revistas, antes de perceber que o meu trabalho funcionava melhor se eu não tentasse produzir o que pensava que era esperado de mim – um trabalho altamente realista em acrílico -, e então me voltei para a aquarela, o meio de que sempre gostei mais”. Ele também lembra que desistiu do apoio fotográfico para as suas pinturas, trocando-o por aulas suplementares de anatomia. “Foi provavelmente a experiência educacional mais útil que tive”, diz.

Essas duas decisões são parcialmente responsáveis pelo aspecto único do trabalho de Alan Lee – não há, por um lado, o colorido ostensivo visto na maior parte da ilustração de fantasia, que emprega quase sempre as tintas acrílicas ou a óleo; e por outro não há aquela óbvia presença da referência fotográfica, também muito comum. Os opostos de Lee seriam artistas como Boris Vallejo, Keith Parkinson, Larry Elmore, Dom Maitz e Stephen Youll.

Sua arte se caracteriza pela fineza de traço e pela suavidade das manchas da aquarela, uma tinta diluída em água, e desde cedo se sintonizavam com um contexto mais antigo: “As poucas capas de ficção científica que fiz pareciam ter uma aparência vitoriana antiquada – por isso eu me vi me especializando no século 19 ou até antes”. Esse material incluía obras clássicas da literatura, romances históricos e volumes sobre mitos e contos de fadas. Entre as suas influências estão artistas de grande importância para a ilustração editorial do século 19, como Arthur Rackham (1867-1939) e John Sell Cotman (1782-1842).

Em 1975, Lee e seu colega ilustrador Brian Froud mudaram-se de Londres para Devon, em busca de um maior contato com a natureza e de um ambiente mais inspirador. Depois de fazer um trabalho menor para a Ballantine Books, Lee, juntamente com Froud, foi convidado por essa editora americana a produzir Faeries, livro ilustrado de 1979 que se tornou um enorme sucesso e permitiu que Lee se envolvesse por dois anos com a ilustração de The Mabinogion, coletânea de narrativas galesas compiladas nos séculos 14 e 15 e um favorito pessoal do artista. Em 1982, produziu novas capas para os livros da trilogia Gormenghast, de Peake, outro favorito de sua juventude.

Em 2004 a editora brasileira W11 publicou os dois primeiros livros da série “O Único e Eterno Rei”, A Espada na Pedra e A Rainha do Ar e das Sombras, do escritor inglês T. H. White (1906-1964). Composta por cinco livros, a série foi o principal fator de popularização, no século 20, da chamada “fantasia arturiana” – aquela baseada nas lendas do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. As edições da W11 são aquelas ilustradas por Alan Lee a partir de 1977: trazem elegantes artes de capa, além de ilustrações internas a cores e minuciosas e dinâmicas “iluminuras” abrindo os capítulos.

Nesses livros é possível reconhecer todo o gênio do artista: suas imagens possuem uma força discreta, de composição pouco artificial e cheias de atmosfera, indo do alegre ao tétrico. A sua força peculiar emerge mais das situações e tonalidades dentro das cenas, do que de uma estratégia agressiva de composição e de colorido. Sua qualidade narrativa – a sugestão de haver uma história por trás da imagem – também está presente nas iluminuras, que às vezes parecem resumir a ação dos capítulos.

Sobre a capa de A Espada na Pedra, Lee informa que ele mesmo posou como Merlin, e sua filha “se tornou Arthur, enquanto assistia sentada à televisão”. A técnica usada, em tributo à Arthur Rackham, foi a da pena e nanquim, e aquarela sobre papel. A imagem é rica de elementos e de implicações ao mesmo tempo mágicas e cômicas, em que Merlin parece instruir e abençoar, ao mesmo tempo, o jovem príncipe.

Um dos aspectos mais interessantes de Alan Lee é a sua propensão a desenhar elaborados rabiscos antes e durante a execução de um trabalho. No esboço a lápis de A Espada na Pedra, sobre o qual o artista mais tarde aplicou a arte-final a nanquim e aquarela, a certa altura podia-se ver duas dúzias de rabiscos às margens. Alguns eram estudos de elementos da própria composição, outros sem nada a ver – como homúnculos e mulheres nuas – e havia entre esses até mesmo cenas elaboradas e de iluminação sombria.

Tais rabiscos são expressões da energia criativa do artista. Alguns, de natureza sexual ou grotesca, sugerem que Alan Lee explora o subconsciente como fonte dessa energia (Freud explica). Tudo isso impregna seus trabalhos de uma força sutil, difícil de localizar apenas na composição ou no uso das cores. Por trás da elegância e do lirismo de suas imagens, parece haver um mundo invisível de emoções turbulentas. A verdade é que assim como a literatura de fantasia dá entrada para o inconsciente, o trabalho do seu ilustrador nos leva a olhar por essa mesma janela.

Em 1991, Lee viu publicada suas 50 aquarelas produzidas para uma edição especial da trilogia O Senhor dos Anéis reunida em um único volume, a chamada “edição centenária” da trilogia. Essa tour de force aparentemente o levou à posição de Diretor de Arte da adaptação cinematográfica da trilogia, realizada pelo diretor neozelandês Peter Jackson – que teve a sabedoria de envolver ilustradores de Tolkien no projeto, garantindo assim a continuidade entre a obra do escritor e acadêmico inglês, e a saga no cinema.

Lee, porém, já havia trabalhado antes desenhando para o cinema – colaborou, sempre com muita consistência, com os filmes A Lenda (1983), de Ridley Scott; Erik, o Viking (1989), de Terry Jones; e com a minissérie Merlin (1998), dirigida por Steve Barron.

Para realizar os desenhos de produção de O Senhor dos Anéis, ele enfrentou quase um ano na Nova Zelândia: “A ilustração é um modo sedentário e nada aventuroso de ganhar a vida”, comenta. “Tive uma passagem extensa pela Nova Zelândia, tentando recriar a Terra-Média para os filmes de O Senhor dos Anéis, dirigidos por Peter Jackson. Com John Howe e um grupo de talentosos e energéticos neozelandeses, produzi idéias para auxiliar a interpretação visual da história. Os desenhos são uma referência útil para o diretor, o desenhista de produção e todas as outras mentes profissionais e pragmáticas envolvidas no projeto”. Nem tudo é aproveitado, claro, mas um exemplo é a concepção de Lee para os imensos salões de Moria, vistos em O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel usando uma elaborada técnica de desenho arquitetônico, o artista conseguiu traduzir a grandiosidade da descrição de J. R. R. Tolkien, mais tarde perfeitamente traduzida na tela.

Um esforço que, em sua totalidade, rendeu a Alan Lee o Oscar 2004 de Melhor Direção de Arte.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

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